segunda-feira, junho 30, 2014

A propósito de símbolos e da ética republicana…

Uma polémica mediática e social gerou-se à volta da bandeira enforcada link.
Não parece existir uma intrincada questão jurídica já que será muito difícil conotar uma expressão artística que ilustra um trabalho académico como sendo um ultraje.
Há aqui, e acima de tudo, uma exacerbação nacionalista o que estará de acordo com susceptibilidades feridas relativas à recente intervenção externa no País e que ainda perdura.
As sequelas do ´resgate’ ensombram o consciente colectivo popular e trazem a exaltação dos símbolos já que a soberania real está hipotecada. É por essa razão que o assunto suscita alguma polémica e surgiu tão abruptamente na praça pública.

De facto a bandeira da República é um dos símbolos do regime (republicano) mas será para outros (crentes) um objecto de culto.
O código Penal (n.º 1 do artigo 332) diz: “Quem publicamente por palavras, gestos ou divulgação de escrito, ou por outro meio de comunicação com o público, ultrajar a República, a bandeira ou o hino nacionais, as armas ou emblemas da soberania portuguesa, ou faltar ao respeito que lhes é devido, é punido com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa até 240 dias”.

O referido artigo do Código Penal vem, de facto, abrir uma caixa de Pandora sobre actos e comportamentos que poderão cair sob a sua alçada.
Um exemplo: a extinção do feriado de 5 de Outubro (um decreto do Governo de Passos Coelho, logo, uma divulgação escrita link)  não caberá dentro do quadro dos ultrajes ou de ‘falta de respeito’ à República?
O País estará à espera que o MP tão lesto em deduzir acusação contra o cidadão Élsio Menau abra – por uma questão de equidade - paralela e consequentemente o conveniente inquérito contra o XIX Governo Constitucional por suposto desrespeito à República Portuguesa?

Interessante, também, o artigo do Código Penal quando fala em emblemas. De imediato, assaltou-me a convicção de que a exibição do pin da República na aba do casaco do ex-ministro Miguel Relvas (foto) seria, para muitos portugueses, uma afronta (não propriamente um ultraje) ao bom nome que a República bem merecia usufruir. Aqui - e já fora dos aspectos jurídicos – o incidente' poderá ser entendido como um exibicionismo bacoco e/ou uma insuportável ‘canelada’ na ética republicana. Todavia, este assunto, tratando-se de um entorse, cairá fora a jurisdição penal sendo passível de ser abordado e manipulado, p. exº. por um ‘endireita’.

Balancete…

As recentes posições do Governo inglês sobre a UE não se confinam à divergência sobre a nomeação de Juncker para presidente da Comissão Europeia.
É curioso ter a noção de que a fissura recente no seio da União teve lugar em Dezembro de 2011 e levou então Cameron a afrontar Merkel vetando o que viria a denominar-se ‘Tratado Orçamental’. Alguns meses mais tarde esse tratado avançou deixando a Grã-Bretanha de fora (como esta desejava). 

Nessa complexa discussão uma das vozes críticas acerca da introdução de uma forma rígida de disciplina fiscal foi a de Jean-Claude Juncker. Declarou então: “Precisamos aprender a explicar que é necessário não apenas consolidar nossas finanças, mas contar com a perspectiva de crescimento".

Três anos volvidos é perfeitamente visível que o Tratado então em discussão não resolveu os problemas da Europa mas proporcionou manter e impor, a ferro e fogo, políticas de austeridade, nomeadamente aos países do Sul. Quanto ao crescimento estamos conversados. Economias prósperas como, por exemplo, a alemã resistiram embora com modestos índices de crescimento mas os problemas persistiram ou agravaram-se nos países ditos 'vulneráveis' (do Sul).

É esta a herança que o último Conselho Europeu teimou em continuar a ignorar e em que Passos Coelho se mostrou afadigado para tentar colocar um português na Comissão Europeia. 
Enquanto olharmos para o imediato esquecendo o essencial (a coesão política) temos entretenimento mas o 'afundanço' prossegue inexoravelmente.

Durão Barroso e os revezes de um proxeneta da política

Durão Barroso é um sólido talento, hábil intriguista e saprófita dos americanos. Foi um dos cruzados que viu as armas de destruição maciça de Saddam, motivo suficiente para o tornar cúmplice entusiasta da invasão do Iraque, com Bush, Blair e  Aznar.

A fuga para Bruxelas foi precedida da total incapacidade de remodelar o seu Governo e do endosso a Santana Lopes. Deve ao compadre Martins da Cruz as negociações para que pudesse substituir Aznar, entretanto queimado, enquanto alimentava os órgãos de comunicação social com declarações de que o seu candidato ao lugar era o prestigiado comissário europeu António Vitorino.

A subserviência à Alemanha, França e EUA garantiram-lhe dois mandatos, terminados de forma pouco gloriosa. Pretende agora ser candidato à sucessão de Cavaco com uma certeza, não seria pior.

