quinta-feira, outubro 31, 2013

NOTAS SOLTAS - OUTUBRO/2013

Governo – Foram mais eficazes os swaps a exterminar secretários de Estado do que os inseticidas a eliminar os mosquitos das praias algarvias durante o verão. A ministra das Finanças foi em busca de lã e voltou tosquiada. Ficou na dependência de Portas.

SLN – Quando a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento comprou ações da SLN ao dobro do preço do seu presidente, e este conseguiu para si o mesmo preço que o PR e a filha Patrícia, não houve crime, mas é lícito pensar que não eram bonitas ações.

5 de Outubro – A eliminação do feriado identitário do regime é um atentado à memória do povo, ao respeito que o cargo de presidente exige e uma provocação que nem Salazar ousou. Ficou mais descaracterizado o País e desonrado o Governo.

Eleições Autárquicas – A renúncia da AR à obrigação que lhe competia na clarificação da lei dos 3 mandatos irrevogáveis infamou o órgão mais simbólico da democracia. Não devia ter sido o TC a decidir o que os deputados não quiseram.

PSD – Estão de parabéns os autarcas que conseguiram ganhar as eleições apesar do PR e do Governo que o partido deu ao País. Têm de ser melhores para merecerem a eleição perante a monumental derrota nacional do PSD.

Paulo Portas – O ministro cuja demissão irrevogável é parte da tragédia nacional, subiu na hierarquia do Governo ao ritmo a que desceu no respeito dos cidadãos. Possui um passado pouco recomendável, um presente detestável e o futuro para prestar contas.

Rui Machete – Na visita a Angola, dificilmente um ministro poderia ser tão infeliz e indigno do cargo. Violou a lei da separação dos poderes e a manteve-se no Governo, para vergonha própria e do órgão de soberania que integra. Portugal bateu no fundo.

Pensões de sobrevivência – Partir das baixas pensões dos portugueses para assaltar as que somam mais de 2.000 euros mensais, é um roubo a quem descontou para as deixar e a forma de esquecer as grandes fortunas e um teto para reformas faraónicas.

P.R. – Tendo ajudado o seu Governo a evitar a desintegração, remeteu-se ao silêncio, ao contrário do que fazia contra o Governo anterior. Face à desastrada visita de Machete, seu antigo ministro, a Angola, devia ter reafirmado solenemente a separação de poderes.

Comissão Europeia – A chantagem sobre um Tribunal, de um dos países, é um ato tão indigno que achincalhou os órgãos de soberania que se remeteram ao silêncio, e tornou indigno Barroso, a quem Bush, Blair e Aznar ajeitaram a fuga do país.

Vantagens da pobreza – A afirmação de Paulo Portas, de que «Os mais pobres não se manifestam», ajuda a entender a política do Governo para garantir a paz social.

José Sócrates – Apoiado na mediocridade do atual Governo, após dois anos de silêncio e sem tréguas dos adversários, começou a comentar na RTP e acabou, laureado num dos mais prestigiados centros académicos europeus, a arrasar a inépcia governamental.

EUA – A permanente violação do respeito que deviam merecer-lhe os aliados, através da espionagem sistemática a Governos e pessoas, transformou amigos fiáveis em rivais, situação com que os inimigos exultam e os amigos se revoltam.

Programa cautelar – Depois de falhar todas as promessas e todas as metas, o Governo fala de um programa cautelar, não se sabendo se é o pseudónimo para o segundo resgate ou o swap escondido do Orçamento de Estado.

Câmara Municipal de Lisboa – A ausência não explicada do líder do PS, na cerimónia de posse do presidente, revela que o peso no aparelho partidário não é suficiente para se confrontar com a dimensão política de António Costa.

PS – António Costa ganhou as eleições autárquicas no país e Seguro em Gaia.

PCP – Sem surpresa, ao arrepio do peso eleitoral de que os partidos homólogos gozam nos outros países, foi o grande vencedor das eleições autárquicas, triunfo a que não são alheios a combatividade e o rigor que lhe é reconhecido nas autarquias que dirige.

BE – A erosão do partido, com a derrota clamorosa nas eleições autárquicas, precisa de um bom resultado nas europeias para evitar que a excelente prestação parlamentar deixe de ter eco nas próximas legislativas.

CDS – A derrota histórica que sofreu, em conjunto com o PSD, não pode ser escondida com malabarismos e traições do líder, o principal elemento desagregador do Governo e o menos confiável dos políticos em exercício.

Madeira – A derrocada eleitoral do PSD é o melancólico ocaso de Alberto João Jardim, governante autoritário cujas tropelias atingiram o ponto de saturação dos eleitores. Ter perdido 7 das 11 câmaras que detinha revela o seu declínio irreversível.

Espionagem – Compreende-se agora melhor o silêncio do PR e do Governo português perante o crime dos EUA contra líderes europeus. Eles, desolados, nem sequer constam da lista. De irrelevantes em Portugal, tornaram-se irrelevantes a nível internacional.

Paulo Portas – A unidade do CDS esteve à beira da rutura com a divisão entre João de Almeida e Assunção Cristas quanto ao número de animais que deve ser permitido por apartamento. As pessoas interessam pouco.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 30, 2013

A Turquia, a República e a laicidade ameaçada

Ontem, dia 29 de outubro, a República comemorou 90 anos. Esse dia é, naturalmente, o feriado identitário do País que deve a Mustafa Kemal Atatürk, não apenas a República, mas o ensino primário gratuito e obrigatório e um país laico a caminho da modernidade.

Sabe-se como foi difícil combater os preconceitos e como o Islão é avesso à liberdade. Não foi fácil nem meiga a luta de Atatürk contra o carácter totalitário da religião. Não obstante a violência que usou, hoje inaceitável, continua a ser visto como pai da Turquia moderna que o atual presidente, o Irmão Muçulmano disfarçado de moderado, quer ver virada para Meca.

Ontem, Dia da República, feriado que nem o devoto Erdogan ousou suprimir, foi aberto o túnel ferroviário que liga as duas margens do canal que divide Istambul e separa dois continentes, a Europa e a Ásia.

O túnel é um símbolo da modernidade sonhada por Ataturk que via no Islão o principal adversário de uma República moderna, secular e democrática, a ponto de ter proibido o uso público do véu islâmico e de quaisquer outros símbolos religiosos.

Ontem, o túnel ferroviário serviu ao devoto Erdogan para a sua promoção política e aos defensores da laicidade para comemorarem os 90 anos da República secular, herdada do grande militar, estadista, primeiro presidente e fundador da moderna Turquia.

A gigantesca manifestação de protesto contra a reislamização turca ombreou com a devoção de Erdogan.


OCDS, os cães e os gatos

O CDS, na ânsia de ser notícia, lidera os temas fraturantes. Primeiro, na eleição do líder parlamentar, dividiu-se ao meio, de um lado, Ribeiro e Castro e, do outro, os restantes deputados.

Agora, sabendo-se que há unanimidade quanto ao número ilimitado de apartamentos por pessoa, o CDS avançou para a lei da limitação de cães e gatos por apartamento.

O pungente tema penetra como bisturi no cerne do CDS, com a fratura exposta por João de Almeida a sangrar por dentro de Assunção Cristas. Num partido dividido por cães e gatos a política dá lugar à zoologia e o Governo e o grupo parlamentar desentendem-se.

Se o drama que dilacera o partido se mantiver, Paulo Portas, de guião em punho, terá de intervir, impondo a deputados e ministros do CDS rigoroso silêncio sobre o assunto, de modo a impedi-los de miar ou ladrar.


A rábula do «guião» da reforma do Estado

A reforma do Estado – assegura Passos Coelho –, porta-voz do Governo –, «está a ser feita há dois anos e meio», e não se confunde com o «guião» que Paulo Portas promete e adia sucessivamente, há vários meses.

Não, não se confunde com o «guião», seja lá isso o que for. Não é um estandarte que se leve na procissão do Senhor dos Passos, é, quando muito, a bandeira adiada que esconde a desvergonha presente. Nasceu como bandeira do Governo que seria ser e acaba por ser a bandalheira do Governo que é.

Marques Mendes, que ganha a vida na televisão a divulgar a informação privilegiada a que tem acesso, referiu-se ao «guião da reforma do Estado e da sua extensão». Marcelo, com palpites sobre todas as coisas, que existam ou possam vir a existir, apelidou-o de testamento político, um eufemismo para designar as últimas vontades de Paulo Portas.

Sabe-se que o «guião» se pronuncia sobre Educação, Saúde e Segurança Social, o que não augura nada de bom e parece ser a oração fúnebre das áreas que o Governo abateu. Sabe-se mais, que Portas – o PM em exercício –, defende a liberdade de ensino, ameaça que está a ser concretizada com subvenções ao ensino privado, que definirá a qualidade da educação conforme as posses de quem é livre. E diz-se mais, Portas quer promover o mérito e a excelência, esperando que a bitola não seja a que recrutou os governantes.

O tenebroso plano, metódica e pacientemente urdido, para desmantelamento do Estado, continua sem guião público, mas com agenda bem planeada, perante o silêncio do PR. E o drama é que as últimas vontades de Paulo Portas começam a ter horizonte irreversível.


terça-feira, outubro 29, 2013

Tarrafal – o Campo da Morte Lenta (77.º aniversário)

Em 1936 abriu, com 152 presos políticos, o Campo de Concentração do Tarrafal, onde a morte era mais doce do que a vida e o Inferno da vida o Paraíso dos torturadores.

Saídos de Lisboa, em 18 de outubro de 1936, foram nessa primeira leva grevistas do 18 de janeiro de 1934, na Marinha Grande, e alguns dos marinheiros que participaram na Revolta dos Marinheiros de 8 de setembro desse ano. E ali chegaram, no dia de hoje, há 77 anos. Outubro era mês, nesse dia 29, no ano de 1936.

Salazar teve lá, no severo degredo da ilha de Santiago, Cabo Verde, o seu Auschwitz, à sua dimensão paroquial, ao seu jeito de tartufo e de fascista, algozes torturadores, ao serviço da ignóbil ditadura do facínora de Santa Comba Dão.

Foram 37 os presos políticos que lá morreram, sucumbindo na «frigideira» ou privados de assistência médica, água, alimentos, e dos mais elementares direitos humanos, alvos de sevícias, desterrados em vida e na morte. Só depois do 25 de Abril puderam os seus corpos ser exumados e trasladados.

Edmundo Pedro, que no próximo dia 8 de novembro fará 95 anos, estreou com o pai esse lugar infecto. Creio que é o último sobrevivente. Testemunho vivo da repressão fascista na apoteose da demência salazarista, resta-nos a sua lucidez e humor para nos reconfortar de um passado vergonhoso que muitos gostariam de silenciar.

