sexta-feira, agosto 31, 2012

Coelho e Seguro: roendo a ‘laranja’ … fora da falésia!

Ontem, o líder da oposição, António José Seguro, foi convocado de urgência pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, para uma reunião em S. Bento.
Dessa inesperada reunião nada transpirou para o exterior. link

Decorrendo esta ‘cimeira’ durante o (quinto) período de exame periódico dos representantes da troika ao cumprimento do ‘plano de resgate’ a que o País está submetido, muitas especulações vão pairar no ar. Até porque nas ‘avaliações’ anteriores não existiram destas ‘emergências’.

É obvio que se coloca neste domínio uma questão sobejamente anunciada ao longo do ano e só agora reconhecida. Trata-se de arranjar (concertar) uma resposta para o ‘desvio’ da consolidação orçamental já que falharam sucessivamente as medidas pelo lado da receita, nomeadamente as fiscais. A recessão económica e a contracção do mercado interno acarretaram a diminuição da colecta na sua globalidade, como não podia deixar de ser.
São conhecidas as posições dos dois líderes partidários. Passos Coelho perante a evidência do falhanço continuou a sustentar que ‘não é preciso mais tempo, nem mais dinheiro’ e A. J. Seguro vem desde há muito clamando por mais tempo para consolidar as contas públicas e por mais dinheiro para estímulo da economia e para combater o desemprego galopante.

Será, portanto, de supor que a inusitada 'emergência' significa que a troika não estará disposta a flexibilizar os objectivos orçamentais definidos quando da elaboração do memorando e, portanto, advoga mais austeridade. O 'caminho austeritário’ percorrido esgotou as capacidades e as virtualidades que à partida lhe foram insistentemente atribuídas apesar dos avisos. Não é fácil, nem expectável, persistir nesta via sem colher terríveis consequências (políticas, económicas e sociais). Terá sido esta a imperiosa razão que levou Passos Coelho a convocar de ‘emergência’ A J Seguro. Não é credível que tenham sido dificuldades de elaboração do OGE para 2013. Primeiro, porque o OE estará ainda numa fase de elaboração, depois porque esse orçamento tem de partir de um deficit real (4.5% ou mais?). Todos sabemos que será mais, mas essa será a questão que se segue (lá para o Outono).

O silêncio que envolveu a conferência de ontem não pode deixar de ser interpretado como um sinal de um estrondoso fracasso e do qual resulta esta desesperada tentativa de 'colar' (amarrar) o PS ao anunciado desastre.
A reunião efectuada sob o olhar dos avaliadores (troika) não é auspiciosa para o mínimo de soberania que nos resta. Terá de ser valorizada como (mais) uma encenação e dificilmente como uma tentativa de obter um consenso à volta de 'soluções de convergência' perante as medidas de combate à crise da dívida soberana.
A inexistência de um comunicado ou de uma declaração conjunta no final deste encontro é um acrescido factor de instabilidade para a já crispada situação social.
O que, na verdade, este tipo de gestão política transmite é uma degradante imagem desmoronamento de todas ilusões construídas sobre cenários de coesão e estabilidade (alimentadas lá fora e cá dentro pela coligação governamental) que a médio prazo tornassem viável e exequível um plano de resgate. Na realidade o que está na agenda imediata é que, apesar de um dramático e pesado esforço dos portugueses, tal plano 'mostrou' não ter virtualidades que lhe foram atribuídas. Portanto, não funciona.
O diálogo [necessário] entre Governo e Oposição(ões) tem de ter outras virtudes: ser transparente e inteligível para a generalidade dos cidadãos. Trilhamos um mau caminho quer na resposta à crise quer na busca de 'concertação' interna.
Para obter o resultado conseguido ontem mais valia ter efectuado uma reunião fora dos holofotes dos meios de comunicação social. Isto é, Passos Coelho provavelmente (digo eu!) deveria ter-se deslocado a Porto Covo, jantar com Seguro (que aí estava de férias) e nesse (imaginário) repasto recordar a letra da conhecida canção de Rui Veloso (relativa a essa localidade do litoral alentejano): ‘Roendo uma laranja na falésia…
Porque, tornou-se uma evidência a necessidade de roer a(os)‘laranja(s)’!

E não se pode exterminá-la ?



Gina Rinehart herdou a fortuna familiar e é, neste momento, a mulher mais rica do mundo, segundo a 'Business Review Weekly'. A australiana afirmou recentemente que o salário mínimo no país deveria ser reduzido e deixou uma mensagem aos "invejosos": mais trabalho e menos bebida.

Deus está com (D)os Santos



Um primeiro-ministro impreparado


quinta-feira, agosto 30, 2012

Os eternos tabus dos ‘sem tabus’…

«Caso RTP será analisado sem tabus» - Passos Coelho… link

De facto, esta dos ‘tabus’ vinda donde vem, i. e., de um partido cujo histórico presidente (Cavaco Silva) tentou entreter o País com um longo ‘silêncio’ sobre uma evidencia de todos conheciam: – a sua primeira candidatura à Presidência da República (1996), soa a caricato para não dizer insultuoso. link
Quando, nos dias que correm, Passos Coelho retoma o remoque para vir a terreiro proclamar que não haverá tabus é exactamente porque isso (dos tabus) já está a acontecer. O tempo passa, as pessoas deslocalizam-se, as realidades modificam-se, mas de residual fica o ADN partidário.

E o início deste (actual) tabu remonta há mais de 1 ano. Quando, a clique actualmente no poder decide inscrever no programa político partidário a privatização de 1 canal da RTP.
Passos Coelho, apresentou-se aos eleitores como um político novo, um arauto da ‘mudança’, que tinha estudado os problemas do País e estava ‘apto’ para governar. Afinal, ontem, em mensagem enviada de Londres, ficamos a saber que inscreveu esta medida (uma daquelas para além da troika) de ‘borla’. Sabemos, agora, que não existiram quaisquer estudos prévios (os agora denominados ‘estudos técnicos em curso’) e a proposta de privatização de um dos canais da RTP foi um oco e leviano arreganho eleitoralista, posteriormente, integrado como medida programática (governamental).
Aliás, este tipo de navegação errática tem sido o constante rumo deste Governo. E para continuar a usar imagens marítimas, o actual e preocupante deficit orçamental (em angustiante descontrolo apesar de severas medidas de austeridade) resulta do facto de algo (ou muito) não ter corrido como o esperado, porque ‘não se aviaram em terra’. E, começa a ser evidente, que daqui para a frente nada deverá correr como o esperado... Mas, 'isso' será outro (o próximo) 'tabu'.

Afinal, há muito que sabemos que os ‘tabus’ são o sustentáculo das famigeradas 'políticas sem alternativas’. E o grande ‘tabu’ será afirmar-se ‘sem tabus’ e verberar que as questões sejam política e socialmente discutidas, remetendo-as para ‘estudos técnicos’ (de sustentabilidade financeira) e, finalmente, escondendo as decisões políticas, como se elas, na realidade, já não estivessem de antemão tomadas.

De facto, ao contrário que prometeu na tomada de posse como 1º. Ministro, Passos Coelho, falhou. O ‘não podemos falhar’, o ‘custe o que custar’, o ‘nem mais tempo, nem mais dinheiro’, não passam de desajeitados e relapsos ‘tabus’ cuja evidência se pretende negar.
Para usar a linguagem freudiana, Passos Coelho, tenta esconder-se atrás de um ‘Totem’, pretendendo com o lancinante apelo ao ‘sem tabus’ proteger, exactamente, ‘os tabus’ - uma velha e pernamente matriz do seu partido.

A privatização da RTP e o pluralismo democrático


Sei que os preconceitos podem toldar o entendimento e perverter os julgamentos e que só indivíduos superiores conseguem fugir-lhes, mantendo a isenção. Não é o meu caso. Confesso que tenho preconceitos contra as juventudes partidárias onde os “jotas” aprendem o pior da política sem conseguirem absorver o melhor. Torna-se excelentes coladores de cartazes e divulgadores de slogans sem necessidade de pensar, estruturar ideias e formar a personalidade.

Portugal está ausente das carreiras que metodicamente preparam e os cursos são meros adereços com que qualquer Universidade Low Cost os ornamenta, por antiguidade ou equivalência.