Em Portugal, teve de aliar-se a Passos Coelho, tão pouco recomendável quanto ele, após ter sido o mordomo da Sr.ª Merkel contra os interesses portugueses. A sua obsessão de defesa da direita levou-o a difamar Vítor Constâncio como responsável, por incúria, da maior burla financeira da nossa História, cometida pelos seus colegas de partido e de Governo.

Sabendo que o Banco de Portugal não tem meios de coação contra os bancos privados, tal é o poder do capital financeiro, nem legitimidade para os controlar, encontrou no ex-Governador o bode expiatório para acusar o polícia e defender os ladrões.

Azar teve há pouco quando repetiu a calúnia com Espanha, quando acusou o Governo de Zapatero e o Banco Central de Espanha, não o Banco Lehman Brothers, este também por falhas de supervisão, na crise da dívida soberana.

Aconteceu que, tal como quando roubou mobília na Faculdade de Direito de Lisboa, e a levou para a sede do MRPP e Arnaldo de Matos o obrigou a devolvê-la, também uma televisão espanhola, atenta, o afrontou, acusando-o de ingerência na política espanhola e de ignorância quanto às possibilidades de fiscalização do banco central.

Curiosamente, neste momento, depois de o BES ter sonegado informação ao Banco de Portugal, de ter cometido irregularidades graves e de tudo apontar para outra tragédia financeira, ninguém acusa o Banco de Portugal, hoje com mais poderes, nem o Governo que certamente não recusou o apoio para a campanha eleitoral.

Dois pesos e duas medidas de um proxeneta da política.


domingo, junho 29, 2014

O PS, a bola e o recreio...


O PS está a dar uma imagem indigente e confusa (fiquemos por aqui) da sua democracia interna e no que diz respeito à capacidade autónoma de superar problemas. 
Não é confortável analisar problemas internos dos partidos nomeadamente quando a opção é (ou foi) não militar em organizações desse tipo (essenciais à Democracia, acrescente-se).
Todavia, a evolução da crise interna do PS está a ser – deliberadamente - empurrada para fora do âmbito partidário e, neste momento, aposta no envolvimento de um alargado de pessoas, classificadas como ‘simpatizantes’, convocadas para interferir na clarificação da liderança. Não se trata de ‘Estados Gerais’ ou fóruns similares onde recurso ao contributo da sociedade civil para desenvolver programas de acção partidários e para ‘afinar’ opções doutrinárias (previamente enquadradas, definidas e aceites) que tem sido usado com o propósito de preparar programas de Governo. Trata-se, isso sim, de endossar à sociedade civil a resolução de problemas organizativos num momento em que a luta pela conquista do poder começa a aquecer os motores e a desconfiança (a desmotivação) é endémica. Uma vez resolvido o problema existirá sempre o risco de a sociedade civil ser enxotada para as margens do processo político-partidário.

O facto de os portugueses terem hoje a nítida percepção de que os actuais dirigentes partidários blindaram estatutariamente os seus cargos não abona em favor da transparência organizativa e funcional que deveria ser uma característica primordial dos partidos políticos. Na verdade, a mesma equipa dirigente que resolveu acorrer ao exterior para resolver problemas é a mesma que armadilhou e congelou soluções internas.
Esta ‘anomalia’ que tenta consolidar nos seus cargos os dirigentes e bloqueia qualquer tipo de clarificação ou de mudança em momentos políticos cruciais ou extraordinários (e este será um deles) foi aparentemente ultrapassada pelos acontecimentos mas, na realidade, permanece inscrita nas regras do PS e pronta para ser invocada no futuro.

O recurso a ‘primárias’ para resolver o impasse apareceu como uma ‘saída democrática’ na tentativa de superar (contornar) uma profunda crise interna, absolutamente subsidiária de divergências estratégicas (subjacentes mas não explicitadas), que se tornaram iniludíveis desde as últimas eleições europeias.

O alargamento dessas primárias a ‘simpatizantes’ mostra como no bloqueio interno existente se pode enxertar uma perigosa armadilha. Primeiro, são os dirigentes e militantes que deverão através de propostas ideológicas e objectivos programáticos conquistar simpatizantes para as políticas democraticamente definidas no interior do partido que aliciem votos em posteriores em actos eleitorais e não o contrário, isto é, de uma amálgama de interesses antecipada e confusamente sufragados em ambiente ‘aberto’ e daí nascerem uns controversos executantes. Na realidade, a actual direcção de António José Seguro foi eleita pelos militantes socialistas (em directas circunscritas ao PS) e não se percebe por que razão o escrutínio acerca da sua actuação e consistência da sua liderança tenha necessidade de uma avaliação ‘alargada’. Isto é, para eleger basta a ‘prata da casa’ mas quando se trata de escrutinar a actuação da actual direcção, enquanto oposição a um Governo desastroso, incompetente e incapaz de governar Portugal, situação que pode abranger uma eventual a demissão, torna-se necessário alargar a consulta aos ‘simpatizantes’.
Mais ou menos isto: para eleger uma maioria simples mas para demitir uma maioria ‘qualificada’. Os portugueses interpretam esta solução como ‘batota’. Tanto mais que os actuais dirigentes não aparecem publicamente a reconhecer a armadilha criada à volta de um inconcebível bloqueio estatutário (que não caiu do céu), nem se apressam a corrigi-lo para futuro.

