sábado, novembro 30, 2013

Viatura saudita para mulheres


Vaticano – uma equação com várias incógnitas

O Papa Francisco, à semelhança dos antecessores, é um fervoroso adepto do diálogo inter-religioso e apelou no dia 28 de novembro, no Vaticano, ao diálogo, para superar o “medo” recíproco e evitar em conjunto a “tragédia dos pensamentos únicos”.

Condenando a ideia de que a convivência só é possível escondendo a própria pertença religiosa – pensamento que considera apanágio de sociedades secularizadas –, o Papa insurge-se contra a possibilidade de a religião ser remetida para a esfera privada, sem a ostentação da iconografia com que todas procuram ocupar o espaço público.

Não cuido de fazer juízos de valor sobre a intenção do Papa e, muito menos, sobre a sua bondade. O que é paradoxal é conciliar o diálogo e o proselitismo, as reuniões de várias religiões e a sua atuação prática nos templos e organismos que tutelam.

O Papa não pode esquecer o «diálogo inter-religioso» estabelecido pelos jesuítas na sua América do Sul, onde a fé foi imposta com inaudita violência e à custa do sumiço das populações autóctones. A ferocidade religiosa dos reis católicos de Espanha, Fernando e Isabel, foi tal, que o Vaticano se vergonha de canonizá-los.

Como se pode dialogar e, ao mesmo tempo, evangelizar? Estão dispostos os dialogantes a fazer a síntese das suas verdades, e a criar outra versão da fé, ou apenas a aproveitar as atenções da comunicação social para fingirem abertura de espírito.

É difícil saber o que se passa no Vaticano, de que maneira foi Deus servido de chamar à sua divina presença João Paulo I, após 33 dias de pontificado com vontade de examinar as contas do I.O.R.; que acordos políticos estabeleceu João Paulo II com as ditaduras da América do Sul e com os EUA e por que motivo não entregou o arcebispo Marcinkus à justiça italiana; que estranho motivo levou Bento XVI a surpreender a Cúria com a sua resignação. Enfim, há segredos que nem a Deus, se existisse, seriam confessados.

Os homens podem dialogar porque têm as suas ideias, e estas são passíveis de mudança, mas os clérigos têm a ideia que o seu deus lhes comunicou e, porque deus não mais deu sinais de vida, não é possível dialogar sobre verdades absolutas, eternas e imutáveis.


Só há pensamentos únicos nas religiões, onde a ausência da mínima ortodoxia é heresia.

sexta-feira, novembro 29, 2013

China e Japão – duas potências à beira de um conflito mundial?

Com um passado beligerante, o país mais populoso (1.350 milhões de habitantes) está em arriscada confrontação com outra grande potência económica do Pacífico, isto é, a segunda economia mundial e a terceira, em PIB nominal, encontram-se em disputa.

A China resolveu incluir oito ilhas desabitadas, que reivindica ao Japão, numa zona de controlo aéreo que unilateralmente estabeleceu. As referidas ilhas estão incluídas num acordo de defesa mútua entre o Japão e os EUA, pelo que o conflito, já gravíssimo, não se limita a um diferendo entre Pequim e Tóquio. Washington enviou bombardeiros B-52 para sobrevoar a zona que a China utilizou para exibir a sua hegemonia regional.

Ouvem-se já os ruídos de aviões supersónicos e os fragores da diplomacia, mas não se sabe quando a rota dos aviões e as conversações diplomáticas serão interrompidas.

O gigante asiático que, além do Japão, tem diferendos com a Coreia do Sul, Malásia, Vietname e Brunei, sem abdicar da soberania que lhe fugiu na guerra civil, em 1949,  sobre Taiwan, deu um passo em falso.

A gravidade reside no facto de um recuo ser visto como uma derrota e a fuga em frente ser o rastilho da última guerra mundial.


quinta-feira, novembro 28, 2013

O OE-2014 e os portugueses

O Orçamento de Estado aquece os ânimos partidários e serve de pretexto para ataques ao Tribunal Constitucional. Os governantes exoneraram o pudor do seu comportamento e a dignidade dos hábitos, enquanto instituições europeias, a rogo, fazem coro com eles.

Não basta a pobreza, que se agrava, cresce a falta de vergonha, que campeia à solta.

Enquanto o processo dos submarinos mergulha na prescrição, reúne-se um coletivo de juízes para julgar um larápio adolescente que roubou três pizas.

Centenas de milhares de desempregados vão esquecendo o passado sem verem qualquer futuro. A fome, a fome violenta, que debilita o corpo e enfraquece a dignidade, já bateu à porta de milhares de portugueses. E os mais ricos, entre os ricos, estão cada vez mais ricos, num processo obsceno de transferência de riqueza a partir dos mais pobres.

O frio está aí, a fazer tiritar corpos sofridos e a lembrar a quem quer calor, que o pague. Aliás, quem quer saúde, educação ou assistência, deve pagá-las. Na bolsa de valores do capitalismo selvagem os sentimentos perderam a cotação e a solidariedade é uma vaga lembrança de outros tempos e outra gente.

A crueldade instalou-se e, por entre o frio que penetra até aos ossos, sente-se a revolta que incendeia os ânimos, num compasso de espera entre a abolia que tolhe e os ímpetos que podem explodir.  


A Aula Magna, Mário Soares e a comunicação social

A reunião da Aula Magna foi, pela quantidade, qualidade e diversidade de pessoas que congregou, o principal acontecimento da contestação intelectual ao Governo que o PR insiste em manter.

Não bastou a demissão irrevogável do ambicioso e inconstante ministro Paulo Portas e a sua ausência e a de todo o elenco dos seus vassalos, para Cavaco, num ato pífio, investir a ministra das Finanças num Governo que, nesse momento, já não existia.

O Governo que, ao contrário de Roma, pagou a Paulo Portas com a vice-presidência e a liderança das pastas económicas; que viola a Constituição por índole e desafia os juízes do Tribunal Constitucional por hábito; que é mau por inépcia e péssimo por ideologia, é apoiado pelo PR por razões que a razão desconhece.

Na Aula Magna ouviram-se vozes respeitáveis e respeitadas donde saíram ruídos que as vuvuzelas do Governo puseram a vibrar para abafar as verdades e evidências pungentes ali postas a nu.

Não foi uma reunião de apelos à violência, foi a fusão de sensibilidades que contestaram a violência ideológica com que este Governo surpreendeu os eleitores que o elegeram.

Mário Soares, a quem a idade não matou a coragem e o gosto pela intervenção política, no convite alargado a pessoas de vários quadrantes, e na defesa da CRP e da legalidade, acabou por preencher o vazio na contestação que alguns gostariam que se esgotasse na AR. Fê-lo com serenidade e não com a atitude incendiária com que quiseram diminuí-lo e esconder o magnífico discurso de Pacheco Pereira, perante cerca de 2400 patriotas.

Na terça-feira, na sua página semanal, no DN, Mário Soares escreveu:
(…)
6.º § – «Repare-se que ao contrário de outras vezes, eu não iniciei a abertura da sessão de improviso e sem papel, como é habitual. Desta vez, li um texto escrito. Que está ao dispor de quem o quiser ler. Porquê? Porque sabia que ao falar de violência os comentadores ao serviço do poder iam necessariamente especular. Como fez o sempre infeliz vice-primeiro-ministro Paulo Portas, que muda de ideias como de camisas e que todos sabemos o que tem feito e refeito. Um artista...».

Aqui fica o discurso de Mário Soares.

Ponte Europa / Sorumbático



quarta-feira, novembro 27, 2013

Sobre a liberdade religiosa e a liberdade individual

«O Estado também não pode ser ateu, deísta, livre-pensador; e não pode ser, pelo mesmo motivo porque não tem o direito de ser católico, protestante, budista. O Estado tem de ser cético, ou melhor dizendo indiferentista» Sampaio Bruno, in «A Questão religiosa» (1907).

«O Estado nada tem com o que cada um pensa acerca da religião. O Estado não pode ofender a liberdade de cada qual, violentando-o a pensar desta ou daquela maneira em matéria religiosa». Afonso Costa, in «A Igreja e a Questão Social» (1895) - R & L

Sampaio Bruno e Afonso Costa exprimiram, muito antes de eu ter nascido, o que ora penso.

Ontem fui confrontado com esta notícia: «Angola é o primeiro país do mundo a banir o Islão», notícia repetida em numerosos meios de infirmação, cuja divulgação deu origem aos mais desvairados comentários.

Em primeiro lugar não vi uma única reflexão sobre o título, tantas vezes repetido, que, ao afirmar que «Angola é o primeiro país…» deixa implícito o desejo de que outros se sigam.  Isso é islamofobia. É racismo. É discriminação.

Sei o que é a repressão religiosa, moderada – dirão alguns –, exercida no meu país pela Igreja católica, antes do 25 de Abril. Além do ensino obrigatório nas escolas públicas, era a religião imposta a quem quisesse exercer o magistério primário ou a enfermagem.

Havia Escolas de Enfermagem onde o «certificado de batismo» e o «atestado de bom comportamento», este, passado pelo pároco da paróquia de origem, eram documentos obrigatórios, a juntar à certidão de idade, certificado de habilitações e registo criminal.