Como foi possível, Edmundo, teres ali chegado, ainda com 17 anos, na companhia do pai, durante 9 anos, num suplício que já há quem negue? Hoje, lembro-me de ti, com o orgulho que sinto da tua estima e o nojo que guardo de quem te torturou.


As cidades são como as pessoas

As cidades são como as pessoas, com identidade própria, feições definidas, dimensões adequadas e sinais particulares. A nossa cidade, a cidade de cada um de nós, habita o imaginário que se cola à memória e nos acompanha nas ausências. É difícil viver sem ela e, pior, viver nela e assistir à erosão da sua fisionomia.

É por isso que nós envelhecemos com a cor desbotada dos prédios, com as ruinas que avançam, quarteirão após quarteirão, com as pequenas casas que ruem para dar lugar a prédios de muitos andares sem vizinhos, meros desconhecidos separados por cimento armado na geometria vazia de afetos.

Há nas cidades a perda de identidade progressiva que as grandes superfícies, primeiro, e a crise, depois, vieram avivar. Num dia encerra a livraria cujo livreiro conhecia o nosso nome e os gostos, no outro o restaurante do bairro onde, à chegada, o empregado gritava o nome do nosso prato favorito; antes fechara a mercearia do Agapito e, logo a seguir, apareceu fechada a retrosaria, para remodelação, na certeza de que não reabrirá.

A barbearia desapareceu quando a idade e o reumático levaram o Sr. Paiva. A loja de ferragens do Alberto das Madeiras, onde os empregados interpretavam os gestos dos clientes e vendiam de tudo, lá está com a pintura a desfazer-se e o telhado a apodrecer.

A loja de hortaliças e fruta, da rua seguinte, surge fechada e, no passeio, sente-se a falta da banca onde os legumes mostravam a frescura e os frutos as cores. Do dono, atencioso e simpático, consta que se lhe formou a filha e regressou à aldeia de origem. Trespassa-se.

Todos os dias, a minha cidade vai morrendo em cada pequeno negócio que lhe moldava a identidade e com ela sinto que também eu vou desaparecendo por entre espaços dantes cheios de vida e agora mausoléus da memória. É a vida, mas por cada família roubada à rotina da vida é um espaço abandonado aos acasos da marginalidade e a ruga que rasga a face da cidade que era minha.


segunda-feira, outubro 28, 2013

José Fontana nasceu há 172 anos

O homem, nascido e criado num vale do sul da Suíça, que a liga hoje a Itália, que então não era ainda país, acabou em Lisboa onde, aos 13 anos, já era relojoeiro.

Redator dos estatutos da Associação Fraternidade Operária, com marcada influência de Bakunine, associação que daria origem ao Partido Socialista Português, de que foi um dos fundadores, este operário e intelectual, associativista e defensor das classes trabalhadoras, foi um amigo inseparável de Antero de Quental com quem animou as Conferências do Casino.

Era o sócio-gerente da Livraria Bertrand quando, aos 35 anos, vítima da tuberculose, decidiu pôr termo à vida.

Viveu depressa e deixou um enorme legado cívico. Notável comunicador, propagandista do socialismo e, maçon, deixou uma marca inapagável na sociedade do seu tempo.

É o seu legado que hoje recordo para reflexão dos democratas de vários matizes que o trazem no seu devocionário e o consideram património comum de várias correntes do pensamento atual.

As Forças Armadas e o seu bispo

Um Estado estrangeiro nomeia um oficial-general para as FA portuguesas que apenas têm obrigação de o sustentar. Eu sei que a Concordata, um documento saído da cobardia do Governo, com fundadas suspeitas de atraiçoar a laicidade que a Constituição impõe, é a responsável.

Francisco Sá Carneiro, que viveu e morreu em concubinato com uma grande mulher, Snu Abecasis, perguntou para que era precisa uma Concordata. Ele sentiu na pele, pelo escândalo que a sua situação representava, à época, a proibição do divórcio, prepotência que a Igreja católica impunha com a força da aliança clerical-fascista do salazarismo.

Foi Salgado Zenha, católico, uma referência ética da democracia e da luta contra a ditadura que ameaçou o Vaticano e legalizou o divórcio sem interferências pias.

A Concordata, tratado de um Estado com a Igreja católica, é um instrumento que existe há séculos mas que Pio XII instigou com todos os Estados fascistas onde o catolicismo era a religião dominante. Não faltou a Concordata assinada com Mussolini, que impôs a obrigatoriedade do ensino católico nas escolas do Estado e lhe valeu, do papa de turno, o apodo de «enviado da Providência». Hitler, Franco e Salazar foram outros dos que assinaram concordatas sob os auspícios do denominado Papa de Hitler, Pio XII, cujo passado o Vaticano se esforça por branquear.

A atual Concordata, assinada pelo governo de Durão Barroso, alargou as capelanias militares às forças policiais, juntando-se às capelanias hospitalares e prisionais. O Governo descura a assistência do Serviço Nacional de Saúde mas não deixa que falte a assistência religiosa. A comparticipação nos medicamentos baixa mas as mesinhas para a alma são comparticipadas a 100%.


Portugal não é apenas um país que perdeu a soberania, com a dívida externa, é um país que está de joelhos perante o Vaticano, um protetorado sob vigilância das sotainas.

domingo, outubro 27, 2013

Racismo escondido

Que raio de sorte, Maria!

Maria, aquela criança loura, de olhos verdes, explorada por uma família cigana na velha indústria da mendicidade, não era filha de médicos ingleses, engenheiros dinamarqueses ou abastados comerciantes holandeses.

Afinal, não era a criança raptada por uma etnia que resiste à integração. Era, de facto, a criança pobre, de outros pais, também ciganos, de outro país.

Nos olhos tristes de uma criança pobre, a esmolar na Grécia, a comunicação social tinha imaginado a princesa arrancada a um trono de safiras onde corria o mel e a angústia dos  pais que trocariam o trono pela criança perdida.

Encontrada a mãe, na mais profunda pobreza, a viver a miséria que a levou ao abandono da filha, à entrega ao primeiro casal que a quis, há um sentimento de frustração que não se consegue disfarçar. Podia, pelo menos, ser negra!


O regresso da velha Senhora

Do livro de Sócrates, na livraria Bulhosa em Oeiras

- Não temos nem vamos ter!
- Porquê! Estão a fazer censura?!
- Não sei, são ordens!

PUBLICADA POR JORGE CARVALHEIRA À(S) 07:23

AS FRASES (sem comentários)

CORREIO DOS AÇORES – Editorial de hoje, 1.ª página, assinado pelo seu diretor Américo Natalino Viveiros.

Título – Violação dos direitos e deveres sociais

1.º § - «As medidas avulsas que o governo da República tem tomado no âmbito do sistema social, a coberto dos programas de assistência financeira, estão desmantelando progressivamente aquilo que são direitos que foram criados em Portugal por Salazar e por Marcelo Caetano e que a Constituição de 1976 consagrou».
(…)
Penúltimo § - «O governo de Paulo Portas não foi mandatado  pelo povo para destruir o Estado Social como o vem fazendo, com a complacência do Primeiro-Ministro e do Presidente da República».

Esquizofrenia islâmica

Na Arábia Saudita as mulheres continuam a desafiar os códigos fascistas e misóginos impostos pela demência islâmica.

Na década de 1990 o Grande Mufti proibiu as mulheres de conduzirem, argumentando que era essa a vontade do Profeta. Várias mulheres, arriscando as violentas chibatadas públicas, atrevem-se a conduzir.

Não sei o que mais admirar, se a intransigência esquizofrénica dos grandes e pequenos Muftis ou a capacidade de um condutor de camelos analfabeto para se pronunciar sobre o direito das mulheres a conduzirem veículos de centenas de cavalos.


A espionagem e Portugal

Compreende-se agora melhor o silêncio do PR e do Governo português perante o crime da espionagem dos EUA aos líderes europeus. Eles, desolados, nem sequer constam da lista.

sábado, outubro 26, 2013

António Barreto é a Zita Seabra de calças


O que se aprende na Fundação de um merceeiro holandês.

(Ter-lhe-ia evitado as ilegalidades cometidas contra a reforma agrária)

Carta sobre a descolonização a fascistas empedernidos

Vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem que não houve descolonizações pacíficas depois das guerras de libertação e do sangue vertido.

Vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem que não há um único exemplo de sucesso, que não tenha apanhado pacíficos colonos no vendaval das convulsões e dos ataques, às vezes tribais e bárbaros, que deram início à luta pelo direito inalienável à autodeterminação dos povos.

Vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem que a obstinação fascista de Salazar, e seus cúmplices, esteve na origem da tragédia anunciada e da inevitabilidade do desastre.

Eu estive lá, nessa guerra absurda e criminosa, enquanto a guerrilha se estendeu a outras regiões de Moçambique. Cheguei com a guerra em Cabo Delgado e Niassa e voltei com ela estendida à Zambézia e a saber que alastraria como mancha de óleo, do Rovuma a Lourenço Marques.

Vocês julgam que não me comovi com o regresso e o drama das famílias sobreviventes, com a chegada de quem tudo perdera, o habitat, os haveres, a segurança e as ilusões? E que não pensei nos que combateram do lado errado e lá ficaram entregues à vindicta dos que, tal como eles, queriam sobreviver num ambiente onde escasseavam a comida e as oportunidades?

Ignoro o motivo por que insistem em responsabilizar quem não foi criminoso e teimam  ainda em branquear a ditadura opressora do povo português e dos povos coloniais. Um país com escassos recursos conseguiu integrar sem discriminações centenas de milhares de retornados numa epopeia de generosidade e inexcedível solidariedade, num momento grandioso da nossa História.

Mas há sempre quem olhe sem ver, quem fale sem pensar e dirija o ódio às vítimas em vez de visar os algozes. Há fascistas que não vergam e ódios que não cansam.

Caros fascistas, vocês sabem que toda a gente sabe que vocês sabem como circulam as ideias de quem não compreende a História e ambiciona aventuras totalitárias na ânsia de uma desforra que transmitem de geração em geração e que parece estar a acontecer sob os auspícios de muitos que nunca viram África.

A vossa rede capilar venosa transporta sangue salazarista até à veia cava, que o deposita na aurícula direita (só podia ser a direita). A oxigenação não se conclui como devia. Na circulação pulmonar não liberta o anidrido carbónico do ressentimento e mingua-lhe o oxigénio da democracia, em doses suficientes, antes de chegar ao ventrículo esquerdo (exatamente por ser esquerdo). É por isso que esse sangue bombeado para a aorta ainda leva produtos finais do metabolismo reacionário quando bombeado para as ramificações arteriais que atingem todas as partes do corpo, cego e surdo aos ventos da História. O oxigénio da democracia não vence a barreira hematoencefálica de um fascista.

