segunda-feira, setembro 30, 2013

Passos Coelho: a alienação a par da mesquinhez…

Ontem, no rescaldo das eleições autárquicas, Passos Coelho apareceu a reconhecer publicamente que "O PSD registou uma derrota eleitoral nacional" link e logo de seguida enveredou na sua arenga redonda e errática onde deu mostras de algum desatino.

Disse depois: "…Quero reafirmar que, como presidente do PSD e como primeiro-ministro, me continuarei a bater pelo caminho que temos vindo a percorrer, que é um caminho indispensável à recuperação da crise económica, recuperação de confiança e do crescimento para Portugal"… link.Passos Coelho não se bate por coisa alguma. Debate-se em contradições. Na verdade, mistura tudo. Fala, simultaneamente, como presidente do PSD e como primeiro-ministro revelando uma dissociação da sua identidade [personalidade] política deveras preocupante. Um exemplar e insano caso de ‘dupla personalidade’.

Passos Coelho apareceu, ontem, como um homem fracturado. Pior, dramaticamente destroçado. Como presidente do PSD reconhece que as eleições autárquicas “têm sempre uma leitura nacional” para logo de seguida – como primeiro-ministro – afirmar que prosseguirá o [desastroso] caminho que tem percorrido até aqui. Passos Coelho anuncia leituras mas quanto a tirar ilações: - nada. 
Quando se pretende ocultar fragilidades enceta-se um caminho perigoso. Nunca se sabe antecipadamente qual a fissura (pequena? ou grada ?) capaz de fazer desabar o edifício.

O Governo não é uma pura emanação eleitoral. Até porque nasce de eleições parlamentares. Em Portugal – como de resto na maior parte das democracias – o seu sustentáculo político assenta no apoio do(s) partido(s) maioritário(s). Passos Coelho exerce funções de primeiro-ministro porque é o presidente do PSD. Não foi nenhuma escolha divina. Quando o seu partido baqueia face ao eleitorado o primeiro-ministro não pode apresentar-se aos portugueses com convicções reforçadas para anunciar que vai prosseguir no ‘tal [mesmo] caminho’.

A tentativa de banalizar, ou diminuir, a vontade expressa eleitoralmente por um povo sofrido e desgastado pelo desemprego, cortes salariais e perda de direitos sociais, etc, é altamente imoral. Certamente que os portugueses não necessitam nem beneficiam desta imoralidade que se alimenta da alienação dos valores democráticos. De facto, a mesquinhez política é penosa, confrangedora e perigosa.

30 de setembro de 1946 – Em Nuremberga fez-se justiça, há 67 anos


Encerrou-se nesse dia o julgamento do Tribunal Militar Internacional de Nuremberga, na Alemanha, onde foi confirmada a culpa dos dirigentes nazis, na Segunda Guerra Mundial e no Holocausto.

Dessa vez ganharam os bons e a justiça das decisões é hoje património da jurisprudência mundial.

Quem nos dera que as vitórias sorrissem sempre ao lado certo pois seria feita justiça aos que sofrem com as guerras e condenados os que as desencadeiam.

O que são «independentes»?


domingo, setembro 29, 2013

O PR, o Governo e o PSD/CDS foram a eleições

As eleições legislativas e presidenciais que hoje tiveram lugar, com a denominação de autárquicas, acrescentaram às legislativas, que deviam ter-se realizado com a demissão irrevogável de Paulo Portas, o escrutínio sobre a decisão presidencial e o próprio PR.

Jamais as eleições autárquicas tiveram uma leitura tão política e nacional. Nas opções do eleitorado estiveram em escrutínio este presidente, este governo e esta maioria.

Pode-se, desde já, assinalar a expressiva vitória do PCP, mas o mais significativo foi a humilhação do Governo, da maioria que o sustenta e do PR que se lhes hipotecou.

O PR, com a proteção que deu à irresponsabilidade governamental, por motivos que se desconhecem, e em flagrante contraste com o comportamento anterior, quer no que diz respeito ao Governo, quer na escandalosa atitude contra a A.R., no caso do Estatuto dos Açores, e em outras decisões, tornou-se o maior responsável da dissolução das instituições e dos rombos na credibilidade dos políticos.

A partir de hoje não há referências credíveis nos mais altos postos do Estado, e o País, que tanto precisava de estabilidade, fica com um Governo enxovalhado, uma maioria desacreditada e um presidente combalido.

O nosso azar não se deve ao facto de haver um presidente, um governo e uma maioria mas, apenas, ao facto de nos ter calhado este presidente, este governo e esta maioria.

O futuro que aí vem é a trágica herança das más escolhas do eleitorado e da máquina de propaganda que vendeu ao país gatos por lebre. Somos um país à deriva com um regime bloqueado. Valeu o dia de hoje para mostrar à troika o descontentamento de um povo já que os verdadeiros derrotados vão dizer que não foram a votos.

Quem quiser aturar a imaginação dos avençados do regime, cole-se às televisões e oiça as vuvuzelas do costume. Sempre adormece a pensar que os resultados foram diferentes dos números que viu.

Um escritor universal


Em 29 de setembro de 1547 nasceu o escritor espanhol, Miguel de Cervantes, o criador do romance moderno, com a obra genial «A Vida Aventurosa do Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha».

Há mais de 400 anos (1604) foi publicada uma obra-prima da literatura mundial.

sábado, setembro 28, 2013

Silêncio

A reflexão é uma exigência legal, não uma necessidade de última hora, mas se a lei a tal obriga, há de ser por uma razão profunda, um motivo que, não sendo claro, é certamente forte, e com um fundamento que, não sendo cintilante, há de ter queimado os neurónios aos legisladores.

Reflitamos, pois. Não precisamos de rezar uma novena, como gostaria a Irmã Lúcia, de nos guiarmos pelo pároco, como era hábito, nem de invocar a inspiração divina.

A noite está fresca e húmida. Ajuda certamente à serena reflexão e ao apelo cívico, sem o mais leve esgar que denote uma intenção partidária ou um sentimento político, sem as palavras com que há menos de duas horas se dizia aos outros que a razão deles só estava certa se coincidisse com a nossa.

Na estante, viradas para mim, encontram-se dezenas de lombadas de livros que esperam a minha leitura. Vou fazer o gosto a um enquanto desejo aos diletos leitores as melhores saudações republicanas, laicas e democráticas, despedindo-me como o fazia no twitter:

Até amanhã, se eu quiser.


Ainda há Tribunais


sexta-feira, setembro 27, 2013

As eleições autárquicas, o Governo e o PR

Passos Coelho afirmou hoje (cito de memória) que não terão influência no Governo os resultados eleitorais autárquicos. O que lhe dói, é submeter-se a eleições e ter de aceitar os resultados; o que lhe causa azia, não é o que o povo pensa mas a forma como vota; o que o dececiona, é já não ter tempo para concluir a política de terra queimada a que se propôs.

O processo de subversão em curso, onde contou sempre com o acrisolado afeto do PR, teve travagens com as decisões do TC e terá domingo uma resposta inequívoca com os resultados eleitorais.

PPC julgou que era PM, antes de Portas lhe mostrar que não era bem assim; pensou que tinha todos os poderes, sem imaginar que a suspensão das leis era uma impossibilidade; imaginou vingar-se da democracia e do 25 de Abril, sem força para suspender a CRP; e, finalmente, limita-se a deixar o País num estado incomparavelmente pior do que aquele em que o encontrou.

No PSD deixa mossas profundas, lega um partido que faz falta à democracia sem ânimo e sem rumo, desolado e à deriva, esperando que um salvador o reconduza à participação democrática e à intervenção cívica, depois da desinfeção profunda de ultraliberais e dos restos da tralha cavaquista.

No domingo à noite, os avençados do costume irão provar, nos canais televisivos, que a derrota foi dos outros partidos, que o número de Câmaras do PSD o deixou em situação confortável, como se o município da Calheta fosse igual ao de Lisboa e Pinhel pudesse comparar-se a Sintra.

No domingo, por maiores piruetas e contorcionismos que os indefetíveis façam, o PSD de Passos Coelho entra em estado comatoso depois da longa agonia de que as maiores vítimas foram os portugueses. Já era tempo.

De Belém, o outro derrotado, que se remeteu ao silêncio, virá felicitar o povo português pela lição de maturidade democrática, uma afirmação que à força de repetida parece um insulto, com aquela voz de que estamos fartos e a desfaçatez de quem se quer demarcar da derrota eleitoral cujo mérito também é seu.  

A Constituição ‘assaltada’ por espertezas saloias…

O recente acórdão do Tribunal Constitucional que chumbou algumas normas (6) do Código de Trabalho de 2012 link, veio reacender a polémica política nacional e chamar a atenção para o rumo que este Governo pretende inculcar no regime. A situação (cinco 'chumbos em 2 anos!) deixou de ser compaginável com um fortuito acumular de erros involuntários (por amadorismo ou incompetência) revelando, isso sim, um ardiloso e 'estudado' plano de 'mudança de regime'.

Não vamos entrar em análises de índole interpretativa no âmbito constitucional, nem analisar os ‘estados de alma’ das forças partidárias nacionais que vão do coro de indignações da Direita ou, no campo oposto, na satisfação da Esquerda.

Importante é analisar o 'planeado' comportamento político deste Governo que tem relevado uma total 'irresponsabilidade constitucional' esquecendo, no dia a dia, que o seu mandato foi adquirido e está ‘totalmente’ condicionado pela existência de uma Lei Fundamental.

A guerrilha entre um programa neoliberal (que foi ocultado dos portugueses nas Legislativas de 2011) e as medidas que à sorrelfa estão a ser tentadas a qualquer preço sob o manto diáfono da contenção orçamental e cuja execução passa por alterações do modelo do regime visando a introdução de ‘novos’ paradigmas nas áreas política, económico e social, tem sido uma constante.

Grande parte destas manobras aparecem apelidadas como sendo ‘reformas estruturais’ quando na realidade não passam de ‘cortes’ (salariais, de prestações ou orçamentais) e pela anulação (eliminação) de direitos e garantias constitucionalmente protegidos, utilizando para tal um confuso e emaranhado arsenal de malabarismos semânticos decorrentes de uma leitura inquinada do Programa de Assistência Financeira em vigor desde 2011, nas circunstâncias que todos conhecemos.