Nas Escolas do Magistério existia a cadeira de Religião Moral (católica) com o mesmo valor da Pedagogia, Didática e Psicologia Infantil, embora pouco exigente a provar a existência de Deus. A missa da Consagração do Curso, a Bênção e a foto com o bispo da diocese, não estando legisladas, eram impostas.

O potencial belicista das religiões, sobretudo dos monoteísmos, está bem documento na História. Hoje aparecem com particular furor o sionismo, reflexo do judaísmo ortodoxo, e o islamismo como produto virulento da decadência da civilização árabe e do contágio de países não árabes, além de permanecer a mais implacavelmente prosélita.

A superioridade da democracia reside na tolerância para com os adversários, tolerância que as religiões não aceitam porque a vontade do deus, de cada uma, é única, imutável e autêntica. Basta ler o Pentateuco (AT) para ver que o deus criado na Idade do Bronze é incompatível com a liberdade individual. É produto da sociedade tribal e patriarcal, dos seus medos, desejos e primitivismo: violento, xenófobo, vingativo, cruel, misógino e homofóbico. E o Antigo Testamento é a sua expressão e a fonte dos três monoteísmos.

Não se peça aos crentes que o enjeitem, mas não se pode aceitar um Estado que permita às religiões a conduta a que obriga outras associações. A isso chama-se “laicidade”, sem a qual a democracia é uma caricatura.


terça-feira, novembro 26, 2013

A 1.ª Cruzada - 27 de novembro de 1095

Há cinco versões diferentes, cada uma de acordo com a recetividade dos povos a quem era dirigido, do discurso que Urbano II entregou no Concílio de Clermont-Ferrand, mas, como sempre acontece em coisas religiosas, não há nenhuma garantidamente fidedigna.

Certo é o apelo feito aos cristãos, convocados  em nome de Deus, e o perdão garantido dos pecados a todos os que “morressem, em terra ou no mar”, na guerra contra os infiéis muçulmanos, a fim de reconquistar Jerusalém.

Urbano II lambia ainda as feridas do Grande Cisma do Oriente e disputava a hegemonia com Henrique IV (Sacro Imperador Romano (1056-1106) sobre o diferendo que opunha o Papa ao Imperador, em que o primeiro pretendia nomear os Imperadores, em nome de Deus, e o segundo, em nome do Império, queria nomear o clero. Além disso, Urbano II tinha ainda a competição do antipapa de Roma.

A Igreja, débil, assistia a lutas internas, violações, roubos, pilhagens, matanças e casos de corrupção nos quais o clero estava envolvido, contra a vontade de Urbano II.

A palavra Cruzada não fora ainda inventada mas o alvoroço pelas indulgências plenárias vinha ao encontro do Papa, para resolver os problemas internos e a luta contra os turcos seljúcidas que formavam um  perigoso império islâmico sunita, medieval, turco-pérsico, que ameaçava a Europa.

A Abadia de Cluny esteve na origem, juntamente com as suas filiais de Saint-Alyre de Clermont e Mozac, da primeira Cruzada. Além dos problemas internos do papado, urgia libertar os cristãos do poder dos turcos seljúcidas, reabrir o caminho para peregrinações à Terra Santa, bloqueado pelos referidos turcos e impedir a invasão da Europa, o plano turco que acabaria por ter início em 1453 com a conquista de Constantinopla.

As Cruzadas, pelo pavor que provocaram, pelos episódios horrendos, pelo proselitismo que as animou, ficaram como marca indelével de uma época violenta de que a Igreja era o reflexo.

Evocar o início da primeira Cruzada é o pretexto para reflexão do horror simétrico que a mesma demência mística encontra hoje nos suicidas islâmicos, na Jihad e no sectarismo.

A violência terrorista da turba de crentes, fanatizada pelo clero, tem hoje o equivalente na intoxicação das madraças e mesquitas e na demência que viaja em sentido inverso.

Lembrar as cruzadas é a forma refletir no proselitismo islâmico que ameaça a Europa.


A notícia

Um número crescente de gregos tem-se injetado com o vírus do HIV para poder reivindicar cerca de 700 euros em benefícios de saúde mensais, de acordo com um relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS).


segunda-feira, novembro 25, 2013

O Papa, o catolicismo e o Cristo-Rei

Com a celebração da solenidade de Cristo Rei, neste Domingo 24 de novembro, o Papa [Francisco] fez a conclusão do Ano da Fé, uma «iniciativa providencial» de Bento XVI, apresentando Jesus Cristo como o “centro da história da humanidade e de cada homem”.

Não se vê no evento promocional de uma religião onde possa entrar a Providência, nem como um judeu, nascido há 2 mil anos, possa ter emigrado para o «centro da história da humanidade» ou para o centro de «cada homem», sabendo-se que apenas cerca de 20%, na mais favorável das hipóteses, é cristã e a Humanidade já leva milhões de anos.

Concluído o Ano da Fé, talvez venha o Ano da Razão. Entre o defeito de acreditar sem provas e a virtude de duvidar, por método, é preferível a segunda hipótese. É natural que quem não exige provas para acreditar também as dispense para duvidar.

O que espanta na ICAR é o paradigma monárquico, que permanece após o descrédito da realeza, depois de os princípios do Iluminismo terem contrariado os dogmas e destruído os privilégios hereditários.

A mãe de Jesus é referida como Rainha dos Céus e até a hipotética legião de assessores, que aconselham o Deus-Pai, é referida como ‘corte’ celeste. Demorará muito até que as orações e a mentalidade se adaptem, ao menos, ao espírito democrático e republicano.

Pode ser que um dia, em vez da salve-rainha se recite a salve-presidenta [sic] e surjam monumentos a Cristo-Chanceler ou a Cristo-Presidente, mais adequados à nomenclatura profana e aos hábitos modernos, já que o Cristo-Xá ou o Cristo-Imperador são pouco ajustados à História recente dos povos onde o cristianismo resiste e os de Führer ou Mahatma totalmente improváveis.


O Vaticano é que, por mais que queira, continua um anacronismo onde ‘Santidade’ é a profissão e o estado civil .    

Três editais para dois pares de cuecas


domingo, novembro 24, 2013

24 de novembro

1632 – Nasce, em Amsterdão, o filósofo Bento Espinosa, judeu de origem portuguesa. A Inquisição tornou aconselhável a emigração dos seus ascendentes.

1859 – É publicada ‘A Origem das Espécies’, de Charles Darwin.

1973 – Reunião do Movimento dos Capitães na Parede. Às reivindicações militares juntaram-se, pela primeira vez, dois novos objetivos: o derrube do regime e a realização de eleições livres.

1998 – A Coroa britânica põe fim aos direitos hereditários de participação na Câmara dos Lordes de 759 membros da aristocracia.

Fonte: DN

O Papa, a sociedade e os sacramentos

O Papa Francisco, por mérito ou marketing pio, teve a comunicação social do costume a desenhar-lhe o perfil, a afeiçoar-lhe o currículo e a mostrar o rosto humano, que até um papa pode ter. Só o Prof. César das Neves não entrou em êxtase devoto, como soía com os anteriores.

Mostrou-se o PDG do Vaticano inquieto com a descrença que alastra na Europa, com a sucessiva secularização e a gradual entrada no mercado da fé, tantos séculos fechado à concorrência, de outras crenças e de métodos mais radicais de promoção.

Não basta o sectarismo demente do Islão, a exigir 5 orações diárias e a proibir micções  viradas para Meca, aparecem evangélicos, adventistas, meninos de Deus e uma imensa legião de funcionários ao serviço de novas crenças e métodos, para salvação das almas.

É neste frenesim competitivo que o Papa Francisco, com um olho no burro do presépio e outro nos crentes, vai perscrutando o que pensam os católicos das uniões de facto, da pílula, do preservativo, do divórcio e dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

Não sairá uma revolução do papa contratado na Argentina, mas, pelo menos, não se vê que insista em negar a hóstia a recasados ou um centilitro de água benta a quem já não a distingue da outra.

A modernidade, inimiga figadal das religiões, foi fazendo o caminho enquanto a Igreja católica ia canonizando defuntos antigos e recebendo os emolumentos, sem cuidar das virtudes dos taumaturgos ou da inteligência dos devotos.

É natural que, daqui a dois anos, devagarinho, algumas cedências sejam feitas durante um sínodo, a convocar, para mostrar que, como aconteceu com o movimento de rotação da Terra, a Igreja católica está aberta à modernidade. Devagar.


Os pequenos pecados não levam ao Inferno mas não conduzem ao Paraíso.

Insistirei no respeito que me merece o antigo PR, Ramalho Eanes. Continuo a ver nele o cidadão honrado e um homem de carácter. Aprecio-lhe o despojamento, raro nos atuais governantes, e uma coerência que nem os apoios à eleição de Cavaco Silva e ao candidato do PS à Câmara de Cascais, João Cordeiro, beliscaram.

Porque o aprecio, sou mais exigente. Lamento que Ramalho Eanes, em 12 de novembro, tivesse afirmado que discordava da data (25 de novembro) agendada para a homenagem que lhe era destinada; que na última quarta-feira tenha dito ao Expresso que não estaria presente na homenagem; que agora resolva comparecer para “não ser deselegante com as pessoas que estão envolvidas na preparação deste evento».