Há um veneno que vos intoxica enquanto não se libertarem dos resquícios fascistas que empeçonham o país que é de todos.


A CDE e o recenseamento eleitoral – uma pequena história da História

Regressei a Portugal em finais de dezembro de 1969, depois de cumprida a pena maior, quatro anos e quatro dias, 26 meses de degredo incluídos, em Moçambique, no distrito do Niassa onde, além de macuas e ajauas, sobreviveram mosquitos, cantineiros, um dos dois capatazes dos Caminhos de Ferro e muitos de nós, militares à força.

Estive ao serviço da ditadura, na guerra colonial, por um único crime – ser português.

Tinha cumprido o Serviço Militar Obrigatório (SMO), cuja legitimidade ainda defendo, se ao serviço da Pátria e da democracia, e não na ocupação da pátria de outros.

Depois da explosão de afetos na reunião de família, que me esperava em Lisboa, ainda segui para Chaves onde, segundo o jargão militar, seria desmobilizado. A raiva daquela viagem inútil crescia em cada quilómetro percorrido e era canalizada para o regime que continuava a alimentar uma guerra injusta, inútil e criminosa. A azeda troca de palavras com um major, durante a viagem, revelou-se inócua. Não havia medidas de segurança para prorrogar indefinidamente a permanência na tropa, ao contrário do que sucedia em Caxias ou Peniche com as decisões dos juízes fascistas dos Tribunais Plenários.

Regressado à Pátria, retomei a atividade docente, em Lisboa, e, em breve, reencontrei os velhos companheiros do cineclube Imagem e antigos camaradas da tropa a quem a guerra tinha despertado para a política ou radicalizado contra a ditadura. Eu pertencia aos últimos e num dos primeiros dias em que entrei na sala de aula, perante os alunos, retirei a fotografia de Salazar que era ilegal por já não ser primeiro-ministro. Ficou logo escandalizado o Gonçalves, colega que de imediato se queixou ao secretário de zona, o Fernando Pires, aluno de direito que não morria de amores pela ditadura.

Passado algum tempo, já sócio da Cooperativa Devir, militante da campanha a favor do recenseamento eleitoral, morador na Calçada do Carriche, fui com outros oposicionistas à Junta de Freguesia da Ameixoeira (creio que era este o nome) para me recensear.

Fomos atendidos pelo Presidente da Junta que, com um sorriso escarninho, nos elucidou sobre o que era preciso. Claro que íamos preparados. Perguntou-nos, então, se sabíamos escrever, se tínhamos levado caneta e, quando julgávamos que já não tínhamos qualquer obstáculo pela frente, perguntou-nos se tínhamos o papel legal para o requerimento.

E não tínhamos! Perguntámos que tipo de papel devíamos levar, quando voltássemos. Foi então que, num gesto de profundo desprezo, se voltou para uma funcionária e lhe disse: dá uma folha dessas em que se pedem as licenças para os cães a cada um destes cavalheiros. Virou-nos as costas e seguiu para o gabinete.

Cada um recebeu uma folha de papel azul de 25 linhas. E lá nos recenseámos.


sexta-feira, outubro 25, 2013

O Mundo, Portugal e a questão angolana...

“Todas as perturbações que pontualmente possam existir relativamente à excelência dessas relações são perturbações que devem ser tratadas com a maior das prioridades e resolvidas como são sempre resolvidas as questões que são de interesse nacional”…
Declarações do ministro Luís Marques Guedes no final do último Conselho de Ministros link.

Os problemas que surgiram à volta das relações Portugal e Angola continuam a adensar-se. E as recentes declarações do ministro Relações Exteriores de Angola, Georges Chikoti quando afirmou: "Angola vai olhar para outros horizontes e vai pensar a sua política externa com outras prioridades. Temos outros parceiros também ou muito mais importantes" link, contrariam as inocentes ‘apostas’ de normalização anunciadas pelo Governo português sobre este candente assunto da política externa nacional.

Na verdade, existe um problema de fundo nas relações ‘especiais’ com Angola. Esse problema (prévio segundo é possível hoje compreender) foi tratado com os pés pelo ministro Rui Machete, causou ondas de choque no País e estas provocaram a reacção de Luanda. O Governo de Passos Coelho apressou-se a sair em defesa o seu ministro sem perceber que – se de facto pretende normalizar as relações bilaterais – este é parte do problema. Machete para além de colocar em causa um facto relevante e inultrapassável em todas as relações bilaterais que são as questões de soberania, nas declarações que fez a uma rádio angolana, não mostrou qualquer tipo de senso diplomático condição primária para o exercício do cargo que exerce.

Mas o problema parece ser mais grave e merece ser analisado à margem do óbvio ou seja dos negócios do presidente angolano, da sua família e do séquito de generais abonados, quer dos poderosos laços históricos, sociais e culturais que, transversalmente, unem os dois povos. No actual momento o que fatalmente nos divide são importantes e actuais interesses económicos e financeiros. E aí a lusofonia e o acervo histórico perdem influência. O poder do capital esmaga.

Estaremos, na presente fase, em confronto com mais uma consequência da globalização. As relações entre Estados não ficaram imunes a este novo contexto. A diplomacia formal deu lugar à económica e esta última não se rege por normas e direitos consagrados internacionalmente. A sobreposição de interesses económicos veio alterar todo um tipo de relacionamento e é a ‘nova Lei’. Um pouco a vitória da ‘doutrina Kissinger’ de que os portugueses já sofreram um traumático revés na descolonização de Timor.

As relações internacionais envolvem muitos parâmetros, entre eles, a História, a Economia, a Geografia, a Sociologia, etc. Em contrapartida – após a globalização - tornou-se cada vez mais ténue e difuso o papel do Direito Internacional (público e privado). E a questão angolana parece alojar-se num velho conceito em que uma das partes reivindica a capacidade de reger os seus negócios pelo Mundo segundo as suas leis ou ausência delas. Isto é, sem qualquer limite, regulação ou interferência.

Ao fim e ao cabo as concepções emergentes nas relações internacionais traduzem um regresso aos tempos bárbaros. Os interesses financeiras (do Estado ou de oligarquias reinantes) sobrepõem-se às questões de princípio e o estado actual da globalização tende a incentivar a criação de ‘offshores diplomáticas’ onde o ‘investimento’ é rei e não tem lei.

A presente questão que perturba as relações Portugal/Angola é um epifenómeno deste emaranhado global. Não terá, portanto, uma resolução fácil, nem um rápido desfecho pontual. A questão é maior do que aparenta.


A erosão dos valores e a perda de solidariedade

Quem assistiu ao 25 de Abril e participou no primeiro 1.º de maio, em Lisboa, não mais esquecerá os momentos mais sublimes da sua vida, a alegria contagiante, a euforia que transbordava e a generosidade transmitida mimeticamente pelos militares que fizeram a Revolução.

Nos primeiros anos, o espírito solidário foi uma constante. Ninguém negava dinheiro para uma creche, terreno para uma escola, trabalho em obras sociais. Todos cooperavam nas campanhas de alfabetização, no recenseamento eleitoral, nas mesas de voto ou em qualquer outra tarefa cívica que urgisse.

Depois, lentamente, a cidadania deu lugar ao egoísmo, a disponibilidade ao interesse, a generosidade ao cálculo videirinho.

Ainda hoje sinto o orgulho com que desajeitadamente pegava na picareta para compor um caminho público ou presidia a uma mesa eleitoral que nunca abandonava, com umas sanduiches comidas nos momentos de menor afluxo e interrompidas à chegada de novos eleitores. Se houvesse remuneração, nunca teria integrado uma mesa eleitoral, por julgar esse dinheiro indigno do dever de cidadania que me cabia. E todos éramos assim.

O pagamento dos membros das mesas eleitorais bem como das senhas de presença nos órgãos autárquicos, e outros benefícios, transformaram um dever cívico num comércio onde os autarcas distribuem lugares e ganham eleitores.

Há personalidades que presidem a Assembleias Municipais de remotos concelhos e que vão dos grandes centros às terras de origem com ajudas de custo, quilómetros pagos e senhas de presença. Abdicam os que têm ambições políticas mas recebem-nas os outros, que logo telefonam a saber quando estarão a pagamento.

Que diferença entre os que fizeram a Revolução de Abril e os que se repoltreiam à custa do erário púbico, indiferentes à democracia que receberam generosamente quando numa manhã de abril floriram cravos nos canos das espingardas!


quinta-feira, outubro 24, 2013

Portugal, a fé e os partidos

A longa ditadura fascista fez que a democracia se alicerçasse mais nas crenças do que na razão. Os cidadãos, perdido o medo, correram a matricular-se nos partidos e a fazer a profissão de fé no que lhes pareceu melhor, enquanto outros procuraram adivinhar o que lhe traria maiores conveniências.

Os oportunistas foram os melhor sucedidos, confiscando empregos, obtendo benefícios e promoções, alcançando prestígio e poder, enquanto os heróis de Abril eram remetidos para os quarteis e tratados como insurretos.

De Abril ficou, sobretudo, o exemplo generoso dos capitães e a liberdade de expressão que o desemprego e o medo de represálias vão mitigando. Hoje, nem o PR nem o PM e, muito menos, os autointitulados centristas, nutrem qualquer gratidão pela libertação da ditadura à qual se teriam acolhido com a maior tranquilidade.

São poucos os que leram os programas partidários e ainda menos os que gostariam de os ver postos em prática. Assim, a pertença partidária assume aspetos de profissão de fé de quem aderiu a um partido do mesmo modo que aderiu à religião, por se ter habituado a seguir a que estava em uso na família, no município de origem ou no local de trabalho, quando o havia.

A discussão de ideias na política, como no futebol, não é um exercício de cidadania, é uma pugna em que vale tudo, um exercício de gritaria, um fenómeno de maniqueísmo.

Só assim se percebe que o PSD, também válido para o PS ou o CDS, escolha e despeça líderes em função da aptidão que lhe atribui para ganhar eleições e não da capacidade para governar. Só assim se entende que políticos maduros, e bem preparados, possam ter eleito para líder o improvável Passos Coelho e, perante a sua comprovada inépcia, se sujeitem ao vexame de ver o Governo dirigido pelo irrevogável Portas.

A celeridade com que foram esquecidas a fuga de Barroso e as trapalhadas de Santana Lopes leva-nos a temer que o escrutínio da opinião pública se faça com a mesma bitola com que se apreciam os méritos da equipe de futebol de que se é fã.