Quando analisamos casos de inconstitucionalidade – entre os múltiplos que este Governo tem protagonizado – verificamos qual a verdadeira estratégia que está subjacente. 
A cadeia de reacções deste Governo perante alguns acórdãos do TC é sobejamente conhecida e previsível: primeiro, a ‘surpresa’; seguida de uma ardilosa contestação política com 'arremedos' jurídicos pelo meio; depois, esparsos argumentos à volta da imperiosa ‘necessidade’ das medidas para o ‘regresso aos mercados’, para a ‘nossa’ imagem no exterior; na passada, ameaças sobre novos e nefastos ‘resgates’ e, uma vez acalmados os ânimos, remata com uma tirada formal: vamos cumprir o acórdão do TC (pudera!) mas colmatar o seu impacto com outras 'medidas de igual valor'. Esta a estrita noção deste Governo quando fala em ‘ajustamento(s)'.

Esta última ilação ('medidas de igual valor') que o Governo usa e abusa é deveras interessante. No caso mais recente que dizem respeito ao Código do Trabalho trata-se latu senso de legislação sobre direitos sociais (laborais) e, portanto, torna-se difícil perceber como será possível proceder a transacções de valores legais sem atropelar o Estado de Direito. Não é com certeza esgrimindo subtilezas semânticas do tipo de substituir critérios objectivos e escalonados sobre despedimentos no caso da extinção do posto de trabalho por veleidades do tipo do ‘relevante e não discriminatório…’. 
Há muito pouco tempo tinha tentado um malabarismo de igual ‘gabarito’ quando resolveu crismar os despedimentos (arbitrários) na Função Pública de ‘requalificação’ e, mais uma vez, esbarrou com o Tribunal Constitucional. Trata-se de um Governo que mostra uma confrangedora incapacidade de aprendizagem e, no plano político, manifesta uma continuada intenção de, através de subterfúgios semânticos ideologicamente construídos, ‘rasgar’ disposições constitucionais.

Ainda sem decisão do TC estão os anunciados cortes nos aposentados da CGA que foram, mais uma vez, apresentados aos portugueses como sendo uma putativa ‘Reforma do Estado’.
No passado (em 2012) tentou cortar duas prestações (subsídios de Natal e Férias) a estes portugueses, a medida foi rejeitada mas conseguiu escapar às consequências. Este ano (2013) voltou à carga tentando cortar um subsídio e novamente esta pretensão foi recusada pelo TC e resolveu - em jeito de vingança -  pagá-la às prestações. Para o ano (2014) vai tentar, sob o subterfúgio de um corte transversal de 10%, conseguir uma ‘medida de igual valor’ às sucessivamente rejeitadas que, no caso vertente e fazendo contas grosseiras, representa efectivamente uma redução (subtracção/confisco) anual, para os aposentados da CGA, de uma prestação e meia.

Um Governo imbuído de uma intolerável e cansativa ‘esperteza saloia’.

Este Governo que nos saiu na rifa

Há alturas em que um presidente, um governo e uma maioria são um frágil apoio a uma deriva com laivos totalitários. O poder absoluto, de quem não está apto para o exercer, é insuficiente, se não dominar os Tribunais e não fizer da Constituição letra morta.

Os sólidos rancores que corroem a coligação governamental, a que o PR está amarrado, são o veneno que a devora. O Governo precisa de ameaçar juízes, intimidar funcionários e apavorar o povo com o desemprego. As decisões judiciais são forças de bloqueio que abomina. A democracia é a situação que lhe causa azia e a rua o espaço que mais teme.

A Revolução permanente de Trotsky, numa espécie de associação por contraste, induziu a contrarrevolução permanente de quem tem o ódio aos trabalhadores como programa e o empobrecimento generalizado como ideologia.

Em que estudos se terão baseado os assaltantes de todas as liberdades para dilatarem o horário dos servidores do Estado? Sabem que aumentam a rentabilidade ou só querem destruir-lhes a vida familiar e um módico de felicidade que lhes resta?

A humilhação deste Governo nas eleições autárquicas não é apenas um dever cívico, é o aviso de que precisa para deixar de invocar a legitimidade formal e passar a respeitar as instituições e o povo que acreditou em quem não devia.


quinta-feira, setembro 26, 2013

FACTOS & DOCUMENTOS


Passeando por Londres

Há mais de duas décadas, vagueava por uma avenida londrina e ia esquecendo os pobres “sem-abrigo” que, àquela hora, começavam a acomodar-se em vãos de lojas, abrigos de ocasião, alheios à luz intensa da iluminação pública e à circulação de turistas ávidos de percorrerem a cidade. Alguns ainda mastigavam umas bolachas antes de adormecerem, tendo como travesseira os parcos pertences.

Via-os ajeitar cartões e jornais, para se cobrirem, às vezes cobertores puídos pelo uso e sujos pelas poeiras e restos de comida que denunciavam a função de toalha em outros horários. A frequência da miséria amolece a vigilância cívica e embota a sensibilidade. Eram drogados, deficientes, marginais incapazes de se adaptarem ao trabalho e às regras da sociedade, pensava eu, enquanto contemplava a arquitetura da cidade e percorria com o olhar a silhueta do palácio de Westminster e do Big Bem ou observava as margens do Tamisa.

Num determinado momento, sob um manto de jornais e cartões, com umas luvas rotas, um sem-abrigo lia um livro. Estupefacto, procurei descobrir o escritor, sem ferir o leitor com a minha indiscrição. Não consegui ver o título, mas li claramente o nome do autor,  na capa – Charles Dickens –, e os olhos embaciaram-se-me.

Afastei-me, a conter a emoção, misturada com o remorso, de quem via nos seres que a vida privara de conforto e dignidade, marginais, drogados e deficientes. Ali estava um homem de meia idade que, antes de adormecer, lia Dickens, aproveitando a iluminação pública para encontrar na leitura o lenitivo da vida que lhe fugira.

Que estranho mecanismo me emocionou com aquele homem, porque lia Dickens, como podia ler Shakespeare, após passar alheado perante outros que pareciam contentar-se em não morrer? Aquele homem tinha a mesma barba em desalinho, o mesmo ar sofrido, o mesmo aspeto de abandono e resignação, mas segurava um livro que lia, distraído dos transeuntes que se arredavam para não o pisarem.

Penso que não foi compaixão que senti, foi medo, medo de vir a ser como ele, de estar num sítio assim, com o estômago vazio e, na mão, talvez Eça, quiçá Aquilino ou mesmo Saramago, com a noite aliviada na leitura que preenche o tempo e não garante amanhã.

Assalta-me esta situação pungente que, como tudo o que me flagela, faço por esquecer. E lembro-me dos filhos de todos nós, das crianças que brincaram felizes, dos jovens que viram o mundo a brilhar, exultaram com a saída da universidade, e nunca mais entraram na vida. Vivem ainda com os pais, trazem o diploma na memória e partilham da reforma de quem não lhes perguntou se queriam nascer, enquanto perdem os sonhos e a vontade.

Quem sabe se nesta brandura feita de solidão e paciência não nasce a raiva que abala os alicerces que restam de um mundo que se desmoronou, de uma sociedade que se rompeu, por um exército de abúlicos que, de repente, se descontrolam e explodem contra quem os excluiu e condenou à tristeza sem horizontes e às noites que passam sem vontade de acordar, com medo da madrugada de mais um dia.


Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, setembro 25, 2013

Roma não paga a traidores mas paga aos moços de recados

Manuela Moura Guedes, ao que me dizem, já está empregada na RTP-1, de segunda a sexta-feira, pela quota do CDS e com pagamentos através de uma empresa exterior.

A antiga deputada de Paulo Portas, tal como José Manuel Fernandes e outros, ficaram desempregados depois de Passos Coelho ter sido inventado por Miguel Relvas e Ângelo Correia e colocado como PM sob os auspícios de Cavaco.

Na aproximação do fim desta experiência sinistra, há ainda fretes por pagar e dívidas a saldar a militantes incapazes e a outros capazes de tudo. O caso de Manuela Moura era a injustiça gritante. Ninguém se comprometeu tanto ao serviço de uma causa como ela. Só não destruiu a reputação porque apenas se perde o que se tem.

terça-feira, setembro 24, 2013

Coimbra tem o encanto do atavismo

São comuns as cidades onde os postes se elevam dos passeios para suportar as lâmpadas que as iluminam  e onde as árvores crescem para dar sombra e oxigénio.

Em Coimbra os postes também servem para garantir a iluminação e para sustentarem os cabos elétricos que alimentam tróleis que vagarosamente a percorrem, desde 1947, com paragens nas curvas, quando a carretilha de metal que desliza pelos cabos se desarticula e deixa sem energia o veículo até que o condutor saia e reponha a ligação.

As árvores foram escolhidas por amadores ou engenheiros que ignoravam o crescimento das raízes ou, talvez, por engenheiros civis ligados à reparação de passeios, mas que não têm encomendas. Os passeios crescem em altura, à volta das árvores, em sólido desafio às características planas com que foram criados, em lenta e eficaz alteração orográfica. O exotismo das árvores nota-se também na alergia dos transeuntes expostos a espécies riquíssimas na produção de pólen de que as acácias são o paradigma emblemático.

O que há de mais singular nos postes e árvores da cidade é a função suplementar. Nem uns nem outras, a menos de duzentos metros de qualquer escola, escapam à publicidade de apartamentos e quartos de aluguer que, no início de cada ano letivo, entra em cerrada competição com paredes e esquinas das ruas.

Não se julgue que os postes e árvores, revestidos a fita cola transparente, são apenas o veículo promocional imobiliário, alugado à fatia, em economia informal ou com recibo . Mobílias quase novas, carrinhos de bebé, livros escolares, vestuário e computadores, estão à venda em números de telemóvel, por entre ofertas de canalizadores, eletricistas e reparadores de rádios, televisões e persianas.

É lúgubre ver estes jornais de parede disputados por agências funerárias, com os nomes dos mortos em letras garrafais e os títulos académicos, quando os há, bem destacados no defunto e em caracteres normais a preceder o nome dos familiares até ao 4.º grau, títulos que são a glória da agência que conseguiu angariar o cadáver.

