quarta-feira, abril 30, 2014

O que a mulher portuguesa perdeu com o 25 de Abril


A democracia, o véu islâmico e os símbolos religiosos ostensivos

Depois da inaceitável indulgência com os pregadores do ódio nas mesquitas, situação que, por exemplo, não seria permitida – e bem – a dirigentes políticos, alguns países já europeus autorizam a proibição do véu islâmico dentro das escolas oficiais.

Há quem se oponha a esta decisão, em nome da democracia e da liberdade individual, acusando os opositores de intolerância. Esquecem-se de que a Europa tem vivido em paz graças à laicidade do Estado que jovens muçulmanas desafiam, estimuladas pela família e pelos pregadores religiosos. Os constrangimentos sociais e o domínio sobre as mulheres são de molde a impor-lhes o símbolo da sua própria escravidão.

Só a França sobrepõe claramente os direitos de cidadania aos desejos dos clérigos das diversas religiões. No exercício de funções públicas ou frequência de escolas do Estado não são permitidos os hábitos das freiras, as sotainas ou o véu islâmico. Alguém, de boa fé, receia a ausência de liberdade religiosa em França?

Ninguém duvida do proselitismo que devora as diversas confissões, todas desejosas de convencer os ímpios da bondade do seu Deus e da singular forma de salvação eterna – a sua –, impondo-a, se puderem, mesmo a quem a dispensa.

Sendo o Estado incompetente para se pronunciar sobre as convicções pessoais, só lhe resta manter a neutralidade que permita a efetiva liberdade religiosa e impedir qualquer religião de se apropriar de forma definitiva e permanente do espaço público.

A Europa só agora começa a sentir o perigo do proselitismo e a reagir às provocações de uma multinacional do ódio que usa as jovens com forte dependência da família, do clero e da tradição.

Duvidar da superioridade moral das democracias em relação à teocracia, e dos Estados laicos face aos confessionais, é renunciar à defesa dos direitos humanos sob o pretexto de cumprir a vontade de Deus.

A comunicação social, presente no vespeiro da Ucrânia, ignora a Turquia e a Nigéria.

Quando a extrema-direita avança...

...é preciso denunciar-lhe o passado

terça-feira, abril 29, 2014

Não queremos que o tempo volte para trás…


Pão sem liberdade ou liberdade sem pão não fazem a democracia. A justiça social, a paz e o pluralismo político são indispensáveis ao Estado de Direito.

Portugal soube o que era a fome, a fome violenta dos meninos descalços que a iludiam com o rebusco das castanhas e maçãs, os lagartos caçados e assados, o pedaço de pão guardado da penúltima cozedura do forno comunitário, os ovos dos ninhos e as azedas e azedões colhidos das paredes, a caminho da escola.

Da herança salazarista, enquanto se esquece a tragédia, exumam-se documentos do que era a censura, pura e dura, onde a violência do lápis azul rivalizava com a miséria a que o ditador sujeitava o país.

Para que não se esqueça, aí fica mais um documento que, se não mata como as celas do Tarrafal ou as balas da Pide, matam pelo ridículo os que matavam o seu povo.

Duas vidas, dois destinos

O da esquerda foi canonizado e o da direita preso

Factos & documentos

(Amável deferência de M. P. Maça)

segunda-feira, abril 28, 2014

Momento de poesia

Abril não é uma mercadoria…

Nestes dias em que Abril renasce
os mercados não falaram,
emudeceram, mas não ficaram surdos
nem as suas mãos tremeram
fecharam-se em silêncio nos corredores escuros,
para conspirar com o dinheiro sujo
pediram aos seus macabros tecnocratas
as estatísticas da morte
querem trocar ouro por sangue
e aumentar a cotação do ódio
aos cravos vermelhos da nossa liberdade,
investindo na bolsa de valores da ignomínia,
onde bolçam todos os dias
… mas eles ainda não perceberam
que Abril não se compra nem se vende,
por qualquer dinheiro…
Abril não é uma mercadoria…

Alexandre de Castro


Lisboa, Abril de 2014

Salazar nasceu há 125 anos e Mussolini morreu há 69. Há dias assim…

O céu está cinzento, a anunciar borrasca, numa primavera sem coragem para romper o longo inverno a que o Governo, com o PR dentro, condenou Portugal.

A comunicação social, tão dada a evocar mortes, parece ter esquecido o nascimento do abutre de Santa Comba Dão, daquele pérfido seminarista que, segundo a Irmã Lúcia foi enviado pela Providência Divina, o organismo da Segurança Social Celeste que escolhe políticos sem recurso ao incómodo do sufrágio popular.

Faz hoje 125 anos que nasceu o sinistro ditador que acreditava na bondade de Cerejeira e na eficácia de uns pontapés dados a tempo como profilaxia dessas ideias nefastas, que a Inglaterra exportava, de um exótico regime conhecido por democracia.

Não há notícia de missas de sufrágio, novenas de ação de graças ou orações por alma do ditador. Vergonha ou amnésia, os próprios herdeiros espirituais renunciaram à herança e envergonham-se de dar testemunho público da saudade pelo torcionário que tinha sobre a mesa de trabalho a fotografia de Mussolini.

E vejam lá, leitores, a ironia do calendário! Benito Mussolini, que assinou os acordos de Latrão, que também foi enviado pela Providência divina, segundo o Papa de turno com quem se obrigou a tornar obrigatório o ensino da religião católica nas escolas públicas italianas e a quem entregou um avantajado óbolo do tesouro italiano, Benito Mussolini – dizia –, foi executado no dia de hoje, há 69 anos, no Lago Como, quando tentava a fuga para a Suíça. Os guerrilheiros italianos travaram-lhe o passo.

A tarde continua cinzenta neste dia de pesadas efemérides, um nascimento e um óbito, de dois crápulas que jamais deviam ter nascido.


Momento zen de segunda_28_04_2014

João César das Neves, JCN, na habitual homilia do DN, «Festa dos cinco papas», regala hoje os crentes com pérolas pias com que consegue superar-se, semana após semana.

No exórdio da homilia JCN declara especial o dia de ontem, devido à declaração de dois papas vivos que confirmaram que “dois papas mortos estavam na vida plena”, o que não poderia ser declarado pelos mortos que, apenas, aceitaram, em silêncio, a glorificação.

Após garantir que a dupla canonização “é o assunto (…) que mais preocupa o mundo” acrescenta em êxtase que “Podemos dizer que é o único que verdadeiramente preocupa o mundo”.

JCN refere os canonizadores e canonizados como “Quatro homens simples e frágeis, mas cheios de vida e felicidade, que irradiaram por todo o mundo”. E repete a asserção sem explicar onde observou vida e felicidade nos defuntos que, aliás, como é hábitual, faltaram à cerimónia, mantendo-se em contida defunção.

JCN, que vê num papa o que os islamitas veem em Maomé, descobriu que os 4 papas felizes eram 5, aritmética que talvez omita na Madraça de Palma de Cima.

Afinal, JCN viu que “Estava lá um quinto papa. Olhando com atenção via-se, do lado esquerdo da praça, a estátua de um homem barbudo com duas chaves na mão. A importância dos quatro homens é que eles são sucessores dele. Aquele Pedro, que amava Jesus mais que os outros, e ouviu: "sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16, 18).

O que JCN descobre! “A razão é óbvia: mais ninguém tem uma felicidade assim”.

Heróis e traidores ao 25 de Abril



domingo, abril 27, 2014

A Vasco Graça Moura

A morte de Vasco Graça Moura, grande poeta, tradutor, homem de cultura e político truculento, deixa mais pobre a literatura portuguesa.

O Acordo Ortográfico perdeu o seu maior e mais prestigiado adversário, que esteve para o último AO como Fernando Pessoa para a Reforma Ortográfica de 1911. Cavaco Silva, avesso a leituras, perdeu o único admirador consagrado e dedicou-lhe um comunicado. Passos Coelho teve a oportunidade para fazer uma declaração sobre a sua alma por entre as banalidades em que se perdeu para homenagear um correlegionário.

Nunca compreendi a encanto de Graça Moura por figuras menores e não posso esquecer o intelectual eclético de rara qualidade e imensa capacidade de trabalho.

Ficam os seus livros para manter viva a presença de um dos mais brilhantes escritores portugueses.


Assembleia da República – 25 de Abril

Quando o Presidente da República fica isolado com os únicos aplausos dos partidos de que está refém, por razões desconhecidas, deixa de ser a solução para os problemas do País e torna-se o problema mais grave que urge remover.


Papas, bolos e canonizações

Pela primeira vez na História do Vaticano, reúnem-se dois papas para canonizarem dois antecessores, em adiantado estado de defunção.

Dois mil anos de papas deram muitos defuntos para se dedicarem ao ramo dos milagres e poderem reincidir na santidade, já que o título é apanágio da função e do estado civil.

A presença de Durão Barroso, muito chegado a papas e bolos, sobretudo aos últimos, a avaliar pelo volume, lá vai à cerimónia a representar a excelência da escola salazarista. Não lhe falta experiência em genuflexões e vocação para andar de rastos.

Irá representar a União Europeia, como se a legitimidade, nesta Europa do Iluminismo,  fosse conferida a quem não se submeteu a votos nem ao exame de consciência sobre a invasão do Iraque.