Mas que esperar de um país cujo presidente deixa extinguir o feriado do regime a que preside, fica silencioso perante os ataques à Constituição e se comporta como militante do partido a que pertence? Nem ao menos tem uma palavra a lembrar o maior escândalo financeiro de sempre – a falência do BPN, um caso de polícia que indignou o país e está a cair no esquecimento.  

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 23, 2013

Cogitações:

- O «programa cautelar», de que falou Passos Coelho, é o pseudónimo para o segundo resgate ou o swap escondido do Orçamento de Estado.

- A afirmação de Paulo Portas, de que «Os mais pobres não se manifestam», ajuda a compreender a política que o Governo tem conduzido para garantir a paz social.


Os partidos que temos e as alternativas que não temos

Se cada vez que escrevo pensasse que um amigo poderia sentir-se visado, o melhor era deixar de escrever. Escrevo sem pensar no que os outros pensam e, talvez, o que apenas penso no momento em que escrevo.

Recordo-me de, há tempos, com a desconfiança que me merecem os ‘independentes’ tê-los acusado de serem, quase sempre, trânsfugas, ressentidos e desempregados políticos. O meu amigo Amadeu Carvalho Homem, que acredita na regeneração política através de independentes, tendo ele uma imaculada carreira de professor universitário, alheia à militância partidária , retorquiu-me mais ou menos com estas palavras: «estás satisfeito com este regime? Bom proveito». Escusado será dizer que tartamudeei e não consegui mais do que refugiar-me em más desculpas sem apresentar um único bom argumento.

Contudo, penso que tenho razão e, à míngua de argumentos, esgrimo as desculpas que arranjo. Aqui vai mais uma: quando voto num partido sei que posso penalizá-lo com o voto, se me sinto defraudado, votando num partido diferente, o que não me acontece se votar em independentes, sejam eles dissidentes partidários, ressentidos com o partido que não lhes deu a primazia ou viajantes para outro espetro partidário.

Curiosamente, em Coimbra, nas últimas autárquicas, concorreu uma lista «cidadãos por Coimbra» onde havia muita gente com fulgurantes carreiras académicas e profissionais sem necessidade de emprego, poder ou exposição mediática, mas foi uma mera exceção num país onde o eleitorado não pune os corruptos, oportunistas e aventureiros e, mesmo assim, sob o guarda-chuva do BE.

Os casos de Oeiras, Felgueiras, Marco e Gondomar multiplicam-se sem que os eleitores exerçam a vigilância cívica que devem. E aí torna-se mais difícil punir qualquer partido.

Claro que os partidos atuais, incapazes de se reciclarem, criam anticorpos mas, ainda assim, tenho tendência a preferi-los. Penso que faz falta um partido em Portugal, um partido ecologista que não seja um satélite do PCP, que não lhe leva votos e que retira espaço para um partido autónomo.

Voltarei a este assunto.


terça-feira, outubro 22, 2013

Associação 25 de Abril – Monumento ao 25 de Abril em Almeida

PARA MEMÓRIA FUTURA

Associação 25 de Abril – Monumento ao 25 de Abril em Almeida

RELATÓRIO ANUAL DA DIRECÇÃO
(ANO 2012)
Nos termos da alínea c) do n.º 2 do artigo 39.º do Regulamento Interno, a Direcção
apresenta à Assembleia Geral o Relatório da sua actividade e as contas referentes ao ano
de 2012. A. DIRECÇÃO


As amortizações do exercício no valor de 44.287 €, adicionadas ao resultado operacional antes de amortizações e provisões configuram um valor negativo de 84.028 € para os resultados operacionais. Valor que vem a ser recuperado para um montante negativo no resultado final de 10.156 €, pelos montantes dos resultados financeiros positivos de 12.541€ e extraordinários (subsídios às actividades) de 61.332 €. Subsídios de outras entidades, Fundações Montepio e Calouste Gulbenkian, para o Fórum Cidadania pelo Estado Social, no valor de 9.571 € e para diversas actividades, no montante de 12.495 €, entregue pelo nosso associado e membro dos órgãos sociais da Delegação do Centro – Coimbra –, Carlos Esperança, em nome da Comissão Promotora da edificação no concelho de Almeida de um monumento evocativo do 25 de Abril de 1974.

22 de outubro de 1945

Faz hoje 68 anos que a ditadura fascista criou a PIDE, alargando a ação repressiva e o poder discricionário da extinta Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).

Evocar o seu nome ainda provoca calafrios. Parece que uma amnésia coletiva se abateu sobre os portugueses que facilmente esquecem o que os envergonha ou o que os oprime.

Quando o atual PR concedeu uma pensão a dois membros da sinistra polícia, pensão que negou a Salgueiro Maia, o país não morreu de vergonha nem corou de raiva. Se a memória funcionasse, certamente que seriam outros os agentes políticos ao mais alto nível e mais honrado o regime que saiu da generosidade dos militares e da coragem dos que resistiram

Possa a evocação de tão sinistra efeméride impedir o ressurgimento salazarista e servir de vacina para o futuro.

A repetição de eleições em Vila Franca do Campo



Não me recordo de ter visto qualquer comentário à repetição das eleições municipais em Vila Franca do Campo, um município com mais de dez mil eleitores, situado na ilha de S. Miguel, Açores.

O município repetiu este último domingo as eleições, depois de anulado o ato em que os boletins de voto, por erro gráfico, não tinham o quadrado respetivo à frente de duas das formações concorrentes, PSD/CDS/PPM e Independentes (Movimento Independente Novo Rumo) que, por isso, justamente as contestaram e levou o TC a anulá-las. E bem.

De passagem refira-se a criatividade das mesas eleitorais que desenharam manualmente os quadrados em falta.  Chegaram a apurar os resultados de que resultou a vitória do PS, com 2 mandatos, PSD/CDS/PPM, com 2 e Independentes, com 1.

Repetidas as eleições o PS e o PSD/CDS/PPM aumentaram ambos o número de votos e os Independentes (Movimento Novo Rumo) perderam o mandato.

PSD/CDS/PPM  passou de        2414 votos ==»  2576
Novo Rumo     »      »            731     »              460
PS            »                         2762     »            3091
PCP/Verdes    »      »            156     »                42

Penso que vale a pena tirar conclusões, desde o voto útil que prejudicou o PCP à fácil erosão do Movimento Novo Rumo que não conseguiu fidelizar o eleitorado.

Apesar das suspeitas que sempre tenho mantido sobre os «Movimentos Independentes» não me agrada esta bipolarização que, neste caso, deu a maioria absoluta ao PS.

É um aviso quanto à falta de consistência dos chamados Independentes que, neste caso, não faço a mínima ideia de que lado era a independência.


Cavaco Silva – Preso por ter cão e preso por não ter

Não preciso de explicar que tenho pelo PR o respeito mínimo a que o Código Penal me obriga; que nutro pelo atual inquilino de Belém a maior animosidade; que se pode dizer que é um inimigo íntimo que julgo capaz de quase tudo e incapaz para quase nada. É, de facto, uma animosidade permanente que lhe dedico, por mérito dele e não por obsessão minha.

O que não pode é atacar-se o PR, que cumpre mal as funções que lhe foram conferidas, por aquilo que não fez nem deve. Não se pode acusar de ser responsável pelas relações que o Governo de Angola pretende deteriorar ou pelas investigações que quer paralisar.

O Governo angolano, incapaz de compreender o que é um Estado de direito, entende que o PR, o PM e os Tribunais são responsáveis pela averiguação de eventuais crimes de altos dignitários que aliam o exercício do poder à suspeita de cleptomania.

A única queixa que é legítima, é a constante fuga do segredo de Justiça, lepra que corrói o sistema judiciário, permite linchamentos na praça pública e acaba muitas vezes por ser uma punição maior do que a prova dos alegados crimes consentiria.

O que não pode o Governo de Angola ou o seu órgão oficioso, Jornal de Angola, é fazer chantagem sobre as instituições portuguesas, acusar o PR ou o PM de responsabilidade na averiguação de suspeitas a que são alheios, e anunciar represálias ao funcionamento normal das instituições democráticas.

O silêncio do PR, neste caso, é atitude de Estado e defendê-lo uma obrigação patriótica.


Deus, religião e crentes

Há quem não aceite que Deus é uma criação humana, a muleta para as nossas fraquezas, a explicação por defeito para as respostas que não sabemos, no fundo, uma necessidade para quem se habituou a uma dependência que, quase sempre, lhe foi incutida desde que nasceu e preservada por constrangimentos sociais.

A perversão das crenças reside na origem, na perversão dos homens que as inventaram e que lhes transmitiram a marca genética dos seus preconceitos e superstições.

O humanismo foi construído quase sempre contra as religiões, contra os deuses sedentos de sacrifícios, sofrimento e conservadorismo, defeitos que têm profissionais zelosos ao serviço da sua divulgação.

Ninguém se permitiria condenar à morte quem deixa de acreditar numa lei da física ou num axioma, mas não clérigos a exigir a eliminação física dos apóstatas ou dos hereges, estes meros crentes divergentes na interpretação das alegadas mensagens de um deus imaginário.

A História ensinou-nos a relativizar as ideias na sua permanente evolução, quase sempre influenciadas pelo avanço das ciências e a apoteose de novas descobertas, mas as ideias religiosas resistem até ao absurdo, com polícias dedicados, sempre prontos a castigas os réprobos e a aplicar a jurisprudência da Idade do Bronze.

A paz não pode ser conseguida com verdades absolutas e imutáveis. É por isso que os Estados modernos, devem tratar as religiões como quaisquer outras associações em que a plena liberdade de formação não as exime ao Código Penal e os seus atos ao escrutínio da lei.

Não percebo por que motivo uma religião possa ter normas jurídicas próprias no Estado de direito, ter conventos de cuja inspeção o Estado se demita, para avaliar se as pessoas estão ali de livre vontade ou se se trata de cárcere privado e, sobretudo, conseguir furtar-se aos impostos sobre os bens e ao escrutínio sobre a forma da sua aquisição.


segunda-feira, outubro 21, 2013

A entrevista de Sócrates ao Expresso


Penso que seria uma imensa cobardia não me pronunciar sobre a entrevista de Sócrates ao Expresso. O facto de muitos dos meus amigos lhe terem um ódio de estimação, não é motivo para me coibir.

Foi uma entrevista de grande qualidade intelectual e política onde a determinação e a cultura revelam a maturidade de um ex-primeiro-ministro, cuja qualidade de governante me abstenho de apreciar porque é da entrevista e das ondas que provocou que ora cuido.

Surpreende-me que os adversários de Sócrates poupem Santana Lopes e Durão Barroso cujas ambições políticas têm por aí uma legião de saprófitas à espera de lhes dar a oportunidade que falharam da primeira vez. Porquê um ódio primário a Sócrates cujo carácter é sempre o alvo e raramente a sua governação?