Eanes sabe que empresta o seu nome honrado ao aproveitamento de muitos que o não são e que aliena uma parte dos que o admiram. Sabe que divide o campo democrático e os militares de Abril. Resolveu pedalar a bicicleta da mulher e apertar o cilício do Opus Dei.

Bom fim de semana, general. Tal como Otelo, com outra dimensão afetiva, também tem direito à sua asneira. Depois, não se admire se ouvir algum viva a Salazar.


sábado, novembro 23, 2013

O MAI, as polícias e o desastre iminente…

A semana encerra com este Governo a acumular desastres sobre desastres. Desde a ‘convergente’ sessão da Aula Magna link à recente notícia do envio da ‘convergência’ das pensões para fiscalização preventiva do TC link, tudo está a conjugar-se e a acontecer.
Mas, importante - porque não é possível circunscrever a um acto ‘acidental’ – foi a manifestação das forças de segurança frente à Assembleia da República.

A saga de prosseguir por via orçamental uma política de feroz austeridade com que o presente Governo tem fustigado (‘castigado’) os portugueses atingiu – como se pode observar na manifestação das forças de segurança – áreas sensíveis das funções de soberania e segurança do Estado. Tentar minimizar os acontecimentos não passa da ruinosa ‘política de avestruz’. Já não é possível escamotear o que está a acontecer. A transferência de capitais do bolso dos cidadãos (das famílias) para instituições financeiras, escondidas sob o manto diáfono de ‘mercados’, tornou-se demasiado evidente, escandalosamente notória, para que possa continuar a ser ocultada.

Vai ser difícil defender a estabilidade política (destas ‘políticas’) perante a crescente instabilidade social. Há algo de absurdo nesta contradição que se revela inconciliável. Mas quando a virulência das medidas punitivas sobre os cidadãos atinge (infecta) um dos pilares da autoridade do Estado (as forças de segurança), que se entende como um exercício democrático, aqui - e usando a expressão do presidente da Comissão Europeia – é que ‘o caldo está entornado’.

Os cuidados com que (todas) as forças políticas comentam os acontecimentos em frente ao Parlamento são um claro indício da gravidade dos acontecimentos. De facto, o praetorium – onde se acoita a ‘maioria governamental’ – foi posto à prova pela suposta ‘guarda pretoriana’, e quer o actual Governo quer as Oposições ficaram a saber que não existe. De certa maneira o poder ameaça cair na rua. Os comentários e as reacções quer do Governo quer dos partidos em geral incidem sobre questões corporativas e disciplinares esquecendo o fundamento político que lhe está subjacente. E, sob o aspecto político, este é um indício iniludível de desagregação do Estado. A usura do exercício desastrado do Poder conseguida através de reincidentes abusos configurados por antipatriótica obsessão pela austeridade punitiva, que se agrava cada dia, revela-se, como seria previsível, geradora de fortes desequilíbrios e tensões sociais. Por detrás deste quadro o eterno alimento (fermento) de todas as insubordinações cresce: a fome e os seus terríveis espectros!

É óbvio que a manifestação das forças de segurança não foi - nem será - o ‘assalto ao Palácio de Inverno’. Não está em curso uma revolução, nem haverá propriamente um clima insurreccional (ou sequer pré-insurreccional). Mas chegamos – e os recentes acontecimentos são reveladores – à altura de ‘arrepiar’ caminho. Quando se ultrapassam marcas (de limites difíceis de definir) a dinâmica popular tende a tornar-se imparável e irreversível. Não sabemos, exactamente, em que altura deste trágico percurso, nos encontramos. Seria prudente não arriscar mais.

A reacção do Governo é mais uma vez inábil e, pior, contem no seu ventre ingredientes que só podem agravar a situação. A exigência da demissão do director nacional da PSP (ninguém engole a colocação do 'cargo à disposição') link é um cínico ‘fait divers’ visando a desresponsabilização política ao mais alto nível. Pior, uma ‘atitude’ passível de agravar – ainda mais - a situação no interior da PSP, órgão essencial para a manutenção da segurança pública. Na verdade, a manifestação frente ao Parlamento não se restringiu à PSP e envolveu todas as forças de segurança. Ora, o ‘director natural’ de todas essas forças será o Ministro da Administração Interna. Que aparece em público a ignorar todas as suas responsabilidades. Como, de resto, a globalidade do Governo. Tornou-se cada vez mais premente e inadiável a realização de eleições. Com ‘soluções’ do tipo da arranjada pelo MAI estamos longe de uma almejada ‘paz social’.

Sem querer prever cenários, sem pretender incitar a qualquer ‘coisa’ (muito especialmente a violência), não é difícil adivinhar (prever) o desastre iminente.

O Governo, a crise e o desespero

Sabe-se que a crise financeira internacional, não sendo a única causa, foi o detonador de crises europeias onde as economias mais frágeis, Grécia, Portugal, Irlanda e Chipre, são as maiores vítimas.

Foi em situação de particular vulnerabilidade que a direita mais reacionária, aquela que se julga dona do poder, por direito divino, depois de obter o poder dentro do PSD, partiu ao assalto do Governo.

Por facciosismo partidário ou por razões que talvez um dia conheçamos, o PR preparou o regresso dessa direita, do tea party português, ficando mútua e reciprocamente reféns.

Não se percebe como é possível ampliar a dívida ao ritmo da esbulho dos portugueses, com a economia destroçada, o desemprego a atingir números sem precedentes, a fome a minar o tecido social, o desespero a impregnar várias camadas e a esperança a ausentar-se  do horizonte.

Na caminhada lúgubre da vingança contra o Estado social fica o cadáver de um país que os atuais governantes usaram como laboratório e se preparam para autopsiar.

Perante o desrespeito ao Estado de direito, arrogantemente exibido pelos aprendizes que nos governam e silenciosamente coberto pela inação de Belém, não há saídas legais para devolver a palavra aos portugueses e julgar o bando.

Algum desnorte entre as forças patriotas revela bem o desespero a que nos conduziram e a parede perante a qual nos colocaram, deixando-nos como única saída a revolta.


sexta-feira, novembro 22, 2013

22 de novembro – o melhor e o pior

1890 – Nasce Charles de Gaulle, militar e estadista francês, herói da Resistência e PR;

1990 – A primeira-ministra Margaret Thatcher demite-se da liderança do Partido Conservador e da chefia do Governo, depois de 17 anos no poder;

1999 – O PM António Guterres apresenta o emprego como prioridade absoluta da presidência portuguesa da União Europeia, que começa a 1 de janeiro.


***

1963 – O presidente norte-americano, John F. Kennedy é assassinado em Dallas;

1975 – Juan Carlos de Bourbon é proclamado rei de Espanha, por vontade do genocida Francisco Franco;

2004 – Inicia funções a Comissão Europeia presidida por José Manuel Durão Barroso.


O bispo e a obediência da mulher


D. Francisco Javier Martinez, arcebispo de Granada, na foto, defende que a mulher deve praticar felações ao marido sempre que ele lho ordene – lê-se em Diario Popular, El Mundo, terça-feira, 13 de novembro.

«Não é uma perversidade», diz o prelado no livro «Casa-te e sê submissa» [tradução literal].

«O sexo matrimonial também é obra do Senhor e, por isso, sempre se regeu pelas leis da Igreja».

O livro, que pretende ser uma orientação pia para mulheres casadas, acrescenta muitos outros conselhos preciosos:

"Deus colocou-te ao lado do teu marido, esse santo que te suporta apesar de tudo. Obedece-lhe e submete-te com confiança"

Apostila: A verdade já é suficientemente grave para que não sejam necessárias referências jocosas de duvidosa proveniência.

Eanes e a ausência da homenagem que lhe destinam

Ramalho Eanes é um homem sério e um democrata, o que, nos tempos que correm, já é suficiente. Mais do que isso, pautou o seu comportamento por critérios de isenção que o tornam credor do respeito e admiração dos portugueses. É um homem de carácter e um patriota.

Era genro de Neto Portugal, diretor da Fiscalização e Investigação da Inspeção-Geral das Atividades Económicas, onde sucedeu ao major Silva Pais que, por sua vez, tinha sucedido ao capitão Agostinho Lourenço, que transitaram para diretores-gerais da Pide, mas não vacilou em subscrever o manifesto contra o Congresso dos Combatentes do Ultramar, uma iniciativa fascista onde um mutilado de guerra, major Pamplona, e a fina flor da ditadura arriscaram a derradeira propaganda à guerra colonial.  

Eanes honrou-se ao lado de Carlos Fabião, Firmino Miguel e Dias Lima, denunciando a manobra fascista e combatendo-a, a partir da Guiné. Era, pois, um democrata, antes do 25 de Abril.

É ocioso referir a influência que a exaltação política exerceu no seio dos militares que fizeram o 25 de Abril. Aconteceu que, sob o comando direto do Governador Militar de Lisboa, Vasco Lourenço, em sintonia com Costa Gomes, foi o chefe operacional do 25 de novembro.

Vitorioso, o Conselho da Revolução, sob influência de Vasco Lourenço, promoveu-o a general. Vasco Lourenço não tinha idade para ser candidato a PR e, naturalmente, Eanes foi o escolhido. A eleição foi um tributo aos militares de Abril.

