segunda-feira, fevereiro 28, 2011

"Falar à mão"?...

Primeiro o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e depois José Sócrates, admitiram hoje, na II Conferência da Reuters/TSF, em Lisboa, o cenário de atingir o objectivo do défice. “Se a execução orçamental vier a revelar que são necessárias mais medidas, tomá-las-emos, mas, até ver, não temos indicação nesse sentido”, disse Sócrates, lembrando que a execução orçamental de Janeiro deixa o Governo ‘tranquilo’...” economia.publico.pt

O último PEC foi revelado aos portugueses como um programa datado. Até 2013. A discussão do OE de 2011 começou em Outubro, atravessou inúmeras peripécias e terminou com a votação final global em 26 de Novembro passado, com os votos favoráveis do PS, a abstenção do PSD e o voto contra do CDS-PP, BE, PCP e PEV. Isto é, há 3 meses!

A execução orçamental em Janeiro – segundo os dados disponibilizados - "correu bem", embora a despesa pública não tenha descido o esperado.
Sendo assim, não se percebe o aviso de Teixeira dos Santos, corroborado por José Sócrates.
Ou há indícios – não revelados - acerca da execução orçamental e as palavras de Teixeira dos santos são uma antecipação de um cenário trágico que vem por em causa as verdades de há 3 meses e, inevitavelmente, desencadear uma crise politica e uma tempestade social.
Ou a mensagem foi um recado para Angela Merkel que aguarda um encontro com José Sócrates a anteceder a próxima reunião do Conselho Europeu extraordinário de 11 de Março que, como é público, tratará da questão do Fundo Europeu de Estabilização Financeira. No caso de se tratar desta última hipótese melhor seria dialogar primeiro e falar no final do Conselho Europeu…

Todavia, estes anúncios pejados de intenções vagas, recheados de hipóteses e ameaçadores de mais medidas de austeridade não são tranquilizadores para os portugueses. E para quem desenvolve um intenso labor “para acalmar os mercados”, seria de esperar que tivesse o mesmo cuidado para com os cidadãos nacionais.
Porque se o anúncio acaso é pertinente merecíamos melhor e mais informação, isto é, frontalidade e transparência. Se o anúncio é desbocado, ou um mero exercício de retórica, estamos perante uma gritante inabilidade política e uma fonte de desestabilização social.

É, na difícil luta contra a crise, falar à mão!

A regionalização e os seus inimigos

Não são os barões
A Regionalização, que os deputados constituintes aprovaram e numerosos pretextos serviram para adiar, torna-se cada vez mais urgente e indispensável. Bastam as alterações demográficas para aumentar o anacronismo da divisão administrava que herdámos da ditadura, agravada por concelhos e freguesias criados ao sabor dos interesses eleitorais.

Parece existir uma estranha conspiração urdida para evitar a racionalização administrativa que há muito devia ter tido lugar com as cinco regiões-plano que  servem de matriz coerente. Desde os desmandos e provocações dos governos das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores onde os abusos autóctones criaram receios no país, até às lutas internas no PS e no PSD, passando pelo desamor do actual inquilino de Belém e o recente desinteresse do PM, tudo se conjuga para adiar para as calendas gregas a Regionalização, enquanto permanecem 18 distritos com parca utilidade.

O peso do aparelho do Estado português e a dimensão faraónica  dos órgãos autonómicos não podem servir de exemplo às novas regiões mas não faltam modelos e técnicos que adeqúem as necessidades administrativas e as possibilidades financeiras.

Exagero existe em concelhos com menos de 5 mil habitantes na presença de um presidente da Câmara, dois vereadores em dedicação exclusiva, assessores e, se necessário, em empresas municipais para satisfazerem clientelas. Excesso subsiste nos 308 concelhos e mais de 4200 freguesias em que o país se divide para satisfazer bairrismos exacerbados ou criar empregos desnecessários. Disparate verifica-se nas Assembleias Municipais que ultrapassam a centena de membros e incluem os Presidentes da Junta cujas funções executivas os deviam privar da presença em tal órgão. Vereadores e assessores existem em número exagerado.

Há políticos municipais e municípios  a mais. Há Juntas de Freguesia sem qualquer justificação, há os distritos cuja existência se destina a propaganda política, à colocação de funcionários e à emissão de passaportes. Há empresas municipais desnecessárias. E faltam as 5 Regiões Administrativas.

Até a comunicação social arranja títulos enganosos (ver a imagem do post) que leva as pessoas a pensarem que são os barões partidários que pretendem a regionalização, eventualmente contra os interesses nacionais, quando é justamente o contrário.

Ponte Europa / Sorumbático

KADAFI: O inexorável trânsito das extravagâncias políticas e comportamentais ao TPI…

Kadafi, o "eterno" coronel, excêntricamente fardado...

O levantamento popular na Líbia é um na sua essência um problema político. Uma revolta dos cidadãos contra um regime opressivo, ditatorial e cleptocrático. No actual contexto da situação político social do Norte de África e do Médio Oriente, integra-se na gigantesca “onda” de libertação dos povos de obsoletos despotismos que conduziram as suas populações a uma situação de subdesenvolvimento e de miséria. E a associação destes dois últimos vectores será o motor que incendeia o desejo de mudança e a torna inadiável a caminhada para a Liberdade.

Muito está por decidir quanto ao futuro desta região. Mas, desde logo, as manifestações populares têm um cariz marcadamente libertador. O desenvolvimento imediato do processo político e, nomeadamente, as questões relativas aos futuros regimes, colocam o Mundo em tensão, com especial acuidade o “Ocidente” que de certo modo interferiu na manutenção das ditaduras que estão a desmoronar-se.

Os últimos dias trouxeram à ribalta informativa escabrosas particularidades sobre o clã Kadafi que, há mais de 40 anos, controla o poder na Líbia.
Para além dos aspectos claramente disfuncionais que regem internamente [no circulo afectivo e social] uma família “alargada”, prepotente, ávida do poder e de honrarias, todos os dias são relatados novos casos de inadaptação política e de distúrbios comportamentais que provocam situações que começam nos intoleráveis abusos pessoais e financeiros para acabarem em horrendos crimes contra a Humanidade.

O exercício do poder pelo clã de Kadafi não pode, de modo simplista, ser considerado um caso bizarro ou extravagante. Existiram luxuriosas extravagâncias como foi o caso de Saif al-Islam Kadafi, um dos filhos do líder líbio que, no fim-de-ano de2009, pagou a Mariah Carey, 1 milhão de US dólares, para a artista cantar apenas quatro músicas numa festa na Ilha de St. Barts no Caribe, uma bizarra exibição de inconcebíveis excessos perdulários [esbanjamento] à custa do erário público. Mas, por exemplo, outros dos seus filhos, Muatassim, consultor de Segurança Nacional da Líbia, terá exigido, em 2008, ao presidente da corporação nacional de petróleo da Líbia 1,2 bilhiões de US dólares para criar sua própria milícia. Um quadro medieval em "senhores da guerra" rivalizam com forças militares regulares. Deste modo, poderia em coordenação com um outro seu irmão, Khamis, comandante de um grupo de forças especiais, criar uma poderosa guarda pretoriana do regime, neste momento em acção. estadao.com.br

Na verdade, os sucessivos escândalos [alguns criminosos] que diversos membros da família Kadafi protagonizaram pelo Mundo [em Inglaterra, na Suiça, etc.], onde, p.exº., se verificaram graves casos de violência doméstica, são incidentes próprios de uma concepção de vida desregrada, i.e., à margens das Leis e das regras de comportamento social civilizadas.

Enfim, uma família exótica, excêntrica, disfuncional, criminosa [um bando ou uma quadrilha] que, teve a “esperteza" de se instalar no centro do poder, controlando-o e, a partir daí, assegurar sua perpetuação através de uma obtusa “via dinástica”.
Hoje, não podemos continuar a ignorar que o clã Kadafi é responsável por estes inconcebíveis desvarios e continuados atentados à vida de cidadãos indefesos. Usando as suas milícias privadas – pagas com os dinheiros públicos provenientes do petróleo – mantêm um clima de terror e tentam fazer sobreviver – por dias, ou por horas – um regime agónico. Enquanto isso, cada hora que passa, a frateria de sicários de Tripoli, provoca dezenas de mortos e centenas de feridos.

A resolução do CS da ONU que decidiu submeter Muamar Kadafi, "capo" deste vampírico clã, ao TPI, terá sido um importante passo em frente na luta pela Paz e Liberdade no Mundo. Uma decisão que, independentemente da capacidade de ser executada, honra o direito internacional. abola.pt

domingo, fevereiro 27, 2011

Assim vai a corporação

O Supremo não consegue fazer obedecer-se.

Janta a sério !!!

sábado, fevereiro 26, 2011

WikiLeads: O desdenhoso pensamento "gringo” sobre a política de Defesa nacional…

Embaixador Thomas Stephenson

Hoje, os cables divulgados pela WikiLeaks oriundos da Embaixada dos EUA em Lisboa, publicitadas pelo Expresso, começaram a revelar “histórias” sobre a nossa política de Defesa. link
Factos nada abonatórios para um País que – da leitura dos poucos documentos disponíveis – mostra um Estado sem rumo definido quanto às questões de Defesa nacional, à deriva sobre as estratégias de Defesa Europeia e na sombra de condicionamentos transatlânticos [OTAN]. É uma política de Defesa nada transparente e muito pouco soberana.

