TUNÍSIA 2011: os escolhos da libertação…

Foto: Rachid Ghannouchi
As recentes eleições na Tunísia colocam de novo na ordem do dia a chamada "Primavera Árabe".

O partido Ennahda ("Partido do Renascimento"), que venceu estas eleições teve, desde logo, a preocupação em declarar-se "moderado". Todavia, não teve a transparência suficiente para esclarecer que tipo de regime defende refugiando-se em "clichés" vagos, aparentemente conciliatórios mas, fundamentalmente, pouco explícitos.

Na verdade, quando Moncef Marzouki, um dos referenciados líderes da era pós Ben Ali, dirigente do partido Al Mottamar (“Congresso para a República”), link um partido do centro-esquerda, secular, (o 2º. mais votado nas eleições) afirmou que recusa o uso da religião como forma de ditadura e cuja declaração de princípios (do partido) versa as questões da identidade árabe-muçulmana… à luz da Declaração dos Direitos Humanos (e não do Alcorão) está a alertar-nos para as graves dificuldades da transição tunisina.

A faceta "moderada" de qualquer regime confessional (seja islâmico, cristão, judaico, etc.) poderá ser um refúgio para impor às sociedades doutrinas religiosas, tentando não causar ondas...para mais facilmente assentar arraiais.

Existe - penso eu - um pensamento islâmico "moderado" que rejeita dogmas e tenta conciliar as crenças do Islão com a vida e o progresso. É, todavia, uma corrente académica, artística ou, se quisermos, intelectual, na maior parte das vezes, vivendo a sua diáspora (ou um exílio) junto de outras culturas e civilizações. Raramente tem qualquer influência política nos países de origem. Na verdade, quem em alguma circunstância desfruta do privilégio de viver num regime democrático, logo, laico, perde a "capacidade" de entender (e aceitar) um regime baseado na Bíblia, no Alcorão ou na Tora (para só mencionar as “religiões do livro”).

Os partidos, grupos e facções islâmicas do Norte de África e do Médio Oriente que aderiram às "insurreições" não tiveram a sua génese nestes terrenos do pensamento, da razão e da liberdade e que, muitas vezes, passam por um militante activismo em ONG’s, empenhadas da defesa dos Direitos Humanos. Nasceram no limbo religioso e ganharam força "à boleia" das insurreições internas – muitas delas apoiadas pelo exterior – e cujo leitmotiv (imediato) esteve directamente ligado ao derrube de ditaduras repressivas, sanguinárias e cleptocráticas.

De facto, a subtil diferença que foi ressalvada pelo partido Ennahda afirmando que não é um partido islamita mas… um partido islâmico que “se guia pelos princípios do Alcorão”, à semelhança do partido democrata-cristão alemão (CDU), carece de verificação (diferenciação) na prática, i. e., na política real.


Na verdade, quando Rachid Ghannouchi, líder do Ennahda, regressou à Tunísia (Janeiro 2011), após duas décadas de exílio, a primeira declaração que produziu foi a de que não se apresentaria às eleições, nem haveria candidatos do seu partido… link E, como se pode verificar, acaba de ser o vencedor das primeiras eleições da "era pós Ben Ali"….

Deste modo, a Tunísia continuará a ser uma situação cuja evolução política manter-se-á, para o Mundo, sob rigorosa vigilância. Existem muitas contradições por esclarecer.

Comentários

haredan8 disse…
Ê ocidente bedel do mundo: está caindo pelas tabelas, mas não perde a prepotência...
Esperemos que a Tunísia não vá de mal para pior...
e-pá! disse…
Caro haredan8:

Depois da cena do Irão e dos "festejos" pela queda do Xá (1979) será sempre melhor esperar para ver.
Não tem nada a ver com o dito "Ocidente" que, como diz, se afunda.
É simplesmente a história do gato escaldado que tem medo de água fria...

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