Com papas e bolos poder-se-ia pensar que Durão Barroso ia ao engano mas somos nós quem eles querem que acreditemos em milagres e passemos por tolos.


sábado, abril 26, 2014

Ontem, em Almeida




40.º aniversário do 25 de Abril

sexta-feira, abril 25, 2014

Hoje, na AR

Dizem-me que o homem que pede consensos como o sacristão esmolas na missa de domingo, fez um discurso baço, a apelar ao combate à corrupção. Não se sabe se tinha em vista os submarinos ou o BPN, o que me disseram foi que as ovações partiram dos que têm correligionários nesses negócios, e o silêncio soprou o ar de Abril nas bancadas da Oposição.

Que bom ter visto as cerimónias que o presidente da Câmara Municipal de Almeida levou a cabo, saber como mobilizou as crianças para o 25 de Abril e ver como vicejava na sua lapela o cravo rubro de Abril!

Que felicidade falar para cinquenta cidadãos que num almoço comemorativo celebraram Abril.

A gratidão faz parte da grandeza da vida e Abril é o alimento dos que amam a liberdade e não dos que apelam a consensos depois de servirem o veneno da cizânia.


MANIFESTAÇÃO POPULAR COMEMORATIVA DO 25 DE ABRIL

Realiza-se hoje, em Coimbra, uma manifestação popular comemorativa do 40.º aniversário da Revolução. A manifestação é convocada por 68 entidades independentes. Terá início às 15 horas, na Praça da República. "TU QUE ANDAS TRISTE NÃO TE FECHES EM CASA!" (palavras atribuídas por uma notícia do jornal "As Beiras" a António Arnaut e Manuel Alegre, aquando da apresentação da magnífica antologia poética deste último.) NÃO FALTEM! TODOS SOMOS PRECISOS!

Parabéns, António Costa


Viva o 25 de Abril. Sempre


quinta-feira, abril 24, 2014

O 25 DE ABRIL DEVE SER COMEMORADO NAS RUAS E PRAÇAS

O  25  DE  ABRIL  TEM  DE  SER  COMEMORADO  NAS  RUAS  E  NAS  PRAÇAS !


     Os inimigos, declarados ou dissimulados, do 25 de Abril e das suas conquistas, não podendo, porque o povo não deixa, apagar essa data do calendário, abolir o correspondente feriado, e impedir as respetivas comemorações, procuram por todos os meios diminui-la, reduzindo essas comemorações a meras formalidades sem qualquer referência ao seu caráter revolucionário e popular, esvaziando-a assim da sua essência.

     Entretanto, vão-se aplicando em destruir tudo o que o povo conquistou depois dessa gloriosa data, cobrindo essa destruição com repugnantes eufemismos, tais como “flexibilização”, “convergência”, “competitividade”, “sustentabilidade”, “ajustamento”e quejandos, desculpando-se sempre com os famigerados “mercados”.

     É claro que todas as medidas que vêm sendo tomadas pelos que nunca aceitaram o 25 de Abril, agora alcandorados nos mais altos cargos do Estado e da governação, só prejudicam os que alguma coisa melhoraram com o 25 de Abril: os pobres, os trabalhadores, os pensionistas, os funcionários públicos, os pequenos empresários e a classe média. Os ricos, e sobretudo os que já eram ricos antes do 25 de Abril, recuperaram e reforçaram as suas posições. Hoje, mais até do que no tempo de Salazar e Caetano, são eles que, sem qualquer rebuço ou disfarce, mandam em Portugal.

     Acontece infelizmente que muitos democratas, completamente insuspeitos de quaisquer conúbios com essa gentalha reacionária e vampiresca, se deixam cair na esparrela assim montada, organizando, em vez das manifestações de protesto que hoje mais do que nunca se impõem, anódinas cerimónias litúrgicas, inconsequentes jogos florais e incaraterísticas provas desportivas.

     NÃO PODE SER! O povo e os verdadeiros democratas não podem consentir em ser espoliados até do seu dia mais querido. NÃO! O povo tem de sair à rua, tem de ocupar as praças, tem de se manifestar, tem de protestar, tem de exigir, tem de mostrar a sua mais que justificada revolta.

       Por isso em todas as cidades do País haverá manifestações populares e democráticas, que desagradarão certamente ao Poder instituído, mas é para isso mesmo que elas servem.

       Em Coimbra também haverá manifestações com essas caraterísticas. A elas nos referiremos de forma mais destacada.

Viva o 25 de Abril

Há quem, antes, não tivesse precisado de partido, não sentisse a falta da liberdade e se desse bem a viver de joelhos e a andar de rastos.

Houve cúmplices da ditadura, bufos e torturadores, quem sentisse medo, quem estivesse desesperado, quem visse morrer na guerra camaradas, soubesse os amigos nas prisões e se calasse. Mas houve quem resistisse e gritasse e quem foi calado a tiro ou nas prisões.

Uns pagaram com a liberdade e a vida a revolta que sentiram, outros governaram a vida com a desonra que calaram.

Houve quem visse apodrecer o regime e quisesse a glória de exibir o cadáver e a glória da libertação. Viram-se frustrados por um punhado de capitães sem medo, pela plêiade de heróis que tudo arriscou para que todos pudéssemos ser livres.

Passada a euforia da vitória, ninguém lhes perdoou. Os heróis da mais bela revolução da História e agentes da maior mudança que Portugal viveu, são hoje banidos e humilhados por quem lhes deve o poder e as mordomias.

Uns esqueceram os cravos que lhes abriram o caminho do poder; outros reabilitaram os crápulas que nos oprimiram; outros, ainda, sem memória nem dignidade, afrontam o dia 25 de Abril com louvores fascistas e lúgubres evocações da ditadura derrubada.

Perante os ingratos e medíocres deixo aqui a TODOS os capitães de Abril o meu eterno obrigado.

Não quero saber o que fizeram depois, basta-me o que nesse dia fizeram.

Obrigado Otelo, Salgueiro Maia, Vasco Lourenço, Vítor Alves, Melo Antunes, Carlos Fabião, Costa Gomes, Gertrudes da Silva, José Fontão, Dinis de Almeida, Pezarat Correia, Franco Charais, Pedro Lauret, Garcia dos Santos, Duran Clemente, Costa Brás, Sousa e Castro, Marques Júnior, Luís Banazol, Almada Contreiras, Pinto Soares, Monteiro Valente, Delgado Fonseca, Vasco Gonçalves, Eurico Corvacho, Ramiro Correia, Martins Guerreiro, Costa Martins, Sanches Osório, Rosa Coutinho, Costa Brás, Vítor Crespo, Hugo dos Santos, Eurico Corvacho, Matos Gomes e tantos outros. Obrigado a todos os que conspiraram, fizeram, defenderam e consolidaram a Revolução de Abril.

Quando vos afrontam é a democracia que combatem; quando vos humilham são eles que se vilipendiam; e não vos esquecem, trazem na memória a desonra dos vendidos, a velhacaria dos ressabiados e a pusilanimidade dos cobardes.

Amanhã, Abril é mês e 25 dia.

Ponte Europa / Sorumbático

As desgraças deste Governo

Erradicada a varíola ainda durante o consulado salazarista, o cumprimento do programa de vacinação do regime democrático levou à eliminação da poliomielite, tétano neonatal e difteria, na passada década de noventa, e do sarampo e rubéola, no ano passado.

O saneamento e o tratamento de águas, a melhoria do nível de vida e o investimento na educação e saúde reduziram drasticamente a morbilidade dos portugueses. A esperança de vida aumentou para níveis incomportáveis para um Governo que trazia na agenda a mudança dos paradigmas que a democracia tinha instituído.

A crise das dívidas soberanas ajudou à conquista do poder pelo Governo mais à direita  dos últimos 40 anos, segundo o insuspeito Freitas do Amaral, e o mais inepto, como se sabe.

Falar em reforma administrativa é uma heresia depois da ineficaz cosmética da fusão de freguesias. Para o Governo é preferível despedir funcionários a reduzir os membros das assembleias municipais e de freguesia, a fundir concelhos, a abolir o carácter faraónico dos órgãos das Regiões Autónomas, isto é, reduzir alfobres de caciques onde germinam parasitas e se angariam votos.

Onde para a avaliação de Fundações que servem apenas de paraísos fiscais, das EPs que acoitam afilhados e desempregados políticos, das IPSS que sugam impostos, em vez de os pagar, da legião de assessores do PR e dos ministérios?

A única forma de resistirmos a este Governo é teimarmos em manter-nos vivos.  


quarta-feira, abril 23, 2014

Imagens para recordar




Um crime que não pode ser esquecido



Um pequeno monumento sobre uma grande memória, em frente à Igreja de S. Domingos, onde o massacre começou. Um crime que os dominicanos carregam, fruto do antissemitismo cristão
(Foto do meu amigo M. P. Maça)

O 25 de Abril valeu a pena?

A pergunta, repetida na comunicação social, sugerida nos cafés e ouvida nas ruas, anda aí, como provocação fascista, espécie de transferência de responsabilidade, oriunda dos herdeiros da ditadura para os que sabem o que lhe devemos.

Perguntar a quem ama a liberdade se esta vale a pena é a ofensa de quem lhe é alheio, de quem se dava bem com a ditadura ou não faz a mais leve ideia do que foi. É como perguntar a um doente se valeu a pena a cura ou, a um cego, a recuperação da visão.

