quarta-feira, agosto 17, 2005

Medicamentos de venda livre

O Governo, este governo, acaba de dar um passo que nenhum outro tinha ousado. Foi ontem publicado no Diário da República o decreto-lei que retira às farmácias a venda exclusiva de medicamentos e que entra em vigor a 16 de Setembro.

Quem não conhece a força das corporações e dos grupos de interesse que dominam o sector, dificilmente poderá avaliar a importância do precedente e o acto de coragem que tal decisão implica.

A chantagem com a saúde pública vai ao ponto de assustar com riscos terríveis a venda de produtos, que não carecem de receita médica, sem que um farmacêutico tenha uma conversa prévia com o cliente, para eventualmente tentar dissuadi-lo da compra.

Recentemente a comunicação social noticiou a venda de duas farmácias por preços de 5 e 7 milhões de euros, respectivamente (em moeda antiga, 1 e 1,4 milhões de contos). Vale a pena escrever por extenso «1.000.000.000$00 e «1.400.000.000$00».

Isto é quanto vale o alvará de uma farmácia – o valor bruto das vendas anuais a multiplicar por 2 – um poder imenso que a Associação Nacional de Farmácias controla, um absurdo que se deve à não liberalização do sector.

Alguém aceitaria que o dono de um talho só pudesse ser um veterinário? Mas o dono de uma farmácia só pode ser um farmacêutico. Um laboratório farmacêutico ou de análises, um consultório médico ou um hospital pode ser propriedade de qualquer cidadão ou empresa. Uma farmácia só pode pertencer a um farmacêutico. Com que justificação?

Esperemos que este pequeno passo seja o início do caminho que conduza à liberalização do comércio farmacêutico, uma decisão que terá ferozes opositores em vários partidos.

7 Comments:

At quinta ago 18, 12:50:00 da manhã, Anonymous desanimado said...

Estou de acordo com a medida, mas não baralhe quem lê com essa da propriedade. Tenho muita pena, por exemplo, que os orgãos de Comunicação Social possam ser propriedade de qualquer um e não só de profissionais da Comunicação. Entende o que quero dizer ?

 
At quinta ago 18, 01:26:00 da manhã, Anonymous Carlos Esperança said...

Desanimado:

Entendo o que diz, mas discordo.

A minha discordância não é, contudo, radical.

O facto de Belmiro de Azevedo ser dono do «Público» não impediu que tivesse fases de excelente jornalismo.

O facto da Impresa ser uma empresa de comunicação social e Balsemão um velho jornalista e um democrata, não impediu nem impede que tenha maus produtos no mercado.

Veja como o Expresso se degrada.

Interessa-me mais o livro de estilo e o CV dos jornalistas do que a profissão do proprietário.

Reconheço, no entanto, que empresas vocacionadas para a comunicação têm uma sensibilidade mais apurada mas, em última análise, o dinheiro comanda a informação.

 
At quinta ago 18, 10:00:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

A questão da propriedade pouco importa, veja-se quem são os donos dos principais órgãos de comunicação social, e a isenção que mantêm, o exemplo do Belmiro de Azevedo que CE deu e lembrava ainda o Balsemão com o grupo Impresa. A questão coloca-se quando a propriedade e a direcção estão sobre a mesma pessoa, veja-se por exemplo os dois diários da nossa cidade, As Beiras e Diário de Coimbra cujos donos são directores e simultaneamente construtores civis. Ao longo dos últimos anos tem-se verificado uma colagem ao poder que até enjoa.

Quanto à questão dos medicamentos à venda fora das farmácias, é sem dúvida um passo positivo, e só espero que seja a primeiro de tantos outros que aguardamos e tardam em ser dados devidos aos interesses instalados.

 
At quinta ago 18, 03:13:00 da tarde, Anonymous desanimado said...

Conseguiremos sempre encontrar situações que garantem que os proprietários sabem o que é melhor para o seu público (consumidores). No entanto, a atracção pelo lucro é sempre muito forte e perigosa. No caso dos OCS, a direcção também tem que responder aos interesses dos proprietários. Nas farmácias, poderá acontecer o mesmo. É um campo perigoso. Mas friso que a medida de retirar a exclusividade às farmacias na venda de medicamentos sem obrigatoriedade de prescrição médica, pode ser positiva para os consumidores. Garanto-lhe, no entanto, que quem apreciará mais esta medida serão as multinacionais produtoras de medicamentos do género da Aspirina, etc etc ... Digamos que o governo teve coragem para afrontar o lobby das farmácias, mas conta com aliados de peso !

 
At quinta ago 18, 04:40:00 da tarde, Anonymous Carlos Esperança said...

Caros leitores:

Por estranho que pareça, a APIFARMA (Associação dos laboratórios que comercializam os fármacos) apesar da força do capitalismo internacional e da indústria farmacêutica é muito menos poderosa do que a ANF.

Desde os tempos de Costa Freire que se tornou uma poderosa instituição manobrada com mão de ferro pelo Dr. João Cordeiro.

Não me perguntem se financiou partidos políticos. Não sei responder. Mas não me admirava que o tivesse feito.

Há uma protecção de que goza a ANF e uma força política excessiva que sempre me pareceu suspeita.

Uma conversa entre dois farmacêuticos meus amigos, à minha frente:

«Votas no bastonário do João Cordeiro ou no outro?» (Já lá vão vários anos.

 
At terça mar 06, 07:19:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

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At quarta abr 25, 04:35:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

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