A experiência europeia de ‘primárias’ partidárias alargadas é incipiente e controversa. Três exemplos – o francês, o italiano e o grego – não permitem ainda conclusões quer quanto à sua eficácia quer quanto aos resultados pretendidos (a credibilização da actividade partidária perante os cidadãos eleitores). 
O exemplo francês em pleno desenvolvimento mostra que a ‘escolha’ das primárias (François Hollande) foi um verdadeiro desastre e o actual Presidente da República não colhe, passados 2 anos, qualquer apoio popular. É difícil saber se, há 3 anos (Outubro de 2011), os socialistas franceses e os seus ‘simpatizantes’  fizeram uma boa escolha. Provavelmente, hoje, muitos socialistas gauleses perguntam se Martine Aubry não serviria melhor os interesses partidários e nacionais. A escolha ‘alargada’ não é per si a garantia de boas escolhas ou de bons resultados.
O modelo italiano é diferente. Tem uma tradição mais longa (2007), mais ardilosa e à primeira vista responsabiliza em maior grau os dirigentes partidários. A esquerda italiana encontra-se praticamente 'federada' no Partido Democrático (PD) onde coabitam espectros que vão de democratas-cristãos, republicanos, sociais-democratas, socialistas até aos comunistas e 'isso' faz alguma diferença. As directas nascem desta alargada fusão e da dificuldade dos diferentes aparelhos partidários controlarem um leque tão vasto de militantes. Mais tarde entraram numa espécie de rotina permitindo que Matteo Renzi (actual primeiro-ministro) não hesitasse em fazer uma aliança prévia com a Direita (de Berlusconi) para apear o ex-primeiro-ministro Enrico Letta (também do PD). Renzi não se contentou em subscrever um acordo de Governo tout court incluindo, também, aspectos controversos  de reforma constitucional. O 'modelo italiano' está muito distante das actuais directas do PS já que pressuporia o esclarecimento prévio das alianças para o futuro, i. e.,  um assunto tabu no seio do PS (para A. J. Seguro e A. Costa).
A versão grega merece poucos comentários. Reduziu o PASOK a uma expressão eleitoral residual não mobilizando os cidadãos gregos nem corrigindo o desfasamento com a sociedade civil para com os partidos do 'arco da governação' grega.
Em incubação está, também, uma experiência com o PSOE para colmatar dificuldades bem evidenciadas nas últimas eleições europeias onde, apesar de escassa margem, foi derrotado pelo PP. 
As directas abertas aos simpatizantes surgem, portanto, como uma espécie de panaceia para legitimar escolhas internas e combater as desconfianças dos eleitores em relação aos aparelhos partidários (que não abandonaram o controlo deste novo método). Não há recuo suficiente para defendê-las tão desaforadamente.

Finalmente, para não nos alongarmos e sintetizar a questão reduzindo-a a um esboço (quase um desenho) a situação que se vive presentemente no interior do PS é passível de uma explicação pretensamente didáctica, como se faz naquelas histórias pacientemente urdidas para contar às criancinhas. 
Assim:
Era uma vez um menino que, com a equipa que ‘seleccionou’, está a treinar, no recreio, com uma bola. Chuta à baliza mas não consegue marcar golos. Parece que joga a ‘feijões’.
Eis que então, aparece um outro menino, com outra equipa, manifestando o ensejo e a vontade de disputar um jogo a valer. 
O primeiro menino constrangido parece aceitar o desafio mas avisa que – segundo as ‘regras’ - a vitória na disputa só será reconhecida se o resultado for uma abada. 
No momento de iniciar o jogo treme, recua, invoca que já estava a jogar há muito tempo e detém o ‘privilégio’ de arbitrar. Não satisfeito resolve, então, convocar a assistência das bancadas para participar no jogo. 
Todos sabemos o que vai acontecer nessas circunstâncias: uma batalha campal!
 
Esta a armadilha e a situação de bagunça que está a tomar conta do PS nestes tempos muito duros e pouco recreativos... .

A notícia

«Estado português deve 2,3 mil milhões de euros à Madeira desde o século XV»

(Segundo um “estudo académico” de dez mil páginas, repartidas em 13 volumes, para demonstrar que, contas feitas desde o século XV até 1976, o Estado deve 2,3 mil milhões de euros à Região).

O ‘trabalho’ foi encomendado por Alberto João Jardim, que o apresentou na companhia dos deputados Guilherme Silva, Correia de Jesus e Hugo Velosa.