Hoje morreu uma senhora de 87 anos a quem, por pudor, omito o nome. Por baixo da foto vem o nome e, por baixo deste, destacado em uma única linha, em maiúsculas, o título (PROFESSORA DOUTORA). A agência não se poupou a esforços, anunciou-o  na parede da capela, na paragem do autocarro, em várias paredes e dezenas de árvores e de postes onde o anúncio sobressai por entre modestos «aluga-se quarto a duas meninas com direito a banho».

É um privilégio, para qualquer agência, angariar a inumação de uma “Professora Doutora”.


Jangada à deriva


Imagens do bairro de S. Sebastião

Avalio o que é chegar a casa, ver a alegria dos filhos, e reprimir a lágrima de quem não sabe se mantem o emprego e a capacidade de os sustentar. Até quando a sopa e o arroz com carne de segunda, onde já falta a fruta, poderão perpetuar a dieta mínima com que se criam os filhos?

Ontem, do outro lado da rua do prédio onde moro, em frente a uma garagem, por baixo da capela, dezenas de pessoas aguardavam a distribuição de víveres que uma instituição religiosa distribui regularmente. Havia gente de todas as idades, negros e caucasianos, homens e mulheres, numa fila que cresce em cada semana que passa.

Por pudor, quando passei, baixei os olhos, mas reconheci várias pessoas cujas carências ignorava. Até quando é possível manter a fome escondida, esta sobrevivência ameaçada e a dignidade atingida?

Nos olhos tristes de quem pede vi o reflexo de uma sociedade em fila a estender a mão à caridade, perdidos os sonhos de uma vida digna, espoliada do direito á felicidade.

Do meu bairro vi o País.


segunda-feira, setembro 23, 2013

Factos & documentos



Quo vadis, Europa?

 

Zeus raptou a Europa, disfarçado de touro para iludir Hera, sua mulher, e fugir ao seus ciúmes. Cadmo procurou a irmã, mas Zeus, pai dos deuses e dos homens, levou-a para Creta onde lhe deu três filhos. 

A Europa, filha de Agenor, rei da Fenícia, era então, na mitologia grega, uma paixão de Zeus e um ódio de estimação de Hera.

O ódio dos deuses não cansa. Quem sabe se Hera quer ainda vingar-se da Grécia por ter escondido numa ilha do sul do Mar Egeu, a amante de Zeus? Basta de tanto sofrer!

Será que, perdida a beleza e a virtude, a Europa foi abandonada à sua sorte, depois de os deuses terem sido remetidos à mitologia?! Que pecados cometeram a Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e Chipre para serem ainda perseguidos por Hera ou, em seu nome, por uns deuses a que falta a beleza helénica e o humanismo europeu – os «mercados»? 

Hoje, a Europa está mais dependente da Sr.ª Merkel do que dos deuses do Olimpo ou do ciúme da mulher de Zeus. Eu continuo a achá-la, na sua fragilidade e beleza, nos valores que conserva e nos sonhos que ainda guarda, a eterna inspiração dos meus afetos.

À medida que a vejo debilitar-se sob o peso da globalização, incapaz de corresponder aos sonhos dos 740 milhões de pessoas que a habitam, quero acreditar na convalescença da mãe de todas as liberdades, na saúde do berço da democracia, na força da esperança na justiça social.

Um amante, quando vê a amada em risco de perder-se, não perde a fé na sua amada nem a esperança num futuro comum. Zeus deixou por aí uns filhos que não eram da Europa, uns descendentes que não estão à altura da deusa que habitam e da sua natureza.

Esperemos que Merkel, cuja dimensão da vitória só pode ter sido alcançada com a ajuda de Zeus, não se converta em Hera e persiga a Europa, incapaz de compreender que não haverá Alemanha sem Europa.

domingo, setembro 22, 2013

Não gosto que se matem uns aos outros

Nesta manhã de domingo, um atentado suicida contra a Igreja de Todos os Santos de Peshawar, a capital de la província paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa, causou pelo menos 78 mortos e uma centena de feridos, entre os cristãos que saíam da missa.

Que raiva é essa dos muçulmanos, como outrora a dos cristãos, e, ainda hoje, a de várias Igrejas contra crentes de Igrejas concorrentes? Que loucura dos livros sagrados, pregada nas madraças e mesquitas, pode levar um crente alienado pela fé, ávido de virgens e de mel, a imolar-se, deixando atrás de si um rasto sangrento de morte?

Que constrangimentos sociais, que demência coletiva, que ódio atávico faz de um crente um assassino e de um homem uma fera?

Maldita fé que perpetuam manuais terroristas, herdados da Idade do Bronze. Para além do ódio que semeiam servem de veículo a jogos geoestratégicos e à cobiça do petróleo. E não faltam delinquentes capazes de morrer e matar em nome de um ser imaginário, na alienação mística que só a crença transmite.

Raios os partam.


Nuno Crato é um ministro a fazer de conta

Nuno Crato é um erro crasso da natureza. Viajou de Mao a pior até chegar a ministro de Portas, digo, Passos Coelho, que é ainda mais infamante.

Não creio que descesse tanto para que o seu ministério colocasse a amantíssima esposa, Luísa Borges de Araújo, no conselho científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Não, foi apenas a perda de um módico de senso, e um acesso de vaidade, que o levou a protagonizar a maior trapalhada de um início de ano letivo, de há muitos anos a esta parte.

Crato é um epifenómeno da política cuja vaidade destruiu um percurso académico, cujo desleixo arruinou o ensino, cuja inépcia contribuiu para ser um igual entre outros iguais de um Governo homogeneamente incapaz.

Nuno Crato é o Passo Coelho da Educação e Ciência, o Portas dos Submarinos, a Maria Luís Albuquerque dos swaps, o Poiares Maduro das conferências de imprensa, o Relvas de segunda com habilitações de primeira.

Crato sacrificou as aulas de inglês às de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), o início pacífico do ano letivo à anarquia de escolas sem professores e alunos sem aulas.

Crato não é ministro, é o contabilista que veio de guarda-livros, o amanuense que recebe ordens de burocratas, o sorriso num rosto que perdeu a face, uma nulidade de um elenco que perdeu o país, trucida o ensino e arrasa Portugal.


De vitória em vitória até á derrota final…

Portugal não tem um Governo, tem um logro de que o PR é responsável, um bando de gente pouco recomendável que, desiludida com o país, procura beneficiar, até ao fim, do poder que o PR lhe prorrogou após a demissão irrevogável de Paulo Portas.

Em época de crise e desespero, não mexeram no mapa dos concelhos, não diminuíram as administrações faraónicas das autarquias, mantiveram à solta as EPs, os benefícios às Fundações e as ajudas aos privados, a quem obstinadamente querem entregar as funções sociais do Estado enquanto pensam em despedir funcionários e confiscar pensões.

As apreciações da Troika foram sempre de louvor e distinção, até à próxima espoliação dos contribuintes, como se o esbulho não fosse já a corda que asfixia e a guilhotina que separa a cabeça do tronco sem vida da classe média.

O Governo mente ao Parlamento e ao País, a ministra das Finanças estrebucha na lama dos swaps, o ministro dos Negócios Estrangeiros oculta a passagem pela SLN com a mesma desmemória com que Cavaco esqueceu onde fez a escritura da casa da Coelha, o vice-primeiro-ministro emerge do submarino que desce para subir à chefia do Governo a anunciar a retoma e o PM anda por aí a ameaçar os juízes do Tribunal Constitucional e a dar palpites sobre o que os prestamistas e os avençados devem dizer aos juízes do TC.

António Mexia, CEO da EDP, chinês de origem portuguesa, tem o arrojo de substituir a reflexão dos juízes do TC pela sua douta opinião de sábio constitucionalista: «A leitura da Constituição tem de ter em conta as restrições do mercado», como se os partidos e os cidadãos estivessem representados por quem nunca se submeteu ao escrutínio público.

A chantagem é a arma de quem não tem da honra o menor resquício e da democracia a mais leve ideia. Que canalha!


sábado, setembro 21, 2013

Avisos à navegação e/ou o anúncio de nova ‘crise’?


O discurso político, embora contaminado pela circunstância de estar em curso uma campanha eleitoral, volta a revelar indícios de ‘tempestade’ quando é observado à luz de um atento e criterioso crivo de valores e princípios democráticos fundamentais.

As recentes declarações de Passos Coelho na campanha autárquica do PSD (Malveira, Mafra) link são preocupantes e, pela enésima vez, indiciam o ‘desastre’ eminente.

São, desde logo, mais um recado (dirigido para o interior da coligação e eventualmente para o PR) sobre uma ‘crise política’, em franca incubação, decorrente da ‘instabilidade’ interna do Governo. O primeiro-ministro (ou o presidente do PSD) na vã tentativa de tentar desesperadamente evitar consequências políticas mais não consegue camuflá-la. Na verdade, só consegue aprofundá-la.

Passos Coelho, aparece no terreiro político a explicitar um ‘novo’ conceito sobre o exercício das suas funções governativas que, acumulando fracassos atrás de fracassos, pretendendo ‘demonstrar’ que a solução desta esgotante crise é incompatível (ou inconciliável) com a clarificação da situação política, e a obrigatoriedade de nova consulta popular, invocando dois espúrios motivos:

a) Os mercados não querem eleições e ponto final (será que as autorizarão em 2015?);

b) Convenceu-se que, em Junho 2011, os portugueses terão ido às urnas, não para escolher partidos que governassem Portugal numa situação de confronto com uma grave crise económica e sobretudo financeira mas sim para plebiscitar um ‘caudilho’ que estaria incumbido (pelos mercados?) de ‘implantar’ uma nova ordem política, económica e social.

Estas declarações sugerem um novo estilo de ‘caudilhismo’ (sem a componente militar mas associado a um intenso arsenal mercantilista) que em matéria 'organicista' se inspira nos movimentos que assolaram a América Latina no séc. XIX sob a forma de lutas de libertação colonial (ou pela independência nacional) e, mais tarde, numa forma pervertida por uma sangrenta ditadura fustigou a Espanha em meados do séc. XX . Seria, neste contexto, um musculado 'modelo hispânico de neo-liberalismo'.
De facto, nas últimas eleições legislativas, ao contrário da mensagem que a ‘maioria governamental’ está a querer ‘passar’, não foi submetido a escrutínio – nem poderia ser – qualquer questão (próxima ou remota) acerca do regime.

