segunda-feira, maio 31, 2010

"Pirataria" no Mediterrâneo Oriental?

navio do comboio humanitário para Gaza [foto: guardian.co.uk]

video da TeleSUR:

http://www.telesurtv.net/noticias/secciones/nota/player.php?ckl=72801

voz: Hisham Wannous, correspondente em Damasco [Síria]

O representante da Grã-Bretanha no CS da ONU - Mark Lyall Grant - à entrada da reunião de hoje, afirmou: "Está mais claro do que nunca que as restrições israelenses ao acesso a Gaza têm de ser levantadas, tal como exige a resolução 1860 do Conselho de Segurança"...

Alejandro Wolff, embaixador adjunto dos Estados Unidos - tradicional aliado de Israel - nas Nações Unidas, disse: "Vamos continuar pedindo diariamente aos israelenses que ampliem o espectro de bens e víveres autorizados a entrar em Gaza, para atender toda a gama de necessidades humanitárias da população"...

Previsão: Israel deverá sair desta reunião com uma "reprimenda", nunca condenado...

Momento zen de segunda_31-05-10


Tudo indica que João César das Neves (JCN) esteve demasiado tempo mergulhado em água benta quando lhe impuseram o baptismo e que a substância não identificada que altera a água normal passou a barreira hematoencefálica do neófito.

Na homilia de hoje, em que a assinatura de Cavaco Silva surge no Diário da República a promulgar a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, atitude que só o nobilita, JCN ameaça-nos, num excesso de raiva, com o modelo chinês para substituir as democracias ocidentais. Ninguém diga ao bem-aventurado que a China foi o país que tornou o aborto obrigatório quando ele nunca se conformou que deixassem de prender as mulheres que o praticam, às vezes em circunstâncias dramáticas.

Ao PR compara-o a Pilatos, à maioria da AR chama «um grupito de deputados» e à decisão que garante direitos individuais e fazia parte de compromissos eleitorais que os eleitores sufragaram, acusa-a de ter mudado a definição de casamento quando apenas integrou os que excluía por mero preconceito beato.

JCN, que apenas considera legítimo o acto sexual para a reprodução, afirma que esta lei se insere numa «vasta campanha de promoção do erotismo, promiscuidade e depravação a que se tem assistido nos últimos anos». Não vale a pena discutir com JCN porque é uma inspiração divina igual á que o leva a acreditar que Nuno Álvares Pereira curou o olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos ferventes de óleo de fritar peixe.

Anda tão desnorteado o bem-aventurado que julga haver na AR deputados capazes de «apoiar coisas abstrusas, como a proibição de touradas ou rojões, imposição da ordenação sacerdotal de mulheres ou a obrigatoriedade de purificadores atmosféricos».

Dentro do espírito marialva de JCN, a defesa das touradas tem a mesma legitimidade dos rojões».

Enfim, a água benta deu-lhe cabo dos neurónios e eu, que não a distingo da outra, não posso provar os malefícios que um sinal cabalístico faz à água normal.

Amem.

Nova crise no Médio Oriente...

navios da armada israelita

Forças armadas israelitas atacaram - em águas internacionais como já reconheceu Netanyahu - um comboio naval humanitário que se dirigia para Gaza, integrando 750 pessoas.

A violência desmesurada de mais este ataque provocou a indignação do Mundo e causou pelo menos 10 mortes e algumas dezenas de feridos.

Em conferência de imprensa - realizada na sequência deste grave incidente - o governo de Telaviv reconheceu que existe um efectivo bloqueio a Gaza, justificado pela "segurança de Israel".

Até quando a "segurança de Israel" servirá para justificar desproporcionadas acções belicistas das forças armadas israelitas?

Hoje, para deliberar sobre este assunto reune-se, de emergência, o Conselho de Segurança da ONU.

Entretanto, as autoridades israelitas, promoveram no local de acolhimento do destroçado comboio humanitário, um "black out" informativo...