A corja que domina a desinformação esforça-se por minimizar a violência da ditadura, o número dos que morreram e ficaram estropiados na guerra colonial, e só os de um lado, que  do outro não lhes interessa. A canalha que reprimiu durante 40 anos a simpatia pelo regime que prendia sem culpa formada, violava a correspondência, torturava adversários e os assassinava, essa súcia, filha do salazarismo, anda por aí, a reescrever a História e a responsabilizar quem teve a nobreza de perdoar aos algozes e cúmplices.

Como foi possível esquecer o Tarrafal, o Campo de S. Nicolau, Caxias, Peniche, Aljube e a Rua António Maria Cardoso? Será possível que, à medida que vão morrendo os que resistiram à ditadura, os herdeiros do ditador passem a esponja sobre o passado negro e o pintem de cor-de-rosa?

E os que têm obrigação de os desmascarar mantêm-se calados? Não há gravações dos gritos de dor e das lágrimas, quem recorde as mães de filhos mortos, as mulheres dos maridos presos e as famílias destroçadas pelas perseguições?

Os próprios capitães de Abril, que tudo deram sem nada pedirem, já são vilipendiados pelos que lhes devem os lugares que ocupam, as sinecuras que distribuem e os negócios sujos de que ficam impunes.

No regresso manso de um fascismo larvar é altura de dizer basta, de varrer os ingratos que ocupam o poder, de limpar os órgãos da soberania dos ineptos e dos que exercem a vingança dos que nunca quiseram a democracia, a descolonização e o desenvolvimento.

Dos que sentem náuseas e têm enxaquecas quando ouvem: MFA! MFA!

terça-feira, abril 22, 2014

Passos Coelho e mais um tiro no pé...

O reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, criticou, esta noite, em Coimbra, os milhares de milhões de euros do Fundo Social Europeu que "foram deitados à rua para alimentarem pseudo-formações" link.

Haverá muita gente (e organizações) neste País que enfia o barrete. As formações subsidiadas pelo Fundo Social Europeu floresceram, em Portugal, como cogumelos na época de chuva e muito tem sido dito e escrito sobre o assunto.

Mas, para além do nevoeiro que esbate os responsáveis, na calha está Pedro Passos Coelho que, de braço dado com o companheiro da JSD e seu actual ‘conselheiro’, Miguel Relvas e através da empresa Tecnoforma, são indiciados de terem abotoado uns milhões de euros do Programa Foral para ‘formar’ 1063 técnicos de aeródromos e heliportos municipais. Um caso que dorme tranquilamente à sombra de uma morosa investigação do Gabinete de Luta Anti-Fraude da União Europeia (OLAF). link. Aguardemos sentados o resultado desta investigação

De concreto, para já,  em relação aos resultados e interesse destas ‘formações’ promovidas pela Tecnoforma, sobressai o facto de, uma vez no Governo, Passos Coelho, ter desamparado os seus formandos e determinado o fim dos voos domésticos para e aeródromo municipal de Bragança link

O actual primeiro-ministro contará com as mordomias pós governativas e não pensa regressar à Tecnoforma que, entretanto, declarou a insolvência link.  Estamos, portanto, perante um típico autor de um dos tais desperdícios, referidos pelo reitor da UC. E que agora aparece com um seráfico sorriso a condenar a utilização dos fundos europeus nos seguintes termos: "Durante muitos anos, utilizámos os fundos europeus para realizar infraestruturas que se consideravam importantes para o país, e hoje sabemos que muitas delas não eram, de facto, importantes para o país…" link.

A típica expressão popular ‘fala o roto do esfarrapado’… ou, simplesmente, um tiro no pé.

Cavaco Silva e o 25 de Abril

O cidadão Cavaco Silva, que deve o que é à democracia, e aos equívocos dos eleitores, pode odiar a Revolução de Abril, ser salazarista, reacionário, inculto e boçal, mas o PR não pode.

O PR não pode trair a Constituição que jurou defender e o regime que representa, não pode conceder pensões a pides por relevantes serviços à Pátria e ignorar as torturas que os antifascistas sofreram às mãos dos mesmos torcionários, não pode parecer salazarista e manifestar ingratidão pelos benefícios que colheu.

Ao eleger a Fundação Champalimaud, benemérita instituição que um fascista assumido legou, para debater Abril, assume um equívoco em relação ao local e a suspeita quanto à formação democrática. A suspeita agrava-se por escolher, como data do debate, os dias 9 e 10 de maio. Pode ter-se enganado no mês como no número de cantos d’Os Lusíadas, mas não deixa de ser preocupante que o presidente de um país democrático se afaste do 25 de Abril para se aproximar do 28 de Maio.

Cresce, pois, o receio de ver o PR a falar de Abril como um muçulmano do toucinho.

ATITUDE INADMISSÍVEL DO PARTIDO SOCIALISTA

Nunca escondi a minha preferência política pelo PS. Sinto-me pois tanto mais à vontade para o criticar quando entendo dever fazê-lo. É o caso.

Com efeito, A. J. Seguro prepara-se para conspurcar a gloriosa data de 25 de Abril convidando para as suas comemorações organizadas pelo Partido, designadamente para um jantar de confraternização, nada mais nada menos do que...o vice-chanceler do governo da Sr.ª Merkel, a arqui-inimiga do socialismo na Europa e a pior carrasca do povo português a seguir a Passos Coelho.

Trata-se de um tal Sigmar Gabriel. É certo que este é líder de uma coisa que se auto-intitula "Partido Social Democrata Alemão (SPD)", que já foi um grande partido socialista, designadamente quando era dirigido pelo saudoso Willy Brandt, mas que hoje é tão social-democrata como o seu homólogo português, isto é, de social-democrata não tem nada.

A verdade é que, segundo uma notícia do jornal "Público", o referido partido e o seu líder estavam tão "apaixonados" pela Merkel e pelo poder que para lá chegarem deixaram de defender ideias que defendiam, tais "como os eurobonds ou a mutualização da dívida".

Não há qualquer "realpolitik" que justifique tal cedência, tal abdicação, tal submissão, que maculam indelevelmente as tradições do Partido Socialista.

O fundamentalismo não é um exclusivo islâmico

1 – Naquele tempo andava em alta a fé e pouco estimada a cultura. Sobraçava a pasta, nesse remoto Ano da Graça de 1992, um simples «ajudante de ministro» de seu nome Pedro Santana Lopes, acolitado por dois subajudantes, Maria José Nogueira Pinto e António Sousa Lara.

Coube a este último pronunciar-se sobre a obra «O Evangelho segundo Jesus Cristo», do «inveterado ateu» José Saramago que concorria a um prémio literário. Disse o pio, que Deus abandonaria nas trapalhadas da Universidade Moderna, que «A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os» e, com tão clemente argumentação, o mullah Lara vetou o livro.

2 – «Tal como em 1499, são eles (Dominicanos) que estão à frente da matança iniciada em 19 de Abril de 1506 em Lisboa. No decorrer de uma cerimónia religiosa na Igreja de S. Domingos, um homem que participava no culto, no momento em que o povo gritava «milagre» à vista de um resplendor que saía de um crucifixo, teve a ideia inoportuna de argumentar que se tratava apenas do reflexo de uma vela. Foi logo taxado de «Cristão-Novo», morto e queimado in loco. Dois frades dominicanos brandindo crucifixos excitaram os fiéis aos gritos de «heresia, heresia». Durante três dias a cidade esteve nas mãos dos amotinados, que pilhavam as casas, atiravam mulheres e crianças da janela à rua e acendiam por toda a parte fogueiras onde ardiam vivos e mortos». “Judeus e Cristãos-Novos”, António José Saraiva.

3 – «A maior das falácias é achar que é a religião que está no centro destes eventos (e se fosse? O que é que mudava?) mas claramente uma recusa política da democracia e uma recusa cultural da tolerância, da liberdade, das diferenças» J. Pacheco Pereira (Público)

4 – A blasfémia é um crime medieval que hoje tem menos valor do que a liberdade de expressão, direito a que não devemos renunciar. Renunciar aos direitos conquistados na Europa, contra o clericalismo, é regressarmos ao fundamentalismo romano.

5 – Respondendo a um leitor que me chamou «racista» por ter escrito «O Islão não é a apenas uma religião estúpida, consegue ser também a mais hipócrita», respondo-lhe, em nome da liberdade e da sua defesa, que repudio igualmente as Cruzadas, a Inquisição, o Nazismo, o Estalinismo e todas os sistemas totalitários.

6 – Dizem-me que há um islão moderado. Não o vejo condenar Bin Laden, aceitar a separação da Igreja e do Estado, renunciar à sharia, admitir a igualdade dos sexos ou defender a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

7 – Quando alguém diz defender a liberdade, mas…, sinto no uso da adversativa um velho conformismo com os demónios da censura, um temor reverente ao poder, uma capitulação perante a prepotência, a brutalidade e a força.