O Instituto de Defesa Nacional [IDN] há um mês – Janeiro de 2011 – definiu novos vectores de investimento estratégico privilegiando os seguintes projectos:
- Brasil e Atlântico Sul;
- Estratégia e Política Internacional;
- O Mar e o Interesse Nacional;
- Política de Defesa Nacional;
- Política de Segurança e Defesa Europeia;
- Relações Transatlânticas;
- Segurança e Desenvolvimento em África.

Seria bom que as linhas estratégicas, recentemente definidas, tenham continuidade e não voguem ao sabor das concepções pessoais dos Ministros [que efemeramente tutelam este sector] e muito menos de mudanças políticas resultantes da alternância de Governos. Esta é, também, uma exigência, destes tempos de crise, em busca de uma contenção de despesas e encaixa-se na necessária ponderação [económica e operacional] sobre a qualidade e quantidade dos investimentos em equipamento militar. Um ziguezaguear constante é – todos sabemos - um atalho para constantes desperdícios.

Nos relatórios enviados para Washington pelo embaixador americano Thomas Stephenson, a imagem de Portugal é de que gostamos de “brinquedos caros” e agimos “por orgulho”. E, mais uma vez levanta o “caso dos submarinos”. Segundo o embaixador americano os dois submarinos são supérfluos. “Com 800 Km de costa e dois arquipélagos distantes para defender, os dois submarinos alemães comprados em 2005 não são o investimento mais sensato” link

Nos cables diplomáticos divulgados pelo semanário "Expresso" sublinha-se que o dinheiro dos submarinos falta noutros lados, nomeadamente em navios patrulha para defesa do litoral destinados a controlar o narcotráfico, a imigração clandestina e a actividade piscatória ilegal.

A opinião do embaixador americano vale o que vale. Há um certo azedume levantado por opções de aquisição de material de guerra e equipamentos militares junto dos nossos parceiros europeus, em detrimento da indústria militar norte-americana.

Mas para além disso, revela que as questões da política de Defesa não devem ficar circunscritas à esfera político-militar.
A sociedade civil tem de ser ouvida, mesmo aqueles que abertamente manifestam opiniões abertamente anti-militaristas. A posição do actual Ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, em nada se coaduna com uma sociedade democrática aberta. link
Relacionar o acesso à informação em questões não operacionais e fora de um teatro de guerra com a segurança das populações é uma peia. As últimas aquisições de material bélico – os tão controversos submarinos – foram, a quando da sua entrega oficial ao Estado, mediaticamente exploradas e tecnicamente devassadas. Ninguém compreende onde está a “confidencialidade”…

Na verdade, em Dezembro último – os portugueses – foram confrontados com o pagamento a pronto dos sois submarinos, facto que dificultou o combate ao défice orçamental e, em certa medida, condicionou – indirectamente – o aprofundamento das medidas de austeridade.
Por isso, “todos” estamos envolvidos nestes investimentos. Alguns [poucos] estarão envolvidos nos negócios e nas contra-partidas. Mas isso – como sabemos em relação aos submarinos - é um assunto em fase de investigação criminal [cá, na Alemnha e na UE]. Este é o resultado de injustificáveis secretismos...

O "Expresso" vai começar a divulgar alguns dos 722 cables. Logo, esta procissão, ainda, nem chegou ao adro…

Queixa no TPI contra o Papa

Dois advogados alemães apresentaram uma queixa no Tribunal Penal Internacional (TPI) contra o Vaticano. O tribunal terá de decidir se acusa Bento XVI de “crimes contra a humanidade“. Se isso acontecer, será a primeira vez que um Papa é processado pelos tribunais civis.

Carnaval antecipado? ...

Alberto João Jardim integra painel de comentadores na TVI

"Depois de a confirmação de José Alberto Carvalho e Judite de Sousa rumarem à TVI, a estação de televisão informou hoje que Alberto João Jardim vai integrar a equipa de comentadores.
O presidente do Governo regional da Madeira vai fazer análise política às segundas-feiras, e estreia-se já na próxima segunda-feira no ‘Jornal do Dia’, de Henrique Garcia."
destak.pt

Bem. Deveria começar de segunda a oito. Isto é, em pleno Carnaval. Assim, a TVI soma um erro de casting a um erro de timing...

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Num País civilizado à beira mar plantado...

Pistola eléctrica Taser...

Origem dos terramotos

Investigação teológica

Jamahiriya e o fim trágico de uma utopia…

O jovem coronel Muamar Kadafi, após o derrube , em 1969, do rei Idris – uma consequência da II Guerra Mundial - concebeu para a Líbia uma sociedade dividida em clãs e tribos com imensas diversidades culturais e interesses antagónicos um “regime popular de massas” apoiado em “comités populares” [que actuavam diversos níveis da organização tribal] tendo reservado para si o papel de “líder revolucionário” ou de “guia da Revolução”.

Passou a denominar oficialmente a Líbia como: Grande Jamahiriya Árabe Popular Socialista da Líbia cujo órgão máximo do poder seria o “Congresso Geral Popular”, emanado dos comités locais.

Jamahiriya é um neologismo criado por Kadafi, em 1977, que transpôs para o seu “Livro Verde” [onde colecta as ideias-chave do regime] e deriva do conceito jumhūrīya [que em árabe significa República] para designar um “estado de massas” emanado de uma “democracia directa”. Para conseguir esse objectivo “desconstrói” com “éditos revolucionários” – dois são fulcrais: o de 11.12. 1969 e o de 02.03.1977 - o conceito de “Estado-Nação”. No terreno, pontificam velhas disputas tribais que – apesar dos esforços de Kadafi - não consegue esbater, nem controlar a sua pesada influência política e moral sobre os diferentes clãs. Resta-lhe, com o dinheiro do petróleo comprar fidelidades e tentar dirimir conflitos. Ao fim e ao cabo, uma versão moderna do conceito medievo do filósofo e político magrebino Ibn Khaldun – asabiyah – que se debruça sobre a solidariedade e coesão social, fomenta a consciência de grupo, sob uma forma embrionária de nacionalismo adaptado às características berberes [nómadas]. link

Muamar Kadafi conseguiu, durante 4 décadas, gerir fracturas tribais políticas, sociais e culturais através dos comités populares [órgãos executivos] e os comités revolucionários [órgãos políticos], proibindo os partidos políticos [logo eliminando oposições] e controlando a Imprensa [logo sem informação livre].

Deu corpo, deste modo, um regime autocrático e repressivo que vigorou até ao presente, assente em equilíbrios precários, gerindo os conflitos entre clãs, através de um núcleo duro, sustentado por “fiéis”, em que a “sua” pequena tribo kadafa preponderava. Mais uma vez um regime autocrático privilegia a reapartição do poder pelos circulos familiares e de compadrio, criando um grupo que, para além do exercício político, captura a economia e as finanças e, no seu interior, tenta perpetuar-se, à boa maneira dinástica.


Os problemas que – ao longo de 40 anos - se acumularam na Líbia dizem, essencialmente, respeito a uma obtusa redistribuição dos enormes proventos resultantes da exploração do petróleo e do gás natural. E o centro da contestação “nasce” precisamente na Cirenaica, mais concretamente na cidade de Benghazi, "capital" do petróleo líbio, onde, desde os finais do séc. XX, se registaram levantamentos contra Kadafi, na altura, protagonizados por extremistas islâmicos [Grupo Islâmico Líbia], reprimidos a ferro e fogo ou, os sobreviventes, encarcerados na tenebrosa prisão de Abu Slim… Aliás, Benzhazi nunca apoiou abertamente a revolta dos jovens oficiais contra o rei Idris…

Cirenaica a partir dos finais do séc. XX [a partir das tentativas de rebelião] foi excluída do arbitrário e iníquo sistema de distribuição dos rendimentos do petróleo…para além de outras humilhações, provavelmente relacionadas com a dificuldade de concertação entre as tribos cirenaicas [beduínas] e tribos berberes [como a Kadafa].

Para além da desigual partilha dos proventos petrolíferos [com inegável prejuízo das regiões leste da Líbia], a existência de desemprego estrutural de cerca de 30% da força de trabalho, afectando essencialmente os jovens [muitos com formação técnica], acabou por intensificar as torrentes da revolta. É no envolvimento de uma juventude desiludida e sem trabalho que a revolta líbia, de alguma forma, coincide com os levantamentos populares ocorridos recentemente na Tunísia e no Egipto.

A “posse” e o controlo de uma discricionária e inaceitável utilização do sistema de redistribuição da riqueza, supervisionada pelo circulo íntimo de Kadafi, não consegue satisfazer os anseios das tribos que, na melhor tradição do tribalismo, rivalizam umas com as outras. As discriminações da liderança líbia no contacto com as diferentes tribos e desproporcionados [bárbaros] fenómenos de violência e repressão, acabaram por ferir a honra de algumas tribos. E afrontas deste tipo, numa sociedade regida por conceitos tribalistas, não têm solução. Lavam-se em sangue.

Os alicerces da Jamahiriya esboroam-se quando os líderes da tribo Warfala [uma das mais influentes e numerosas da Líbia], depois dos massacres perpetuados por forças afectas à clique de Muammar Kadafi, que ocorreram há alguns dias em Benghazi, denunciaram a ilegitimidade da repressão desencadeada pelo excêntrico déspota. A partir daí a Líbia deixa de ser um País e passa a ser uma manta de retalhos, com um singular denominador comum: todos contra Kadafi!