Apostila – A ‘investigação’ esteve a cargo do doutorado Alberto Vieira, que levou um Santo António para a conferência de imprensa, apresentando-o como ‘padroeiro’ da investigação que coordenou. Os custos não foram revelados. Presume-se que Santo António não cobrou honorários.

Fonte: DN, ontem, página 8.


sábado, junho 28, 2014

Efeméride

Faz hoje 100 anos que duas balas e um príncipe herdeiro morto deram origem à guerra de 1914/1918.

Hoje, a Croácia católica, e a Bósnia, agora islâmica, procuram lançar o labéu da infâmia sobre a Sérvia, criando um ambiente que parece prenunciar a 3.ª Guerra Mundial.

As gerações não aprendem com as que as precederam e a Alemanha, se tem memória, já não tem a noção do sofrimento que infligiu e de que foi vítima.


A reunião do Conselho de Estado

A reunião do Conselho de Estado, finalmente convocada pelo PR, não tem em vista a análise dos desafios do Governo ao TC, dos reiterados ataques aos seus acórdãos e da reiterada chantagem sobre os juízes.

Não se destina a ouvir a opinião dos Conselheiros sobre a forma de garantir o normal funcionamento das instituições, destina-se a fazer pressão sobre o PS, para ser cúmplice do Governo.

Não é para reforço da democracia que o Conselho de Estado se reúne, é para defender a imagem do PR e para desviar as atenções do desastre governativo de que é responsável, numa altura em que o PS se encontra em convulsão.

Apostila - É natural que algum Conselheiro de Estado confronte o PR com a necessidade da defesa do Estado de Direito.


O descalabro do Governo e a perpetuação da crise no PS

Decidi não tomar partido na legítima luta pela liderança dentro do PS porque, sem o PS, não há alternativa ao pior Governo da Segunda República, transformada em República de segunda por gente de terceira.

Dizer que o pior Governo é apoiado pela pior maioria, e pelo mais inapto PR do regime democrático, é um truísmo tautologicamente demonstrado. E ainda queriam confiscar as decisões dos tribunais encarregando os escritórios de amigos para redigirem os acórdãos sobre a constitucionalidade das leis!

O que nenhum partido pode, nem deve, é impor como líder quem o povo rejeite, quem o eleitorado imagine um clone de Passos Coelho, quem confisque o partido para o repartir por amigos e cúmplices, como fizeram Marco António, Relvas e Passos Coelho.

No PS, cada dia que passa na indefinição é um desastre para o País. Os portugueses não se interessam por golpes palacianos, exigem um projeto, um rumo e um líder.

A guerra em que se consomem os potenciais líderes, com uma paixão que não houve no combate ao desastroso Governo do PSD/CDS/ PR, é um prenúncio do desastre eleitoral. O arrastar da chicana interna pode beneficiar um dos candidatos mas prejudica o partido e, sobretudo, o País.

Acentuar divergências internas, lavar a roupa suja na praça pública, agredir o camarada oponente, é um serviço inestimável à direita e uma nódoa indelével num partido que é a charneira do regime e a mais espectável alternativa à tragédia que nos atingiu.

O PS não pode ser o seguro de vida do conjunto de ministros da direita, que apostou na destruição do Estado e prepara a descaracterização da Constituição. Cabe aos militantes exigirem a resolução rápida da crise, sob pena de perderem o partido e não terem quem os acompanhe no funeral.

No PS não está em curso o julgamento que se adia à espera da prescrição, está em causa a substituição do Governo, da maioria e do PR, antes de destruírem o poder judicial e de conseguirem a liquidação total da saúde, segurança e instrução públicas.


sexta-feira, junho 27, 2014

Ainda o dia nacional do peregrino

Vivemos num país disfuncional onde o futebol é mais valorizado do que o futuro dos portugueses, onde, no rescaldo da eliminatória da seleção nacional, estropiada pelo calor e esforço, os deputados da direita instituem o «dia nacional do peregrino».

Perdido o orgulho da bola, ganha-se o campeonato da fé. Os cachecóis e outros adereços ficaram obsoletos e, por isso, os deputados agarraram-se ao “dia nacional do peregrino”.

Não se vendem camisolas, chapéus e cachecóis, vendem-se santinhos, pagelas e virgens. O negócio do futebol terminou precocemente? Antecipa-se o centenário das piruetas do Sol, das acrobacias da virgem nas azinheiras e do voo picado do anjo, na Cova da Iria.

A Seleção baldou-se aos golos? Os deputados preparam o concurso das missas. Perde-se o campeonato mundial de futebol mas ganha-se o certame nacional das maratonas pias. Em vez do dia de S. Ronaldo instituiu-se o dia do peregrino, substituíram-se jogadores por pastorinhos, o Brasil por Fátima, a bola pelo hissope e o treinador por um cardeal.

Em vez de fintas há genuflexões, cruzes, terços, caminhadas medievais a um santuário e relança-se a indústria das velas.

