sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Troika, 11ª. avaliação: gato por lebre….

Paulo Portas anunciou o fim da 11ª. avaliação da troika ao programa de resgate que foi imposto ao País com a frase: ‘esta lebre está corrida’… link
Bem, do conteúdo da palestra, nomeadamente de algumas hesitações e dos frequentes engulhos que entremearam a sua comunicação, ficou a sensação de que o dito senhor veio vender gato por lebre.
 
A confusão é enorme. O governo afirma, pela voz do vice-primeiro-ministro, que “em matéria laboral o ajustamento salarial já foi realizado” mas deixou para trás que neste momento ainda decorre um processo de flexibilização (um eufemismo para ‘facilitação’) dos despedimentos no quadro da chamada ‘justa causa’. Essa medida poderá esconder um insidioso processo de ‘esmagamento’ de salários, isto é, permitirá despedir ‘velhos’ trabalhadores melhor remunerados e substitui-lhos por ‘novos’ com salários inferiores. Um outro meio será extinguir postos de trabalho para abrir 'mini-jobs’ com salário abaixo do ordenado mínimo.
 
Depois, vem um chorrilho de novas previsões sobre crescimento económico, taxa de desemprego, exportações e, finalmente, sobre o investimento.
E o palavroso ministro resolve ‘irrevogavelmente’ tomar a nuvem por Juno e daí para a frente parece que as projecções (moldadas à vontade de acertar o programa de resgate com sucessos) passam a ser incontestadas ‘realidades’, para esgrimir na praça pública e nos actos eleitorais a caminho.
 
Finalmente, um ruidoso silêncio sobre a tramitação de medidas extraordinárias para definitivas, i. e., os insuportáveis ‘cortes’.  É de supor que estes aspectos possam ter sido relegados para uma última avaliação. Porque começa a pressentir-se que nessa matéria de difícil enquadramento constitucional (a sua aceitação pelo TC assentou na transitoriedade das medidas) a ‘maioria’ sente-se descalça e procura desesperadamente um acordo com o PS. O que a acontecer será a revenda de gato por lebre.

Notas soltas: fevereiro/2014

Segurança Social – Os cortes nas pensões, previstos no OE-2014, só principiarão a ser feitos em Março e o acerto relativo a Janeiro e Fevereiro terá lugar no segundo semestre do ano, já depois das eleições europeias. O logro e o cinismo pré-eleitorais.

Informática – A ciência dos fenómenos da informação e do suporte dos conhecimentos e das comunicações, transformou-se em Portugal no subterfúgio para adiar os cortes das pensões depois do sufrágio para o Parlamento Europeu.

Miró – Os 85 quadros do grande pintor catalão adquiridos pelo excêntrico presidente do BPN e ex-governante cavaquista é o ativo que resta da maior burla da História nacional. A sua venda revela a incultura e insensibilidade da tutela.

Eleições europeias – Enquanto a ideologia vai pulverizando a Esquerda – PS, PCP, BE, MAS, Movimento 3 D, Livre e Renovação Comunista, para já –, os interesses cimentam a coligação PSD/CDS, numa auspiciosa tentativa de prolongarem a lucrativa agonia.

Ensino – A criação de «Cursos Técnicos Superiores Profissionais», idênticos aos atuais Cursos de Especialização Tecnológica (CET), é mais um contributo para a degradação do ensino superior, na imparável ‘relvização’, destinada à obtenção do título de Dr..

Turquia – O Governo de Erdogan, Irmão Muçulmano atolado numa teia de corrupção, legalizou o bloqueio de sites na Internet e censura os conteúdos por via administrativa. Não sei se os EUA e a Europa insistirão no apodo de ‘muçulmano moderado’.

Turquia (2) – A agitada aprovação, pelo Parlamento, de um projeto de lei que reforça o controlo do Governo sobre as nomeações dos magistrados, é mais um avanço na deriva autoritária do PM, apostado em fazer do estado de direito, laico, uma ditadura islâmica.

MGF – A mutilação genital feminina é um crime violento, supressor do prazer sexual. A tradição tribal, sempre em contexto islâmico, onde a fé é misógina e o crime afeta 140 milhões de mulheres, pratica-se em Portugal. Edite Estrela denunciou o crime no PE.

Ministério da Defesa – O facto de Aguiar Branco ter casualmente confessado a Garcia Leandro, “nada” perceber das Forças Armadas, podia ser tomado como modéstia junto do prestigiado general, mas o seu desempenho corrobora o desabafo.

Dívida Pública – A satisfação manifestada com juros superiores a 5%, num empréstimo para a dívida, que não para de crescer, é o júbilo de um Governo que confunde o buraco financeiro com a propaganda que destina para as eleições europeias.

Submarinos – A absolvição de todos os arguidos de corrupção mostra a inocência dos portugueses. A surpresa reside no erro judiciário alemão, que condenou os corruptores, e no grego, que prendeu os seus alegados corruptos.

Madeira – A exigência de Alberto João Jardim de colocar um eurodeputado autóctone, em Bruxelas, é uma cortina de fumo com que esconde o declínio da sua importância e o ocaso da sua perpétua e desastrosa governação.

Gaia – A eventual bancarrota, com uma dívida de 600 milhões de euros, revela que o Luís Filipe Meneses foi o Alberto João Jardim do concelho, a quem não faltou o seu Jaime Ramos, Marco António, e que podia ter sido o Passos Coelho de Portugal.

Coreia do Norte – Com milhões de mortes devidas à fome, à violência e às torturas, o Governo é responsável por casos concretos de escravatura e violências sexuais, segundo um inquérito do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Mais uma tragédia impune?

Venezuela – Hugo Chávez deixou de herança o pior do seu exemplo, o populismo, sem alguém que herdasse as suas qualidades, carisma e afetividade, motores da esperança de um país onde se esvai o sonho de uma experiência democrática com preocupação social.

PSD – A reunião magna foi o ajuntamento dos felizes contemplados com este Governo. Passos Coelho reincidiu na sua narrativa de que tirou o País da forca e não revelou que o empurrou para o cadafalso. Foi ofuscado por Marcelo, Santana e Rangel.

Miguel Relvas – A presidência do Conselho Nacional revela o peso do ex-ministro no PSD e o prémio que o seu silêncio exige. Não foi o percurso académico que o levou tão longe, talvez as cumplicidades e o medo de quem conhece o muito que ele sabe.

Rússia – Os Jogos Olímpicos de Inverno, cuja organização, segurança e grandiosidade decorreram ao mais alto nível, mereceram o desprezo da comunicação social, como se a Rússia fosse comunista e vivêssemos ainda em plena guerra fria.

Passos Coelho – Habituado a tratar o País como trata a Constituição, fez no partido o que faz no Governo. Ao nomear Relvas para presidir ao Conselho Nacional do PSD mostrou que continua a colocar os incapazes e os capazes de tudo.

Ucrânia – As rivalidades étnicas amamentaram a rebelião e a disputa geoestratégica da Europa/EUA e da Rússia. Hoje, já sem URSS, aumentam as disputas, ajudadas por um governo corrupto que fugiu e pela insurreição estimulada pelo fascismo internacional.

CEMGFA – O general Luís Araújo, titular do mais alto cargo político-militar do País, pediu a reforma, sem informar o Governo e o PR, e manteve-se em funções, num ato de desprezo pelos que o nomearam. A ética esvaiu-se e a humilhação atinge-os a todos.


quinta-feira, fevereiro 27, 2014

O PE & obsessões 'regulamentaristas'...

A criminalização dos(as) ‘clientes’ da prostituição votada ontem no PE link é mais um exemplo de como a Europa tem dificuldades em lidar com problemas sociais ou prefere contorná-los.
Partindo de pressupostos reais e preocupantes – matéria de saúde, mercado de oferta e procura, direito ao corpo e à sexualidade, etc., o PE enveredou por adoptar uma ‘atitude regulamentarista’ à ilharga de outras atitudes abolicionistas e proibicionistas (que campeiam na UE), mantendo-se acintosamente alheio às causas remotas e presentes que ‘estimulam’ a prostituição.
Na verdade, as(os) ‘trabalhadores(as) sexuais’ não são propriamente ‘produtos’ de uma escolha livre. São na maioria dos casos uma consequência (saída) para problemas sociais ou até individuais. Claro que existem, neste âmbito, muitas questões relativas ao negócio (exploração será o termo) com todo o cortejo de extorsões, violentações, exploração e tráfico. Estes problemas, segundo creio, já têm enquadramento penal e criminal nos diferentes países da UE.
O que verdadeiramente esta recomendação do PE estimula é a ‘clandestinização’ da prostituição, sem que se conheçam objectivas vantagens sociais ou humanas. Não é inteligível como esta medida pode contribuir para evitar a ‘exploração sexual’ de seres humanos que a vida fragilizou, estigmatizou ou deserdou.
Claro que a prostituição não é uma situação fácil de abordar dado existir um complexo contexto muitas vezes alienador da dignidade humana. Mas a recomendação do PE não incide sobre estas questões. Debruça-se, à primeira vista, sobre o aleatório das ‘vontades’, com alguns preconceitos, diria mesmo, com laivos discriminatórios.
A evocação dos direitos e liberdades das pessoas (e hoje não propriamente um problema de género) é sempre uma boa razão mas não deve ser um alibi para ‘fugir’ aos problemas reais, com outra origem.
Exceptuando os casos de ‘compulsão sexual’ hiperactiva (um quadro compulsivo-obsessivo ou ainda situações de parafilias), de incidência reduzida, que há poucos anos foi ‘explorado’ por Valerie Tasso (‘Diário de uma Ninfomaníaca’, Ed. D. Quixote, 2004), a maioria esmagadora das ‘motivações’ que levam a prostituição, tem origens muito concretas. Para sermos breves as principais causas serão a pobreza, a falta de oportunidades e défices educacionais. Por outro lado, abundam as consequências seja no campo sentimental, seja no aspecto físico e sanitário (doenças sexualmente transmissíveis), sejam psicológicas. 
Nada disto ‘comove’ o Parlamento Europeu. Interessa antes 'aliviar' aspectos (co)laterais do problema já que não há coragem política, nem interesse, no enfrentar dos problemas económicos, sociais e educacionais que lhe estão subjacentes.
A recomendação do PE soa, ainda, a 'moralista'. Ontem, não consegui evitar a comparação entre esta atitude e a célebre lei salazarista (nº44579 de 19 de Setembro de 1962), que encerrou, a partir de 1963, as ‘casas de passe’, com resultados que se conhecem.
Mais, a recomendação do PE tem um forte odor a ‘hipocrisia judaico-cristã’ que transversalmente parece infectar este assunto e as decisões à volta dele.
Melhor seria se o PE dedicasse algum tempo a debater e a legislar sobre a ‘prostituição política, económica e financeira’…

A Europa e a sua desintegração


Acredito na Europa, de Lisboa aos Urais, apesar das deceções e dos interesses que não mudam. Guardo a esperança legada por De Gaulle e continuada por Helmut Kohl, dois gigantes da política cuja distância ideológica não me afastou dos objetivos comuns em relação à Europa.

