domingo, outubro 31, 2010

Os tristes dias do nosso infortúnio

Parabéns Brasil ! Vitória eleitoral de Dilma

A vitória de Dilma é, sobretudo, uma manifestação de apoio a Lula, em quem se revêem os brasileiros, e ao progresso económico e social registado durante os seus mandatos.

À partida não havia grande diferença programática entre os candidatos, sendo José Serra o mais experiente mas, para compensar o apoio de Lula a Dilma, ou por falta de pudor, cedo se deixou aliciar pelas poderosas forças religiosas que disputam o poder. A Igreja católica, com a pujante e obstinada Opus Dei, trocou a disputa política pela discussão sobre o aborto.

Bento 16, esquecido dos desastres da sua Igreja com a ingerência nos assuntos internos dos diversos países, sobretudo no apoio a ditaduras sul-americanas, regressou à habitual ingerência nos assuntos internos dos países que julga dominar, e pediu ao episcopado brasileiro para exortar os fiéis a não votarem em candidatos apoiantes do aborto, numa referência implícita a Dilma Rousseff, acusada de defender práticas abortivas.

Nunca as Igrejas investiram tanto nas eleições do Brasil, onde dominam a comunicação social e dispõem de imensos recursos. A própria candidata, Dilma Rousseff, tergiversou na sua posição sobre a descriminalização do aborto assustada com os bandos de beatos que lançavam a confusão entre a defesa do aborto e o direito à IVG em caso de risco de vida da mãe, malformações congénitas e violação.

Por isso a vitória de Dilma constituiu, para lá da gratidão para com Lula, a estrondosa derrota das forças obscurantistas que Serra acolheu na sua campanha. Mais do que uma vitória do PT foi uma estrondosa derrota para a Igreja católica que se associou contra Dilma numa campanha feroz e sem ética.

Com voto electrónico, o Brasil elegeu pela primeira vez uma mulher para a Presidência. Merece um lugar de vanguarda nas grandes democracias. Parabéns Brasil !

Adenda: Este post foi alterado por ter uma referência à IURD como apoiante de Serra, quando aconteceu o contrário. Do facto peço desculpa aos leitores.

Nem tudo o que é parece. Cavaco e o Orçamento

O recandidato à Presidência da República, Cavaco Silva, aproveitou a fragilidade de um Governo minoritário e a antipatia ao líder do PSD para garantir que a sua campanha não necessite de outro cartaz, para além da obsessiva presença nos órgãos de Comunicação Social e fingir de salvador da Pátria.

Fragilizou o PS e humilhou Passos Coelho. Salvou o PSD da errática atitude nos ajustes a que sujeitou um OE de modo a não poder cumprir as metas acordadas e possibilitar as habituais acusações de incapacidade e mentira para que o Governo cumpra o que eles se esforçaram para tornar inviáveis.

Sem coragem de proporem medidas para responder à crise internacional que se abateu sobre Portugal, deixaram a Teixeira dos Santos o ónus de se responsabilizar pelas mais impopulares medidas de que há memória e de lhe tirar os meios para as cumprir.

Depois da chantagem dos processos judiciais, fica agora a espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de um Governo que teve a coragem de não fugir mas a quem faltou força para confrontar o PR com as manobras de bastidores.

As medidas adicionais para procurar 500 milhões de euros vão ser uma cura certamente mais injusta do que seria a terapêutica e um motivo acrescido para o incumprimento das metas e a descoberta de armas de arremesso do PSD ao PS.

O OE-2011 tinha uma coerência que a pressão do PR sobre Teixeira dos Santos, a quem telefonou, e as exigências do seu amigo Catroga fizeram perder. É um montante que, no que diz respeito às deduções fiscais, alivia os que podem para ser repartido pelos mais carenciados. Enfim, o Governo teve a coragem de prejudicar o partido que o sustenta e a Oposição o mérito de chantagear o ministro das Finanças. Em Maio o PSD entra em ombros em S. Bento e Belém comandará o Governo.

Declaração de interesse: Beneficio claramente do oportunismo do PSD.

Etiquetas:

sábado, outubro 30, 2010

OE 2011 flash! [29 Out. - 23 horas e 19 minutos...]