Vi ataques com base numa frase, retirada do contexto, por quem não leu a entrevista. Vi acusações de autismo a quem não recusou expor-se e responder a todas as perguntas, e a condenação por não querer sujeitar-se a escrutínio eleitoral sem que a afirmação, «Não tenho vontade ou ambição de desempenhar um cargo na política ativa», fosse suficiente.

Sócrates fez acusações graves a diversas criaturas, desde a infâmia das escutas de que, magnânimo, absolve o PR e implica a sua Casa Civil, até às acusações de homossexual, denúncias que ganharam solidez na alusão torpe que Santana Lopes lhe fez, em direto,  na televisão, num debate eleitoral.

Não me surpreendem os ódios e os amores arrebatadores mas a irracionalidade de quem, tendo experiência política, não consegue relativizar a campanha de que Sócrates é alvo, três anos depois de ter perdido as eleições. Parece o único PM a ter existido, tal o ódio e a paixão que ainda desperta.

A própria linguagem revela um homem descontraído mas que faz mais pelo seu partido no afastamento da vida política do que os políticos em atividade no PS.

Agora só espero que os atingidos provem a falsidade das acusações de Sócrates já que, quanto à demolição do PEC IV, está sobejamente provada a autoria.

Exige-se o contraditório, sob pena de ficarem mal vistos os visados e os que fazem coro.

domingo, outubro 20, 2013

Escândalo na Guarda – Cenas do início do Séc. XXI (Crónica)

No Ano da Graça de 2005 houve na Guarda um pio escândalo, humano e divertido. Só surpreendeu o silêncio da comunicação social, que, tão ávida a espreitar pelo buraco da fechadura dos políticos, não se atreveu a explorar um escândalo religioso.

Junto ao antigo Hospital Distrital e, até há poucos anos, local das Urgências, havia, e há, um lar de idosos. Ali esteva internada D. Márcia, depois de enviuvar, carregada de anos e de haveres, até Deus ser servido de a chamar à sua divina presença, como soe dizer-se.

No início dormia no excelente apartamento que comprara, ali próximo, e passava o dia no lar, onde comia, com pessoas da sua idade. Depois passou a pernoitar e ocupou um ótimo quarto que os rendimentos lhe permitiam pagar.

D. Márcia não teve filhos. Era muito devota, temente a Deus, amiga da missa, confissão e eucaristia. Rezava o terço desde o tempo em que a irmã Lúcia o recomendou contra o comunismo a rogo da Virgem que poisava nas azinheiras.

No lar, além do tratamento esmerado, tinha a solicitude cristã de piedosas freiras que a assistiam nas rezas e nos caprichos – jovens cuja beleza o hábito resguardava, mulheres espantosas a quem a fé não destruiu a natureza.

A solidariedade cristã levou D. Márcia a emprestar-lhes a chave do apartamento para pias reuniões que as esposas do Senhor certamente fariam ‘ad majorem Dei gloriam’.

Uma noite D. Márcia foi a casa e, estupefacta, escutou suspiros cuja origem a idade não lhe permitia recordar. Sentiu alegria no ar, risos, satisfação, quiçá, gemidos de êxtase.

Perante a dúvida, primeiro, e a indignação, depois, não era uma cerimónia litúrgica, o calvário recriado aos pulos ou o mês de Maria, com coreografia, o que D. Márcia viu. Eram as freiras e mancebos desnudos, numa cerimónia coletiva a evocar Adão e Eva no Paraíso. E a folgarem.

D. Márcia achou perdido o mundo e exigiu a chave, o provedor da Misericórdia e a diocese transferiram as freiras para parte incerta, a cidade murmurou, exultaram os ímpios e cochichou-se pelos becos.

O escândalo foi abafado, certamente para evitar perturbações familiares aos homens casados e às freiras um despedimento sem justa causa.

sábado, outubro 19, 2013

DUAS MENTES BRILHANTES

Hoje à hora de almoço liguei a televisão para ver as notícias da manifestação na ponte 25 de Abril, como vi. Mas de repente, não sei a que propósito, apareceram dois eminentes intelectuais a discretear sobre o Tribunal Constitucional: nada mais nada menos que o Conselheiro de Estado Vítor Bento e o banqueiro de sucesso Ricciardi.

O Conselheiro Bento insultou grosseiramente o Tribunal, dizendo que este é um órgão político e que os seus juízes faziam parte da classe política. Ele há cada conselheiro…

Ricciardi, lá do alto dos seus milhões, permitiu-se fazer uma sugestão que faria morrer de rir qualquer assembleia de juristas: disse que o T.C., antes de decidir sobre o Orçamento, devia… consultar os parceiros sociais!!! EhEhEh! Há muito tempo que não ouvia tamanha alarvidade!

Este Governo e a pesada herança

 
Queixa-se o Governo de problemas herdados dos anteriores (Barroso, Santana, Sócrates ?), problemas a que se devem todas as malfeitorias atuais, incluindo o disparo dos juros, agravados quando da demissão irrevogável de Portas.

Mas, se era assim, porque mentiu descaradamente, durante a campanha eleitoral, sobre o massacre que nos preparou, e como justifica a sofreguidão para interromper a legislatura anterior e a entusiástica solidariedade do PR, que rapidamente substituiu a exuberância das críticas aos sacrifícios pedidos por Sócrates pelo silêncio de monge beneditino face à violência da austeridade imposta por Passos Coelho?

Aliás, como justificam Portas e Passos Coelho (não se sabe quem manda), com o País a atingir a fadiga fiscal, que cresça a dívida e o desemprego, depois de atingida a pobreza redentora que o catecismo ideológico preconizava?

Onde está a alegada confiança dos mercados perante um Governo capaz de tudo? Tudo o que podia falhar, falhou efetivamente e da forma mais clamorosa. Falhou a hipoteca do PR a este Governo, a orquestra de papagaios recrutados para o protegerem e a legião de avençados, a inventarem desculpas para o fracasso, obstinados a conterem a deceção que cresce e a raiva que não para.

Não lhes basta um governo, uma maioria e um presidente. Carecem de intimidar o povo, chantagear o Tribunal Constitucional e pedir a Barrosos e Lagardes que ameacem o País e humilhem os portugueses. O desemprego, a fome e a intimidação dos sindicatos são as armas suplementares para o cumprimento da agenda ideológica que encontrou atores de terceira categoria para a executarem.

No laboratório de experiências em que sábios loucos e néscios convictos converteram o País, roda-se um filme de Frankenstein executado por aprendizes de feiticeiro.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Relatório da Comissão Europeia

«A Comissão Europeia entende que o chumbo de algumas medidas do Orçamento do Estado (OE) por parte do Tribunal Constitucional (TC) pode pôr em causa a política orçamental do Governo e precipitar um segundo pedido de resgate».

Se Portugal tivesse um Governo honrado, com um módico de dignidade e a vaga ideia do que é o brio nacional, repudiaria a miserável chantagem da Comissão Europeia e far-lhe-ia sentir que o respeito pelas instituições democráticas é um dever dos órgãos de soberania, a quem a intromissão humilhou, e cujo pedido de desculpas é uma exigência.

Se Portugal tivesse um PR, à altura das funções que ocupa, não deixaria sem resposta tão grave ingerência e tão infame ultraje ao Estado de direito.

Se a Comissão Europeia tivesse um presidente honrado em vez do sabujo de interesses alheios, um político em vez do invasor do Iraque, um humanista, em vez do oportunista, seria o primeiro a repudiar a interferência da CE, onde ficou a representar Bush, Blair e Aznar, em vez de ser conivente pelo silêncio e, quiçá, pela cumplicidade ativa.

Se Portugal tivesse um mínimo de memória guardar-se-ia para julgar os traidores não só no pelourinho da opinião pública mas nos Tribunais.

Não sei se é maior a vergonha que sinto ou a indignação.


‘Incorrecções factuais’ inquinam o País…

Mário Soares sugere que Cavaco Silva devia ser "julgado" por causa do BPNlink

Esta viperina tirada de Soares indignou profundamente a Direita portuguesa. Mas não será totalmente despropositada, nem mais uma desbragada ‘tolice soarista’.
Embora possa existir, formalmente, um evidente excesso da parte de Soares em relação ao Presidente da República em exercício, a verdade é a declaração de Soares aos jornalistas que veio escarificar e desbridar uma ferida que foi ‘abafada’ ao longo de anos mas que mantém características dolentes. Ao contrário do que deseja Cavaco esta chaga não cicatrizou mantendo-se presente, no corpo político e social nacional, como se fosse um estigma. Reacende-se cada vez que se agita e agiganta o espectro de um brutal empobrecimento nacional. Será a súbita – e indelével - memória dos inocentes.

A ‘boutade’ de Soares sobre Cavaco, embora circunstancial e nominal, tem necessariamente uma envolvente maior, i. e., revela o que efectivamente está na liça: o ‘julgamento político’ sobre o envolvimento de uma anódina ‘clique cavaquista’ (latu senso), no infame escândalo BPN. Facto que ciclicamente vem à tona na opinião pública (um presidente está permanentemente sujeito a este tipo de escrutínios), que nunca recebeu uma resposta cabal de Cavaco e, por fim, a Justiça revela-se pouco expedita no seu julgamento.

As primeiras referências sobre 'este caso' surgiram na última campanha eleitoral para a PR e foram ‘abafadas’ por espúrias e desconexas justificações de momento que incidiram sobretudo em questões formais e ‘legalistas’ deixando pendentes muitas zonas sombra. 
O discurso de vitória de Cavaco veio acirrar esta redutora concepção de defesa: ao anunciar peremptoriamente a ‘vitória da verdade sobre a calúnialink pretendia ‘sepultar’ as questões então levantadas. Mais não conseguiu do que remetê-las para uma penosa hibernação. E a prova de vida dessa situação letárgica foi a necessidade de mais uma tardia resposta, ontem, protagonizada por Cavaco Silva. Muito bem, passando ao lado das refregas políticas que parecem acentuar-se, entre Mário Soares e Cavaco Silva, os portugueses tomaram novamente conhecimento da uma reactiva ‘versão Cavaco Silva’ (dirigida a Soares mas tornada pública) expressa nos seguintes termos: "Devia saber que esclareci, em devido tempo, que nunca tive qualquer relação com o BPN ou com as suas empresas, a não ser a de depositante para aplicação de poupanças, quando era professor universitáriolink.
Na verdade, esta última vinda de Cavaco a terreiro, pouco ou nada esclareceu os portugueses sobre questões pendentes, desde há muito.
Persiste no ar e sem resposta uma velha ou nebulosa questão: Cavaco Silva foi um simples depositante do BPN ou, cumulativamente, um seu accionista?
Bem, existe aqui uma outra porta para manter acesa a chicana. Formalmente, Cavaco terá sido ‘somente’ um dos accionistas da SLN quer directamente, quer através daquilo que vagamente classifica (para se desresponsabilizar) como abstractas ‘aplicações financeiras’. O que parecendo ser tecnicamente diferente, politicamente não o é, nem consegue chegar ao impossível objectivo de esconder que a SLN era, na altura, a detentora do BPN.