A 3 dias do 25 de Abril lembrei-me dos fundamentalistas que o abominam e dos que o reclamam como um exclusivo seu. Indiscutível, foi a cumplicidade da Igreja católica com a ditadura.

segunda-feira, abril 21, 2014

‘Lord’ Eduardo Catroga…

Para alguns viver melhor ou pior é uma questão pessoal e de somenos importância. No meio desta sintética dicotomia existiam os ‘remediados’ que desapareceram com o 'ajustamento' pelo que a tensão social se adensou e as 'coisas' ficaram mais visíveis, algumas intoleráveis--

Para impor austeridade sobre os salários advindos da venda da força do trabalho no sacrossanto mercado é preciso fazer crer que alguns que vivem acima das suas possibilidades. Para outros as possibilidades são ilimitadas. E consideram que vivem sempre abaixo. Para poucos – muito poucos - acumular um ordenado mensal de 35.000 com uma pensão (unificada) de  9.693,54 euros "não chega a compensar totalmente o que deixei de ganhar pelo não exercício de outras funções de administração ou consultoria em empresas privadas.link

Palavras para quê?
É um ‘lord’ [já não tem idade para ‘boy’] oriundo da camarilha cavaquista. E não viverá nem acima nem abaixo de possibilidades. Vive como um lord e ainda nos ‘oferece’ conselhos e, às vezes, ‘pentelhos’…

Faltam 4 dias para a celebração do 40.º aniversário do 25 de Abril

Só alguém que é supinamente perverso, e que exonerou a ética do comportamento, pode ter saudades da educação com que a ditadura formatava imbecis, néscios e bajuladores.

Há quem pense que a educação se destina à perversão do carácter, ao amolecimento da coluna e à lubrificação das articulações dos joelhos, quem considere de excelência as mentiras sobre os nossos antepassados e a transmissão do ódio coletivo em relação ao país vizinho, quem prefira a discriminação de géneros à igualdade entre o homem e a mulher, quem veja na coeducação, que Abril introduziu, uma ofensa à moral e aos bons costumes.

Foi nessa escola salazarista que se formaram muitos dirigentes atuais, subservientes aos poderosos, e déspotas para com os fracos e oprimidos. Aprenderam os afluentes dos rios e as linhas dos caminhos de ferro, mas não aprenderam o respeito pela emancipação dos povos e o amor à democracia, decoraram as serras e os ossos do corpo humano, mas não descobriram como endireitar a coluna e formar o carácter.

Sabemos que foi penoso, para quem julgava ser de uma casta superior, ver os filhos dos pobres nas universidades onde eles tiraram cursos com equivalências, diplomas falsos e passagens administrativas. Havia nos fascistas dissimulados exageros que a consciência malformada exigia. Os militares de Abril, a quem devemos a liberdade, pouparam-lhes o julgamento aos pais, vingam-se deles, agora, os filhos.

Esses ressentidos que, na desorientação da Revolução de Abril, gritaram «nem mais um soldado para as colónias», são hoje os algozes do povo que desfrutou a liberdade de que esteve arredado 48 anos. São ressabiados que exultam com a destruição do estado social e o empobrecimento coletivo do povo que detestam. São os coveiros da saúde, educação e segurança social.

Faltam 4 dias para lhes arremessarmos cravos e gritarmos canções, para lhes dizermos que o problema será deles, perante a indiferença que sentem e o ódio que destilam.

domingo, abril 20, 2014

Como nasceu o blogue Ponte Europa

A intenção do pio edil de Coimbra, Carlos Encarnação, de crismar a ponte Europa com o nome de Rainha Santa Isabel, surgida em março de 2004, causou estupefação generalizada.

A Europa está condenada ao rapto. Zeus, transformado em touro, levou-a para Creta e fez-lhe três filhos, mas amava-a. Encarnação detestava-a e afadigou-se a apagar-lhe o nome. Assim, em vez de Europa, filha de Argenor, rei da Fenícia e irmã de Cadmo, ficámos com a filha do rei de Aragão, esposa de D. Dinis, a dar nome à ponte.

Esperava-se que a rainha repetisse o milagre que obrara outrora com os operários do convento de Santa Clara. Com o desemprego que ora grassa, seriam precisas muitas moedas de ouro para levar algum conforto aos desempregados que todos os dias aumentam em Coimbra.

A ideia de crismar a ponte com o nome de «Rainha Santa Isabel» não valorizou a cidade que aspira à modernidade, foi um tributo ao beatério que exultou na paróquia, digna de um mordomo das festas da Rainha.

Sabemos que a devoção autóctone é exacerbada, como o prova a estátua que se apossou do Largo dos Arcos do Jardim, mas o exagero tem limites.

Quem mora numa Praceta com nome de santo, na freguesia de Santo António dos Olivais, em cuja fachada da Junta de Freguesia está um painel com Santo António, e já dispunha da ponte de Santa Clara para atravessar o Mondego, não se refaz da onda de santidade que transformou a cidade universitária numa paróquia rural.

Fazia falta um projeto para a cidade, não um novo nome para a ponte. O Ponte Europa foi a homenagem republicana, laica e democrática de quem sentiu vergonha de quem mergulhou na pia da água benta para trocar o nome à ponte e singrar na política.


sábado, abril 19, 2014

Gabriel García Márquez


A morte do consagrado autor de tantos livros que lemos e gravamos na nossa memória - “Ninguém escreve ao coronel”, “Memórias de um náufrago”, “O amor nos tempos de cólera” , “Cem anos de solidão”, etc. - não pode ser reduzida a um episódio acidental que passa incólume pelos recortes necrológicos ou, pior, circunscrito a elogios fúnebres de circunstância, produzidos por entidades políticas 'oficiais' que vivem em permanente divórcio com a cultura e, não poucas vezes, se terão sentido incomodadas pela escrita de “Gabo”.

Trata-se, efectivamente, de enorme perda para a Literatura universal e particularmente para a sul-americana onde figura como o 3º prémio Nobel [da Literatura] atribuído a um autor da ‘América Latina’, depois de 2 autores chilenos [Gabriela Mistral e Pablo Neruda] e que emparelha com uma notável geração de outros grandes autores desse continente entre os quais permito-me recordar Jorge Luis Borges e Jorge Amado [também já desaparecidos].  

Será esse histórico elo da latinidade e o pesado lastro da proximidade luso-hispânica que nos une culturalmente e nos torna próximos da América do Sul. O desaparecimento físico deste consagrado autor colombiano é muito doloroso para todos aqueles que, pelo Mundo fora, conheceram e gostaram de ler as diversas formas e as vastas nuances que o ‘realismo literário’ encerra. Mais do que um mestre do 'realismo mágico' foi um mágico protagonista do realismo, enquanto movimento artístico comprometido com as realidades políticas, económica, sociais e culturais dos povos.

M L Albuquerque: penas, penalizados e penosos dislates...

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, garantiu esta quinta-feira que os pensionistas em 2015 não ficarão mais penalizados do que já estão e remeteu para o final do mês mais detalhes sobre a matéria”… link.

Bem, a utilização do termo - ‘penalizados’ -  terá sido um lapsus linguae. Porque, se o não for, põe a nu tudo aquilo que de falso este Governo, repetidamente, tem vindo a afirmar e a divulgar.
Em Janeiro passado esta mesma ministra já tinha afirmado, no Parlamento, que o “Governo não tem nada contra os pensionistas…” link

Afinal, parece que [a ministra e o Governo] andaram a reprimir uma ideia nitidamente persecutória que os atormentavam mas que evitavam exprimir. Um Governo que envereda sistematicamente pela fuga, pela mentira descarada, tem de cuidar de adoptar mecanismos de 'auto-censura'. Todavia, face aos factos não pode, nem merece, ser tratado como um delinquente primário. Já vive submerso nestes expedientes há cerca de 3 anos.

Até que surge o momento da verdade vir ao de cima. Aliás, o motivo que tem animado este governo para andar tanto tempo a disfarçar não passa de uma penosa indigência, na medida em que, os actos de auto-repressão na expressão e no reconhecimento de uma gritante evidência, são isso mesmo. 
Na verdade, a suspensão [temporária?] da tortura não iliba ninguém das responsabilidade adquiridas. É aí, nesse passado recente, que moram a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), os cortes dos subsídios de férias e natal, o ‘enorme’ aumento de impostos, etc.
Quem quer – ou tenta aparecer em público para - livrar 'outros' de mais penalizações (acto de punir ou castigar) é porque no percurso, e reiteradamente no tempo, admite já o ter feito, i. e., já cometeu o delito de que pretende, para futuro, ilibar-se. 

Tão simples como ‘isto’…

sexta-feira, abril 18, 2014

A intolerância, a raiva e a vingança

Há cerca de dez anos que sou assíduo na blogosfera. Tenho mantido dois blogues que diariamente alimento com novos textos.

Um, o «Diário de uns Ateus», propriedade da Associação Ateísta Portuguesa, teve de ser alojado numa plataforma paga, para fugir aos constantes ataques com que as almas pias queriam ganhar o Paraíso. Já não lhes bastava os insultos aos colaboradores, de tal modo baixos, que deixei de frequentar a caixa de comentários!

Agora foi o Ponte Europa, vítima da fauna reacionária e da fúria dos imbecis que veem em Passos Coelho um PM, em Cavaco o PR de todos os portugueses e na presidente da AR uma pessoa sensata.