OE/2011 – do alívio imediatista às interrogações futuras…

Finalmente, o acordo PSD/Governo aparece à luz do dia, depois de permanecer enclausurado nos bastidores da política, tanto tempo. Recordemos que, desde o Verão, o País tem assistido a uma cascata de floreados retóricos [vazios de conteúdo político] e ao desfilar de uma prole de argumentos à volta de diferentes modelos de exacção [de receitas] e de contenção [da despesa].

As picardias tecidas à volta deste OE alimentam acrescidas suspeições quanto a capacidade de resolveremos, pela vontade e pela consciencialização políticas os nossos problemas orçamentais e de crescimento económico. A sensação transmitida – não vale a pena criar ilusões – é que a “crise” ainda vai no adro e que as instituições democráticas revelam uma gritante incapacidade para enfrentá-la de modo concertado, transparente e eficaz. Mais, todos suspeitamos que a “crise” é muito mais profunda do que é visível, ou palpável, no dia-a-dia. Vivemos na angústia do que o pior estará para vir…

A convicção generalizada é que a viabilização deste OE não abriu portas em relação ao futuro mas, antes, expôs graves vulnerabilidades no terreno da procura de consensos e, comprometeu as expectativas de uma réstia de coesão [política e social] nacional.

Perpassa no ar a ideia de que o próximo OE, ou mesmo antes, um próximo PEC [se for necessário rectificar o actual acordo], será difícil, ou mesmo inviável porque não se mobilizaram, para esse objectivo, as forças partidárias nacionais. Pelo contrário, cavaram-se profundos fossos entre os diferentes segmentos da sociedade portuguesa.

A proposta OE a levar ao Parlamento é fruto um acordo “forçado” pelas circunstâncias [com grande peso do vector externo] e não um consenso [mesmo que sectorial] de forças políticas. Nem mesmo entre o obscuro [e envergonhado] Bloco Central que, em Portugal, gere, há dezenas de anos, os interesses económicos e financeiros. A noção residual é de que a “crise” continua suplantada por espúrios tacticismos partidários. A “conquista” versus “preservação” do poder, inquina a realidade nacional. Pelo que, apesar dos veementes apelos do Conselho de Estado, pela primeira vez corporizados pela voz do PR, em relação às questões económicas e financeiras e, como é inerente, sociais, a ideia vigente é de, a continuar na actual senda, rapidamente chegamos ao fim da picada. E se este ano os portugueses “acreditavam” que o OE tinha de “passar”, ninguém crê que outro OE, ou outro PEC, seja viabilizado a manterem-se as actuais circunstâncias. Logo, mais tarde ou mais cedo, possivelmente no seguimento das eleições presidenciais, a tensão política e social voltará a impregnar os portugueses, tornando-se uma insuportável fonte de instabilidade. Não estamos num momento crucial da resolução dos problemas mas, antes, num intermezzo político em preparação para outros voos.

O actual acordo que sustenta um OE sobre o qual paira uma afiada espada de Damocles relativa à proximidade de uma recessão [a discussão parece concentrar-se essencialmente sobre o seu gradiente] poderá ser volátil. É que para chegar este acordo passamos por uma desproporcionada dramatização do presente. Tal facto faz que os portugueses considerem incontornável [que o OE] possa carregar no seu bojo, alçapões intransponíveis [nomeadamente sociais] a muito curto prazo.

A sustentabilidade deste OE assenta, não numa mobilização do País para enfrentar a crise mas no receio das reacções dos mercados [avaliação de todo imprevisível] e, também, na obrigatoriedade de satisfação de compromissos assumidos no seio da Euro Zona, numa UE ainda sem uma governação económica eficiente e não isenta de caudilismos medíocres [Merkel, Sarkozy, Barroso, etc.]. Frágeis alicerces para o futuro embora deva reconhecer-se que funcionaram para este OE/2011. Só que a receita corre o risco de ser irrepetível.