Cavaco Silva sofrerá tal como o seu colega de partido Machete – e por coincidência também ex-accionista da SLN/BPN - de um síndrome de ‘incorrecção factual’?
Haverá remédio para esta ‘doença’?

O CDS, o grupo parlamentar e o instinto de sobrevivência

Paulo Portas, quando da sua demissão irrevogável deste Governo, ou talvez do anterior, acompanhado pelos ministros da mesma proveniência, ouviu no Caldas o que Soares diz de Cavaco. Então os empregos dos militantes, as sinecuras dos simpatizantes, os lugares públicos, que deixariam o partido com desemprego superior à média nacional?

Que interessava a cerimónia surrealista da posse da ministra das Finanças num Governo extinto, se prescrevia o seguro de vida dos avençados do partido e a ida às urnas reduzia o grupo parlamentar do CDS à lotação do táxi?

Valeu o instinto de conservação dos demo-cristãos, a maleabilidade da espinha dorsal do líder e o pânico do PR por ficar sem o Governo que apoiou. Tudo acabou bem para o CDS, assumindo a liderança efetiva do Governo, onde a inegável preparação de Portas, comparada com a de Passos Coelho, não se verificou. Mas salvaram-se os empregos e, à custa do alargamento da influência e dos cargos, encaixaram-se ainda umas dezenas que precisavam de emprego ou de currículo.

Foi em ambiente de expetativas satisfeitas que tiveram lugar as eleições para a liderança da bancada com o exótico deputado Ribeiro e Castro a disputá-las ao candidato oficial – Nuno Magalhães, de sua graça.

Os resultados falam por si. Nuno Magalhães averbou 24 votos, contra 1 (um) de Ribeiro e Castro, tendo sido prontamente felicitado por Portas. A vida está difícil.

quinta-feira, outubro 17, 2013

A CGTP, o MAI e a Ponte 25 de Abril

Há jogos em que todos perdem. Neste braço de barro, entre a CGTP e o MAI, a central sindical partiu o braço. Fosse para não dar oportunidade ao Governo para uma prova de força – uma repressão policial violenta –, fosse por deficiente análise da correlação de forças, a verdade é que a CGTP perdeu a batalha e o Governo perdeu a face.

Numa ponte onde se realizaram dezenas de maratonas e, só agora, aparecem pareceres técnicos negativos, a decisão ministerial cheira a mentira e tresanda a arbitrariedade. Não ganhou, pois, o Governo. Entre o desafio a uma prepotência e a capitulação, não sei qual seria a melhor opção, mas a decisão, sensata e pragmática, terá efeitos demolidores para a central sindical.

O que é grave é a entrada de leão dos trabalhadores e a saída de autocarros a buzinarem. Sempre que se perde uma batalha sindical, a próxima será mais difícil. E quando uma central sindical, experiente e fiável, perde uma batalha, não é o Governo que fica mais forte, é a anarquia que pode ganhar a rua, os provocadores que ficam à solta e as forças de segurança que ficam mais expostas.

Nenhuma das partes pode cantar vitória, por maior que seja o buzinão. Mais aturdidos com as medidas do Orçamento do que com as buzinas dos autocarros, os trabalhadores, perdida a confiança na única central com força mobilizadora, ficam expostos ao risco de aventureirismos e à demagogia de pescadores de águas turvas.

Este episódio vai ter reflexos negativos no futuro sindical e nas previsões do Governo.


Taxation without representation

            
 
      

A indústria da santidade ao serviço do fascismo


Para vergonha da Igreja católica, descontados os crimes de eras recuadas, que podem sempre ser atribuídos aos costumes bárbaros da época, mas comprometem a inspiração divina de que se reclama, bastava a cumplicidade e o silêncio perante um dos maiores genocidas da Humanidade – Francisco Franco –, para exigir o pedido de perdão sincero de quem herdou o ferrete da ignomínia.

Todos sabemos que a violência atingiu na Guerra Civil espanhola limites inauditos de crueldade dos dois lados da barricada. Não houve bons e maus, só maus. Não podemos esquecer a violência cruel do anticlericalismo dos anarquistas e liberais e, em menor medida, dos marxistas, cujo ódio à Igreja, implicada com a pior direita, rivalizou com o empenhamento do clero nos crimes mais perversos.

Há, no entanto, duas diferenças capitais entre os que se bateram de um e de outro lado da barricada. Do lado da República, o facto de ter resultado de eleições livres sufragadas pelo povo, e, do lado dos sediciosos, a intenção de derrubar o Governo legal e instalar a ditadura. A segunda diferença, assaz sinistra, resulta do facto de, vencida a guerra, insistirem nas execuções sumárias, perseguições cruéis, assassinatos programados e nas valas comuns, cujos vestígios querem apagar, para onde atiraram as vítimas, fuziladas por divertimento sádico e violência sectária.

As crianças roubadas a mulheres, que assassinavam após o parto, foram distribuídas por casais inférteis de sequazes do fascismo espanhol. Não houve ignomínia, crueldade ou sadismo que os franquistas não cometessem, depois da guerra onde Hitler experimentou o armamento com os aviões da Legião Condor, Mussolini colaborou com submarinos e avões, a Igreja católica concedeu o estatuto de Cruzada aos revoltosos e Salazar apoiou a retaguarda, permitindo o recrutamento dos Viriatos, o abastecimento aos franquistas e impedindo o refúgio das populações leais ao Governo.

Franco teve o apoio entusiasta do Opus Dei, que nunca lhe faltou com bênçãos, missas e ministros para o Governo. Balaguer, além de ter colaborado na guerra, ainda o felicitava entusiasticamente, quase duas décadas depois, em carta de 25 de maio de 1958, carta que a filha do ditador conservou extasiada com a veneração do futuro santo ao déspota.

Depois da dolorosa memória que dilacera Espanha, depois de mais de 400 mil mortos e centenas de milhares de exilados, impede-se a exumação das vítimas do franquismo e exonera-se um juiz corajoso, Baltasar Garzón, que quis identificá-las e reparar a sua humilhação e esquecimento, exumando as valas comuns. Para trás fica o horror galego onde o franquismo instaurou, depois da guerra, o método dos “passeios” , ir às casas das pessoas, buscá-las para as “passear”, isto é, fuzilá-las à noite e deixá-las nas valetas.

Através dos sinistros “passeios”, dos conselhos de guerra contra civis, dos fuzilamentos maciços de prisioneiros e de confrontos armados com a guerrilha, morreram, só na Galiza, 197.000 galegos (fonte "La Guerra Civil en Galicia" edic. La Voz) durante o regime franquista, continuando a grande maioria em valas comuns. Nesse período, cerca de 200 mil galegos exilaram-se noutros países, sorte que não tiveram os que escolheram Portugal e foram entregues, para fuzilamento, pelas polícia de Salazar.

João Paulo II beatificou 233 vítimas religiosas da repressão republicana, ignorando o sofrimento coletivo dos espanhóis e Bento XVI reincidiria com nova beatificação de outras 498 vítimas, a maior beatificação da história da Igreja católica.

A decisão destes dois papas, profundamente reacionários, comprometidos com o Opus Dei, não surpreendeu, apenas indignou os familiares das vítimas republicanas e todos os que ansiavam pelo esbatimento do ódio que dilacerou Espanha.

Com mais de duas mil valas comuns por abrir, surpreende que o Papa atual, de quem se cria que não deitasse mais ácido nas feridas por sarar, eleve 522 beatos ao altar do franquismo, numa manifestação de demência episcopal da Espanha que não perdoa e que não se deixa julgar.

Este Papa, depois da lixivia gasta a limpar as nódoas do Vaticano, maculou as vestes e acabou por recordar as boas relações que manteve com Videla.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 16, 2013

O PR adormecido e bem pago

Depois da vingança, e de satisfeito o ódio de estimação a Sócrates,  estado de alma em que estava bem acompanhado, o PR ficou embevecido com o Governo que quis.

Não previu que o novo PM seria absolutamente incapaz e que o Governo se tornaria um albergue espanhol; que ministros do seu tempo de PM pudessem tornar-se casos de polícia; que o Presidente de um país estrangeiro achincalhasse Portugal, publicamente, durante a sua visita, e se remetesse ao silêncio; que o seu antigo ministro Machete faria uma viagem a Angola e, longe de melhorar as relações entre os dois países, humilhasse Portugal e as suas instituições.

Cavaco, tão lesto a interromper férias para zurzir a A.R., a propósito do infeliz estatuto autonómico dos Açores, acabou a engolir a destemperada manifestação de azedume. E, no desprezo pela legitimidade de outro órgão da soberania, semeou os ventos que agora se viraram contra si.

Ninguém esquece que o seu secretário de Estado das Finanças é o principal responsável do maior escândalo financeiro alguma vez ocorrido em Portugal, que dos seus Governos saíram os estrategas de grandes escândalos e de prováveis crimes. O líder parlamentar do seu partido juntou-se ao grupo de malfeitores do BPN e é acusado de assassínio no Brasil.

Só Vale e Azevedo continua preso, quiçá por ter sido chefe de Gabinete do PM Pinto Balsemão e não de outro.

A dissolução ética e a erosão das instituições precisa da franca vigilância do PR, a quem não pode faltar independência – o que não é o caso –, e honestidade irrefutável, virtude que certamente o exorna, pois é preciso que alguém nasça duas vezes para ser tão sério como ele.

O que o País não pode tolerar é o silêncio do PR, perante o despudorado ataque da Sr.ª Christine Lagarde ao T. C. e, sobretudo, do do Sr. Barroso, PM cúmplice da invasão do Iraque, que fugiu para Bruxelas durante o mandato, e, que em Portugal fez recentemente uma atrevida e desvairada chantagem sobre o Tribunal Constitucional.

Que outro PR sofreria em silêncio tão graves ofensas que a todos nos envergonham?

Radicalismo da classe dominante

O Governo fez uma jogada de mestre com a TSU dos viúvos. Sabendo que as grandes fortunas estão ao abrigo de qualquer ameaça, nem que para isso fosse necessário criar legislação especial, atirou-se às pensões de sobrevivência como gato a bofes.