Teria votado sempre a favor da integração europeia e do seu aprofundamento, na moeda comum e num projeto federalista onde a democracia tivesse conteúdo económico, social e político, ainda que a miopia de quem nos governava tivesse impedido os portugueses de se pronunciarem. Agora é tarde para sair do comboio em andamento, com a máquina desgovernada e a velocidade imprevisível.

A queda do muro de Berlim foi uma epopeia recebida em apoteose no país onde voltam a surgir velhos demónios. Foi, aliás, Kohl, que continuo a admirar, que cometeu o crime de apoiar, com o Vaticano, a independência da Croácia, levando a Europa a reboque na demonização da Sérvia e na destruição da Jugoslávia. Quem apoiasse a Sérvia era logo acusado de inveterado comunista e de antieuropeu. Os que previram a tragédia e se lhe quiseram opor foram enxovalhados e perseguidos. Os politicamente corretos destruíram um país e criaram a ficção chamada Kosovo, um entreposto da droga e do islamismo.

Agora faltava a Ucrânia. A germanofilia encontrou eco em toda a extrema direita que na Hungria, Áustria e Polónia reeditam a vocação suicida e fascista que germinou antes da Guerra de 1939/45. Os mesmos atores, as mesmas religiões e os mesmos fascistas têm o apoio dos mesmos, de há 20 anos, na Jugoslávia. Dolorosamente, os mesmos que há 75 anos, Ucrânia incluída, lançaram o mundo na mais devastadora tragédia de sempre, sem pensarem que a próxima pode ser a última. Até o antissemitismo criminoso ressuscitou.

Para desdita da Ucrânia e da Europa, o último dirigente ucraniano era um ladrão eleito. O fugitivo biltre, Viktor Yanukovich, só acelerou os apetites germânicos e deu ensejo à exibição fascista na praça da Independência em Kiev. O Parlamento da Crimeia aprovou hoje, quinta-feira, a realização de um referendo sobre autonomia, agendado para 25 de maio. A Ucrânia divide-se e a Europa rompe-se num demente confronto com a Rússia.

Já ninguém sai bem desta tragédia em que a Rússia deu proteção a um gatuno e Merkel e Barroso admitiram a agitação de nazis que exibiram suásticas na roupa e no coração.

Ontem foi a Jugoslávia, hoje é a Ucrânia e, com elas, é a Europa que se desintegra ou se torna um protetorado alemão, de costas viradas para a Rússia.

Ianoukovitch Leaks


A ‘invasão’ da residência do ex-presidente da Ucrânia, Viktor Ianoukovitch, possibilitou o acesso a um vasto e histórico conjunto de documentos, neste momento em análise por um organismo internacional (OCCRP) sediado em Sarajevo (Bósnia) link, onde a manipulação política, o crime organizado, a corrupção, o despotismo, as perseguições, etc.,  começam a ver a luz do dia.
A não perder... para melhor entender o 'colapso de Kiev' e tudo o que, ainda nebuloso, vem a caminho.

A memória e o arrependimento (crónica)

A memória não é apenas a capacidade de fixar, identificar e localizar os sentimentos e factos vividos, para os reproduzirmos ou guardar. Atrevo-me a dizer que é também a faculdade de esquecer o que desagrada ou faz sofrer, o que nos envergonha ou angustia.

Foram tantas as vezes que me senti constrangido pela imprudência e pelo que se chama popularmente «meter o pé na argola», que me surpreende que tão poucas recorde. Hoje, em amena cavaqueira, veio-me à memória um silêncio perturbador que provoquei, há muitos anos.

Foi na primeira metade da década de sessenta do século que foi. Tínhamos acabado de jantar os companheiros de mesa e iniciado o passeio habitual. Éramos quatro amigos que a época e os hábitos obrigavam a cerimónia recíproca, senhor professor para aqui, senhor doutor para ali, o juiz, o delegado do Ministério Público, o conservador do Registo Predial e o delegado escolar.

A conversa decorria mansa com os quatro amigos alinhados de acordo com a condição, o Dr. Moniz da Maia à direita do juiz, o Dr. Dantas à esquerda e eu à esquerda deste. Íamos falando, descontraidamente, numa linguagem contida e mantendo a delicadeza da camaradagem que não cedia à etiqueta e ao respeito mútuo que era devido.

O Moniz da Maia, velho repúblico de Coimbra, onde foi conhecido por Eça, era o único que vestia mal a pele de bem comportado permanente. Era um excelente indivíduo e, nessa noite, disse, referindo-se a alguém, que era uma besta, perante o constrangimento do juiz Carlos Crespo e a minha saída pronta, por distração ou tentativa de ser gracioso, “…não desfazendo…” e um silêncio desconcertante enquanto me secava a boca e vinha à memória o resto do bordão usado na Beira Alta, quando se elogiava alguém, … não desfazendo …, em quem está presente.

Não houve buraco onde coubesse, saliva que molhasse os lábios, e o raio da conversa parecia ter terminado. Hoje lembrei-me desse lapso de tempo, dos amigos levados pelos anos e da cortesia habitual que ampliou a infeliz citação da frase tantas vezes repetida inconscientemente nas aldeias da minha infância.

Hoje, rio-me!

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

As 'demoníacas' sombras…


Uma foto – da visita de Angela Merkel a Israel - que se tornou ‘viral’ na net…

Milagres...

Segunda a lenda houve dois homens que andaram sobre as águas em toda a história da Humanidade:

- O primeiro foi Cristo.

- O segundo foi Pedro.

Mas há um que andou mesmo - o Zé Sousa!

- Mas quem é o Zé Sousa...?!?!?!?!?!?

-É o 'gajo' da foto abaixo!... É da Terceira... dos Açores...



terça-feira, fevereiro 25, 2014

E ELES A DAR-LHE !

O mais alto magistrado da Nação, não querendo ou não podendo fazer o que devia – demitir o governo e convocar novas eleições – e não tendo mais nada de interesse para dizer, arranjou um refrão – o consenso entre as diversas forças políticas – que repete sempre que tem de usar da palavra.

 Passos Coelho também não se cansa de apelar ao consenso entre a coligação governante e o PS, por várias razões, entre elas a de que isso melhoraria a nossa imagem no estrangeiro (para ele, “o estrangeiro” é a Merkel e o seu ministro das finanças). O que ele quer é que o PS partilhe com ele o odioso da sua política desastrosa.

Agora é o próprio FMI que, prescindindo dos seus já citados bonecos de ventríloquo,vem ele próprio repetir a mesma cantilena.

Mas será que ainda não perceberam que tal consenso é impossível? Nenhuma força política séria e honesta aceita qualquer entendimento com o bando de salafrários que se alcandorou ao poder fazendo, conscientemente, falsíssimas promessas ao eleitorado, e praticando depois uma política diametralmente oposta à prometida; com uma corja que governa à margem da lei, violando grosseiramente a Constituição da República de cada vez que apresenta um orçamento; que empobrece a classe média e lança os pobres na mais negra miséria, ao mesmo tempo que enriquece os que já eram ricos e faz aumentar escandalosamente o número de milionários.

Mas S. Exas. não desistem de repetir a protérvia até à exaustão (de quem os ouve).

Arre que já é demais!

Ainda a Ucrânia e os anticomunistas primários

Confesso que não sabia que a Ucrânia tinha um partido comunista e, muito menos, que fosse da simpatia de Putin. Sei da História que houve movimentos nacionalistas que se opuseram ao comunismo e, simultaneamente, ao nazismo, mas não esqueço como foram recebidas em festa as tropas de Hitler pela parte ocidental, à semelhança do que fizeram a Áustria, a Hungria e a Polónia, onde, ainda hoje, sobretudo hoje, ressurge o fascismo com todos os ingredientes xenófobos, homofóbicos e antissemitas.

Não me preocupam as estátuas de Lenine a ser derrubadas, assusta-me a destruição de um monumento aos mortos contra o nazismo. Não me incomoda, antes pelo contrário, a utopia apaixonada da União Europeia, assusta-me o ódio que proíbe partidos, faz justiça popular e incita ao antissemitismo numa orgia demente que lembra fraturas da guerra e esquece os mortos provocados pelos nazis, entre 5 a 8 milhões de civis.

Não há o direito de acirrar ódios, aprofundar clivagens e desintegrar nações em nome de ideologias passadas, de memórias mal enterradas, de paixões momentâneas.