Não admira que a chegada ao poder, à sombra de quem os criou, os torne prosélitos dos interesses que os alcandoraram, sem pudor, sem ética e sem conhecimentos. São moços de recados a gerir um País ao sabor de interesses privados, sem um módico de decência, resquício de competência ou pingo de pudor. Não lhes falem de ideologias, deixem-lhes os negócios; não lhes lembrem a Constituição da República, respeitem-lhes as cumplicidades; não os flagelem com o destino do País, consintam-lhes a fidelidade aos amos.

O anúncio atabalhoado da privatização da RTP, a mando do self-made doutor Miguel Relvas, por um empregado do Sr. Jerónimo Martins e do grande capital financeiro, foi o balão de ensaio para medir o torpor de um povo que o medo fez entrar em catalepsia. O vendedor do país, a retalho, António Borges, tendo falhado a política, por incapacidade, é agora o ministro de Estado na clandestinidade, principescamente pago, a fazer fretes a vampiros de dois lados.

A liberdade de imprensa é um problema que urge resolver, se possível, em democracia, desde que esta não torne difícil a solução. O auto-doutor Miguel Relvas tem sobre o PM tal ascendente, ou sabe tanta coisa, que só deixará a coordenação do Governo quando esta prejudicar os seus negócios. Quanto ao PR, ao seu silêncio e à solidariedade com as tropelias deste Executivo, é difícil saber o que o tolhe.

O serviço público de televisão, constitucionalmente consagrado e único meio de defesa contra a promiscuidade entre política, negócios e informação, é cobiçado pelos grandes grupos de comunicação que não param de concentrar-se. A candura de uns e a maldade de outros pretendem que este Governo leve a cabo uma decisão contrária aos interesses democráticos, de modo a transferir para grupos privados todos os poderes do Estado.

A exigência de uma informação isenta e plural é de tal modo imprescindível que, salvo o governo português, nenhum outro, em qualquer outro país europeu, ousou enfraquecer o serviço público de televisão, privatizando um dos seus canais nacionais.
Aliás, a privatização de um canal de televisão não figura nem nas exigências da Troika, nem na agenda da União Europeia. Quem estará por trás desta gente para quem a Pátria, a honra e a liberdade são meros detalhes de uma agenda oculta?



Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 29, 2012

Os governos de direita tranquilizam os capitalistas





Só em julho, os depositantes espanhóis retiraram 74.228 milhões de euros dos depósitos bancários. Para onde?

A TVI já é a TV do primeiro-ministro?



A RTP2 irá "muito provavelmente" fechar, independentemente do cenário a adotar para o futuro da empresa, em razão do seu avultado custo, para reduzidas audiências, prosseguiu o consultor do executivo, na entrevista à TVI.

terça-feira, agosto 28, 2012

O que pensa um bispo



“Se ficares distraído, provocam-te”. Refere-se assim a meninos de 13 anos. O bispo Bernardo Álvarez encerra nesta justificativa a origem de um crime: os abusos sexuais contra menores.

Data a recordar


Há 102 anos (28 de agosto) os deputados do Movimento Republicano ganharam as eleições nos círculos de Lisboa, Porto, Aveiro e Setúbal.

Foram os arautos da epopeia que, menos de dois meses depois, teve lugar na Rotunda. Foram os heróis civis do 5 de Outubro, a data que os analfabetos desconhecem e os ressentidos querem fazer esquecer.

O Islão continua pacífico



O crime seria uma retaliação ao facto de terem ido a uma festa na qual os participantes ouviram música e dançaram, o que contraria a interpretação do ramo radical do Islão seguida pelos milicianos da região.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Em Espanha: um lídimo seguidor de Cavaco …

O deputado do PP Guillermo Collarte link

domingo, agosto 26, 2012

ANTONIS SAMARAS: Entalado entre a dispneia e as teses de Lutero…

O actual primeiro-ministro grego, Antonis Samara, acabou de realizar um penoso périplo por algumas capitais europeias.

Internamente, a situação do Governo grego, saído das últimas eleições de Junho, que é encabeçado pela NOVA DEMOCRACIA (Direita) e conta com a colaboração do PASOK (Socialista) e do DIMAR (Esquerda democrática, reformista e europeísta) é frágil e a sua estabilidade (uma convergência de emergência) muito periclitante. link

Publicamente, Samaras - dadas as condições políticas internas - sentiu a necessidade de pedir “um pouco de ar”, ou seja, mais tempo para adoptar as reformas estruturais exigidas pelos credores internacionais. link

Perante este ‘cenário’, em que diariamente aparecem ‘opiniões’ sobre a permanência e/ou o abandono da Grécia na Zona Euro, Hollande e Merkel jantaram em Berlim numa reunião informal para concertarem posições sobre a próxima reunião do Conselho Europeu que se debruçará sobre a questão grega. link

Quando Samaras, um dia depois, se desloca a Berlim limita-se a constatar a intransigência de Merkel que defende o integral cumprimento das condições de resgate. link.
É a sua ‘família política’ (PPE) que aparece em público a retirar-lhe o tapete.

E no dia seguinte, já em Paris, ouve opinião idêntica de François Hollande, embora a ‘intransigência’ apareça mais mitigada. Tudo se resume a vagas declarações de intenções que podem ser resumidas no artigo de Le Monde: "La Grèce est dans la zone euro et la Grèce doit rester dans la zone euro. Ensuite, elle doit faire la démonstration, encore, de la crédibilité de son programme et de la volonté de ses dirigeants d'aller jusqu'au bout", a déclaré le président français aux côtés de son hôte. Il s'agit de faire "en sorte que ce soit supportable pour la population", a cependant relevé le président français, précisant avoir "salué les efforts que les Grecs avaient engagés, douloureusement, depuis deux ans et demi". link.
A única ‘abertura’ visível - da parte de Hollande - reside na pequena e complementar tirada: ‘que seja suportada pela população’…

Pouco para quem precisa de ‘ar para respirar’. Ar na Europa e na Grécia, onde a proposta de novos cortes em salários e pensões link não será muito pacífica no seio da instável coligação de circunstância.

Esta difícil missão diplomática de Antonis Samaras junto ao ‘eixo Berlim-Paris’ mostra onde, de facto e por ora, reside o centro de decisão europeu. Não faltará muito para que 'tudo' se acantone em Berlim.

A não ser que se pretenda uma patética humilhação dos actuais dirigentes gregos porque razão Samaras não foi convidado para participar no jantar Hollande/Merkel que se realizou na véspera do início do já anunciado (pelo Governo de Atenas) périplo europeu? Não basta impor ‘reformas estruturais’e drásticas políticas de austeridade em nome dos credores/investidores?
É preciso também humilhar?

De facto, segundo as teses de Lutero (que datam de 1517 e foram afixadas na porta da igreja do Castelo de Wittenberg) podia ler-se: ‘Deus não perdoa a culpa de ninguém sem sujeitá-lo à humilhação’
Ora aí está! Quem se segue?

sexta-feira, agosto 24, 2012

GASPARADAS

     Este governo, autêntica praga que se abateu sobre o nosso - cada vez menos - País, prima pelo descaramento. Ele é o mandar os jovens emigrar; ele é o dizer que os portugueses são piegas; ele é o gozar com a "paciência" dos portugueses para o aturar; etc..

     Ontem tivemos mais um exemplo desse descaramento. O ministro Gaspar entrou-nos em casa pela TV, com aquele ar de rato sábio que costuma ostentar, a dizer que não vai cumprir a meta do défice que se comprometeu a atingir e em nome da qual impôs enormes sacrifícios ao povo português, porque a receita fiscal diminuiu.

      Mas diz isto com toda a calma e naturalidade, como se não tivesse nada a ver com o assunto. Ora se a receita fiscal diminuiu foi por culpa dele! Ele é que é o ministro das finanças! Ele é que subiu a taxa do IVA tão desmesuradamente que a coleta desse imposto diminuiu! Ele e o governo a que pertence é que adotaram uma política que levou à falência de milhares de empresas, que assim deixaram de pagar IRC! Ele e o seu governo é que, com as suas desastradas medidas de austeridade, lançaram no desemprego dezenas de milhares de trabalhadores, que assim deixaram de pagar IRS!

      De que é que estavam à espera? Qualquer leigo via que a receita fiscal ia diminuir.