Pergunta: Israel está acima do Direito Internacional e fora do alcance das resoluções do CS da ONU?

COIMBRA - C O N V I T E

Cavaco Silva deixa o nome ligado a um avanço civilizacional

Diário da República, 1.ª série — N.º 105 — 31 de Maio de 2010 1853

Lei n.º 9/2010 de 31 de Maio

Permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo

A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, o seguinte:

Artigo 1.º

Objecto

A presente lei permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

Artigo 2.º

Alterações ao regime do casamento

Os artigos 1577.º, 1591.º e 1690.º do Código Civil passam a ter a seguinte redacção:

«Artigo 1577.º

[...]

Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.

Artigo 1591.º

[…]

O contrato pelo qual, a título de esponsais, desposórios ou qualquer outro, duas pessoas se comprometem a contrair matrimónio não dá direito a exigir a celebração do casamento, nem a reclamar, na falta de cumprimento, outras indemnizações que não sejam as previstas no
artigo 1594.º, mesmo quando resultantes de cláusula penal.

Artigo 1690.º

[…]

1 — Qualquer dos cônjuges tem legitimidade para contrair dívidas sem o consentimento do outro.
2 — . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .»

Artigo 3.º

Adopção

1 — As alterações introduzidas pela presente lei não implicam a admissibilidade legal da adopção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo.

2 — Nenhuma disposição legal em matéria de adopção pode ser interpretada em sentido contrário ao disposto no número anterior.

Artigo 4.º

Norma revogatória

É revogada a alínea e) do artigo 1628.º do Código Civil.

Artigo 5.º

Disposição final

Todas as disposições legais relativas ao casamento e seus efeitos devem ser interpretadas à luz da presente lei, independentemente do género dos cônjuges, sem prejuízodo disposto no artigo 3.º

Aprovada em 11 de Fevereiro de 2010.

O Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.

Promulgada em 17 de Maio de 2010.

Publique -se.

O Presidente da República, ANÍBAL CAVACO SILVA.

Referendada em 18 de Maio de 2010.

O Primeiro -Ministro, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

Celibato tridentino: companheiras de padres católicos escrevem ao papa!


O jornal católico Il Dialogo [28.Maio.2010] publicou uma “carta aberta” subscrita por cerca de 4 dezenas de companheiras de padres católicos, dirigida a Bento XVI, questionando a cada vez mais polémica manutenção - no seio da ICAR – da regra do celibato dos eclesiásticos.
link

Em Março passado, o arcebispo de Viena, cardeal Schonborn, defendeu que a abolição da regra do celibato poderia limitar abusos sexuais no interior da Igreja.
Contudo, Bento XVI, foi peremptório no rejeitar desta pretensão. Relembrou, na ocasião, a sua fidelidade ao "princípio sagrado do celibato"...

As mulheres de actuais padres católicos resolveram – então - escrever uma carta aberta ao papa, relembrando que o chefe da Igreja pretende conferir um carácter sagrado a uma situação que, historicamente, não o é.
Na verdade – como defendem as companheiras de padres - o celibato dos eclesiásticos é uma regra [não será para estas crentes um “sacramento”], elaborada por homens, mais concretamente, no concílio de Trento [séc. XVI] …
Na realidade, a verdade histórica revela que nenhuma das religiões monoteístas – excepto a católica - adoptou a "regra do celibato"…

Aguardemos, pois, a resposta [ou a mais provável “não-resposta”] do Vaticano a esta oportuna missiva…

Notas soltas: Maio/2010

1.º de Maio – Tudo se conjugou para transformar a festa dos trabalhadores num pesadelo que a crise aprofundou, com desemprego, precariedade e redução dos salários reais num clima de incerteza e de medo.

Força Aérea – O Plano de Defesa Aérea para a visita de Bento XVI, com uma zona de interdição para abater qualquer intruso que apareça no céu, afigura-se um excesso para quem corre mais riscos no Vaticano do que na visita a Portugal.

