sábado, janeiro 25, 2014

O Panteão e o sentido de Estado

Este não é o meu Panteão e deixará de ser nacional para se tornar um albergue espanhol para defuntos de estimação.

Quanto aos escritores, faltando grandes vultos, sendo os mais gritantes os de Saramago e Pessoa, nada há a objetar. O general Humberto Delgado, presidente a quem a ditadura falsificou os resultados eleitorais, e depois assassinou, é racional. Manuel de Arriaga era inevitável, assim como Teófilo Braga.

Carmona e Sidónio Pais eram dois ditadores embora o segundo não repugne tanto por ter sido assassinado no exercício de funções. Não me repugnaria que Sá Carneiro, por idêntica razão, com a vantagem de ser democrata, ali fosse parar.

Os heróis do 5 de Outubro continuam falhas graves e os do 25 de Abril, a seu tempo, não poderiam ser esquecidos, mas abriu-se o precedente grave com Amália Rodrigues. Foi a melhor voz do tempo de todos nós, mas Maria Callas, Édith Piaf ou Pavarotti não foram nem serão ‘panteonizados’ nos seus países.

Eusébio foi um exemplo de popularidade e um catalisador de emoções mas os critérios de Estado não podem ceder a emoções populares e à contabilidade partidária.

Há dias, o Bispo de Beja, António Vitalino Dantas, manifestou vontade de que o corpo da Irmã Lúcia saísse da companhia dos primos pastorinhos e ir para o Panteão. Ainda não fez os dois milagres, já adjudicados, faltando-lhe defunção suficiente para se tornar beata, quanto mais santa, e já um bispo gostaria de a ver no Panteão.

Depois do Fado e do Futebol falta-nos, de facto, reverenciar Fátima para que os três FFs nos restituam o passado e se aprove ‘panteonizar’ Salazar a quem não é difícil atribuir o merecido F.

Podem pôr a imagem da Irmã Lúcia em cada igreja, uma estátua de Eusébio em todas as rotundas, a de Amália em cada nicho à beira dos caminhos, mas evitem ao país a insânia de quem ignorava que havia Panteão e julga que é o Panteão que dignifica os defuntos e não o contrário.


2 Comments:

At sábado jan 25, 12:36:00 da tarde, Blogger e-pá! said...

O Panteão Nacional parece ter encetado uma rota de destruição por via de uma desvairada banalização, quando não da sua perversão, dado que parece irremediavelmente influenciado por questões que pouco têm a ver com aquilo que julgo ser espírito original e vernáculo desse local erguido para o repouso de: ..."aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando"... .
Não me admiraria se, num futuro próximo, alguns familiares e legítimos herdeiros dos (já)' panteomizados', venham a exigir a sua remoção desse espaço público e pensem em '(re)sepultar' os seus maiores em local mais pacífico, i.e., digno e menos controverso.
Na verdade, a transladação de notáveis para este 'altar (leigo) da Pátria' deveria responder a uma questão simples e directa:
- Daqui a meio século (p. exº) o que terá para dizer um(a) educador(a) aos seus pupilos [filhos(as)] sobre o 'vulto' e a 'obra' dos cidadãos que aí foram postos em 'venerável' repouso ?

 
At sábado jan 25, 03:38:00 da tarde, Blogger septuagenário said...

Todas as figuras do Estado Novo mereciam um panteão próprio.

O Estado Novo, só foi o que foi pela exposição e projecção que teve atravez de figuras como Eusébio e Amália até Álvaro Cunhal e Galvão.

E quando um capitão do exército como Salgueiro Maia que viveu a guerra da Guiné é indicado por Manuel Alegre porque prendeu Marcelo Caetano, toda a gente que se juntou no Largo do Carmo a Salgueiro Maia,também devia ir para o Panteão.

E todos os os oficiais que desertaram ou propagandearam a luta anti-salazarista como ele Alegre, também deviam ter um lugar nesse panteão.

Até Marcelo Caetano, juntamente com os Generais que o aguentaram de 1968 até 1974 (Spínola e Costa Gomes) deviam ter um lugar nesse panteão.

Faça-se um grande Panteão do Estado Novo, sem Salazar, porque afinal este parece ser a figura mais apagada de toda aquela época.

 

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