      Ainda se ao menos tivessem um pouco de vergonha...

quinta-feira, agosto 23, 2012

Governo incompetente e vingativo


GRÉCIA: cimeira Berlim/Paris e o ‘vazio’ português…

Durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais francesas o então candidato François Hollande criticou a liderança de Angela Merkel, tendo então afirmado no canal televisivo France 2 que a chanceler ‘não pode decidir em nome de todos os europeus’. Adiantou ainda: ‘Se a UE não é capaz de tomar decisões, não deve ratificá-las’… link

Muitos cidadãos europeus entenderam esta mensagem como sendo um travão à incomodativa hegemonia alemão no processo de ‘construção’ europeia e a tentativa de recolocação das instituições da UE (Comissão Europeia, Conselho Europeu, Ecofin, etc.) no centro das decisões sobre o futuro da Europa e, obviamente, na procura de respostas à crise que fustiga toda a Europa, com especial acuidade na Zona Euro.
A derrota de Sarkozy mal digerida pela Direita ultra-conservadora e populista (neoliberal) europeia que vem mexendo os cordelinhos através do PPE, tratou – uma vez consumado o desaire eleitoral em França – de ‘diminuir’ (pessoalmente) Hollande considerando-o um político frouxo (um presidente ‘normal’) ao mesmo tempo que, no ‘day after’, o convida a deslocar-se a Berlim com o intuito de paulatinamente ‘reactivar’ o eixo Berlim-Paris link.

Daí para cá o 'ambiente político europeu' tem mantido uma relativa acalmia pelo menos no confronto entre Hollande e Merkel. Se alguma agitação foi introduzida ela partiu de Mario Monti (exercendo funções como 1º. Ministro italiano) que alertou para o risco de um “confronto entre Norte e Sul…link, fruto de ‘nacionalismos’ exacerbados que vêm ganhando terreno nos países da UE e do dissoluto ‘clima psicológico’ que se instalou sobre o futuro do Euro.

A Grécia que passou por um longo período de instabilidade política [resultante da queda do Governo de Papandreau] do qual ‘resultou’ o actual Governo de Samaras, a que se soma uma grave tensão (crispação e violência) social, tornou-se um foco de discórdia entra os parceiros europeus, nomeadamente, no empolamento da ‘fractura’ Norte/Sul. Posições como as manifestadas por alguns políticos ‘afectos’ ao governo alemão relativos à inevitável ‘saída’ da Grécia da zona Euro [ link; link; …] posicionam-se em nítido contraste com a postura da presidência francesa [link; link;…].

Do encontro de hoje, em Berlim, entre Angela Merkel e François Hollande não deverá sair nenhuma decisão formal sobre a Grécia, para além das esperadas e previsíveis (no contexto político actual) declarações sobre a importância de manter a ‘integridade da Zona Euro’...

De qualquer modo, o que se está a passar na Europa não consegue mexer, nem interessar o Governo português. Em Lisboa, as preocupações giram à volta de uma nova avaliação da troika e da necessidade de continuarmos a ser um ‘bom aluno’. Sobre a Grécia pouco mais se ouve para além do estafado slogan: ‘nós não somos a Grécia!’.
Nunca a Europa esteve tão distante de Portugal. E nunca a política externa portuguesa, relativa à Europa, foi tão confrangedoramente ‘vazia’…

Alberto João Jardim – Um fascista grotesco


Batista-Bastos, de quem copio o próprio título, escreveu a respeito do sofrível cidadão, medíocre português e execrável sátrapa da Madeira, o seguinte:

«Alberto João Jardim não é inimputável, não é um jumento que zurra desabrido, não é um matóide inculpável, um oligofrénico, uma asneira em forma de humanóide, um erro hilariante da natureza.
Alberto João Jardim é um infame sem remissão, e o poder absoluto de que dispõe faz com que proceda como um canalha, a merecer adequado correctivo».

Nunca ninguém o caraterizou de forma tão lapidar como o ilustre jornalista, num texto de antologia em que recordou o par de estalos que o coronel Lacerda lhe aplicou, por ter insultado os militares, na forma singular que o cavalheiro compreende.

Ele não é o único culpado da deriva irresponsável a que conduziu a Madeira. O alegado aprofundamento da autonomia permitiu-lhe a impunidade da dívida oculta, as obras faraónicas, a ocultação dos ajustes diretos e o poder discricionário de que goza. Nunca tão pouca população e tão exíguo território gozaram de um aparelho administrativo tão dilatado e oneroso. O aparelho de estado madeirense é uma cópia de um país soberano e autossustentável.

A chantagem e a má-criação permitiram-lhe a consolidação de um poder clientelar que o país não está em condições de manter. Raramente se diz que a Madeira, tal como os Açores, não contribuem para as despesas da Defesa, dos Negócios Estrangeiros e de outras funções de Estado, ao contrário de zonas periféricas e mais pobres do Continente, além do gozo de benefícios fiscais exclusivos.

Quando o anterior Governo pretendeu moderar os ímpetos megalómanos do mais antigo governante africano uma coligação PCP/BE/PSD/CDS chumbou na AR a iniciativa que o atual PM procura agora efetivar.

Jardim já não muda mas a impunidade pode ser-lhe retirada pela República, sem medo da chantagem separatista e dos insultos aos órgãos da soberania nacional. Estamos todos fartos dos insultos, da irresponsabilidade e das ameaças do régulo. É tempo de Portugal impor a igualdade de todos os portugueses perante a lei.

Sendo escusado contar com a coragem do PR, a Assembleia da República e o Governo devem pôr fim ao offshore político em que Jardim converteu o pequeno arquipélago, ainda antes de ser encerrado o offshore fiscal… e deixá-lo a falar sozinho na ameaça do referendo autonómico do impenitente separatista.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 22, 2012

Será que vai ‘pingar’ menos por cá?...

Pingo Doce deixa de aceitar cartões de crédito e multibanco… (a partir de 1 de Setembro 2012) link

À primeira vista uma medida de gestão (diminuição de custos) e uma reacção às (elevadas em relação à média europeia) taxas de serviços bancários cobradas sobre a utilização de ‘dinheiro electrónico’.
Mas, também, uma medida que – aparentemente – contraria o esforço promocional (vide 1º. de Maio de 2012) desenvolvido por esta cadeia de distribuição e que visa, apesar da crise, manter os níveis de consumo (e de vendas) nas grandes superfícies.

Todavia, não podemos (devemos) passar ao lado da vertente fiscal. link.
Para quem pretende ‘poupar’ 5 milhões de euros nesta ‘operaçãolink, considerando que a taxa média cobrada por utilização de cada cartão será de 1%, a fasquia sobre a qual esta decisão incide é de cerca de 500 milhões de euros referentes a vendas/ano. Uma elevada quantia que, deste modo, foge ao controlo montado pelo fisco sobre a utilização de cartões multibanco e de crédito. Nada de admirar para um grupo empresarial que transferiu a sua sede para a Holanda, por indisfarçáveis motivações fiscais link.

Uma Igreja vesga

A igreja excomungou os "vermelhos"... ao contrario dos pedófilos, nazis e mafiosos"



terça-feira, agosto 21, 2012

Para memória futura


Um PR que interrompe férias para inaugurar um hospital particular perde a confiança de quem acreditava que defendia o SNS.

A Constituição Republicana de 1911 entrou em vigor há 101 anos


Entrou em vigor em 21 de agosto de 1911 e durou escassos 15 anos. Pôs-lhe termo a publicação de um decreto ditatorial em 9 de junho de 1926, dando origem ao poder discricionário da longa ditadura a que a Constituição de 1933 deu suporte jurídico para a sua perpetuação sob a aparência de um Estado de direito.

A Constituição de 1911 sofreu, na sua vigência, duas breves suspensões: uma com Pimenta de Castro, um ditador paroquial, e outra com o golpista Sidónio Pais, mas a Constituição republicana não foi uma mera operação cosmética para alterar o caráter hereditário e vitalício com que a família de Bragança decidia sobre os destinos da Pátria portuguesa.

A Constituição de 1911, surgida na sequência da lei eleitoral de 11 de Março de 1911, com origem no Governo Provisório da República Portuguesa, destinou-se  a substituir a lei do governo de Hintze Ribeiro de 1895, conhecida como a «ignóbil porcaria».
A Assembleia que a elaborou foi presidida por Anselmo Braamcamp Freire.
A sessão inaugural declarou abolida a monarquia e proscrita a família de Bragança, sancionou (por unanimidade)  a Revolução do 5 de Outubro, declarando beneméritos da Pátria os que combateram pela República, legitimou todos os atos políticos do Governo Provisório e elegeu a Comissão encarregada de elaborar um Projeto de Bases da Constituição.