O Estado é laico, mas os deputados não. São livres de acreditar que a Lúcia, a quem um devota do norte, viu no cadáver os dois dentes que restavam e logo a intitulou bidente, é a santa que faltava na luta contra a República e no apoio a Salazar. Em Espanha, JP2 e B16 criaram tantos beatos e santos franquistas que se temeu o esgotamento de defuntos normais nas hostes da ditadura.

Em Portugal não há santos salazaristas, é urgente que a Irmã Lúcia seja canonizada, que obre dois milagres comprovados, que cure a sarna de uma freira avessa ao banho ou o Parkinson de outra com uma pagela de João Paulo II sob o hábito.

Que interessam o défice, a pobreza, a dívida, o desemprego e a fome se os bens terrenos podem ser trocados pela fé e o bem estar efémero da vida pela felicidade eterna?

Bem-aventurados deputados, preocupados com a salvação das almas dos eleitores.

Reflexão

Se não estivesse convencido de que foram os homens que criaram Deus, aceitava a hipótese de José Cardoso Pires, de que Deus criou o cão e, para se ver livre dele, criou o homem.
(In 'República dos Corvos')

quinta-feira, junho 26, 2014

O faroeste…

Se alguma dúvida existisse sobre o que está em curso a proposta oriunda do PSD/Madeira link (ao que tudo indica com o conhecimento prévio da direcção nacional do PSD) sobre uma revisão constitucional avulsa e condicionada - destinada a resolver problemas políticos governamentais do momento - aparece a esclarecer tudo e todos. 
Uma espécie de ‘desamparar a loja’.

Na verdade, o que se prepara é o fim do regime ‘nascido’ a 25 de Abril e a sua substituição por um ‘outro’, nunca sufragado, onde a vontade dos cidadãos é submersa na subserviente aceitação de enredos económicos e financeiros. 
Esta proposta absolutamente provocatória que mereceu um táctico distanciamento da direcção nacional do PSD link destina-se a fazer o papel de ‘lebre’. Mais tarde surgirá a ‘verdadeira’, aparentemente amenizada e expurgada dos desaforos do ‘sector madeirense’, que se encaixará na estratégia partidária de revisão constitucional, em hibernação desde 2010.

A perversão sistemática do jogo político democrático que se acentuou desde há 3 anos (Junho de 2011) já não chega. Para o PSD é urgente promover uma mudança abrupta do regime. Fazer crer que, como no faroeste onde a lei estava no gatilho do rifle, daqui para a frente, o futuro dos povos será decidido e ‘garantido’ pelos mercados.

A proposta de revisão constitucional do PSD pretende consagrar um ‘monetarismo de fachada demo-liberal’ que, inspirado na doutrina da ‘Escola de Chicago’, deverá incorporar uma 'nova Lei Fundamental onde os direitos, liberdades e garantias serão algo de residual e incapazes de perturbar o andamento da promiscua ‘coboiada’ em evolução…

Do dia nacional do cão ao do peregrino

Em 1 de junho de 2005, o deputado Luís Marques Guedes, e outros signatários do PSD, apresentaram  um projeto de resolução que visava a instituição de um "dia nacional do cão". Queriam "instituir no calendário oficial um dia dedicado à sensibilização de todos para o importante papel que a relação com os cães tem na nossa vida, dia que pode ser particularmente interessante para uma importante pedagogia de valores de cidadania a incutir nas nossas crianças e nos nossos jovens, razão pela qual parece adequada fazer aproximar esta data do 1 de Junho, Dia da Criança" – lia-se no projeto.

Houve quem visse no benemérito desejo, cuja data seria o 6 de junho, não um ato de grande alcance canino mas uma auto-homenagem dos proponentes. O País, nada perdia e apenas serviu de pretexto para enxovalhar os deputados proponentes e privar o País de tão meritória efeméride que anualmente se ladraria.

Agora, com a força do voto da maioria, a que não faltará o pio apoio de algum deputado de outra bancada, a Assembleia da República discute esta quinta-feira uma proposta do PSD e do CDS-PP para fazer do dia 13 de outubro o dia nacional do Peregrino.

A ideia, embora sem impacto no défice, é uma homenagem ao Milagre do Sol, sucesso que teve lugar nessa data, em 1917, quando o astro-rei, movido à manivela por um deus antirrepublicano, desatou às cambalhotas na Cova da Iria, local onde um virgem saltitou de azinheira em azinheira e um anjo desceu de mansinho no anjódromo local.

A maioria considera que o “ato de peregrinar” vai para além da condição religiosa e tem também “uma dimensão social, cultural e económica que se deve também valorizar”. Os tasqueiros da beira da estrada rejubilam, a secretaria de Estado da Cultura não deixará de patrocinar obras sobre milagres e o país exultará de rastos em maratonas pias.