O acordo foi, portanto, o paliativo encontrado para as nossas doenças [económicas, financeiras e sociais]. Deveria ter proporcionado uma avaliação sobre o nosso futuro com base nos conceitos de justiça, equidade e confiança. Alterações imprecindíveis, opções inadiáveis, de fundo, tornaram-se imperativas, no pensar de muitos portugueses. Estas, implicam mudanças qualitativas que, um OE, essencialmente, quantitativo, não contempla. E, em relação ao futuro, é cada vez mais público e notório que a clássica rotatividade no exercício do poder [esta foi a aposta de Pedro Passos Coelho no prolongado torpedear deste OE] é manifestamente insuficiente.
Os ciclos políticos sucedem-se sem mudanças. A única mudança visível será o crescente ascendente da Economia [ou se quisermos do “mundo financeiro” que tutela a Economia] sobre a Política. Que em breve questionará a sustentabilidade de um valor civilizacional desta "velha" Europa: o Estado Social.

Sem nos deixarmos devorar pelo pessimismo, nem cultivando novos sebastianismos, mas olhando para as nossas fraquezas, os nossos desvarios económicos [que os houve], o desenfreado consumismo [gerador de endividamentos], as nossas disfunções políticas [essencialmente partidárias] e as nossas debilidades estruturais [económicas e sociais] é premente não consentirmos, nem pactuarmos, que o sofrimento deste povo se colectivize, entranhando de modo irreversível a vida dos portugueses.

O fim da novela orçamental deveria coincidir com o começo de todas as interrogações. Sem a absorvente presença opinativa de bons [ou maus] profetas, dos preclaros [ou confusos] donos da sabedoria e dos excelentes [ou medíocres] fazedores e mercadores de opiniões...
Um debate aberto e límpido.
Democrático.

Cavaco conseguiu ajuda do Governo

sexta-feira, outubro 29, 2010

Morreu Marcelino Camacho

Marcelino Camacho, por muitos considerado o “pai” das Comisiones Obreras [CCOO] - Confederação Sindical espanhola de influência comunista , foi um homem extraordinário que teve uma vida cheia.
Morreu com a provecta idade de 92 anos.
Foi militante comunista desde o tempo da II República [1931 – 33], combateu ao lado dos republicanos na Guerra Civil e foi perseguido durante todo o consulado franquista, tendo sido privado da liberdade durante mais de uma dezena de anos.
Líder dos trabalhadores metalúrgicos de Madrid, participa nas primeiras comissões obreiras – um movimento sociopolítico de base - que na década de 60 travou em Madrid, Astúrias, País Basco e Catalunha duras e importantes lutas contra o franquismo.

As CCOO congregaram um largo e plural grupo de movimentos antifranquistas que se infiltrou nos “sindicatos franquistas” até que, em 1975, já no estertor do regime, conseguiram vencer as eleições sindicais na maioria das empresas…
Em 1976, na histórica “Assembleia de Barcelona” Marcelino Camacho é o grande impulsionador da transformação das CCOO numa Confederação Sindical que tem influenciado e impulsionado de maneira determinante o movimento sindical espanhol.

Marcelino Camacho desempenhou um papel relevante, historicamente não totalmente avaliado, no período de transição da ditadura franquista para a democracia.
Foi, nesse período, deputado às Cortes nas listas do Partido Comunista.

Será difícil resumir uma vida política, sindical e cívica tão vasta, tão completa e tão participativa. Mas, não andaremos longe da verdade se afirmarmos que Marcelino Camacho, para além de um exemplar sindicalista, foi um notável [e histórico] Homem político interveniente na luta antifranquista e um empenhado e lúcido moderador nos difíceis equilíbrios de poder durante o período de transição que decorreu na década de 70, em Espanha... após o desaparecimento físico do caudilho.

Resumindo: os Países e Comunidades Autónomas que, hoje, integram uma Espanha Democrática, devem-lhe muito.

Governo e PSD chegam a acordo sobre o OE2011

O Governo e o PSD chegaram esta sexta-feira à noite a um acordo para a viabilização do Orçamento de Estado para 2011 (OE2011), avança a SIC.

Nota: Poucas horas antes Passos Coelho afirmava não ter conhecimento da nova reunião.

Curiosidades...