Sou persistente, e não abandono a luta pelo que julgo correto. Engano-me, sou algumas vezes injusto, e nem sempre sou suficientemente perspicaz para detetar montagens cujos especialistas estão normalmente na área do Governo. Mas nunca, absolutamente nunca, engano deliberadamente.

É com satisfação que anuncio aos leitores que o Ponte Europa, graças à generosidade de um engenheiro informático, já está livre dos energúmenos que o atacaram. Aí está, após dois dias em que se transformava em pinturas exóticas, na defesa dos princípios e ideias dos seus colaboradores.

Abril será sempre mês e 25 todos os dias

Abril é o grito de um povo amordaçado, a esperança renascida na paz e na democracia, um perpétuo jardim de cravos a florir enquanto os cadáveres da ditadura apodrecem de raiva, ressentimento e vergonha.

Pode a incúria do povo, que não julgou as responsáveis pela ditadura, votar em biltres e deixar-se iludir por inimigos, mas um dia ressurgirá das cinzas da afronta o grito eterno:

Abril, Sempre!

quinta-feira, abril 17, 2014

Onde é que estava no 25 de Abril?

O DN, ao iniciar cada entrevista, faz a pergunta de Batista-Bastos a 40 personalidades que vai ouvindo nos 40 dias que precedem a data mais importante da nossa vida coletiva e da história política de quase nove séculos de País.

Têm passado, pelas páginas do DN, ilustres democratas, fascistas declarados e ignaros reconhecidos. Ontem coube a Paulo Portas, menino de 11 anos, que nesse tempo aprendia as manhas dos jesuítas num colégio da Companhia de Jesus.

A resposta à pergunta, «Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril»?, é a que melhor define o perfil do entrevistado e o desejo de falsificar a História. Paulo Portas, à semelhança de Nogueira Pinto, aponta Spínola, a quem chama marechal, como se o título honorífico não fosse posterior aos atos de traição e à tentativa de pacificar as Forças Armadas.

Acontece que Spínola presidiu à Junta de Salvação Nacional, ultrapassando o seu chefe, Costa Gomes, votado esmagadoramente pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), porque Marcelo Caetano julgava que era ele o chefe do golpe de Estado e pediu que o chamassem para lhe entregar o poder.

Spínola caiu no 25 de Abril como Pilatos no Credo, mas podia ter sido um homem com um passado democrático, não ter sido o germanófilo militante que esteve na frente russa como observador das movimentações da Wehrmacht, no início do cerco a Leninegrado, onde já se encontravam voluntários portugueses incorporados na sinistra Divisão Azul.

Em 1961, o tenente-coronel de cavalaria, ofereceu-se a Salazar, por carta, para ir, como voluntário, comandar um batalhão para a guerra colonial de Angola. Toda a vida foi um fascista e não deixou de o ser quando, depois de ter perdido a guerra na Guiné, escreveu o livro, «Portugal e o Futuro», que, dada a consciência generalizada da guerra perdida, foi recebido como uma hipótese possível, apesar das propostas ultrapassadas e utópicas.

Foi o MFA, e não Spínola, que exigiu a realização de eleições a a descolonização. O general do monóculo era um autocrata que, tal como Salazar e Caetano, desconfiava da democracia. Fez reuniões secretas com os americanos para negociar as colónias,  ao arrepio dos movimentos de libertação, e foi contra a sua vontade que os presos políticos foram imediatamente libertados das masmorras da pide.

Spínola, afastado do poder, incapaz de liderar a revolução, tornou-se o chefe do bando terrorista MDLP e, numa cilada em que só um imbecil caía, encomendou armas a um jornalista para armar facínoras que interrompessem o processo democrático em curso.

Mas seria em 11 de março de 1975 que o general cometeria um ato de traição à Pátria que o levaria ao exílio.

É este general de opereta que impressionou Paulo Portas. Para o irrevogável aldrabão, capaz de todos os golpes, foi um general golpista que tinha pela democracia o amor de Maomé ao toucinho, a figura que marcou o 25 de Abril.

Com Paulo Portas e Spínola, a democracia não teria chegado.

Apostila - Nota: À noite o legionário de Famalicão, Alberto Paixão, roubou as flores do monumento aos mortos da Grande Guerra. Não podia ficar o rasto da passagem de HD. Parece que apanhou um valente susto com desconhecidos que, à distância, vigiavam o ramo de flores, segundo ele próprio confessou. (Testemunho de Jaime Couto Ferreira).


A História da Páscoa



A cidade da Guarda e a campanha de Humberto Delgado (Crónica)

Humberto Delgado, com Maria Iva e Iva Delgado, no Hotel de Turismo
Não sei se resistiu ao tempo e aos acasos da sorte a carta que escrevi a felicitar Arlindo Vicente, pela sua candidatura, em 1958. O deslumbramento pela advocacia e o desdém por Salazar eram motivos da preferência e razão da carta que, se a memória me não trai, foi subscrita por todos os alunos da turma (5.º D) do Liceu Nacional da Guarda, com a única exceção do Edgar. Queríamos que fosse ele, Arlindo Vicente, o Presidente da República.

Não sei como não teve conhecimento o reitor e se a carta chegou ao destinatário, com o selo de 1$00 que decerto me privou de alguns cigarros. Não foi audácia, foi ingenuidade que podia ter custado caro a meus pais e, certamente, a minha expulsão do liceu.

Alguns dias depois, o Primeiro de Janeiro anunciava a desistência do ilustre advogado a favor do general Humberto Delgado. Sem efeito, ficava o manifesto com que Arlindo Vicente se apresentou ao País, «sem farda, sem medalhas, …», palavras que me tinham seduzido. Fiquei dececionado e só a estima pelo advogado me levou a aceitar o general, a favor de quem abdicou.

Recordo-me da ida de Humberto Delgado à Guarda, não por tê-lo visto, que disso foram privados os alunos do liceu e perseguidos os que, não obedecendo, surgiram em fotos da multidão que se dirigiu ao Hotel Turismo, donde Delgado os saudou a partir da varanda da suite, virada para a frontaria, antes de ir depor uma coroa de flores no monumento aos Mortos da Grande Guerra.

Na manhã dessa sexta-feira, 30 de maio de 1958, foi lido, em todas as turmas do liceu, o aviso que anunciava a obrigatoriedade de uma explicação, para eventuais faltas às aulas da tarde pelos encarregados de educação dos alunos, e que, depois das aulas, se seguiria uma palestra obrigatória. Não nos impediu a idade de atingir a manobra e a despotismo, tendo sido a única palestra nos anos que ali andámos.

Da parte da tarde, à saída das aulas, fechadas as portas do liceu, os contínuos tocaram os alunos para o ginásio como os pastores ao gado para o redil. O Dr. Ferreirinha esperava-nos, enquanto o pessoal menor, designação oficial para contínuos, exigia silêncio a uma turba de jovens excitados e exaltados.

A ‘palestra’ impedir-nos-ia de ver o General na varanda da suite do Hotel, as cenas de pancadaria junto ao memorial aos mortos da Grande Guerra, no Jardim José de Lemos, o nosso colega Zé Grande a colocar a capa nos ombros do General, o polícia "foge à mãe" de cassetete em riste e as máquinas fotográficas que registaram os rostos dos que viriam a ser perseguidos pela polícia e suspensos do liceu pelo Rabaça, reitor conhecido por «o Malhado», graças ao angioma que lhe percorria e desfigurava uma das faces.

Das aldeias não veio gente, os padres da diocese advertiram os crentes, nas missas, para o pecado mortal de quem votasse no excomungado, como apregoavam panfletos a cuja distribuição nem os analfabetos eram poupados.

Mas disso não sabíamos ainda os alunos encerrados, nem da chegada do General, vindo da Covilhã, nem do assalto à sede da sua candidatura em Lisboa pelos arruaceiros que a União Nacional facilmente arregimentava, nem da presença de Maria Iva e Iva Delgado, respetivamente mulher e filha, que o acompanharam.
 
Vi, anos depois, fotografias tiradas pelo grande fotógrafo e democrata, o Sr. Armando, espólio a que a Pide não teve acesso, mas não lhe faltaram outras onde identificou os mais afoitos ou imprudentes e que começaram aí a perceber o que era a repressão.

Voltemos à ‘palestra’ do Ferreirinha, professor de Português, cuja formação académica era superior à cívica. Após os esforços do pessoal menor e dos seus gritos, a rapaziada acalmou e a dissertação sobre a peça de teatro «Quem tem Farelos», de Gil Vicente, lá começou.

O barulho e indiferença conjugavam-se para a patética exposição encomendada. Coube ao farsante do Ferreirinha, natural de Pega, uma pequena aldeia do concelho da Guarda, perorar sobre a farsa de Gil Vicente. Arrastou-se na exegese e nem as críticas vicentinas à nobreza e, sobretudo, ao clero, que enchia de sotainas a cidade, lograva obter silêncio. O respeito que granjeara nas aulas esbanjou-o no indigno frete a que se prestou.

Num determinado momento, sorriu, antes de ler mais uma passagem da farsa, prevendo o êxito que Gil Vicente teria em jovens reprimidos por preconceitos pios, rompendo a linguagem hipócrita. O Dr. ferreirinha pôs um ar alegre e, devagar, cito de memória, leu “Ordonho! Ordonho! espera mi. Ó fideputa ruim!”, antes de lhe chegar umo eco sonoro, vindo da multidão, “fideputa ruim, é você”, a que se seguiu um silêncio sepulcral.