Regressando à actualidade, entramos num período em que a estabilidade política perdeu sentido político para dar lugar à urgente necessidade de clarificação. Falta o Governo entender esta evidência para possibilitar que o País opte - face ao conhecimento concreto da realidade e de confrontado com todas as opções políticas e ideológicas alternativas - o que está disposto a assumir e a rejeitar. Ninguém aceita uma exponencial ‘espiral de sacrifícios’ só porque os seus executores estão convictos dessa ‘necessidade’ (ideológica e política).

Esta é uma realidade cada vez mais incontornável e ao que parece, os denominados e invisíveis credores, ou os seus lídimos 'representantes' ou ‘notificadores’, já deram mostras de o ter entendido, começando por ameaçar e estabilidade do sistema bancário nacional e levantando a lebre sobre um "ressurgimento de tensões políticas" link… O 'alerta' não podia ser mais explícito.

Devem ouvir-se igualmente as duas partes


sexta-feira, setembro 20, 2013

Portugal e a Inquisição

Inquisição Portuguesa


Portugal, à semelhança de Espanha, não teve os benefícios da Reforma e sofreu toda a violência da Contrarreforma. No dia de hoje, em 1540, realizou-se em Lisboa, perante o gáudio da Corte, que esteve presente, o primeiro auto de fé da Inquisição em Portugal.

Peregrinações eleitorais e eleições piedosas – votos e terços

O presidente da Junta de Freguesia de Grijó organiza a peregrinação a Fátima com 800 idosos, bem comidos, viajados, confessados e comungados e o presidente da câmara de Esposende aluga 32 autocarros para peregrinar 2 mil idosos, também a Fátima, e, com 5 mil euros, a juntar aos 32.500 € da deslocação, dá-lhes a ferramenta que alimentará os seus últimos dias – 1 terço a cada idoso –, para não esquecerem os cuidados da alma e os votos que no dia das eleições irão depor na urna.

A fé viaja com indulgências autárquicas por estradas de Portugal com destino a Fátima. Os pios edis, em vez de ficarem com 1 terço de cada adjudicação, doam um terço a cada idoso que peregrina. O Governo anseia vê-los em defunção, na urna que lhes guardará os ossos, a fim de aliviar a pressão sobre a Segurança Social, mas os autarcas preparam-nos para a urna onde deporão o voto. Entre os votos pios que os autarcas estimulam e os votos partidários que solicitam, é sempre no setor terciário que se movem.

O terço, não a fração nos negócios, o artefacto com que se rezam novenas e se passam os dias a cuidar da alma, são uma imaginativa prenda que só almas sensíveis ao pedido da Irmã Lúcia, são capazes de imaginar. E é tanta a devoção, que nem se lembram de os pagar do seu bolso, renetem a fatura para as despesas da autarquia.

Na idade em que as hormonas se aquietam e os pecados estão ausentes, não há melhor remédio para as tendinites do que dedilhar as contas do rosário e, com padres-nossos e ave-marias, cuidar do caminho do Paraíso. O terço, não a fração dos lucros em negócios autárquicos, o verdadeiro terço, aquele que a Irmã Lúcia recomendou a rogo da senhora mais brilhante do que o sol, é o poderoso demonífugo que os pios autarcas entregam nas mãos devotas que não esquecerão a prenda no dia das eleições.

O Governo e a requalificação dos funcionários públicos

Decididamente este governo não tem apenas problemas com a governação, tem graves dificuldades com a linguagem, a ética e a legalidade. Da Constituição da República aos Tribunais, dos sindicatos aos cidadãos, da Segurança Social à Saúde, da Escola pública à preservação das florestas, tudo são forças de bloqueio ou transtornos para um governo que gostaria de outro país, eleitores diferentes e uma política cozinhada com o seu PR.

Quando Passos Coelho, um génio do analfabetismo político e da indigência governativa, fala na requalificação dos funcionários, não pensa na atribuição de nova classificação ou na redefinição de funções, refere-se, no seu rudimentar vocabulário, a despedimentos.

Passos Coelho é um sólido talento da banalidade que, liberto das funções governativas, endossadas a Paulo Portas, passeia os guarda-costas pelo país amedrontado a dizer que não é eleitoralista. Aceitando que no reduzido léxico do alegado PM caiba o significado de tal palavra, tem-se a certeza de que não sabe do que fala quando refere aos resultados económicos que – segundo diz –, começam a aparecer.

Houve um conjunto de coincidências trágicas na desgraça que nos atingiu: a candidatura de Cavaco, a que a mais baixa votação de sempre não impediu a reeleição tangencial; a crise financeira mundial; a eleição inapropriada de Passos Coelho, julgada de transição, para líder do PSD; a queda da confiança do eleitorado, em Sócrates; o rancor de Cavaco ao PM; a oportunidade de Ângelo Correia e Miguel Relvas colocarem a sua criação em S. Bento; a precipitação das eleições legislativas em tão sinistro cenário.

Hoje, com Cavaco manietado, sabe-se lá por quem e porquê, as traquinices irrevogáveis de Paulo Portas não foram suficientes para dar voz ao eleitorado, enquanto a situação se degrada inexoravelmente e a suspeição no PR e no PM ferem a confiança na República.

quinta-feira, setembro 19, 2013

Nuno Crato – De honrado professor a ministro medíocre de um medíocre Governo

Nuno Crato, dizia hoje no telejornal das 20H00, na RTP, que o ensino do inglês deixava de ser de oferta obrigatória no 1.º ciclo porque «à palavra ‘obrigatório’, preferimos (plural majestático?) a palavra liberdade».

O ministro da facultativa Educação e Ciência, que acrescentou ao curriculum académico o pouco glorioso epíteto de ministro de Passos Coelho, acaba com a obrigatoriedade do ensino de Inglês no 1.º ciclo, retrocesso civilizacional que coloca os filhos dos pobres em desigualdade com os filhos de quem pode pagar o ensino da referida língua.

Melhor dito, o ensino do língua inglesa fazia parte obrigatória das chamadas Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), embora estas fossem de frequência facultativa. Agora, graças à ‘liberdade’, segundo Crato, deixou de fazer parte obrigatória, forma que encontrou para o banir e contribuir para o regresso à discriminação social.

Curiosamente, as aulas de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), continuam a ser de “oferta obrigatória”, como dizem os docentes discricionariamente nomeados pelos bispos diocesanos e obrigatoriamente pagos pelo Estado Português.

Há vidas que minam a honra e corroem a decência, num trajeto sombrio, de quem vem da escola pública para a arruinar, fazendo medrar colégios privados e escolas pias.

As palavras que escondem e enganam

Há palavras que deviam queimar os lábios de quem as profere, palavras que, em vez de esclarecer, escondem, e não exprimem o que parece, ocultam o contrário do que dizem.

«Liberdade de escolha» não é um pensamento, é uma armadilha; não é um programa, é uma habilidade; não é liberdade e, muito menos, escolha. É mero slogan para capturar o ensino público, privatizar a saúde e engolir a segurança social, na insaciável voragem de seguradoras, bancos e outras empresas privadas. É uma forma capciosa de espoliação do que é de todos, através do Estado, para todos dependermos apenas de alguns.

A sofreguidão com que o setor privado engole a saúde, com ganho do setor dito social, num ato de caridade que confisca pessoas, bens e a liberdade, devia ser alvo da reflexão dos portugueses.

O bando ultraliberal que escondeu a agenda perversa que levou para o Governo, à boleia do PR, que o protege, devia ter-nos posto de sobreaviso. Há uma metódica transferência dos hospitais para grupos privados enquanto, à sorrelfa, o setor social, insaciável, e com pias intenções vai refazendo o império da caridade; quanto à instrução, já estão preditos os cheques de ensino com que se desmantela o ensino público, laico e igualitário, para aniquilar a coeducação e instaurar o carácter confessional; se ainda houver tempo, ficam os alicerces da transferência da segurança social para as companhias de seguros.

A República, perdido o feriado, que lembrava a identidade do regime, uma vez por ano, foi deixada à mercê de grupos privados enquanto o Governo mais inapto de sempre, não podendo fazer pior, fez o melhor que pôde a entregar o nosso destino coletivo nas mãos dos patrões a quem obedece servilmente.

A democracia, esvaziada, ficará à mercê de aventureiros, quando formos expulsos da União Europeia ou esta, no seu estertor, fique a aguardar a certidão de óbito.

A Constituição da República, inviabilizada pelo bando que a odeia, será substituída por um arremedo que consagrará a «liberdade de escolha» a quem a possa pagar.

O espólio de uma democracia, que nasceu para a felicidade de um povo, será dividido entre os abutres do capital financeiro e a gula das instituições pias. E nós deixamos!

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, setembro 18, 2013

Ministra das Finanças a quem os swaps se colaram à pele

Maria Luís Albuquerque aprovou um financiamento de 150 milhões de euros que a EP Estradas de Portugal contraiu junto do Deutsche Bank, desconhecendo – segundo diz o Governo –, os detalhes do swap que lhe estava associado. Dada a insignificância de tal montante, é natural que aprovasse de cruz, como soe dizer-se.

Mais difícil é compreender que tenham sido destruídos os papéis de trabalho dos swaps, que deviam ser guardados durante 20 anos, segundo a Direção-geral de Arquivos, e não lhe tenham sido apresentados os autos de destruição, duas bagatelas legais.

Não sendo fácil perceber um instrumento de gestão tão complexo – um swap –,  fico-me pela ideia que tenho: é um seguro sobre as taxas de juro, seguro que se tornou um maná para as seguradoras, porque os juros desceram muito, mas que seria uma bênção para as EPs se tivessem subido de forma drástica.

Não me parece, pois, que a contratação de swaps, não havendo corrupção, tivesse sido um crime. Foi um negócio que correu mal, face à evolução negativa das taxas de juro, e para o qual estavam mandatados os gestores das EPs, pelo que leio, sem necessidade de recurso à tutela, isto é, ao ministro respetivo.