A “dança do dragão”…

“A China está interessada em reforçar a aquisição de dívida soberana portuguesa. Para Portugal, é uma ajuda importante para aliviar a pressão dos mercados internacionais, para a China é uma forma de assegurar boas relações com um país da Europa.” link

A componente estratégica da actividade económica e financeira dos chineses é impressionante e meticulosa.

Aportaram à Grécia no sentido de ajudar a resolver os problemas financeiros e decidiram investir nas infra-estruturas portuárias [Pireu], na construção naval e no comércio marítimo para melhor [mais facilmente] chegar à Europa. É, como já foi dito, ”a nova rota da seda”...

Em Portugal, em relação à ajuda financeira proposta [aquisição dos títulos da divida pública], desconhecem-se as contrapartidas. Todavia, não devem andar longe do reforço das pontes comerciais entre a Europa e África [onde a China já se encontra em força].

De qualquer modo, para Portugal a intervenção da China traz uma diversificação [alargamento da oferta] dos caminhos de acesso aos mercados, dificultando a concertação de manobras especulativas e, havendo concorrentes, criam-se expectativas de melhores juros para as emissões de obrigações a longo prazo. Ficaremos – será o nosso objectivo - menos dependentes de Wall Street e das agências de rating

Registada a vontade política da República da China em intervir nos mercados – e sabendo como é difícil negociar com os chineses - resta-nos aguardar que os acordos económico-financeiros a desenvolver sejam favoráveis a ambas as partes.

Angola - Competição religiosa

Católicos defendem emenda na Constituição angolana para travar a expansão do islamismo.

O bispo Emanuel Imbamba defende alterações constitucionais para impedir o avanço muçulmano, dificuldade acentuada pelo carácter laico do Estado e pela imposição constitucional da separação do Estado e das Igrejas.

Quando a Igreja católica devia defender a laicidade do Estado em todo o mundo, para evitar a situação injusta em que se encontra nos países islâmicos, implora privilégios que a diminuem e protecções que expõem a sua fraqueza.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Questão para um [qualquer] Oráculo de Delfos...

"António Borges afirmou que Portugal está de 'joelhos perante o Banco Central Europeu, esperando que eles não alterem a sua política que nos permite ir vivendo'. Para o economista a "questão central de Portugal é estar totalmente fora dos mercados internacionais de financiamento". jornaldenegocios

Para um ex-vice-presidente do PSD [liderança de Manuela Ferreira Leite] são interessantes estas considerações...

Qual Apolo [senhor do templo de Delfos], lá debitou as suas professias...
Infelizmente, não terminou o recital com o coro que os 7 sábios prescreveram:
"Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo..."

Mas persiste uma dúvida sobre as suas observações acerca das genuflexões. Dúvida que o País deveria colocar às pitonisas dos múltiplos Oráculos que enxameiam no mercado [a nova terminologia mitológica é esta]:

O que será pior e o que será melhor?

De joelhos perante o BCE [o nosso banco central] ou de rastos perante o FMI [em Washington DC - onde o único País com direito a veto é... os States]?

Adenda: O Prof. António Borges foi recentemente nomeado director do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI).

FUTEBOL: Mundial 2018


Mundial 2018: FIFA abre inquérito sobre a candidatura ibérica

A FIFA vai abrir um inquérito a propósito das suspeitas lançadas pela Inglaterra sobre a possibilidade de Portugal e Espanha terem acordado uma troca de votos com o Qatar, para a organização do Mundial 2018. diariodigital

Mais problemas, não!
Como diz o povo: quando o azar penetra...3 na anilha e etc.

COIMBRA - C O N V I T E

DIA DA MEMÓRIA DOS RESISTENTES E DAS VÍTIMAS DA DITADURA

Sexta-Feira 29 de Outubro 18h30 MONUMENTO AO 25 DE ABRIL COIMBRA

Breve Homenagem aos Cidadãos Nacionais e Estrangeiros Resistentes e Vítimas da Ditadura e Evocação dos Prémios Nobel da Paz Aung San Suu Kyi (Myanmar) Liu Xiaobo (China) e do Prémio Sakharov Guillermo Fariñas (Cuba) actualmente privados de Liberdade

Divulgue e Participe! Coimbra Não Esquece!