Podiam os terroristas de sofá, os atiradores de palavras pelo cano do faceboock, sentir o coice da culatra da arma que usam e lembrarem-se do que fizeram à Jugoslávia quando o Vaticano e a Alemanha reconheceram a Croácia independente e iniciaram o processo de desmembramento de um país, que provocou centenas de milhares de mortos numa orgia de sangue, ódio e ressentimento.


segunda-feira, fevereiro 24, 2014

24 de fevereiro – efemérides

1582 – Gregório XIII estabelece o calendário gregoriano, um calendário cuja lógica o tornou uma referência para a contagem do tempo, em quase todo o mundo.

1843 – Nasce Teófilo Braga, escritor, filólogo, literato e político que foi Presidente da República.

1901 – A Igreja Ortodoxa excomunga o escritor russo Leon Tolstoi, uma tradição pia de todas as religiões contra os adversários.

1912 – António José de Almeida funda o Partido Evolucionista e parte o Movimento Republicano.

1920 – É constituído o Partido Nacional Socialista Alemão, o partido nazi, de Adolfo Hitler, em Munique. É altura de estudarmos a história da ascensão de Hitler ao poder e as condições que permitiram ao pintor de tabuletas lançar o mundo numa tragédia.

1978 – António Arnault, ministro dos Assuntos Sociais, apresenta o Serviço Nacional de Saúde.

Momento zen de segunda_24-02-2014

João César das Neves (JCN) intitula a homilia de hoje, no DN, “Liberdade, igualdade e amor” numa síntese constrangida entre a Revolução Francesa e a sacristia. Depois de debitar umas trivialidades sobre as revoluções “ britânica de 1688, americana de 1776, francesa de 1789 e seguintes”, sem dizer, talvez por pudor pio, quais foram as seguintes, demorou a chegar à sua obsessão, antes de afirmar que “a luta cultural deslocou-se para questões de sexo e limites da vida”.

Este homem é um escravo do sexo obcecado com a castidade e um defensor da vida que começa nos óvulos ou nos espermatozoides, julgando que a ejaculação, durante o sono, é um genocídio involuntário. Acordado, é um pecado.

A êxtase religioso atinge-o quando afirma que “Vêem-se os conceitos, as lógicas e os métodos que os antigos aplicavam à nobreza, escravatura, pena de morte, proletariado ou racismo, utilizados em assuntos eróticos e hospitalares».

Só quem esteja acostumado ao devoto percebe a linguagem exotérica e a piedade que o devora antes de continuar a leitura: “ O direito ao aborto e à eutanásia tomam o lugar do direito ao voto; a emancipação de mulheres ou jovens vem na vez dos escravos; o doente terminal ou o homossexual surge na posição do operário ou negro. Casamento é contrato; adopção, sociedade”.

JCN lamenta que ao direito ao voto seja acrescentado o direito ao aborto e à eutanásia; que após a abolição da escravatura se emancipem as mulheres; que o casamento seja um contrato e não um sacramento; enfim, é um fóssil do Concílio de Trento.

Há pérolas de que não quero privar os leitores. Ei-las: “Dentro da fraternidade familiar, liberdade e igualdade tomam sentidos estranhos. Por isso, divórcio, aborto ou eutanásia só retoricamente libertam; de facto, matam. Fora da metáfora não existe igualdade entre jovem e velho, homem e mulher, casamento e união de facto, pais e filhos, amor conjugal e promiscuidade, sexo e perversão».

A obsessão do sexo é, em JCN, síndrome de privação. E termina com uma frase banal: “A família é o que sempre foi e será. Ela constitui o verdadeiro mundo sempre novo.”

«Bem aventurados os pobres de espírito…», como diz a Igreja de JCN.

A Ucrânia, a anarquia e o futuro

Não me sinto capaz de tomar partido na rebelião popular, atiçada do exterior, num país em ruínas. A pobreza extrema, uma agricultura destruída no que foi o celeiro da Europa, a divisão étnica e a tradição autoritária e antidemocrática estão na origem de confrontos, que ameaçam continuar, para vingar o sangue já derramado.

Não vale a pena, agora, recordar as matanças e as migrações forçadas por Estaline que alteraram a matriz étnica e cultural do segundo maior país da Europa.

O que não entendo é a explosão do nazismo em apoio aos partidos que anseiam a união à Europa, como se a Rússia fosse um país africano e os nazis indefetíveis partidários da União Europeia. Também não entendo o apoio de alguma esquerda às forças pró-russas como se Moscovo fosse um soviete dirigido pelo comunista Ieltsin.

A disputa entre potências capitalistas, com a Rússia a ser alvo do apetite da Nato, pode provocar uma hecatombe e debilitar o poder russo. De certeza, altera-se a correlação de forças, com a NATO contida nos limites atuais, uma derrota para a Europa que serve de ponta de lança aos EUA, ou expandida até à fronteira russa, com a derrota de Moscovo.

É curioso ver comunistas a defenderem o poder sufragado em eleições e os reacionários a apoiarem histericamente a insurreição e atos de justiça popular, posições corajosas de quem está longe do conflito.

Debilitar a Rússia é acender o rastilho das antigas repúblicas soviéticas onde o fascismo islâmico pretende a desforra e a sharia, enquanto a Turquia se orienta, a recitar o Corão, em direção a Meca e as primaveras árabes mergulham na anarquia e nas cinco orações.

Com os erros da meteorologia euro/americana a anunciar primaveras árabes, temo que a Rússia fique à mercê de irrefreáveis hordas islâmicas que, no ocaso da civilização árabe, exacerbam a devoção e a demência.

E não haverá inocentes.

domingo, fevereiro 23, 2014

Mais uma adenda à volta do XXV Congresso do PSD

O PS cometeu hoje um clamoroso erro político.
 
A indicação de Francisco Assis para liderar as listas socialistas nas eleições europeias era esperada mas tinha um ‘timing’ definido.
 
Entretanto, o nomeado para liderar a coligação PSD/CDS, Paulo Rangel, desafiou, no Congresso deste fim-de-semana, com alguma virulência (‘quanto antes’!, e outros 'piropos'), o PS a indicar já o seu cabeça de lista link.
 
O anúncio de hoje, por parte do PS link, é uma alteração da data aprazada (5 de Março), que era entendida como integrante de uma estratégia eleitoral, i. e., após o Congresso do PSE link.
 
Esta mudança de atitude revela algo que é impensável. Isto é, fica a sensação de que a agenda política do PS foi colocada a reboque dos interesses da coligação governamental.
 
Ao que tudo indicia e sem melhores explicações é com um erro deste calibre que o PS  abre a campanha para o parlamento europeu.

Duas notas marginais sobre o Congresso do PSD.

1.) No 'arraial de encerramento' do Congresso do PSD, entre euforias descontroladas e divertimentos retóricos para todos os gostos, ouvimos uma frase que choca frontalmente com os 'sucessos' que foram objecto de festivas comemorações por parte da maioria dos congressistas.
Passos Coelho disse:
Tudo o que fizemos não chega. Precisamos de fazer muito mais. Não é fácil, não é menos exigente…link.
Então como é?
Os tais sacrifícios que ‘valeram a pena’ vão ser substituídos por mais sacrifícios?
 
2.) Neste Congresso os repetidos apelos a uma convergência com o PS atingiram as raias da ‘overdose’. Tornaram-se num massacre, transformaram-se num eco e perderam qualquer credibilidade. Trata-se de um ‘slogan’ eleitoral do PSD que tem de ser transformado naquilo que efectivamente é: um ruidoso ‘soundbite’.
Existe, porém, algumas responsabilidades do PS para que essa lenga-lenga continue a ‘infernizar-nos’. Alguém no PS terá de esclarecer frontalmente que o consenso básico está foi adquirido. Trata-se do tão falado ‘Tratado Orçamental’ link. Daí para a frente – em termos democráticos - só poderá existir uma ampla abertura política para surja (já demora) uma verdadeira oposição.
Terminado o tão falado 'período de protectorado’ e esgotado o tempo do ‘programa de resgate’ que o PS teve (por ‘pressão’ da actual maioria) de solicitar, negociar em conjunto e depois assinar, começa um novo ciclo político em que para cumprir objectivos orçamentais (controlo do défice) e diminuir a dívida pública existirão necessariamente múltiplos caminhos. Nenhum 'tratado' determina que a Europa é um feudo do PPE.
Na verdade, existe um novo facto político no contexto nacional e novas perspectivas. Terminou [terminará em Maio] o tempo das soluções ‘sem alternativas’.  Em Maio o PS adquire a 'carta de alforria' que lhe permitirá [re]encontrar-se com o socialismo (que tem estado residual e arredio) ou com a social-democracia (tão vilipendiada no Congresso do PSD). 
 
A não ser que esteja a ser cozinhado, em conjunto, qualquer coisa de ‘cautelar’…

As frases

(Freud no Cloliseu)

«Quando o resgate chegou, o País tinha 94% de dívida pública. A troika falava de um teto máximo de 114, 9%. Ora, em menos de três anos, a dívida explodiu mais de 35 pontos percentuais, ultrapassando mesmo em 15 pp o limite antecipado pela troika. Entre 2000 e 2007, a dívida aumentou 17 pp. Era o tempo do "despesismo". Com a austeridade, que visa controlar e reduzir, a dívida cresceu a um ritmo quatro vezes superior!»

