sexta-feira, janeiro 31, 2014

UCRÂNIA: enigmas…


Nos últimos tempos a situação na Ucrânia parece ter caído num impasse. A mais recente notícia diz respeito à intromissão dos militares na instável situação política com um apelo à intervenção do contestado presidente Viktor Ianukovitch para “tomar  medidas de emergência, no âmbito da actual legislação, para estabilizar a  situação no país”.

Uma linguagem de caserna sobejamente conhecida pelo facto de ser, muitas vezes, o prenúncio de ‘soluções bélicas’, um expedito caminho para soluções ditatoriais.

 Da sandwich criada internamente num país heterogéneo e dividido à volta de uma dicotómica disputa sobre o lado que em que poderá ser estabelecida a ‘dependência’, i. e., se a alienação deverá ser feita em favor da Rússia ou da UE, restará pouca margem de manobra.

Neste momento, o espaço político favorece todo o tipo de nacionalismos e poderá interessar explorar sentimentos ‘patrióticos’ (Ucrânia também significa ‘pátria’) para lançar a população contra a Rússia, confundindo a actual situação com velhas contas ainda por ajustar desde os tempos da ex-URSS, nomeadamente as que resultaram da aplicação dos planos quinquenais de Stalin que, nos anos 20 e 30, enfureceram e dizimaram massivamente os camponeses ucranianos. O campesinato rural combatia a ‘coletivização forçada’ e criaram um histórico 'parti-pris' que passou pela aniquilação dos ‘kulaks’.
No início dos anos 30 a Ucrânia viveu com uma intensidade desmedida e inaudita violência um ciclo de fome, acompanhado de uma gigantesca repressão policial que, segundo alguns historiadores, terá provocado entre os ucranianos cerca de 5 milhões de mortos (entre famintos, deportados, torturados e prisioneiros).
Este um passado remoto mas ainda muito próximo dos ucranianos que continua a marcar um povo que  sucessivamente foi conquistado por polacos, russos e austríacos e só recentemente (com o fim da ‘guerra fria’) chegou à independência. Uma longa história que viria a conhecer novos capítulos na II Guerra Mundial. Passemos à frente.

Hoje, após a implosão da ex-URSS a Ucrânia tornou-se um país que formalmente ganhou a independência mas pouco conseguiu no campo da coesão nacional. Assim, a Leste temos uma população de origem russa (exprime-se em russo), urbana e ortodoxa e a Ocidente rural, católica e pobre (e que fala ucraniano). Estão aqui presentes as sementes para proliferar todos os tipos de nacionalismo (dos moderados aos ultras) que, de algum modo, se mostram politicamente incoerentes com protestos de independência e desejos de emancipação quer perante Moscovo ou em relação a Bruxelas.

Os últimos desenvolvimentos de Kiev mostram que as ‘forças nacionalistas’ mantêm-se na vanguarda da contestação e ocupam a praça da Independência  bem como alguns ministérios e edifícios públicos configurando a situação da queda do poder na rua.

Assim, o enigma é conhecermos muito pouco acerca das reais intenções daquilo que designamos como uma vasta e heterogénea ‘oposição nacionalista’ e se o dramático encaminhamento para uma guerra civil não poderá ser um mero instrumento político (ao serviço desses nacionalismos exacerbados) …