sexta-feira, janeiro 31, 2014

UCRÂNIA: enigmas…


Nos últimos tempos a situação na Ucrânia parece ter caído num impasse. A mais recente notícia diz respeito à intromissão dos militares na instável situação política com um apelo à intervenção do contestado presidente Viktor Ianukovitch para “tomar  medidas de emergência, no âmbito da actual legislação, para estabilizar a  situação no país”.

Uma linguagem de caserna sobejamente conhecida pelo facto de ser, muitas vezes, o prenúncio de ‘soluções bélicas’, um expedito caminho para soluções ditatoriais.

 Da sandwich criada internamente num país heterogéneo e dividido à volta de uma dicotómica disputa sobre o lado que em que poderá ser estabelecida a ‘dependência’, i. e., se a alienação deverá ser feita em favor da Rússia ou da UE, restará pouca margem de manobra.

Neste momento, o espaço político favorece todo o tipo de nacionalismos e poderá interessar explorar sentimentos ‘patrióticos’ (Ucrânia também significa ‘pátria’) para lançar a população contra a Rússia, confundindo a actual situação com velhas contas ainda por ajustar desde os tempos da ex-URSS, nomeadamente as que resultaram da aplicação dos planos quinquenais de Stalin que, nos anos 20 e 30, enfureceram e dizimaram massivamente os camponeses ucranianos. O campesinato rural combatia a ‘coletivização forçada’ e criaram um histórico 'parti-pris' que passou pela aniquilação dos ‘kulaks’.
No início dos anos 30 a Ucrânia viveu com uma intensidade desmedida e inaudita violência um ciclo de fome, acompanhado de uma gigantesca repressão policial que, segundo alguns historiadores, terá provocado entre os ucranianos cerca de 5 milhões de mortos (entre famintos, deportados, torturados e prisioneiros).
Este um passado remoto mas ainda muito próximo dos ucranianos que continua a marcar um povo que  sucessivamente foi conquistado por polacos, russos e austríacos e só recentemente (com o fim da ‘guerra fria’) chegou à independência. Uma longa história que viria a conhecer novos capítulos na II Guerra Mundial. Passemos à frente.

Hoje, após a implosão da ex-URSS a Ucrânia tornou-se um país que formalmente ganhou a independência mas pouco conseguiu no campo da coesão nacional. Assim, a Leste temos uma população de origem russa (exprime-se em russo), urbana e ortodoxa e a Ocidente rural, católica e pobre (e que fala ucraniano). Estão aqui presentes as sementes para proliferar todos os tipos de nacionalismo (dos moderados aos ultras) que, de algum modo, se mostram politicamente incoerentes com protestos de independência e desejos de emancipação quer perante Moscovo ou em relação a Bruxelas.

Os últimos desenvolvimentos de Kiev mostram que as ‘forças nacionalistas’ mantêm-se na vanguarda da contestação e ocupam a praça da Independência  bem como alguns ministérios e edifícios públicos configurando a situação da queda do poder na rua.

Assim, o enigma é conhecermos muito pouco acerca das reais intenções daquilo que designamos como uma vasta e heterogénea ‘oposição nacionalista’ e se o dramático encaminhamento para uma guerra civil não poderá ser um mero instrumento político (ao serviço desses nacionalismos exacerbados) …
 

quinta-feira, janeiro 30, 2014

As praxes e as praxes violentas

Aventar
Se as pessoa pensassem como se opuseram os fazendeiros à abolição do esclavagismo, não estranhariam tanto a defesa das praxes.

Se soubessem como o Antigo Testamento defende que se tomem os estrangeiros como escravos e o pai possa vender as filhas (não os filhos), não se surpreenderiam que tantos se envolvessem na defesa dessas tradições.

Se se lembrassem como os muçulmanos defendem o direito de posse sobre as mulheres, não se admirariam dos suicidas que combatem essa heresia da igualdade de género.

Agostinho de Hipona, conhecido por Santo Agostinho, argumentava que se a tortura era adequada para aqueles que violavam as leis dos homens, era-o ainda mais para aqueles que violavam a lei de Deus. Foi difícil erradicá-la dos códigos penais e ainda se pratica.

A tradição, por mais estúpida e cruel, por mais recente e ignóbil, tem, só por si, o valor que a inércia intelectual lhe confere.

Associações de estudantes, partidos políticos de direita e até nostálgicos da juventude, alguns de ótima formação, defendem que as praxes violentas devem ser proibidas, uma forma enviesada de aceitar as menos violentas, a autoridade sem escrutínio e o poder arbitrário de estudantes mais velhos e cábulas militantes.

Pensemos numa associação de carteiristas, em atividade extra escolar de uma qualquer madraça. Confrontada com um sócio que, para roubar 5 euros à velhota que seguia no metropolitano, lhe furou as tripas com a naifa de ponta e mola, defenderia a proibição da violência na atividade. O que ele nunca aceitaria era o fim do direito à extorsão.

Na praxe académica não está em causa uma questão de grau, está em causa a liberdade e a dignidade, incluindo os que renunciam voluntariamente a elas, e a ilicitude de quem não tem outro argumento para além da tradição.

A tortura sem magoar muito, a humilhação que não violente demasiado, a agressão que não aleije, não são toleráveis, são meros subterfúgios para manter os mesmos males que a sociedade de classes macaqueia pedagogicamente nas escolas para se perpetuar.

A moderação das praxes lembra a entrada das tropas do general Moscardó, em Toledo. O capelão que as assistia, gritou com alvoroço aos soldados, «matai, matai, irmãos…» e, lembrando-se de que ficava mal à sua condição, acrescentou «…mas, com piedade».

A moderação não legitima a iniquidade.

Factos e documentos


A Lourinhã e o Carnaval trapalhão numa zona de tradições folionas (Crónica)

Quando cheguei à Lourinhã, no dia 1 de outubro de 1963, hospedei-me no Restaurante Moderno, uma pensão excelente onde a D. Elvira me acolheu com um desvelo que, a esta distância, ainda me enternece. Pagava 750$00 mensais pela pensão completa, dos 1753$00 líquidos que recebia, incluída a gratificação de 141$00, de delegado escolar.

Fui recebido com cordialidade e muitos queriam conhecer o jovem professor de 20 anos que acabava de chegar a um concelho onde, no ensino primário, só havia professoras.

O padre Escudeiro, diretor do Externato D. Lourenço, propriedade da diocese de Lisboa, rejubilou quando, a uma pergunta sua, lhe disse que era beirão, o que o levou a gabar os beirões, muito devotos. Tendo-lhe dito que eu não era, logo assumiu que, pelo menos, era boa pessoa. Tivemos uma boa relação que o azedume pelo meu anticlericalismo não quebrou.

A notária ofereceu logo a sua bicicleta para eu me deslocar à praia da Areia Branca, a três km de distância. A Manuela Leal que em miúda gozava férias na Guarda, com os tios e a prima, meus vizinhos, era minha amiga desde os dez anos. Apresentou-me à família e ao namorado, aluno do ISCEF, o Carlos Carvalhas, que viria a ser seu marido e pai dos dois filhos, governante e secretário-geral do PCP.

O barbeiro, o proprietário do café Belmar, os magistrados, conservadores, advogados e o dono da papelaria, além das colegas, passaram a fazer parte das minhas relações a que, em breve, não faltavam funcionários do tribunal, das finanças, do município e o próprio presidente da Câmara. O Café Belmar, único e asseado, era ponto de encontro de todos.

Para quem vinha da Guarda e da Covilhã era estranho ver mulheres a pedalar bicicletas, aventura que a orografia das faldas da serra da Estrela não permitia. Que jeito me deu a bicicleta da Dr.ª Filomena!

Os padres é que eram iguais aos da Guarda e Covilhã. Já não me recordo se exibiam a tonsura, aquele zero na cabeça, como lhe chamava Junqueiro, mas usavam ainda batina e o colar muito branco que parecia um cincho daqueles que extraíam o soro aos queijos artesanais. A pensar, eram iguais. O pe. Abílio, a quem eu elogiava João XXIII, porque o irritava, acabou a desabafar que era bom para os comunistas. Tinha um beiço rachado, atribuído a acidente. Eram todos reacionários para desgosto da Dr.ª Filomena, ex-dirigente da JUC, incomodada com o espírito troglodita dos párocos locais, incluindo o padre Escudeiro, o Sr. Vigário, responsável pela vigararia da Lourinhã e pelo Externato.

Não me parecia que fossem muitos os crentes ou muito crentes, antes da epidemia dos cursos de cristandade – cursilhos –, aposta do proselitismo extremista do Opus Dei, com lavagens rápidas e eficazes ao cérebro, feitas aos fins de semana na Foz do Arelho. Soube que a piedade exaltada com que soltavam os neófitos, se devia a confidências íntimas, feitas em descontrole emotivo estimulado, perante os “irmãos”, e que deixavam as vítimas dependentes dos padres e dos “irmãos” da fé e dos cursilhos.

O Dr. Pita, veterinário, apesar de salazarista fogoso e dirigente da União Nacional, era um anticlerical furioso que desabafava comigo, dizendo que a igreja paroquial dava uma bela garagem que pouparia os automóveis à corrosão e ao aquecimento do sol intenso.

O Carnaval era uma festa trapalhona em que máscaras e roupas velhas eram a diversão modesta entre os festejos delirantes de Peniche e Torres Vedras. Fiquei siderado quando vi, pela primeira vez, o Sr. Mariano Vicente, figura popular e honrado guarda-livros, o substituto do delegado do Ministério Público, porque a notária, sendo mulher, não podia assumir tão nobres funções, vestido de espanhola, com lábios pintados, cabeleira postiça e um vestido de balzaquiana decadente. Jovens e adultos espaireciam a atirar papelinhos e serpentinas por trás de máscaras que lhes ocultavam o rosto e com velhos fatos que os disfarçavam. Foliavam com desconhecidos e amigos que tentavam adivinhar quem eram o/as mascarado/as. Raramente se descobria quando a cara estava oculta.