Cidadão José Dias


CONSELHO DE ESTADO: o prenúncio do FMI?

Após a ruptura nas conversações entre Teixeira dos Santos e Eduardo Catroga acerca do OE/2011, seguem-se vários actos políticos institucionais e toda uma parafernália de manobras que vão das discretas pressões às movimentações de poderosos lobby’s.
Interessam fundamentalmente os actos políticos institucionais.

O Governo será confrontado – na próximas horas - em Bruxelas com a necessidade de obter um consenso orçamental.
A realização sexta-feira do Conselho de Estado – em cima do momentol - interfere com o inevitável “prestar de contas europeu”. Acentua o clima de indefinição e aprofunda o carácter gravoso do actual momento político.

O Conselho de Estado – basta ter estado atento às dispersas tomadas de posição dos diferentes conselheiros – pressionará, tanto o PSD como o PS, para chegarem a um entendimento e viabilizarem o OE.
Se for conseguido esse objectivo, que será tranquilizador para o País e para os mercados, o que sendo louvável, não esconde o reverso da medalha.
O sucesso das diligências do Conselho de Estado – e esta será a expectativa do País real - trará a Cavaco Silva, na área institucional, o reforço da sua margem de manobra, quer na interferência política no aparelho de Estado, quer no desenrolar da sua campanha eleitoral.

Dentro daquela verdade, muitas vezes ignorada em política, de que nem todos podem ganhar, um órgão de soberania sairá – deste Conselho de Estado – mais enfraquecido do que já está: o Governo.
Sócrates irá a Bruxelas quase nas mesmas circunstâncias que o aio Egas Moniz se deslocou [no séc. XII] a Toledo. Só que Angela Merckel não é Afonso VII, nem vivemos no Séc. XII!

A intensificação do cerco ao actual Governo torna cada vez mais evidente e clara a estratégia da Direita.
Uma projectada [...e calendarizada] queda do XVIII Governo Constitucional, após as eleições presidenciais, que eventualmente proporcione a tomada do poder ao Centro, ou a uma coligação Centro-Direita, trará sempre um período de instabilidade política com inevitáveis [más] repercussões na situação económica e financeira. Fica, então, aberta [pelo Centro e pela Direita] a porta ao FMI. E o ónus desta inquietante interferência será endossado à inépcia do actual Governo.

Depois, é tudo mais fácil [politicamente]. Pouco mais haverá a fazer do que agachar-se, quando existir alguém, cá dentro [FMI], a impor soluções [que olimpicamente dispensam consensos].
Mas os portugueses sabem que estas "facilidades no campo político" serão duras e rígidas [intoleráveis?] no campo da austeridade.

Neste momento, torna-se incrivelmente nítido que o programa económico e financeiro do PSD para Portugal é simples: o FMI!

Cavaco - É preciso topete


O discurso do novo embaixador no Vaticano

O discurso de apresentação das Cartas Credenciais do novo Embaixador de Portugal junto do Vaticano foi um acto de bajulação pia, sem ética republicana, e a manifestação de subserviência em nome de um país laico e democrático.

O embaixador Fernandes Pereira esqueceu-se de que representa o país e não um grupo de peregrinos e de que Portugal é um Estado laico e não um protectorado do Vaticano.

Para o Sr. Embaixador pode ter sido a maior honra pessoal e profissional da sua vida dirigir-se ao «Beatíssimo Padre», mas não o foi para todos os portugueses, sobretudo para os que lhe reprovam o mal que tem feito à humanidade com a teologia do látex, nos países onde a SIDA dizima populações, e nas posições em relação à contracepção, planeamento familiar, saúde reprodutiva da mulher, sexualidade e igualdade de género.

A alegada emoção do Sr. Embaixador com a canonização de D. Nuno Álvares Pereira, devida ao milagre obrado em D. Guilhermina de Jesus a quem curou o olho esquerdo, queimado com salpicos de óleo fervente de fritar peixe, é para muitos portugueses um motivo de troça e não de comoção, por ter transformado o herói em colírio.