É deste modo, e nestas circunstâncias, que a Jamahiriya acabará por fenecer. Face a este inevitável desfecho o seu “criador” tornou-se um empecilho, neste momento, entrincheirado em Tripoli. Passou de líder a proscrito.


O que virá depois da Jamahiriya? Uma incógnita! Todavia, pior será difícil.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

História da emigração (Conto)

Delfina de Jesus e Simão Borrego casaram muito novos, no início da década de sessenta. Tinha ela acabado de fazer 18 anos e ele 19. E não foi por haver mouro na costa, que é como quem diz ir ela já prenhe, infâmia de solteira que na aldeia o matrimónio lava ou as facadas de pai ou irmão reparam. Nada disso. Mas também não mereceria o ramo de laranjeira com que se apresentou na Igreja, descaramento murmurado por mulheres vigilantes e amigos do noivo que várias vezes viram desaparecer o casal por trás dumas fragas, enquanto eles se entregavam à prática do pecado solitário, ignorando os riscos da cegueira e da tuberculose com que o Senhor Padre repetidamente os prevenia na confissão e nas homilias.

Nunca se atreveram a aproximar-se pois sabiam da perícia com que Simão punha uma pedra no sítio que pretendia, corno de cabra rebelde incluído, perícia de pastor que os mantinha em respeito, e limitavam-se a imaginar primícias saboreadas, corpos que se fundiam em êxtase, prazeres fantasiados, gozos por fruir.

As moçoilas da idade de Delfina compartilharam com ela muitas conversas sobre o namoro que os pais de ambos toleravam. Deviam saber coisas que as raparigas guardavam e de que os rapazes se gabavam ou ansiavam por conhecer. Talvez por isso a invejavam tanto sem a imitar.

Temiam o pecado que lhes perderia a alma, receavam a prenhez que lhes complicaria a vida, adivinhavam a desgraça que lhes enlamearia a honra, imaginavam a pancada com que o pai ou um irmão lhes partiria os ossos. E assim iam resistindo aos olhares incandescentes, às palavras sussurradas, aos convites suspeitos, aos apelos alheios ou ânsias próprias. Até ao dia em que a natureza e as circunstâncias falassem mais alto. Até um dia.

Poucos meses depois do casamento começou Simão a cismar na guerra de África para onde, segundo o Senhor Padre, os nossos jovens iam defender a Pátria e a civilização cristã, combater o comunismo e o terrorismo, coisas de que ele pouco sabia e que o privariam da mulher com quem tanto folgava e a quem se afeiçoara.

Em letras pequenas vira no jornal, entre vários, o nome de um amigo mais velho com quem fora tantas vezes aos peixes, com quem armara costilhos aos pássaros, com quem fora tomar banho ao rio da sua aldeia em véspera de ir às inspecções. Por cima do nome estava o título do costume – Ao serviço da Pátria – e depreendia-se que morrera por obrigação e que tivera sorte em poder imolar-se por tão nobre causa.

E foi assim que, alguns dias depois do desaparecimento de Simão, sem angústia dos pais ou mágoa visível da mulher, apareceram na aldeia dois senhores a fazer perguntas aos vizinhos, a ameaçar a família e os amigos e a obter declarações em longos interrogatórios no posto da GNR.

Constou-se que estava em França. Em breve chegaram notícias que o confirmara em carta, pois ele, além de saber ler, também sabia escrever e contar, finalidade da Escola Primária cuja instrução levara até ao fim. E só não foi mais longe nos estudos por não terem os pais achado necessário nem útil a quem tinha uma boa casa de lavoura, com uma horta ao pé da casa, campos de cereal, vastos terrenos de pastagens e uma boa quantidade de animais para cuidar.
Os pais nunca frequentaram a escola e, tirando o período da guerra e do racionamento que se lhe seguiu, nunca passaram fome. Para quê ter um filho doutor?

Esteve quase um ano Delfina, privada do homem e de alegria até que conseguiu ir ter com ele.
A aldeia foi esquecendo o casal. Os próprios pais, resignados à separação, pareciam tê-los esquecido também. Poucas foram as notícias que chegaram durante uma longa dúzia de anos.
Entretanto acontecera o 25 de Abril, a guerra de África tinha terminado, aos refractários era consentido o regresso. O País era outro.

 Simão e Delfina voltaram à terra num automóvel de luxo numa noite de Agosto. Vinham passar férias. Depois da euforia do reencontro, das saudades matadas, das saudações que o prior lhes fizera na missa, em que publicamente agradeceu o donativo para as festas da padroeira, donativo que o número de zeros tornava obsceno, depois de almoços e jantares para que convidaram toda a aldeia, o casal justou uma casa com piscina, comprou todas as propriedades disponíveis quase sem discutir preço, pagou o fogo de artifício para a festa da Senhora das Candeias, teve lugar de destaque na procissão e deu-se a todos os prazeres que o dinheiro pode comprar.

O casal foi muito acarinhado. Ambos demostraram saber ainda o nome das pessoas, não ter esquecido amizades e interessar-se pelos problemas da aldeia. Dispostos a acudir a dificuldades, interessados em dotar a terra com uma creche prometida pelos vários partidos em véspera de eleições e ainda não concretizada, logo fizeram o respectivo donativo em francos franceses que amplamente correspondiam às despesas necessárias e entregaram-no à Junta de Freguesia.

Delfina era verdadeiramente a primeira-dama da aldeia. Elegante no vestir, conservava os traços de beleza da juventude. Luziam-lhe ainda os dentes todos. Não se deixara engordar. Pela anatomia que um vestido de bom corte e discreta transparência deixava adivinhar, via-se que o tempo a poupara mais que o habitual. Parecia dez anos mais nova que as raparigas do seu tempo.

Simão mostrava uma ligeira curva na gravata que passara a usar, adereço que lhe destacava o bom gosto e acentuava o toque de prosperidade que o bafejara. Nem por isso usava qualquer distanciamento para com os seus velhos companheiros de infância. Pelo contrário, o tempo parecia ter robustecido os laços de amizade, a ausência cimentado o afecto, a distância aumentado a simpatia.

Foi numa dessas tardes de verão, na adega do Ezequiel, até então o mais rico da aldeia, colega de escola que ambos lograram concluir em quatro anos, amigo do peito desde sempre, que, depois de alguns copos e confidências várias, Simão revelou a chave do sucesso.

Depois de Ezequiel ter afirmado, por mera intuição, que em França se ganhava muito dinheiro, que a vida devia ter corrido muito bem a Simão, que devia ser possuidor de assinalável fortuna, ao que este anuiu, disparou-lhe:

-    Mas em que é que tu ganhaste tanto dinheiro?
   
Prontamente o amigo o informou, em vernáculo, claro, de que era proprietário dum prostíbulo de homens e doutro de mulheres, estabelecimentos que criara e vinha desenvolvendo há longo tempo, depois de uma breve passagem pela construção civil, a dar serventia de pedreiro, nos arredores de Paris.

Surpreendido e elucidado mostrou Ezequiel compreender a razão de tão sólida fortuna. E exclamou:
- Então tu, Simão, nunca tiveste dificuldades em França! 

- A princípio tive!.., rematou nostálgico, com ar de quem subiu a vida a pulso, lembrado dos tempos em que era só ele e a mulher.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Factos & documentos

 

O trilema egípcio

Excelente cartoon, de Bennett

Angariador de milagres

O postulador da causa de beatificação e canonização do papa João Paulo II, monsenhor Slawomir Oder, pediu para os fiéis relatarem novos supostos milagres atribuídos ao Pontífice.

Segundo ele, é importante que todos colaborem para que o processo siga adiante e, após a etapa da beatificação, chegue à da “santidade”.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Visão "canina" da revolta popular na Líbia...

"I am in Tripoli and not in Venezuela. Do not believe the channels belonging to stray dogs"... blogs.aljazeera

"Estou em Trípoli e não na Venezuela. Não acreditem nos canais pertencentes aos cães vadios" ...


Declaração telegráfica de Muamar Kadafi, ontem, na TV oficial líbia.

Uma cultura a erradicar

Em Portugal, a fraude fiscal goza de benevolência e não inibe o exercício dos mais altos cargos públicos.

Casamento promíscuo

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Para memória futura


"O segredo de justiça em Portugal é uma fraude" (DN)

domingo, fevereiro 20, 2011

Eleições alemãs: O amansar da fera…

A estratégia de defesa do euro, no decurso da actual crise, tem sido dominada pelas concepções financeiras, económicas e políticas da chanceler alemã Angela Merkel.

A líder da União Democrata-Cristã [CDU] tem desenvolvido uma política conservadora que tem influenciado toda a Europa. No decurso das eleições regionais alemães, hoje, sofreu o primeiro grande revés. Na Cidade-Estado de Hamburgo, terra donde é natural, o candidato da CDU, Christoph Ahlhaus, obteve 20.5% dos votos, sofrendo uma inequívoca derrota para o social-democrata Olaf Scholz [49.5% dos votos]. euronews

Este foi o primeiro dos 7 actos eleitorais dos “Landers” e, era considerado pelos analistas importante, para a sobrevivência política de Merkel, à frente dos destinos da Alemanha.