VIRIATO SOROMENHO-MARQUES Ontem, DN


Córdova


A ancestral mesquita de Córdova (actualmente designada sob um nome híbrido de ‘mesquita-catedral’) volta a merecer a atenção pública tendo-se transformado num problema regional (para a Andaluzia) mas, na verdade, a sua dimensão é maior  [mundial] já que diz respeito à propriedade e usufruto de bens culturais sejam civis, militares, religiosos, profanos, artísticos, arquitectónicos, museológicos ou até mesmo naturais.
Está em curso uma petição link para transformar esse riquíssimo e único património histórico-religioso (há quase 30 anos Património da Humanidade link) num templo ecuménico, onde ficasse assegurada a prática de uma ampla liberdade religiosa. Esta é mais uma ‘acção popular’ no sentido de devolver aos cidadãos a capacidade de disfrutar em pleno as suas liberdades, pública e constitucionalmente, consagradas.
Indo mais além do solicitado na petição julgo que este conjunto histórico-religioso e cultural deveria ser um ‘espaço aberto’, um ‘museu-vivo’, que os cidadãos pudessem usufruir conforme desejassem. Uns oravam (e não só os crentes das ‘religiões do livro’ como se pretende) outros pura e simplesmente tinham oportunidade de disfrutar aquela extraordinária beleza, arquitectónica e patrimonial.
Travar a possessão redutora da Igreja (no caso vertente será por usucapião?) é uma missão a que os cidadãos livres não podem ficar indiferentes, mesmo para as mentes povoadas por fantasmas acerca de uma ‘islamização ocidental’ nascente e subsidiária das glórias passadas de um histórico Al-Andalus (Ocidente). As nossas liberdades (é disso que se trata) devem estar acima de tacticismos imediatos (ditos 'anti-terroristas') que pretendem responder às ameaças do momento, mas são eminentemente castradoras (derrogadoras) de direitos individuais.
 
Finalmente, a notícia sobre a petição reavivou-me memórias de uma passagem por Córdova ocorrida há uma dezena de anos.
Encontrando-me a visitar a mesquita em plena canícula estival (na Andaluzia severa) trajava vestuário adequado à elevada temperatura (T-shirt e calções). Inebriado no meio das centenas de colunas rematadas por arcos em ferradura, brancos e vermelhos, foi abordado por um clérigo que me confrontou com a discrepância entre a exiguidade do meu vestuário e a dignidade do local.
Respondi-lhe, ironicamente, que a minha família há dezenas de gerações tinha deixado de usar ‘djellaba’… e virei-lhe as costas!

João Paulo II (JP2) – o santo encomendado


A devota adulação e o indulgente esquecimento dos defeitos de JP2 facilitaram a Bento XVI a reabilitação que a Comunhão e Libertação, os Legionários de Cristo e o Opus Dei desejavam. Estas seitas pouco estimáveis lembram – não sei porquê –, a PIDE, a Legião e a Mocidade Portuguesa, na defesa do salazarismo e da sinistra figura inspiradora.

O funeral de JP2, a instigar a rápida canonização, “santo súbito”, foi encenado por um padre polaco e outros membros da igreja do seu país natal, que distribuíram os cartazes e orquestraram os slogans. 

JP2 viu em Pinochet e na dedicada esposa um «casal cristão exemplar», ministrou-lhes, embevecido, a eucaristia e apresentou-se à varanda do Palácio La Moneda com o frio torcionário, para ser ovacionado pelos devotos, sem se lembrar de que, naquele palácio, se tinha suicidado Salvador Allende, presidente eleito, deposto pelo seu amigo golpista.

 JP2 intercedeu pela libertação de Pinochet quando foi detido em Londres, por crimes contra a humanidade, por ordem do juiz Baltasar Garzon, usando argumentos jurídicos. Pediu a sua libertação, alegando que os crimes foram cometidos quando gozava da imunidade de Chefe de Estado, mas nunca censurou a sentença islâmica que condenou à morte Salmon Rushdie ou intercedeu por este. 

JP2 não se limitou a proteger as ditaduras fascistas sul-americanas, apoiou o derrube de governos democráticos de esquerda numa cegueira insana de quem confundiu ditaduras estalinistas com o socialismo resultante de eleições e sujeito à alternância democrática.

Em 23 de Fevereiro de 1981, quando o grotesco tenente-coronel Tejero Molina tentou restabelecer a ditadura, deu-se a coincidência de estar reunida a Conferência Episcopal Espanhola. Nem o Papa, nem os bispos, nem o seu núncio apostólico, condenaram a tentativa de golpe de Estado, limitando-se a recomendar piedosamente, aos espanhóis, a oração, irrelevante para o fracasso do golpe.

Em relação à SIDA o defunto Papa portou-se como troglodita. Não se limitou a alvitrar a castidade, foi cúmplice da mentira que atribuía ao preservativo «minúsculos orifícios» permeáveis ao vírus e promoveu a difamação sobre a eficácia em países africanos onde o flagelo estava descontrolado. O arcebispo de Nairobi foi mais longe, atribuindo aos preservativos responsabilidade pela SIDA, sem ter sido desautorizado pelo Papa, apesar do ruído mediático feito à volta da estulta declaração.

Muitas violações de crianças se teriam evitado se em vez do silêncio cúmplice, exigindo discrição à ICAR sobre os casos de pedofilia de padres americanos, apesar das repetidas denúncias que lhe foram feitas, tivesse mandado comunicar os casos às autoridades dos EUA, evitando a recente censura, dura e inédita, feita pela ONU ao Vaticano.

João Paulo II era fã de Josemaria Escrivá, admirador do genocida Francisco Franco, que mandou fuzilar centenas de milhares de adversários, sem nunca ter faltado à missa ou à eucaristia. Não admira a pressa com que JP2 elevou a santo o indefetível franquista. É justo lembrar os factos no dia de hoje, 23 de fevereiro, 33 anos após a tentativa de golpe fascista em Espanha.

sábado, fevereiro 22, 2014

Congresso do PSD

Manda a honestidade que preste homenagem a um excelente discurso de um adversário, um discurso imaculado na forma e na substância, cheio de força e convicção, a marcar a arrancada para as eleições europeias.

Foi o discurso de Paulo Rangel, brilhante orador e político de primeira. Lamento que os adversários possam ser surpreendidos pela garra do eurodeputado.

Quanto à demagogia, venha o primeiro partido que atire a primeira pedra.


Passos Coelho, a social-democracia e o descongresso do Coliseu

Passos Coelho, porta-voz da coligação governamental e putativo líder do PSD, tirou da cartola ultraliberal a social-democracia, forma de Governo de que terá ouvido falar nos corredores da JSD e de que sabe tanto como da arte de governar.

Parece um vegetariano a tirar do bolso a sanduíche de leitão ou o indiano muçulmano de “Os Versículos Satânicos”, a sonhar que lhe saíam porcos pela comissura dos lábios, após ter sobrevivido ao atentado terrorista executado à bomba, por separatistas sikh, no avião em que seguia.

No circo, donde os mais cautos se alhearam, apareceu Luís Filipe Meneses a discursar e a fazer queixinhas da sua derrota no Porto, assumindo a derrota por inteiro e atribuindo culpas a outros, um paradoxo recorrente do ex-edil de Gaia. Aproveitou para anunciar, à guisa de proposta, Paulo Rangel para liderar a coligação às eleições europeias, surpresa que está reservada para Passos Coelho, às 20H00. Para não ficar atrás, PPC foi à tribuna ameaçar com uma nova intervenção para hoje e aproveitou para anunciar os cabeças de lista de um partido sem cabeça.

A surpresa foi a nomeação de Miguel Relvas para liderar um desses órgãos como se ele precisasse disso para liderar o PM. Faz-lhe tanta falta um cargo partidário para ter poder como as habilitações literárias para ter uma licenciatura.

O número mais suculento está reservado para Pedro Santana Lopes que é o profissional dos congressos. Entretanto as figuras menores e figurantes desconhecidos passam pelo microfone para serem vistos pela família.

É um congresso pífio, trata-se de um descongresso que desconsegue a credibilidade de que o PSD precisava.

A social-democracia, segundo Passos Coelho


Itália: Renzi, Alfano e Padoan...


A Itália está a viver mais uma mutação política que resulta essencialmente de acertos (de contas?) no PD e de ‘ajustamentos’ com Angelino Alfano do partido NCD (Novo CentroDireita) e ex-delfim de Berlusconi.
 
Para além da novidade da paridade de géneros entre o pleno de ministros dirigidos por Matteo Renzi link, fundamental para prever a evolução da política italiana será analisar o perfil do novo ministro da Economia e Finanças, Pier Carlo Padoan, ao que parece ‘sugerido’ pelo presidente da República Giorgio Napolitano.
Trata-se de um reputado economista com um ‘circuito profissional’ muito significativo e revelador.
No espaço europeu foi consultor na Comissão Europeia e no Banco Central Europeu.
A nível internacional trabalhou no Banco Mundial e foi economista-chefe na OCDE.
Em Itália desempenhou funções de director executivo do FMI.
Com este currículo o curso da política económica e financeira italiana tornou-se bastante previsível.
 
Nota: Até ao momento não foram anunciadas relações com o Banco de Investimento Goldman Sachs…

Notas avulsas sobre o Congresso do PSD

A diferença entre a orquestra afinada do Coliseu e o País é abissal. No País não há lugar para ninguém, no Coliseu havia lugar para todos. Cá fora, houve vaias à entrada do PM; lá dentro, só houve palmas.

Quando PPC afirmou que «estamos hoje muito melhor do que há dois anos», surgiu a ovação genuína. Era notório que estavam lá os desempregados que tinham conseguido emprego, ao contrário de centenas de milhar de portugueses que o perderam e que não são congressistas.

Lembrei-me da Loja dos Pássaros onde um papagaio que dizia palavras em português custava 500 euros; outro, que as dizia também inglês, custava 1000 euros; um terceiro, 2.000 euros. Um cliente, estranhando o preço, inquiriu quantas línguas falava o último. O dono da loja advertiu que nada dizia mas que os outros o tratavam por Presidente. No Coliseu todos chamaram Presidente a Passos Coelho.

Enquanto fustigou os presentes, com banalidades e números que ninguém pôs em causa, afirmou que o PSD era um partido social-democrata. Foi uma hora entre sócios, onde só faltou, para salvar as aparências, o Prof. Cavaco. Disse que nos últimos 10 anos, antes dele, isto é, do dilúvio, «a dívida duplicou, crescendo 10% ao ano», como se uma dívida que cresce 10% ao ano, durante dez anos, só duplicasse.