Os segundos pareciam minutos intermináveis. Nesse instante entrou um contínuo, parou respeitosamente e, a um olhar interrogativo do Ferreirinha, comunicou, já se foi embora. – Saiam, ordenou o orador, perplexo e enxovalhado. E nós corremos a saber o que tinha sido a tarde lá fora e a respirar o ar de que a ditadura queria privar Delgado.

A caminho de Viseu, Delgado tinha enfrentado a repressão, rumo à vitória que lhe seria negada. As chapeladas, palavra que designava a introdução maciça de votos nas urnas, jamais seriam abandonadas, mas a ditadura, em pânico, e durante a campanha eleitoral, publicou o decreto-lei que proibiu a oposição de fiscalizar o funcionamento das mesas de voto. Sem fiscalização, graças às chapeladas, o fascista designado, Américo Tomás, «ganhou» as eleições, mas teve derrotas pesadas em concelhos alentejanos e do distrito de Santarém, onde a União Nacional se assustou.  Os resultados oficiais afinados deram cerca de 75% dos votos expressos a Américo Tomás e 25% a Humberto Delgado, o que correspondeu a 758 998 votos e 236 528 votos, respetivamente, para cada candidato. As chapeladas, trocas de votos e votos de mortos, sem fiscalização dos cadernos eleitorais, preservaram a ditadura.

A passagem de Delgado semeou ventos de liberdade, enquanto ele correu para a vitória interdita, a demissão da Força Aérea, onde fora o mais jovem general, o exílio, a luta, a conspiração e, finalmente, a cilada em que seria assassinado pela pide.

Faltavam quase dezasseis anos para que outros militares vingassem a afronta de quem começara como cadete do 28 de maio e acabaria assassinado como “general sem medo”.

Ponte Europa / Sorumbático


quarta-feira, abril 16, 2014

A inteligência emocional

«A ideia de que o Estado social é muito permeável à fraude é provinciana, é fácil encontrar casos idênticos noutros países. Em Portugal não há área tão fiscalizada como as prestações sociais dos mais pobres. Que o rigor não seja orientado só para quem tem menos».

(José Vieira da Silva, ex-ministro da S.S.)


Passos Coelho na SIC-N

Passos Coelho deu ontem uma entrevista de 1 hora à SIC-N, sem motivo, conteúdo ou objetivos, um pretexto para reafirmar que é primeiro-ministro, como se não sentíssemos o peso da sua impreparação e da ameaça ultraliberal que representa.

A única afirmação concreta, a novidade exclusiva da entrevista, foi o anúncio de que a “solução duradoura” que substituirá, no futuro, os cortes extraordinários nas pensões, será anunciada até ao fim do mês.

Lembrou o indivíduo que, sem quaisquer classificações para determinado emprego, foi a uma entrevista e, perguntado sobre a razão de estar ali, respondeu: «só vim dizer que não contassem comigo».


Iconografia da ditadura

Faltam 9 dias para celebrarmos o 40.º da data que venceu a mentira, a tirania e o crime.

Não queremos voltar ao ensino de excelência que produziu Barroso, Cavaco e o pai de Passos Coelho.

terça-feira, abril 15, 2014

Os netos do salazarismo vingam os pais

Chegados ao poder, depois de assistirem ao silêncio magoado dos pais, derrotados em sucessivas eleições livres, os mais reacionários de sempre, estão aí para se desforrarem de 37 anos que, apesar dos solavancos, decorreram com o 25 de Abril como referência.

Hoje, carregados de ódio e ignorância, ressentidos com as conquistas dos trabalhadores e as liberdades conquistadas, querem vencer pelo medo os que ainda não se vergam, não se ajoelham e recusam andar de rastos.

Tiram-nos tudo, o direito à saúde, à segurança social e ao ensino. A saúde, esquartejada entre bancos e IPSS, o ensino entregue às sotainas e ao capital e a segurança social à mercê da sopa dos pobres e à caridadezinha, para quem não pode pagar seguros.

O problema é nosso, na placidez bovina com que lhes toleramos as ofensas aos militares de Abril, na mansidão com que mostrámos quando nos extorquiram os feriados do 5 de Outubro e do 1.º de Dezembro e deixámos que nos desafiassem com o roubo das datas identitárias.

Os portugueses deixaram de nascer com vergonha e medo dos que nos governam e, os que ainda vivemos no desassossego dos que nos querem mortos ou emigrados, somos incapazes de julgar o gangue do PPN, os partidos que ele subsidiou e as pessoas cujas campanhas eleitorais patrocinou.

“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, ou em latim, como o secretário de Estado que experimentou a reação dos portugueses  perante a transformação dos cortes provisórios das pensões, em definitivos: “Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra” ?

Falta-nos um Cícero que nos convoque.


A opinião:

O presidente Cavaco Silva nunca usou cravo. E agora se percebe porquê. Porque antes do 25 de Abril foi salazarista. Embora tanto deva ao regime que resultou da Revolução dos Cravos. Mas só agora se compreende e a dois anos do fim do seu mandato e protetor de um governo, que em boa parte pensa como ele, a verdade vem ao de cima. Como sempre.

Mário Soares, hoje, no DN, pág. 55)


Por que motivo não me admiro?

Não, não é a sensibilidade que falta, a solidariedade que se esvai, o espírito crítico que mingua. É a prática de quem já pouco tem para viver e muito lhe sobra para recordar.

Ontem li no DN, pg. 4, que os  reformados ricos passam à frente nas listas de espera de Misericórdias e IPSS; que o Estado pagou 35 milhões [€€] a colégios acusados de irregularidades; que há 120 mil crianças afetadas por falta de comida; que a educação está em risco de retrocesso e que o abandono escolar é um problema que cresce em silêncio.

Estamos a chegar aos níveis de excelência de que se ufanava Durão Barroso na sessão a que trouxe comissários europeus e a que não faltou Cavaco, resquícios do Estado Novo, uma sessão de propaganda ao Governo de Passos Coelho, com a nostalgia educativa do fascismo.

Não digo que era a malta do BPN, alguns impedidos pelas pulseiras de se deslocarem e de ocuparem os lugares de topo da hierarquia do Estado, mas estava lá a fina flor dos que mais se parecem com quem preenchia fichas na pide e não de quem a pide as preenchia.

Uma democracia não se faz sem democratas e é débil a cultura e medíocre a devoção à República de quem se presta a elogiar Cavaco, Durão Barroso e Passos Coelho.

Não bastava a desgraça deste Governo, deste PR e desta maioria, ainda temos a tragédia deste presidente da Comissão Europeia, sem remorsos da invasão do Iraque nem do saneamento de professores com credenciais democráticas equivalentes às suas.


A excelência do ensino de Durão Barroso

Faltam 10 dias para celebrarmos Abril, longe de quem o detesta e com asco do ensino que Durão Barroso acha de excelência. O livro da imagem foi o primeiro que lhe deformou a mente, entorpeceu a sensibilidade e aguçou o oportunismo.

É desse ensino, e dos alunos que nunca chegaram a homens, que a vergonha, o nojo e a raiva nos acompanham. Que interessam dezenas de mortos que diariamente morrem no Iraque, vítimas do ódio sectário dos cruzados dos Açores e dos interesses do petróleo?

Há quem troque  a ética, a coluna vertebral e a vergonha, por ambições de uma carreira, um almoço de lagosta pela fome e doença de crianças, o lugar de destaque pela tragédia de um povo.

segunda-feira, abril 14, 2014

Cavaco, Passos e Barroso vão a votos dos portugueses

Podem os cúmplices da atual política, e servos de interesses suspeitos, negar o carácter plebiscitário das próximas eleições europeias. O PR, o PM e o inqualificável candidato a Cavaco II, serão julgados nas urnas.

O último ato da ópera bufa foi encenado por Durão Barroso, militante da ética de Bush, Blair e Aznar, a cujo convívio ascendeu depois de um estágio na madraça do MRPP.

A reunião para o lançamento da candidatura a PR contou com os comissários europeus que se prestaram a ser figurantes junto dos figurões que não percebem a aversão que os portugueses lhes devotam, já que o próprio, sem pudor, usou as funções de presidente da Comissão Europeia em benefício próprio e ao serviço das ambições pessoais.

O triângulo de atores inferiores, formado por gente cujas funções os deviam impedir do espetáculo, deram origem à mais pífia das encenações, ao mais medíocre dos ensaios e à mais deprimente diversão política.

Cavaco disse bem de Barroso, este de Passos Coelho  e o último de Cavaco. O carrocel de vacuidades, adrede combinado, mais parecia um número, para fazer esquecer o BPN e a errática governação deste executivo, do que uma sessão de aquecimento para lançar alguém que substitua este PR, sem poder ser pior.

O ajuntamento político foi uma mera reunião de negócios, sem glória, sem honra e sem consequências, um ensaio para mais um embuste, uma tentativa de imitação da Coreia do Norte.


Só uma derrota humilhante da coligação do Governo será o justo prémio para o pior PR, a pior maioria e o pior Governo de que há memória. O panegírico fascista ao ensino dos tempos salazaristas foi um piscar de olho à reação, uma espécie de manifesto subliminar onde se percebia o apelo final: «fascista de todo o país, uni-vos». Barroso, ao abrigo do julgamento no TPI, pelo crime do Iraque, pretende prolongar a viscosidade em Portugal.

domingo, abril 13, 2014

Passos Coelho: ad latere do 25 de Abril...