Ao recordar que «um Predecessor de [Sua] Santidade honrou Portugal, na pessoa do seu Rei, com o título de Fidelíssimo», veio lembrar quanto ouro custou a Portugal, que vivia na miséria, esse título obtido por D. João V, o rei que mantinha a sua amante predilecta, madre Paula, no convento de Odivelas. Devia ter evitado remexer no passado devasso e perdulário de Sua Majestade Fidelíssima, um dos reis que mais dinheiro dissipou à Coroa e mais filhos bastardos deixou ao reino.

O Sr. Embaixador não tem o direito de se apresentar como «o intérprete da arreigada devoção filial do Povo Português à Igreja e a [Sua] Santidade …» por respeito ao pluralismo ideológico e à liberdade religiosa do País que o diplomata representa.

O que pensarão ateus, agnósticos, cépticos, crentes de outras religiões, e mesmo alguns católicos, do embaixador que se permitiu terminar o seu discurso solicitando ao Papa «que paternalmente se digne abençoar Portugal, os Portugueses e os seus Governantes e, se tal ouso pedir, a Embaixada, a minha Família e eu próprio»?

O discurso ofendeu os portugueses livres-pensadores com a linguagem beata e a falta de pudor com que, em ano do Centenário da República, o embaixador humilhou todos os que dispensam a bênção papal. A prédica foi uma oração rezada de joelhos em nome de Portugal.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 27, 2010

COMÉDIA EM TRÊS ATOS

1º ATO
O PSD, tendo decidido secretamente viabilizar o Orçamento, abstendo-se, finge que vai inviabilizá-lo, rompendo estrepitosamente as negociações com o PS.

2º ATO
Perante a situação aparentemente dramática assim criada, o Presidente Cavaco reúne de emergência o Conselho de Estado e em seguida faz um apelo dramático ao PSD para que viabilize o Orçamento.

3º ATO
O PSD, tal como já tinha decidido, viabiliza o Orçamento, mas fingindo que o faz por causa do apelo do Presidente Cavaco.

EPÍLOGO
O candidato presidencial Cavaco aparece assim perante o eleitorado como o Salvador da Pátria.

Superstição mata

Vulcão mata guardião espiritual encarregado de “acalmá-lo”

Entre as vítimas do vulcão indonésio Merapi, que entrou em erupção na terça-feira, está o “avô Marijan”, seu “guardião espiritual”, que morreu sob as cinzas após uma vida consagrada a acalmar a “montanha de fogo”.

O corpo de Marijan foi retirado na manhã desta quarta-feira dos escombros de sua casa, a 4 km da cratera. O telhado e tudo que havia dentro estava coberto por um manto de cinzas.

A imaturidade de Passos Coelho

O abandono de Passos Coelho pelo seu mentor precipitou-o no abismo para que quer conduzir Portugal e os portugueses.

E agora, Pedro?

Etiquetas:

É preciso pontaria...

«Portugal encontra-se numa situação difícil. Mas há uma interrogação que cada um, com honestidade, deve fazer: em que situação se encontraria o País sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato»?

(Cavaco Silva, ontem, na confirmação do anúncio da recandidatura feito por Marcelo Rebelo de Sousa)

OE/2011, 27.10.2010 - um País em "sobressalto"...

As negociações entre Teixeira dos Santos e Eduardo Catroga no sentido de viabilizar o OE/2011, não chegaram a bom porto, contrariando o que muitos portugueses previam.
Independentemente das razões aduzidas por ambas as partes para justificar tal inssuceso é bom que os dois maiores partidos políticos portugueses tenham a consciência plena que causaram uma enorme frustação aos portugueses. A proposta de OE/2011 foi, desde a sua apresentação pública, um documento "mal-amado". Mas, tal facto, não apaga a convicção colectiva de que terá de existir um documento orientador para o reequilibrio orçamental, o controlo da dívida pública, o crescimento económico e a baixa das taxas de desemprego.

A convicção geral - adquirida desde as guerras de alecrim e manjerona iniciadas em plena época estival - não andará longe desta simples asserção: antes um mau OE do que nenhum!

As possíveis "regressões" ou "inflexões" para enfrentar esta imensa frustação popular que, concomitantemente, carrega uma forte carga emotiva, terão de ser encontradas no terreno político. Esgotou-se o tempo para os técnicos e especialistas em macroeconomia pontificarem. Este é um momento em que a crise deu um salto qualitativo: tornou-se no âmbito nacional - passe o paradoxo - global.