Apenas uma pessoa desmascarava as embuçadas. E só “as” embuçadas. Era o sobrinho do Sr. Vigário, o jovem padre Manuel que chegara recentemente à paróquia para coadjuvar o tio no múnus e repartir os terços, missas e confissões, enquanto o tio se dedicava mais à administração do Externato D. Lourenço, propriedade do patriarcado.

O padre Manuel era excelente observador, caraterística que seria demonstrada no Carnaval. Conhecia todas as mascaradas que lhe virassem as costas. Numa altura em que a moda feminina era mais próxima dos desejos da Irmã Lúcia do que da criatividade sofisticada da estilista Mary Quant, as calças e saias não realçavam os glúteos, mas a anatomia não escapava ao escrutínio do jovem padre que, assim, descobria as mascaradas.

Havia de ter um acidente que o deixou tão politraumatizado que nem para dizer missa serviu, durante meses, fosse porque quaisquer glúteos o distraíram ou porque a curva da estrada não lhe mereceu tão desvelada atenção como as curvas dos corpos femininos.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 29, 2014

Os tribunais plenários e a impunidade – Não Apaguem a Memória

Acabada a guerra que destruiu as ambições de Hitler e Mussolini, entenderam os aliados que as ditaduras fascistas da Península Ibérica podiam continuar como reserva ecológica dos sistemas totalitários. A Inglaterra garantira acabar com ditaduras mas a necessidade de reconstrução esqueceu a promessa.

A Península Ibérica manteve um dos maiores genocidas da História, Francisco Franco, apoiado pelo clero com  a bênção do Vaticano, até morrer bem ungido e comungado. Em Portugal, a tirania não atingiu a dimensão espanhola mas teve todos os ingredientes e os mesmos apoios. A tortura, o assassinato, a denúncia, o degredo, a violação da correspondência, a prisão sem culpa formada, a censura dos livros e jornais, a invasão domiciliar, a demissão dos opositores, tudo isso se praticou, mas em menor escala.

Para fingir legalidade a Pide tinha uma secção denominada Tribunais Plenários onde os pides julgadores eram juízes de carreira e de cujas sentenças havia recurso para a secção criminal do Supremo Tribunal de Justiça que só apreciava «questões de Direito» e onde, não raro, os cinco juízes escolhidos pelo ministro da Justiça, agravaram penas, a ponto de fazerem desistir os advogados dos presos políticos.

Os Tribunais Plenários não se destinavam a julgar, eram meros antros de canalhas que se limitavam a homologar decisões policiais promovidas à categoria de sentenças. Ser advogado de um preso político era um ato de coragem, praticado pro bono, e promotor de cadastro nas alfurjas da Pide.

Ontem foram homenageados os 162 advogados que ao longo de 48 anos defenderam os resistentes da ditadura. Muitos deles pagaram ainda as custas dos processos em que participavam gratuitamente, com pouco êxito, enorme empenho e alguns riscos.

Conheci alguns desses advogados, soube por eles que os presos que denunciavam as torturas de que tinham sido vítimas, em plena sala de audiências, eram agredidos pelos pides, enquanto o juiz fingia consultar os processos para desviar o olhar.

Ontem fez-se justiça aos advogados que foram exemplo de cidadania, muitos anónimos, todos irmanados na defesa dos direitos, na coragem e na abnegação, enfim, na luta pela democracia.

O movimento Não Apaguem a Memória fez justiça aos advogados que combateram pela liberdade, na defesa dos que dela foram privados.

Para quando o julgamento dos juízes crapulosos que se prestaram à farsa das audiências onde o simulacro da justiça precedia as sentenças que devolviam ao cárcere e às sevícias os combatentes antifascistas, tantas vezes com medidas de segurança indefinidamente prorrogáveis que podiam transformar em perpétua a prisão?

É preciso saber o nome de todos os defuntos Florindos dos Tribunais Plenário, de todos os serventuários de toga e de quem os protegeu de um julgamento com as garantias que eles negaram. As famílias das vítimas merecem saber os nomes dos carrascos.

Não Apaguem a Memória.

O sangue de João Paulo II, a publicidade e a santidade

Os jornais anunciam o roubo «de valor incalculável» de uma relíquia. A polícia italiana lançou uma formidável operação, com a ajuda de cães treinados, para encontrar o frasco roubado com sangue de João Paulo II, com uma cruz de um igreja medieval.

Só há, em todo o mundo, três frascos com sangue de João Paulo II, papa a canonizar em abril, momento em que a raridade da relíquia atingirá valores incalculáveis. A imprensa é omissa quanto ao treino dos cães que ajudam a polícia, sem dizer se foram adestrados a descobrir frascos, sangue ou cruzes. De qualquer modo espera-se que uma relíquia tão valiosa seja recuperada das mãos dos ladrões. Há outros que precisam dela para as rotas do turismo pio junto de um amplo recipiente para o óbolo. E não correm riscos.

Que morbidez é essa que faz sangrar um papa para alimentar o mercado das relíquias? Se a moleza da fé embota a razão, por que motivo não lhe tiraram uma dose maior para baixar o preço? Na bolsa da fé, como na de outros valores, a escassez  está na base da subida dos preços mas, tratando-se de um bem intangível, a canonização não é alheia à valorização da relíquia.

João Paulo II teve como profissão e estado civil a santidade em vida. Quanto à bondade, dividem-se as opiniões. Em relação ao negócio sinto uma verdadeira repugnância, pela exploração de um órgão do morto e fico a pensar, no meu pensamento de incréu, quanto valerão as vísceras e outros órgãos se, à semelhança do sangue, lhos furtaram à sorrelfa para alimentarem o devoção necrófila dos que julgam que a visita a uma relíquia conduz o peregrino ao Paraíso.

É preciso acreditar muito na santidade e duvidar ainda mais da inteligência.

Os independentes e a Câmara do Porto

A renúncia de Daniel Bessa à presidência da Assembleia Municipal do Porto constitui um grave revés para a euforia que a vitória do independente Rui Moreira, recusado pelo PSD, constituiu.

Podíamos estar agora a condenar um partido ou coligação pelo comportamento de um elenco que teve como principal desígnio a derrota dos partidos sob o pretexto do amor à cidade do Porto. Assim, estamos sem culpados. Os independentes não têm pecados nem contas a prestar.

Rui Rio, padrinho de Rui Moreira, parecia ser o avalista do albergue espanhol. É natural que se remeta ao silêncio sobre o município onde deixou o sucessor designado a ajudar  a sua promoção política.

O princípio do fim de uma miragem atingiu em cheio a Câmara do Porto. Pela primeira vez não esteve presente ninguém da mesa da assembleia municipal do Porto numa conferência de líderes. O que parecia uma plêiade de autarcas resume-se à mão cheia de nada.

O PS embarcou na coligação com a bênção de Seguro. Espero que levem o barco até ao fim do mandato.


terça-feira, janeiro 28, 2014

28 de janeiro – efemérides

1908 – Foram presos os republicanos Afonso Costa, Egas Moniz, João Chagas e António José de Almeida, e o chefe da Carbonária, Luz de Almeida. O regicídio veio quatro dias depois. Diz-se que a rainha D. Amélia, quando o ditador João Franco falava do que os regicidas fizeram, terá dito: «o que você fez». As ditaduras só terminam pela violência e a ditadura de João Franco teve a conivência de D. Carlos.

1924 – Morre Teófilo Braga, escritor, político, filólogo, professor, literato, militante republicano, primeiro presidente do Governo Provisório da I República e segundo Presidente da República Portuguesa.

1935 – A Islândia despenaliza o aborto. Foi o primeiro país do mundo a recusar a aplicação de penas sobre a IVG. Portugal demoraria ainda quase meio século para a primeira e tímida lei, com os votos contra do PSD e do CDS, salvo honrosas exceções.


Recordando a notável jornalista Oriana Fallaci

Em 2005, um juiz italiano pretendeu julgar Oriana Fallaci, notável jornalista, que vivia então em Nona York, por difamação do Islão, para gáudio dos islamitas, em geral, e dos mullahs, em  particular.

O juiz acusou o seu livro «A força da razão», de 2004, de incitamento ao ódio religioso pois a autora escreveu que o islão «semeia o ódio no lugar do amor e escravidão no lugar da liberdade».

O juiz António Grasso, de Bérgamo, considerou que algumas palavras da jornalista eram «sem dúvida ofensivas para o islão e para os que praticam essa fé».

O juiz tinha razão. Eu, que li o livro, apurei que Oriana Fallaci ofendeu o Islão. Conta a forma demente como a mulher é tratada nos países islâmicos, fala do ódio que o Corão prega, reproduz os abjetos preceitos e corrobora tudo o que sabemos sobre o desprezo do islão pelas liberdades essenciais e pelos direitos sagrados da democracia.

Porventura o islão não ofende a razão e a liberdade? Os clérigos muçulmanos aceitam renunciar à pena de morte em relação à apostasia, à blasfémia e ao adultério? Admite o islão o direito à liberdade e à democracia? Não é, por acaso, o Corão o instrumento do ódio aos infiéis, da repressão das mulheres e da alienação dos crentes?

A simples tentativa de julgar quem denuncia a iniquidade de forma vigorosa foi um atentado à liberdade, a perversão da democracia e um atentado contra a civilização.

O multiculturalismo, desejável  e louvável, tem de terminar onde começam os direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Proceder de outra forma é regressar à barbárie, expor a democracia à demência teocrática, substituir o sistema representativo, saído de eleições livres, pelas determinações dos livros sagrados. É, em suma, substituir os defeitos dos homens pela loucura de Deus.

Infelizmente, Oriana Fallaci viria a falecer em setembro de 2006, antes de ser julgada. Poupou ao juiz uma iniquidade e à Europa a urgência de escrutinar as leis religiosas com a mesma severidade com que aprecia os programas partidários.


segunda-feira, janeiro 27, 2014

As praxes e a tradição

As associações de estudantes estão contra o fim das praxes, tal como os carteiristas, se lhes dessem guarida mediática, estariam contra a proibição de assaltos. Foram precisas várias mortes, no que pareceu ser um ritual iniciático de acesso ao sinédrio das praxes, para que a opinião pública e a comunicação social lhes dessem a merecida atenção e a inexorável reprovação.