Passos Coelho atribuiu ao PSD a democracia julgando que o partido a precedeu, sem se dar conta de que, antes, não sentiu necessidade. Falou de 40 anos de luta pela liberdade, omitindo o tempo que ainda falta até 6 de maio e os dias que Abril já levava quando o PPD sentiu necessidade de existir.

Desconseguiu convencer os portugueses dos rios de mel doce e das virgens que reserva aos que votarem no PSD nas próximas eleições, mas os presentes, atentos, veneradores e obrigados, acenaram que sim, levantaram-se ordeiramente e aplaudiram-no, de acordo com o que lhe devem, quando, feliz, saiu pela crença natural.

O espetáculo, onde os adversários o desprezaram com a ausência, vai prosseguir no fim de semana. Até à chegada de Paulo Portas, o rival que mais o assusta, Passos Coelho pode dizer o que quiser e o seu contrário que a orgia de felicidade vai continuar.

Cá fora, o tempo frio, a chuva e a desolação não atrapalham o circo mediático encenado no Coliseu. Passos Coelho continuará a dizer que foi ele que tirou o País da forca e não confessa que o conduziu ao cadafalso.


sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Os malabaristas em 'exame'...

Se algumas dúvidas existissem sobre a natureza da euforia demonstrada pelo actual Governo, acerca da ‘ténue’ recuperação da economia, do ‘tipo cavalo inglês’ (aquele que morreu de inacção quando se estava a habituar a viver sem comer), algumas das notícias vindas a público link sobre novas exigências da Troika nesta penúltima (?) ‘avaliação’, esclarecem cabalmente o que se está a passar nos bastidores das negociações link.
 
No campo dos ‘inactivos’, como este Governo chama aos reformados, medidas tendentes a iludir o TC estarão na forja, sob o nebuloso manto de efectuar “ao longo de 2014, uma reforma do sistema de pensõeslink, entenda-se, transformar os cortes efectuados até agora como transitórios nas suas – para este Governo – dilectas ‘soluções estruturais’ e duradouras.
 
Para o vulgar cidadão é perfeitamente incompreensível (para não dizer intolerável) como se pretende dinamizar a economia restringindo ainda mais o poder de compra dos trabalhadores (ao que parece tanto públicos como privados), como se propõe dinamizar o mercado de trabalho facilitando os despedimentos e reduzindo as compensações por perda de posto de trabalho, como se adivinha (não passa disso!) uma melhor distribuição da riqueza em concomitância com uma brutal compressão da retribuição da força do trabalho.
 
Ah! Há mais uma acha para esta 'fogueira'. É relativa aos custos das rendas que - para entreter - estarão em cima da mesa das presentes ´negociações’ com a Troika. Só que à margem destes encontros e destes 'exames' tudo já foi (previamente) definido. Basta ler as declarações do ministro da Energia “Moreira da Silva: Preço da electricidade não desce até 2020 [*]” mas, pelo contrário, aproveitou-se para anunciar um aumento anual de 1,5 a 2% ao ano. Despido destes malabarismos o (já) decidido significa que - para as rendas da energia eléctrica - terá sido aprovado um aumento cumulativo de cerca 10 a 12% (até 2020) de certo modo coincidente com os cortes em salários e pensões a efectuar do modo duradouro (a pensar em 2020?). Faltará saber se o calendário 'acordado' por este Governo para os custos dos combustíveis e para as rendas das PPP ultrapassam ou não 2020.
Como estas 'engenharias financeiras' e os correspondentes malabarismos políticos e sociais se ‘encaixam’.
 

O referendo à coadoção

O Tribunal Constitucional (TC) não chumbou um referendo que qualquer leigo sabia inconstitucional. O TC chumbou a inépcia do grupo parlamentar do PSD, o frete que o deputado da madraça jovem fez ao putativo PM, a manobra de litigantes de má fé com que quiseram desviar as atenções dos problemas que agravam no País.

A direção do PSD quer deixar cair a proposta que encomendou à Jota. Hugo Soares diz que resiste. Passos Coelho ainda não falou. Quando falar, em vez de pedir desculpas à AR e ao País, fingirá que é PM.

É a esta gente que devia estar ainda na Universidade, a preparar-se, que o país entregou o poder.

O povo abúlico, derrotado, roído de remorsos, com o PR assimilado no Governo, espera que a legislatura se cumpra como o moribundo em sofrimento aguarda ansioso o último suspiro.

Que pouca sorte a nossa. E que sorte ainda pior a das crianças a quem a impreparação e o preconceito negam o direito à família.

Pelos vistos, há profetas verdadeiros.


quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Voltaire, o Cândido e a comunicação social

Esquecido da propriedade dos órgãos da comunicação social, julguei que a propaganda ao Governo correspondia à melhoria das condições de vida dos portugueses e à queda do desemprego. Para ter a certeza de que os jornais não me enganavam, vi a SIC, entre as 23H00 e as 14H00 e tive a certeza de que a economia estava próspera, apenas urgia fazer acertos estruturais, isto é, despedir os funcionários públicos.

Decididamente, segundo ouvi, tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos. Suspeitei da fartura e lembrei-me de um tal Dr. Pangloss para quem, também este, é o melhor dos mundos possíveis, onde tudo corre bem e da melhor maneira.

Acabei por me dar conta de que em vez de um Dr. Pangloss estavam dois, dirigidos pelo avençado José Gomes Ferreira. Só quase no fim me lembrei donde conhecia os teólogos da felicidade que nos coube.

Voltaire tinha adivinhado a sua existência e o ridículo a que os submeteu encontra-se lá no «Cândido», obra a que urge regressar. Só não disseram que as desgraças da invernia – como garantiria o Dr. Pangloss –, eram a prova do otimismo que os acompanhou.

As teorias de Pangloss são perfilhadas por Passos Coelho e Portas, ainda que o primeiro nunca ouvisse falar de Leibniz e da sua crença no mundo perfeito. A nós, portugueses, só nos falta um Voltaire que os ridicularize e exorcize esta campanha de felicidade com que se preparam para nos embalar antes das eleições europeias.


Um bispo reformado de professor era o general que faltava

Major-general Manuel Linda


Num país laico há professores a fazer proselitismo à custa do Orçamento, professores que os bispos nomeiam e exoneram livremente, prestando serviço a uma religião particular, mas pagos por todos contribuintes.

Podem acabar as aulas de humanidades mas mantêm-se como oferta obrigatória as aulas de Religião e Moral católica. Há quem comece a acumular tempo de serviço a doutrinar os alunos, acabe por ultrapassar colegas mais classificados e progrida como professor de biologia.

Agora é nas Forças Armadas, a que a Igreja católica conseguiu juntar as forças policiais, que vai ser nomeado um novo bispo com a patente de major-general. Se os católicos fardados precisam de um comandante, não tardará que um major divulgue a bondade do Corão e um tenente as delícias da Tora. O que surpreende é a obrigação do Estado ter de pagar a salvação eterna dos militares e polícias.

Manuel Linda era o bispo auxiliar de Braga que o múnus retirou das funções docentes, com a pensão de 1429 euros, situação que complica a integração na função militar ativa.

Neste momento já dispõe de gabinete, automóvel, motorista e secretária, e tudo indica que o ministro da Defesa e a ministra das Finanças o autorizem, por despacho conjunto, a acumular a pensão de professor com a de comandante supremo dos católicos fardados, uma tença de mais 3518,62 €.

O novo bispo, cuja falta é visível, precisa do reconhecimento oficial. Como ele próprio se interroga: «Como é que eu de Braga posso prestar assistência, por hipótese, à GNR de Vila Real de Santo António?». De facto, como pode um cabo, ansioso por se crismar, recorrer ao bispo se ao alvará para administrar o sacramento da confirmação, não juntar a patente de major-general, contra-almirante ou superintendente-chefe?

Portugal pode ter carências e não se justifica que faltem capelães aos católicos fardados, tal como não faltam nos hospitais e nas prisões. Agora, os evangélicos também querem meter um bispo nas FA. Espera-se que, pelo menos, lhe paguem como cabo-mor.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 19, 2014

O PS CADA VEZ SURPREENDE MAIS

É público e notório que o PS tem dado sucessivos tiros no pé e tem feito uma oposição frouxa, cinzenta, apagada, insuscetível de galvanizar o povo. Isto não o ajuda nada, antes o vai prejudicar nas próximas pugnas eleitorais. Não consigo perceber porque agem assim.

Mas então não é que o proeminente Dr. António Vitorino apareceu hoje na TV a apresentar um livro de (ou sobre) o inqualificável Vitor Gaspar e a desfazer-se em elogios à odiosa personagem? Isto é inadmissível!

Eu sei que em democracia nada impede que se elogie um adversário político. Mas Gaspar não é digno de ser considerado um adversário político. Não merece esse estatuto. Gaspar é o pior carrasco do povo português de todos os tempos. É um traidor à Pátria, que governou apenas para satisfazer os interesses dos credores, designadamente da Alemanha, obedecendo a todas as vontades da MerKel e do seu ministro das Finanças.

Qualquer pessoa de bem se recusaria a apertar a mão ao abjeto Gaspar. Mas Vitorino foi ao ponto de o abraçar, num amplexo obsceno e promíscuo!!!!! O que vem a ser isto?! Confesso que não compreendo.

Ou o PS está de facto inadmissívelmente frouxo ou então Vitorino está a mais no PS. Dixit.

Factos e documentos

A 1.ª República foi generosa   (amável cedência de M. P. Maça)

Clique na imagem

Previsões...

O PSD está em vias de ficar nas mãos de Santana Lopes, Relvas e Marco António, depois do suicídio político de Luís Filipe Meneses, no Porto, do fim do nado-morto Passos Coelho e do funeral de Alberto João Jardim, que ainda se julga vivo.