Em 21 de agosto de 1911 ficou consagrado o sufrágio direto na eleição do Parlamento, a soberania residente em a Nação e a repartição dos poderes políticos – executivo, legislativo e judicial. Poderia ter ido muito mais longe a Constituição de 1911 se a visão do grande estadista Afonso Costa fosse maioritariamente partilhada, mas o avanço, num país de analfabetos, numa estrutura assente na aliança do trono e do altar, com a herança da família de Bragança, foi, ainda assim, notável.

A supremacia do poder legislativo, a afirmação da laicidade, com a separação da Igreja e do Estado, a obrigatoriedade do registo civil e a consagração dos direitos e garantias individuais, colocaram Portugal na vanguarda da evolução política europeia.

Faz hoje 101 anos que entrou em vigor a Constituição de 1911. Viva o 5 de Outubro. Viva a República.

MOODY’s e a capciosa sugestão de ‘esticar [ainda] mais a corda’

A agência de notação (rating) de crédito Moody's alerta que as “reformas estruturais” em Portugal, tal como noutros países que recorreram a empréstimos da troika, não resolveram completamente os desequilíbrios externos e que isso pode levar anos… link; link

Afinal, as mágicas ‘reformas estruturais’ parecem - como muitos previram - não ser suficientes. Certamente que nunca foram suficientes nem adequadas mas, neste momento, interessa preparar a opinião pública para o seu ‘falhanço’.

Interessante é o diagnóstico feito pela agência sobre as causas dos ‘desequilibrios externos’. Segundo a agência de rating esses desequilíbrios devem-se ao “comportamento contrário à poupança nos seus respectivos sectores privados nacionais em vez de nos seus governoslink. Ao transpormos esta ‘visão’ para Portugal cujo (actual) Governo está sempre muito atento aos ‘humores’ e às insondáveis reacções dos mercados [e aos seus arautos de que a Moody's é um exemplo], verificamos – mais uma vez – que a metodologia de correcção destes ‘desvios comportamentais’ tenderá - por cá - a ser feita à custa do sector público que tem vindo a ser considerado como excessivo, perdulário, improdutivo e desnecessário, pretendendo ‘libertar’ o sector [económico] privado que, como ‘sentimos’ e os dados recolhidos mostram, em larga medida, já entrou em colapso. Portanto, o aconselhamento e as previsões [da Moody's] colocam a estratégia de 'ajustamento' governamental num beco sem saída.

Mas, acima de tudo, este relatório da agência Moody’s traz à luz do dia o reconhecimento de que, até aqui, temos sido embalados e ludibriados com soluções experimentais, provisórias e desajustadas e que o caminho traçado conduzirá inevitavelmente ao desastre. Parece muito temerária a convicção subjacente ao citado relatório de que é possível adicionar mais austeridade - e por mais tempo – à existente. Na realidade, a corda já estará demasiado esticada…

E porque não uma ‘violação amigável’?

Un político estadounidense ha desatado una polémica al afirmar que las víctimas de una violación “legítima” no suelen quedarse embarazadas… link (sublinhado nosso)
Declarações do congressista republicano Todd Akin, um ferveroso ‘associado’ da facção ultraconservadora Tea Party e presentemente candidato a um lugar de senador nas próximas eleições de Novembro.

A teoria sobre violações “legítimas”, complementada pela técnica das ‘pernas fechadas’ só poderia ser concebida por uma mente doentia e é o aberrante retrato de um ente completamente divorciado da realidade que emerge e envolve o crime de estupro

Estas declarações são tão ‘assustadoras’ (eleitoralmente) que obrigaram a campanha de Mitt Romney, de quem Todd Akin é um ‘natural’ apoiante, a distanciar-se das mesmas e a 'abrir' o debate sobre o aborto, assunto sensível para os americanos e que o candidato republicano à presidência dos EUA andava a fugir...

A peregrina concepção da ‘violação legítima’ é um exemplar vivo daquilo que na gíria coimbrã se denomina como uma ‘monumental calinada’ produzida por uma ‘grande alimária’...
É o que de momento me ocorre comentar!

Milagres do Opus Dei



Pequenas alegrias diárias

No dia da festa de S. Josemaria um amigo, pelo qual rezava há tempo, conseguiu tirar acarta de condução. Sinto a intercessão de S. Josemaria no dia-a-dia, em "pequenas alegrias diárias".

Todos os dias leio algum texto, especialmente a Novena do trabalho ou Caminho, dá-me muita paz e faz-me ver e apreciar os "milagres" contínuos que ocorrem nas nossas vidas, e dar graças com o trabalho oferecido, na relação com os outros, em tudo o que faço.

Ponte Europa - Em vida, monsenhor Escrivà foi cúmplice de Franco, depois de morto dedica-se a facilitar cartas de condução.


Areosa – Uma paróquia propensa a equívocos (2)


segunda-feira, agosto 20, 2012

Areosa – Uma paróquia propensa a equívocos (Crónica)


1 – A tourada (agosto de 2012)
Há três anos foi a festa à santa errada quando Agosto era mês e a fé estava no auge, não porque a piedade tivesse crescido mas porque as férias e o regresso dos emigrantes dão mais colorido às procissões e maior frequência às missas. Este ano foi a tourada que a Câmara Municipal tinha proibido no concelho, em 2008, na presidência de Defensor de Moura, e que ontem se refugiou em terrenos rústicos da freguesia de Areosa, sob escolta policial, enquanto a população, tal como no caso da santa, se dividiu. Um touro perdeu a paciência e espalhou sucessivamente os pegadores pela arena. A inteligência venceu a força.

Desta vez, o confronto entre aficionados e adversários das touradas marcaram o fim de semana da Areosa. Há três anos foi a festa pia, agora foi a festa brava. É a maldição do mês de agosto que persegue a Areosa.

2 – Festas à santa errada (agosto de 2009)

A paróquia da Areosa, que se avista do alto de Santa Luzia, em Viana do Castelo, sofreu com a notícia que o padre João Cardoso Oliveira teve a incumbência de comunicar aos fiéis, num ato inédito, com a urgente necessidade de sacrificar a santidade por amor à verdade.

A arreliante troca de uma preposição, pela contração da mesma com o artigo definido, pode pôr em causa a devoção, o entusiasmo e a felicidade de quem atribuía à santa as vindimas fartas e a qualidade do vinho.

A santa devia ser a Senhora “de” Vinha mas, vá lá saber-se porquê, obra do demo, quem sabe, por equívoco no nome acabou venerada uma santa que não era a autóctone – uma Senhora “da” Vinha – a quem os devotos passaram a confiar a vinicultura quando a santa da paróquia, a verdadeira, tinha por vocação a pecuária.

Os paroquianos reforçavam com ave-marias a eficácia dos herbicidas e procuravam a sinergia da fé para erradicar ervilhacas, malvas, saramagos, urtigas, gramas, escalrachos  e outras dicotiledóneas e gramíneas que retiram força à cepa e comprometem a vindima. A vera santa da Areosa tinha competência veterinária e especialização «ovínea», donde derivou o nome “de vinha, que em latim se refere a ovelhas e originou o adjetivo “ovino” do português atual e, por lapso, rezaram a uma santa errada, padroeira da vinha, que, afinal, protege a pastorícia.

Durante muitas décadas os paroquianos fizeram a festa e a procissão a uma santa que tutelava a pastorícia e veneraram como protetora e padroeira da vinha. Quantos terços, novenas e missas foram rezados par a proteger do míldio as cepas, e a santa a pensar na sarna, nos parasitas, picadas de moscas, claudicações, mamites e outras moléstias que apoquentam o gado ovino!?

Que utilidade tiveram homilias, festas e orações, para fins agrícolas, dirigidas à santa que só tinha olhos para os rebanhos? E as oferendas de lavradores que não tinham ovelhas e pagaram promessas feitas para proteção das vinhas? Quem os vai ressarcir?
A Senhora da Vinha dá o nome à igreja da paróquia e a devoção levou os autóctones a homenageá-la com uma escultura em gesso que é, nem mais nem menos, uma videira, imune à filoxera mas não à provação do logro.

Quem sabe se a santa não continuaria a fazer milagres à altura da fé que se vai apagando lentamente sem provocar a comoção geral que o padre Oliveira, prior da Areosa, há 25 anos, terá de gerir!

Ainda hão de maldizer o professor de História da Universidade do Porto, frequentador da festa, que se pôs a esgaravatar no Louvre, em Paris, e descobriu uma pintura do século XIV com a Senhora “da” Vinha, sem parecenças com a Senhora “de” Vinha, salvo na virtude que as há de igualar e não se vislumbra a olho nu.