Helmut Kohl – O velho chanceler alemão, homenageado no 80.º aniversário, foi um grande estadista do século XX e dos mais empenhados europeístas num espaço de solidariedade política, económica e social. Não esqueceu a guerra.

Reino Unido – A ausência de uma maioria clara colocou o país pela primeira vez, em muitos anos, com um governo de coligação e incertezas políticas quanto ao cumprimento da legislatura.

8 de Maio – No dia em que os nazis se renderam aos exércitos aliados, e findou o mais cruel e demente plano genocida dos tempos modernos, parece esquecida a data e o pesadelo que custou a vida de milhões de pessoas vítimas do racismo e da xenofobia.

Pílula – Em 9 de Maio de 1960 as autoridades americanas aprovaram o uso que permitiu às mulheres investirem na formação e apostarem numa carreira profissional. Há 50 anos este milagre da ciência mudou radicalmente a vida de milhões de mulheres e abriu as portas à igualdade de género.

Tolerância de ponto – O oportunismo e o carácter terceiro-mundista da decisão é a metáfora do estado a que chegou o respeito pela laicidade do Estado, pela ética e pela Constituição da República, em época de crise económica de contornos assustadores.

Bento XVI – São conhecidas as posições da Igreja católica sobre o aborto e os casamentos homossexuais mas aproveitar a visita para condenar as decisões soberanas do país anfitrião é uma atitude de quem julga viajar num protectorado.

Baltasar Garzón – O Conselho Geral do Poder Judicial (CJPJ) suspendeu o juiz por investigar assassinatos franquistas. O CJPJ decidiu manter a prescrição de crimes contra a humanidade e saneou o mais corajoso dos magistrados. Uma afronta.

Casamento gay – A promulgação da lei, pelo PR, com a desculpa da crise e um discurso ressabiado, revelou mais uma vez que o candidato à reeleição não se conforma com a AR e o TC quando o contrariam. Quereria chamar matrimónio ao casamento de indivíduos do mesmo sexo?

ETA – A prisão dos novos chefes terroristas tem sido mais rápida do que a sua capacidade para organizar atentados. A colaboração das polícias francesas e portuguesas tem mostrado uma surpreendente e auspiciosa eficácia.

Nicolau Copérnico – Exumado 467 anos após a morte, o célebre astrónomo que Paulo V condenou, pela teoria heliocêntrica, oposta aos Evangelhos, foi trasladado com pompa e cerimónias pias para um imponente sepulcro da catedral de Fromborg. E a Terra não será jamais o centro do Universo.

Ciência – A criação da primeira célula controlada por um genoma sintético é um triunfo inaudito da ciência, que permite a esperança de produzir biocombustíveis, retirar poluentes da atmosfera ou produzir vacinas.

Coreia do Norte – A mais obscura ditadura do planeta, onde milhões de pessoas morrem de fome e a bomba atómica é o orgulho do bando dirigente, transformou a exótica monarquia «comunista» numa ameaçadora incógnita para a paz no mundo.

África – A maior parte das colónias francesas e inglesas comemora este ano meio século de independência enquanto as portuguesas se tornaram independentes há 35 anos. Há uma década e meia de tragédia colectiva que o fascismo luso nunca julgou.

Siza Vieira – Em tempos venais, o genial arquitecto é afastado da transformação do Forte de Peniche em pousada por discordar da criação de mais dois pisos e do apagamento da memória histórica da prisão política. Grande criador e referência ética!

Submarinos – A compra de dois submarinos (um para subir, outro para descer) foi um desastre cujos encargos continuaremos a pagar no futuro. Não sei se a decisão se deve à vocação marítima de Portas, à vaidade dos almirantes ou à gula do CDS.

CDS – A subida sustentada das intenções de voto no PSD tem a consequência de reduzir a popularidade da sua muleta natural. A saída de democratas que fundaram o partido e o medo que ainda inspira a sua matriz salazarista estão na origem da queda.