Em Março, realizam-se as eleições em Baden-Wuerttemberg onde – segundo as projecções - a CDU corre novamente o risco de ser derrotada.

Começa, assim, um novo ciclo político que é caracterizado pelo empalidecimento da sustentabilidade de Angela Merckel à frente do Governo Alemão. O que não significa a derrota da CDU, em próximas eleições federais.

Apesar de serem eleições regionais, estas influenciam a política federal, i. e., a política externa germânica e a política fiscal já que a mesma tem de ser aprovada pelo Bundesrat [o Conselho Federal], onde, a partir destas eleições de Hamburgo, a CDU tornou-se minoritária. Todavia, apesar destas vitórias regionais, a nível federal, o Partido Social-Democrata [SPD] na Oposição, continua a apresentar uma imagem de fraqueza, captando pouco acima dos 20% nas intenções de voto do eleitorado.

No entanto, as alterações da relação de forças no Bundesrat podem, dentro do pragmatismo político alemão, ter uma tradução na política financeira da UE.
A ver vamos.

Palpite de um merceeiro de sucesso

Crise alimentar, insurreições populares e futuras guerras…

Os levantamentos populares no Norte de África e Médio Oriente traduzem a vontade de mudança e de libertação dos povos concretizada na luta pela queda regimes opressivos dirigidos por ditadores, suportados por uma elite autóctone [política e/ou religiosa] envolvida na pilhagem dos recursos económicos e financeiros locais, na corrupção sistémica através do aparelho de Estado ou, ainda, receptores das “ajudas externas”.
Mostraram ao Mundo que a ocupação das chefias [políticas] nacionais por um conjunto de títeres ao serviço de interesses internacionais, concertados num vasto quadro estratégico mundial onde, desde as mortíferas fanfarronices de G.W. Bush e a paranóia do combate ao terrorismo, atingiu níveis insuportáveis e incompatíveis com as liberdades individuais e, simultaneamente, contribui para eternizar no poder regimes fantoches.

Mas existem outros factores para além das questões políticas. Na verdade, a persistência destes opressores no poder, acabou por trazer à superfície questões económicas e sociais que interferiram violentamente na vida quotidiana dos cidadãos. Duas questões terão sido determinantes: o desemprego de uma vasta camada jovem e o galopante empobrecimento de largos estratos populacionais.

Sobre a mobilização dos grupos populacionais jovens, educados e com acesso a redes de comunicação e de informação, muito está escrito e dissecado. A sua importância nas movimentações de massas nestes Países não pode ser escamoteada. Eles foram um [não o único]dos motores destas revoluções. Pouco mais há a acrescentar.

Por outro lado, o empobrecimento progressivo das populações tem sido ensombrado pela componente política. Na realidade, um outro motor das “revoluções”, se olharmos com atenção à trajectória histórica dos povos, sempre foi a fome. Ou melhor, as grandes mudanças políticas e económicas coincidem com ciclos de fome, basta olhar para os mecanismos precursores da Revolução Francesa.
Esse é um espectro dramático que, actualmente, perturba todo o Mundo.

Neste momento, a subida dos preços dos bens alimentares é [deverá ser], politicamente, preocupante. Vários alertas têm sido lançados por ONG’S, pelos conclaves orquestração da riqueza [G-8; G-20], por organizações internacionais [FAO] e, inclusive, pelo Banco Mundial.
Segundo este último organismo [Banco Mundial] - que tem por dever ajudar os países em desenvolvimento a reduzir a pobreza - a situação presente decorrente da subida descontrolada dos preços dos bens alimentares lançou, entre Junho e Dezembro de 2010, 44 milhões de pessoas [em todo o Mundo] no limiar da pobreza extrema. link Uma verdadeira catástrofe social e humanitária que condicionará – a par das questões energéticas e da água - as políticas mundiais no século XXI.
Esta é mais uma vertente da presente crise económica e financeira. O preço dos alimentos básicos deverá disparar, este ano, cerca de 10%!. Dois produtos estão incluídos neste pacote: o pão e o leite. link

O peso desta terrível crise alimentar tem vários gradientes de impacto nos diferentes Países. De acordo com ONU, uma família dedica aproximadamente 15% do seu rendimento para aquisção de bens alimentares [nos países desenvolvidos], mas essa proporção pode chegar a 60%, 70% e até 75% do orçamento familiar nos países em desenvolvimento... link

Será, inevitavelmente, uma crise que alargará o fosso entre ricos e pobres aprofundando as desigualdades sociais.
Face a estas negras perspectivas Robert Zoellick [presidente do BM] porpôs um "New Deal for Global Food Policy" que entre outras medidas de fundo passa por estímulos a um desenvolvimento, a longo prazo, do sector agrícola. link
Por outro lado, Dominique Strauss-Kahn, director do FMI, defendeu a necessidade de fazer frente à crise alimentar através de acções do BM destinadas a colmatar de imediato as carências nutritivas dos mais vulneráveis e, desde logo, começar a investir na distribuição de sementes e fertilizantes, bem como, promover a melhoria das redes sociais de segurança social. O preço se não forem tomadas medidas deste tipo é, pura e simplesmente, mais guerras... link.

Enfim, enquanto nos empenhamos, dia a dia, no combate à crise financeira e económica, paralelamente, o Mundo caminha em direcção ao abismo. As crises regionais são minimizadas. A verdadeira crise é global e diz respeito à sustentabildade da vida no Planeta. E veio para ficar!

Esta direita sem vergonha e sem memória

Para quem tem memória curta e acusa o actual Governo – talvez com razão, mas com falta de pudor –, de colocar correligionários na direcção dos Centros de Segurança Social, deixo aqui um texto que publiquei no «Expresso» na secção de “Cartas”:

A radical limpeza étnica levada a cabo por Bagão Félix, ao abrir de uma assentada 18 vagas de directores distritais da Segurança Social e igual número de directores-adjuntos, para gáudio de outros tantos cidadãos ansiosos de provarem a sua “identificação com a missão”, pode causar suspeitas de compadrio partidário.

O método faxista (através de fax) de exonerar de forma expedita e em simultâneo todos os dirigentes pode criar a ideia de irreflexão, sem ter em conta a avaliação do mérito individual dos atingidos, ou a suposição de ter agido por vingança para com os protagonistas de um ministério emblemático da gestão socialista.

Com  tantos fiéis à espera dos lugares, a demissão de trinta e seis dirigentes pelo piedoso ministro corre o risco de ser considerada um acto de proselitismo de um cruzado, promovendo um auto de fé em que imolou todos os suspeitos de serem  infiéis.

Com a reputação de independente, o ministro que o Dr. Portas colocou na Segurança Social pode ter ultrapassado em sectarismo alguns homólogos com antecedentes radicais.
Para um cidadão que tão denodadamente se tem batido contra a despenalização do aborto, corre o risco de ter praticado um, de natureza política, como ministro. E o remorso, bem ao jeito da tradição judaico-cristã, pode vir a amargurá-lo no futuro.

De qualquer modo o ministro não parece ter tomado uma decisão a condizer com o nome (feliz – Do lat. felix).

Publicada em 5 de Outubro de 2002 (Expresso)

Mundo Árabe - Eppur si muove

El Gobierno retira al Ejército y a la Policía.- Los opositores gritan en la plaza: "Queremos la caída del régimen" y "ni suníes ni chiíes, somos bahreiníes"

sábado, fevereiro 19, 2011

Mediáticas e insondáveis alarvices...

E se todos nós, ilustres cidadãos, começássemos a falar de instituições bancárias, engenharias financeiras, sistemas de crédito, operações bolsistas, projectos de enriquecimento rápido, de Fundações de Arte, etc.?

Não apareceria alguém a mandar calar a turba?
Não nos puxavam pelas orelhas?
Não nos arrancavam a língua?
Não levávamos uma roda de ignorantes?

Então como é possível dizer tantos dislates em tão pouco espaço e merecer honras de publicitação? jornal de negocios

Irra! Já nos basta o Medina Carreira...

Sur la bonne voie...

Marek Rybinski - foto dnia/news/polski


Cerca de 1 mês após a fuga de Ben-Ali, a Tunísia, enfrenta as primeiras questões sobre a laicidade do futuro regime.

O rastilho que acabou por provocar a primeira manifestação pela laicidade na Tunísia foi o assassínio de um pastor católico polaco, Marek Rybinski, nas proximidades de Tunes, ao que parece, envolvendo esbirros "benalistas".

O governo interino da Tunísia apressou-se a condenar este atentado à vida e a intolerância religiosa que lhe está subjacente.
No entanto, é de registar que o principal movimento islamita tunisino, Ennahda, também condenou, veementemente, esta morte. Mais, o Ennahda, denunciou este caso como "uma manobra para desviar os tunisinos dos objectivos da revolução"... liberation.fr
Entretanto, na rede social Facebook circula uma petição mais concreta: "Por uma Tunísia laica" e "Fim aos actos extremistas"...

Comentário: No bom caminho!

PALESTINA: Insanáveis contradições da política externa americana…

Os EUA têm sentido algumas dificuldades em lidar com a actual situação insurreccional que se vive no Norte de África e Médio Oriente.