Maldito o respeito que a Universidade, o Louvre e os professores passaram a merecer e que ofusca o apreço que às imagens pias era devido, com manifesto prejuízo do maior bem que a gente simples possuía – a fé. Por ora, não se adivinha o efeito devastador da investigação histórica, confirmada pelo pároco, na desorientação de uma paróquia tão piedosa, temente a Deus e orgulhosa da santa que era “de” Vinha e os paroquianos julgaram ser “da” Vinha.

A marca ideológica deste Governo


Vaticano reincide na cruzada homofóbica



O presidente do Conselho Pontifício para a Família, Vincenzo Paglia, manifestou nesta quinta-feira o apoio do Vaticano à iniciativa da Igreja francesa de rezar a favor da família tradicional e contra a legalização do casamento gay.

domingo, agosto 19, 2012

O Papa também é guiado pelo Espírito Santo

Ex-mordomo do Papa afirma ter sido “guiado pelo Espírito Santo” para vazar documentos do Vaticano.


«Os documentos vazados apontavam caos de corrupção em negócios do Vaticano com empresas italianas, incluindo serviços superfaturados, e detalhavam rivalidades entre cardeais e conflitos a respeito da administração do banco do Vaticano.

De acordo com a denúncia judicial, o mordomo do papa afirma que sua motivação para o desvio desses documentos seria fazer uma “limpeza” na Igreja Católica, por ter visto “o mal e a corrupção em todo lugar da Igreja”. Ele disse ainda que quis, com a divulgação das informações, cortar o mal pela raiz, “porque o papa não estava suficientemente informado”».

Ponte Europa - O mordomo usou como defesa a proposta defendida aqui. Infelizmente para ele o Vaticano não acredita no Espírito Santo e acusou-o de insanidade mental.

Momento de poesia



Dissertação sobre a natureza das metáforas... 


Dizia um grande filólogo (e cito de memória),
com um certo ar de provocação,
o que irritou os néscios poetas do seu tempo,
que as metáforas apenas podem ser de três categorias,
a saber:

Primeiro: As grandes metáforas, as metáforas geniais,
que são aquelas que podem recriar-se na linguagem
de todas as expressões da Arte,
o que as eleva ao cume da universalidade,
colocando-as assim no patamar superior da eternidade.
É o caso da metáfora do Pássaro Azul,
que já se exprimiu na poesia e que emblematicamente
também aparece na linguagem corporal da dança,
assim como já deu o nome, o corpo e a sua essência
à narrativa de um livro, depois adaptada
à última das nobres artes.
Um cantor também a recriou,
na urdidura do poema com a música.
Até  Pablo Picasso, na aurora da sua fama,
sobrevoou a pintura com os seus imaginários azuis
nos diversos recortes estilizados
de variados significados, os estilísticos e os temáticos.
Com ele, na vanguarda da arte, aquela que abre
caminhos e futuros e derrama uma nova luz,
despertando curiosos olhares sobre as coisas e sobre cores,
a metáfora agarrou, no encantamento da sua  beleza,
a amplitude da sua incólume grandeza.

Segundo: As metáforas vulgares, que são aquelas
que qualquer pessoa utiliza,
e que andam mordidas pelas bocas do mundo.
Aceitam-se e consomem-se.
Até os caçadores de tordos e de patos-bravos,
enquanto cravam os olhos cintilantes de prazer
nas miras assassinas das espingardas,
não deixam de imaginar-se, imitando as aves de rapina,
a rasgar o ar em voos concêntricos, para depois,
em voo rasante, destroçar a presa,
de todo em todo indefesa das ferozes garras penetrantes,
o que também é uma metáfora,
talvez até uma metáfora incandescente de prazer,
que se identifica muito com o desejo irreprimível de matar
e com o orgasmo doentio de ver morrer.

Terceiro: As metáforas inúteis, que são aquelas
que de tanto quererem dizer, nada dizem,
e essas são para esquecer.
Até os seus autores acabam por não as entender.

Alexandre de Castro

Lisboa, Agosto de 2012

sexta-feira, agosto 17, 2012

O 10 de junho, o ridículo e a Senhora de Fátima


Não vou falar da Senhora de Fátima, a única personagem que tem mais heterónimos do que Fernando Pessoa. Vou referir-me aos exóticos edis da Câmara de Ourém, aos seus anseios autárquicos e à frivolidade das reuniões camarárias.

Segundo o jornal «O Mirante», a edilidade de Ourém, “quer comemorações do Dia de Portugal em Fátima”. O delírio místico, próprio da região, partiu de um edil do PSD que pretende as referidas comemorações, em 2013, na Cova da Iria, um terreno de pastorícia que as cambalhotas do Sol e as visões da Irmã Lúcia transformaram num lucrativo local do setor terciário, quer no sentido da ciência económica quer na prática litúrgica, graças à promoção do terço.

A justificação baseou-se na importância «que o santuário de Fátima tem para Portugal e para o mundo», justificação que colheu a unanimidade do executivo municipal (PS/PSD/CDS) e levou à decisão de manifestar tão pia vontade ao Presidente da República.

Com tal argumento certamente se justificariam muitos outros eventos, nomeadamente de natureza desportiva, dadas as dimensões do santuário e as infraestruturas hoteleiras.

O 10 de junho, há muito que perdeu o sentido republicano, com que o feriado foi criado, para se converter na lúgubre evocação da cerimónia com que o salazarismo glorificava a guerra colonial. O atual PR acedeu a ser presidente da comissão de honra da canonização de Nun’Álvares depois daquele milagre que o guerreiro medieval obrou no olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, curando-a da queimadura provocada pelos salpicos do óleo fervente de fritar peixe, mas a República, apesar da ofensa da canonização ao herói de Aljubarrota e das genuflexões do PR, continua laica.

Será que os trogloditas que formam o executivo camarário de Ourém, habituados a andar de joelhos e a rastejar, sabem o que significa a laicidade do Estado?

Hoje pede-se que as comemorações do Estado se realizem num santuário mariano, quiçá à luz das velas, com o PR a ser recebido pelo batalhão de servitas de Fátima e com uma charanga de cónegos a tocar o Avé. No futuro assistiremos à procissão do «Adeus» a sair da Assembleia da República.

quinta-feira, agosto 16, 2012

O ‘acordo de Hamburgo’…


O Land (Cidade-Estado) de Hamburgo concluiu, na passada 3ª. feira, um acordo com os representantes muçulmanos residentes visando a sua integração social, cultural e religiosa na comunidade hamburguesa. …”. link.

Uma interessante notícia vinda da Alemanha dirigida pela Srª. Merkel que, recentemente (em Outubro 2010), anunciou o fim (ou o falhanço) do multiculturalismo… link.

O tempo dirá da importância deste acordo.

Recordando alguns cancros que corroem a República


Depois da normalidade democrática, estabelecida com as primeiras eleições livres em 25 de abril de 1975, na vigência da atual Constituição da República, os casos mais graves, foram o terrorismo, a corrupção e a intriga política, crimes cuja falta de punição tem minado as instituições e levado à desconfiança cívica.

Quanto ao terrorismo, foram condenadas – e bem – as FP25A, tendo ficado impunes todos os crimes da extrema-direita, do MDLP, do ELP, do movimento separatista da Madeira e, com algumas dúvidas quanto à origem criminosa, a explosão do avião em que morreram Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa e os seus acompanhantes.

Na corrupção, de que há a convicção de conhecermos apenas uma pequeníssima parte, tivemos os casos da Universidade Moderna, da SL/BPN, fabulosas fortunas sem causa, o processo Portucale e a compra dos submarinos (um para subir e outro para descer) por um ministro que tem especial predileção por veículos topo de gama.

Não sendo este último o mais grave, é o mais atual e mediático devido ao alegado desaparecimento dos documentos e por se saber que na Alemanha foram punidos os corruptores, sem se procurarem os corrompidos em Portugal. As luvas da venda dos submarinos alemães levaram à prisão do ministro da Defesa… na Grécia.

Sabendo-se que Paulo Portas saiu do ministério da Defesa trazendo cerca de 61.000 fotocópias, uma prática sem precedentes conhecidos, não será difícil localizar, num acervo tão vasto e valioso, tudo o que diga respeito ao dossier em que o Governo foi efetivamente lesado.