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Carta para Giordano Bruno

Meu caro Giordano Bruno:

Mesmo para um frade dominicano, habituado às maldades da ordem e à substituição da inteligência pelas orações, foi terrível suportar sete anos de julgamento. Uma coisa é a reclusão voluntária no convento, na convicção de que um ser imaginário se rebola de gozo com o silêncio e as súplicas, para lhe reservar um lugar vitalício no Paraíso; outra, é a prisão nas masmorras da Inquisição, a antevisão permanente da fogueira que espera o réprobo, a sindicância perversa à inteligência, as ameaças pias e o convite à retratação.

Nos finais do século XVI, pensar era heresia, redigir livros profanos, uma abominação, e ter ideias, o caminho mais rápido para a fogueira e o Inferno.

Foste acusado de blasfémia, conduta imoral e heresia porque os teus livros divergiam da teologia dogmática e referiam doutrinas diferentes da filosofia e cosmologia que a Igreja católica ensinava.

O teu crime era a ciência a que te dedicavas e para os néscios que te julgaram, incapazes de imaginar que havia outros mundos para lá da sua ignorância, só restava acusarem-te de sustentares opiniões contrárias à fé católica.

Depois, para fingirem que sabiam o que diziam, acusaram-te de coisas tão graves como
opiniões contrárias à fé católica, sobre a Trindade, a divindade de Cristo e a encarnação, de dúvidas sobre a virgindade de Maria e os sinais cabalísticos da consagração da hóstia que a transformam em corpo e sangue de Cristo, como qualquer cego claramente vê.

O que mais os ofendeu foi a tua premonição de que havia mais mundos e, sobretudo, de que era infinito o Universo – como sabias –, e os laivos de panteísmo que faziam ranger os dentes às cavalgaduras pias que, por isso, te acusaram de magia e adivinhação.

Giordano Bruno, por maior raiva que o Vaticano alimente pela estátua que os maçons te erigiram, por mais esforços que tenha feito para a demolirem, ela é destino obrigatório dos livres-pensadores, enquanto os santos enegrecem desprezados com o fumo da velas.

Hoje, 414 anos após aqueles pulhas te queimarem, por todo o mundo há quem despreze as orações e recorde a frase com que uma vez mais desafiaste a Igreja quando os sádicos inquisidores te condenaram à fogueira: «Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu ao ouvi-la».

Sábias palavras, inexcedível coragem, Giordano Bruno.

Saudades para Vanessa (crónica)

Há nove anos, num dia de fevereiro de 2005, lia e não acreditava. Voltava a ler. Julgava estar a perceber mal, e relia. Pensava que havia gralha, que o jornalista tivesse cometido um lapso e dissesse o contrário do que queria. Li uma última vez.

Senti comoção e a raiva. Sabia das baixezas de que os homens são capazes. Estive 26 meses na guerra colonial. Mas, talvez, a estupidez não seja o pior dos males. Pior só a estupidez e a crença reunidas.

Paulo, drogado, saído da prisão de Custóias há quatro meses, desempregado, fazia filhos em várias mães no Bairro do Aleixo, bairro de problemas e miséria da cidade do Porto. Uma das filhas chamava-se Vanessa. Tinha cinco anos e a vida para viver. Paulo matou-a à pancada.

A mãe de Vanessa mandou rezar-lhe missa do 7.º dia na igreja de Lordelo do Ouro, no Porto. Foi o mimo que lhe faltou em vida.

Copiei devagar o que li e reli na pg. 90 da “Visão”, desse dia. Domingos Oliveira, padre que celebrou a missa, por Vanessa, criança de cinco anos, morta à pancada pelo pai, disse na homilia: “matar uma criança no seio materno ainda é mais violento do que matar uma menina de 5 anos” e invetivou a sociedade “que favorece o uso de preservativos”.

Havia na demência mística do padre Domingos Oliveira uma tal insensibilidade, um tão grave insulto à memória de uma criança mártir, um desrespeito tão grande pela mãe que encomendou a missa e um tamanho ultraje à vida, que estupefazia e arrepiava.

Esse almocreve de Deus, apóstolo da fé, santa besta fiel ao Papa, padre católico, achava preferível matar uma criança de cinco anos à pancada do que interromper a gravidez de um embrião de cinco semanas.

Queriam que eu esquecesse esse facto cuja data exata não registei? Que esquecesse as Vanessas mortas aos cinco anos por pais violentos e drogados? Que ocultasse o nome dos padres que perpetuam a violência e os preconceitos?

domingo, fevereiro 16, 2014

Factos e documentos

Luís Filipe Meneses foi o Alberto João Jardim de Gaia, a quem não faltou o seu Jaime Ramos, Marco António, e que podia ter sido o Passos Coelho de Portugal.

Generosidade republicana

(Enviado por M. P. Maça)

Cerâmica nacional


18 de fevereiro – efemérides

O melhor:

1564 – Nasce Galileu Galilei, notável astrónomo italiano a quem o horror da Inquisição à ciência havia de infernizar a vida.

1798 – Napoleão conquista Roma e decreta o fim do poder político da Santa Sé. Pio VI recusa a rendição, é detido e levado para França.

1911 – O Governo português cria a comissão para o Estuda da Reforma Ortográfica.

1931 – Tem início a publicação clandestina  do Avante, órgão oficial do PCP.

sábado, fevereiro 15, 2014

As eleições europeias e o difícil momento do PS…



As eleições europeias ameaçam ser o novo detonador político nacional. É óbvio que as ‘ondas de choque’ resultantes deste acto eleitoral não ameaçam só o PS mas, antecipadamente, a Direita esforça-se por alijar as consequências políticas e partidárias em caso de uma eventual derrota (a somar à das autárquicas).   
Para  conviver bem com o mal dos outros (da Direita) será prudente olhar atempadamente para a nossa volta. Na verdade, os problemas político-partidários nacionais não se resumem ao PS. Afectam, na generalidade, aquilo a que se designa por Esquerda. Todavia, e apesar de todas as mudanças ocorridas nos últimos anos, continua a ser verdadeira a velha crença que não existirão soluções na Esquerda que excluam o PS. É a chamada ‘posição charneira’ que pouco tem facilitado o diálogo mas acarreta maiores responsabilidades.
E, sendo assim, é notório que PS – ‘motor’ de qualquer mudança que as próximas  eleições são uma oportunidade - está a entrar num ‘estado de ebulição’ precedido por sucessivos ‘avisos à navegação’ por parte de Ferro Rodrigues link, Carlos César link e António Costa link.
O aparente distanciamento de Francisco Assis – bem como a sua recente sintonia com A. Costa link - vem adensar mais a situação interna já que depois da última ‘pacificação’ (reunião da Comissão Nacional de 10.02.2013, em Coimbra) seria o natural cabeça de lista para as eleições europeias de Maio 2014.
Dificilmente, António José Seguro conseguirá gerir uma tão ensurdecedora ‘gritaria’ e aguentar tão arreigado 'cerco'.
Acresce, ainda, a pressão da facção Sócrates que mostra alguma impaciência e, eventualmente, discordâncias estratégicas bem expressas em recente conferência no ISCTE ao afirmar que “gostaria que a esquerda se apresentasse, ao nível europeu, com um novo programa políticolink.
Finalmente, Mário Soares, velho patriarca do PS que continua a agitar as águas da política nacional e partidária, à revelia e em completa assincronia com a actual direcção do PS link, evidenciando - para futuro - que nas ‘magnas reuniões de convergência’ dispensa, olimpicamente, António José Seguro.
A este negro e muito pouco auspicioso quadro para a liderança socialista deverá enxertar-se a ‘atitude de avestruz’ de Seguro ao aparecer em público assegurando que o PS "está de boa saúde e recomenda-se"  link.

De facto, tornou-se dramaticamente evidente que para o PS e para a actual direcção que o ‘acordo de Coimbra’, de há 1 ano, esgotou-se. Hoje, será mais adequado referir as 'tréguas de Coimbra' do que acalentar  um acordo morto. Paira a sensação de que os compromissos se romperam, irremediavelmente.

A 100 dias das eleições europeias este estado confuso e letárgico é observado, transversalmente (no PS e na política nacional), como uma situação deveras preocupante.

No PS, os equilíbrios internos são cada vez mais instáveis e está claro que uma nova ‘clarificação’ terá de ocorrer (...ou já estará em curso).
Só que o tempo escasseia, quer para PS, quer para o País, que não pode deixar de desejar uma derrota da actual maioria nas eleições europeias. Este seria o grande ‘prémio’ que seria oferecido aos portugueses para assinalar o fim ‘formal’ da intervenção externa e directa no nosso País. Mas mais do que isso alimentaria uma réstia de esperança de que uma intervenção indirecta e oculta que se segue ao 'fim do protectorado' poderia ser regulada, domesticada, quiçá, enjeitada.
As eleições europeias pouco adiantarão na definição das políticas da UE dominadas, cada vez mais, por interesses e estratégias que não se submetem a votos, nem são influenciados por estes. As políticas europeias são cada vez mais o reflexo sistémico de poderes instalados através dos nebulosos e insondáveis ‘mercados’. Urge deixar de lado falsos pudores ou ingenuidades. As eleições europeias devem (têm de...) ser transformadas num instrumento de luta política interna contra o ‘franchising político-mercantil’ que por cá se instalou, já lá vão 3 anos.
E, mais uma vez, ou melhor, pelo andar da carruagem, este ‘momento’ corre o risco de se transformar numa (em mais uma) ‘oportunidade perdida’.

Pensamento

O escritor é um lavrador que revolve a terra da memória e tira com o arado as vogais e consoantes com que constrói as palavras que planta nas páginas em branco do livro por fazer.

Ora semeia a eito, ora apara os ramos das árvores que nascem da fantasia do cultivador. Dá-lhes as cores e o cheiro, mistura-as a seu gosto e enche o campo de palavras, para as mondar antes de as colher em livro ou guardar no disco rígido se a timidez ou a avareza o inibem de as partilhar.