Assembleia da República – A utilização de uma comissão de inquérito para averiguar questões menores – o caso TVI-PT –, sem ter em conta o tempo e os recursos gastos, num mero ajuste de contas político, terminou sem resultados e constitui um sério revés para o prestígio do Parlamento.

Círculos uninominais – Abriu a campanha para novo modelo eleitoral. É um convite ao caciquismo e a tentativa de eliminar pequenos partidos. Aos muitos círculos uninominais prefiro um único círculo nacional. Direi não às alterações para pior.

TGV – Seria uma lástima que Portugal se isolasse da rede europeia de alta velocidade numa recorrente sedução pelo «orgulhosamente sós» de triste memória.

Remunerações – Em época de crise é obsceno que alguém receba no conjunto – vencimento e reformas pagas pelo Estado – valor superior ao vencimento do Presidente da República, incluindo ele próprio.

domingo, maio 30, 2010

José Sócrates e Chico Buarque: alarde, vanglória ou desleixo…?

A visita de José Sócrates a Chico Buarque, para “ conversar e tomar um cafezinho” e/ou “sacar" uns autógrafos para mostrar à família foi um passo que qualquer português – da geração do visitante – daria…

Sendo Chico Buarque um dos símbolos vivos da Música Popular Brasileira (MPB) a curiosidade e o interesse do cidadão José Sócrates em conhecê-lo pessoalmente, não constitui nenhuma surpresa, nem é recriminável. Pelo contrário, será uma afirmação de valores humanos [afectivos e/ou do foro íntimo], absolutamente respeitáveis.

Já o seu staff, ao inverter os rituais [comuns] que informam qualquer visita informal [não cerimoniosa, nem protocolar], mostrou estar imbuído em profundos equívocos [vícios] acerca dos processos humanos de socialização e, deste modo, transformou, um acto - fundamentalmente - afectivo [e compreensível para qualquer pessoa] num alarido mediático [o chamado sound bite] e/ou numa fútil vanglória para o visitante. Pior, transmitiu uma imagem de desleixo [incúria] no tratamento de uma situação lateral à viagem oficial de José Sócrates ao Rio de Janeiro que, descabidas justificações à posteriori, só agravam.

Os políticos são seres humanos e não devem viver perseguidos pelo espectro do “politicamente correcto”. Ao adoptarem essa atitude tornam-se extremamente vulneráveis, quando não ridículos...

PS apoia Alegre

O secretário geral do PS afirmou hoje desejar "convictamente" a vitória de Manuel Alegre nas próximas eleições presidenciais e adiantou que pessoalmente se empenhará nesse ato eleitoral.

Nota: Cavaco é o melhor candidato para unir o PS e dividir o PSD. É demasiado mau.

Tragédia ecológica

BP acumula fracassos nas manobras para estancar derrame de petróleo

O PR, o casamento gay e o cardeal


D. José Policarpo disse que esperava que o Presidente usasse o veto com esta lei.

sábado, maio 29, 2010

Um mediático entretenimento sobre as presidenciais…


A ideia transmitida – pela generalidade imprensa neste fim-de-semana – de que a questão dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo poderá ter um papel crucial se nas próximas eleições presidenciais, não passa de um fait divers com a finalidade de agitar [animar?] o período pré-eleitoral.

A “dura e inusitada” reacção do cardeal de Lisboa à promulgação da referida Lei, por Cavaco Silva, o que de real trouxe à ribalta política foi a oculta - mas persistente - concepção da ICAR sobre vivência democrática.
Pelos vistos, a Igreja católica sonha, ainda, com o exercício de poderes tutelares (ocultos) sobre os órgãos de soberania e de decisão política. São séculos de uma continuada prática que – nos momentos de crise – vêm, com ligeireza e despudor, ao de cima. É - para espanto dos portugueses - o imediato aproveitamento político de uma visita dita apostólica, plena de situações de proselitismo e, para inglês ver, travestida de “visita de Estado”.