Quanto à intriga política, basta recordar os processos que nascem através de cartas anónimas, adrede combinadas, para perseguir adversários, os escândalos do destino das informações produzidas nas polícias secretas e o clamoroso caso das escutas de Belém.

Os exóticos sindicatos das magistraturas são um cancro que urge erradicar. Não se pode consentir a interferência de ativistas políticos acoitados em sindicatos que influenciem o jogo democrático e minem o prestígio do único poder não escrutinado cuja autonomia é essencial para a preservação da democracia.

A defesa da República e da democracia é uma tarefa dos democratas republicanos.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 15, 2012

Olimpíadas, dirigismos & intoleráveis saudosismos…

A representação portuguesa aos Jogos Olímpicos de Londres/2012 partiu desfalcada de alguns desportistas que sofreram ao longo da preparação lesões e, como todos pudemos observar, os resultados obtidos foram modestos, sem envergonhar. Fomos para Londres competir e fizemo-lo honestamente e sem complexos. Os resultados traduzem o baixo índice de prática desportiva num País europeu, periférico, com uma base de recrutamento reduzida (alguns milhões de habitantes).

No final dos jogos teceram-se múltiplos comentários sobre a preparação dos atletas bem como sobre o financiamento libertado para essa preparação. Pretendiam os seus autores – e foram vários – prevenir ou colmatar erros detectados no presente com vista à futura representação nos Jogos do Rio de Janeiro/2016.
O presidente do Comité Olímpico Português, Vicente de Moura, assumiu - como lhe competia - publicamente a responsabilidade pelos resultados alcançados e, estando de saída do cargo (que exerce desde 1997) , permitiu-se levantar algumas questões essencialmente do foro organizativo. Até aqui tudo bem.
Eis senão quando tem uma inacreditável e espantosa tirada: “acha que deve ser recuperada a Mocidade Portuguesa, mas sem conotações políticas…”. link

José Vicente de Moura é um oficial da Marinha de Guerra, reformado (tem 75 anos). É, portanto, um homem que viveu largos anos sob a ditadura salazarista e que tem obrigação de conhecer o que foi a Mocidade Portuguesa.
Deveria recordar-se que a dita MP tinha por missão (definida em 1936): ‘estimular o desenvolvimento integral da sua capacidade física, a formação do carácter e a devoção à Pátria, no sentimento da ordem, no gosto da disciplina, no culto dos deveres morais, cívicos e militares’.
Quando reformulada em 1966 por se considerarem obsoletos e ultrapassados os objectivos iniciais mantiveram características de acordo com os objectivos políticos da ditadura e em consonância com o período da guerra colonial tendo sido [re]definidos os seguintes objectivos: …’servir cada vez melhor o alto ideal da formação da juventude à luz dos imperecíveis princípios e valores da civilização cristã, que sempre têm presidido, e continuarão a presidir, aos destinos de Portugal…’ link

Aliás esta organização de juventude é extinta no dia 25 de Abril de 1974 (Dec.-Lei 171/74 da Junta de Salvação Nacional link) conjuntamente, com a Direcção-Geral de Segurança (ex-PIDE), a Legião Portuguesa, Secretariado para a Juventude, etc, portanto, em 'boa companhia'...

Não vale a pena teorizar sobre o papel ideológico desta organização de juventude (MP). Este tipo de organizações juvenis ‘abrilhantaram’ os regimes totalitários e ditatoriais europeus dos anos 30 até ao final da II Guerra Mundial e, no caso português chegaram até nós inspiradas nos modelos italiano (Balilas) e alemão (Hitlerjugend). Depois de 1945, estas organizações extinguiram-se na Itália e Alemanha, resistindo em Portugal porque a ditadura salazarista sobreviveu ao fim da Guerra.
A MP foi umas organizações de ‘carácter milicial’ (depois dos 14 anos entrava-se nas ‘milícias’) que estimulavam um adestramento pré-militar (na disciplina, nas paradas, nas hierarquias e nos seus uniformes) e em que incessantemente era difundida a ‘sagrada’ trilogia sustentáculo dos regimes de então: Deus, Pátria e Família.

As actividades desportivas eram subsidiárias de objectivos militares e orientadas para disciplinas afins (esgrima, boxe, vela, etc.) e a ‘instrução ‘ entregue a oficiais das Forças Armadas ou a graduados da Legião Portuguesa. Aliás o regime do Estado Novo nunca escondeu os objectivos políticos que eram a 'essencia' desta organização juvenil. O ministro da Educação Nacional (é significativa esta designação), Carneiro Pacheco, em 1936, sintetizou os seus objectivos: “Dar a primeira formação, no sentido do vigor físico da raça, da rectidão do carácter e da consciência nacional…”.
Está tudo dito.

Se o comandante Vicente Moura defende este tipo de organizações para a promoção do desporto em Portugal temos de constatar que, provavelmente, a circunstância de presidir durante 15 anos ao Comité Olímpico Português, não passa de um equívoco. E o facto de defender uma 'nova' MPsem conotações políticas’ se não for uma macabra ironia é o expoente máximo de uma irresponsável ingenuidade política.

No entanto, se a controvérsia à volta das modestas prestações da representação olímpica portuguesa em Londres/2012 vai permitir ‘libertar-nos’ deste inefável dirigente olímpico, então, creio que poderemos confiar na preparação para o Rio de Janeiro/2016, sem estigmas ‘militarizantes’ e, pelo contrário, apostar nas organizações e sistemas que a sociedade civil souber (ou puder) criar, desenvolver e aperfeiçoar, em liberdade e na sede própria, i. e., no domínio do associativismo desportivo…

Comandante Vicente Moura: adeus e passar bem!

O GENERAL SEM MEDO

No meu post anterior com este título houve erro no link. O link certo é:

http://blx.cm-lisboa.pt/gca/index.php?id=1236

As minhas desculpas aos leitores.

O GENERAL SEM MEDO

Possivelmente não estarei a dar nenhuma novidade, mas por mim só agora soube que a Biblioteca Museu República e Resistência tem um vasto espólio de que fazem parte documentos interessantíssimos sobre as "eleições" para P.R. de 1958 entre Delgado e Thomaz, que podem ser consultados em http://blx.cm-lisboa.pt/apresentacao .

O papa, o mordomo, o informático e a fuga de documentos



Imaginem caros amigos que eu, ateu há mais de 50 anos, era o mordomo do Papa. Esqueçam que sou eu quem seleciona as companhias e que não privo com pessoas de passado duvidoso e comportamento estranho. Esqueçam que eu nunca trabalharia para a única teocracia europeia, um Estado criado por Mussolini e pelo papa de turno, e que, jamais, colaboraria na venda de água benta, indulgências e veneras.

Imaginem, pois, por mera abstração, que era eu o mordomo do papa B16, o papa que dirige uma campanha de branqueamento da cumplicidade da sua Igreja com os regimes nazis e, em especial, a reabilitação de Pio XII, depois de JP2 ter pedido perdão pelas perseguições aos judeus feitas ao longo da história devidas ao antissemitismo do Novo Testamento, uma publicação que justifica a cisão cristã dentro do judaísmo.

Ora, se eu fosse o mordomo, alegaria que tinha sido Deus, nauseado com a sua Igreja, que me tinha pedido para denunciar os crimes que o comprometem. Um Deus que se preze não enterrava numa basílica um padrinho da Máfia, não lavava dinheiro da droga e das armas num banco que tem o pitoresco nome de Instituto para as Obras Religiosas (IOR) e, provavelmente, nem teria um banco.

Num Estado onde não há divisão de poderes, onde o monarca absoluto se encontra vitaliciamente legitimado por vontade divina, onde a santidade é apanágio das funções e do estado civil, é fácil dizer que foi da vontade de Deus a denúncia de documentos que provam a falta de ética do pouco recomendável bairro.

E, dito isto, não sobraria aos juízes, impossibilitados de darem uma sentença antes de a submeterem à apreciação da Cúria, outra saída que não fosse conformarem-se com um milagre bem mais honesto e menos pueril do que os que o Vaticano diariamente inventa para canonizar defuntos de passado duvidoso que rendem avultados emolumentos.

A luta pelo poder, a que não é alheio o Opus Dei, transforma figuras menores, um mordomo e um informático, em bodes expiatórios de uma conspiração silenciosa pela eleição do próximo papa.  

terça-feira, agosto 14, 2012

Passos Coelho e ‘sonho de uma noite de Verão’…

O discurso de Pedro Passos Coelho, hoje, em Quarteira – para celebrar as ‘festas do Pontal’ – começou com este equívoco para acabar mergulhado num mar de ´moralismos’, de antevisões, de surpresas e de anúncios (despropositados).