As autoridades académicas e policiais devem estar à altura da tragédia que matou jovens na praia do Meco. Só a dimensão foi maior do que acontece anualmente e mais débil a cumplicidade que afastou do espaço mediático graves incidentes de outros anos.  

Em primeiro lugar ninguém pode ser juiz em causa própria. As praxes não podem ser uma reminiscência do foro académico que, por razões de classe, tornava inimputáveis os estudantes. Não podem eximir-se ao escrutínio da opinião pública, à ação da polícia e ao veredito dos tribunais.

Quem viu as cenas da RTP, filmadas com autorização de vítimas e algozes, em cenas de uma degradação e baixeza moral, que indignariam o mais boçal dos marginais, não pode remeter-se ao silêncio e pactuar com a manutenção de tradições de refinada degradação ética, cívica e social.

Não foi por acaso que o salazarismo acolheu as praxes. Eram escolas de quadros servis que exoneravam a honra e promoviam a obediência. Depois do 25 de Abril, quando os ideais galvanizaram a juventude, pareciam condenadas ao sumiço como um arcaísmo deprimente. Ressurgiram com o regresso da velha direita ao poder e agravaram-se com a entrega do ensino superior à especulação comercial.

O mais alto dirigente académico, da mais antiga universidade portuguesa, presidente da direção-geral da Associação Académica «acredita que deve haver regulação para não haver abusos» e nem sequer admite a eventual extinção.  Pelo contrário, acha «difícil impor limites a uma coisa que já tem séculos de tradição». É destas cabeças que saem os futuros governantes, que não desmerecerão os atuais.

Uma tradição pode ser boa ou má mas, justificar o que quer que seja com a tradição não é de um universitário, é de um mentecapto. É de quem não sabe e jamais pensou que a escravatura, a pena de morte, a tortura e todas as ignomínias já foram e continuam a ser uma tradição que urge erradicar.

Eles não sabem nem sonham que, cada vez que alguém se deixa aviltar, planta em si os germes que hão de florescer em futuras humilhações, com que se vingam.


Carlos Silva e Aníbal Silva

Carlos Silva, secretário-geral da UGT está para os sindicatos como Passos Coelho para o Governo ou Cavaco Silva para a presidência da República: são erros de casting.

No caso do sindicalismo é menos grave, porque a natureza tem horror ao vazio, mas na política a situação é dramática, porque a Constituição impõe prazos.

Cavaco passou à tangente a fasquia dos 50% dos votos expressos, a revelar o receio dos eleitores, mas Carlos Silva foi eleito com 89% dos votos. O primeiro é responsável pelo estado a que o país chegou. O líder da UGT limita-se a presidir à comissão liquidatária da central sindical que vai fazendo haraquíri.

domingo, janeiro 26, 2014

PRAXE: ‘Morte que mataste lira’…


Apraxe’ entrou na ordem do dia. Não querendo fazer a história desta recorrente ‘tradição académica’ (chamemos-lhe assim), são incontornáveis as questões que estas ‘cerimónias’ levantam e que se agudizaram nos dias que correm. Um importante relatório da AR publicado em 2008 (Comissão Parlamentar de Educação e Ciência) ganhou foros de relevante actualidade e merece ser revisitado. 

Deixemo-nos de subterfúgios. A ‘praxe’ tal como é possível observar à luz de uma percepção sociológica moderna não assenta nem representa qualquer tipo de ‘integração’ dos novos alunos do ensino superior na instituição universitária e, mais concretamente, nesta fase da vida académica. Se essa fosse a sua intenção a oportunidade seria outra e ocorreria na entrada para ensino preparatório e/ou secundário. Porque na realidade e em termos formais e abstractos será difícil distinguir [apenas circunscritos ao grau de ensino, à faixa etária, ou ‘tradicionais/históricas’ motivações] substanciais diferenças entre o ‘bullying’ e algumas das ‘praxes universitárias’ que, nos recentes dias, vamos conhecendo pelos órgãos de comunicação social.

Na verdade, os ‘rituais’ que incorporam estas práticas inscrevem-se no mais execrável elitismo social e exteriorizam a deformada percepção que um (cada vez mais restrito) grupo de privilegiados (‘casta’) tem sobre um país real a caminho de fracturantes desigualdades. Esta a ‘mercadoria’ que se vende aos cidadãos como sendo (de qualidade) ‘superior’. Se os contornos sociais e humanitários não fossem tão graves poderíamos abordá-la como sendo mais um caso de publicidade enganosa.
Finalmente, quando em 1969, em plena ditadura salazarista, organizações estudantis (e não académicas) ‘decretaram’, num contexto de ‘luto académico’ e de luta política, o fim das ‘praxes violentas’ mal sonhavam com o que – passado meio século - estaria para acontecer.
A história recente da 'praxe' fez-me recordar uma canção que ouvi algumas vezes na voz de Adriano:

Morte que mataste Lira,
Morte que mataste Lira,
Morte que mataste Lira,
Mata-me a mim, que sou teu! 
Morte que mataste lira
Mata-me a mim que sou teu 
Mata-me com os mesmos ferros
Com que a lira morreu 

A lira por ser ingrata
Tiranicamente morreu 
A morte a mim não me mata
Firme e constante sou eu 
Veio um pastor lá da serra
À minha porta bateu 
Veio me dar por notícia
Que a minha lira morreu…

A Tunísia, a Espanha e os preconceitos pios

A nova Constituição tunisina, salpicada com referências à religião, escrita em «nome de  Deus clemente e misericordioso», assusta quem conhece o deus autóctone e a identidade árabe-muçulmana de que se reclama. No entanto, é das mais avançadas e inovadoras do mundo árabe no que se refere aos direitos da mulher e à liberdade religiosa.

A aprovação, prevista para finais de 2012, só agora irá ter lugar, depois do compromisso difícil e das enormes tensões na discussão de 146 artigos da Lei Fundamental. Para já, é a única que assegura a igualdade entre homens e mulheres e a liberdade de consciência e de culto, em todo o mundo árabe. Esperemos que a consensualização entre islamitas, com maioria relativa, e laicos, abra uma janela de esperança aos direitos humanos e seja a flor que desabroche nos jardins da sonhada primavera árabe.

Em Espanha, o Opus Dei e o franquismo, unidos desde a guerra civil, tomaram o poder, ao colo do PP, e preparam a desforra com o rancor de décadas. Pretendem o regresso ao espírito de cruzada e aos paradigmas da aliança clerical-franquista.

A nova lei sobre a IVG só admite o aborto em casos de violação, até às 12 semanas, e, em risco de vida para a mulher, até às 22. Reunindo a mais refinada hipocrisia e a mais despudorada insensibilidade, até as más formações fetais exclui.

A interrupção voluntária da gravidez (IVG) é um problema de saúde pública. Em nome de valores, respeitáveis, há quem os queira impor a todos os outros. Há, no fundo, uma conceção totalitária e vocação inquisitória que revela a tradição misógina de contornos confessionais.

No futuro, em Espanha, nem um anencéfalo, incompatível com a vida, justificará a IVG. É preciso aniquilar a mãe até que a natureza expulse o feto. Os espanhóis, muitos do PP, pedem a Ruiz-Gallardón, ministro da Justiça, que retire a lei iníqua, beata e malévola.

Apostila – Nos EUA, o juiz do Texas, R.H. Wallace, ordenou ontem que fosse suspensa a vida artificial a uma texana em morte cerebral, com um feto inviável, atendendo o pedido da família que era recusado pelo hospital desde novembro, quando estava na 14.ª semana de gestação.

sábado, janeiro 25, 2014

A extrema benevolência de 20% dos telespetadores


O Panteão e o sentido de Estado

Este não é o meu Panteão e deixará de ser nacional para se tornar um albergue espanhol para defuntos de estimação.

Quanto aos escritores, faltando grandes vultos, sendo os mais gritantes os de Saramago e Pessoa, nada há a objetar. O general Humberto Delgado, presidente a quem a ditadura falsificou os resultados eleitorais, e depois assassinou, é racional. Manuel de Arriaga era inevitável, assim como Teófilo Braga.

Carmona e Sidónio Pais eram dois ditadores embora o segundo não repugne tanto por ter sido assassinado no exercício de funções. Não me repugnaria que Sá Carneiro, por idêntica razão, com a vantagem de ser democrata, ali fosse parar.

Os heróis do 5 de Outubro continuam falhas graves e os do 25 de Abril, a seu tempo, não poderiam ser esquecidos, mas abriu-se o precedente grave com Amália Rodrigues. Foi a melhor voz do tempo de todos nós, mas Maria Callas, Édith Piaf ou Pavarotti não foram nem serão ‘panteonizados’ nos seus países.

Eusébio foi um exemplo de popularidade e um catalisador de emoções mas os critérios de Estado não podem ceder a emoções populares e à contabilidade partidária.

Há dias, o Bispo de Beja, António Vitalino Dantas, manifestou vontade de que o corpo da Irmã Lúcia saísse da companhia dos primos pastorinhos e ir para o Panteão. Ainda não fez os dois milagres, já adjudicados, faltando-lhe defunção suficiente para se tornar beata, quanto mais santa, e já um bispo gostaria de a ver no Panteão.

Depois do Fado e do Futebol falta-nos, de facto, reverenciar Fátima para que os três FFs nos restituam o passado e se aprove ‘panteonizar’ Salazar a quem não é difícil atribuir o merecido F.

Podem pôr a imagem da Irmã Lúcia em cada igreja, uma estátua de Eusébio em todas as rotundas, a de Amália em cada nicho à beira dos caminhos, mas evitem ao país a insânia de quem ignorava que havia Panteão e julga que é o Panteão que dignifica os defuntos e não o contrário.


sexta-feira, janeiro 24, 2014

24 de janeiro

1984 – O Governo português aprova a proposta de lei para a despenalização do aborto.

