domingo, junho 26, 2005

Eu é que sou... (Crónica)

Ia adiantado em dias o mês de Dezembro desse ano de 1982. O frio, habitual na época, ainda não se tinha feito sentir, mais um sinal demolidor a descaracterizar o Natal que dois mil anos de cristianismo se tinham esforçado por erguer sobre as festas pagãs do solstício de inverno.

Fiéis à tradição e ao apelo ao consumo, que os mais sofisticados meios de propaganda se esforçam por desenvolver, o casal levava já os subsídios de Natal a caminho da exaustão e ainda faltava contemplar com inutilidades e lembranças alguns parentes e amigos devotados.

Regressavam duma pequena incursão por lojas pejadas de pessoas afadigadas em nada deixarem para outras comprarem. Traziam numerosos sacos, dois filhos, outros tantos guarda-chuvas e a preocupação de terem de voltar a percorrer os mesmos sítios, a observar as mesmas inutilidades, a hesitar de novo, para voltarem sempre à livraria habitual em busca dos livros que receavam terem sido já comprados por amigos que elegeram para destinatários.

A mesa da cozinha desaparecera literalmente sob embrulhos coloridos, um molho de chaves, dois sacos de roupa vindos da creche, uma carteira de melhor qualidade que aspecto, guloseimas diversas e vitualhas.

O miúdo dava corda ao carrinho e usava as cordas vocais para conferir mais rotações ao motor imaginado. Ouviam-se os dois, carro e miúdo, no corredor, numa corrida desenfreada e interminável, sem concorrentes nem meta.

A miúda tinha ficado a dar fé do inventário e a seguir todos os gestos, interessada, a percorrer com o olhar todos os objectos, a ouvir com atenção os desabafos e as conversas dos progenitores.

Por entre a chuva miudinha que continuava a fustigar os vidros da janela adivinhava-se a noite cuja escuridão crescia por entre as luzes da cidade. E o jantar ainda por começar e um último balanço por fazer!

Nisto, a miúda interrompeu a conversa dos pais para dizer:
- Mãe, dá-me um chocolate.
- Agora, não.
- Filha da puta, disse resignada a criança perante a estupefacção e o riso reprimido dos pais. Estes, fingindo não ter ouvido, olhavam cúmplices um para o outro e procuravam o pretexto para retomarem a conversa interrompida e cujo fio de todo se perdera por causa da inopinada expressão tão bem pronunciada num desabafo convicto e convincente. Olharam de soslaio a criança que continuava atenta aos gestos dos pais.

A mãe tinha já arrumado o grosso das encomendas, começara a pôr o jantar ao lume e ameaçara com o banho, para daí a pouco, as crianças. A ordem regressara ao apartamento e a paz aguardava que a chama do gás, os temperos e o tempo propiciassem a refeição.

O pai já mergulhara na leitura do jornal. Enquanto a mãe se desdobrava nas numerosas tarefas domésticas e o irmão continuava a acelerar o motor do carrinho de corda, a menina veio de mansinho por detrás da mãe, puxou-lhe suavemente a saia e disse-lhe com ternura e sincero arrependimento:

– Mãe, tu não és filha da puta. Eu é que sou.

16 Comments:

At domingo jun 26, 10:34:00 da manhã, Anonymous Ricardo Alves said...

Oh carlos E. acho que o titulo deste artigo se aplica integralmente á tua pessoa, só falta completares o memo, isto é, Filho da Puta!

 
At domingo jun 26, 12:58:00 da tarde, Anonymous Carlos Esperança said...

A cobardia de um leitor e o espírito crapuloso vê-se nas atitudes que toma.

Usa o insulto apropriando-se do nome de um excelente amigo por quem tenho uma enorme consideração.

Se esta é a fibra moral dos adversários do PS vê-se com quem pode contar a oposição de direita.

Quanto à sensibilidade, está ao nível do desenvolvimento intelectual.

 
At domingo jun 26, 05:17:00 da tarde, Blogger Mano 69 said...

«A mãe tinha já arrumado o grosso das encomendas, começara a pôr o jantar ao lume e ameaçara com o banho, para daí a pouco, as crianças.»
E o pai de perna traçada a ler o jornal.
Carlos Esperança, esta posta é politicamente incorrecta! Então a mulher é que é sobrecarregada e ainda por cima tem que ouvir um desaforo da gaiata? E ninguém faz nada? Nem um estimulo negativo na miúda?

 
At domingo jun 26, 05:21:00 da tarde, Blogger Mano 69 said...

«Se esta é a fibra moral dos adversários do PS vê-se com quem pode contar a oposição de direita.»

Também não havia nexecidade.
Não é necessário extrapolar a coisa Carlos Esperança.