Deste filosofia barata sobre a ’cultura do regabofe’, à antevisão do 'fim da recessão' em 2013, ao ‘ar surpreso’ pelo crescimento das taxas de desemprego, ao anúncio do 'fim dos privilégios', etc., existiram tiradas para todos os gostos (excepto para os próprios militantes do PSD que se mostram muito comedidos nos aplausos). link

E, a surpresa final. Após 15 dias de férias surge a desmentir a sua espúria afirmação feita no jantar de encerramento do ano parlamentar perante o seu grupo de deputados: ‘que se lixem as eleições’. Afinal, e apesar de tudo, acalenta a ideia de vencer as próximas legislativas (2015). ‘A Midsummer Night's Dream’ é uma excelente peça dramatúrgica de Shakespeare que, vendo bem, é uma comédia (embora povoada de fadas…).

Momento de Poesia




Dissertação sobre a minha cidade…


Tento descobrir os teus sinais
através da palavra
percorrendo a memória do futuro
nos caminhos cruzados da tua cidade.
Da minha, onde vivo, nada conheces,
e se eu te falasse dos milagres
que ela opera nos olhares,
atravessavas num longo
abraço
o braço de mar que nos separa.
Ficarias deslumbrada com a sua luz
que lhe ilumina os dias
e lhe alisa as cores,
 a tua boca provaria os sabores da noite,
em cada esquina e em cada rua,
ao comeres uma fatia prateada da sua lua
 e ficarias inebriada com os odores
que ficaram do tempo das especiarias.
Tu serias rainha das célebres Tágides
que se banham nuas no rio Tejo,
o grande rio dos meus amores.

Alexandre de Castro

Lisboa, Agosto de 2012

segunda-feira, agosto 13, 2012

Festa no Aquashow: hoje surgiu mais uma ‘motivação’

A tradicional ‘festa’ promovida pelo PSD para assinalar a ‘rentrée’ política que habitualmente se realiza no Algarve, este ano decorrerá em ambiente fechado (para evitar sobressaltos) e terá – como é habitual – uma larga divulgação mediática.

Durante a festa que terá lugar no parque Aquashow, em Quarteira, Passos Coelho deverá anunciar os ‘sucessos’ do seu Governo, nomeadamente, o ‘crescimento’ das exportações e a ‘descida’ das taxas de juros nos mercados da dívida.

Se as taxas de juros têm paulatinamente descido em relação ao pico da crise muito se deve à brutal e abrupta austeridade imposta aos portugueses com a meta de controlar o deficit orçamental público, conforme os ditames da ‘troika’. Muito embora o controlo orçamental seja um dos vectores necessários e relevantes para a consolidação das contas públicas o que está em causa são os métodos e os timings usados para conseguir esse objectivo. Esta será uma das razões fulcrais pela qual a ‘festa’ teve de recolher-se para espaços confinados. Começa a ser difícil e incómodo continuar a bradar em público de que ‘não precisamos nem de mais tempo nem de mais dinheiro’. Nomeadamente, quando - e apesar de tudo - estamos à beira de não conseguir cumprir o deficit previsto para 2012. E de não regressar aos mercados em Setembro de 2013 (mas isto dirá respeito à festa do próximo ano...).

O segundo motivo que ‘justificará’ o regozijo do Governo de Passos Coelho – a resistência da actividade exportadora à crise - como todos sabemos não tem qualquer relação com o actual desempenho governamental. Para além de ser uma ‘herança’ do XVIII Governo Constitucional, mostra fundamentalmente a resiliência e a competitividade de um (ainda reduzido) sector económico que, ao longo da última década, tem procurado diversificar e internacionalizar a sua produção. Mas a Economia não ficou indemne ao furação neoliberal do Governo. Para além de uma 'histórica' taxa de desemprego galopante (em evidente descontrolo) que reflecte a dimensão da destruição operada por deliberadas políticas recessivas no tecido empresarial nacional acresce que, hoje, tomamos conhecimento que a praga dos salários em atraso voltou a fustigar o País. link

Dificilmente teremos ‘notícia’ deste novo descalabro na festa da Quarteira. Água abundante existe no envolvente ‘Park do Aquashow’ cenário e palco da reservada festa. Que mais do que uma festa vai - certamente - ser um desbragado ‘show’. Mas o 'revivalismo' ainda pesa e estrebucha...

domingo, agosto 12, 2012

Homenagem a Miguel Torga - 105.º aniversário do seu nascimento



Súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga


PONTE EUROPA - Miguel Torga foi um dos mais insignes escritores do século XX. Foi grande demais para caber em Coimbra e excessivamente individualista para ocupar o palco que o seu talento merecia.

O 105.º aniversário do seu nascimento é um excelente pretexto para divulgar a obra deste autor singular que escreveu teatro, foi tradutor e atingiu na poesia e na ficção o apogeu da arte.

Amou a liberdade como poucos e, por isso, foi preso, como muitos, pela mesquinha ditadura que oprimiu Portugal.

sábado, agosto 11, 2012

Momento de poesia



Crónica anunciada do primeiro poema onde entro


Deitei-me tarde, levantei-me cedo. O médico faltou. Fiquei azedo, como se tivesse sarro na boca. Resolvi descer à Baixa Pombalina, onde tudo cheira a História. Entrei na Havaneza para ver os cachimbos. Estão pela hora da morte. Vaguei pela Bertrand à procura do livro que ainda irei escrever. O empregado disse-me que já estava esgotado e que a todo o momento esperavam a 2ª edição. Fiquei irritado por ele não me ter reconhecido.

Cá fora, o colorido dos turistas a animar a rua. Desci ao Rossio e senti o perfume da manhã na esplanada do Nicola. Ali fiquei a saborear a cidade e o seu movimento colorido. A luminosidade de Lisboa é única. Disseram-me que é do reflexo do sol no grande estuário do Tejo. O que é certo é que esta luz enfeitiça os olhos. Talvez por isso, eu tenha começado a olhar para todas as mulheres que passavam e em cada uma delas tentava adivinhar aquela que me engravida as horas com as suas palavras. Senti-me preso nesse jogo, onde era o único jogador. Ganhava sempre. A imagem tornava-se cada vez mais nítida e lembrei-me daquela fotografia do rio Azul, o rio que para mim já não é fronteira, um veio de prata embaciado por neblinas, e era por aquela serenidade da paisagem que eu queria estagiar a minha ansiedade de ler todas as respostas às perguntas que ainda não fiz.

E quando cheguei a casa, sabia que a resposta estava ali, ainda sem ser palavra redentora, na carta que já anunciava o poema, que só depois descobri na outra carta, que também chegara.

O sarro da boca desapareceu e apressei-me a perdoar a lamentável falta de memória do empregado da Bertrand. Ele, na realidade, não poderia adivinhar que eu já estava dentro do poema, e a responder ao grito desta “poeta”, que começa a enlouquecer-me os dias e as noites, a pedir-me que lhe escreva, que a invente, que a imagine, que a sinta, inventando-me a mim próprio como namorado enciumado e invertendo aquele jogo, ensaiado ludicamente na esplanada do Nicola, quando ainda não sabia que já era poema, onde aparecia todo inteiro.

Alexandre de Castro

Lisboa, Idos de Março do ano I do encantamento

Resposta:
Tremem-me as mãos (e não só). Acho que vou ter de sair de aqui a correr. Para respirar. Porque ofego. Porque escreveste um texto lindíssimo, Alexandre! E talvez seja para mim. E só por isso, só de pensar que possa ser para mim, ofego ainda mais. Ofego mesmo. E talvez não me devas imaginar como me imaginas, nem que eu te pedisse, nem que esteja a gostar. E estás outra vez aí a dizer coisas que quero ouvir, mas que não deverias dizer.
A “Poeta”

Propaganda fascista ou provocação?

Garrafas num supermercado italiano

sexta-feira, agosto 10, 2012

De José Estaline a Santo Escrivà

Zita Seabra saiu do PCP quando a URSS se desmoronava, por altura da Perestroika, e interrompeu a longa caminhada que a levou da clandestinidade, durante a menoridade, até à Comissão Política do Comité Central do PCP, em 1983. Podia ter entrado num convento mas preferiu à clausura pia a hipoteca ao PCP onde a herança estalinista  se mantinha viva.