O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, não quer valorizar "episódios laterais" relativamente às comemorações dos 40 anos do 25 de Abril”. link.

Bem, os portugueses nestes 3 últimos anos ficaram a saber que se existem ‘episódios laterais’ relativos ao 25 de Abril um deles seria a circunstância deste Governo ter ‘assaltado’ o poder montado num ‘ledo e cego engano’, prometendo auríficas respostas para superar um período de profunda crise nacional e europeia.

E sabem mais: que a lateralidade em questões políticas e governativas é, em primeiro lugar, a ausência (ou a fuga) de posicionamento, i. e., a deriva, como método de governo. 
Outra será o disfarce que [o actual primeiro-ministro] não consegue iludir [nem 'lateralizar'] quanto aos sentimentos de ressentimento e de uma profunda incompatibilidade com o 25 de Abril. 
Outra ainda poderá ser o querer caminhar entre os pingos da chuva sem se molhar, sem dar a cara. Ou, tornar-se no paladino de uma volátil ‘indefinição’, em que tudo é marginal e lateral, excepto o ‘ajustamento’ em curso (facto que não pode ser comentado em público, p. exº., na AR). O rastejar é, muitas vezes, um  confrangedor 'episódio ventral'.
A lateralidade (ou o encarar de problemas lateralmente) é uma atitude política que já não colhe. Porque toda a gente lhe está a ver a careca (sem conotações bíblicas). E um ‘imenso fastio’ (para não dizer repulsa) apoderou-se dos cidadãos que não estão disponíveis para desmontar ‘episódios’ ou aceitar as aleivosias - directas ou laterais - que lhe são diariamente dirigidas e/ou infringidas. 

Deixando de lado os episódios para olharmos [frontalmente] para as pessoas.
Não será difícil classificar Passos Coelho como um ‘latero-político’ que caminha num confuso deambular ideológico vogando à bolina dos ventos vindos do Centro e Norte da Europa e que se verga (infunda o seu ego) aos seus interpostos interesses. 
A diferença é que esse posicionamento não pode deixar de ser avaliado como um iniludível preconceito antagonista [do 25 de Abril] e, aqui, sim, não se trata de algo que possa ser considerado ‘ad latere’.

Os cidadãos não apreciam políticos laterais. Preferem os frontais. E se alguma coisa existisse de positivo neste tipo de posicionamento seria, com certeza, a 'dialéctica da bilateralidade' [e não a ‘lateralidade’] dos citados ‘episódios’. E este não foi o posicionamento de Passos Coelho, nem sequer é algo que seja pertinente no caso vertente [as comemorações do 25 de Abril]. Nem pertinente, nem digno.

A História Universal da Infâmia





Entre os portugueses e a luxúria do poder, Passos Coelho escolheu o poder. Fica registado.

«Este Governo, o de Pedro Passos Coelho, nasceu de uma infâmia. No livro "Resgatados", de David Dinis e Hugo Coelho, insuspeitos de simpatias por José Sócrates, conta-se o que aconteceu. O então primeiro-ministro chamou Pedro Passos Coelho a São Bento para o pôr a par do PEC4, o programa que evitava a intervenção da troika em Portugal e que tinha sido aprovado na Comissão Europeia e no Conselho Europeu, com o apoio da Alemanha e do BCE, que queriam evitar um novo resgate, depois dos resgates da Grécia e da Irlanda.
Como conta Sócrates na entrevista que hoje se publica, Barroso sabia o quanto este programa tinha custado a negociar e concordava com a sua aplicação, preferível à sujeição aos ditames da troika, uma clara perda de soberania que a Espanha de Zapatero e depois de Rajoy evitou.
Pedro Passos Coelho foi a São Bento e concordou. O resto, como se diz, é história. E não é contada por José Sócrates que um dia a contará toda. No livro conta-se que uma personagem chamada Marco António Costa, porta-voz das ambições do PSD, entalou Passos Coelho entre a espada e a parede. Ou havia eleições no país ou havia eleições no PSD. Pedro Passos Coelho escolheu mentir ao país, dizendo que não sabia do PEC4. Cavaco acompanhou. E José Sócrates demitiu-se, motivo de festa na aldeia.

Detenho-me nesta mentira porque, quando as águas se acalmam no fundo poço, é o momento de nos vermos ao espelho. Pedro Passos Coelho podia ter agido como um chefe político responsável e ter recusado a chantagem do seu partido. Podia ter respondido ao diligente Marco António que o país era mais importante do que o partido e que um resgate seria um passo perigoso para os portugueses. Não o fez. Fraquejou.

Um Governo que começa com uma mentira e uma fraqueza em cima de uma chantagem não acaba bem. Houve eleições, esse momento de vindicação do pequeno espaço político que resta aos cidadãos, e o PSD ganhou, proclamando a sua pureza ideológica e os benefícios da anunciada purga de Portugal. Os cidadãos zangados com o despesismo de José Sócrates e do PS, embarcaram nesta variação saloia do mito sebástico. O homem providencial. Os danos e o sofrimento que esta estupidez tem provocado a Portugal são impossíveis de calcular. Consumada a infâmia, a campanha contra José Sócrates continuou dentro de momentos. Todos os dias aparecia uma noticiazinha que espalhava pingos de lama, ou o Freeport, ou a Face Oculta, ou a TVI, ou todas as grandes infâmias de que Sócrates era acusado. Ao ponto do então chefe do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, que se tinha aliado ao PCP e ao PSD para deitar o Governo abaixo e provocar a demissão e eleições (no cálculo eleitoralista misturado com a doutrina esquerdista que ignorava a realidade e as contas de Portugal), me ter dito numa entrevista que considerava "miserável" a "campanha pessoal" da direita contra Sócrates. Palavras dele.
Aqui chegados, convém recordar o que o Governo de Passos Coelho tem dito e feito. Recordar as prepotências de Miguel Relvas, os despedimentos, os SMS, os conluios entre a Maçonaria e os serviços secretos, os relatórios encomendados, os escândalos, a ameaça da venda do canal público ao regime angolano, e, por fim, o suave milagre de um inexistente diploma. Convém recordar as mentiras sobre o sistema fiscal, os cortes orçamentais, a adiada e nunca apresentada reforma do Estado, as privatizações apressadas e investigadas pelo MP, os negócios e nomeações, a venda do BPN, as demissões (a de Gaspar, a "irrevogável" de Portas), as mentiras de Maria Luís, os swaps e, por último, cúmulo das dezenas de trapalhadas, o espetáculo da "Razão de Estado" vista pela miopia de Rui Machete. Convém recordar que na semana da demissão de José Sócrates os juros do nosso financiamento externo passaram de 7% para 14%. E os bancos avisaram-no de que não aguentavam. Sócrates sentou-se e assinou o memorando.

Que o atual primeiro-ministro não hesitasse, mais uma vez, em invocar um segundo resgate para ganhar as eleições autárquicas que perdeu, diz tudo sobre a falta de escrúpulos deste Governo, a que se soma a sua indigência, a sua incompetência, o seu amadorismo. A intransigência. Este é o problema, não a austeridade.

José Sócrates foi estudar. Escreveu uma tese, agora em livro, que o honra porque tem um ponto de vista bem argumentado, politicamente corajoso vindo de um ex-primeiro-ministro. E vê-se que sabe o que diz. Podem continuar a odiá-lo, criticá-lo, chamar-lhe nomes. Não alinho nas simpatias ou antipatias pela personagem, com a qual falei raras vezes. O que não podem é culpá-lo de uma infâmia que levou o país ao colapso político, financeiro, cívico e moral.

Entre os portugueses e a luxúria do poder, Passos Coelho escolheu o poder. Fica registado».



Clara Ferreira Alves

Durão Barroso e a excelência do ensino antes do 25 de Abril

Barroso elogiou a cultura de excelência nas escolas antes do 25 de Abril. Tem razão.

Foi lá que formou a personalidade e moldou o carácter que o levou a mobilar a sede do MRPP com móveis da Faculdade de Direito de Lisboa, o animou a sanear professores e a exigir passagens administrativas, para se furtar ao trabalho de preparar os exames.

Foi essa excelência que o conduziu a uma epifania, aos ensinamentos do presidente Mao e ao casamento com a filha de um ex-chefe de Estado Maior da Armada e Procurador à Câmara Corporativa da ditadura fascista.

Foi essa excelência que o levou a viajar a Inglaterra para verificar que eram químicas as armas que não eram, para decidir dar cobertura ao resgate do Iraque de um ditador laico, para ser cúmplice na destruição do país e deixá-lo nas mãos de uma teocracia de cinco orações diárias.

Foi essa excelência que o levou a ser capacho dos interesses de Bush na Europa e da Alemanha em Portugal. É essa excelência que o torna nostálgico de um ensino onde se glorificava o Império, se rezava antes das aulas e se davam vivas a Salazar.

Quando um homem perde a coluna e se contenta com a cartilagem, vende a dignidade e se inclina perante um Passos Coelho, pode ter a vassalagem do seu antigo tutor, mas não terá o respeito dos cidadãos.