O cardeal Policarpo ao ser mais severo para Cavaco Silva do que, na aparência, terá sido relativamente ao Governo e às forças políticas [de Esquerda] que, em sede própria [Assembleia da República] se concertaram para a aprovação desta Lei, mostrou até que ponto a ICAR acha que convicções pessoais [de índole religiosa] devem [ou podem] imiscuir-se e influenciar assuntos de Estado, “torturando” as instituições democráticas.
Na verdade, esta reprimenda do patriarcado de Lisboa, ou da Igreja portuguesa, será, a trágica e maquiavélica ironia que, de certo modo, “premeia” [...passe mais esta ironia] a vergonhosa subserviência de Cavaco Silva - na qualidade de representante da República - publicamente exibida, durante a recente estada de Bento XVI em Portugal.

Mas o que é realmente delirante será o fictício agitar de águas no Centro-Direita à volta desta questão. Este [Centro-Direita], independentemente de todas as crendices e de preconceitos moralistas, vive obcecado na consolidação e na calendarização de uma estratégia do “assalto” ao poder, para controlar simultaneamente a política, a economia, o(s) mercado(s) financeiro(s), etc. E essa estratégia - no actual quadro institucional - assenta na pressuposta reeleição de Cavaco Silva.
Todos sabemos que, em questões vitais para o "seu" futuro, a Direita raramente se divide. Pelo que, a agitação mediática deste fim-de-semana, será um mero fogacho “pour épater le bourgeois”.

Não deverão ser as imaginárias fracturas do interior do Centro-Direita que devem alimentar as pretensões e definições estratégicas da Esquerda [...já dividida?], no que diz respeito à próxima eleição presidencial.
Na verdade, será necessário ter presente que, por detrás de todas estas simulações, “… outro valor mais alto se alevanta”, como escreveu o poeta.

Humor brasileiro

Depois de o Ministro da Saúde dizer que o sexo é o melhor remédio para a hipertensão, já há quem use o onanismo como genérico.

A reeleição de Cavaco não é uma fatalidade adquirida

sexta-feira, maio 28, 2010

28 de Maio - Estamos na 2.ª ou na 3.ª República?

Saber se esta é a segunda ou a terceira República é uma questão de escola em que os historiadores se dividem. Todos terão argumentos pró e contra. Acontece que durante décadas o poder foi exercido por um biltre que a polícia política, a censura e a cobardia de serventuários mantiveram pelo medo, fome e censura sobre o povo. O poder de um ditador dificilmente se pode chamar república. Poder de 1 = mono + arquia.

A tragédia começou há 84 anos, no dia de hoje, e já há fascistas que contam com a amnésia colectiva. O triste autarca de Santa Comba Dão insiste num museu com o espólio do ditador. Educado na escola democrática do Vimieiro, sonha com uma estátua que perpetue em bronze a figura sinistra do conterrâneo.

Não é passível de discussão a independência dos Tribunais. Na ditadura não existiam só os Plenários e os juízes Florindos onde os presos eram espancados pela PIDE à vista dos indignos magistrados. A ficha da PIDE era decisiva para a progressão na carreira e o maior dos escândalos do regime «Ballet Rose» nunca foi julgado. Independência dos Tribunais na ditadura fascista é uma fantasia que, pese embora à dignidade de muitos juízes, nunca existiu.

Quanto ao poder legislativo, basta lembrar a Assembleia Nacional que era o megafone salazarista onde nada se votava que desagradasse ao ditador. Uma República que não tem eleições livres, que não tem separação de poderes e que tem um ditador vitalício, a que só uma cadeira teve a coragem de pôr fim, é uma impossibilidade conceptual.

O fascismo português, baptizado de «corporativo, democratico-orgânico e anti-parlamentar» como então se aprendia no 7.º ano dos liceus, na OPA, é o que queiram chamar-lhe mas, na minha opinião, não foi república.

