segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Notas soltas - Fevereiro/2005

Iraque - As eleições, apesar de anómalas, foram uma vitória de Bush, mas o ayatollah Ali al Sistani vai exigir o fim da ocupação e adiar a democracia. O clérigo xiita, da democracia, só conhece o Corão e o exemplo iraniano.

Campanha eleitoral – Santana Lopes será recordado como uma espécie de Átila que arrasou o Governo, o PSD e a decência. Por questão de assepsia, os barões faltaram à chamada e abandonaram-no na campanha e na hecatombe eleitoral.

Nobre Guedes - O ministro do Ambiente incitou a população de Coimbra a barrar a entrada de Sócrates na cidade. Quem diria que entre a esquerda mais extrema e a direita mais arqueológica há afinidades e coincidências insuspeitáveis!?

Médio Oriente - Há nos processos de paz na Terra Santa uma trágica maldição que os conduz ao fracasso. Saúde-se a última trégua. Depois de dez fracassos, Israel e a Palestina bem merecem o cessar-fogo e o fim da Intifada.

Padre Lereno - Tal como os mullahs islâmicos, o pároco da Igreja de S. João de Brito, em Lisboa, deu indicação explícita de voto aos fiéis, durante uma homilia. Há penas de prisão e multa para o crime, mas só a derrota eleitoral o castigou.

Manuel Monteiro – Nem o país é tão reaccionário como pensa, nem faz a falta que julga, nem tem o futuro que imagina. Ainda vem longe a convulsão que altere de forma radical o espectro eleitoral. Desapareceu em campanha.

Fátima – A morte da Irmã Lúcia comoveu os católicos. O aproveitamento político e a declaração de luto nacional foram actos indignos de um país laico, que não beneficiam a religião nem prestigiam as instituições democráticas.

Resultados eleitorais – A retumbante vitória da esquerda, com especial destaque para Sócrates e o PS, e a confrangedora derrota do PPD e do CDS arruinaram o projecto populista e demagógico que estava em marcha.

Jorge Sampaio – Foi um dos grandes vencedores. Depois de ter despedido o governo, por incompetência, salvou-o da retaliação enraivecida o sufrágio dos eleitores que referendaram nas urnas a bondade da decisão.

António Guterres – Após três anos de ataques constantes, dentro e fora do PS, assistiu à vitória esmagadora do candidato que sempre assumiu a sua herança. Afinal, a fuga de que se falou foi um acto de dignidade e de desapego ao poder.

Paulo Portas – Foi civilizado e arguto a assumir a derrota. Pediu a Deus que lhe «fizesse ver o tempo em que devia sair» - segundo declarou. Pena foi que não se tivesse aconselhado antes de entrar.

Durão Barroso – Foi ele e o seu Governo que foram severamente derrotados – o péssimo desempenho, a deserção para Bruxelas, a imposição de Santana e a participação na campanha, como Presidente da UE.

PSD – As personalidades que desertaram, por horror a Santana Lopes, têm agora a tarefa de proceder a uma enorme desinfecção para que o PSD volte a ser um local bem frequentado, com sentido de Estado e capaz de ser alternativa ao PS.

PCP – Mudou de líder, disputou eleições, aumentou a votação e a representação parlamentar. Ao passar para terceiro maior partido, humilhou o CDS e consolidou a liderança de Jerónimo de Sousa.

Bloco de Esquerda – Ficou a menos de 1% dos eleitores do CDS, passou de 3 para 8 deputados, atingiu uma honrosa dimensão parlamentar e averbou um retumbante sucesso.

Espanha – A vitória expressiva do SIM, no referendo à Constituição Europeia, apesar da abstenção acentuada, mostra a firmeza e determinação dos espanhóis na construção e aprofundamento da União Europeia.

Marques Mendes – Após o naufrágio eleitoral, avançou para a liderança do PSD. Foi dos poucos que se opôs à indigitação de Santana Lopes para primeiro-ministro e o único com coragem para contestar a unanimidade do Conselho Nacional que o ungiu.

Sondagens – As empresas são cada vez mais fiáveis. Face aos resultados, a PSL, que tanto demorou a perceber a dimensão da derrota, resta-lhe processar o eleitorado pela forma como votou.