É o jardineiro que debuxa canteiros onde nascem frases que se transformam em plantas e darão folhas, flores, frutos e sementes nas árvores derrubadas para fazerem um livro.

Onde o arado arranha a morfologia da palavra ou fere na frase a sintaxe, o escritor alivia a rabiça e procura um novo rumo para a linha que há de sair com a pureza do diamante e a beleza da prosa que preenche as páginas em branco do livro que será.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

A direita e a Constituição da República

 Há quem pense que se deve à medíocre cultura democrática de Passos Coelho ou a débil convicção de Cavaco o desprezo pela Constituição que juraram cumprir e fazer cumprir. Não são os académicos que ornamentam um Governo sem tino, mas com forte ideologia ultraliberal, que podem estimar a matriz do nosso ordenamento democrático.

Apesar de termos uma Constituição aprovada e aplaudida pelo PCP, PS e PSD, apenas com reservas do CDS que não a aprovou; apesar das revisões que tornaram possível que os partidos da direita governassem apenas submetidos, como em qualquer democracia, ao respeito pela lei fundamental; apesar de não ter havido, até ao assalto do poder pelos extremistas que tomaram conta do PSD e do Governo, problemas de governação; manda a verdade que se diga que a intriga contra a CRP começou com um general fascista que Sá Carneiro inventou contra o general Eanes na candidatura ao segundo mandato deste.

Fica aqui o documento que o recentemente falecido general, ex-governador de distrito e ex-secretário geral de Angola, ao serviço da ditadura, divulgou contra a Constituição.

Uma decisão imponderada de Seguro

Há dias, o atual Governo anunciou a redução do número dos Tribunais, sem abdicar das mentiras e meias verdades com que costuma atribuir as decisões impopulares ao anterior Governo. É falso que estivesse assinada tão drástica redução, mas não significa que esta não seja necessária e uma opção legítima para redução de despesas públicas.

Um tribunal com 300 processos não pode ter um juiz e um procurador quando há outros com 30.000 processos (números próximos da realidade) e igual número de magistrados.

Mesmo um Governo incompetente, em que o refugo do PSD se coligou com a fina flor do CDS, amamentado, por razões estranhas, por este PR, pode tomar boas decisões. Em tão numerosas e más, é natural que alguma possa ser boa e original.

Não sei se a redução dos Tribunais é boa medida, mas não me atrevo a considera-la má. Percebo o interior desertificado a bater-se desesperadamente pela manutenção, mas não caio na demagogia de aplaudir todas as decisões impopulares.

O intuito do amontoado de ministros e secretários de Estado que Portas comanda, por intermédio de Passos Coelho, é destruir o Estado e, acessoriamente, anular as medidas do anterior Governo, sem um módico de racionalidade mas com incontida vingança. A manutenção deste Governo é pior, em cada dia, do que um terramoto permanente.

Após o anúncio do fecho de Tribunais, a promessa imediata de Seguro, de os reabrir, é um ato ao nível da imponderação deste desgoverno, que, segundo os crentes, foi castigo divino, confundindo os ciclos eleitorais e o ressentimento do PR com punições irreais.


Surpreende-me que os críticos racionais deste Governo não reflitam sobre o que aí virá, embora nenhum possa ser pior.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Justiça e benevolência na 1.ª República

(Amável deferência do meu amigo M. P. Maça)

Tal como Salazar, a Igreja denigre a ONU

Igreja: Porta-voz da Conferência Episcopal considera «lastimável» que ONU tenha omitido relatórios do Vaticano


O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) lamentou hoje que as Nações Unidas tenham dirigido recomendações à Santa Sé sobre o tratamento de casos de abusos sexuais na Igreja Católica omitindo o relatório anteriormente entregue pelo Vaticano sobre o assunto.

13 de fevereiro 1965 – Homenagem A Humberto Delgado

Faz hoje 49 anos que foi assassinado por Casimiro Monteiro, o homem que a ditadura salazarista impediu de ser presidente da República (1958), por fraude, e de continuar a viver (1965), a tiro, através de uma brigada da PIDE enviada a Espanha.

Humberto Delgado não foi a única vítima dos esbirros do fascismo, a exceção na longa história de repressão, mas foi um destacado opositor a quem a morte sinistra e o exílio conferiram a auréola do martírio.

Rosa Casaco, chefe da brigada que executou o general Delgado, assassínio que Salazar logo atribuiu aos comunistas, ainda passeou livremente pelo país de que foi carcereiro e carrasco, depois do 25 de Abril e exibiu a boçalidade, com ameaças a democratas, depois de ter visto prescrever o crime.

O então ministro do Interior, Alfredo dos Santos Júnior, morreu velho e velhaco, com a reforma de presidente do Conselho de Administração de uma importante empresa do Estado.

Salazar, ditador vitalício, perdeu o conhecimento, sentado, graças ao caruncho de uma cadeira, e morreu deitado no Hospital da Cruz Vermelha. Os velhos torcionários ficaram impunes, enquanto o «general sem medo» continuou a ser difamado depois de morto.

Hoje, 49 anos após a sua morte e o estrangulamento da sua secretária Arajair Campos, é dia de homenagear quem fez tremer a ditadura e a combateu até o atraírem a uma cilada e o assassinarem.

Humberto Delgado foi, até então, o general mais novo das Forças Armadas Portuguesas.

A partir de 1958 consagrou a vida à luta pela liberdade. Hoje é património do País que amou e dos democratas que não suportam as tiranias seja qual for o pretexto, qualquer que seja o seu sinal.

A esquerda e as esquerdas - o seu e o nosso labirinto

A Europa está a resvalar para uma direita de matriz fascista, longe daquela que se bateu contra o nazi-fascismo, agora, de novo, nacionalista, xenófoba e racista. Já se apresenta a votos, tal como é, às escâncaras, enquanto a esquerda defende a ortodoxia ou  capitula, isto é, se divide numa luta tribal que facilita a vida à extrema-direita.

A reflexão sobre o período e as ocorrências que antecederam a Segunda Grande Guerra (1939/45) podia ser a benzodiazepina necessária para acalmar os ímpetos dementes do extremismo e a pílula que controlasse o renascimento dos demónios totalitários.

O frenesim eleitoralista dos que dizem renegar o eleitoralismo abre brechas entre forças capazes de transformar a Europa num sítio melhor. O horror ao federalismo, com todas as suas consequências, longe de libertar as nações arrisca-se a promover a balcanização.

A cegueira com que se elegem inimigos principais, sob o pretexto da pureza ideológica, é a força motriz que empurra para a direita os que a preferem aos desvarios rebeldes das utopias que esquecem o tempo, o lugar e as circunstâncias que habitam.

A forma metódica e violenta com que o PCP tem atacado as sucessivas direções do PS, por mais razões que lhe assistam, é a confissão de quem prefere mais 2 ou 3% de votos, parecendo escolher o apoio objetivo à direita a um governo progressista que não lidere.

É fácil prever o sentimento dos militantes do PS, sob imutável pressão e insultos vindos da sua esquerda, e facilmente se adivinha o caminho que escolherão. Entretanto, como tantas vezes sucedeu no passado, saem os melhores, desiludidos, a remoer a angústia de quem trouxe da luta comum, a esperança na unidade de esquerda e na democracia, onde fosse possível aprofundar os aspetos económicos, sociais e políticos.

Tal como o PSD, que não precisou de gente preparada ou íntegra para renunciar ao seu ideário e ostracizar os seus melhores quadros, também o PS passará pelo realinhamento  à direita com trágicas consequências para o futuro coletivo.

Não é a fomentar cisões que se constrói a unidade. O futuro político português não terá inocentes.  


Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Associação Ateísta Portuguesa - sol - entrevista (Para memória futura)

Carlos Esperança

O DN e o seu diretor

O delegado de Portas, Passos Coelho e Cavaco, no DN, João Marcelino, putativo diretor de um órgão onde ainda resistem excelentes jornalistas, usa os editoriais ao serviço do Governo. Parecem redações encomendadas.

Hoje, depois de umas vacuidades sobre a última emissão da dívida pública, finaliza com a defesa da expulsão de António Capucho, assim: «Se o PSD ou qualquer outro partido não reagisse desse modo seria a própria democracia interna que ficaria em causa» [sic].

Se fosse no PCP era estalinismo. Manuel Alegre concorreu contra o candidato oficial do PS a PR, Mário Soares, e não foi expulso. Continuam ambos, aliás, a ser referências do PS. Zenha e Mário Soares foram adversários na luta pela presidência da República e, na segunda volta, Zenha mandou votar em Soares. O estalinismo do PSD é o único que tem direito a comunicados oficiosos.


O PSD e António Capucho

Ninguém pensa fazer de António d’Orey Capucho um mártir ou um suicida partidário. António Capucho é um conservador civilizado que não se revê no bando que tomou o PSD e cuja companhia lhe provoca brotoeja. É expulso hoje e será reabilitado amanhã.

A sua expulsão é, sob o ponto de vista jurídico, inatacável. Calvão da Silva, professor em Coimbra, reacionário saído da incubadora do defunto PM Mota Pinto, sabe que a jurisprudência partidária não é imparcial, serve a luta de cliques sob o manto diáfano dos estatutos. E não prescindiu do seu momento de glória expulsando António Capucho.

O que perturba este PSD e pode abalar as ambições de Calvão da Silva, desconhecido para lá da Ponte Europa ou da de Santa Clara, é o ajuste de contas contra a vulgaridade dos próceres que tomaram o partido e que levaram a cabo a política de terra queimada, fazendo de Portugal um laboratório do ultraliberalismo em democracia.

Quando a inteligência do partido voltar, pela urgência de limpar as nódoas do presente, Capucho será um dos heróis que servirá de benzina, uma estrela que brilhará no buraco negro que Passos, Relvas e Marco António cavaram através dos perfis falsos e intrigas que levaram ao poder o pior elenco partidário de sempre dispondo de um árbitro de que o país está farto.