Não vale a pena mistificar nem complicar a situação. Trata-se de países submetidos a ferozes regimes ditatoriais [nas suas múltiplas modalidades] que, em nome da “perigosidade do islamismo”, beneficiaram de ampla protecção política e económica do Ocidente, nomeadamente, dos EUA. Esta posição, por mais voltas de que dê, entronca-se no arrastado conflito israelo-palestino e tem determinado a política expansionista de Telavive [ver acima mapa "evolutivo"].

Os EUA tentam acompanhar [influenciar] – de modo subtil e discreto – o curso dos acontecimentos nos Países que se libertaram [ou lutam para libertar-se] dos seus ancestrais regimes despóticos, com o intuito de salvaguardar a possibilidade que o processo de mudança em curso venha a desembocar em “Estados Islâmicos”, facto que destruiria os equilíbrios estratégicos concebidos para essa região. Para jogar um papel decisivo na evolução dos acontecimentos, os EUA, necessitam de consolidar o seu prestígio junto ao Mundo Árabe.

Ontem, a Administração Obama foi submetida a uma dura prova no CS da ONU face a uma proposta de resolução que visava condenar os colonatos israelitas em território palestino.

As recentes negociações israelo-palestinas, que decorrem sob o alto patrocínio dos americanos, encontram-se bloqueadas, precisamente por causa do diferendo surgido acerca dos novos colonatos judeus, no território da Cisjordânia. Embora a posição política da Administração Obama acerca dos novos colonatos seja - aparentemente - de rejeição, ontem, na votação no CS da ONU, para impedir a condenação de Israel, os EUA, tiveram de recorrer ao uso do seu direito de veto. nytimes

Mais uma vez se evitou a condenação da política expansionista do regime ultra-conservador de Benjamin Netanyahu. Mas, também, mais uma vez a liderança da política mundial [é por isso que ostenta o privilégio de vetar, i. e., bloquear resoluções] desbarata a capacidade de influenciar, de modo positivo, as mudanças políticas em curso nos países muçulmanos. É cada vez mais evidente o desfasamento entre os interesses americanos e o consenso internacional.

A chamada “revolução árabe” [termo impróprio] entrou em roda livre. Na verdade, a exposição ao risco de derivas "islamizantes" aumenta com atitudes deste tipo. O futuro do Magreb e do Médio Oriente torna-se, cada vez mais, incerto. E, apesar da protecção americana, o de Israel, também. As posições dúbias e as jogadas oportunistas, manhosas [enfeudadas a lobbys], conduzem invariavelmente a resultados desastrosos, torpedeando todos os esforços de PAZ.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Registo Civil Obrigatório – 1.º CENTENÁRIO


Em 18 de Fevereiro de 1911, há cem anos, a inscrição obrigatória de todos os portugueses no Registo Civil, independentemente da confissão religiosa, a República transferiu da esfera paroquial para a tutela do Estado o registo das pessoas que passaram a ser cidadãos sem necessidade de baptismo.

A lei que instituiu o Código do Registo Civil precedeu a promulgação da Constituição da República Portuguesa e obrigou a que todos os registos paroquiais (baptismos, casamentos e óbitos) anteriores a 1911 gozassem de eficácia civil e fossem transferidos das paróquias para as Conservatórias do Registo Civil, recém-criadas.

Laicizaram-se os nascimentos, casamentos e óbitos passando a actos civis as meras cerimónias litúrgicas da religião do Estado. Em breve, em 20 de Abril de 1911, a "Lei da Separação da Igreja do Estado daria à República o carácter laico que a colocou na vanguarda da modernidade.

Não foi pacífica a medida que transferiu o monopólio dos padres católicos para os funcionários civis e concedeu a todos os portugueses o direito de que apenas os católicos usufruíam.

Hoje, 100 anos volvidos, nem o mais empedernido dos crentes contesta a legitimidade e o alcance social da lei que a República criou num país a quem a monarquia tinha legado mais de 75% de analfabetos.

O pântano da reformas, estruturas e superestruturas…

Ontem, Pedro Passos Coelho, na grande entrevista [RTP1] voltou a repisar o tema das “reformas estruturais”.
No seu entender, isto traduz-se na “racionalização da Administração Pública e do Sector Empresarial do Estado…”. link
E, para o dirigente do PSD, racionalizar é “cortar”. Se é verdade que este é um assunto candente, i. e. , a UE tem, recorrentemente, insistido nesta tecla perante os programas de estabilidade e crescimento que lhe são apresentados, é evidente que a concepção reformista centrada em cortes é, confrangedoramente, redutora.
“Reformas estruturais” é um chavão que os portugueses ouvem há dezenas de anos…sem perceberem o seu significado, muito menos o seu real alcance.
A luminosa visão de Pedro Passos Coelho, expandida no citado programa televisivo, de que as empresas púbicas têm “administradores, carros e motoristas” a mais, sendo um facto incontroverso, é demasiado vulgar. Mais parece uma boçal conversa de café.

Muitos portugueses partilham a convicção de que a reforma da Administração Pública e do Sector Empresarial do Estado, passa por alterações profundas do actual sistema político-partidário, verdadeira superestrutura responsável pelo descontrolo orçamental público. Nomeadamente, passa pelo fim do espírito clientelar emprestado pelos partidos do arco do poder ao aparelho de Estado. Hoje, o bloco central “chumbou” as limitações nas remunerações dos gestores públicos, medida que [o bloco central] considera demagógica. link Todavia os “cortes salariais” na função pública e no sector empresarial do Estado, são “patrióticos”…

Depois deste “sinal” que irradia do Parlamento, não admira que comecem a surgir casos enviesados como o da CP Carga link, ou pior, como a TAP que se recusa a aplicar nos salários os cortes decretados pela Lei Orçamental. Mas esse assunto é praticamente tabu, será mexer com a vaca sagrada do bloco central [dos interesses].

Aliás, quando António Guterres pretendeu mexer nisto [Administração Pública] e manifestou vontade em legislar para que o acesso aos cargos da Administração Pública fossem exclusivamente processados através de concursos [necessariamente públicos] – afundou-se num “pântano”…
Hoje, sabemos que o pântano se expandiu… e o País transformou-se numa insalubre zona húmida. Num imenso lodaçal.

Bodo aos pobres...

A situação política e social nos países de maioria muçulmana no Norte de África e no Médio Oriente, como temos vindo a observar, é explosiva.

As causas profundas desta crise são múltiplas e vão desde a corrupção, passando pelo despotismo até ao “código de vida islâmico” ...

Estas situações têm merecido a complacência – quando não o apoio público - do Ocidente em nome de equilíbrios políticos que têm como denominador comum a estabilidade. Muita dessa estabilidade tem um cheiro nauseabundo, uma consistência viscosa e cor castanho escuro, i. e., o petróleo…

Mas, tomemos como exemplos dois países em “convulsão”: O Bahrein e a Líbia.
Perante a “onda” de descontentamento popular, face aos “dias de raiva” que fizeram – para além da repressão - os vitalícios déspotas?

No Bahrein, o emir Hamad bin Issa al-Khalifa distribuiu 3000 US dólares por cada família para assinar o “10º. aniversário da Carta de Acção Nacional” e “como prova de apreço ao povo”… link

Na Líbia, Muammar al-Khadafi propôs a duplicação dos salários dos funcionários públicoslink

Chama-se a isto “atirar dinheiro” para cima dos problemas, tentando "afogá-los". Para povos “em fúria” não resulta. Primeiro, porque todos se interrogam “porquê só agora?”. Segundo, estes gestos são o implícito reconhecimento que antes algo lhe estava a ser subtraído, em nome de quê?.

Depois, estas “manobras” acabam por desencadear uma espiral de reivindicações:
- Porquê 3000 dólares e não 30 000?
- Porque duplicar ordenados e não triplicá-los?

Os protestos de rua não são uma quermesse onde se fazem peditórios, se rifam objectos e se distribuem benesses. São manifestações de profundo descontentamento que têm como objectivo derrubar regimes corruptos, ditatoriais e sanguinários.

Tentar enfrentar revoltas políticas e sociais como se fosse um festim – daqueles que propiciam aos magnânimos senhores encenar um bodo aos pobres – é perder a visão política, escarnecer da pobreza, dourar a indecência e mostrar a chantagem e/ou revelar o suborno. Isto é, em vez de sanar problemas, exacerba-os.

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Diploma estratégico…

O governo aprovou um diploma que prevê a extinção do número de eleitor. Trata-se de uma decisão para aplicar a partir de 1 de Janeiro de 2013. link

Esta decisão foi criticada pelas oposições parlamentares apodando-a de “precipitada”, ou mais drasticamente, como um “tiro no escuro”, “um passo muito arriscado”, etc.

Independentemente da necessidade de resolver um problema eleitoral que as últimas eleições presidenciais levantaram e que colocaram membros do Governo na senda de uma imputada responsabilidade política, esta medida tem, na actual conjuntura, um alcance estratégico.
Estando o Governo sob o fogo das oposições este é um sinal, para o País, de que o Executivo está determinado em cumprir a totalidade do seu mandato. Ou seja, ao postergar a sua aplicação para 2013 manifesta a convicção que não prevê a hipótese de eleições intercalares...

Foram-se as indulgências (conto)

Jerónimo Felizardo estava a aliviar o luto a que a perda da amantíssima esposa, Deolinda, o obrigara. Não se pode dizer que lhe fora muito dedicado em vida nem excessivamente fiel. Mas habituara-se a ela como um rafeiro ao dono que o acolhe.

