terça-feira, março 20, 2007

Aquilino entra no Panteão


Aquilino entra no Panteão

A Assembleia da República vai criar uma comissão para definir a data e orientar a transladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional, publicou o Diário da República. O escritor está sepultado no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
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Aquilino é um mestre da língua portuguesa. Sem ele, sem Vieira, Bernardes ou frei Luís de Sousa não teríamos hoje Saramago, o Nobel do nosso contentamento.

Aquilino não foi apenas um grande paladino da língua portuguesa, foi um exemplo de revolucionário e um combatente da liberdade.

Do seu empenhamento cívico e da fecundidade do escritor ficou um património que tem sido votado ao esquecimento. Recordar Aquilino é dever, homenageá-lo uma obrigação e lê-lo uma necessidade.

Há um compromisso que os portugueses deviam assumir: conhecer o Malhadinhas, Terras do Demo e Quando os Lobos Uivam. Depois, partiriam, para uma viagem mais exaustiva à Beira e visitavam o meio rural português através das páginas de um mestre que cultivou a língua com a ternura de um amante e a profundidade de um filólogo.

Aquilino Ribeiro é um escritor quer mergulhou na alma do povo e lhe bebeu as palavras para nos dar a riqueza de uma escrita ímpar de raiz eminentemente popular.

E não lhe faltou tempo para as conspirações políticas, o exílio e as perseguições de que foram vítimas todos os homens ilustres e cidadãos de carácter que viveram a ditadura.

Homenagear Aquilino é um desafio para mergulhar na sua vasta obra e fruir a prosa singular que a exorna.

3 Comments:

At terça mar 20, 11:07:00 da manhã, Blogger e-pá! said...

Um homem da escrita rústica e erudita, difícil de ler, mas um inegável e marcante vulto da literatura portuguesa.

Um homem que aliou a escrita a uma fecunda participação política e cívica. Um indeflectível resistente à ditadura salazarista.

Tem pleno mérito para entrar no campo dos "imortais", como deveria ser, o Panteão Nacional.

 
At terça mar 20, 11:44:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

AQUILINO RIBEIRO.

“... Que importa a morte, se na vida houver uns segundos de amor satisfeito?.

“PRÍNCIPES de PORTUGAL, suas grandezas e misérias”

Aquilino, é o escritor que continuo a ler. Tenho gostado, porque utiliza expressões que eu ouvia falar na minha infância e que eram características das pessoas do campo. Aquilino é terra a terra. Não vou falar de Aquilino do ponto de vista técnico como escritor, correntes literárias e coisas assim. Vou falar do conteúdo da obra, mais propriamente, dos costume das épocas.

No seu livro “PRÍNCIPES de PORTUGAL, suas grandezas e misérias”, retirei algumas notas que considero muito interessantes.
O homem antigo era um guerreiro por natureza. A guerra era uma das suas principais actividades. Fiquei a saber que o primeiro requisito que este homem, contemporâneo dos Lusitanos, exigia do seu tugúrio era esta situação desassombrada: vistas largas, terra escampa, caminhos descobertos...

Aqueles nossos longínquos antepassados, quando não andavam a ferro e fogo, viviam em guerra lassa uns com os outros. Os sinais de guerra eram tantos, que em Trás-os- Montes, existe um castro chamado do Mau Vizinho, que pode ter-se como paradigma. No tempo dos Lusitanos, pilhar o vizinho era virtude e não crime. A palavra Viriato, nome do seu chefe, quer dizer investido com as virias. Viriato era genro de Astoplas e parece que as riquezas do sogro o não seduziram e, encostado à lança, olhava para elas como coisas caducas no jogo de azar que é a vida, mormente para o homem de guerra. E dizia-se nesse tempo: “Ala deu ao homem a palavra para esconder o seu pensamento”.

Quanto a D. Isabel, esposa de D. Diniz, refere-se nesta obra:-“ Isabel mandou abrir os celeiros reais e encomendou aos mercadores estrangeiros trigo a todo o preço. Como nessa conjura fosse até empenhar as jóias, os oficiais de sua Casa observaram-lhe: “Repare, senhora, amanhã terá fome em seu palácio....”

D. Pedro I, pelos vistos, não sabia ler nem escrever. No seu reinado, eclesiásticos de todas as ordens viviam maritalmente com mulheres e os priores, em cada terra por onde passavam, punham um filho como o cuco. Sobre os Padres, aliás, diz uma personagem de Aquilino, que são uma grandessíssima corja de calaceiros e de velhacos e só andam no mundo para sugar o sangue do pobre. Apesar disso, há também padres desse tempo que são honrados pais de família a quem ninguém pede contas de tal humanidade.

No reinado de D. Manuel tirava-se ainda a comida das prateleiras e almofias com os cinco dedos e para limpar as mãos enlabuzadas lá estavam à beira dos convivas os alões, podengos e fradilqueiros de pêlo felpudo.

Ao tempo, o conceito de Pátria era diferente do de hoje. A Pátria, na primeiras dinastias era o Príncipe.

O mundo é incurável; só há-de ser curado quando estiver na agonia, quando perto da conjugação máxima das orbes correr já errante em rota não sua.

Aquilino, sempre.
Zézé

 
At terça mar 20, 08:06:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Confesso que preferia 'Portas ao panteão, com mais alguns espantalhos pela mão'!!!
Como isso dá pouco jeito,
e uma vez que o mestre Aquilino já cá não anda,
acho bem. Aquilino ao panteão!
E o e-pá (que nisso não andará sozinho!) só acha o Aquilino difícil de ler, porque não cresceu a ouvir a minha avó falar. Está lá tudo.
De resto, e ressalvando opinião de melhor base, o principal feito literário de Aquilino foi ter dado voz a uma regionalidade e a uma cultura especificamente localizadas. Que já não existem há muito, e assim se mantêm em muitas das suas páginas.
Pessoalmente, o que mais reverencio é a sua costela de anarca reviralho e assumido, sem mesuras de circunstância.

 

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