Foi como militar de Abril, apoiado pela esquerda, que, no segundo mandato, defrontou o general Soares Carneiro, antigo comandante do campo de S. Nicolau, em Angola, o pouco recomendável candidato da direita. Venceu, apesar da grotesca encenação das exéquias fúnebres de Sá Carneiro.

Foi um excelente presidente num período em que eram grandes os seus poderes, enorme a responsabilidade e decisiva a sua atuação. Eanes cumpriu. Esqueçamos a ambição que o levou a emprestar o nome ao PRD.

A homenagem que lhe é prestada é justa. Aqui deixo o meu modesto tributo ao cidadão íntegro, ao honrado militar e ao digno Presidente da República.

A única coisa lamentável não se deve ao homenageado, que não comparecerá, deve-se aos promotores, que foram infelizes na data escolhida. Enquanto a História registará o militar de Abril, os homenageantes dividiram o campo democrático escolhendo a data que avivou feridas por cicatrizar.

Alguns democratas de sempre deviam ter previsto que a justa homenagem se presta a equívocos que não os honram e que Eanes não merecia.

Se trocassem de funções perdia o humor mas ganhava o País


quinta-feira, novembro 21, 2013

Nuno Crato ou erro crasso?

Quando se põe em xeque o ensino público para passar um cheque ao privado, põe-se em causa a democracia, rompe-se com o passado e hipoteca-se o futuro.

Este ministro, que gozava da fama de intelectual, não passa de um serventuário do mais reacionário liberalismo.

Um catedrático que acrescenta ao seu currículo, ter sido ministro de Passos Coelho, não é um intelectual, é um  saprófita do poder, sem pundonor nem brilho, um homem capaz de tudo, para se envergonhar quando cair em si.


João César das Neves (JCN) e o Faceboock

A sanha contra JCN já levou à criação de uma página do FB «Correr com o César das Neves do DN, TV, Rádio e U.C. (Universidade católica)». Só falta pedir a exclusão do devoto, do próprio FB, do Banco de Portugal e da missa. A vocação censória iguala a do bem-aventurado e o senso aproxima-se do dele.

JCN diz muitas tolices? – claro que diz, e grandes, mas não fica sob a alçada do Código Penal. Acha que o ordenado mínimo deve ser reduzido e que os pensionistas são ricos? – De facto, ele pensa isso e revela a formação da madraça onde é aiatola, mas não sendo um pensamento digno, não é crime.

JCN gostaria que a sharia romana fosse a legislação que substituísse o direito de família, sem divórcio, com cadeias abertas para a IVG e a lapidação para mulheres adúlteras?
 – É de crer que sim, mas há outros que pensam o mesmo e andam à solta.

JCN gostaria de confiar a saúde, o ensino, os Tribunais, a assistência e as polícias aos Irmãos Católicos e transformar  o Estado num departamento da Conferência Episcopal? – É natural, mas pensar que a demência mística possa abalar os fundamentos do Estado de Direito é não acreditar na democracia.

JCN atira-se aos juízes do Tribunal Constitucional como um Cruzado aos mouros, mas não é diferente do PM que, com isso, perde legitimidade para o ser ou do presidente da CE, Durão Barroso, cuja chantagem devia ter sido repudiada pelo PR, se o houvesse.

JCN cilicia-se, viaja de joelhos, empanturra-se em hóstias, inala incenso, encharca-se em água benta e extasia-se com o brilho da púrpura, a beleza do báculo e o fulgor da mitra? – E o que temos nós a ver com isso?

O homem flagela-se e acha que «no [seu] medíocre quotidiano, continua a mesma mesquinha criatura que sempre foi»? – E que temos nós a ver com um raro momento de lucidez?

A censura é sempre um ato inadmissível e, vendo bem, JCN é um manancial de humor que diverte muito mais com as tolices que diz do que António Sala com «Anedotas» que publica.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, novembro 20, 2013

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO: AS PANTUFAS DOS TORCIONÁRIOS

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO: AS PANTUFAS DOS TORCIONÁRIOS: A memória, sempre a memória, e a dignidade que é o dever de lutar por ela. Um combate decisivo, contra o esquecimento e o silêncio. Não ap...

A democracia exige democratas e... memória. Obrigado, Fernando Paulouro.

Venezuela – presente e futuro

Hugo Chàvez era demagogo e populista mas ninguém pode negar o seu imenso amor ao povo que o elegeu em eleições limpas e esmagadoras. Era líder, ao estilo sul-americano, com idiossincrasias que arrepiam os europeus, um grande comunicador e estratega de um modelo de democracia socialista amplamente sufragado e capaz de enfrentar os inimigos internos e externos.

O seu desaparecimento deu lugar a Nicolás Maduro, um líder que lhe herdou todos os defeitos e não logrou guardar alguma das suas virtudes.

A criação do “vice ministério para a Suprema Felicidade Social”, embora com objetivos distintos, lembra o “Ministério de Fomento à Virtude e de Prevenção do Vício” com que os talibãs no Afeganistão imprimiram o cunho islâmico à política.

Maduro, o tosco herdeiro de Hugo Chávez, para antecipar o ambiente de festa e tirar o país da tristeza, decretou que o Natal fosse em novembro, julgando que a grave crise socioeconómica do País se resolveria com o Natal, quando o presidente quisesse.

Depois passou a ver aparições de Hugo Chávez, à semelhança dos milagres que ocorrem noutras partes do mundo católico, sem a experiência milenar da Igreja nem os bastidores adequados à encenação da experiência mística.

Os poderes especiais pedidos ao Parlamento, formalmente legais, não passam do cheque em branco que prenuncia uma ditadura.

A experiência que entusiasmou os democratas progressistas de vários continentes está à beira do desastre, entre o ridículo e a tragédia.


Óbvio ululante


Publicidade pia

El País 

terça-feira, novembro 19, 2013

19 de novembro – efemérides

1991 – Barros Moura, Raimundo Narciso e Mário Lino são expulsos do PCP por «atividades fracionárias» e o sindicalista José Luís Judas demite-se do partido.

1996 – O presidente cubano Fidel Castro visita João Paulo II no Vaticano.


O Papa Francisco e o marketing do Vaticano

Anda por aí, repassada (como se diz em mau português), isto é, divulgada até à náusea a informação de que o atual Papa afronta a Cúria e arrisca a vida. Vive fora dos aposentos pontifícios, beija pés improváveis e ameaça obrigar o I.O.R. a reger-se pelas normas internacionais de transparência, depois de o Vaticano ter sido colocado na lista negra dos centros bancários de lavagem de dinheiro, pelos EUA. As eventuais relações com a máfia e o paraíso fiscal não podem manter-se, sem arriscar a credibilidade do  Paraíso.

Este Papa, Francisco, foi uma inevitabilidade, para romper de forma controlada com os escândalos sucessivos, desde o encobrimento da pedofilia à cumplicidade na falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, que financiou o sindicato polaco Solidariedade e a luta contra o comunismo.

Não tenho qualquer informação que não seja veiculada pela comunicação social e outra, mais suspeita, que circula pelos esgotos da NET, a céu aberto, encaminhada por pessoas de várias tendências, inclusive ateus e agnósticos, usualmente alheios ao que se passa no Vaticano, informação que chega «repassada» a todas as caixas de email.

Vale a pena refletir sobre o papado e a sua influência enorme sobre países e populações de vários países do  Globo. Com exceção de João Paulo II, um pároco de aldeia de parca preparação e imenso ativismo político, servido pela descomunal rede de propaganda ao serviço do Vaticano, os Papas são clérigos de altíssima qualidade intelectual e de grande experiência política.

Francisco é jesuíta, de uma ordem que prima pela preparação intelectual, perseguida por João Paulo II em detrimento do Opus Dei cujos recursos enormes serviram para cobrir o buraco financeiro aberto por João Paulo II, que protegeu o autor do desfalque do Banco Ambrosiano, o arcebispo Paul Marcinkus, a quem negou a extradição para ser julgado.

Convém referir que um padre jesuíta, que raramente aceita lugares hierárquicos, tem as habilitações correspondentes a um doutoramento. Ninguém julgue que Francisco é um clérigo ingénuo saído de um conclave onde há séculos não havia notícia da presença do Espírito Santo, apenas da crescente influência do Opus Dei a que João Paulo II conferiu a qualidade de prelatura pessoal e a rápida canonização ao fundador.

Francisco é o Papa necessário a esta fase em que a Europa, secularizada, começa a olhar para a Igreja católica perante a ameaça do proselitismo islâmico e que precisa de cuidar da América do Sul onde a implantação é grande e a concorrência evangélica agressiva.

Mantendo a indústria do milagres e a idolatria à Virgem, obsessões do Opus Dei, o Papa Francisco é o pontífice capaz de fazer esquecer a conivência do Opus Dei com todas as ditaduras fascistas, a começar pela de Franco, onde foi dominante no Governo e culpado pelos escândalos financeiros da Rumasa e Matesa, e a acabar na de Pinochet.

A aura de um papa acossado pela máfia e pelos gangues da Cúria é uma interessante via de promoção, a puxar ao sentimento e à solidariedade. Isto, sem duvidar dos interesses obscuros e contraditórios que se digladiam no interior da Cúria romana.