Do céu não cairá um milagre, mas a AR devia ser abendiçoada com um milagre obrado durante a votação, com a Virgem a esvoaçar sobre as bancadas da maioria, para mostrar aos incréus o 4.º segredo de Fátima.

No joelhódromo de Fátima já há interessados para construir uma passadeira rolante para coxos, uma alternativa onde a fé esfola os joelhos e a caixa de esmolas esvazia carteiras. Nas veredas que conduzem a Fátima já há pedidos de alvará para vender bolos de bacalhau ao peregrinos que, com um «dia nacional» vão aumentar.


O Direito e o exotismo madeirense

Os deputados do PSD eleitos pela Madeira entregaram, esta quarta-feira, uma proposta de revisão constitucional que prevê a extinção do Tribunal Constitucional e a criação de uma secção constitucional no Supremo Tribunal de Justiça.

A ideia, que não é original, não representa um atentado à democracia se a verificação da constitucionalidade vier a ser exercida por uma secção do Supremo Tribunal de Justiça. Basta a aprovação, por  dois terços dos deputados, em sede de revisão constitucional.

O que surpreende é a altura em que surge e o partido que a propõe. Parece uma equipe de futebol a alvitrar a substituição dos árbitros depois de ter perdido todos os jogos por erros clamorosos e faltas tão graves que exigiriam a descida de divisão, a expulsão do treinador, do substituto, dos jogadores e do presidente da Federação.

Na realidade, não se trata propriamente de uma ideia, o que exigiria pensamento, mas de uma provocação na desvairada e permanente arruaça contra o TC.

Imaginemos que uma deputação de presos vai propor uma revisão do sistema prisional e a extinção das cadeias e que, em sua substituição, propõem que as atuais cadeias passem a funcionar nos últimos pisos das unidades hoteleiras. O advogado Guilherme Silva era certamente o preferido para negociar as alterações.

Gente desta não devia estar na AR, devia estar com pulseira eletrónica.


A política, a ética e o PSD

Se houvesse um módico de ética, não seria preciso esperar pela sinecura no BES para Paulo Mota Pinto renunciar a todos os lugares políticos.

Quem propõe estrear-se na presidência de um banco, com um presente atribulado e um passado suspeito, depois de ter sido conselheiro do TC, donde provavelmente está reformado, sem nunca ter entrado num banco a não ser como cliente, perde autoridade moral a troco de trocos e faz jus ao partido que o vai nomeando comissário político.

Custa acreditar: «O presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP), cancelou todas as atividades no âmbito destas funções». Se lhe derem o emprego extra, não volta a exercê-las. Enquanto espera não vê relatórios ultraconfidenciais. Os que viu serão esquecidos. O que sabe das informações secretas sobre a indústria bancária não será objeto de qualquer uso. Esquecerá tudo.

Creio que Mota Pinto tem da indústria bancária a experiência de gestão que a mãe tinha quando foi nomeada provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Não há nada que uma professora não aprenda depois de ser viúva de um PM, nem segredos bancários que o órfão não desvende.

Não falta quem assegure que não há qualquer incompatibilidade ética no trajeto sinuoso. Teresa Leal Coelho já o afirmou juntando o seu peso ao do candidato. São dois sólidos talentos. Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Jardim Gonçalves, João Rendeiro e outros especialistas da banca, incluindo Ricardo Salgado, não deixarão de ser testemunhas abonatórias. Até Duarte Lima, mais experiente em negócios bancários, estará à altura de o recomendar para o lugar.

Não há pecado que uma confissão bem feita não lave, nem nódoa que resista à benzina de uma comunicação social domesticada.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, junho 25, 2014

FIZERAM DA PÁTRIA UMA PROSTITUTA

Já aqui o disse há poucos dias, mas não é demais repeti-lo: a corja de traidores que se apoderou do poder em Portugal transformou a nossa Pátria numa prostituta internacional.

Hoje o indivíduo que continua teimosamente a ocupar o lugar de Presidente da República veio confirmar e reforçar essa convicção. Perante o Presidente da República da Alemanha, precisamente o país que mais nos tem insultado, humilhado e ofendido, disse nada mais nada menos que isto: "Portugal aprendeu a lição"! Sim, leram bem: "Portugal aprendeu a lição"!

 Qual lição ?! Portugal, uma Pátria com quase novecentos anos de História, o mais antigo Estado-nação da Europa, que "deu novos mundos ao mundo", não tem lições a receber de ninguém! Muito menos da Alemanha, um país que não tem feito mais do que provocar um rosário de guerras mortíferas e que não esconde o seu velho desejo de dominar a Europa. Hitler tentou-o pela força das armas; a sua sucessora Merkel está a tentar a mesma coisa pela força do dinheiro.

Este presidente e este governo envergonham-nos, suportando repetidamente todos os vexames e rastejando servilmente aos pés dos que nos insultam e nos humilham.

 Há que correr com eles urgentemente. A Pátria assim o exige.