Foi há 30 anos, quase dez depois do 25 de Abril, que pela primeira vez foi legalmente permitida a I.V.G. nos casos de violação, malformação do feto e perigo de vida da mãe.

Ainda andam por aí os que votaram contra e as pessoas que exibiam autocolantes, com frases terroristas, contra o avanço civilizacional que a lei consagrava. Um ato de saúde materna era encarado como crime por partidos onde se distinguiram honrosas exceções que a memória guarda.

Antes, houve tentativas falhadas, graças aos que invocavam a vontade de um deus que não lhes passou procuração. Há uma estranha maldição que nos remete para o preconceito atávico e a hipocrisia pia.


Deambulações do custe o que custar…


 Os resultados da execução orçamental de 2013 levantam muitas questões mas 3 delas pertinentes:

- O OE-2014 não foi ‘construído’ a partir de uma base errada (i.e. para chegar aos 4% de défice em 2014 o Governo não partiu de um défice de 5,5% em 2013)?

- Não terá este Governo um ‘comportamento desviante’ (nunca acertando no défice ora por defeito, ora por excesso, mas errando sempre)?


- Será necessário alguma outra prova além do défice obtido em 2013 para demonstrar que o Governo está apostado em ‘ir para além do troika’?

Glória a S. Josemaria Escrivá de Balaguer

Em 2002, João Paulo II, emigrante polaco residente no Vaticano, solteiro, de 82 anos de idade, papa de profissão e estado civil, cumpria a tarefa de criar bispos e cardeais e tinha a obsessão de fabricar beatos e santos. Pelava-se por milagres e honrava os autores com a elevação à santidade, sem prejuízo da fixação em Maria e a adoração por virgens que a idade e o múnus avivaram.

Mas os santos da igreja católica sugerem empregados acomodados. Fazem um milagre para chegarem a beatos, outro para serem promovidos ao posto seguinte e abandonam o ramo.

Quando são candidatos, praticam a intercessão que lhes rogam mas desistem da vocação milagreira logo que alcançam a santidade. Quando se julgavam esgotadas as vagas, João Paulo II rubricou alvarás de santo a largas centenas, criados em nítida concorrência com os anteriores. Alguns destes fecharam a porta, que é como quem diz, foram apeados das peanhas onde enegreciam com o fumo das velas, se enchiam de fungos com a humidade ou se deixavam corroer pelo caruncho.

Com séculos de pequenos e honestos milagres, habituados à pedinchice autóctone e às lamúrias, quase sempre ao serviço de modestas comunidades que atendiam nos limites do razoável, perderam a aura e a devoção, submersos no tropel de novos e afidalgados ícones com vocação mediática. Migraram para as sacristias, acumulando pó a um canto, a delir a pintura e o préstimo, a desgastar as vestes e o respeito, em santa resignação.

Na religião há uma tendência para o sector terciário. Arrotear a fé e pescar almas, são tarefas pouco gratificantes. Transacionar bulas para engolir carne à sexta-feira, vender indulgências, trocar santinhos, comercializar bênçãos, era negócio do passado. Então o que passou a dar foi o lucrativo setor milagreiro em franca ascensão. João Paulo II promoveu também jubileus, um sucesso garantido para escoar imagens do promotor e providenciar a divulgação dos promovidos.

Quanto custará hoje um dente de S. Josemaria, com certificado de origem? Há de valer uma fortuna, a avaliar pelo êxtase que o primeiro a ser exibido provocou aos peregrinos durante as exéquias de canonização. O mercado já devia estar sortido de relíquias, nada restando do novel taumaturgo para exumar.

Pudessem os piedosos colecionadores ter adivinhado o destino promissor post mortem desse servo de Deus e ter-lhe-iam recolhido em vida duas dezenas de unhas e trinta e dois dentes. E a perda irreparável da primeira dentição?! Quem sabe se a premonição materna não terá acautelado o primeiro incisivo transformando um desvelo num tesouro, através deste estranho processo alquímico – a canonização –, segredo transmitido aos sucessores de Pedro e usado em doses industriais pelos últimos pontífices?!.

Pudesse Teodorico Raposo ter deposto no regaço de D. Patrocínio uma relíquia de S. Josemaria, que nem sobrinho, nem tia, nem Eça sabiam que viria a existir, e a devota senhora ter-lhe-ia perdoado as relaxações a que o sangue inflamado do tartufo o induzia, embevecida pelos eflúvios celestes que dimanam da raiz do canino de um santo assim!
Tivesse a premonição dos membros do Opus Dei adivinhado a santidade do fundador, que grossos cabedais e a longevidade papal lograram, e teriam armazenado farto recheio de numerosos têxteis tingidos por flagelações ou impregnados de outros fluidos.

A onda de devassidão do clero amargurou o papa – que fez do celibato dogma e da castidade virtude obrigatória – sem que a providência o tenha poupado à divulgação de pedófilos que exornam as dioceses da Igreja romana, apesar do cuidado em escondê-los.

E um padre que não respeita uma criança não pouparia um anjo.

É, pois, necessário que floresçam santos como S. Josemaria cujas relíquias hão de servir de benzina para desencardir a alma dos que sucumbem às tentações da carne.

Glória a S. Josemaria Escrivá de Balaguer nas Alturas e o poder na Terra ao Opus Dei.

Apostila – Depois de canonizado, em 6 de outubro de 2002, S. Josemaria abandonou o ramo dos milagres e até hoje, mais de onze anos decorridos, não obrou novo prodígio.

quinta-feira, janeiro 23, 2014

ESTADO DE EMERGÊNCIA

O governo não se cansa de repetir que estamos em estado de emergência, com isso pretendendo justificar todos os seus crimes, as suas arbitrariedades, os seus atentados contra a Constituição (ah! Se não houvesse aquele maldito Tribunal Constitucional, que não quer obedecer à patroa Merkel…), os seus ataques ao povo português, particularmente aos trabalhadores e aos velhos reformados (ah!os reformados! Se se pudesse exterminá-los, como fez um antecessor da dita Merkel aos judeus…), as suas repetidas e aleivosas mentiras, etc.

 Ora Portugal está realmente em estado de emergência. Mas a verdadeira emergência é outra. A emergência é que há milhares de portugueses a passar fome, e mesmo a morrer de fome. A emergência é que há milhares de portugueses sem teto, porque foram postos fora da casa em que habitavam e não têm dinheiro para arranjar outra. A emergência é haver milhares de crianças com fome, cujos pais não teem dinheiro para lhes dar de comer. A emergência é que, devido à política de “austeridade”, já muitos portugueses se suicidaram, e outros se lhes seguirão. A emergência é termos um governo que, em vez de procurar resolver estes problemas, os agrava cada vez mais, ao mesmo tempo que os seus membros se apresentam prazenteiramente como se tudo estivesse a correr pelo melhor, quando deviam andar trombudos e de luto carregado pelo estado a que conduziram o País; e um presidente da República que anda com esse governo ao colo, proferindo boçalidades; e uma maioria parlamentar acéfala, sempre obediente à voz do dono, que mais não é que um rebanho de carneiros.

Perante esta emergência, torna-se necessário correr com este governo o mais depressa possível. Se esperarmos pelo termo normal da legislatura – quase dois anos – morrerão mais uns milhares de portugueses, à fome, por não serem devidamente tratados nos hospitais, ou por suicídio. Mais uns milhares de jovens qualificados terão emigrado. E possivelmente já terão vendido a Torre de Belém e os Jerónimos!

Ditadura, pessoas e acasos da vida (Crónica)

Quando da insurreição de Beja, passei o fim de ano no Cume, sede da freguesia de Vila Garcia, a 10 km da Guarda, onde a minha mãe era professora. Ainda dormia quando, na madrugada de 1 de janeiro de 1962, meu pai me acordou, com o rádio na mão, para me dizer que o quartel de Beja tinha sido assaltado. Com uma garrafa de vinho do Porto e dois cálices fizemos a precipitada celebração de um desejo que redundaria em fracasso.

Nunca tinha ingerido uma bebida alcoólica em jejum, experiência que só têm os padres, por dever do múnus, e os bêbedos, por hábito. Àquela hora o locutor de turno falava de uma tentativa de assalto ao quartel de Beja e de tiros, além da existência de feridos e de possíveis mortos. Foi breve o entusiasmo e 12 longos e dolorosos anos nos separavam ainda da liberdade, mas nós não sabíamos.

O ano de 1961 tinha sido o de todas as calamidades para a ditadura e de muita esperança para a democracia. Em janeiro o capitão Henrique Galvão sequestrara o navio Santa Maria. O Governo estava isolado; caíram Goa, Damão e Diu; foram lançados panfletos sobre Lisboa, de um avião desviado por Palma Inácio; Daomé ocupou o Forte de S. João Baptista de Ajudá, fortaleza que o comandante incendiou para gáudio do regime e prejuízo da nossa presença histórica. Havia, pois, razões para crer no fim da ditadura e do ditador. O assalto que Varela Gomes e Manuel Serra dirigiram tivera na preparação Humberto Delgado, que entrou em Portugal, clandestinamente, para o comandar.

Em risco de vida ficou o destemido capitão Varela Gomes que, ao dar ordem de prisão ao major Calapez Martins, já prevenido do golpe, foi metralhado. Varela Gomes resistiu a várias cirurgias, sob prisão. A PIDE prendeu ainda o capitão Eugénio de Oliveira e os outros implicados, civis e militares, bem como os suspeitos do costume, enquanto era vexada pela fuga bem sucedida do general Humberto Delgado.

O subsecretário de Estado do Exército, tenente-coronel Jaime da Fonseca, morto a tiro, por fogo amigo, «no desempenho das suas funções», segundo a explicação oficial, teve as mais altas honras de Estado e o funeral foi usado pelos próceres do regime, como a homenagem ao mártir, cuja devoção foi duvidosa. Trajava à civil, acompanhado apenas pelo enigmático capitão Alves Ribeiro, ajudante de campo do ministro e não seu, militar com passado obscuro, que escapou incólume, apesar da chuva torrencial e das condições de difícil visibilidade com que juntos se dirigiam ao quartel. A viúva terá recusado o aperto de mão e os pêsames desse capitão. A morte foi atribuída à GNR.