Como se assalta o poder

Quando um indivíduo sem escrúpulos concede uma entrevista à Visão, um tal Fernando Moreira de Sá, denunciando a forma torpe como o seu  grupo combatia o PM de então e os adversários internos do PSD, era natural que um deles chegasse ao poder.

Não me admira que o atual ministro da Defesa fosse apenas um instrumento menor da luta interna para produzir o mais inepto dos Governos desta segunda República.

O que me surpreende é o silêncio dos cúmplices, com as orelhas metidas na gamela do Orçamento, e a indiferença da comunicação social perante o crime onde os perfis falsos do Faceboock se misturavam com bandos de malfeitores, caluniadores e mentirosos, de mãos dadas com «jornalistas» avençados, para parasitarem fóruns e atuarem de forma concertada num assalto antidemocrático ao poder.

Percebe-se agora a presença imprescindível de Passos Coelho no reincidente casamento de Relvas, o ideólogo da campanha negra que fez do medíocre empregado de Ângelo Correia o primeiro-ministro de Portugal.

Num país onde o maior escândalo financeiro de sempre, o caso BPN, nunca mereceu um reparo do PR, tudo é possível.


segunda-feira, novembro 18, 2013

18 de novembro – o pior

1929 – Manuel Gonçalves Cerejeira foi designado cardeal-patriarca de Lisboa e foi, na longa carreira cardinalícia, um aliado do ditador fascista, António de Oliveira Salazar.

1936 – A Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini reconheceram o Governo fascista de Espanha, do ditador Francisco Franco.


Momento zen de segunda_18_11-2013

Mal refeito das 4 páginas da entrevista de João César das Neves (JCN), com a digestão ainda por fazer, cai-me no regaço, desprendendo-se da NET, a homilia da segunda-feira, subordinada ao tema «Ano da Fé».

A homilia começa por esta exultação pia: «Não há felicidade maior do que saber que Deus, o Deus supremo, sublime, transcendente, que fez o céu e a terra, se entregou à morte para me salvar. A mim pessoalmente».
JCN não calcula os inimigos que, com tal denúncia, arranja para o Deus dele.

Confessa, a seguir, que «Ele está dependurado por minha causa» o que, em boa verdade, muitos, que não conhecem Deus mas conhecem JCN, hão de considerar que é bem feito. Num gesto de narcisismo e de autocrítica, JCN lembra aos incréus que «Nas paredes das salas, nas frontarias das igrejas, nos quadros dos museus, até no meu peito, em todo o lado a imagem da cruz lembra que Aquele ali, coberto de sangue, foi condenado à morte por minha causa».

Sempre achei que, num país laico, a profusão de cruzes era um abuso mas o catecúmeno delira com a abundância dos instrumentos de tortura. Eu abomino o sofrimento, o meu e o dos outros, sou contra a pena de morte, mas não absolvo quem morre para salvar JCN.

Depois de perorar sobre a morte e outros sustos com que nas aldeias os padres incutiam a fé, JCN, em transe místico e delírio pio, afirma que «a morte não é só um justo castigo dos nossos males, mas também um alívio terapêutico dos mesmos males». Podia aliviar-se de vez e aliviar-nos, mas preferiu a autocrítica, mantendo-se vivo na U. Católica e no Banco de Portugal, confessando que «Se tirar a máscara de respeitabilidade e elegância, se esquecer as justificações retóricas e os enganos convenientes, se for ao fundo das minhas razões, vejo com clareza que um juiz justo e imparcial teria de me condenar». JCN sabe bem o que faz e o que merece. Se Deus existisse…

Na pungência do desvario místico, julgando que os Cristos dependurados das cruzes, e bem crucificados, não tiram os olhos dele, acaba por afirmar o que todos sabemos dele:

«Eu, no medíocre quotidiano, continuo a mesma mesquinha criatura que sempre fui».


E lá continua a homilia, na obsessão da cruz, na adoração do crucificado, convencido de que está lá pendurado por causa dele, JCN, e que não se vai embora, «por grandes que sejam os meus crimes», desconhecendo que o crucifixo só baqueia se for maior a força da gravidade do que a resistência do prego que o segura.

Momento de Poesia


Os pés de Dante

Ao meu sobrinho João (*)

As estrelas cantaram
quando os homens as inventaram
pelo olho de telescópios dourados
pousados nos telhados.
Cantaram e dançaram contra as nuvens da noite
que rasgaram com a sua luz cósmica.
E o mais pequeno átomo daquela poeira incandescente
ficou na tua mão, acabada de se desprender do céu,
onde seguravas todas as luas dos planetas.
Subiste todas as escadas das várias equações
que para ti eram ainda poemas de Dante
quando ele saltitou pelas brasas do inferno,
como se andasse a pisar uvas.
E aquele átomo iluminou-te por dentro
e abriu todos os livros dos Sábios
ao teu encantamento
e tu, por um momento,
pensaste que tinhas chegado ao firmamento das galáxias
e começaste a contar as estrelas,
uma a uma
como se fossem grãos de areia de um deserto.
E as tuas mãos saltavam como os pés de Dante…

Alexandre de Castro

Lisboa, Outubro de 2013


(*) No seu Doutoramento

João César das Neves (JCN) – o ungido do Senhor

João César das Neves está para o bom senso como Cicciolina, ex-deputada italiana, para a castidade. O facto de ser defensor do liberalismo, nem sequer dos mais extremistas, é apenas um dado que pouco acrescenta ao perfil do mais devoto dos economistas.

O que faz correr o DN atrás da entrevista de quatro páginas completas ao ex-assessor do ex-PM Cavaco Silva (1991/95), catedrático da U. Católica, 56 anos, e técnico do Banco de Portugal, na sua edição deste domingo?

JCN afirma que, ao contrário de muitos, vê, sem problemas e de forma positiva, o atual fluxo de emigração, ele próprio tem dois filhos no estrangeiro, e conclui que «A maior parte dos pensionistas não são pobres e estão a fingir», e afirma que aumentar o salário mínimo «é estragar a vida aos pobres».

Depois de ter sido crítico para os Governos de Guterres, Barroso e Sócrates, sem referir a passagem efémera de Santana, esta boa alma, que os anjos esperam em ânsias, acabou a entrevista a manifestar receios de que, depois deste Governo, os próximos voltem aos disparates.

Consegui ler a entrevista sem uma única obscenidade, sem sequer me indignar, convicto de que é no sofrimento que a boa alma pretende redimir dos pecados o povo português. Não foi o economista que deu a entrevista, foi o ungido do Senhor, o penitente capaz de viajar de joelhos a caminho de Fátima e de regressar de rastos à missa mais próxima.

JCN é a D. Isabel Jonet de fato e gravata, um santo laico, carregado de fé e convicto de que «a vida é apenas o caminho para Deus», como sabiamente lhe ensinou a Irmã Lúcia.

A obsessão dos pobres por comida é um pecado que pode perigar a alma e comprometer as delícias do Paraíso. JCN, entre a gula, que é um pecado capital, e a bem-aventurança eterna, escolhe a última. Pelo menos, para os outros.

domingo, novembro 17, 2013

Para memória futura

Os factos

A FRASE





















Uma insuportável deriva…

O primeiro-ministro português navega à vista. Só que a espuma das suas contradições o faz perder a bordadura costeira e a cegueira política a linha do horizonte. Comanda um elenco de ‘perdição nacional’.

Em Setembro passado – durante a campanha eleitoral para as autarquias – ameaçou os portugueses com um 2º. resgate link.

Depois da derrota eleitoral pretendeu 'mobilizar' o País para a conclusão do Programa de Assistência Económica e Financeira facto que no seu entender nos poderia poupar ao tal novo resgate e de uma assentada esconder o falhanço das medidas da 'resgate', perante as quais o actual Governo se ‘ajoelhou’ tornando-se num abjecto cúmplice.
A nuance seria – no entender deste prestimoso funcionário dos ‘credores’ cá dentro - cumprir cegamente o ‘programa’ e tentar regressar ‘cautelarmente’ aos mercados, em meados do próximo ano link

Para o 'sucesso' desse plano esperava que a Irlanda abrisse o caminho já que a incapacidade do elenco português para negociar e defender os interesses nacionais é olímpica. Se este for o caminho (o que os 'mercados' não julgam ainda oportuno divulgar) este Governo apressa-se a subscrever, no escuro, o documento que for cozinhado em Bruxelas, Frankfurt e Nova Iorque. De imediato, o novo 'programa' será apresentado ao País, como mais um (indiscutível!) 'compromisso' de 'todos' os portugueses... No dia seguinte, Berlim saudará o 'bom caminho' e o êxito de Portugal. Enfim, o habitual...

Neste fim-de-semana Passos Coelho foi surpreendido pela decisão do Governo irlandês de prescindir da negociação de qualquer tipo de programa cautelar. Pensa - no seu delírio - que pode fazer o mesmo link. Mas pela enésima vez coloca uma condição: o Tribunal Constitucional deverá ‘fechar os olhos' às insanas barbaridades que constam do OE 2014.
Quando for confrontado com os acórdãos do TC (quaisquer que sejam) Passos Coelho deverá elaborar mais um cenário e novas opções. Com uma constante que não sofrerá qualquer alteração: a austeridade será - no entender deste desvairado elenco - para continuar e aprofundar.