O dia de hoje é um dia de luto para quem tem memória e um dia de preocupação para quem assiste a afloramentos fascistas perante a indiferença de uns e a cumplicidade de muitos.

Um jornalismo nauseabundo

Por

Amadeu Carvalho Homem *


O jornal “Sol” converteu-se definitivamente na comadre de soalheiro do jornalismo português. Ele mete o olho (não sabemos bem qual) no buraco da fechadura; ele espiolha SMSs privados com a voracidade própria dos polícias de costumes e com o puritanismo hipócrita dos “portuga” mal lavados; ele espezinha tudo o que é inerente a códigos deontológicos ou a regras básicas de jornalismo escorreito, para se preocupar só com o desforço, com a desforra odienta que quer obter sobre a figura de um Primeiro-Ministro que, não sendo grande coisa, merece ser tratado como qualquer outro concidadão.

Imaginemos que um meu inimigo me quer tramar. Há processos limpos e processos sabujos para conseguir este efeito. O processo limpo é o da inquirição à minha vida pública – por isso é que ela é pública – e o ataque às insuficiências da mesma. As acusações poderiam ser desta natureza: o Professor Fulano falta às aulas e ensina mal ; o Professor Fulano recebe dinheiro para passar ou chumbar alunos; o Professor Fulano retira dividendos indevidos da sua profissão. Tudo isto, desde que devidamente provado, integra a esfera pública da responsabilidade individual e pode – deve, até – ser publicitado em jornais de higiene capaz. Vamos agora supor que um meu inimigo, para me esquartejar, passa a vigiar o meu telefone privado, o meu telemóvel privado, a minha residência, o barbeiro onde eu vou, o café que eu frequento e grava as minhas conversas, as minhas observações, as minhas frases, as minhas dicas, os meus desabafos: aquelas dicas e aqueles desabafos que eu livremente expendo, por me sentir cidadão livre num país livre e por ter como certo, talvez ingenuamente, que a pulhice ainda não está entronizada nos órgãos de comunicação do meu país como sistema normal de colheita de informações.

Agora, o jornal “Sol” quer tramar o nosso concidadão Sócrates com base num SMS que ele teria recebido do nosso concidadão Vara. A questão obtusa não está em saber se Sócrates ou Vara são flores de bom cheiro. O cerne do problema está em saber se o cidadão Sócrates, o cidadão Vara, o meu barbeiro, o gajo que me traz a bica, o presidente da Câmara da minha cidade, o presidente da Junta da minha freguesia, o presidente da Direcção do meu grupo recreativo, o jogador de futebol da minha equipa, o meu colega de trabalho, numa palavra, o universo dos habitantes de um país chamado Portugal, têm ou não um território de convivência asseada, uma reserva de privacidade, ou, pelo contrário, uma nitreira toda pública, todos os dias revolvida por jornalistas iguais aos do “Sol”. E a diferença entre o asseio da primeira hipótese e a matéria fecal da segunda hipótese está em saber se existe ou não uma coisinha elementar ONDE REPOUSAM TODAS AS LIBERDADES e que se chama o REDUTO PRIVADO DA CIDADANIA.

Num país decente, o Senhor jornalista do “Sol” iria malhar, mais dia, menos dia, com o costado na prisão. Neste, é natural que ele acabe por conseguir o seu objectivo mais pertinaz: a demissão do concidadão Sócrates com base num miserável espiolhamento dos actos privados da sua vida e dos actos privados da vida dos seus amigos.

Isto está a passar-se em Portugal, no ano da graça de 2010, cem anos após a proclamação de um regime que terá de ser digno, limpo, valorativo e transparente para merecer o nome que lhe foi dado por Homens dignos, limpos, valorativos e transparentes: o nome de República Portuguesa.