Sentia-lhe agora a falta. Deolinda de Jesus dera-lhe tudo. Mesmo tudo. Até o que é obrigação e nela nunca foi devoção e, muito menos, entusiasmo. Deu-lhe independência económica, boa mesa, respeito e uma filha. Deixou-lhe uma pensão de professora, metade do ordenado do 10.o escalão, que acrescentava a outros proventos e o punham ao abrigo de sobressaltos.

Com a filha não podia contar. Fora para Lisboa frequentar a Universidade Católica, a cujo curso e influência deve hoje o desafogo em que vive e o lugar importante no Ministério. Metera-se no Opus Dei e enjeitou a família. Mesmo a mãe, a quem fora muito chegada, só lhe merecera duas breves visitas nos três anos de doença prolongada com que Deus quis redimi-la do pecado original.

Era natural que substituísse as visitas por orações, que não exigiam deslocações nem hora certa, que haviam de prolongar a vida e o sofrimento, assim Deus a ouvisse. E ouvi-la-ia de certeza porque, além de omnipotente e omnisciente, vinham duma devota fiel à instituição que o Papa amava quase tanto como à bem-aventurada Virgem Maria.

A poucos meses de fazer meio século Jerónimo empanturrava-se de comida que Carolina, afilhada do crisma de D. Deolinda, se esmerava a cozinhar com um desvelo que a filha nunca revelara. Bem sabia que a gula era um pecado capital mas que a prática e o exemplo eclesiástico largamente tinham despenalizado. Nem mesmo o Prefeito para a Sagrada Congregação da Fé, tão cioso guardião da moral e dos bons costumes, o valorizava demasiado. A gula não é propriamente a luxúria, que é das maiores ofensas feitas a Deus, pecado dos maiores e, de todos, o que mais contribui para a perdição da alma.

Em tudo o mais era Jerónimo um viuvo exemplar. Dera-se à tristeza e à oração. Arrependia-se das vezes em que não cumpriu o dever da desobriga, da frequência escassa à eucaristia, das missas a que faltou, em suma, das obrigações de cristão que não cumpriu com a intensidade, duração e frequência que recomendava a Santa Madre Igreja. Mas, de tudo, o objecto maior de arrependimento era o adultério que cometera e em que, sempre confessado, reincidiu.

Mas isso terminara há muitos anos. A infeliz que seduzira casara e virara fiel ao marido a quem agradecia tê-la recebido canonicamente apesar de saber que já não ia como devia. Conformado, não se importando de ficar com mulher que já não ia inteira, nunca suspeitou de ornamentos de homem casado, sempre julgou que o autor era um antigo namorado que a morte por acidente impediu de reparar a desonra.

Desse pecado se redimira já, pela confissão, penitência e promessa de nunca mais pecar. Agora, à castidade que se impunha, ao cumprimento dos mandamentos a que se devotara, juntava uma vontade forte de conquistar indulgências nesse ano 2000 do Grande Jubileu.

Bem sabia que as indulgências requerem sempre a confissão sacramental, a comunhão eucarística e a oração pelas intenções do Papa, condições sine qua non para a sua obtenção. Quanto às disposições para a sua aquisição não era difícil cumpri-las. Bastava peregrinar a uma Basílica, Igreja ou Santuário designado para o efeito, e eram várias as opções na diocese, e rezar o Pai-nosso, recitar o Credo em profissão de fé e orar à bem-aventurada Virgem Maria, tarefas de que se desobrigava com prazer e entusiasmo. Mesmo a recomendável contribuição significativa para obras de carácter religioso ou social estava ao seu alcance e não deixaria de fazê-lo.

Embora gozando de excelente saúde e de razoáveis análises nunca é demasiado cedo para o sincero arrependimento e cuidar da alma. Veio a calhar o ano do Grande Jubileu que Sua Santidade avisadamente instituiu nesse Ano da Graça de 2000.

Jerónimo tomou como bênção do Céu ter ficado Carolina a cuidar dele. Antes de se recolher ao quarto rezavam os dois, todos os dias, por D. Deolinda, Esposa e Madrinha, respectivamente, para que a sua alma mais célere entrasse no Paraíso, aliviada das penas do Purgatório.

Passava os meses dedicado à oração, à penitência e à agricultura, outra forma de penitência que alguns teólogos interpretam como a mensagem do anjo do 3.o segredo de Fátima. Disse-me um crente praticante, e não incréu militante, que a penitência que o anjo três vezes pediu era uma forma de exigir dedicação à agricultura, modo de empobrecer e salvar a alma, vacina contra os sectores secundário e terciário onde os homens perdem a fé e a Igreja os fiéis.
No primeiro dia de Maio, a seguir ao jantar, horas depois dos comunistas ateus se terem manifestado nas ruas de Lisboa e Porto, enquanto Carolina ficou a arrumar a cozinha, foi Jerónimo ao mês de Maria, acto litúrgico que na sua cidade de província sobreviveu à conversão da Rússia e à consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria.

À saída da igreja entrou no carro, dirigiu-se à quinta que distava duas léguas da cidade, deu um bocado de conversa ao caseiro e uma olhadela às vitelas, distribuiu-lhes ele próprio um pouco de ração, mandou verificar a pedra que tapava o buraco das galinhas para protegê-las da raposa, deu a bênção aos afilhados, filhos do caseiro, e regressou à cidade onde viveu em vida de D. Deolinda, por vontade dela que detestava a lavoura e o campo, e vivia agora por hábito e fidelidade à memória da falecida.

Ao regressar a casa admirou-se de ver todas as luzes acesas, excepção para o seu quarto que a luz do corredor iluminava discretamente.
Ia entrar em busca da santa Bíblia quando, sobre uma colcha de seda, na cama, deparou com o corpo esbelto de Carolina, esplendorosa escultura de 20 anos à espera de ser percorrida, vestida apenas de penumbra e longos cabelos castanhos esparsos sobre o peito, donde brotavam túmidos mamilos à espera de afago.
O quarto parecia iluminar-se progressivamente. Já uns lábios carnudos se ofereciam sequiosos e um corpo arfava em pulsações rápidas, num incontido furor de ser possuído, numa ânsia insuportável de ser saciado, primícias ávidas em busca de serem saboreadas.

Jerónimo sentiu sobrar-lhe roupa e minguar-lhe a resistência.

Foram-se as indulgências…
Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Berlusconi em maus lençóis

In Público, hoje

Acabar com o folhetim…

Desmontada – como parece que está - a questão do voto de censura anunciado pelo BE é tempo de acabar com este folhetim que ocupou a “classe política” portuguesa nos últimos dias.

De facto, a voluptuosa efervescência que nasceu - e cresceu - à volta do tremendo erro político que foi protagonizado pela direcção do BE, poderá ter efeitos perversos e acabar por ferir a confiança dos portugueses em relação ao Governo e às Oposições. Ninguém fica de fora!

A já dissecada infantilidade da posição BE induziu respostas desconformes. Conduziu a uma “dramatização” excessiva e desproporcionada do ambiente político nacional reveladora de uma imaturidade que um regime com 37 anos de percurso parecia ter ultrapassado. Criou - vemos com um distanciamento histórico de menos de 1 semana – aquilo que hoje podemos considerar “uma tempestade num copo de água”.

A moção de censura nasceu pejada de pecadilhos, politicamente inconsistente, com um incompreensível timing, titubeante para os próprios protagonistas e, desde logo, condenada ao insucesso. Para usar um lugar-comum dos think thanks políticos: “as condições não tinham amadurecido”…
Mas as reacções – em todo o espectro partidário – alimentaram múltiplas especulações e construíram cenários para todos os gostos. Os fogos-fátuos ateados à volta da moção de censura do BE tiveram, porém, uma virtude: clarificaram os timings do Centro-Direita [PSD e CDS] quanto à estratégia de derrube do Governo e denunciaram uma iníqua evocação do “interesse nacional”. link

Na verdade, este é um assunto [politicamente] morto. As sequelas ficam para os que têm memória. E, enquanto os partidos se afundaram em discussões imediatistas e tácticas sobre um cenário político irrealista, o País [real] caminhou apressadamente - nesse mesmo lapso de tempo - no sentido do aprofundamento da crise. Mais uma vez tomamos a nuvem por Juno. Mais uma vez andamos distraídos e divertidos...

Se é verdade que temos conseguido algum equilíbrio orçamental [subsidiário de pesadas medidas de austeridade], esse facto, não tem tido repercussões na situação financeira do País que, progressivamente, se degrada, como se infere das declarações de Teixeira dos Santos, à entrada da última reunião do ECOFIN. link A sensação residual é que fomos abandonados à fúria dos especuladores do dito “mercado financeiro”.
Por outro lado, o crescimento económico vive momentos dramáticos e de grande incerteza apresentando-se como inevitável o espectro de uma nova recessão. link

São estas realidades económicas e financeiras que, à margem das chicanas políticas, preocupam profundamente os portugueses.