É o que se chama um País à deriva.

O Governo, a choldra e o maio de 68

Em maio de 1968, no alvoroço da contestação, surgiu um slogan onde a premonição e a fantasia se conjugaram: «Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina».

Que melhor síntese poderia classificar a fuga de Durão Barroso, quando, incompetente para remodelar o seu governo, que se desfazia, emigrou para Bruxelas!?

Os relevantes serviços prestados à divulgação das armas químicas, de Saddam Hussein, e a eficácia do catering que assegurou a Bush, Blair e Aznar, nos Açores, fizeram dele o presidente da Comissão Europeia, donde ensina aos países, nomeadamente a Portugal, como se devem comportar os seus governos e os Tribunais.

Agora, enquanto uns serventuários lhe preparam o terreno para concorrer à presidência da República, em Portugal, vai nomeando extremistas liberais falhados para o órgão a que falta legitimidade democrática.

O ex-ministro das Finanças, Vítor Gaspar, depois de afirmar o seu fracasso no Governo português, vai presidir ao Grupo de Alto Nível para a Tributação da Economia Digital, grupo, ou bando, em formação que «terá a missão de apoiar a Comissão Europeia, presidida por Barroso, no desenvolvimento de uma política fiscal para aquele sector».

Depois do fracasso a governar, Vítor Gaspar vai ensinar. Tal como Durão Barroso.


sábado, novembro 16, 2013

Daqui não passo…

O convite ao ministro do Desenvolvimento Regional, Poiares Maduro, para participar na leitura de textos do realizador João César Monteiro acabou por levá-lo, devido à forte contestação, a cancelar a presença.

O desprezo que sinto pelo atual Governo, e pelos membros que o integram, não impede que manifeste a minha solidariedade a Poiares Maduro. A cerimónia de homenagem a César Monteiro, um irreverente e iconoclasta, ficará manchada por um ato de censura.

Lamentavelmente, a carta de contestação a Poiares Maduro foi subscrita por nomes dos maiores e mais honrados intelectuais portugueses, onde avultam Manoel de Oliveira, Maria Velho da Costa, Herberto Helder e Rui Chafes, entre outros.

Não discuto a ponderação do convite, repudio a manifestação de intolerância de quem sentiu na pele a repressão fascista e a vindicta salazarista e não conseguiu aproximar-se da grandeza ética de Nelson Mandela.

A discordância que manifestei contra os censores da presença de José Sócrates na RTP é a mesma que declaro contra os que impediram a participação de Poiares Maduro numa homenagem a João César Monteiro.

Incapaz de lhes responder com as palavras obscenas de que era capaz o cineasta, crítico de cinema, ator e escritor, aconselho-os a relerem Voltaire.

A esquerda não pode ser a face da direita refletida no espelho. Daqui não passo.

Óbvio ululante


sexta-feira, novembro 15, 2013

O ‘exemplo’ irlandês…

Em Portugal a maioria governamental, nestes últimos dias, tem andado em animados festejos à volta do (bom) desfecho do ‘caso’ irlandês.
Pretendem tirar apriorísticas ilações. Não vão longe.

A ‘colagem’ à Irlanda é abusiva. O programa ‘aplicado’ à Irlanda é substancialmente diferente do ‘caso português’ como é de um outro que se pretende esconder: o grego.

Tentar – em Portugal ou na Europa – demonstrar o êxito da austeridade com o sucesso resgate irlandês é o maior embuste político de sempre. Alguns arautos das instituições europeias – co-responsáveis pelas decisões estratégicas europeias - têm-se esforçado nesta anedótica tarefa link.

Até aqui os ‘interventores’ não mostraram a mínima dúvida, a mais leve transigência mas verificamos que o desfecho irlandês aparece, agora, como o seu ‘quod erat demonstradum’.

A situação da Irlanda difere muito da portuguesa. Primeiro porque se tratou de uma intervenção externa especialmente orientada para o sector bancário não tendo sido frontalmente dirigida ao problema da dívida pública. Aliás o grande problema da dívida irlandesa diz respeito à sua componente privada.

Na Irlanda muito embora ainda com um deficit público elevado verifica-se ao longo deste processo que o seu equilíbrio tem sido feito com prudência e cuidadosamente programado. Dublin fez ajustamentos estruturais mas nunca descurou a economia e o seu crescimento. Bateu o pé à troika, sem ceder, nas questões fiscais (nomeadamente em relação ao IRC e IVA). A opção primordial foi defender os interesses irlandeses deixando o papel de 'bom aluno' para os incautos.
Há já algum tempo que a Irlanda saiu da recessão. E mais do que isso precaveu-se contra as incertezas e maus humores dos mercados. Reservou, com base na tranche de apoio financeiro obtida através da troika, cerca de 25.000 milhões de euros para o que der e vier. Portugal não conseguiu aforrar nada porque o serviço da dívida e as ‘rendas’ tudo engolem. Não tendo criado uma ‘almofada’ protectora, se conseguirmos terminar o programa em Junho de 2014 – o que falta verificar - será sempre numa situação precária. Que não parece dispensar medidas complementares (2º. resgate ou programa cautelar, tanto faz).

Há uma frase do primeiro-ministro irlandês Enda Kenny que tem sido pouco divulgada em Portugal e ao que supomos terá sido ignorada em Bruxelas: “It will be an economic plan based on enterprise, not speculation. Never again will our country's fortunes be sacrificed to speculation, greed and short-term gainlink ("será um plano económico baseado nas empresas, não na especulação. O destino do nosso país nunca mais será sacrificado em nome da especulação, da ganância e dos ganhos de curto prazo). 
Essa frase diz muito e é o justificativo fundamental da atitude irlandesa. Uma coisa é a ‘fadiga’ da austeridade outra será a sua rejeição pura e simples.
Todavia, uma outra advertência foi proferida no debate acerca do fim do bailout na Irlanda e deve pôr-nos de sobreaviso. Gerry Adams, presidente do Sinn Féin, afirmou: “The Troika may be leaving, but the Troika mindset remains”... link . Um sério aviso para os precipitados festeiros programados para o próximo Julho de 2014. De nada terão servido os brutais sacrifícios a que os portugueses foram submetidos se a mentalidade da troika, após o fim do ‘programa’, perdurar cá dentro.

A Irlanda rejeitou qualquer programa adicional essencialmente porque não está disposta a contemporizar com mais austeridade e sabe que ‘isso’ não conduziria ao fim da crise.

Por cá embora se fale no ‘fim do protectorado’ para meados de 2014 verificamos que Bruxelas já se apressou a anunciar novas medidas de austeridade para 2015… link. Vamos ver-nos 'gregos'.

Aplausos!


A extrema-direita, a Europa e a laicidade (2)

Por

Edite Estrela 

A emergência e consolidação dos partidos extremistas e anti-europeus é muito preocupante, caro Carlos.

Neste momento, a Frente Nacional (França) tem três eurodeputados. O Partido da Liberdade (Holanda) tem quatro. O Partido do Povo (Dinamarca) tem um. A Liga Norte (Itália) tem sete. O UKIP (Reino Unido) tem dez. O Vlaaks Belang (Bélgica) tem um. O Jobbik (Hungria) tem três. Os Verdadeiros Finlandeses têm um. O Partido Pirata (Suécia) tem dois. Ou seja, já há pelo menos 32 deputados extremistas no Parlamento Europeu e as previsões para as eleições de 2014 apontam para um reforço dos partidos já representados e a possibilidade de outros igualmente extremistas e eurocéticos poderem eleger representantes.

 Já há quem fale na possibilidade de se vir a constituir no PE um grupo do tipo Tea Party, que tem bloqueado o Congresso americano. Seria dramático. Espero que os partidos de esquerda saibam conquistar a confiança dos cidadãos e dar-lhes esperança e evitarem a catástrofe.

Ponte Europa: O perigo da extrema-direita merece que coloque aqui o comentário da euro-deputada Edite Estrela ao post do meu mural, no Faceboock . É revelador.

A extrema-direita, a Europa e a laicidade

As épocas de crise são estimulantes para os extremismos e o húmus onde germinam as mais perigosas utopias e os mais vetustos pesadelos.

O consórcio entre Marine de Pen e Geer Wilders não é ainda um matrimónio entre a extrema-direita francesa da Frente Nacional (FN) e a do Partido para a Liberdade (PVV) holandês, mas é uma união de facto que pode abrir a cama comum onde se deitem todos os partidos racistas, xenófobos e homofóbicos da velha Europa. Na Bulgária, Hungria e Roménia o extremismo reacionário é ainda mais boçal e implacável. Polónia, Áustria e Croácia trazem no ventre os demónios que aclamaram Hitler. A Inglaterra, a pátria da Magna Carta, alberga já o Partido para a Independência do Reino Unido, a Itália tem há muito a Liga Norte italiana, enquanto a própria Alemanha vê surgir a Alternativa para a Alemanha (AfD) e os flamengos do Vlaams Belang (VB) querem a secessão da Bélgica.