Nuno Álvares Pereira – Como previsto pelas Notas Soltas, não demorou a fazer milagres. A cura do olho esquerdo, queimado com óleo fervente, (inexplicável, segundo a Igreja), fez de uma mulher de Ourém o veículo para a sua canonização.

João Paulo II – A lenta e dolorosa agonia do Papa confrange e choca as pessoas sensíveis. Quem exibe e explora o martírio de um papa moribundo não pode sentir piedade pelo calvário do seu Deus.

RTP-1 – No regresso aos comentários, Marcelo não perdeu tempo a promover a candidatura de Cavaco à Presidência, em detrimento de Guterres. No canal público há regras de isenção e obrigações de pluralismo constitucionalmente consagradas.

Monumento ao 25 de Abril em Almeida – As explicações do IPPAR tardam. A comissão saberá tirar ilações e prestará contas ao povo de Almeida.

Cuidado com as constipações


A temperatura vai continuar a descer esta noite.Mau tempo tem feito estragos por todo o país. Posted by Hello

A Sucessão no PSD

A marcação de um Congresso Extraordinário para eleger um novo líder para o PPD/PSD é a consequência natural do resultado negativo da gestão imprimida por Santana Lopes no seu partido e no País.
Até aí tudo normal.
O que já acho muito estranho, se não quiser dizer sintomático da forma como algum PPD/PSD vê o exercício do poder, é que a maioria das distritais se afirmem agora como "Mendistas", ou seja, apoiantes de Marques Mendes.
É assustador verificar que muitos dos destacados militantes daquele partido que há bem poucos meses assobiavam e acusavam Marques Mendes de não ter perfil para liderar o partido sejam agora os principais apoiantes dessa liderança.
Se numa visão rapida parece ser sina, nesse partido, que os derrotados num congresso sejam líderes no congresso seguinte, sempre com o apoio dos mesmos, o que se pode afirmar é que o PPD/PSD é um partido sem ideologia, atenta essa lógica. O poder pelo poder, contem-se as cabeças e decida-se a liderança. Projectos... o poder é suficiente.
Por isso, acho que estamos a assistir ao nascimento do sucessor de Marques Mendes no PPD/PSD. Chama-se Luis Filipe Meneses. Seguindo a lógica do derrotado hoje ser vencedor amanhã. Basta esperar.
Felizmente para José Socrates.

Uma baixa de peso

«Agora estão outros no circo e não contem comigo para números de trapézio»
(Alberto João Jardim, Lusa, 27-02-05, citado pelo «Público»)
Teme ver os seus espectáculos às moscas.

Pedro Dias regressa à Universidade de Coimbra

Em 26 de Fevereiro de 2004, num texto publicado no «Diário as Beiras» escrevi, entre outras coisas, o seguinte:

Lamento que o futuro director-geral da Torre do Tombo, Dr. Pedro Dias, tenha declarado em conferência de imprensa de 20 de Janeiro que «...os intelectuais quando não são de esquerda ou não têm outras características têm grande dificuldade. Sendo de Direita e heterossexual, tive grande dificuldade». Perante tal dislate ficámos a saber que em anteriores governos (Guterres, Cavaco e outros) para ocupar certos lugares não era necessário ser «de Direita e heterossexual». Agora é suficiente – como se vê.

Na revista «Actual», Expresso, 26 de Fevereiro, Pedro Dias anuncia que vai pedir a demissão de «Director do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo», por ser militante do PSD e o lugar ser político, e que volta à Universidade de Coimbra. Lamenta, entretanto, que «o essencial» tenha ficado por fazer, reconhecendo que «devido à falta de verbas» deixou a instituição numa situação «catastrófica».

Não é apenas o IAN/TT que se encontra numa situação catastrófica. É o País.

domingo, fevereiro 27, 2005

RTP – 1 e tempo de antena.

Começaram hoje as brandas «conversas em família» de Marcelo Rebelo de Sousa. O excelente comunicador, enquanto falou com Ana Sousa Dias sobre numerosos temas, limitou-se a beliscar Guterres e a fazer a apologia de Cavaco e Silva como o melhor candidato do centro e da direita para a presidência da República.