Dois anos depois eu iria conhecer a Maria Eugénia Varela Gomes. A história também se faz de acasos. A Lourinhã era uma pequena vila onde todos se conheciam. Alguns dias depois da minha chegada já era conhecido de muitos e granjeara amigos. Um deles, o Marques da Silva, conservador do Registo Civil e advogado, havia de me apresentar ao seu colega Joaquim Catanho de Meneses que em cada sábado vinha à Lourinhã, à sua quinta na aldeia de Miragaia. A democracia chegava de automóvel ao fim de semana.

Catanho de Meneses deixava a mulher na casa da quinta e vinha tomar café com o tio, coronel Helder Ribeiro, e a Maria Eugénia, ao Café Belmar. O Marques da Silva e eu fazíamos-lhes companhia. Era com raiva que a Maria Eugénia me dizia: se um dia puder ser boa ao «seu amigo»…, forma irónica de referir o ministro do Interior, Alfredo dos Santos Júnior, ex-governador civil da Guarda, que aí conheci. Morreu de velhice, bem sacramentado, impune, o médico fascista, antigo presidente do CADC, deputado e dirigente da União Nacional responsável da repressão do seu ministério numa das fases mais opressivas da ditadura durante a qual a PIDE foi a Espanha assassinar o general Delgado, morte que Salazar prontamente atribuiu aos comunistas, os suspeitos do costume, através de uma comunicação televisiva ao país.

Depois do convívio, geralmente observado do exterior por indivíduos de óculos escuros e gabardine cinzenta, o Marques da Silva ia trabalhar, o Catanho de Meneses levava a Maria Eugénia a Peniche, para a visita ao marido, e eu tinha o privilégio de ficar até ao regresso de ambos a conversar com o saudoso e afável coronel Helder Ribeiro.

Quem se lembrará hoje desse destacado republicano cujo nome ainda anda por aí em várias placas toponímicas de ruas de algumas cidades e que tão poucos conhecem?

O coronel Helder Ribeiro, n. 1889 – f. 1973, foi oficial de Infantaria e do Estado-Maior, professor do curso de Estado Maior, combatente da Primeira Grande Guerra, em França, três vezes ministro da Guerra e ministro da Instrução, em 1924. Foi militante do Partido Republicano desde a Universidade. Este republicano, militar, político, oficial da Torre e Espada, conspirou contra a ditadura, foi preso e deportado, e nunca abdicou da luta. Era uma referência e presença constante nas campanhas da oposição.

Foi com essa figura maior da República, da coragem e da ética, com esse participante da Revolta de 26 de Agosto de 1931, que tive o privilégio de conviver e que me dizia como resistir ao isolamento da prisão, como era possível dobrar um guardanapo de tantas e tão variadas formas de modo a passar o tempo sem perder o tino e a esperança.

Temos de lembrar os heróis que mantiveram em lume brando a chama da liberdade que explodiu em 25 de Abril de 1974. Quando os esquecemos, vamos destruindo o ímpeto para resistir ao prenúncio de novas ameaças.

Foi talvez um sobressalto cívico que me levou a percorrer de novo o caminho da vida, em sentido inverso, para exumar recordações que me preencheram os dias e trazer as memórias que me alimentam.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Até quando abusarão da nossa paciência?


Engenharia contabilística


terça-feira, janeiro 21, 2014

Cristiano Ronaldo recebe casal de fãs


Hollande ainda não decidiu se a sua 3.ª vai ser a 1.ª dama.

Essa anacrónica reminiscência monárquica, embora republicanizada, é um insulto ao espírito republicano que elege um presidente e não um casal.

O exemplo alemão é, a este respeito, um caso de ética a necessitar de fazer escola. Não se conhece o cônjuge do chanceler de turno que, se viaja na sua companhia em avião do Estado, paga a própria viagem, desistindo habitualmente por ser demasiado cara.

Em Portugal, onde tudo o que é mau, acaba por ser sempre pior, e da pior maneira, não tarda que a designada 1.ª dama acabe por acompanhar o consorte com filhos e netos a ver as vacas que na verdura dos prados os recebem com sorrisos.

As primeiras damas são adereços inúteis na vida dos países e encargos obscenos que os contribuintes pagam. Um módico de decoro devia encorajá-las a uma vida (f)útil.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Momento de poesia


A sustentabilidade do tempo…

À minha avó Maria


Julgas que vou fazer isto tudo?
Nunca tenho tempo para nada
porque sempre julgo
ter tempo para tudo.

A culpa é dos relógios
que contam o tempo devagar
quando afinal, e veloz como o vento,
o tempo passa a correr.

Devia ser como no tempo da minha avó
que contava os dias pelos dedos,
as horas pelo sol
e despertava ao cantar do galo.
E ela sempre teve tempo para tudo,
até para ter netos.
E foi sempre assim,
até morrer…

Alexandre de Castro


Lisboa, Janeiro de 2014

Cristiano Ronaldo, a condecoração e o PR

Um homem pode desligar a televisão, mudar de canal ou dar um passeio, o que não pode é deixar de ir ao barbeiro. Foi lá que a cerimónia da condecoração a Cristiano Ronaldo me apanhou. Percebi que, junto ao grande futebolista, se encontrava o PR.

Olhei aquele jovem dotado, aquele artista exímio na profissão, a figura simpática que faz vibrar milhões de pessoas. O que não esperava era ouvir um discurso de Cavaco a enaltecer-lhe os golos e a fazer a exegese dos festejos que o futebolista faz após o golo.

Foi uma surpresa, apesar de o saber catedrático de Literatura pela Universidade de Goa, vê-lo referir os golos e a forma como num dos últimos, Ronaldo olhou para o céu, gesto que o PR repetiu, e interpretou como homenagem ao pai, numa sábia exegese dos gestos e domínio da geografia do destino dos mortos.

Enquanto o barbeiro aparava a barba, ainda vi surgir, célere, D. Maria, a meter-se entre o marido e o Ronaldo, e a posar para a fotografia. Depois arrastou o ídolo, de venera ao peito, para junto do acampamento familiar onde duas gerações de Cavacos e colaterais aguardavam o jogador para a foto que, orgulhosos, exibirão um dia, aos amigos, quando o pai, avô e sogro for esquecido.

É um orgulho, para os portugueses, um jogador assim. Merece ser um Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Até merecia outro presidente.


Mais uma estrela cavaquista

Fisco apanha Marques Mendes em venda ilegal de ações
NELSON MORAIS

«O Fisco detetou vendas ilegais de ações da Isohidra feitas por Marques Mendes e Joaquim Coimbra, em 2010 e 2011, e que terão lesado o Estado em 773 mil euros. As ações foram vendidas por 51 mil euros, mas valiam 60 vezes mais: 3,09 milhões».

Como se vê por Marques Mendes, o fisco só apanha os pequenos.

domingo, janeiro 19, 2014

A frase


A bênção dos animais preserva-lhes a alma?

O dia em que os animais foram ao Vaticano pedir uma bênção 
(REUTERS)

Praça de São Pedro encheu no dia de Santo Antão, o padroeiro dos animais domésticos

Animais
Porcos, galinhas, cavalos, gatos e cães estiveram na Praça de São Pedro, no Vaticano, na sexta-feira para assinalar o dia de Santo Antão, o padroeiro e protector dos animais domésticos.

sábado, janeiro 18, 2014

A coadoção

As coisas são o que são, não o que gostaríamos, e, muito menos, o que alguns desejam fazer esquecer com elas.

O que está em causa, e não é referido, para além de esconder a tragédia do Governo e do PR que nos couberam, é confundir a adoção, a coadoção e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto a saúde, a educação e a assistência são dadas à iniciativa privada e os portugueses abandonados num país sem futuro.

A coadoção é, pois, mais um pretexto do que um problema que o PSD quer ampliar para esquecermos o cumprimento da agenda dos extremistas que confiscaram o partido e o Governo.

Pensemos num casal de indivíduos do mesmo sexo em que um dos cônjuges já tem um filho adotado, situação que existe e é legal. Negar-se a coadoção, apenas impede a possibilidade de a herança do casal não poder reverter para o adotado se acaso morre primeiro o cônjuge adotante. Era apenas estas situações que o projeto de lei do PS quis contemplar e que foi aprovado na generalidade.

É isto que se quer impedir ou a manobra de diversão tem outros fins?

Os juniores da madraça do PSD criaram o ruído para abafar as malfeitorias dos seniores e o Parlamento aprovou, por proposta sua, um referendo à adoção por casais do mesmo sexo, depois de a lei que a permite ter sido aprovada pela Assembleia da República.

Passos, Cavaco e o OE-2014

O Eusébio, a coadoção, o congresso do CDS e a inevitável lista única do PSD, pudera, há empregos, milhares de empregos, em causa, servem para desviar as atenções do OE.

A ameaça atrevida do irrelevante Passos Coelho, a falar da “nova normalidade”, não passa do canhestro eufemismo do carácter definitivo para os cortes ‘provisórios’ das pensões e vencimentos.

A atitude de Cavaco, ao não pedir a fiscalização sucessiva do OE-2014, é uma atitude de quem está a ser coagido por quem não sabemos, ou por razões que só ele sabe, tendo desprezado a Constituição, que jurou, e renunciado a que alguém precise de nascer duas vezes para ser tão sério como ele.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

Os casais homossexuais e a adoção de crianças

Confesso que um psicólogo pode mudar a minha opinião e que não tenho sobre o tema ideias definitivas. Quanto ao casamento entre indivíduos do mesmo sexo não tenho nem tive dúvidas. Respeito a orientação sexual de quem quer que seja.

Não entendo, nesta desvairada tática política, nas traquinices partidárias, os objetivos de um referendo e a negação da legitimidade representativa da A.R. e da liberdade de voto dos deputados em matéria que põe em causa problemas de consciência.