* Historiador

Também no LIVRE E HUMANO

quinta-feira, maio 27, 2010

A direita portuguesa e o poder

Não percebo a superioridade moral que a direita exibe e, muito menos, a defesa que faz do mérito dos Governos que liderou e das personalidades que gerou.

Quando ataca Guterres – o melhor e mais bem preparado primeiro-ministro da segunda República –, imagino que lhe faltaria coragem para atacar Sousa Franco, se ainda fosse vivo, ministro que equilibrou as contas públicas e a quem se deve a entrada de Portugal no euro. Calculo o que diria o ex-líder do PSD a quem o criticasse, ele que se distinguiu pela competência técnica, rigor, honestidade e mau feitio.

A direita teve a sorte e o mérito de não ser Governo quando a maior crise mundial das nossas vidas nos atingiu em cheio. O mérito deveu-se a três anos de Barroso e Santana que continuam a ecoar como pesadelo. Foram eles que deram a maioria a Sócrates. E é a longa abstinência que alimenta a gula e a arrogância de quem não olha a meios para conquistar o poder.

Não faço ataques de carácter aos traficantes de influências saídos do cavaquismo para o enriquecimento ilícito e que prestam contas à justiça, ao contrário do que, desde sempre, fazem ao actual primeiro-ministro, como o haviam feito a Ferro Rodrigues os amigos de Portas.

Chegámos a um ponto em que foram tais e tantas as acusações sem provas, que Sócrates pode, agora, permitir-se tudo sem que as dúvidas se transformem em certezas. Ninguém esquece os amigos de Santana a conspirarem. São conhecidos os nomes do seu chefe de gabinete, do inspector da PJ e do magistrado, conluiados.

Até Belém, onde era hábito haver cultura democrática, serenidade e apreço pelos outros órgãos da soberania, origina dúvidas que Miguel Sousa Tavares expôs de forma lapidar no último Expresso: «Basta recuar um ano e recordar a mentira planeada e subjacente àquela espantosa história montada em Belém, com a conivência de um jornal, e com a qual se quis convencer o país de que o Governo escutava as conversas da Presidência da República. Ninguém ficou com dúvidas de que toda a história fora fabricada e planeada para ter efeitos políticos em período pré-eleitoral. E o que sucedeu? …».

Quem então se calou, envergonhado, explorou agora de forma pusilânime as escutas que a decência e a legalidade democrática impediam. E, tal como no caso anterior, também agora se exoneram os responsáveis pelas patifarias e se acossam as vítimas. E exibe-se a arrogância de quem é capaz de tudo pela avidez do poder. Não surpreende que, na AR, o processo da TVI acabe com a grandeza moral que exorna o casal Moura Guedes.

Nota: Não escrevi este texto por Sócrates, fi-lo pelo País. Com náusea. Porque há faces demasiado ocultas a que urge tirar a máscara.

Ponte Europa / Sorumbático

COIMBRA - C O N V I T E

João Fernandes, Director da Agência de Coimbra da Fundação Inatel convida V.EXª, ou representante, para o Dia Aberto integrado nos Actos Comemorativos do seu 75º Aniversário, a ter lugar pelas 09h30, do dia 28 de Maio, sexta-feira, nos salões da sua Sede, Rua Dr. António Granjo 6, Coimbra, junto à Estação Nova. Durante 02h00 vamos dar a conhecer os nossos programas, Turismo – Desporto – Cultura, as nossas actividades, as nossas instalações e os nossos colaboradores.


Agradece confirmação para ag.coimbra@inatel.pt ou 239853380.


Momento de poesia



Dissertação sobre a negação das desistências…

Reconheço-te sempre

pelos sinais que vais deixando

pelo caminho,

mesmo que te escondas

atrás das palavras

e iludas a imagem do teu rosto

em todos os espelhos,

os gestos ainda denunciam

a tua presença

e já nem preciso

de chamar-te pelo nome

para saber

que não desertaste…

Alexandre de Castro - Lisboa, Maio de 2010