Em resumo, foi mais uma adversidade para os portugueses, desgraça que o PSD queria transformar em arma contra o anterior Governo quando viu que o atual era pior em tudo. Mal preparado, teve de livrar-se à pressa de vários secretários de Estado, ficar com uma ministra insustentável e, finalmente, assistir ao feitiço a virar-se contra o feiticeiro.

Chama-se a isto ir em busca de lã e vir tosquiado. Infelizmente, o País já está sem coiro e cabelo e impedido de correr com o Governo presidencial, apostado a hipotecar o que resta e a não deixar pedra sobre pedra do Estado de direito.

Maldita sorte.

P.S. 1 – Entre a palavra de Almerindo Marques e a da ministra, depois das trapalhadas em que esta se meteu, é difícil duvidar do primeiro.

2 – Pedir a demissão da ministra, por ter mentido, é hilariante. Por esse motivo já teria sido demitido o PM logo que o Governo tomou as primeiras medidas.


terça-feira, setembro 17, 2013

Um título à altura do órgão oficial da Diocese de Bragança-Miranda.


Ajudar o PR é destruir Portugal


segunda-feira, setembro 16, 2013

Afinal, havia outra…

Eugénio Rosa, economista, escreveu um minucioso relatório sobre os ‘cortes das pensões na CGA’, que termina com esta ‘curiosidade’ (pág. 9) link :

“ …Para terminar interessa ainda referir uma nova norma que foi introduzida na 2ª versão da proposta de lei e que visa claramente a protecção de determinadas situações criadas no passado, em clara contradição com a forma como são tratados os aposentados que sofrerão cortes nas pensões que já recebem.
Na última versão da proposta de lei foi introduzido num novo número (o nº 3 do art 9º), que estabelece que o regime de suspensão da pensão (que determina que o aposentgado que esteja em funções públicas tem de suspender a pensão e optar obrigatoriamente pela remuneração do cargo que ocupa) só se aplica “às situações de exercício de funções constituídas e renovadas a partir da data de entrada em vigor da presente lei”.
Desta forma, Cavaco Silva, p. ex., poderá continuar a receber as suas pensões em vez da remuneração de Presidente da República”.

'Afinal, havia outra'… foi uma canção de Mónica Sintra que teve algum sucesso na sua época.

Na anunciada ‘convergência entre as pensões públicas e privadas’ que acaba por ser um inqualificável 'esbulho' aos aposentados, com incidência retroactiva (nos cálculos futuros), existem situações paralelas e/ou aparentemente marginais, excepcionais, etc., que são ‘convertíveis’, assimiláveis no contexto e continuam apegadas a um quadro legal, intocável nalguns ‘pormenores’. Um quadro um pouco na senda da dualidade da canção citada.

A retroactividade não é assim tão generalizada, nem tão impiedosa. Poupa, ao que parece, as opções remuneratórias do actual Presidente da República, como pouparia a actual presidente da AR se ela própria não fosse ‘possuída’ de uma excepção original (reforma de juiz do TC).

Aguardemos o que twitter de Belém nos contará sobre isto e se daqui a alguns dias - quando da aprovação desta lei na AR - ouviremos uma nova tirada da sua Presidente do estilo ‘não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes", desta vez não atribuída a Simone de Beauvoir mas ao revolucionário Gracchus Babeuf que, de facto, Simone citou, mas de outro modo e noutro contexto (Simone citou assim: “Os nossos carrascos criaram-nos maus costumes, escrevia com desgosto Grachus Babeuf ”).

Quando se trata de ‘carrascos’ seria bom pôr as coisas muito claras e em pratos limpos porque os julgamentos históricos costumam ser muito rigorosos (como deveriam ser as citações).

E só voltei ao tema dos ‘carrascos’ porque os aposentados da CGA vão ser submetidos, dentro de dias, a uma execução sumária exactamente na casa onde Assunção Esteves preside aos cerimoniais.


Associação Ateísta Portuguesa (AAP). Exposição ao MAI

Senhor ministro da Administração Interna, Dr. Miguel Macedo

Excelência:

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP), vem expor e solicitar a V. Ex.ª o seguinte:

1 – A Junta de Freguesia de Grijó organizou uma peregrinação a Fátima, como se tornou público pelas cenas de pugilato a que a presença do candidato à Câmara de Gaia, Carlos Abreu Amorim, PSD/CDS, deu origem;

2 – A referida peregrinação foi organizada pelo presidente da Junta de Freguesia, Sr. Rogério Tavares, com a participação de 800 idosos distribuídos por 17 autocarros, como referido na comunicação social em 9 do corrente mês;

3 – Entende a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) que, num Estado laico, as autarquias não devem apoiar oficialmente a devoção a uma religião. Pelo contrário, devem respeitar criteriosamente o n.º 2 do artigo 13º e o n.º 4 do artigo 41º da Constituição da República Portuguesa e não beneficiar nenhum cidadão em razão da sua religião;

Assim, em nome da laicidade do Estado e da moralidade pública, vem a Associação Ateísta Portuguesa solicitar a V. Ex.ª se digne mandar esclarecer o seguinte:

1 – Qual a base legal para a despesa da Junta de Freguesia com o aluguer de autocarros, almoço e outros custos adicionais para uma manifestação de carácter particular;

2 – Qual o montante gasto na excursão;

3 – Quais os cuidados que a autarquia tomou relativamente aos idosos antes de submetê-los a tão longa e cansativa excursão;

4 – Se houve uma alternativa cultural, abonando em numerário o custo individual da excursão a Fátima a quem preferisse, por exemplo, visitar um museu.

Antes das respostas que aguarda, a AAP repudia, desde já, a atitude da Junta de Freguesia de Grijó que considera imprópria de um país europeu, laico e democrático.

Receosa do regresso aos tempos de Fátima, Futebol e Fado, a AAP considera ética e civicamente lamentável a promoção de peregrinações religiosas por órgãos do Estado ou pelas autarquias.

Em defesa da ética republicana e do carácter laico do Estado que impede a caça ao voto através de pias excursões e lamentáveis expedientes, a Associação Ateísta Portuguesa solicita ao senhor ministro da Administração Interna que, por intermédio da Inspeção-geral da Administração do Território, se digne averiguar eventuais ilícitos na matéria exposta e proceder em conformidade.

Aguardando que V. Ex.ª se digne esclarecer esta Associação, apresentamos-lhe os nossos melhores cumprimentos e subscrevemo-nos,
Associação Ateísta Portuguesa

Não há dever de reciprocidade?

O primeiro-ministro esloveno, o social-democrata Alenka Bratušek, lançou ontem a primeira pedra da primeira mesquita do país, em Liubliana, na presença de um ministro do Catar, país onde abandonar o islamismo é considerado apostasia e quem se converta ao cristianismo enfrenta perseguição severa.

Que a construção de uma mesquita é «uma vitória simbólica sobre todas as formas de intolerância religiosa» – como declarou o PM anfitrião –, é uma evidência irrefutável.

Mas será legítimo erigir mesquitas em países democráticos se no Catar a plena liberdade religiosa só existe para o totalitarismo islâmico?

Quando o Papa católico puder batizar um cristão na catedral do Bagdad, o grande rabino de Jerusalém orar na sinagoga de Cabul, o Patriarca da Igreja Ortodoxa Grega pregar em Rabat, o arcebispo de Cantuária oficiar no Bahrein, o bispo da IURD comprar um terreno no Azerbaijão, para expandir o negócio, e uma associação de ateus, céticos, agnósticos e racionalistas for legal no Iémen ou na Arábia Saudita, então poderão nascer mesquitas e madraças nos países onde o pluralismo religioso, político e filosófico são apanágio das democracias.

Que vitória sobre a intolerância seria ver um pagode em honra de Buda, em Omã, ou um templo hindu, dedicado a Vixnu, na Somália!

Até lá, encaro com apreensão a complacência com o multiculturalismo, sobretudo com o Islão, que promove a guerra aos infiéis, lapida mulheres adúlteras, decapita apóstatas e recusa respeitar a Declaração Universal dos Direitos do Homem.


domingo, setembro 15, 2013

A tradição, a fé e o crime

Enquanto no Iémen as autoridades averiguam sem entusiasmo a morte de Rawan, uma menina de 8 anos, possivelmente por ferimentos sofridos na primeira noite do seu casamento com um homem de cerca de 40 anos, crimes desta natureza não passam de danos colaterais da vontade do misericordioso profeta Maomé que, entre as 16 esposas, geralmente viúvas, desposou Aisha, menina de 6 anos, cujo casamento concretizou aos 9.

Como o analfabeto pastor de camelos é o homem mais perfeito para o maior número de pessoas do planeta, a idade de Aisha continua a ser a bitola que permite aos pais a venda das filhas para fins matrimoniais.

Nas sociedades sujeitas ao cristianismo, o fim da aberração, que o Antigo Testamento permite, não encontrou eco no direito canónico, mas no código civil, de natureza laica, frequentemente em confronto com a Igreja.

Invocar a cultura ou a tradição para absolver a perpetuação de iniquidades, geralmente contra as mulheres, é um crime oculto sob o álibi da tolerância e do multiculturalismo.

O silêncio dos países civilizados, com a voz embargada pelo petróleo, é uma vergonha que os torna cúmplices da barbárie.

Almoço do 5 de Outubro em Coimbra

Inscreva-se com antecedência

Depois do Vietnam, o Iraque não serviu de exemplo

O bando dos quatro, que nas Lajes traiu a verdade, o direito internacional e a ética, goza reformas ou chorudas sinecuras, depois de transformarem o Iraque no campo de morte permanente onde a vida deixou de ter valor e o ódio sectário é a única herança do plano gizado pela dupla Bush/Dick Cheney.

Em maio de 2003, Paulo Portas, à saída da audiência com Donald Rumsfeld, nos EUA, declarou que Portugal “...faz parte do conjunto dos países vencedores”. O antigo fato às riscas, com o ministro da Defesa dentro, não terá remorso do entusiasmo belicista a que Jorge Sampaio moderou o ímpeto?

As palavras de Portas, quando era um fato às riscas com um ministro da Defesa dentro, soam hoje como infâmia perante as mortes diárias a que ninguém consegue pôr cobro. Os  "neocons" conduziram a América para o maior desastre depois do Vietnam com o entusiasmo de Aznar, Blair, Barroso e Berlusconi, cúmplices que dormem tranquilos sobre os escombros do país que destruíram e as mortes que diariamente ali acontecem.