Barroso é o indivíduo videirinho, que gritava «nem mais um soldado para as colónias», para criar o caos e dificultar a descolonização e, depois, se aliar aos colonialistas. Foi o governante que, incapaz de governar Portugal, endossou o PSD e o Governo a Santana Lopes, indiferente à sorte dos portugueses, para se refugiar em Bruxelas ao serviço dos americanos e de joelhos perante os maiores países europeus.

É esse homúnculo venal, que não cresceu, inchou, que vem agora, à falta de outro lugar para onde correr, tentar a candidatura a PR de Portugal, apoiado numa referência ética com provas dadas no apoio a Portas e Passos Coelho, esse mestre da banalidade que faz do faceboock o veículo das suas comunicações e nas aparições televisivas a leitura dos comunicados de circunstância, o Prof. Aníbal.

Estamos bem servidos.


Há muito ressentimento escondido

Rastejam aí, no rodapé das notícias, a destilar ódio aos militares de Abril, a defender a guerra colonial, a combater a URSS, como se ainda existisse, a remoer a raiva de quem não digeriu a Revolução e teme uma pneumonia à menor aragem da liberdade.

Andam aí os filhos dos bufos, rebufos e salazaristas, os descendentes do respeitinho é muito bonito, os répteis do Estado Novo, indiferentes às prisões, torturas, perseguições e medos. São os desmemoriados dos que a pide assassinou, os ressentidos da liberdade que os capitães de Abril outorgaram, os invejosos dos filhos dos pobres que chegaram à universidade e que preferiam andar de rastos, num país orgulhosamente só, do que viver de pé, em democracia.

Há novos representantes da velha geração de cúmplices da ditadura, dos que iam em autocarros oferecidos, aplaudir  o ditador e dar vivas à ditadura. Eram velhos fascistas embrutecidos no livro único ou orgulhosos do analfabetismo, tão minguados de ideias como os que agora insultam a liberdade com erros de ortografia, a derrapar na sintaxe.

Uns não sabem o que isto era e outros julgam que era como lhes disseram, e trazem no sangue o ressentimento dos delatores, a raiva dos lacaios e o espírito vingativo de quem não se conforma com a liberdade.

Há toda uma pedagogia por fazer, um grito de raiva que se faça ouvir contra os ineptos que tomaram o poder, uma Grândola por cantar e os versos de Ary por dizer.

Há um grito de júbilo por Abril a soltar, vivas à liberdade a bradar, um ruído patriótico que acalme os nostálgicos da ditadura e assuste as ânsias de regresso ao passado.


Viva Abril!

sábado, abril 12, 2014

Um paleio indecoroso …

O primeiro-ministro reprovou, esta sexta-feira, o que aconteceu no que toca à aplicação dos fundos da União Europeia nos últimos 25 anos, tendo mesmo classificado-os de «dececionantes». Temos de ser muito mais exigentes e elevar a nossa fasquia quanto aos resultados estruturais de médio e longo prazo», acrescentou Pedro Passos Coelho, no encerramento da conferência «Portugal rumo ao crescimento e emprego”. link

Chama-se a isto promover a um mega-comício com o presidente da Comissão Europeia  e o Presidente da República e aproveitar o ensejo para botar faladura com conhecimento de causa.

Passos Coelho quando resolve pensar o modelo de crescimento português e os fundos europeus tem saudades da Tecnoforma, delírios sobre a capacitação do pessoal camarário em matéria aeroportuária e pesadelos acerca da rede nacional de aeroportos municipais. link. Por esta ordem.
E para mitigar estas terríveis sensações foi 'repescar' o seu companheiro Miguel Relvas para os órgãos nacionais do PSD...

Cumplicidades

É pecado levantar falsos testemunhos

(Do catecismo da Igreja católica)

O problema é deles…

Quem disse isso foi a ex-mulher de um antigo estudante baleado pela polícia de choque, tendo perdido um rim; a mulher que me agradou por ter substituído um oportunista que negociara à sorrelfa a presidência de um órgão da soberania com quem ainda se julgava a receber subsídios do Relvas para uma empresa de formação para aeroportos da região centro; a jovem bonita e amável que, de minissaia, integrou o Tribunal Constitucional; enfim, alguém em que eu admitia poder votar para a presidência da República.

O problema é deles, disse com a categoria com que as varinas anunciam o peixe, com a sensibilidade com que Cavaco perscrutou o sorriso das vacas, perante a frescura da erva, com o desprezo com que um troglodita implacável exclamou, aludindo ao aumento dos sacrifícios dos portugueses: ai aguentam, aguentam!...

Há nos homens, cujo problema é deles, mais massa óssea na coluna vertebral do que em todos os que os ofendem, mais sabedoria e experiência de vida do que nos oportunistas que os desprezam, mais coragem e amor à Pátria do que os que julgavam ser sua a pátria alheia e não lhes perdoam a liberdade de que não sentiam falta.

Há nesta gente, que os nossos erros e incúria guindaram ao poder, a arrogância de quem se julga ungido, a prepotência de quem se envergonha das origens e se afirma nos locais que ocupa pela humilhação de quem lhos permitiu.

Muitos estão no cargo como Pilatos no Credo romano, e atingiram o princípio de Peter, outros chegaram pelas vicissitudes que fizeram Calígula imperador, e só se afirmam no poder quando fizerem do seu cavalo cônsul e sacerdote.

Desejo-lhes melhor fim do que ao imperador romano.  Mas depressa. Estamos fartos.

Faltam 13 dias para celebrarmos Abril, longe de quem o detesta


A não esquecer !

Foi o primeiro-ministro Cavaco Silva que em 1989 recusou conceder ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, quando este já se encontrava bastante doente, uma pensão por "Serviços excepcionais e relevantes prestados ao país", isto depois do conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República ter aprovado o parecer por unanimidade.


Foi o primeiro-ministro Cavaco Silva que em 1992, assinou os pedidos de reforma de  inspectores da polícia fascista PIDE/DGS, António Augusto Bernardo, último e derradeiro chefe da polícia política em Cabo Verde, e Óscar Cardoso, um dos agentes que se barricaram na sede António Maria Cardoso e dispararam sobre a multidão que festejava a liberdade.

sexta-feira, abril 11, 2014

Durão Barroso consegue ganhar a Passos Coelho.


25 de Abril: o ‘nosso’ problema …


A presidente da AR, Assunção Esteves, sobre a recusa dos capitães de Abril em fazerem-se representar nas cerimónias comemorativas do 25 de Abril, nesse órgão de soberania, por ter lhes sido negada possibilidade de usar da palavra, declarou acintosamente: “o problema é deleslink.
Este é um sinal explícito da tentativa de ‘absorção’ do 25 de Abril, enquanto marco de mudança do regime e de futuro. As forças de Direita que chegaram ao poder têm a agenda secreta de impor um novo ciclo político. Para muitos este facto já se revelou há muito. Uma das frases lapidares é que ‘ninguém é dono do 25 de Abril’. Como se as questões de propriedade não fossem fulcrais para a Direita.

Por outro lado, declarações de apoio e homenagem ao MFA (parece que não, mas existiu!) abundam, mas a hipocrisia (política e institucional) é, também, imensa. Seria didáctico (re)ler a entrevista de Sá Carneiro ao JN em Maio 1974 link.
Sejamos claros: a Direita ainda não verbera - publicamente - o 25 de Abril porque entende que essa ‘verdade’ não é lucrativa (nomeadamente em termos eleitorais). Mas está a fazer o seu caminho e quando tardiamente os portugueses se precaverem contra essa iniludível realidade, estarão face a um ‘novo regime’, por ora um secreto desígnio.

O silenciamento dos libertadores só tem uma interpretação: serve aos novos opressores. Claro que a opressão para aonde estamos a ser conduzidos não é o regresso puro e simples ao regime derrubado em 25 de Abril de 1974. Os tempos são outros. Mas o recuo existe, sente-se dolorosamente em termos de desenvolvimento e no proliferar da fome e da miséria, mantendo as mesmas consequências políticas, económicas e sociais.

A situação que se está a gerar à volta das comemorações do 25 de Abril tem paralelismos históricos. Um deles será com o simbólico caso do 17 de Abril de 1969 quando o presidente da AAC exigiu usar da palavra – em nome dos estudantes - na inauguração do Edifício das Matemáticas link. Hoje, o protagonista de então dirige a bancada parlamentar do PS. 
Nada mais coerente do que solicitar à Associação 25 de Abril o envio da mensagem que pretendia transmitir aos portugueses e às portuguesas, volvidos que são 40 anos. E, no meio do cerimonial que está a ser erguido sob a batuta da maioria de Direita e com o alto patrocínio do PR, toda a Esquerda parlamentar (e não só o PS), deveriam assumir o compromisso histórico de dar expressão pública a essa memória no plenário desse lugar que se assume como sendo a casa da Democracia. 
Trata-se de uma dívida de gratidão baseada numa certeza concreta. Será muito difícil honrar dívidas, quer sejam públicas ou privadas, como pretende este Governo, quando não existe o mínimo conceito ou gesto de gratidão.
Esta enorme insensibilidade política a cavalo de uma gritante ingratidão que a actual maioria exibe é o ‘nosso’ (grande) problema...