Ao acusar o PCP de fazer espionagem não surpreende ninguém com uma prática que era comum às grandes potências durante a guerra fria. Só surpreende a sua cumplicidade de 22 anos até pouco antes da sua expulsão do PCP, em 1988. Já a espionagem através do ar condicionado parece uma metáfora de quem recusa o ar livre.

Zita Seabra saiu do PCP e renegou o estalinismo mas nem um nem outro saíram dentro de si. O cilício que a mortificava na clandestinidade é o instrumento de tortura com que se faz acompanhar a caminho do Opus Dei.

No PCP recebeu todos os sacramentos marxistas-leninistas-estalinistas até chegar à comissão política do mais alto areópago do mais ortodoxo dos partidos comunistas da Europa ocidental. Deu-lhe a vingança para reiniciar nova carreira no PSD e na Igreja católica. Ao batismo cavaquista seguiu-se a pia batismal de uma igreja católica e, logo a seguir, a eucaristia, a penitência, o casamento religioso e o crisma. Anda agora em jejuns e penitências para imitar o santo Escrivà, cúmplice do genocida Francisco Franco e silencioso perante as execuções sumárias de centenas de milhares de espanhóis.

Se tivesse optado pelo islamismo já não seria viva porque a jihad não deixa que morram de velhice e nada agradaria mais ao Profeta do que vê-la imolar-se rodeada de bombas na reunião do Comité Central do PCP. Começou com Marx e acabou a ler o Caminho. Que percurso sinuoso e invulgar a trouxe dos amanhãs que cantam em direção ao coro de anjos e querubins que a aguardam em lugar incerto na mansão celestial!

Termino com uma citação profética de José Saramago:

“Chegaram-me ecos do desastre  que terá sido a participação de Zita Seabra no programa de Manuela Moura Guedes. Entristece-me verificar como afinal valia tão pouco, intelectual e eticamente falando, alguém a quem os acasos e  as necessidades políticas colocaram em funções e confiaram missões de responsabilidade dentro e fora do Partido. Que Zita Seabra se tenha desempenhado delas, nesse tempo com coragem e dignidade, não pode servir para disfarçar nem desculpar o seu comportamento actual. Zita Seabra é hoje o exemplo perfeito e acabado do videirinho, palavra suja que significa, segundo os dicionários e opinião de gente honrada, “aquele que para chegar aos fins não olha aos meios nem hesita em humilhar-se e cometer baixezas”. Oiço, leio e chego a uma conclusão: esta mulher vai acabar mal.”
In Cadernos de Lanzarote:  Diário  - II  pg. 14 e 15 de José Saramago.

A 'crise alimentar' ou um mal nunca vem só…

O índice de preços internacionais de produtos alimentares da FAO (organismo da ONU) subiu 6% em Julho… link

Em todos os males que nos acontecem olhamos inquietos para as causas remotas muitas vezes difíceis de descortinar. 

Com o Mundo a viver um período de fraco crescimento económico, existindo mesmo um número considerável de Países em recessão (como é o caso de Portugal), em que se observa um crescente deslizar de cidadãos para a pobreza, o ‘alerta’ da FAO é mais um mal que se junta à crise económica e financeira.

De facto, em relação aos cereais (trigo e milho), um dos sub-índices avaliados, a subida - em igual período - foi ainda mais significativa – 17%!.
Na verdade, todos sabemos que o pão tendo sido ao longo do trajecto histórico (da Humanidade) um insaciável mitigador da fome. Perante uma prolongada situação de crise, que se estende por alguns continentes, muitas são as pessoas, as famílias e as comunidades que se defrontam com o espectro da fome. A crise alimentar que se avizinha ameaça retirar o já escasso pão das bocas de muitos famintos. Em zonas endémicas de conflitos onde grassa a violência [link] já é possível observar longas filas de cidadãos à procura de um naco de pão (um pouco à semelhança do que sucedeu em Paris nas vésperas da Revolução Francesa...).

Em Portugal, um país profunda e historicamente dependente da importação de cereais, o preço que teremos de pagar face a uma eventual nova ‘crise alimentar’ será, certamente, insuportável. Somar este ameaçador cenário às circunstâncias que já estão no terreno e para as quais não têm existido 'soluções credíveis' – desemprego elevadíssimo, alta dos preços dos combustíveis e da energia, carga fiscal incomportável, etc. – é, de facto, tornar insustentável a vida de um estrato populacional (os economicamente débeis) que engrossa diariamente.

Assistimos em 2007-08 a uma ‘crise alimentar’ que levou milhares de pessoas (essencialmente em África) a atravessar a ténue fronteira que separa a pobreza da miséria, i. e., da fome. Já aí foi possível observar a conjugação de múltiplos factores em acção, como por exemplo, a escalada dos preços dos combustíveis, questões cambiais, alterações climáticas, etc. Daí para cá, nada foi feito de substancial e de concreto nesta área de fulcral importância para todos.

Com o Mundo a viver em permanente sobressalto por questões financeiras (crise do deficit e das dívidas) as atenções tem estado viradas para o controlo dos deficites (públicos e privados) e para a sustentabilidade das instituições financeiras (bancos). Descurou-se o estímulo à produção alimentar e o controlo dos preços dos produtos agro-pecuários optando por adoptar o caminho de ‘financeirização’ dos mercados. O resultado está aí.

E, num País como o nosso, quando o Governo assume, directa e publicamente, a imperiosa ‘necessidade de empobrecimento’ como redenção e penitência para os 'nossos pecados' (males passados, presentes e futuros) está, clara e objectivamente, a agravar todos os problemas que surgem - como seria de esperar - em catadupa, como as cerejas. Aliás, este Governo só vem confirmar aquilo que o povo, há muito, diz: 'Um mal nunca vem só'

Mulher e vítima - Herança tribal e religiosa


A MULHER NA HISTÓRIA DA EUROPA…

DOS HOMENS…

Parirás com dor.
Bíblia.

A mãe não saberia dar vida. Ela é somente o vaso onde o germe vivo do pai se desenvolve. É ao pai que são devidos o respeito e o amor das crianças. Quem mata a mãe não é parricida.
Ésquilo.

Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem. Há um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher.
Pitágoras.

A mulher é fêmea em virtude de uma certa falta de qualidades
Aristóteles.

Mulher, tu és a porta do Inferno, a via da corrupção, a aliada de Satanás. Deverias sempre vestir de luto e não te cobrires senão de andrajos e teres os olhos inundados de lágrimas. Tu és responsável pela a do género humano.
Tertuliano.

A mulher menstruada estraga as colheitas, devasta os jardins. mata as sementes, faz cair a fruta, mata as ovelhas e faz azedar o leite se lhe toca.
Plínio.

Um ser ocasional e acidental, a mulher
São Tomás de Aquino.

A gravidez não é mais do que a tumefação do útero.
São Tomás de Aquino.

É através da mulher que nos foi enviada a destruição; é através da mulher também que nos foi enviado o parto.
Santo Agostinho.

Nascemos entre os excrementos e a urina.
Santo Agostinho.

A mulher é feita para ceder ao homem e suportar-lhe as injustiças
Jean-Jacques Rousseau.

Ela foi dada ao homem para que ela faça filhos e ela pertence-lhe, como uma árvore com frutos pertence ao jardineiro.
Napoleão.

A mulher é uma propriedade que se adquire por contrato. Deveis ter horror às raparigas com instrução
Balzac.

Não tenham a mínima inquietação com os seus queixumes, os seus gritos, as suas dores. A natureza fê-la para suportar tudo. Filhos, pancada e desgostosos do homem.
Balzac

Devemos alimentá-las bem e vesti-las bem mas não as meter na sociedade. E não devem senão ler livros de piedade e de cozinha.
Byron.

Uma mulher, ao usar a sua inteligência torna-se feia, louca, macaca
Proudhon.

Não se pode imaginar uma olimpíada feminina. Seria impraticável, inestética e incorreta.
Pierre de Coubertln

O destino da mulher deve permanecer o que é: na juventude uma coisa adorável e deliciosa; na idade madura, o de uma esposa querida. (…) o desejo do êxito numa mulher é uma neurose, o resultado de um complexo de castração do qual só se curará através de uma total aceitação do seu destino passivo. A mulher… um homem falhado.
Freud.

Citações recolhidas em .Sexologia, de Gilbert Tordjman, e em Assim seja Ela, de Benoite Grautt.

(Citações enviadas pelo leitor CF)

quinta-feira, agosto 09, 2012

Boçalidade de um escriba pio num pasquim católico