 
At domingo jun 26, 06:59:00 da tarde, Anonymous Ricardo Alves said...

O se Q.I. não lhe permite compreender que existem "mais marias cá no sitio", além do seu amiguinho com o mesmo nome que eu. Agora considerar isto um ataque ao PS é muita pretensão. Um partido de crápulas, onde pedófilos, curruptos e onde demais fauna esquerdoide se enfia, não merece qualquer atenção que o desprezo de pessoas decentes. Porém sublinho o que anteriormente redigi, e vá lá, tens sorte em não te chamar filho da preta.

 
At domingo jun 26, 08:04:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Carlos, perdoe a quem o chamou flho da p...

É hábito as pessoas frustradas verem nas mães dos outros as características das suas próprias.

 
At domingo jun 26, 08:33:00 da tarde, Anonymous Ricardo Alves said...

Esta solidariedade intra-esquerdistas deixa-me enternecido. Acho que que só a morte do maior traidor da pátria portuguesa, o bochechas, cujo nome recuso-me escrever, me deixará mais comovido. sou mesmo um coração mole.

 
At domingo jun 26, 11:01:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Ao Ricardo Alves:

As pessoas de bem lutam por ideais.

Os esquizofrénicos desejam a morte dos adversários.

Desejar a morte da maior referência viva da democracia portuguesa, o Dr. Mário Soares, não é apenas um am acto de cobardia, revela a formação de um fascista inveterado.

Desejo-lhe longa vida e um sincero arrependimento à hora da morte.

 
At domingo jun 26, 11:47:00 da tarde, Anonymous Ricardo Alves said...

É exactamente pelo traidor do bochechas ser a maior referência da democracia portuguesa que a mesma vale o que vale e que tem como admiradores como voçês, colaboradores da destruição etno-cultural da nação. como tal, para quem promove a destruição da nação não pode haver outro desejo que a morte...por agonia.

 
At segunda jun 27, 12:00:00 da manhã, Anonymous Carlos Esperança said...

Ricardo Alves:

Pode desejar a morte a quem quiser e ofender quem entender. No meu caso é-me indiferente o seu desejo e são inócuos os insultos.

Contava-lhe como Gandi reagia às agressões e como ele tinha pena de quem o agredia, mas duvido de que entendesse.

Quanto ao ódio patológico ao Dr. Mário Soares é um problema seu. Sei que Mário Soares terá um lugar na História enquanto o leitor Ricardo Alves já vai com sorte se arranjar uma vaga da especialidade de que necessita num hospital.

O País votou duas vezes em Mário Soares para PR. Quem não respeita a democracia não se respeita a si próprio nem merece o respeito dos outros.

 
At segunda jun 27, 01:38:00 da manhã, Anonymous desanimado said...

Ricardo Alves é um retornado ressaibiado, como o Delgado. Não liguem. A História não se repete, mas esta gente sempre se comportará assim.

 
At segunda jun 27, 09:06:00 da manhã, Anonymous Emmanuel said...

Perdoi-lhes Pai, porque não sabem o que fazem.
Aos RA deste vale de lágrimas, aos mentecaptos com idade mental de tres anos & Associados.
DesVantagens da Democracia:
Permitir a liberdade de circulação da estupidez, da ignorância e até da cretinice etnográfica.

 
At segunda jun 27, 03:27:00 da tarde, Anonymous solidário said...

Ricardo Alves
Tenho um psiquiatra amigo que lhe pode dar uma ajuda. Não sei se ainda irá a tempo, mas podemos tentar. Se não der, arranjo-lhe um indivíduo que o põe com um "andar diferente". Sempre é uma alternativa para quem anda a espumar.

 
At segunda jun 27, 05:41:00 da tarde, Anonymous Ricardo Alves said...

Eh lá! Parece que os meninos ficaram furiosos por um identitário ter invadido o vosso canto. Quanto ao Carlos (des)esperança, o que posso dizer, não responde a nado do que o questiono, não quer encetar um debate democrático este democrata de pacotilha?!
No que concerne aos restantes solidários com a degradação e decadência de Portugal, só posso confirmar que estaõ assustados por verificarem que os nacionalistas são cada vez mais e não se escondem, e que assuntos de psiquiatria parecem ser do vosso dominio, habituados estão a frequentar os mesmos. já de paneleiriçes, emfim nem todos os esquerdistas são panascas, mas todos os panascas são de esquerda!

 
At terça jun 28, 12:08:00 da manhã, Anonymous Cajó said...

Querido Ricardo Alves
Eu sou como tu. Também pego de empurrão.
Estou à tua espera. Carlos António

 
At sexta abr 27, 01:11:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

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