A estranha conceção de família e as alusões à mais retrógrada ideologia clerical-fascista estão longe de me convencerem. Não sei se é útil para as crianças trocarem o abandono pela companhia de um casal gay, se é preferível uma família verdadeira de um agressor alcoólico e de uma mulher sofrida, ambos desejosos de enjeitar a criança, ou confiá-la a um casal homossexual que a deseja, passando pelo crivo de psicólogos, assistentes sociais e, finalmente, pela decisão de um juiz.

O que sei, de ciência certa, é que há homossexuais com filhos próprios ou adotados e que são educados pelo casal legalmente constituído. Nada impede um homossexual ou uma lésbica de adotar uma criança mas, se vier casar, como a lei permite, a criança não pode partilhar legalmente o património afetivo e/ou habilitar-se à herança de ambo/as.

Parece haver uma dose de hipocrisia que joga com as crianças para fins eleitorais e com os preconceitos para envenenar ainda mais a atmosfera política.  


Baixou o preço das canonizações

A santidade custa os olhos da cara. Quem julga que só os vivos se dividem em classes e estas se sujeitam às inclemências do mercado, ignora o que custa a um defunto chegar à santidade.

São pesados os emolumentos para investigação de milagres, para transformar as graças recebidas, alegadas pelos crentes, em milagres certificados com a chancela do Vaticano. É inútil a dimensão do prodígio se a Sagrada Congregação para a Causa dos Santos não rubricar o milagre. Não se criam beatos e santos de graça, apesar das graças.

Quantos defuntos de países pobres, exímios a curarem achaques, a endireitar espinhelas caídas, a alinhar corcundas, a transformar coxos em maratonistas ou a sarar moléstias da pele, não ficaram no anonimato de crentes que lhes beijaram o retrato ou lhes dirigiram preces a troco de uma novena ou de uma simples ave-maria?

L’Osservatore Romano, Diário do Reino do Vaticano, informou na última quarta-feira, através do cardeal italiano Angelo Amato, que foi criada uma «lista de preços «como referência».

A medida, em vigor desde o princípio do ano, pretende – segundo o referido cardeal –, «inspirar-se num sentido de sobriedade e igualdade», a fim de evitar uma «desproporção de valor entre as várias causas».

A decisão, de acordo com o órgão oficial do Vaticano, resulta de uma colaboração entre a Congregação para a Causa dos Santos e as várias dioceses, que durante alguns meses apresentaram as suas despesas à Santa Sé.

O cardeal italiano não se tem esquecido de apelar à realização de donativos para ajudar ao financiamento de «causa pobres», isto é, de defuntos de elevado potencial milagreiro cuja simplicidade não atrai o mecenato de devotos ricos, injustiça que o Papa Francisco quer corrigir, tentando acabar com certos privilégios para um maior equilíbrio dentro da Igreja que conta com 1,2 mil milhões de batizados.

Os milagres não são exclusivos das dioceses ricas e da bondade dos crentes abastados.


quinta-feira, janeiro 16, 2014

Desventuras de S. Victor e da Freguesia do mesmo nome (Crónica)

Durante muitos anos S. Victor ouviu as preces dos devotos e atendia-as na medida das suas disponibilidades, de acordo com a modéstia dos mendicantes. Afeiçoaram-se os créus ao taumaturgo e este aos paroquianos que o fizeram patrono da maior paróquia da Arquidiocese de Braga.

Há uma década foi retirado do “Martirológio”, o rol da Igreja Católica que regista todos os santos e beatos reconhecidos ao longo de vinte séculos, desde que a Igreja católica se estabeleceu. O argumento foi pouco convincente e deveras injusto. Não se exonera do catálogo um santo por ser apenas uma lenda. Que o tenham feito a S. Guinefort, cão e mártir, morto injustamente pelo dono, aceita-se, porque a santidade não se estende aos animais domésticos. Duas mulas, que rudimentares conhecimentos dos padres da língua grega confundiram com duas piedosas mulheres, compreende-se que fossem apeadas dos altares, interditos a solípedes.

Mas um santo com provas dadas, clientela segura, devoção fiel, foi a maldade que não se fazia aos pios fregueses, tementes a Deus e cumpridores dos Mandamentos. O padre Sérgio Torres afirmou ao «Correio do Minho», em janeiro de 2005, que os paroquianos «reagiram com desagrado e muita surpresa». Não lhe permitiu o múnus e a urbanidade dizer que foi uma santa patifaria do Vaticano. O séc. IV, em que o jovem Victor foi condenado à morte por se recusar a participar numa cerimónia pagã, segundo a tradição agora desmentida, foi há tanto tempo! Que importa uma pequena mentira numa Religião que vive das grandes?

Ainda hoje, nove anos volvidos, a Junta de Freguesia de São Victor, sita na Rua de São Victor, n.º 11, afirma com orgulho, no sítio da Internet, que, «segundo reza a lenda» o seu patrono foi “martirizado pelos romanos, através do fogo e da degolação, por afirmar as suas convicções”. E acrescenta, em jeito de propaganda eleitoral: “Ainda hoje, este exemplo serve de mote ao executivo desta freguesia”.

E agora? Que fazer? Arrancam-se os azulejos que documentam a mentira? Transfere-se a devoção para os santos fabricados por João Paulo II, alguns tão pouco recomendáveis e tão detestáveis, quase todos espanhóis, e apenas com a sorte de terem dois milagres no currículo?

Era presidente da Junta de Freguesia na altura da despromoção, Firmino Marques, que embora revelando “algum desconforto”, justificou a retirada do orago do calendário litúrgico «somente pelos critérios científicos usados atualmente para a proclamação dos santos e beatos da Igreja Católica». Esse autarca era um admirador confesso da ciência.

O atual, Ricardo Silva, de sua graça, prefere apelar para o exemplo glorioso de um santo falsificado a procurar um novo taumaturgo cujo nome não acertaria com o da Freguesia e de que não obteria garantias mínimas de ser mais santo e de ganhar tão dilatada fama.

O bom senso e pragmatismo do autarca Ricardo valeram-lhe decerto a eleição.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Isso não se chama a ninguém


(clique na imagem)

«Quem rouba a ladrão tem cem anos de perdão» (Adágio)



Antes que, por vergonha, o CDS-Algarve apague o texto, aqui fica com o link respetivo:
A Meta dos Ladrões – Mealhada

Os delegados do CDS Algarve ao Congresso foram assaltados num conhecido restaurante localizado na Mealhada.
Contamos em duas linhas a mirabolante aventura que alguns congressistas sofreram ontem domingo, no seu regresso ao Algarve:
Atraídos pela famosa boa gastronomia e normal hospitalidade da Mealhada, resolveu um grupo de 15 congressistas parar num conhecido restaurante daquela localidade para degustar o famoso pitéu convivendo desta forma antes da longa viagem até suas casas. O leitão veio a contento dos comensais, a vitória do Benfica ajudou à festa, e no final, apresentada a conta, que apesar de ser considerada exagerada, foi paga.

Contudo, já no exterior do restaurante, e apercebendo-se de serem apenas 15,e que a conta que tinham acabado de pagar contabilizava 19 refeições, tentou um dos membros do grupo esclarecer o erro e que o mesmo fosse corrigido pelo restaurante. A justificação do responsável pelo restaurante foi a seguinte: tendo-se ele apercebido que eram do CDS e como tal apoiantes do governo, e aqui cito ipsis verbi as palavras proferidas “desse governo que nos rouba, então para me defender eu também os roubo a vocês” !!!

Solicitado o livro de reclamações o mesmo não foi facultado, a quantia cobrada a mais não foi devolvida, pelo que irá aquele grupo de Algarvios apresentar queixa na justiça. Entretanto aqui fica o alerta: se forem à Mealhada, das duas uma: ou não dizem que são do CDS, ou então escolham outro restaurante. Na META DOS LADRÕES não são benvindos.

terça-feira, janeiro 14, 2014

O fascismo e as eleições

Era o ano de 1965 e outubro o mês. A ditadura organizou a farsa habitual que dava pelo nome de «eleições» para a Assembleia Nacional.

O mandatário nacional da Oposição era o saudoso Dr. Francisco Salgado Zenha. No distrito de Lisboa o representante era o futuro fundador do PS e deputado à Constituinte, Joaquim Catanho de Meneses.

No concelho da Lourinhã tive o privilégio de ser o delegado concelhio. Os votos da União Nacional vieram pelo correio quando a Oposição, à falta de condições mínimas, já tinha desistido de colaborar na farsa.

No café Belmar, o único que existia, à mesa, quatro cidadãos inutilizaram os boletins de voto. Aqui ficam os nomes, além do do signatário: Afonso Moura Guedes, futuro deputado e líder do PSD; José Francisco Vacas, professor e Manuel Gentil da Silva Horta, comerciante.

No dia seguinte encontrámo-nos os quatro a votar e sorrimos com cumplicidade.

Os resultados eleitorais sufragaram a lista da União Nacional (única) com cerca de 98% dos votos, tendo havido 2 (dois) nulos, em todo o concelho.

Eram assim as eleições no regime fascista que deixou discípulos: caluniadores, bufos e mentirosos, nostálgicos do passado. Em que partidos votarão?


CDS – um quarteirão de congressos com promessas às dúzias

Não acompanhei o 25.º Congresso do CDS pela rádio, pela televisão ou pessoalmente, nem me conhecem eles nem os conheço eu, e a companhia seria alérgica e recíproca.

Sou, no entanto, leitor de jornais, atento e interessado, imune à liturgia dos Congressos e, neste caso, às piruetas políticas do líder perene, à boçalidade de algumas intervenções e inépcia de certos oradores, detendo-me no risco do partido, esvaziado dos democratas que o fundaram e caminhando para um reacionarismo infrene que o líder da Mocidade Popular amplamente demonstrou.

O líder absoluto demo-cristão elevou para 8 o número de vice-presidentes, tornando-se o líder com mais vice-presidentes por eleitor, sem contar com ele, vice-presidente no Governo. A sua lista, sufragada por 85,39% dos votos, a larga distância da de  Kim Jong-un, devida à distância que separa Oliveira do Bairro de Pyongyang.