Rua com essa gente! Já!

terça-feira, junho 24, 2014

A Lília Bernardes, jornalista e cidadã

Lília Bernardes
O despedimento de numerosos jornalistas no DN é um triste sinal dos tempos. Dos que já sei, sentirei particularmente a falta de Lília Bernardes, uma corajosa jornalista que era a voz crítica dos desmandos da Madeira, profissional de mão cheia, de antes quebrar que torcer.

Quebrou agora, levada pela enxurrada num jornal situacionista que continuo a comprar diariamente, onde a coragem da insigne jornalista era a voz dos que não tinham voz e a consciência crítica dos que exoneraram a consciência nos desmandos que praticaram na Região Autónoma.

Agora ficam mais à solta e o país mais isolado de uma informação isenta e profissional. Permanece o diretor, voz do Governo, e as vozes inconformadas de Ferreira Fernandes, Batista-Bastos, Fernanda Câncio e Viriato Soromenho Marques, enquanto não se livram do Provedor do Leitor, Oscar Mascarenhas.

Faltam-me nomes honrados, certamente, mas sobra-me a solidariedade e o azedume.

A opinião deste Governo

Teresa Leal Coelho, mulher substancial, deputada e vice-presidente do PSD, tem da democracia e da separação de poderes uma exótica conceção. Nos ataques ao Tribunal Constitucional parece uma agitprop que trocou a lota de Matosinhos e o lugar da venda de peixe pelo de ideóloga nómada a deambular pela comunicação social e AR.

Tornou-se conhecida do País, não pelas análises lúcidas mas por diatribes inflamadas. É a voz dos marginais ao sistema democrático e o megafone de quem se inibe por pudor e ética, a voz de Passos Coelho igualmente ignorante e ressentida.

Numa entrevista ao Público, depois de desafiar as decisões do TC confessou que o PSD se apropria das opiniões dos conselheiros que votam vencidos, para as usar contra o TC.

Não tendo capacidade própria de análise, nem legitimidade, nada melhor do que usar as posições vencidas como se devessem ser essas as vencedoras.

Mas a pérola da entrevista resume-se numa frase lapidar, reveladora de que a separação de poderes, para a senhora deputada, deve seguir o figurino das teocracias:

«Se não aceitam estar sob escrutínio jurídico e político [os conselheiros do TC], não têm condições para exercer os cargos de juízes num Estado de direito democrático».

Um condenado não diria melhor.


segunda-feira, junho 23, 2014

Até o diabo tem vergonha


Factos e documentos

Apesar da ansiedade com que o clero católico pretendia disparar orações e benzeduras, Filipe VI dispensou os sinais cabalísticos e a homilia pia.

domingo, junho 22, 2014

A degradação das figuras públicas do regime

As conjunturas fazem os homens e cada um é ele próprio e as suas circunstâncias, como dizia Ortega y Gasset. Certamente, foi a guerra que fez personalidades da dimensão de Churchill, De Gaulle ou Roosevelt, tal como a democracia criou Filipe Gonzalez, Mário Soares ou Mitterrand.

A admirável utopia europeia foi, talvez, a responsável pela dimensão de personalidades como Adenauer, Churchill, De Gasperi, Jean Monnet, Robert Schuman, Paul-Henri Spaak, Jacques Delors ou Helmut Kohl.

Só a Revolução podia ter criado heróis portugueses da dimensão de Otelo, Vítor Alves, Vasco Lourenço, Salgueiro Maia ou Melo Antunes, entre tantos outros.

Foi a revolução que fez emergir, nos vários quadrantes ideológicos, figuras da grandeza de Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, que agora cotejamos com Jerónimo de Sousa, António José Seguro, Passos Coelho e Paulo Portas.

Lá fora chove, dois dias após o solstício de verão, a agravar a melancolia que me atinge quando comparo gigantes e anões, ao mesmo tempo que recordo Sampaio quando ouço, vejo ou penso em Cavaco.


Factos e documentos

Valerá a pena ver durante breves instantes este vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=buDyz025H6A&feature=youtu.be

sábado, junho 21, 2014

A degenerescência ética do regime

Não ponho as mãos por ninguém mas procuro não acusar sem provas. Vejo pessoas do PSD, que estimo, a apelidar de escroques os adversários, talvez por frustração de não terem quem possam defender da PR, ao Governo e à maioria.

Desde a escola SLN/BPN há um partido que adquiriu a vanguarda da decadência ética, que exonerou os escrúpulos da sua conduta e usa a chantagem como arma de arremesso contra a oposição.

Depois da promiscuidade dos serviços secretos com a Ongoing, protagonizada por Silva Carvalho, impedida de aclarar, ao abrigo do segredo de Estado, ontem o plenário da AR votou, de manhã, uma lei que coíbe fortemente o trânsito direto de agentes dos serviços de informação para o sector privado. Um dos votos foi o do deputado Paulo Mota Pinto, antigo conselheiro do TC, e atual deputado do PSD.