Como perguntou, há tempos, Vital Moreira no «Causa Nossa» num artigo intitulado «A RTP pode tomar partido?», assunto a que voltou noutro artigo com o mesmo nome (2), defendeu que a RTP, como órgão de serviço público está constitucionalmente obrigado a «assegurar o pluralismo da opinião política», «a observar o princípio da imparcialidade política» e a não permitir «tempos de antena furtivos».

Ora, MRS é um destacado militante do PSD, de que já foi presidente, e declarado promotor da candidatura de Cavaco e Silva, com forte empenhamento. Se juntarmos ainda a contratação feita à sorrelfa de António Barreto cujo ressentimento com o PS e a patológica animosidade com o Eng. Guterres são bem conhecidos, como conseguirá a RTP assegurar o pluralismo e manter a imparcialidade política a que é obrigada.

O primeiro «tempo de antena furtivo» para que alerta Vital Moreira começou hoje. Não aceitando a mais leve tentativa de censura, também não posso condescender com a propaganda que rompa o equilíbrio a que o mais importante órgão de serviço público é obrigado. É tão detestável e canhestro fazer da RTP num órgão de propaganda governamental como transformá-la num instrumento da oposição de direita.

Presidenciais II (na sequência da intervenção de Carlos Esperança)

A Direita portuguesa convive mal, desde há 30 anos, com a questão Presidencial.
Na verdade, nunca conseguiram eleger um Presidente e não me parece que o consigam nos próximos 10 anos.
E, perguntemos, porque será?
Será que a população portuguesa é maioritariamente de esquerda? A ser assim, a esquerda perde frequentemente nos outros embates (legislativas e autárquicas) por ser, por definição, plural e dividida?

Será porque a Direita portuguesa é demasiado à Direita?
Esta é uma hipótese de trabalho que merecia alguma atenção. Na verdade, o trágico Governo Durão-Portas-Leite-Santana contituirá um “epifenómeno” da Direita portuguesa? Ou será apenas mais um episódio que se seguiu à saga AD-Cavaco e que tem deixado marcas, algumas bem negativas, na sociedade e na economia portuguesas?
Será que AD e Cavaco eram de “centro-esquerda” como agora alguns pretendem fazer crer? Será a governação das dezenas de Câmaras Municipais por parte de autarcas do PSD uma governação centrista ou de centro-esqueda? Haverá sequer verdadeiros democratas-cristãos em Portugal?
Parece-me que não!
Olhemos para o património da democracia-cristã da Alemanha de Adenauer ou Kohl ou mesmo da França e concluiremos que não.
E é esse o drama da Direita portuguesa: é talvez das mais reaccionárias e ideologicamente menos preparadas da Europa. E num embate que se disputa ombro a ombro como as Presidenciais, o “sprint” final exige uma forte mobilização de base ideológica, mas também abertura ao centro político. E o centro tem sido captado, nestes confrontos, pela esquerda. Foi assim, sem dúvida com Soares e com Sampaio.

Quanto às eleições que terão lugar daqui a 10 meses… A esquerda tem neste momento, pelo menos, 10 pontos de vantagem.
Conseguirá o candidato da esquerda perder 1 ponto por mês?!

Estou convicto que, deste lado, aparecerá alguém com o estatuto intelectual, moral e cívico para ser o “Presidente de todos os portugueses”.

Santana Lopes abandona a liderança

De futuro ouvir-se-á falar menos em PPD/PSD, um partido que PSL conduziu a uma derrota histórica.
De futuro será, de novo, o PSD à procura de um Presidente, um Governo e uma Maioria, a fazer esquecer o radicalismo de direita e a evitar as más companhias com que Durão Barroso formou o Governo donde desertou.

Apostila - Não foi a dimensão da derrota do PSD que surpreendeu, o que assusta é a quantidade de pessoas capaz de votar em Santana Lopes.

sábado, fevereiro 26, 2005

Faleceu o fundador da Amnistia Internacional

Peter Benenson foi um filantropo e um cidadão cuja consciência cívica o levou a denunciar a tortura, a prepotência e as arbitrariedades cometidas por numerosos Governos um pouco por todo o mundo.

Em 1961 fundou a Amnistia Internacional (AI) na sequência da leitura de um artigo relativo à prisão de dois estudantes que tinham feito um brinde à liberdade, em Lisboa.
A humanização das prisões, a diminuição das práticas da tortura e a redução do número de campos de morte que envergonham e ferem, são conquistas que devem muito à vigilância e à denúncia oportuna da AI.