Paulo Portas apelou ao PS para que estivesse disponível para fechar os olhos ao respeito pela Constituição, isto é, para que fizesse com a CRP o que ele, Paulo Portas, fazia com as declarações de impostos e com os recibos dos inquiridores da empresa de sondagens «Amostra», daquele antro da Universidade Moderna, encerrada compulsivamente pelas autoridades sanitárias responsáveis e sem sequelas de maior para o bando que acoitava.

De relevante para o País, ficou o desejo do presidente da Mocidade Portuguesa do CDS, também conhecida por Juventude Popular, de reduzir em 3 anos o ensino obrigatório e o de Portas em exterminar os funcionários públicos, aliás escusados, quando a educação, a saúde e a segurança social forem destruídas e cedidas à iniciativa privada e eclesiástica.

O resto foi o circo montado para as próximas campanhas eleitorais e as dúvidas sobre as vantagens de irem a votos casados com o PSD ou em simples união de facto. Os lençóis de ambos, fedem.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

Momento zen de segunda_13_01-2014

João César das Neves (JCN) não pode emprestar às homilias semanais, as culminâncias estilistas e o enlevo formal a que o maior paladino da língua portuguesa elevava os seus sermões – o padre António Vieira –, mas, como ele, também as batiza com o título com que julga passar à posteridade e, sobretudo, ganhar a bem-aventurança eterna.

A homilia de hoje (DN) chama-se “A dignidade permanece». O conteúdo recorrente é o aborto, a obsessão semelhante ao pânico de quem teme, sobre si, a retroatividade da lei.

JCN diz que o aborto nunca desaparecerá, embora pareça desconhecer a espontaneidade e o drama que atinge quem desesperadamente procura um filho, sendo, nesse caso, mera vontade do Deus do pregador.

Para o missionário, estamos «numa época promíscua e lasciva» em que a violação dos direitos humanos explode contraditoriamente na legislação familiar. Dá como exemplo dessa contradição, os EUA, «a sociedade mais aberta e dinâmica, [onde] o impasse dos embates entre "pró-vida" e "pró-escolha" se manifestam há muito».

Para JCN, onde se adivinha a coexistência entre felicidade do tartufo e o sofrimento do devoto, «a rejeição do relatório extremista de Edite Estrela pelo Parlamento Europeu a 11 de Dezembro e as discussões à volta da proposta de nova lei espanhola, apresentada a 20 de Dezembro, quebram o mito de solução pacífica deste lado do Atlântico», o que faz adivinhar a sanha com que JCN acalenta a regressão das leis da família. Quando o exaltado Irmão Católico diz que foi rejeitado o relatório “extremista” de Edite Estrela, pelo PE, diz parte da verdade. A decisão ficou ao critério de cada Estado membro com prejuízo para a saúde das mulheres pobres dos países vítimas do poder clerical.

«O respeitado semanário Expresso, num dos textos recentes que mais manchou a sua reputação de isenção e dignidade, tratou a questão desta forma: "Regresso ao passado. Rajoy cede à ala clerical e ultradireitista do PP com a revisão da lei do aborto que constitui um retrocesso de 30 anos na regulação de um direito adquirido pelas mulheres espanholas e gera um coro de críticas internacionais" (28/12/2013, p. 27).» – diz JCN.

Em apoteose mística escreve: «Como a identidade dos escravos e proletários, como a fé dos mártires e perseguidos, como os direitos dos pobres e espoliados, (…) a vida dos fetos abortados permanece no subconsciente das sociedades que os julgam extintos» e adita, clamoroso e profético, que os nossos descendentes terão dificuldade em entender.

Até para pensar é preciso alguma coragem

Não pretendo que os outros pensem como eu, mas, tal como eu, que pensem. Para lá do medo, que foi assimilado por meio século de ditadura e pela incerteza que nunca deixou de nos perseguir, há constrangimentos sociais que o dilatam e o gravam no nosso código genético.

Em Portugal é tão odioso dizer bem de políticos como mal dos bombeiros. Os primeiros são eternamente corruptos, oportunistas, ladrões, imbecis, incompetentes e parasitas; os segundos são soldados da paz, abnegados, corajosos, honestos e prontos a dar a vida por quem deles precise.

Quanto a políticos estamos conversados. É verdade e são todos iguais. Ponto final. Não há sequer exceções, a não ser que ponham os interesses da Pátria acima do dos partidos, que governem, sem pensar nos partidos e, sobretudo, sem os permitir. Por isso falemos de bombeiros.

Há dias surgiu um tímido relatório que apontava a deficiente formação como causa das mortes de bombeiros e a baixa eficiência do esforço no combate aos fogos. Felizmente que o insensato autor do relatório não arriscou divulgar as contas do custo/benefício das atividades que, tal como a religião, não podem ser objeto de escrutínio.

Sabemos que a distribuição dos bombeiros, pelo território nacional, é a adequada, que não há comandantes com interesses em empresas fornecedoras, que a preparação física e técnica dos soldados da paz é excelente e que não há melhorias a fazer. Nem reparos.

É falso que o comandante dos bombeiros de Lamego que ofereceu viagens de recreio no helicóptero de combate aos incêndios, imediatamente suspenso, com vista à demissão, e que, passado um mês de greve dos bombeiros do seu quartel, tivesse sido reconduzido, sem processo disciplinar, e o MAI tivesse metido a viola no saco. Era só o que faltava, punir um comandante de bombeiros.

É falso que não haja transparência nas contas, no caso de as haver, e que as viagens das ambulâncias aos hospitais sejam multiplicadas pelo número de doentes que transportam ou que alguma gota de combustível de um autotanque acabe numa viatura privada.

O país é ingrato e as pessoas, tão lestas a acusar sem provas, impedem os testemunhos e não prescindem dos julgamentos.  

domingo, janeiro 12, 2014

12 de janeiro – efemérides

O melhor:

1945 – As forças alemãs batem em retirada na batalha de Bulge*, Bélgica;

1959 – o general Humberto Delgado pede asilo político na Embaixada do Brasil em Lisboa.

O pior:

1919 – A Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou a proposta de lei que concedia o direito de voto às mulheres.


Fonte: DN

Apostila: *  Bulge' não é um topónimo nem um nome próprio. É a palavra inglesa que significa 'bolsa', 'saliência', 'inchaço'. Os ingleses chamaram-lhe assim porque as linhas alemãs tinham a forma de uma bolsa quando o avanço dos alemães foi travado. Em português (e nas outras línguas ocidentais) chama-se Batalha das Ardenas. Alguém traduziu isso directamente do inglês tomando por nome o que não é.

Lourinhã – A ditadura, os serventuários e a memória (Crónica)

Em 1963 cheguei à Lourinhã, ameaçado de demissão por um lacaio do regime, Manuel da Silva Mendes, que de adjunto do Diretor Escolar de Castelo Branco havia de chegar a Diretor Escolar de Portalegre e presidente da respetiva Câmara Municipal, para acabar administrador na Casa da Moeda, sinecura que o Curso do Magistério Primário e o zelo salazarista lhe reservaram, à falta de currículo e de preparação académica adequada.

Cheguei diretor da escola masculina, a Fernanda era agregada e mulher, defeitos que só um era remissível e em locais que a afastariam do marido. Fui logo nomeado Delegado Escolar porque a titular carregava o pecado original da inferioridade de género que lhe garantia a exoneração do cargo à chegada do primeiro professor.

Em outubro, primeiro mês do ano letivo, houve exame de adultos, como sempre, e por mero espírito misógino, a Conceição, que era ainda «Delegado», foi nomeada vogal do júri cuja presidência me foi atribuída. Uma conversa nossa originou a falta dela no júri e a sua troca por outra colega. Nem a hierarquia valia perante a superioridade de género, e a competência não vinha ao caso.

Permita-se ao cronista elogiar a colega, de grade classe, a que me ligou forte amizade, que se estendeu ao marido e a uma prima cuja afeição deu um salto dialético que podia ter mudado a vida de ambos.

Os exames de adultos eram uma farsa com que o salazarismo pretendia baixar o nível de analfabetismo que nos destacava, em conjunto com a miséria, a mortalidade infantil e a materno-fetal, a nível europeu. Os exames da 3.ª e 4.ª classes passaram a ser necessários para fazer a limpeza de edifícios públicos ou obter passaporte, o primeiro, e para a carta de condução o segundo.

Os meus 20 anos, que nem a maioridade concediam, não permitiam reprovar a senhora que varria o tribunal ou o carpinteiro que trabalhava na Câmara Municipal, decisão que os exonerava das funções. Nunca alguém chegou tão longe sabendo tão pouco. Entre a crueldade da reprovação e a aprovação indevida optei sempre pela segunda, no que as colegas sempre me acompanharam.

Um dia apareceu-me o adjunto do diretor escolar a fiscalizar os exames. Ofereci-lhe a presidência do júri, como se ele a não pudesse avocar, se o entendesse, o que recusou.
A prova escrita começava pelo ditado e as palavras eram ditas de forma estranha para impedir que, por exemplo, a palavra «comer» aparecesse escrita com «u». Além disso, as palavras mais difíceis eram escritas no quadro preto com o giz. O adjunto Carvalhão chamou-me a atenção de que não era permitido escrever palavras no quadro ao que lhe respondi que era assim que fazia na sua ausência e que, se achava mal, me substituísse. Que não, que continuasse, e a cada observação desafiava-o a presidir ao júri pois tinha trabalho da Delegação Escolar para fazer.

Acabado o ditado, com o adjunto Carvalhão às voltas pela sala, veio dizer-me que havia várias reprovações e foi-me indicando quais. Aquela senhora, também? – perguntei-lhe, ao que ele anuiu. Bem, agora é que o Sr. adjunto vai assumir a presidência do júri pois aquela senhora é mãe do presidente da Câmara, tem um Mercedes comprado e precisa da carta, não faltará quem diga que é vingança política de um opositor ao regime.

O presidente da Câmara era meu amigo, até me perguntava se eu era tão perigoso que justificasse as constantes solicitações para me vigiar. A vida extramatrimonial tinha-nos aproximado em cumplicidades que não são relevantes para o caso e que me permitiam saber quando a pide ia colher informações a meu respeito. Seria incapaz de me dizer o que quer que fosse se a mãe reprovasse no exame. Mas disso não podia saber o adjunto Carvalhão que ficou pálido quando ouviu que a alegada reprovada era mão do autarca.