A crise social, económica e financeira enfraquece o ânimo dos que defendem a Europa laica e cosmopolita, onde a paz de Vestefália pôs fim à cruenta Guerra dos Trinta Anos, na primeira metade do séc. XVII, abrindo-a ao pluralismo religioso e ao livre-pensamento que o Iluminismo consagraria decisivamente no fim do século XVIII.

Aos desatentos, lembro que a liberdade religiosa só foi admitida pela Igreja católica no concílio Vaticano II. Por isso, penso perigosas as referências confessionais em relação à Europa, onde não se deve ripostar com o proselitismo cristão à deriva fascista islâmica que une a extrema-direita, de que deixei um esboço e não um inventário.

À esquerda desatenta da subversão islamita, do proselitismo demente, das homilias de ódio nas madraças e mesquitas, recordo os dois livros de Oriana Fallaci, «A Raiva e o Orgulho» e «A Força da Razão», onde a intelectual e mulher de esquerda denunciou o que, por cobardia politicamente correta de fachada multiculturalista, se tem escondido.

É perigoso deixarmos a um extremismo concorrente a regulação da esfera pública, que cabe aos Estados. A paz assegura-se, tendo como instrumento a laicidade, e deixando à esfera privada o exercício das crenças, descrenças e anti crenças que cabe ao Estado fazer respeitar. A neutralidade religiosa do Estado é a herança autêntica do Iluminismo.


quinta-feira, novembro 14, 2013

O FMI e a independência nacional

Posso compreender que me roubem a paz, que me matem a esperança, que me deixem apodrecer à míngua e morrer de inanição. Sei do que são capazes os usurários, conheço os cobradores de dívidas, os de fraque e os outros, a inclemência dos despejos a quem já perdeu o emprego e vê a família nas bichas da caridade.

Já vi muitas coisa, senti revolta e indignei-me. Nunca julguei alguém, em desespero, por ter perdido a dignidade e ser capaz de tudo.

Mas um Governo, gente que ainda come de faca e garfo, aceitar que um credor ameace os Tribunais, como hoje vi os funcionários do FMI que me caíram na sopa, foi mais do que o estômago consente e de que o sistema nervoso aguenta.

Para que o nojo atingisse o paroxismo, faltava ouvir os cobradores a falar de «números mágicos», sem saber se o Governo tinha copiado a expressão deles ou se os ventríloquos repetiam a expressão que aprenderam do Governo.

Momento de Poesia


Para além do Universo…

Descobri num alfarrabista
os decretos de Deus 
sobre as leis do Universo
Eu sou o zero, o ponto de partida 
onde começa a longa viagem
para o infinitamente grande
e para o infinitamente pequeno.
Depois, não há mais nada,
porque o nada não existe.
Ficou-me a ideia de um vazio,
uma brancura infinita a cegar-me os olhos
...

Nem luz havia para me despertar a mente
e sentir o dia,  que não era dia,
pois não havia tempo nem espaço,
era apenas o caos da energia
que sobrou do primeiro instante,
e que por ali ficou esquecida.

Alexandre de Castro


Lisboa, Novembro de 2013

Quatro professores do ensino primário com Veiga Simão

Em finais de 1970 ou princípio de 1971, na sequência de uma reunião de centenas de professores do ensino primário, demitiram-se alguns membros da comissão promotora, por discordarem da minha entrada, apressadamente conotada com o PCP, e exigida pela assembleia, na sequência da intervenção que fiz. Assim, passei a integrar a comissão em que permaneceram o Vital, o Lenine e o Abílio, três colegas de que esqueci os apelidos e que ainda é possível identificar.

Nessa altura passámos muitas noites a redigir as conclusões da reunião, um documento reivindicativo que o jornal República publicou na íntegra e a que, apesar da simpatia com que o acolheu, apontou justas insuficiências. Não faço ideia do texto cuja redação final assumi e que, apesar de pouco glorioso, merecia ser recuperado para memória das movimentações profissionais, em ditadura, que deram origem a movimentos sindicais.

Em representação dos professores reunidos no anfiteatro de uma instituição religiosa, próxima da Avenida de Roma, solicitámos uma audiência ao ministro Veiga Simão, que nos recebeu na data agendada para lhe apresentar as referidas conclusões.

Na reunião prévia acertámos os preparativos para a audiência ministerial e dividimos os assuntos que lhe apresentaríamos. Guardo de Veiga Simão a memória de uma abertura só superada por Adelino Amaro da Costa com quem passámos a reunir posteriormente.

Que pena não termos feito atas dessas reuniões! Teria de render homenagem a Adelino Amaro da Costa, uma personalidade dialogante, diria mesmo democrata, que em nada se parecia com os dirigentes atuais do partido que ajudou a fundar. Mas voltemos à reunião com Veiga Simão, que agora me ocorre quando este Governo pretende destruir o ensino público.

Recordo-me de lhe referir a fraca preparação académica e especializada dos professores do ensino primário, cuja licenciatura exigíamos, por nos parecer não ser menos exigente o ensino da leitura, da escrita ou da aritmética do que o dos estames da papoila ou da raiz quadrada e de não ser mais fácil ensinar a língua materna do que uma estrangeira.

Veiga Simão argumentou que, mesmo em Inglaterra, só 40% do professores do ensino primário tinham curso superior, ao que retorqui que era uma boa desculpa mas uma má razão. Na sequência do diálogo e da intransigência do ministro acabei por lhe referir que o regime estava interessado em ter maus professores no ensino oficial para que os filhos dos pobres não competissem com os dos ricos que podiam escolher bons colégios.

Com um ar de agastamento respondeu-me que isso era um argumento de certa ideologia e que não o aceitava, aproveitando para se levantar, estender-nos sucessivamente a mão e pôr, assim, termo à reunião. No entanto, ainda nos apontou Adelino Amaro da Costa para nosso futuro interlocutor.

Quando o Governo Portas/Coelho regressa mansamente ao pensamento salazarista, vale a pena recordar episódios do tempo em que a ditadura não se atrevia a custear interesses privados.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, novembro 13, 2013

Para que a memória se não apague

Fonte: PCP

III Congresso da Oposição Democrática, em 1973

«Entretanto, pedimos a todos os membros dos grupos «Fascismo nunca mais!» e «Amigos do NAM» que vão deixando, nestes espaços de partilha, o seu testemunho de como viveram o III Congresso da Oposição Democrática, em 1973 – se já eram jovens ou adultos nessa altura…. Sejam “posts” de apenas 3 linhas ou muito mais…(o objectivo é dar a conhecer aos jovens este momento histórico da ditadura fascista)». (Helena Pato)

III Congresso da Oposição Democrática – EU NÃO ESTIVE LÁ

O Congresso foi amplamente discutido nas bases da CDE, que mobilizavam muitas centenas de oposicionistas. Eu vivia na Calçada do Carriche, lote 10 – 4.º Esq.º.

A minha base era a do Lumiar cujas reuniões se efetuavam, se a memória me não trai, num Centro Republicano, mesmo em frente do quartel de Administração Militar, do outro lado da Alameda das Linhas de Torres, todas as sextas-feiras, até a polícia nos ter referenciado. Depois até em casa do Cardia chegámos a reunir, atrás da Churrasqueira do Campo Grande.

Os companheiros que tinham tarefas importantes eram, apenas, conhecidos por «Pá». Ainda hoje não sei o nome do amigo que aparece na capa de um livro que tenho aí na biblioteca, o jovem em primeiro plano da foto do grupo de presos libertados de Caxias.

O pai era barbeiro numa transversal da Rua de Entrecampos, excelente homem, corajoso democrata e péssimo barbeiro onde, por solidariedade, ia cortar o cabelo. Tinha longas barbas que só cortaria se tivesse os dois filhos em liberdade. Na vertigem do 25 de Abril não o voltei a ver. Poderia, então, cortar as barbas.

Mas voltemos à base onde esse e outros «pás» eram militantes. O líder era o António Fonseca Ferreira que tinha sido meu colega no liceu da Guarda e que fora demitido do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, por motivos políticos. Logo a seguir, após ter sido mobilizado para a Guiné, como soldado, desertaria na véspera do embarque.

O Fonseca Ferreira fez uma contestação de esquerda ao Congresso e conseguiu que a base votasse maioritariamente contra a participação. A posição adversa impediu que fosse votado o delegado da base ao Congresso. O Sottomayor Cardia votou contra, tal como eu e outros, e, provavelmente, o Hugo Maia Cadete, mas fomos minoritários.

Penso que o Cardia foi a Aveiro. Outros, por disciplina , convicção ou impedimento não participaram no Congresso cujas teses perturbaram o regime e puseram à prova, desmascarando-a mais uma vez, a alegada abertura marcelista.

Um ano e alguns dias depois, a saída triunfal dos capitães de Abril poria termo à mais longa ditadura europeia.


terça-feira, novembro 12, 2013

Momento de Poesia


Para não te sentires nua...

Ardem-me os braços
e o meu corpo é um braseiro
neste abraço que acordou a noite
e derreteu o gelo
leste o meu silêncio
e tu sabias que o teu apelo
trazia a liberdade
para eu renegar a maldição
Pediste aquilo que já te tinha dado
quando quebrámos outros silêncios fractais
cortando amarras e derrubando muros.
O teu corpo está limpo e és uma mulher bonita
e agora estou na tua frente para não te sentires nua.