Portanto, globalmente, as instituições da República tem de dar explicítios sinais aos portugueses que serão capazes de enfrentar tão grande desafio. De algum lado, dentro dos difíceis condicionalismos constitucionais deste particular momento, terão de surgir soluções que contemplem uma realidade que tem pairado distante dos cidadãos e da política: a transparente supremacia do "interesse nacional" sobre o demais. E o demais tem sido demasiado.

A crise exige soluções que dignifiquem o sistema democrático que, como todos sabemos, não está isento destes acidentes, mas que deve ter capacidades intrinsecas para os ultrapassar.

Neste momento, os portugueses - para além de penalizados com a "oferta" de duras medidas de austeridade - estão preocupados, ansiosos e desanimados. É bom que os políticos [Governo, Oposições e AR] saibam que, ao conduzir o País para um terrível impasse, entraram na linha de fogo da descrença popular. Será mais um dos créditos que o País tem de satisfazer [saldar].

Este fracasso negocial não nos deve inferiorizar, nem amedrontar, nem desviar a nossa atenção para o que os "outros" pensam de nós. Neste momento, as instituições políticas democráticas têm de demonstrar possuir maturidade suficiente para enfrentar os graves problemas que se anunciam [e que foram criados pelo "jogo democrático"].

Os cidadãos devem ter a dignidade de lutar por um futuro melhor e mostrar-se intransigentes na defesa da transparência política. Não podem sentir-se derrotados antes de lutar [pelo País] e não devem desistir de exigir uma boa governação política, económica e social.

O OE [a incapacidade de dispor desse instrumento] não é uma fatalidade. Será, quando muito, mais um sobressalto histórico .
Já ultrapassamos muitos...

Cavaco não quer cartazes


terça-feira, outubro 26, 2010

CCB, 26.10.2010, 20h.15m ...[em conformidade com o conselheiro Marcelo]

Aníbal Cavaco Silva, recandidato à PR, numa comunicação monocórdica, sem brilho nem garra, disse [entre outras coisas]:
...
"A minha campanha será sóbria e contida".
"Dei instruções para que não se gaste [na campanha] mais do que metade do que a lei permite".

"Não colocarei um único cartaz exterior, os chamados outdoors".
...

"A minha candidatura é estritamente pessoal, independente de todas as forças partidárias.
"O meu partido é Portugal"

O que
- para já - pudemos ver:

No fundo do palco da sala Fernando Pessoa do CCB 10 [dez!] bandeiras portuguesas [...o seu novo partido]
Uma primeira amostra de sobriedade e contenção...
Dispensa outdoors. É mais para efusivos indoors...

Adenda - Sei que as 10 bandeiras são simbólicas. 10 anos de governação e/ou 5 + 5 de Presidência?.
Há 5 anos, outros tempos, no mesmo local, lá estavam. Só a tela de fundo era azulada. Virou verde. Mas as bandeiras permaneceram.
Quando os políticos vestem a pele de ascéticos e frugais... põem-se a jeito.

Uma área submersa no OE: os fluxos e refluxos migratórios...

Existe um contributo oculto para a redução do défice orçamental que, a luta pela sobrevivência e as dificuldades internas, os portugueses não levam em linha de conta. Uma contribuição activa que, caso não existisse, sobrecarregaria as prestações sociais relativas ao subsídio de desemprego: os fluxos migratórios contemporâneos.

Muitos jovens licenciados portugueses encetam a vida profissional enveredando por uma experiência [saída] migratória.

Acabou o ciclo das ondas migratórias dos anos 60 quando portugueses e portuguesas abalavam com a célebre “valise en carton” para França, Alemanha, Reino Unido, Suíça, etc. a fim de venderem a sua força de trabalho em serviços domésticos e na construção civil.

O actual ciclo de migração – não sendo como se afirma uma “fuga de cérebros “ – será a trânsfuga de competências técnicas que o marasmo da nossa economia estimula. Na senda do desenvolvimento, comparativamente com a Europa, continuamos próximos do diferencial da década de 60.