Vi a aflição do homem, como o terreno lhe fugia sob os pés, como se tinha arrependido de ter ido à Lourinhã, com tantos concelhos que o distrito tinha, e como não sabia sair da situação que criara. Lá se recompôs e disse-me que ia sair e que não me perguntaria pelos resultados do exame, se lhe desse a honra de almoçar com ele, esperar-me-ia no restaurante da residencial onde eu estava hospedado, uma residencial excelente e única.

Os supostos reprovados tiveram o apoio do júri e, entre os três, lá pusemos toda a gente em condições de ir à oral, depois de completarem as provas com a redação e aritmética.
Foi anunciado com pompa que não havia reprovações e lidos, em voz alta, os nomes dos 8 candidatos que prestariam a prova oral no dia seguinte.

Ao almoço lá estava o adjunto Carvalhão à minha espera e quando fui informar os meus companheiros de mesa, o juiz, o delegado do Ministério Público e o conservador do Registo Predial, de que almoçaria noutra mesa porque tinha comigo o adjunto do diretor escolar, o juiz olhou para os outros e perguntou-me porque não o convidava a partilhar a nossa mesa. Foi assim, na minha companhia, que o adjunto Carvalhão almoçou com os magistrados e o conservador do Registo Predial antes de seguir para Lisboa, aliviado e a tecer loas a meu respeito, junto do diretor.

Três dias depois, Portugal contava com mais 24 diplomados, nas estatísticas, e o adjunto Carvalhão não voltou a comparecer nos exames de adultos, na Lourinhã.


O regresso do salazarismo através do CDS

Com exceção do jovem mullah Miguel Pires da Silva, não vou falar de solípedes à solta, equídeos sem bridão, asnos sem cabresto e outros espécimes zoológicos que circulam nas madraças juvenis dos partidos do poder, à espera de crescerem.

Vou falar do 25.º Congresso do CDS e de cinco secretários de Estado que assumiram aí a matriz salazarista que Feitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa e Basílio Horta se esforçaram ingloriamente por erradicar.

A redução da escolaridade obrigatória, que Salazar resumiu a quatro anos para rapazes e a três para meninas, medida que ajudou à salvação das almas e à produção de criadas de servir, volta agora a ser preconizada. Podíamos chegar ao ponto em que o filho de um pedreiro podia ser colega do de um banqueiro. Onde chegaríamos? !

O presidente da Mocidade Portuguesa do CDS, também conhecida pelo pseudónimo de Juventude Popular, Miguel Pires da Silva, não tem dúvidas e pede a redução do 12.º ano para o 9.º “porque é um erro”, erro que pode ser melhor corrigido se reduzirem mais três anos de escolaridade no próximo congresso.

Os cinco secretários de Estado, da melhor cepa salazarista, usaram um argumento que não ocorreu ao troglodita de Santa Comba Dão: “a liberdade de aprender” é um “direito fundamental de cada pessoa” [sic]. É a liberdade à moda do CDS, a ideologia da sargeta demo-cristã: a instrução e as vacinas (?) não são obrigação, são um ato de liberdade que cabe ao Estado respeitar. O analfabetismo deve ser um direito, em nome da liberdade.

Os 5 secretários de Estado garantem que os agentes educativos estão «legitimamente preocupados com o impacto que o alargamento da escolaridade obrigatória» possa ter no abandono escolar e na empregabilidade. É óbvio que o abandono escolar só acontece se há escola e apenas com quem a frequenta. Quanto à empregabilidade sabe-se que não é verdade, mas o CDS tem pela verdade um irrevogável desprezo.

A Mocidade Portuguesa do CDS produz nas madraças do partido a ideologia necessária ao retrocesso que preconiza. A possibilidade dos filhos pobres chegarem à Universidade é um luxo intolerável, um terramoto classista, um perigo para a fé e a tradição que o 25 de Abril interrompeu. É tempo de esquecer a data e julgar os implicados que restam.

O CDS, defensor da moral e dos bons costumes, acabará a plagiar, na apoteose do 25.º Congresso, o general  Millan Astray: «Abaixo a inteligência! Viva a morte!», sem que um Unamuno apareça a zurzir os secretários de Estado mutilados do corpo e do espírito, ao nível do Governo a que pertencem.

sábado, janeiro 11, 2014

Eu quero um carro para cada contribuinte

Em 2014, a inclusão do n.º de contribuinte nas faturas permitirá a qualquer consumidor final habilitar-se a ganhar um carro por semana. O sorteio será feito pela administração fiscal, sendo elegíveis todas as compras e não apenas faturas dos restaurantes, oficinas e salões de beleza.

Quanto mais faturas obtiver maior é a probabilidade de êxito. Isto não é um governo, é um grupo de crupiês que fizeram do país um casino e dos cidadãos jogadores da bisca lambida. A libertinagem de quem se permite explorar o casino merece que os jogadores, sem aumento de despesa, aumentem as probabilidades.

Espero que os leitores me acompanhem na estratégia que já delineei, ainda que reduza as minhas probabilidades com a concorrência. Não sou invejoso.

Comecemos pelos supermercados. Enquanto não venderem o melão à fatia, o azeite ao decilitro, o arroz ao grama e as azeitonas, pevides e pinhões à unidade, podemos, desde já, exigir 24 faturas por duas dúzias de ovos, 20 por igual número de iogurtes, 50 por outras tantas peças de fruta e assim sucessivamente. Quando for atestar o automóvel, vou meter meio litro de combustível de cada vez até que o empregado se aborreça ou perfaça 120 faturas.

A imaginação é o limite. Perante um Governo tolo, pode valer-nos a imaginação para lutar contra a loucura.  


No Chile do genocida Pinochet


Do minuto 8 ao 22 deste documentário: a instalação do neoliberalismo no Chile e Friedman. No mesmo ano em que um dos muitos opositores de Pinochet era assassinado Friedman recebia o Nobel.

sexta-feira, janeiro 10, 2014

10 de janeiro – Efemérides – o melhor e o pior

1875 – É fundado o primeiro partido socialista português, por José Fontana.

1920 – É constituída a Sociedade das Nações, antecessora da ONU. Afonso Costa foi o primeiro representante português na Organização.

1976 – Começa a publicação do matutino português “O Diário”, órgão ligado ao PCP, dirigido por Miguel Urbano Rodrigues, e uma referência da imprensa nacional.

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1871 – Morre o jornalista republicano António França Borges, fundador do jornal “o Mundo”.

1928 – Leon Trtsky é enviado para o exílio pelo Governo soviético. Mais tarde seria assassinado.

2003 – Morre João Amaral, parlamentar, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, membro do PCP e um dos principais defensores da sua renovação.


Espanha - a monarquia ilegítima

A monarquia (ilegítima) de Espanha





Caros leitores, não percam estes vídeos. Guardem-nos.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

Afonso Costa – uma referência impoluta da República

Em 9 de janeiro de1913 tomou posse o primeiro governo republicano, liderado por Afonso Costa, efeméride que, pela importância política, personalidade do primeiro-ministro e grande vulto da República, merece ser assinalada hoje, 101 anos depois.

Nascido em Seia, a 6 de março de 1871, Afonso Costa foi um dos mais destacados membros do Partido Republicano e excecional orador parlamentar, em plena monarquia.

O notável ministro da Justiça, ainda no Governo Provisório, seria três vezes primeiro-ministro. Poucos políticos foram tão venerados e odiados como Afonso Costa. Teve contra ele a tralha monárquica, o clero reacionário e o país atrasado que a monarquia legou com o maior índice de analfabetismo europeu e o mais vergonhoso atraso social.

Sidónio Pais, em rutura com a Constituição de 1911, que ajudara a redigir, liderou uma revolta que depôs Afonso Costa em 11 de dezembro de 1917 para iniciar uma ditadura e concentrar um poder pessoal sem paralelo desde o absolutismo monárquico. A sua República Nova, em que o PR era também PM, foi pioneira do Estado Novo de Salazar. Houve concentração de poderes, o contubérnio com a Igreja e o regresso das sotainas. Traiu a laicidade, a democracia e a República numa ditadura travada à bala na Estação do Rossio a 14 de Dezembro de 1918 por José Júlio da Costa, militante republicano.

Afonso Costa, chegou a lente de Direito aos 29 anos. Tinha-se doutorado em 9 de Junho de 1895 com a dissertação “A Igreja e a questão social”, uma obra em que atacou com extrema violência a recente encíclica Rerum Novarum deixando-a em pior estado do que Antero de Quental ao Concílio de Trento, na conferência do Casino.

A cisão do Partido Republicano Português cujo programa político tinha sido anunciado por ele, em 29 de agosto de 1911, tornou-o líder do Partido Democrático para cuja fundação e prestígio foi determinante.

Afonso Costa, o defensor intemerato da laicidade, uma posição hoje pacífica, aglutinou, na altura, o clero, o beatério, os monárquicos e reacionários de vários matizes que iriam desaguar na sargeta do Integralismo Lusitano e, depois, na ditadura clerical-fascista de Salazar, apoiada por Cerejeira.

Devem-se a Afonso Costa a Lei da Separação do Estado das Igrejas, a lei da família, a lei do divórcio, a lei do registo civil obrigatório, a abolição do delito de opinião em matéria religiosa, a legalização das comunidades religiosas não católicas, a privatização dos bens da Igreja Católica e a expulsão dos jesuítas. Foi ele que mandou promulgar todas estas leis de notável alcance para a democracia e a modernidade.

O republicanismo mais genuíno e popular, o sentido de Estado e o patriotismo tiveram neste genial político o mais estrénuo defensor e o mais lúcido governante. Afonso Costa foi o expoente máximo da 1.ª República e o maior vulto político da primeira metade do século XX, em Portugal. O ódio e a devoção republicana estão à medida da sua dimensão ética, histórica, política e patriótica.