Os direitos humanos, o seu aprofundamento e divulgação, devem muito a este judeu de origem russa, que estudou direito na Universidade de Oxford e faleceu ontem com 83 anos.

Eleições presidenciais

O «Expresso» de hoje dedica a página 8, da responsabilidade de Mário Ramires, sob o título Achados & Perdidos, a enunciar os vencedores e os vencidos das últimas eleições legislativas colocando entre os primeiros Cavaco e Silva e, entre os últimos, António Guterres.

Nem o facto de o eleitorado ter respondido SIM, de forma esmagadora, à pergunta dos cartazes do PSD, se queriam o regresso dos ministros de Guterres, convenceu o Expresso a incluí-lo na lista dos vencedores. Nem o facto de ter feito campanha ao lado de José Sócrates. Nem a circunstância de este ter assumido com orgulho a sua herança na disputa da liderança do PS e no confronto eleitoral. Nem a preparação e a postura cívica difíceis de igualar.

Sem menosprezar a volubilidade do eleitorado, a esta distância, é surpreendente que se dê como derrotado quem integra a esquerda, que averbou 60% dos sufrágios expressos, e se assuma como vencedor quem se situa nos 40% onde o ódio e ressentimento pelo desprezo a que Cavaco votou o PSD se equilibram com a perplexidade e a raiva que os militantes sentem pela deriva populista e reaccionária que conduziu o partido ao abismo eleitoral.

Há todavia uma razão importante para temer a vitória presidencial de Cavaco, razão que o próprio talvez não mereça, mas com que um dos mais inveterados cavaquistas - Vasco Graça Moura - acaba de ameaçar. Vem no «Público» de 4.ª feira, dia 23, e vale a pena transcrever:

«Pelos vistos há quem não consiga entender que Cavaco Silva, a aceitar candidatar-se, é o único que está em condições de bater um candidato patrocinado pela esquerda, o único que terá a possibilidade de impor algum rigor ao Governo socialista e também o único que não se ensaiará nada em dissolver o Parlamento logo que este e o Governo começarem a asnear (e não será preciso esperar muito...), para mais confortado com o precedente aberto por Jorge Sampaio».

Entre um Presidente que seja o árbitro e outro que seja o algoz de uma maioria, acicatado pelo ressentimento dos derrotados, é altura da esquerda reflectir sobre o que convém. E nunca os interesses da esquerda se identificaram tanto com os interesses de Portugal e dos portugueses. É a opção entre a estabilidade e o ajuste de contas.

Axioma

«Durão Barroso governou mal! É preciso dizer isto. Durão Barroso mentiu aos portugueses».
(Luís Delgado - SIC-Notícias, 22-3-05, citado pelo «Expresso»)

Foi o comissário político da direita mais retrógrada e último almocreve do santanismo que revelou o que toda a gente sabia e a coligação PPD/PSD/CDS/PP se esforçou por negar.

Ponte Europa

Ponte Europa não é um novo blogue, é a continuação do «VERITAS» que muda de nome com outro dinamismo e colaboração mais variada e assídua.
O nome «Ponte Europa» é uma homenagem à obra de arquitectura que, pela sua beleza e funcionalidade, honra Coimbra e todos os que a tornaram possível.
A mudança de nome foi um acto de acinte, uma infeliz provocação de quem, não tendo projectos, se diverte a alterar a toponímia.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Uma experiência de sucesso

"Até amanhã, Camaradas!"

Este é talvez o momento de afirmar bem alto que também nós estamos em luta, como outros no seu tempo.
A nossa luta é já não pela conquista das liberdades mínimas, mas pela concretização do progresso cultural e humano da sociedade portuguesa.
Por isso, esta nossa experiência, recorrendo às novas tecnologias, é um exercício de cidadania.
Se no século XIX abundavam os panfletos, os boletins e as gazetas, agora temos os blogs, que com economia de tempo e recursos, nos permitem manter uma comunicação permanente e actualizada.
Acredito que temos condições de fazer desta experiência, um verdadeiro sucesso!

Bom dia!
André Pereira