Na verdade, o sentido desta "nova" movimentação dirige-se para países com economias emergentes [Brasil] ou para as ex-colónias, recentemente saídas de um doloroso processo de guerra civil, [Angola, Moçambique] onde as carências técnicas são vultuosas. O actual ciclo económico português cronicamente a roçar as raias da recessão, bem como as medidas de austeridade dos últimos 2 anos – por toda a Europa – estimulam a procura de outras saídas profissionais.

A mobilidade instalou-se, progressivamente, nos novos quadros técnicos e incitou a um novo esquema de rotatividade e de intensa mobilidade que é subsidiário da facilidade de troca de informações e da abertura do Mundo a novos mercados [algumas vezes confundidos com Eldorados].

Hoje, o migrante português, não é o atávico aforrador de parcas economias que, mensalmente, remetia para a terra de origem, a fim de preparar o regresso.
Actualmente, o jovem técnico parte para um Mundo [económico e financeiro] sem fronteiras, onde a fixação é extremamente fluida e o regresso às origens hipotético. Não há remessas de poupanças. Há investimento na formação e no intercâmbio que proporcione a oportunidade de prosseguir uma carreira internacional.
Haverá, ainda, uma outra vertente em expansão: a cooperação internacional, multinacional, no âmbito de empresarial e da internacionalização do mercado de trabalho que pode proporcionar um eventual – mas não obrigatoriamente programado – regresso a “casa”. Muitas das vezes transitórios.

De qualquer modo, não sendo como no passado uma fonte de importação de divisas, esta humana evasão técnico-empresarial, permitirá aos jovens migrantes “olhar” de perto um novo Mundo, mergulhando-os na inovação, na mudança, no progresso e, possibilitou a alteração de um ancestral estigma que o Mundo cultivou sobre o “desgraçadinho” português, trabalhador esforçado e dedicado, mas inculto e desqualificado.

Finalmente, esta nova migração contribuiu para “aliviar” o tenso mercado de trabalho português. Segundo referências com diversas origens, terão, nos últimos 10 anos, migrado cerca de 800.000 portugueses e portuguesas [não necessariamente (todos) qualificados].
Se esta “onda” não se tivesse levantado do chão, provavelmente, a taxa de desemprego em Portugal estaria muito próxima da espanhola… com todos os custos sociais [e orçamentais] daí inerentes.
26.10.2010 - Jornada Mundial do Migrante.

OE/2011 - posfácio...

As negociações PSD/PS ou PSD/Governo [é dificil distinguir] sobre o OE/2011, continuam - após 3 rondas - inconclusivas.
Debatem-se - é de supor - questões eminentemente técnicas. Procedem-se - cautelosamente - aos arranjos formais [florais] que permitam aos 2 Partidos salvar - perante os seus militantes e apoiantes - a face.

Porque politicamente a obtenção de um acordo é - há muito tempo - um facto incontornável: o País necessita de um Orçamento, o Governo elaborou-o, a Comissão Europeia da UE já deu o seu aval, os mercados financeiros [BCE incluido] a sua benção e o Presidente da República cooperou estrategicamente...

Só falta o anúncio do sucesso das negociações coincidir com o lançamento da candidatura de Cavaco Silva. Logo à noite, na hora nobre dos telejornais...

A cereja em cima do bolo!

Momento de poesia


Dissertação sobre a saudade…


É do mar que chegam as notícias do meu amor.
Vêm com o vento cavalgando as ondas
mergulhando e subindo, na ânsia de chegar,
mirando peixes rutilantes sobre as transparências dos corais,
e eu vou vê-las chegar, caminhando pelas praias ardentes
por entre os dardos do sol
à procura de um búzio, para ouvir a voz longínqua
de quem me quer e de quem vem falar-me da saudade.
É do mar que chegam as notícias do meu amor
nas noites de lua cheia,
ouvindo o rugido do mar no fragor das ondas,
desfeitas em espuma contra a muralha da falésia
e onde vou beber a dor da sua ausência,
desfiando os fios da memória, já cansada de tanto esperar.
É do mar que chegam as notícias do meu amor.

Alexandre de Castro