Começou por colocar na comunicação social notícias catastróficas no género daquela em que alguém anuncia a outrem a morte dos pais para depois o tranquilizar, dizendo que tinha sido apenas um deles.

O sorriso de Portas, a anunciar a medida, lembrava a noviça que se queixou à madre de ter sido violada e que não sabia o que fazer para não engravidar, recebendo da superiora ordem para espremer um limão bem azedo e beber até à última gota. Tendo a noviça questionado se evitava a gravidez, a madre disse-lhe que não, mas, pelo menos, tirava-lhe aquele ar de felicidade que ostentava.

Portas, com esse ar de felicidade, jogou com as pensões dos portugueses, onde 2.000 euros já parecem uma fortuna, onde, se continuarem a conduzir-nos para o abismo, nem a tanto poderemos aspirar. Omitiu que espoliou os beneficiários do que lhes era devido pelos descontos do cônjuge falecido, sem necessidade de tocar em reformas milionárias ou de lhes estabelecer um teto máximo, como seria mais razoável.

Quando se trata de espoliação, como é o caso, não se vê porque tenham as pensões uma vulnerabilidade maior do que fortunas acumuladas, bens herdados ou seguros de vida.

A solidariedade de que me reclamo não se conforma com as gritantes desigualdades que se acentuam, e não me deixo enganar por um Portas que, piscando o olho aos que são solidários, esconde a sua ideologia de classe e a implacável perseguição à classe média.

terça-feira, outubro 15, 2013

É preciso topete.

Como transformar o algoz em vítima

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) adverte os investidores de que o diploma do Governo que aumenta o horário laboral da Função Pública, das 35 para as 40 horas semanais, «ainda poderá ser desafiado pelo Tribunal Constitucional) [sic].

A consagração do Mundo ao Sagrado Coração de Maria

O papa Francisco consagrou, ontem, o mundo ao Sagrado Coração de Maria, numa cerimónia realizada na praça de S. Pedro, no Vaticano, perante a imagem de «Nossa» Senhora de Fátima, da Cova da Iria. Se a cerimónia fosse destinada apenas a crentes só merecia que fosse respeitada, tanto mais que não viria daí grande mal ao mundo.

A um ateu não perturba semelhante consagração cujo temor não ultrapassa o da praga que a cigana roga a quem lhe nega a leitura da sina. É, aliás, alheio a que consagração seja ao coração, ao fígado, aos rins ou a outro qualquer órgão, mas há perplexidades que assaltam um livre-pensador, a saber:

1 – Com que legitimidade é que o Papa católico que, na melhor das hipóteses, dispõe de 20% da população que acredita no seu deus, se permite consagrar o mundo a um ídolo privativo da sua religião e que até os outros cristãos desprezam?

2 – Tendo sido já realizado esse número por antecessores seus, nomeadamente durante a monarquia, era justo que, tal como nos outros bens de consumo, fosse divulgado o prazo de validade de uma consagração.

3 – Para estabelecer um módico de racionalidade nos gestos exotéricos, seria lícito dar a explicação plausível para a deslocação da imagem da Cova da Iria até ao Vaticano, para evitar o risco que um acidente aéreo fez correr ao ícone imprescindível. Sabendo-se que um papa é facilmente substituído seria mais sensato deslocar o Papa do que a imagem.

4 – Quanto à arrogância de «consagrar» os que não querem, não difere do proselitismo islâmico ansioso de fazer ajoelhar o mundo virado para Meca.

Apostila: A última decisão de um tribunal islâmico foi a proibição aos não muçulmanos de utilizarem a palavra «Alá». Os três monoteísmos são implacáveis mesmo que o papa seja uma pessoa de bem, tal como um rabino ou um aiatola podem sê-lo. Já da religião de cada um deles, tenho dúvidas.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Portas e as explicações sobre a TSU d@s viúv@s

Numa linguagem irrevogavelmente incompreensível, para o comum dos mortais, o PM modestamente designado de Vice, anunciou mais um violento ataque a viúvos da classe média.

A pensão que ainda resta a quem ousa manter-se vivo durante a defunção do cônjuge, é somada à de sobrevivência. E ai de quem ultrapassar 2.000 € no conjunto das pensões!
Paga com língua de palmo a ameaça à longevidade e à Segurança Social.

Há submarinos, sem contrapartidas, para preservar, desmandos de Alberto João Jardim, burlas de eminentes políticos à SLN/BPN, prejuízos do BPP, gabinetes ministeriais em que é preciso acoitar os rebentos colhidos nos alfobres partidários, guarda-costas para contratar, senhas de presença a pagar, favores a retribuir, enfim, urgências que a viuvez não compreende e que o celibatário Portas tenta explicar.

Este assalto aos descontos dos pensionistas foi mais uma medida do irrevogável Portas e da sua ministra das Finanças, que já passou a ser tratada como homem, em ambiente de franca cordialidade e de manifesta subalternidade, pelo PM denominado Vice.

Enquanto Passos Coelho se arrasta em respostas maçadoras a perguntas combinadas em programas adrede criados, Paulo Portas lança o pânico nos reformados e oferece-se para enviar um cartão de pêsames à família de cada pensionista que se esqueça de respirar.

Imagine…

      
 
          

domingo, outubro 13, 2013

Fátima – todas os caminhos vão dar ao Santuário_13_10_2013

Pelos caminhos de Portugal, a pé para os mais crentes, de carro para os mais céticos ou com um caminheiro alugado, para cumprir promessas dos mais abastados, há imensos peregrinos que hoje se dirigem para o anjódromo de Fátima, local onde a República viu organizar a oposição e, mais tarde, durante a guerra fria, a luta contra o comunismo.

Em 1917, o sol interrompeu o sedentarismo sideral enquanto uma virgem irrequieta ia de azinheira em azinheira a conversar com uma pastorinha que a via e ouvia, enquanto outra só a ouvia, e o outro não via nem ouvia. E foi assim que pobres prédios rústicos se converteram num lucrativo comércio da fé e o sector primário virou terciário.

Podia a voz da senhora mais brilhante do que o sol não ter chegado ao céu, mas ouviu-a, na Terra, a diocese de Leiria e a gente simples que rezava, primeiro, contra a maçonaria e a carbonária, e, depois, contra o comunismo. O terço era o demonífugo de eleição e o instrumento para a conversão da Rússia, rezado com afinco nos 31 dias de cada mês de maio, nas aldeias de Portugal.

Hoje, o talismã dos peregrinos está em Roma, a pedido do PDG, para despertar emoções e perpetuar a crença. Foi de avião, acondicionado por um clérigo, dar alma ao negócio que começou com um burrito a tropeçar nos buracos dos caminhos de Nazaré e acabou a voar a jacto para todos os continentes.

Os peregrinos, conformados com a ausência da mascote, sentindo-se defraudados na sua caminhada, não deixaram de se regozijar por ter ido fazer milagres para o Vaticano, o bairro com maior densidade de sotainas e onde os milagres obrados nos mais diversos sítios do Planeta acabam por obter o certificado de garantia.

No universo, cada vez mais inseguro, é a fé o cajado onde se encostam as angústias e se amarram as frágeis esperanças de quem espera num mundo imaginário o que lhes faltou no que lhes coube.  

Cavaco tem razão. Afinal o País é masoquista

Depois de uma plêiade de presidentes da República, eleitos na vigência da Constituição, Eanes, Soares e Sampaio, o desejo de corroborar o aforismo, «não há bem que sempre dure», foi mais forte do que o bom senso.

Esqueceu-se a censura de um livro de Saramago, vetado para um concurso literário pelo inefável Sousa Lara, a insurreição dos pregos inventada pelo azougado Ângelo Correia, a carga policial na Ponte 25 de Abril comandada pela referência ética, que dá pelo nome de Dias Loureiro, e a votação na ONU contra a libertação do terrorista Nelson Mandela, em que Reagan só foi acompanhado pela Senhora Thatcher e pelo filho do Sr. Teodoro das Bombas, de Boliqueime, contra o resto do mundo.

Talvez não se soubesse ainda, antes da teimosia na reeleição, do alfobre de empresários gerados nos seus governos ou nos viveiros do seu partido. Geraram-se quadros do BPN, exportadores de remédios para Angola, banqueiros de geração espontânea, advogados de grandes fortunas e da viúva de um milionário que não tinha a vida no seguro nem os bens a bom recato. E muitos outros homens de negócios.

Depois de uma travessia pela permuta de terrenos e pela inocente transação de ações da SLN, atividades que costumam apelidar-se de «deserto», eis que da Travessa do Possolo se transferiu para Belém o atual inquilino.

Com a casa civil a engendrar escutas de um PM e o mérito próprio para acertar no mais incapaz dos numerosos líderes do seu partido, para fazer dele o PM seguinte, devemos a Cavaco a maior ajuda que um português deu à crise financeira internacional para mal do País que votou nele.

É a vida, como dizia o melhor PM das nossas vidas.      


sábado, outubro 12, 2013

CTT e neoliberalismo…




Numa audição no Parlamento, António Pires de Lima admitiu que o caminho escolhido para a privatização do grupo de correios do Estado é “ousado” e admitiu que o Governo não pode garantir a manutenção de todos os postos de trabalho”.
Adiante rematou:
O ministro defendeu que a operação "pode resultar num bom encaixe para o Estado". "Não vejo drama nenhum na privatização dos CTT", salientou.link

A privatização dos CTT já foi classificada como “um crime” link. Um “duplo crime”: financeiro e contra a coesão nacional. O actual Governo persiste em fazê-la – é preciso deixar bem expresso este facto (político) - para entregar os eventuais resultados aos credores sem olhar a consequências futuras. Trata-se de alienação de património – com características e funções especiais – rentável. Não vamos falar no despojamento do interior do País das infra-estruturas básicas. Os CTT integram um dos (poucos) serviços públicos de excelência em Portugal. Os resultados operacionais em 2012, apesar da conjuntura adversa, atingiram, os 81,8 M.€. Esta empresa pública emprega, no território nacional, mais de 12 500 trabalhadores a esmagadora maioria pertencente ao quadro. link.

As palavras do ministro da Economia - a ‘imagem carismática do novo ciclo’ – não são tranquilizadoras. A troco de uns parcos milhões de euros pretende-se dar como justificada esta alienação como se os CTT fossem uma das famosas ‘gorduras’ do Estado. Mas para além do crime financeiro está o devastador impacto social. As ‘cautelosas’ palavras de Pires de Lima sobre a (não)manutenção dos postos de trabalho indiciam, desde já, uma vaga de despedimentos em nome do sacrossanto e abstracto princípio da competitividade, como se os CTT não fossem rentáveis e, por lado, tivessem uma feroz concorrência interna.