Alexandre de Castro

Uma reflexão ou um estado de alma?

Temos no poder a direita mais jurássica, que acumula a incompetência com uma agenda de fazer inveja ao «tea party» americano. O Governo odeia a Constituição e o PR só se preocupa em fazer-lhe respiração assistida, enquanto a maioria, há muito extinta, lhe dá a aparência de legitimidade.

Pois é neste momento, nas atuais condições, num país que se desfaz, com um povo em desespero, que a esquerda se permite o exercício masoquista de se digladiar como se o inimigo principal estivesse dentro dela.

Ignorar a história dos partidos políticos atuais e a relação afetiva criada com o povo que vota, é interessante para fazer alarde de paradigmas políticos que a prática se encarregou de superar, mas a cegueira que nos amarra a modelos falhados é igual à que nos mantém reféns do redil partidário.

A direita não me desilude, só me surpreende a truculência da minoria que se apoderou do poder, afastada da matriz dos partidos que a legitimam. Quem verdadeiramente me desilude é, paradoxalmente, a esquerda, mais interessada no mercado eleitoral do que na construção de um programa comum em que todos terão de ceder.

Confesso que não estou otimista. Continuo a assistir à destruição sistemática de pessoas que fazem falta para construir uma alternativa e à ausência de propostas exequíveis.

«Não queremos a troika» é um slogan equivalente às reivindicações académicas, de há uns anos, em relação às propinas: «Não pagamos, não pagamos!». E não é sequer mobilizador.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Momento zen de segunda_11_11_2013


João César das Neves(JCN), ex-assessor do PM Cavaco Silva e raro bem-aventurado, capaz de ser canonizado em vida, começa a homilia de hoje, no DN, por um rasgado elogio ao livre de José Sócrates e uma identificação de pontos de vista sobre a tortura em democracia.

Limita-se a apontar-lhe uma contradição de fundo entre o que pensa sobre a ilicitude da tortura e, pasme-se, a sua «liberalização do aborto pela Lei 16/2007 de 17 de Abril e a sua banalização pela Portaria 741-A/2007 de 21/Junho».

Quando fala do aborto, JCN parece um indivíduo acossado pelo medo da retroatividade.

O que o devoto JCN diz não entender é poder alguém, que defende como “imperativo categórico»  que «a vida humana é única, singular e insubstituível», defender o aborto, porque – diz o devoto –, «o paralelo é inevitável». Para JCN «a vítima do aborto não sofre apenas a dor extrema e a cruel indignidade, mas fica impedida de nascer e ver o sol, anulando-lhe na morte a mais ínfima partícula de identidade».

Para JCN, embrião e o feto são almas que nem ao Purgatório têm direito, pessoas que mesmo anencéfalas ou que possam provocar a morte da mãe, devem ser defendidas em nome do seu Deus, tal como o fruto de uma violação. No fundo, a própria ejaculação de um sonâmbulo adolescente é um dramático genocídio involuntário.

«Certamente que, com a análise sofisticada que faz no seu volume, o autor não usará a escapatória indigna de dizer que o embrião ainda não é uma pessoa, omitindo-o assim dos seus princípios. Não só se trata indiscutivelmente de uma vida humana, mas esse argumento cai no rol das múltiplas negações da humanidade dos terroristas, que ele tão bem desarma na sua tese».

Com esta tirada, JCN considera a IVG como a negação da humanidade dos terroristas que a aceitam.

Tarda o processo de beatificação que merece JCN, um embrião adulto.

Um juiz que ignora a língua e gosta de protagonismo

«…nos tribunais, pelo menos neste, os factos não são fatos, as actas não são uma forma do verbo atar, os cágados continuam a ser animais e não algo malcheiroso e a Língua Portuguesa permanece inalterada até ordem em contrário'». (dos jornais)

Não interessa escarafunchar o passado deste cidadão que, depois de ter sido acusado por um acórdão da Relação, de ter cometido «erros grosseiros» num processo, acabou com a classificação profissional máxima.

Está em causa julgar o que não lhe compete, impor o que não pode e comportar-se como não deve, acrescido de alguma ignorância e de maior prepotência para com as entidades que escrevem segundo o Acordo Ortográfico onde, como se vê pela amostra, é inculto.

Dos três exemplos que exibiu, manifestou a mais cabal ignorância em dois deles e, no outro, tomou por predicado o que só podia ser sujeito. Deixando, pois o substantivo «atas» ou «actas», como tem o direito de escrever e não de impor, o zeloso guardião parece desconhecer que os factos continuam «factos», só para o contrariar, a menos que goste de os alterar para ter razão, e os cágados só cheiram mal se gorem grafados como julga, isto é, na sua escrita, onde julga grave uma palavra esdrúxula ou proparoxítona.

Umas aulas de português não fariam mal ao filólogo apressado que ninguém contrataria para dar explicações de português embora tivesse a arrogância de ensinar que na «língua portuguesa» o substantivo e o adjetivo se escrevem com letra maiúscula, como o fez num infeliz despacho.


domingo, novembro 10, 2013

Álvaro Cunhal – o centenário canónico visto por um não correligionário

Óleo de Álvaro Cunhal
Álvaro Cunhal foi um dos maiores vultos intelectuais do século XX português. A sua dimensão é tal que ninguém a consegue ofuscar. Foi um príncipe renascentista cuja resistência física, psicológica e emocional fez dele o expoente máximo da luta contra a ditadura fascista.

Poucos se lhe aproximaram na cultura e no ecletismo. Pintor exímio, teórico da estética, na senda de Jorge Lukács, notável poliglota, escritor que nos deixou uma das mais belas obras do neorrealismo, «Até amanhã, camaradas», Álvaro Cunhal foi ainda um ensaísta, tradutor e teórico do marxismo de gabarito internacional.

A superior inteligência e a obstinada dedicação à causa que abraçou fizeram dele o líder carismático do PCP, a que dedicou a vida, um partido que se mantém o maior da Europa depois da queda da URSS e a quem, mesmo os adversários, prestam homenagem à luta heroica contra o fascismo.

É o paradigma do combatente e mártir que dedicou a vida a um ideal, do resistente que sofreu todas as torturas sem nunca trair, merecendo, por isso, o respeito de quem preza a coerência, a coragem e a generosidade. O seu relatório da atividade do Comité Central ao VI Congresso, de Setembro de 1965, «Rumo à Vitória» é um documento histórico de notável perspicácia política e enorme qualidade literária. Apenas o elogio a um obscuro coronel, Galvão de Melo, poderá ter pesado na infeliz escolha, em 1974, para a Junta de Salvação Nacional, onde seria um general reacionário ao serviço da direita trauliteira.

A capacidade de previsão de Álvaro Cunhal foi sempre impressionante, graças à imensa cultura e à prática política de quem se considerou filho adotivo do proletariado. A ele se deve a avaliação correta da correlação de forças e a travagem do PCP no aventureirismo esquerdista que em 25 de novembro de 1975 lançaria o País numa violenta guerra civil.

No centenário do nascimento é um português que merece ser lembrado e homenageado, pese embora a sua irrevogável defesa do leninismo cujo centralismo democrático deu origem ao estalinismo e a outras aberrações históricas que tiveram o expoente máximo no maoísmo e na deriva esquizofrénica albanesa de Enver Hoxha.

Hoje, com a terciarização económica, sem a força de operários e camponeses, é de um novo paradigma que precisamos e, talvez, de um homem com a força, a inteligência e o carácter de Álvaro Cunhal, para o definir e o levar à prática, com o mesmo entusiasmo com que ele galvanizava as assembleias para quem falava.

A crise e as utopias

Os tempos vão de feição para os demagogos. Também os Irmãos Muçulmanos, quanto maior for a desgraça, mais se fortalece o seu poder, sem se tornarem recomendáveis.

Os níveis obscenos de desemprego, a miséria que grassa no País, a angústia que corrói a esperança e a desilusão que desagrega a democracia, dão lugar a desvairadas propostas e aos sonhos mais utópicos.

Difícil, nestes momentos, é conciliar a racionalidade com a ideologia própria, sem ceder aos radicalismos, alimentar projetos de vingança ou embarcar em utopias.

Quando vejo gente de formação democrática apelar a novo 25 de Abril ou a alguém que se coloque acima dos partidos e os substitua, percorro a história da América do Sul, bem mais eloquente do que a da própria Europa. Não sonham o que nos aguardaria após um golpe militar, para o qual não há, felizmente e por enquanto, condições.

Há quem pense que se renovam as condições que democratizaram os militares de Abril e que se repetiria a madrugada onde floriram cravos nos canos das espingardas!

Se, por um acaso da História, a União Europeia se desagregar, os países que possuíram longas ditaduras estarão na vanguarda de novas aventuras totalitárias. Não é preciso ser profeta para sentir as pulsões despóticas que a raiva e o desejo de vingança inspiram.

Espero que quem conhece a História da Europa reflita com prudência no momento atual e não se precipite em apelos demagógicos que, sob a capa da utopia, contribui para uma nova e devastadora ditadura.

Portugal não é um país com sólidas tradições democráticas. Para o golpe reacionário já basta a lenta agonia dos direitos, liberdades e garantias.