quinta-feira, janeiro 30, 2014

A Lourinhã e o Carnaval trapalhão numa zona de tradições folionas (Crónica)

Quando cheguei à Lourinhã, no dia 1 de outubro de 1963, hospedei-me no Restaurante Moderno, uma pensão excelente onde a D. Elvira me acolheu com um desvelo que, a esta distância, ainda me enternece. Pagava 750$00 mensais pela pensão completa, dos 1753$00 líquidos que recebia, incluída a gratificação de 141$00, de delegado escolar.

Fui recebido com cordialidade e muitos queriam conhecer o jovem professor de 20 anos que acabava de chegar a um concelho onde, no ensino primário, só havia professoras.

O padre Escudeiro, diretor do Externato D. Lourenço, propriedade da diocese de Lisboa, rejubilou quando, a uma pergunta sua, lhe disse que era beirão, o que o levou a gabar os beirões, muito devotos. Tendo-lhe dito que eu não era, logo assumiu que, pelo menos, era boa pessoa. Tivemos uma boa relação que o azedume pelo meu anticlericalismo não quebrou.

A notária ofereceu logo a sua bicicleta para eu me deslocar à praia da Areia Branca, a três km de distância. A Manuela Leal que em miúda gozava férias na Guarda, com os tios e a prima, meus vizinhos, era minha amiga desde os dez anos. Apresentou-me à família e ao namorado, aluno do ISCEF, o Carlos Carvalhas, que viria a ser seu marido e pai dos dois filhos, governante e secretário-geral do PCP.

O barbeiro, o proprietário do café Belmar, os magistrados, conservadores, advogados e o dono da papelaria, além das colegas, passaram a fazer parte das minhas relações a que, em breve, não faltavam funcionários do tribunal, das finanças, do município e o próprio presidente da Câmara. O Café Belmar, único e asseado, era ponto de encontro de todos.

Para quem vinha da Guarda e da Covilhã era estranho ver mulheres a pedalar bicicletas, aventura que a orografia das faldas da serra da Estrela não permitia. Que jeito me deu a bicicleta da Dr.ª Filomena!

Os padres é que eram iguais aos da Guarda e Covilhã. Já não me recordo se exibiam a tonsura, aquele zero na cabeça, como lhe chamava Junqueiro, mas usavam ainda batina e o colar muito branco que parecia um cincho daqueles que extraíam o soro aos queijos artesanais. A pensar, eram iguais. O pe. Abílio, a quem eu elogiava João XXIII, porque o irritava, acabou a desabafar que era bom para os comunistas. Tinha um beiço rachado, atribuído a acidente. Eram todos reacionários para desgosto da Dr.ª Filomena, ex-dirigente da JUC, incomodada com o espírito troglodita dos párocos locais, incluindo o padre Escudeiro, o Sr. Vigário, responsável pela vigararia da Lourinhã e pelo Externato.

Não me parecia que fossem muitos os crentes ou muito crentes, antes da epidemia dos cursos de cristandade – cursilhos –, aposta do proselitismo extremista do Opus Dei, com lavagens rápidas e eficazes ao cérebro, feitas aos fins de semana na Foz do Arelho. Soube que a piedade exaltada com que soltavam os neófitos, se devia a confidências íntimas, feitas em descontrole emotivo estimulado, perante os “irmãos”, e que deixavam as vítimas dependentes dos padres e dos “irmãos” da fé e dos cursilhos.

O Dr. Pita, veterinário, apesar de salazarista fogoso e dirigente da União Nacional, era um anticlerical furioso que desabafava comigo, dizendo que a igreja paroquial dava uma bela garagem que pouparia os automóveis à corrosão e ao aquecimento do sol intenso.

O Carnaval era uma festa trapalhona em que máscaras e roupas velhas eram a diversão modesta entre os festejos delirantes de Peniche e Torres Vedras. Fiquei siderado quando vi, pela primeira vez, o Sr. Mariano Vicente, figura popular e honrado guarda-livros, o substituto do delegado do Ministério Público, porque a notária, sendo mulher, não podia assumir tão nobres funções, vestido de espanhola, com lábios pintados, cabeleira postiça e um vestido de balzaquiana decadente. Jovens e adultos espaireciam a atirar papelinhos e serpentinas por trás de máscaras que lhes ocultavam o rosto e com velhos fatos que os disfarçavam. Foliavam com desconhecidos e amigos que tentavam adivinhar quem eram o/as mascarado/as. Raramente se descobria quando a cara estava oculta.

Apenas uma pessoa desmascarava as embuçadas. E só “as” embuçadas. Era o sobrinho do Sr. Vigário, o jovem padre Manuel que chegara recentemente à paróquia para coadjuvar o tio no múnus e repartir os terços, missas e confissões, enquanto o tio se dedicava mais à administração do Externato D. Lourenço, propriedade do patriarcado.

O padre Manuel era excelente observador, caraterística que seria demonstrada no Carnaval. Conhecia todas as mascaradas que lhe virassem as costas. Numa altura em que a moda feminina era mais próxima dos desejos da Irmã Lúcia do que da criatividade sofisticada da estilista Mary Quant, as calças e saias não realçavam os glúteos, mas a anatomia não escapava ao escrutínio do jovem padre que, assim, descobria as mascaradas.

Havia de ter um acidente que o deixou tão politraumatizado que nem para dizer missa serviu, durante meses, fosse porque quaisquer glúteos o distraíram ou porque a curva da estrada não lhe mereceu tão desvelada atenção como as curvas dos corpos femininos.

Ponte Europa / Sorumbático