Aliás, os bons resultados operacionais dos CTT, são extremamente reveladores da política deste Governo para a privatização de empresas públicas. Apesar da conjuntura e da consolidação financeira desta empresa serem favoráveis o Governo encetou um processo de encerramento de estações (124 no 1º. Semestre de 2013) que pretendeu justificar como se fosse uma adequação à procura e à queda do tráfico postal, escondendo o “ajustamento” é para proporcionar condições leoninas aos eventuais ‘compradores’, também designados por beneméritos ‘investidores’.

Esta privatização que carece de qualquer justificação política, económica ou social poderá ser mais um favor deste Governo ao sector financeiro. Provavelmente dos escombros dos CTT público os nascerá um Banco Postal privado e esse é o gato escondido com o rabo de fora. Ao mudar subitamente a natureza, os objectivos e as finalidades da actual empresa o Estado, que continuará a deter parte do capital (30%?), está a preparar um processo de ‘requalificação dos recursos humanos’ para as novas metas (e apetites). Todos conhecemos o que significa para este Governo “requalificação” pelo que o ministro da Economia começou a abrir o caminho para a receita habitual: despedimentos. O espantoso é que depois de fomentar processos deste tipo por todo o lado apareçam membros deste Governo a manifestarem a sua ‘preocupação’ com as elevadíssimas taxas de desemprego exibindo perante os incautos copiosas lágrimas de crocodilo. Até já tivemos um ministro que não dormia por causa dessa tragédia social link e ao que parece, como recompensa (ou terapêutica), foi enviado para gozo um período de convalescença no Brasil...

Na verdade, o processo de privatizações de empresas públicas que tem sido extremosamente desenvolvido por este Governo, assenta nos tradicionais pressupostos ideológicos neoliberais que, como é cada vez mais indisfarçável, o informa e condiciona e tem como objectivo central a ‘desnacionalização’ de sectores estratégicos para o nosso desenvolvimento. É esse facto que torna absolutamente ridícula e, acima de tudo, mentirosa a pretensão de pôr cobro à situação de ‘protectorado’, objectivo anunciado como prioritário pelo partido do actual ministro da Economia. O que, de facto, está em curso é o estímulo da dinâmica do capital especulativo, alargando e permitindo a consolidação de actividades rentistas e financeiras que, no terreno social, passa pelo incremento do desemprego.

A concepção de um ‘Estado mínimo’ está em marcha e tende – apesar dos protestos de abrandamento da carga fiscal dos neoliberais - a transformar os futuros Governos em meros instrumentos recoletores de impostos, já que ao alienar (privatizar) todas e quaisquer outras fontes de rendimento e financiamento público, deixam o País sem capacidade de regulação e totalmente dependente das incontroláveis e nebulosas ‘estratégias dos mercados’.

Todavia, este esquema cedo revelará as maiores perversidades. De 4 em 4 anos teremos – por motivos eleitorais – prováveis descidas de impostos. Logo após estes actos cívicos – e tendo em consideração que o controlo orçamental deverá ‘cautelarmente’ ficar sediado em Bruxelas ou em Frankfurt – seguir-se-á uma nova subida de impostos, acompanhada de maior ou menor austeridade, para (re)equilibrar o orçamento público. Assim, a privatização dos CTT será um dos anúncios preliminares acerca da replicação futura desta política de ‘ciclos’ e ‘contraciclos’ que, cerceando a capacidade do País para definir e regular as grandes linhas de desenvolvimento económico e social, acabará por atingir fatalmente o nosso futuro.

Até sempre, camaradas

Amigos e camaradas do BCAÇ. 1936

Hoje, no almoço da Régua, sinto que faço falta, uma falta igual à de cada um que faltou, falta cada vez maior, à medida que somos cada vez menos. É a primeira ausência à festa anual da família, da única família que todos fomos, durante 26 meses, espalhados entre o Catur e  Malapísia, onde se teceram os laços da família que ainda somos e seremos.

Interrogo-me como foi possível construir tão sólidos afetos numa guerra injusta e inútil que a ditadura teimou em continuar contra os ventos da História e a vontade dos povos. E agora, aos que lá perdemos, todos os anos se juntam outros que partem. Que saudade! E não merecíamos perder um só, de nós, porque, por cada um que parte, é o coração de todos que fica a sangrar por dentro com fratura exposta na família que se reduz.

Valem-nos os filhos e netos para manterem vivo um ritual onde são fortes os afetos que resistem ao tempo, à crise e ao desânimo, numa desvairada ânsia de nos abraçarmos em cada novo encontro, como se do último se tratasse.

A verdade é que esses laços são fortes como a memória que nos persegue, sólidos como a vontade que em cada ano, convocados pelo Torres e pelo Barros, nos leva aos lugares onde são robustos os abraços, saudosas as recordações e emocionantes os reencontros.

Hoje é em casa do Fernando, com o Douro lá em baixo, a recolher-nos as lágrimas de alegria, à chegada, e de saudade, à partida. O Douro, a perder de vista, tem a beleza, a dimensão e a dignidade que o esforço de tantos merece. Que sacrifícios, até privações, para tantos que de tão longe se deslocaram com as famílias, sacrifícios retribuídos com um simples abraço de um velho camarada que persiste em viver e voltar.

Para saudar as famílias dos que estão, para sublinhar a união indestrutível dos que um dia se acharam em Malapísia ou no Catur, aí estará o Lopes por intermédio de quem, no abraço que lhe deixo, estreito todos os presentes. E que falta me fazeis todos, sobretudo hoje!

Da razão da minha falta vos dirá o Torres ou o Barros mas da mágoa da minha ausência só a ansiedade que por estes dias vivo poderá aplacar a tristeza de faltar ao encontro que assinala 44 anos do regresso que todos os dias sonhámos durante 26 longos e dolorosos meses, à espera do Vera Cruz.

Para o ano estarei convosco, se ainda existir. Aliás, estarei sempre convosco, em cada dia que viver, na fraterna solidariedade que me devolve às picadas do Niassa, para sentir em cada um de vós o reflexo do meu afeto e trocar as rugas que o tempo esculpiu pela juventude que lá deixámos.

Boa tarde, camaradas. Até sempre! Feliz regresso a casa.


sexta-feira, outubro 11, 2013

Governo: informação, contra-informação ou balanço?



Passos Coelho disse esta quinta-feira à noite aos deputados do PSD que tem havido muita "contra-informação" sobre medidas que ainda não estavam "moduladas" nem "calibradas", como é o caso dos cortes nas pensões de sobrevivência, omitidos na conferência de imprensa de Paulo Portas na passada quinta-feira. link.

Durante muito tempo os apoiantes da actual coligação governamental tentaram justificar – e esconder - os erros crassos deste Governo como um ‘problema de informação’. Agora são os principais dirigentes do PSD que partem para uma nova cruzada: a “contra-informação”.

Quando este partido se lançar nesta cruzada contra-informativa (em Novembro) é suposto que as medidas orçamentais – como os cortes nas pensões de sobrevivência – já estarem discutidas à exaustão, por constarem do projecto de OE que na próxima semana será entregue na AR. Portanto a “contra-informação” deverá ser entendida como mais uma campanha de “pressão”, nomeadamente, sobre o Tribunal Constitucional. Ou, numa hipótese mais aligeirada uma manobra de marketing para consumo interno onde já se ouve muito alarido.
Mas todos já percebemos que o problema deste Governo não está na informação, nem na será resolvido pela ‘contra-informação’. Aliás, a ‘contra-informação’ sendo um instrumento de acção e/ou de dissuasão – muito usado pelos organismos de ‘inteligência’ – poderá servir para contornar ‘desinteligências’, como os apressados e repetidos desmentidos vindos a público parecem confirmar link.

Fugas de informação’ tornaram a conferência de imprensa do vice-primeiro-ministro - logo após a conclusão da 8ª e 9ª avaliação da troika - numa caricata sessão onde se tentou exibir o ledo e cego engano da existência de um “orçamento sem mais austeridade”, podem ter resultados políticos devastadores. Paulo Portas – um político supostamente astuto - terá caído numa infantil armadilha que vai para além da ridícula (e mentirosa) figura que fez na comunicação dos resultados da ‘avaliação’ e que se entronca numa posterior percepção acerca da vigarice de um mítico e fantasioso ‘novo ciclo’, que lhe terá sido prometido durante a recente e pública crise no seio da maioria.
O que parece evidente é que as sessões de esclarecimento (“contra-informação”) previstas no interior do aparelho do PSD, para o início de Novembro, poderão ter sido ditadas e programadas perante a eminência de uma nova crise no seio da coligação.

Tudo este imbróglio porque não existe maneira de este Governo tratar os problemas dos portugueses e do País com competência, transparência, honestidade e dignidade. Na verdade, desde o memorando inicial (2011) que assistimos, de 3 em 3 meses, a substanciais alterações – decididas pela calada – traduzidas em irrealistas, penosas e exigentes adendas.
As avaliações ‘regulares’ sistematicamente contabilizam resultados, sem em qualquer momento questionarem as ‘receitas’.

Nunca os portugueses foram atempada e cabalmente informados sobre o desenrolar e o conteúdo das avaliações e, advertidos acerca de novas e acrescidas medidas de austeridade. Provavelmente invocar-se-á que o segredo é a alma do negócio. No entanto, o que se tornou público e notório é estas avaliações sorrateiramente ‘negociadas’ para posteriormente (às pinguinhas), serem anunciadas como incontornáveis ‘compromissos assumidos por Portugal’. Pior, o Governo quando aparece euforicamente na praça pública a comemorar as ‘avaliações - sempre ‘positivas’ - revela um intolerável e manhoso comportamento: esconder o abrangente número de acrescidos compromissos que essas reuniões, invariavelmente, incorporam.
O Governo assiste pacatamente ao deslizar do programa de auxílio externo e é tratado pela troika como um veículo encarregado de fazer os trabalhos de casa (“calibrar”, “modular e “aplicar”). Não é tido nem achado sobre a adequação e a oportunidade da catadupa de medidas que lhe são exigidas e se compromete a ‘implementar’ contra todas as evidências.

Logo, se existisse algum espaço para a ‘contra-informação’ seria exactamente neste crucial ponto: acerca da necessidade de conhecer com rigor, transparência e verdade com que fé (boa ou má) se ‘negoceia’ em nome dos portugueses.

O OE 2014 será, nesse sentido, um documento que esclarecerá sobre a condução dos negócios públicos e revelará ao estado a que chegamos, ao fim de 3 anos de intervenção externa. Não precisamos de uma sofisticada informação, ou de contra-informação. Basta-nos proceder a um simples balanço doméstico trabalho que os portugueses não deixarão em mãos alheias.