A ditadura de Saddam, ao contrário das teocracias, era a única com um ministro cristão e que garantia o carácter laico do Estado. Judeus e cristãos suportavam a ditadura mas não eram molestados nas suas crenças. Desapareceram logo que os agressores fugiram.

Após a matança, que não poupou os próprios invasores, o Iraque virou campo de treino do terrorismo islâmico e o Irão emergiu como potência regional e nuclear. Todos os dias chegam notícias da violência terrorista e do incontável número de mortos.

Os crimes não se reparam com novos crimes nem os erros com a reincidência. A Líbia é hoje um território sem Estado onde bandos armados estabelecem as regras e o Egito regressou à ditadura militar para evitar a sharia. A indústria de guerra tem excedentes gigantescos mas faz pena ver a Rússia com posições sensatas perante Obama, Hollande e Cameron.

Nunca pensei estar ao lado de Putin para lhe desejar sucesso no esforço de paz na Síria.

sábado, setembro 14, 2013

Mudam-se os ventos....

Sigamos o cherne – dizia a mulher –, citando Alexandre O'Neill‎.

Sigamos a consciência, contra os oportunistas e animais anfíbios, que tanto respiram o oxigénio das revoluções como o anidrido carbónico das contrarrevoluções.

Viagens num país «em forma de assim»

De Durão Barroso a José Manuel Fernandes, de Zita Seabra a Nuno Crato, há toda uma galáxia de trânsfugas que passaram do exacerbado radicalismo pequeno-burguês para o mais despudorado neoliberalismo, com tiques estalinistas, rancores antigos e modernos gestos de vingança.

Desiludidos com a classe operária, dedicaram-se a destruir a pequena burguesia com a meticulosa eficiência apreendida nas leituras de Mao e na truculência estalinista.

Andam ainda por aí, nos Tribunais e Empresas, em repartições públicas e no Governo, insaciáveis na destruição do Estado, a fazer de Portugal um laboratório de experiências, as mesmas experiências que levaram a desolação e a morte ao Chile.

Muitos deles são pessoas sem coluna vertebral, vergados aos interesses, sem um pingo de vergonha ou réstia de humanidade. Na defesa dos seus interesses ignoram os milhões que sofrem a miséria, fome e a perda de dignidade. Como não têm honra, é a honra dos outros que querem destruir; como não têm sentimentos são indiferentes à sensibilidade alheia; não lhes pesa o passado próprio enquanto destroem o futuro de outrem.

Há seres ignóbeis que não mudaram de campo, estiveram sempre aliados aos poderosos e, com as piruetas que deram, tornaram-se membros das famílias que amaldiçoavam.


sexta-feira, setembro 13, 2013

A ‘drama sírio’ e os equilíbrios …

Os desenvolvimentos na última semana à volta da questão síria link expõem ao Mundo a grave instabilidade política que assola o Médio Oriente.

Sendo esta região do globo um ‘ninho’ de conflitos capaz de contaminar a paz mundial como as recentes tomadas de posição dos EUA, França, Rússia e China demonstram, parece ter acabado – ou estar próximo do fim – o papel de ‘polícia do Mundo’ importante instrumento da política externa americana. Contraditoriamente ao esperado (especulado) a globalização económica não resolveu, nem fez esmorecer, um dos importantes problemas do final do século XX e início do XXI – os conflitos regionais.

E no Médio Oriente (onde se insere em termos mais vastos o conflito sírio) a situação torna-se, cada dia que passa, mais difícil e potencialmente explosiva. Trata-se de um conflito extremamente marcado por complexas lutas hegemónicas regionais onde os vários autores desempenham múltiplos papéis sob diversas máscaras, incluindo, as religiosas.

Tanto o Irão, como a Turquia, colocaram no terreno os seus peões e moveram as suas influências neste terreno minado que, não há muitos anos, integrava o império otomano, como anteriormente foi o império persa e também uma presa imperial macedónica, para referir os mais importantes. Isto é, o Médio Oriente foi ao longo dos tempos um quintal de sucessivos impérios.

Existem com certeza outras vertentes (outros intervenientes) neste conflito que derivam da extensão e diversidade da região que vai geograficamente do Mediterrâneo Oriental ao Golfo Pérsico. Estes ‘outros’ actores – aparentemente de 2º. plano – acabam por enviesar todo e qualquer esforço de compreensão sobre o que está em jogo nesta região. Países como, por exemplo, a Arábia Saudita desejariam – não tenhamos dúvidas - ter um papel mais influente nesta região porque muito se joga aqui, em termos de futuro, à volta do ‘clã Saud’.

No início do século XXI, mais propriamente há cerca de 10 anos, i. e., a partir de 2003, a intervenção americana no Iraque, congeminada pelos ultraconservadores que rodeavam e comandavam G.W. Bush, trouxe infelizes resultados para o Mundo, precarizando todos os equilíbrios, facto que os EUA teimam em não avaliar histórica e politicamente.

No meio Israel, Iraque, Síria, Líbano representam o papel de actores secundários saltando de uma órbita para outra ao sabor de conveniências tácticas ou interesses imediatos. O ‘drama sírio’ e os equilíbrios  em permanente desagregação inserem-se nesta insustentável leveza (política) por mais desumana e sangrenta que seja a 'guerra civil' em curso…

Hoje, perpassa a sensação que a Síria transitou, provisoriamente, para a órbita russa. Este terá sido o resultado prático do passo em falso do dito Ocidente (Europa incluída) e não só de Obama. 
Em resumo: o Médio Oriente continua cada vez mais instável e perigoso e todas as ‘soluções’ são provisórias, efémeras e parcelares. Inconsistentes, é esse o termo.

OS PARTIDOS E OS "INDEPENDENTES"

Caro Carlos Esperança
O seu texto, como V. mesmo reconhece, enferma de “generalização em excesso” e de “provocação propositada”. A resposta do Rui Pato que subscrevi, enferma talvez, pelo menos no meu espírito, do defeito contrário: eu estava a pensar em certos e determinados “independentes” e não em todos os que pululam por esse país fora. Esses independentes não são trânsfugas de coisa nenhuma nem muito menos “desempregados da política”. Aliás, não precisam da política para nada. São pessoas com brilhantes carreiras profissionais, que lhes dão muito mais relevo social – e porventura mais rendimentos – do que um cargo de vereador. Se intervêm na política é por espírito cívico e de cidadania. Sempre considerei os partidos essenciais à democracia.

Sempre votei em partidos, num em particular. Mas os partidos também têm muitos defeitos, o principal dos quais é justamente a “partidarite”. Os partidos organizam as listas à sua maneira, distribuindo os lugares segundo a conveniência dos militantes, e muitas vezes sem ter minimamente em conta a presumível vontade dos seus simpatizantes, que são quem de facto os elege.

Como disse, costumo votar em certo partido, mas já tive de “engolir muitos sapos”. Em certa eleição legislativa o “sapo” – ou “sapa” - que pretenderam impingir-me era mesmo tão intragável que tive de votar noutro partido de esquerda, para não votar contra as minhas convicções mais profundas. Aliás, suspeito que o meu amigo deve ter feito a mesma coisa…

 Quanto aos independentes em que estou a pensar, não se “refugiam no embuste da apoliticidade”, a sua ideologia é bem conhecida, desde muito antes do 25 de Abril, e não os move qualquer ambição de poder.

Finalmente, no caso presente nem há propriamente dispersão de votos à esquerda. O BE, que costuma concorrer às eleições, desta vez em Coimbra não concorre, aliando-se saudavelmente aos tais independentes, alargando assim a base de apoio de ambos. Em vez de um pequeno partido baseado apenas em si próprio, temos um grupo alargado, com muito mais capacidade de captar os votos dos desiludidos com os partidos tradicionais, que de outro modo talvez não votassem. Enfim, poderei estar errado – dúvida metódica – mas é assim que penso.

O Governo e a agenda escondida

Havia, desde o princípio, uma agenda escondida do atual Governo para ajuste de contas com o 25 de Abril e os direitos dos trabalhadores. A crise foi uma ajuda suplementar a servir de álibi ao perverso desígnio.

Os pagamentos para rescisão de contratos são meros subsídios para o desmantelamento do Estado. A má gestão, a multidão de assessores, a continuação de Fundações, de EPs e isenções fiscais a instituições diversas, são formas de tornar mais dramática a situação que, com a cumplicidade do PR, este Governo vai conduzir a um ponto de não retorno.

Na saúde, um direito que nos fez viajar do Terceiro Mundo para valores dos países mais avançados, estão em saldo os hospitais, enquanto se negoceiam os doentes com o sector privado a cuja boleia engordam e se embriagam as piedosas obras assistenciais.

Os direitos estão a caminho de se tornarem favores pios e a dignidade será entregue ao arbítrio da caridadezinha, como no Egito onde os Irmãos Muçulmanos, já ilegalizados, continuam a assegurar a rede educativa e assistencial.

Recordo-me bem do que aconteceu com a diálise, muito mais barata feita por privados, mas quando os hospitais públicos perderam a sua capacidade, uma multinacional tomou conta de 80% das clínicas de diálise e impôs ela os preços.

Quando gestores amorais, académicos sedentos de poder e políticos venais se juntam, dá a funesta mistura que conduz Portugal à miséria e os portugueses à tragédia.


Putinização autárquica

Vladimir Putin, presidente musculado da democracia russa, é o paradigma dos autarcas portugueses. V. Putin, no respeito pela lei, intercalou as funções presidenciais com as de primeiro-ministro, para regressar ao lugar de cujo poder nunca abdicou.

Em Portugal, há vários presidentes de Câmara, a começar pelo presidente da Associação Nacional de Municípios (ANM) ,que vão fazer retiros espirituais como presidentes das Assembleias Municipais, para regressarem à presidência das Câmaras.

Mas, enquanto Putin, não passou pela humilhação de ser ministro de um Governo que não fosse presidido por ele, os edis autóctones aceitam ser vereadores para garantirem o emprego e prepararem o regresso.

Há na miséria moral que assola o país um estranho mimetismo com os governantes que rastejam perante a troika ou se põem de joelhos para manterem um prato na manjedoura do orçamento.