De resto, a inconsequência do voto de censura na estabilidade governativa, a derrocada estratégica da Esquerda [não só do BE], as promessas do PSD na defesa do status quo [a prazo, note-se], não acalmam o ambiente político, nem incutem confiança aos portugueses quanto ao caminho desenhado para enfrentar a actual crise. São episódios marginais de um folhetim cujo desfecho todos julgamos conhecer…

domingo, fevereiro 13, 2011

Uma nova "rua árabe” ? …

Os recentes acontecimentos ocorridos na Tunísia e no Egipto reavivaram no Ocidente uma velha questão: a islamização desses Estados.
Este receio, condicionou uma perversa complacência dos Países ocidentais para com os regimes tirânicos e despóticos que, durante o séc. XX, aí se foram instalando, i. e., na era pós-colonial.
Mas, o Ocidente, saltou do receio para o pesadelo com a queda do Xá da Pérsia, em 1979, seguida da implantação de um regime teocrático, regido pela lei islâmica [sharia].

Assim, a pergunta que paira no ar é: que rumo tomarão este Países que se libertaram de ditaduras ?
Nestes 2 países as revoltas desenrolaram-se sem que o islamismo desempenhasse um papel preponderante. Na verdade, ambos os regimes ditatoriais [tunisino e egípcio] perseguiram e condicionaram a possibilidade do islão político influenciar o seu exercício autocrático do poder.

E estes povos, maioritariamente muçulmanos, uma vez libertos dos ditadores, qual o papel que reservam para o “Islão político”?
As situações são diferentes nos 2 países libertados. Se na Tunísia a presença islâmica na política parece, no momento, incipiente, no caso egípcio, estamos em presença de uma organização religiosa forte e organizada – a Irmandade Muçulmana - que tendo sido ilegalizada por Mubarak, acabou por ser tolerada, tal a sua influência social.
E é o "caso egípcio" que, no contexto internacional, constitui o foco de todas as atenções e, consequentemente, divide as opiniões. Na verdade, a Irmandade Muçulmana, se deu nas vistas foi pela sua contenção e prudência.

Os EUA e Israel receiam que estas mudanças sejam um espaço aberto para a criação de Repúblicas Islâmicas que, de certo modo, perturbariam equilíbrios pré-estabelecidos. Paradoxalmente, a Arábia Saudita, um reino feudal governado a ferro e fogo pela família Saud, de braço dado com ulemas wahabitas, alimenta também este espectro junto do Ocidente para salvar a face e assegurar a sua continuidade. Este foi, ainda, o argumento esgrimido por Hosni Mubarak para enfrentar a rebelião e defender o regime.

Na realidade, as imagens que tivemos oportunidade de observar […muitas vezes em directo] da nova revolução árabe mostraram, na rua, uma representação social e política transversal: uma geração nova, influenciada por uma cultura globalizada subsidiária das novas tecnologias de comunicação e informação; uma classe média desiludida e castrada nas aspirações de progressão social e, finalmente, uma multidão de desfavorecidos, de excluídos do regime e da riqueza, sobrevivendo sem futuro.

A religião muçulmana embora presente nas grandes manifestações da Praça Tahrir, onde os participantes oravam de acordo com a sua fé, assimilou a presença de cristãos coptas munidos de símbolos religiosos, o que é um indício de mudança.

O substrato destes levantamentos populares parece ser influenciado por uma nova geração pós-islâmica que “descobriu” a democracia e enfatiza a solidariedade árabe, num contexto de incipiente laicidade. A apropriação destes processos de ruptura pelas religiões [seja quais forem], é sempre possível e nasce de radicalismos que serão primariamente subsidiários da fome e não da fé.

A noção residual que fica no presente é que depois de décadas de “reislamização do Mundo Árabe”, estas revoltas podem traduzir um novo ciclo de “desislamização” e de reencontro com o progresso e o desenvolvimento [que foi no passado uma das “marcas” árabes].

Todavia, o que de facto importa, para estes Países, é não alienar, nem hipotecar, esta soberana oportunidade de construir livremente o futuro. Esperemos que se abra uma “nova rua árabe”...

sábado, fevereiro 12, 2011

Moções & Emoções...

O Bloco de Esquerda [BE] anunciou no último debate parlamentar – depois de desafiar José Sócrates a apresentar uma moção de confiança na AR – que, no dia 10 de Março, apresentaria uma moção de censura ao Governo. E explicou porque datou esta moção. O PR toma posse a 9 de Março passando, a partir desse dia, a exercer a plenitude das suas competências constitucionais. Isto significa que o BE pretende credibilizar a sua moção carregando-a com todas as consequências políticas, i. e., provocar a queda do Governo e Eleições Legislativas antecipadas.
Este anúncio caiu de supetão na AR. Desencadeou uma imediata reacção do 1º. Ministro, na própria AR, resposta que começou com sorrisos nos lábios para acabar com um tom de alguma altercação.

Todavia, este arremedo político tem, por detrás, alguma história. Na verdade, há cerca de uma semana, o PCP, pela voz do seu secretário-geral, Jerónimo de Sousa, tinha aventado a hipótese de apresentar uma moção de censura ou, então votar favoravelmente qualquer moção de censura, mesmo vinda da Direita. Passados alguns dias, na Madeira, faria um recuo a esta posição e a sugestão, publicamente enunciada, seria encaminhada para o Comité Central. A hipótese de esta posição ser interpretada como um bónus à Direita e, mais importante ainda, ficar dependente da sua agenda política [da Direita], levaria o PCP a deixar em banho-maria o despoletar de uma crise política. O PCP, por outro lado, não tem por hábito correr atrás de foguetes, devendo estes processos ser longamente planeados e amadurecidos. Quando optasse por apresentar uma moção de censura, esta deveria surgir em momento próprio e uma vez criado o clima propício. E, a agenda dos comunistas passaria, obrigatoriamente, pela criação de condições objectivas que afastassem o espectro de ser penalizado por uma atitude voluntariosa que acabaria por favorecer o Centro-Direita. Assim, o PCP, a apresentar uma moção de censura, fazia-o antes de Outubro – quando é previsível em tempos de decisões orçamentais a Direita avançar – mas sempre depois do 1º de Maio, altura em que prevê que a crispação social e a contestação política atinjam um ponto alto.

Toda esta dialéctica política e o evidente enredo táctico do PCP, perturbou o BE e levou-o a, apressadamente [para não dizer precipitadamente], avançar com o anúncio da referida moção para daqui a 1 mês [logo após a posse do PR]. Esta situação tem sido interpretada como uma competição no espectro político à esquerda do PS e caracterizada como uma disputa em busca de protagonismo político. Mas foi pior do que isso: o BE acabou, com alguma ligeireza, por concertar-se com uma obscura agenda de poder que mistura as aspirações do Centro-Direita com a reeleição de Cavaco Silva.

A moção a apresentar pelo BE não deve ser – como foi – classificada como “irresponsável”. Na realidade ela não deixa de ser coerente com a carga ideológica e doutrinária e a praxis desta formação política. Embora represente um incómodo em relação às soluções encontradas [definidas pelo PS/PSD mas assumidas isoladamente pelo PS] para enfrentar a crise, a oposição às medidas de tomadas [austeridade, contenção orçamental e estagnação do investimento público] é legítima. Existem, em relação à actual crise, leituras díspares e, consequentemente, liberdade de pensar outras propostas, tomar posições políticas de repúdio ao modelo actual. As políticas engendradas para responder à crise sendo, em larga medida, concertadas no seio da UE, são vistas pelo BE como uma deriva neoliberal, dada a preponderância de Governos conservadores nos Estados europeus, bem como das estruturas partidárias transnacionais como, p. exº., o Partido Popular Europeu que domina o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia.

É neste quadro que deve ser avaliada a posição do BE que, de certo modo, é uma reacção primária a um novo pacote de medidas ditas “estruturantes” [a proposta Merkel/Sarkosy no último Conselho Europeu], como moeda de troca para o reforço dos Fundos de resgate europeus [Fundo de Estabilização Europeu].

Claro que a situação do País é grave em termos económicos e financeiros e a iniciativa do BE será – pelos "situacionistas" – considerada como inoportuna. Em política, uma coisa é a oportunidade e outra será a responsabilidade. O regime democrático sai lesado na sua capacidade de gerar soluções [na sua “democraticidade”] quando o confronto de posições, de ideias, ou simples enunciado de políticas alternativas é, de imediato, apodado de “calamitosa irresponsabilidade”.

Em suma, a política é feita por homens e mulheres, enfim, seres humanos com convicções, emoções, certezas, dúvidas, rejeições, adopções, etc..
É neste sentido que, o anúncio do voto de censura pelo BE não deve ser considerado uma irresponsabilidade [mormente para os preponentes]. Pode ser, para os visados ou, transpondo para o âmbito nacional, para o País, politicamente inoportuno. Mas mal de um País que não suporta este tipo de confrontos que são a essência do regime, em nome de uma imagem a exportar para a Europa ou para o Mundo. De facto, ninguém sabe onde residem os mercados e em que terreno atacam os especuladores.