A expulsão de Capucho faz parte da necessidade de criar uma reserva ecológica que salve o PSD da vergonha e permita a reabilitação.  


terça-feira, fevereiro 11, 2014

O 'ponta-pé' do último referendo suiço


Esta montagem fotográfica revela como seria a imagem da selecção helvética 
de acordo com o decidido no referendo sobre emigração.
Para os 'tiffosi' de futebol meditarem. ..

Fonte:
(http://www.huffingtonpost.es/2014/02/10/suiza-seleccion-futbol-inmigracion_n_4760548.html)

A entrevista de Vítor Gaspar

Vítor Gaspar deu uma longa entrevista  a Maria João Avilez, transformada num livro de 368 páginas. Deixo de parte a apreciação que fez da impreparação de Eduardo Catroga para negociar o memorando de entendimento com a troika, situação a que o PSD obrigou o PS.

Assinalo apenas que as respostas do ultraliberal foram certamente dadas por escrito. De outro modo nenhum dos protagonistas viveria para acabar a entrevista.


Portugal não fica atrás do Egito

Peritos egípcios descobriram no norte do Cairo três esqueletos humanos e uma múmia rodeada de dezenas de amuletos e estatuetas com mais de 2500 anos, anunciou este domingo o ministro das Antiguidades do Egipto, Mohamed Ibrahim.

Eu compreendo o entusiasmo dos egiptólogos, arqueólogos e espeleologistas com estas descobertas. O Egito é um santuários que as areias do deserto preservaram e onde todos os dias a antiguidade surge pelas mãos de estudiosos que dedicaram a vida a analisar as civilizações milenares que habitaram o vale do Nilo.

Curiosamente ninguém escava Portugal, onde podia encontrar uma múmia com funções atribuídas, em bom estado de conservação, e esqueletos à frente do destino do país. Era escusado revolver toneladas de areia, consultar papiros, decifrar hieróglifos e investigar escritas perdidas, bastava consultar o Diário da República e ler os jornais.

Portugal é um desconhecido cemitério onde jazem espécimes raros, o paraíso de cábulas que não descobrem uma múmia num palácio, quando os egiptólogos as descobrem entre milhões de metros cúbicos de areia, no deserto. Ninguém encontra sequer os esqueletos dos serventuários do capital cuja coluna vertebral se vergou em genuflexões e a carne se desossou a rastejar.

Há em Portugal, nesta necrópole mal frequentada, um imenso património arqueológico que jaz ao leme do país sem que um espeleólogo o descubra e preserve os achados em formol ou lhes disseque as vísceras e os embalsame.

Portugal ganharia, se substituísse comentadores avençados por uma equipe competente de espeleólogos, médicos legistas, farmacologistas e taxidermistas.


segunda-feira, fevereiro 10, 2014

Entrevista - CM - Associação Ateísta Portuguesa


domingo, fevereiro 09, 2014

As rifas fiscais e o ridículo

A Pátria anda em polvorosa. A imensa tômbola do ministério das Finanças abarrota com faturas de bicas, pensos, lenientes para o prurido, pastilhas elásticas, remédios da caspa, pentes, iogurtes, corta-unhas, facas de cozinha, palmilhas e hortaliças.

Miss Swap teve de ser evacuada com um guincho, que a salvou da asfixia, entre faturas de mercearia, peixe congelado e bacalhau. Passos Coelho, a inteirar-se do andamento da rifa, perdeu os guarda-costas, em número inferior ao das faturas, envoltos em recibos de linhas, agulhas, botões e colchetas.

O computador oculto para atualizar o roubo das pensões, depois das eleições europeias, foi posto ao serviço das faturas de bicas, garotos e cariocas de limão. O País começou a comprar fruta e ovos à unidade para aumentar a probabilidade de andar de carro.

Consta que um entusiasta do bazar mandou desdobrar as refeições em pastéis de nata e a revisão do carro em lavagens e que Paulo Portas entregou a fatura dos submarinos com o seu número de contribuinte.

O gozo é tanto que Marco António já veio dizer que a medida constava do memorando de entendimento e que tinha sido tomada por Sócrates. Passos Coelho insiste que é falta de patriotismo não lhe reconhecer o alcance da medida contra a fraude fiscal.

O BPN, impedido de fazer suprimentos a ex-governantes e de armazenar obras de arte, dedica-se a passar faturas de bicas, bolos de arroz e pastéis de bacalhau, em nome de Oliveira e Costa.

Alberto João Jardim enviou as faturas ocultas e foi preciso requisitar a Casa da Madeira para as guardar enquanto se apalavram as viaturas para o sorteio.

Isto não é um país, é um casino de vão de escada legalizado pelo Governo.    

O novel patriarca de Lisboa e a coadoção por casais do mesmo sexo

O Dr. Manuel Clemente, ex-bispo do Porto e atual patriarca de Lisboa, à espera do fim do prazo de validade cardinalícia do ex-patriarca Policarpo, para obter o devido barrete, entende que «os direitos das minorias devem ser referendados».

Não se trata de certezas metafísicas mas de opiniões pias. Certamente que foi o informal referendo à opinião pública que levou, perante aplausos devotos, os judeus e as bruxas à fogueira inquisitorial. Os direitos das minorias, sujeitos ao poder arbitrário das maiorias, podem erradicar vegetarianos, diabéticos, carteiristas, amola-tesouras, clérigos, leprosos ou corcundas.  

Sendo a liberdade religiosa um direito que permite o culto às minorias eu imagino o que resultaria de um referendo sobre o direito das Testemunhas de Jeová, de Adventistas do 7.º Dia, mórmons ou dos mais minoritários, budistas Zen, a residirem em Portugal.

Estando em causa a adoção comum por casais do mesmo sexo onde, legalmente, o filho de um já coabita com os dois cônjuges, não se percebe se é o direito à família que Sua Excelência Reverendíssima quer pôr em causa ou se deseja a anulação da paternidade, biológica ou por adoção, ao cônjuge que a exerce.

Se os direitos individuais passarem a ser objeto de referendo, como pretendeu o líder da madraça juvenil do PSD, a mando do PDG virtual do partido, iríamos ser convocados a pronunciar-nos sobre o direito à adoção por chineses, berberes, esquimós ou mongóis, com o beneplácito do patriarca de Lisboa.

De repente lembrei-me de Camilo, que chamou a Frei Gaspar da Encarnação “uma santa besta”, epíteto que nunca teria a ousadia de atribuir a um prémio Pessoa: em primeiro lugar, porque não o conheço, em segundo, porque poderia ser injusto e, finalmente, o Sr. Patriarca pode não ser santo.


sábado, fevereiro 08, 2014

Clemente e a arte de bem referendar em toda a sela…


O actual bispo de Lisboa (provavelmente o seu ‘estatuto de patriarca’ estará comprometido) chegou à sua sede episcopal com a aura de ser 'homem dos tempos modernos’.
Todavia, o mundo está cheio de rasteiras e o seu ‘apostolado’ terá começado da pior maneira. O país assistiu atónito à manifestação política que rodeou a sua ‘entronização’ acabou por oferecer à sociedade no Mosteiro dos Jerónimos. link.
E a cerimónia do Jerónimos’ esteve muito longe de qualquer modernidade, mais se assemelhando a uma reposição do ‘antigamente’.

Adiante.
Ontem, na TVI, o prelado (re)aparece a intervir nas questões políticas e, em público,  defende o referendo sobre a adopção e a co-adopção de crianças por casais do mesmo sexo. E o argumento é que ‘os direitos das minorias devem ser referendados’. link.

Na verdade, a primeira questão que este ‘golpe baixo e rasteiro', da autoria do PSD, coloca é na representatividade, dinâmica e no prestígio parlamentares, mas será também uma importante questão constitucional , i. e., resta saber se um referendo deve (ou pode) pronunciar-se sobre ‘direitos, liberdades e garantais das pessoas’, qualquer que seja o seu estatuto quantitativo (minoritário ou maioritário).  
Existem, como sabemos, diversas interpretações, algumas ad hoc, outras levantando questões jurídicas, históricas e académicas, mas será o TC, com o acórdão que se aguarda, criar doutrina sobre esta questão (para uma interpretação do regime constitucional português). Que, como sabemos, e o 'aspirante a patriarca' também, privilegia a democracia representativa. E o entendimento mais prudente e equilibrado parece ser o de que a própria Constituição cria (tem) balizas sobre questões e conteúdos (que os direitos individuais serão um exemplo) e que não devem ser escamoteados ou contornados, sob pena de defraudar-se o conceito de ‘participação popular', por mais apego que tenhamos - em determinadas situações - pela 'democracia directa'. Não podem, como por exemplo já se verifica, existirem limites sobre o referendar de questões fiscais (cujos resultados são antecipadamente expectáveis!) e conferir aos direitos fundamentais, ou as liberdades individuais, um regime ad libidum, vulnerável. 
Por este caminho, poderemos chegar à total perversão constitucional e passar a referendar emendas avulsas à Lei Fundamental ao sabor de alianças circunstanciais, de preconceitos ocultos ou efémeros, de interesses conjunturais ou até de ‘estados de alma’. E é sobre este últimos 'estados' que o prelado é especialista, mas é sobre pessoas concretas que se pretende lançar o labéu de um referendo.
Antes disso, o presidente da CEP Manuel Clemente, decide, porém, pronunciar-se. Estará a jogar (a cavalgar) a sela predilecta da religião em Portugal. Isto é, a aproveitar o momento para jogar a sua ‘praxe' (praxis). Portugal sendo um povo tradicionalmente religioso (ou se quisermos católico) estaria disposto a transferir para o domínio legislativo e social as decisões hierárquicas congeminadas em Fátima. Neste caso sem direito a qualquer acto referendário.