Longe vão os tempos em que a coluna era vertebral e o osso a matéria de que era feita.


quinta-feira, setembro 12, 2013

As eleições autárquicas e a propaganda

Os mais afortunados a usar dinheiros públicos já começaram com feiras do artesanato, inaugurações, às vezes repetidas, e festas populares, com transportes, vitualhas e vídeos promocionais da obra feita, a preparar os eleitores para o voto que é preciso fidelizar ou transferir para outro protagonista, dentro do partido, se o atual expirou o prazo legal.

Aos independentes, com trânsfugas e desempregados políticos, resta-lhes aproveitarem as comemorações cívicas cuja memória histórica é património de muitos, diminuindo a participação nas cerimónias pelo uso eleitoral que deviam ter vergonha de hegemonizar.

Lamentável é o mau serviço que prestam quando se escondem sob um pseudónimo cuja ideologia é difícil descobrir, se refugiam no embuste da apoliticidade ou numa frente de ideologias conflituantes, tendo como único denominador comum a luta pelo poder.

Os partidos instalados usam e abusam, às escâncaras, da máquina partidária e dos meios públicos que o pudor republicano devia impedir. Os comícios sub-reptícios, sob o álibi de uma inauguração, a pretexto da festa canónica ou com a alegação de uma despedida ao autarca que não pode recandidatar-se, são bem mais eficazes do que as assembleias de avençados partidários com dependentes dos contratos a recibo-verde, onde se reúnem a força pública e o público à força.

Gostaria de poder votar no partido de menos poluição visual, sonora ou motorizada, mas a necessidade de derrubar os emblemas fiéis aos partidos que conduzem Portugal para o abismo, numa sanha libertina contra a Constituição e os direitos dos trabalhadores, leva-me a guardar o voto para os castigar.

Nem sequer posso optar entre os que fazem promessas e quem apenas procura reduzir o défice autárquico que vai herdar. Era o último que mereceria o meu voto, na certeza de que extinguiria as Empresas Públicas municipais e faria um orçamento consolidado do município. Talvez um dia os autarcas sejam obrigados.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, setembro 11, 2013

Antero de Quental

No aniversário da sua morte (11 de setembro de 1891) é justo recordar o escritor e poeta que teve papel marcante no movimento da Geração de 70.

O intelectual cuja produção intelectual é património e herança assumidos por muitos de nós, sintetizou na notável conferência, «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares», as causas do atraso que ainda continuam válidas.

Para que a memória não se apague

Quando, em 1987, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos, um apelo para a libertação incondicional de Nelson Mandela, os três países que votaram contra foram os Estados Unidos da América, de Reagan, a Grã-Bretanha, de Thatcher, e o governo português, de Cavaco Silva.

Imagine...

Há 40 anos, no Chile

40 anos do golpe de Estado no Chile

Há 12 anos, o fascismo islâmico na apoteose da demência.


terça-feira, setembro 10, 2013

A superstição, a remissão dos pecados e os negócios pios

Eu, ateu, me confesso.

Estou solidário com o papa na preocupação e condenação da aventura belicista contra a Síria. Reconheço-lhe a corajosa atitude no saneamento do banco do Vaticano (IOR) e na limpeza da Cúria, seja nas ligações à máfia ou no desmantelamento do lóbi gay, de que se queixou, não por ser gay, mas pelos interesses obscuros que representa.

Admiro o risco de vida que corre e a coragem de que precisa, mas não o levo a sério nos jejuns e orações, como armas da paz, do mesmo modo que não me atemorizo com maus olhados ou com as pragas que as ciganas rogam a quem não lhes deixa ler a sina.

Confesso que, tendo simpatia pelo atual papa, o exercício do múnus fortalece em mim a descrença, como se ainda precisasse de qualquer suplemento de ânimo para ouvir a voz da razão. Quem pode aceitar que a indústria dos milagres continue próspera sem a mais ténue explicação para a superstição que embrutece os crédulos? Que canonize um bem-aventurado de reputação dúbia, como João Paulo II, é uma opção de quem tem alvará para conceder a santidade. Não precisava de adjudicar milagres que ridicularizam a fé e não são benzina que limpe nódoas.

Como é possível que, após a abolição do Purgatório, retirado do catálogo das veniagas da fé, pelo antecessor, volte ao cardápio dos produtos pios, com desconto na estadia das almas penadas, se os vivos seguirem o papa no twitter?

Finalmente, só faltava o perdão dos pecados, outrora fonte de receitas da Igreja católica, passar por uma maratona pia, rumo ao santuário de Nossa Senhora do Carmo da Penha, em Guimarães. As peregrinações voltaram com direito ao perdão dos pecados.

Não há indulgência que perdoe tão atrevida promoção da crendice e do ensandecimento.


Os coxos têm mais dificuldade na remissão dos pecados


segunda-feira, setembro 09, 2013

Chantagem, NÃO!

A troika pode combinar com o seu Governo o que quiser, pode matar os portugueses à míngua, pode retirar-lhes a capacidade de decisão, pode escarrar-lhes, mas não pode espoliá-los de um mínimo de dignidade nem confiscar-lhes o Estado de direito.

A troika e os seus saprófitas não podem fazer chantagem sobre os Tribunais e reduzir Portugal a um lugar infecto onde apenas a troika e os seus lacaios uivem ao vento, sem respeito pela democracia.

Cheque da troika suspenso por causa do Constitucional


A PIDE também tinha gente estúpida

A Pide era sobretudo amoral e cruel. Para a sinistra polícia, a lei era, na afirmação do implacável inspetor Sachetti, bem perfumado e impecavelmente vestido, o que a polícia quisesse. Ninguém ilustrava melhor a prepotência do esbirro do que os juízes venais dos Tribunais Plenários, que olhavam para o lado quando os agentes agrediam os presos na própria sala de audiências, sem que um resto de dignidade assomasse por respeito à sua condição de magistrados. A pide não era só a canalha que integrava a polícia, era ainda a tralha de magistrados e informadores avençados, os bufos e rebufos, os legionários, os membros da União Nacional e os delatores ocasionais.

Mas não é da crueldade da Pide, do seu poder discricionário, das torturas aos presos ou medidas de segurança, aplicadas displicentemente pelos juízes dos Tribunais Plenários, e que podiam corresponder a prisão perpétua, que vou escrever.

Há facetas em que a burrice ombreava com a maldade. Eu não queria acreditar que, um cidadão hostil ao regime, e que habitualmente adquiria em França livros que a ditadura proibia, fosse, à chegada a Vilar Formoso, mandado sair do Sud Expresso, que circulava diariamente entre Lisboa e Hendaye, com ligação a Paris, para lhe espiolharem os livros que trazia e que, dessa vez, só trazia os clássicos franceses, Corneille, Racine e Molière. Um pide folheou os livros, certamente sem os saber traduzir e, enquanto devolvia, com ar de quem o tinha apanhado, os livros de Corneille e Molière, exultou ao confiscar-lhe Racine, sorrindo com ar inteligente, Racine…, Lenine…, Estaline…, então julgava que me enganava!

Também um livro sobre Betão Armado e Pré-Esforçado não terá fugido à fúria policial enquanto os alunos do Técnico (IST) o procuravam para se prepararem para o exame.

Há um, no entanto, de que vi as provas de apreensão, o auto assinado por um chefe de secção e um agente, no quiosque do café Nova York, ao fundo da Avenida dos Estados Unidos da América, e que o dono exibia com gozo aos clientes que conhecia. Tratou-se da apreensão do livro «Subversão, Sim, Evangelho, Não.: I - a verdade sobre o caso do padre Mário de Macieira da Lixa», escrito por um fascista, Amadeu C. de Vasconcelos, em azeda resposta ao livro escrito pelo advogado do padre Mário de Oliveira e cujo título era esclarecedor do conteúdo: «SUBVERSÃO OU EVANGELHO ?, de José da Silva», e o subtítulo, «O Processo do pároco da Maceira da Lixa no Tribunal Plenário do Porto». O auto de apreensão mencionava os 3 exemplares apreendidos para os quais, naquele café, dificilmente havia clientes.

Do Tarrafal a Caxias, da R. António Maria Cardoso a Peniche, viajava, às vezes, a mais crassa estupidez.

domingo, setembro 08, 2013

A campanha para as autárquicas já começou

Antes de abrir oficialmente a caça ao voto, com licenças de caça renovadas a caçadores caducados em autarquias diferentes, antes do rali das fêveras, dos ósculos e das pagelas com imagens dos santos salvadores, há muito que alguns bem-aventurados se lançaram na corrida, por processos mais ou menos tortuosos.

Em Viseu, o azougado presidente da Associação Nacional de Municípios, Dr. Fernando Ruas, já distribuiu cheques à saída das missas, no recato do plenário dos frequentadores, para obras pias que as comissões fabriqueiras, isentas de impostos, sempre agradecem.

Em Coimbra, a Feira do Artesanato, na freguesia de Santo António dos Olivais, já está convertida na homenagem ao presidente cessante da Junta de Freguesia, com projeção de vídeos sobre a obra feita com o apoio do PSD, enquanto, nas barracas, os artesãos se queixam do medo da alteração eleitoral para o futuro da sua atividade.

Por todo o lado, em 308 municípios, acabam-se à pressa obras que alguém há de pagar. Sussurram-se promessas como romeiros ao santo da sua devoção. Afinal, nas transações pias e na liturgia eleitoral são sempre votos que estão em causa, nuns casos para pedir o sucesso das sementeiras ou a cura das pessoas e animais de estimação e, no outro, para solicitar um empenho para o emprego ou um jeito no caminho para as propriedades.

Felizmente, por pudor ou falta de lembrança, ainda somos poupados às novenas, salvo para implorar a chuva, mas, com o tempo, acabam por se rezar missas pelo sucesso dos partidos mais avezados aos negócios com o divino.


sábado, setembro 07, 2013

O drama, a tragédia, o horror!


As eleições autárquicas e a luta pelo emprego

Os autarcas nómadas fazem da função um emprego enquanto os sedentários procuram colocação. O TC decidiu de acordo com a vontade dos partidos, a que faltou a coragem para assumirem o ónus da perpetuação no poder, garantida por redes de cumplicidades que se transferem para os concelhos vizinhos.