Feita esta longa ressalva, o voto de censura agendado pelo BE veio revelar outros factos menos visíveis. E um deles, que tem sido pouco referido, foi a notória incapacidade do PSD em reagir a um novo facto político, não agendado, imprevisto. Surpreendido - como muitos outros - enquistou-se e entrou em súbita hibernação caucionando esta posição no dilatado tempo que mediará entre o anúncio e a apresentação formal do voto de censura. Anuncia que vai estudar os termos concretos da moção, refugia-se em formalismos. As razões do voto de censura não diferem da prática política do BE, ao longo do último decénio. Mas para ganhar tempo finge não perceber. Entretanto, na ribalta política, agitam-se as vozes de barões, escudeiros e peões de brega, oscilando entre um aproveitamento da situação criada pelo BE ou na sua rejeição em nome princípios éticos, de distanciamentos partidários, do “interesse nacional”, etc. De facto, a moção pode não ser só inoportuna para o País, será também para a agenda de tomada do Poder, desenhada pelos estrategas do PSD. Veio cedo demais. Foi extemporânea. Embora desfrutem de boas projecções nas sondagens não estão preparados para assumir responsabilidades e consequências da governação. A táctica do momento é endossar o ónus para o PS. É, ainda, cómodo ficar na Oposição.

De resto, a moção de censura não terá resultados práticos para o Governo ou para o País, além de provocar o reacendimento do debate político e partidário. Os dirigentes políticos sabem isto, o PR idem e, os mercados, também. Dramatizar é que pode prejudicar os portugueses.
Toda a gente sabe que o PSD vai enveredar pelo corriqueiro: “não me comprometam...”. E, pomposamente, em nome do interesse nacional, da estabilidade, da responsabilidade, vai abster-se. Tem sido assim desde que Passos Coelho dirige o partido. A regra é abster-se em questões fulcrais e politicamente delicadas e, no momento, vir para a praça pública cantar loas que foi o grande facilitador para, no dia seguinte, branquear prévios compromissos, pedir desculpas ou, simplesmente, pôr-se de fora.

Até quando? Com certeza que até à discussão do OE de 2012. Essa é a sua agenda política há muito denunciada. Na verdade, o suspense dura há mais de um mês. Persiste desde as eleições para a presidência da República.

PICARDIAS DO BLOCO DE ESQUERDA

O Bloco de Esquerda é um agrupamento de intelectuais de café, sem qualquer implantação popular, constituído por uma aliança espúria de ex-trotzkistas, ex-estalinistas, ex-maoístas e uns/umas aristocratas gauchistas que acham demasiado plebeu ser do PC ou do PS.
De tal mistela nunca poderia sair nada de bom. Em todos os países da Europa existem grupelhos assim, mas são exotismos sem qualquer expressão política relevante. Em Portugal, porém, graças às vicissitudes do salazarismo e do PREC, dá-se a bizarria de um tal agrupamento conseguir ter uma dúzia de deputados na Assembleia da República e uma desproporcionada expressão na comunicação social.
Tal bizarria tem causado enormes prejuízos à Esquerda e ao País.
Ainda há pouco isso se viu nas eleições presidenciais. A prometedora candidatura de Manuel Alegre foi ferida de morte pelo presente envenenado que constituiu o apoio que lhe foi manifestado pelo BE. Os resultados eleitorais confirmaram o que já era previsível: tal indesejável "apoio" roubou a Alegre muitos mais votos do que aqueles que lhe deu. Cavaco pode pois agradecer ao BE a sua reeleição.
Agora vem o BE com a criancice de anunciar com um mês de antecedência que vai apresentar uma moção de censura ao Governo do PS. O que é que dessa moção pode resultar para a Esquerda? Se a moção for chumbada, como tudo indica que será, resultará apenas a ridicularização da Esquerda. Se a moção for aprovada, o Governo cair e houver novas eleições, é evidente que, se o PS não as ganhar, quem as ganhará será, não obviamente o BE, mas sim o PSD. E lá teremos o BE a ajudar a direita a subir ao poder.
Isto é evidente, mesmo para as brilhantes cabeças do BE. Então porque é que o BE toma tal atitude? Apenas para fazer concorrência aos seus rivais do PC. Tendo este dado a entender - ou ameaçado - que poderia eventualmente apresentar uma moção de censura, logo o BE se apressou a antecipar-se, afirmando categoricamente que ia apresentar uma em dia desde logo designado.
Do que acima se disse resulta claramente que tal infantilidade nada de bom pode resultar para a Esquerda. Mas uma coisa é certa: seja qual vier a ser o resultado de tal moção, o seu simples anúncio causa enormes prejuízos ao País: criando uma expectativa de instabilidade política a curto prazo, a pressão dos "mercados" aumentará, os juros da dívida soberana subirão, e Portugal perderá assim milhões e milhões de euros.
Quer isto dizer que o BE põe os interesses da sua rivalidade mesquinha com o PC acima dos interesses da Esquerda e do interesse do País. Enfim: o BE é verdaddeiramente, em todos os sentidos da expressão, uma doença infantil da Esquerda portuguesa.

VIVA O EGIPTO, O POVO DO EGIPTO E A LIBERDADE!!!

O Egipto deu uma grande lição ao Mundo.
O pacifismo venceu mais uma vez contra a crueldade da repressão, do polícia política, das prisões arbitrárias, do medo e da opressão!
O grande Povo do Egipto é Soberano e deu um exemplo para todas as pessoas de Bem!

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

رسالة [Mensagem]...

Numa grande nação que venerava o mito da Eternidade, que adorava o deus Sol, que celebrava as rebeldias das águas do Nilo na lenda de Osíris, ... a mensagem telegráfica transmitida hoje pelo vice-presidente Omar Suleiman na televisão pública, aqui fica para ser interpretada:

"Em nome de Deus, o misericordioso, cidadãos, durante as difíceis circunstâncias que o Egipto atravessa, o Presidente Hosni Mubarak decidiu deixar o cargo de Presidente e encarregou o Conselho Supremo das Forças Armadas de administrar o país. Que Deus ajude toda a gente". publico.pt

E mais não disse!

EGIPTO: 11-02.2011 - a resignação de Mubarack...

Efusivas manifestações de alegria na Praça Tahrir
após a resignação de Mubarak


O poder foi confiado às Forças Armadas. Uma solução de recurso, determinada pela resistência de Mubarak em abandonar o cargo, facto que vai abrir um novo período de incertezas.
De qualquer modo, foi removido um enorme obstáculo na trajectória de libertação do povo egípcio.
Hoje é dia de festa. Amanhã, um novo dia, novas questões, novos desfios. Foi, tão somente, dado o 1º. passo mas é previsível que a caminhada para um novo regime [democrático] seja longa e difícil.
A "queda" de Mubarack não significa o fim do actual regime. Cabe, novamente, ao povo egípcio - que ao longo destes últimos 18 dias demonstrou grande coragem cívica - ser o motor de todas as mudanças políticas...

CENTENÁRIO DA REPÚBLICA - CONVITE

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

EGIPTO: 10.02.2011 – “o dia da frustração”…

Hosni Mubarak quando hoje se dirigia pela TV ao povo egípcio


Hosni Mubarak dirigiu-se hoje - pela 2ª. vez desde o início da crise - aos egípcios num clima de crescente crispação política e intranquilidade social.

Nos últimos dias saltou para o exterior a imagem um certo distanciamento do contestado Presidente das tarefas da governação, nomeadamente, daquelas que mais directamente têm a ver com o actual levantamento popular. As negociações com as diferentes forças de oposição foram protagonizadas pelo recém-nomeado vice-presidente e elas seriam fundamentais para delinear a mudança do regime, ou na pior das hipóteses, para a sobrevivência do regime sem Mubarak.
Aparentemente divorciado destes desenvolvimentos políticos nos últimos dias cresceu a expectativa de uma resignação que, face a actual relação de forças, pretendia ser “honrosa”. O Conselho Supremo das Forças armadas reuniu-se hoje, pela 3ª. vez, em 30 anos. Das vezes anteriores as reuniões decorreram por causa do conflito árabe-israelita. Este facto, parecia indicar que se estava a preparar uma transferência de poderes, sob a alta vigilância das forças armadas.
Criou-se, portanto, um extenso leque de probabilidades em que as expectativas de mudança cresceram.

O discurso de Mubarak frustrou todas essas expectativas. Limitou-se a delegar algumas competências no vice-presidente, pretendendo manter a supervisão [mesmo que à distancia] da transição até Setembro. Rejeitou as pressões da comunidade internacional, incluindo os seus aliados de ontem, assumindo-se como um guardião de uma inviolável soberania, facto que não se verificou com essa plenitude e força nos 30 anos de exercício de poder. Todavia, essa rejeição neste momento, serve as intenções do regime. Fez apelos afectivos aos seus contestatários, afirmando “estar a falar com o coração”

Na verdade, jogam-se na actual situação do Egipto importantes cartadas no equilibrio de poderes nessa conflituosa região que ultrapassam o orgulho e o nacionalismo. Estão em confronto profundas opções estratégicas para o Médio Oriente.
Mas, também, existe um povo em estado de levantamento popular que, por mais malabarismos que o regime teça, não tem sido ouvido.
Mubarak quer, à viva força, fazer parte da solução quando é o grande problema. A multidão que, hoje, o ouviu na Praça Tahrir mostrava evidentes sinais de desespero. A instabilidade política poderá crescer e caminhar do actual levantamento popular para a insurreição. Depois deste discurso, percepciona-se que as Forças Armadas não poderão manter, por muito mais tempo, a posição passiva, aparentemente neutral, que têm publicamente exibido. No momento que forem obrigadas a intervir, vão impor a ordem pública e assumir o poder - com ou sem Mubarak.

Até lá continuaremos com os olhos e os ouvidos na Praça Tahrir… Aí também se podem tomar decisões que venham a tornar-se soberanas. Caso acreditemos que o grande protagonista da História é o Povo.