O País enche-se de lixo publicitário numa infinidade de concelhos e freguesias onde as oposições deviam ter apoiado o Governo na redução do número de autarquias. Nem um só partido quis perder votos, preferem assistir ao despedimento de funcionários.

Os 278 concelhos do continente, 11 na Madeira e 19 nos Açores transferem os caciques, depois da colheita dos votos no alfobre das cumplicidades, para as Empresas Públicas e Fundações. É preferível despedir trabalhadores a reduzir empregos políticos.

Se o desempenho dos futuros autarcas estiver ao nível dos cartazes e das palavras que os exornam, não há quem administre o território, temos a vacuidade de ideias e o regabofe.

A reforma administrativa limitou-se à eliminação de freguesias onde, na maior parte, já não há gente para preencher os lugares autárquicos. A regionalização, patrioticamente esquecida, continua a fazer sentido, para dar coerência à divisão do País e à redução da assimetrias, mas é a luta por empregos próprios e os destinados a amigos que mobiliza os candidatos num combate sem regras que terminará no próximo dia 29.

Uns fingem-se de independentes, outros são trânsfugas sem ideologia e todos procuram um emprego para 4 anos ou, no mínimo, senhas de presença e pagamento de viagens às reuniões. É a vida.


sexta-feira, setembro 06, 2013

A guerra colonial, os crimes de guerra e os retornados

Há quem, justamente, desaprove o apodo de “retornado ressentido” com que qualifico Passos Coelho e outros adversários implacáveis do Estado de direito e dos direitos sociais dos portugueses.

Entendamo-nos. Fui combatente na guerra colonial e não deixo de condenar os crimes cometidos por militares portugueses, varridos para debaixo do tapete. O culpado maior de todos os crimes foi o salazarismo, responsável por uma guerra injusta, criminosa e inútil, quando éramos tão atrasados que até a aceitar o direito dos povos à autodeterminação fomos os últimos.

Mas não podemos esquecer os massacres, perpetrados durante a guerra colonial, de que Wiriamu  ficou como paradigma da violência gratuita e da crueldade assassina. Não nos julguem como se todos fôssemos o alferes Robles ou o comandante Alpoim Calvão que Cavaco continua a condecorar.

Não sou insensível aos dramas dos retornados, alguns familiares meus, entre os quais conto numerosos amigos e correligionários. Sinto orgulho na forma como Portugal acolheu as vítimas da independência das antigas colónias, rapidamente integrados e que muito contribuíram para o progresso do País.

Não sou xenófobo. Não me move o mais leve resquício de vingança contra quem julgou erradamente ser legítima a guerra que envolveu um milhão de jovens portugueses, onde morreram vários milhares e um número, incomparavelmente maior, ficou estropiado e ainda hoje lambe as feridas e suporta os traumas.

Tal como não esqueço os bombardeamentos sobre palhotas, onde arderam mulheres e crianças, também não esqueço os retornados que incendiaram sedes do PCP e do PS no país que também era seu e que tudo fazia para minorar a tragédia dos que regressaram, como não esqueço os terroristas que entusiasticamente aderiram ao ELP e ao MDLP.

Ser retornado, tal como ter sido militar na guerra colonial, não é crime, é uma desgraça comum. Crime é defender a legitimidade da guerra em que se participou ou vingar-se de ter sido vítima da descolonização. É este último defeito de Passos Coelho que execro e não deixarei de denunciar até o ver removido das funções que nominalmente exerce.

De uma vez por todas, aqui ficam a explicação e o contexto em que, na minha opinião, é justo designar como retornado ressentido, vingativo e incompetente o atual PM.


Notícias do dia de ontem

1 – Os autarcas nómadas podem continuar o périplo pelo país. O T. C. decidiu como devia num caso que devia ter sido ponderado na A. R.. Depois de fazerem com que a política se judicialize, não se admirem que os Tribunais se politizem. Perdemos todos.

2 – O ministro da Educação continua na tarefa de desmantelamento da escola pública, uma instituição republicana de alto valor cívico, moral e igualitário.  Com os cheques de ensino, a escola pública vai dar lugar às escolas particulares, de pendor ideológico e de natureza confessional.

É urgente correr com este Governo antes que ele corra com a democracia.


quinta-feira, setembro 05, 2013

Liminarmente, a imbricada questão síria…


Pende sobre a Síria um grave, e ao que parece insolúvel, problema. Aliás, os problemas já vêm de longe configurando aquilo a que se pode chamar a ‘guerra civil síria’, onde a rebelião contra o dinástico regime ditatorial de Al Assad envolve uma nebulosa de combatentes que integram várias facções extremistas islâmicas. E este envolvimento está muito longe de ser uma frente unitária e coesa. Vários interesses estão em jogo. Mais uma vez por detrás deste conflito bélico e da sua dimensão sangrenta está um problema religioso que se tornou recorrente no Médio Oriente. 
A luta pela hegemonia regional entre sunitas (nomeadamente a Turquia, a Arábia Saudita e o Qatar) e outras facções islâmicas, no caso vertente alauíta (apoiados pelos xiitas do Irão e do Iraque).

Aparentemente, a luta contra o regime de Damasco seria conduzida pelo “Exército Livre da Síria” oriundo de fileiras dissidentes do regime de Assad mas que rapidamente se ‘deslocaram’ para a “Frente Al-Nusra”, uma milícia sunita e jihadista, descoordenada e desorganizada militarmente, mas estratégica para o derrube do actual regime sírio, onde ‘convivem’ um variado leque de ‘forças rebeldes’, com importantes ligações à Al-Qaeda.

São – apesar de todas as incongruências políticas - estas as “forças oposicionistas” que o Ocidente tem apoiado para derrubar a ditadura da família Al-Assad. 
A partir de 2011, três dos principais países ocidentais (EUA, Inglaterra e França) têm armado e equipado esta miscelânea de milícias oposicionistas, sem qualquer tipo de controlo sobre a utilização dos meios bélicos e logísticos. Ao apoio ocidental soma-se a contribuição financeira, em recrutamento de ‘combatentes’ e, também, em armamento da Arábia saudita e do Qatar (e mais recentemente da Turquia).

Apesar deste empenhado envolvimento (e das espúrias alianças) o desenrolar da batalha síria não tem corrido bem. Primeiro, para a população ensanduichada entre combatentes de vários lados facto que provocou centenas de milhares de mortes e um maciço êxodo que hoje em dia representa uma das mais graves tragédias humanitárias do planeta. Depois, no campo militar, a evolução da guerra civil está longe de definir um ‘vencedor’. Finalmente, no terreno político, não existe qualquer clarificação, antes pelo contrário, o caso sírio cada dia que passa aproxima-se da inqualificável e indescritível ‘solução líbia’ onde o grande resultado foi o total desmantelamento do Estado (já incipiente no tempo de Kadafi) e a sua substituição por incontroláveis ‘senhores da guerra’.

O Ocidente tentou junto do Conselho de Segurança da ONU ‘criar’ uma ‘zona de exclusão aérea’ no território sírio com a fundamentação de proteger a população síria dos devastadores raides da Força Aérea.
Esta manobra política não resultou pelo ‘ veto’ da Rússia e da China. Na verdade - como se verificou na Líbia - a ‘exclusão aérea’ é um eufemismo para desencadear uma brutal intervenção militar com meios aéreos e balísticos sem colocar (visivelmente) tropas no terreno.

No seguimento desta ‘obstrução’ da China e da Rússia no CS da ONU, levanta-se, antecipadamente, o problema de um eventual uso de armas químicas. Este facto constitui a chamada ‘linha vermelha’ que levaria uma ‘coligação ocidental’ a intervir ao lado das milícias islâmicas na guerra civil síria. 
Há algum tempo que – aqui e acolá – surgem as primeiras sugestões sobre um eventual uso de armas químicas. Recentemente, o Mundo é confrontado com dramáticas imagens reveladoras do uso de armas químicas nesta guerra. Antes que esteja concluída qualquer investigação independente (da missão do ONU no terreno) surgem incriminadas à luz do dia as Forças Armadas Sírias como as responsáveis por este crime de guerra. E as provas – tal como nas vésperas da guerra do Iraque – estão colhidas, são ‘irrefutáveis’ (para não dizer antecipadamente ‘fabricadas’). Há um facto preocupante no meio destas investigações: o principal falcão e defensor de uma intervenção militar na Síria – John Kerry – tem alguns deslizes na sua argumentação. Por exemplo, e como denunciou Putin, tentou passar a noção que desconhece a presença de elementos da Al Qaeda entre os combatentes revoltosos da Síria (integrando o grupo Jabhat al-Nusra) link.

O que parece provado tout court é que na Síria foram usadas armas químicas. Por quem é um assunto que não pode deixar de ficar em suspenso até existirem provas. Convicções, ou habilidosas construções, não chegam.
Esta lacuna compromete toda a sapiência que tem exibido em público sobre o que se está a passar na Síria. Quando se ignora (ou tenta ignorar) o trivial como é possível conhecer em pormenor a história do uso das armas químicas que pelas imagens divulgadas parece inegável mas a sua ‘assinatura’ necessita de reconhecimento cabal e formal.

Aliás, em termos de lógica, não é inteligível que o regime de Damasco tenha cometido a imprudência de praticar um ‘erro’ desta natureza, já que desde há muito é conhecedor que esse passo abriria as portas ao envolvimento no conflito de poderosas forças estrangeiras.

Mas a guerra síria continua a ser um ‘ninho de paradoxos’ capaz de desafiar a compreensão humana.

Resta admitir o cenário que este novo episódio possa ter a ‘virtude’ de forçar a Rússia e a China a sentarem-se à mesa das negociações para resolver o destino da guerra civil síria, poupando a continuação de uma carnificina a uma população indefesa, cuja dimensão do massacre já ultrapassou os limites do humanamente aceitável e entrou no domínio da barbárie. Esta a hipótese mais benigna.

Porque uma outra, por exemplo, este episódio ser a antecâmara de uma intervenção no Irão ou uma irracional aposta na generalização deste conflito pelo Oriente Médio são ambas demasiado más para ser consideradas. 
Os próximos dias trarão novas achegas.