À tarde, soube-se que o impoluto deputado, coordenador do Conselho de Fiscalização das secretas, cujo voto da manhã foi a favor da moralização, estava indigitado para ser chairman (presidente não executivo) do Banco Espírito Santo.

Confrontado pela Lusa, Mota Pinto, sete arrobas da reserva ética do PSD, afirmou que, nesse caso [e só nesse], renunciará aos cargos de deputado e de fiscalizador das secretas.

Apostila – A prostituição continua sem estar legalizada e tributada. Apenas conta para o PIB.

Pelo caminho das pombas…

A Europa caminha inexoravelmente para a fragmentação. Hoje, em Paris, realiza-se uma (mini)cimeira da ‘esquerda europeia’, leia-se, do que ainda resta da social-democracia europeia já que os partidos mais radicais à esquerda desapareceram do mapa político.

Presentes: François Hollande, Matteo Renzi,  Sigmar Gabriel, Martin Schulz, Elio Di Rupo, Werner Faymann e Helle Thorning-Schmidt. link
Ausentes : representantes dos Partidos socialistas ibéricos (PSOE e PS português).

O que está em discussão?
Não certamente a análise dos motivos políticos da derrocada social-democrata que foi fustigada em toda a linha nas últimas eleições para o Parlamento europeu, ao fim de 6 anos de profunda crise económica, financeira e social.

O que está, de facto, em cima da mesa : concertar posições para eleger o candidato da direita à presidência da Comissão Europeia e distribuir as ‘migalhas’ sobrantes : a presidência do Conselho Europeu e o alto representante da política externa europeia. 
Na verdade 'cargos de penacho' já que a efectividade de funções dirigentes na UE foi, desde o Tratado de Lisboa e ainda com mais visibilidade pelo desenrolar da crise, acometida a Berlim.

Dúvida : para quando uma nova reunião a fim de tratar das exéquias?

Jaime Gralheiro, dramaturgo, advogado, escritor e antifascista

Conheci Jaime Gralheiro no início da década de 70 do século passado nas andanças da política, em Lisboa. Foi ele que me apresentou ao Zé Barata, professor de teatro na U. C., em 1973, quando, por razões profissionais,  me transferi para Coimbra.

Em 1975 fiz, com ele e A. J. Dias de Almeida, a campanha política da CDE no distrito da Guarda, em que ele era o cabeça de lista. Separámo-nos politicamente e nunca mais rompemos os laços de quem não transforma diferenças em divergências. Encontrei-o de novo no Jornal do Fundão, onde, durante dois anos, tive o privilégio de publicar umas crónicas nos mesmos números onde o notável dramaturgo exercia a sua pedagogia cívica. Ambos tivemos Fernando Paulouro, como diretor, e Oscar Mascarenhas como chefe de redação, dois jornalistas de mão cheia, duas penas notáveis e dois cidadãos exemplares.

Em 2008 foi sócio fundador da Associação Ateísta Portuguesa e costumava honrar-nos com a sua presença nos almoços de aniversário.

Partiu o amigo, dramaturgo, antifascista, intelectual, escritor e cidadão curtido nas lutas contra a ditadura. Travou ontemo seu último combate mas deixou as sementes de um dos últimos homens ecléticos do nosso tempo, um intelectual multifacetado.

Jaime Gralheiro é uma referência de beirão que dedicou a vida aos seus ideais. Como advogado foi especialista na legislação dos baldios, o tema que serviria a Aquilino para um livro notável, «Quando os Lobos Uivam».

A vida de Jaime Gralheiro enriqueceu o património intelectual, cívico e ético das Beiras e do País. O seu corpo encontra-se no cineteatro de S. Pedro do Sul que tem o seu nome.

Ele não parte, nós é que vamos indo ao seu encontro. Até sempre, Jaime Gralheiro.

sexta-feira, junho 20, 2014

DE COMO UM ESQUERDISTA É LEVADO A TER SAUDADES DE ESTADISTAS DE DIREITA

Sou de esquerda desde os meus tempos de estudante, na longínqua década de 60 do século passado. Acompanhei com entusiasmo, embora de longe por estar em Portugal, a revolta de Maio de 1968 em França contra o conservadorismo reinante. Nessa altura o representante máximo desse conservadorismo era o Presidente De Gaulle.

Depois do 25 de Abril, sendo socialista, sempre fui contra o então PPD e o seu líder Sá Carneiro.

Pois hoje, continuando a ser socialista, tenho saudades de De Gaulle e de Sá Carneiro. (Sei muito bem que a História não é feita por simples indivíduos, mas o certo é que estes também contam para a sua marcha.)

O meu sonho era ver a megera teutónica, a Merkel, encontrar pela frente não o minúsculo Hollande – que é a vergonha da França e do socialismo – mas um Homem a sério como De Gaulle. Tenho a certeza de que ela não mandaria na Europa como manda. Seria reduzida à sua insignificância.

Do mesmo modo, quando olho para o rastejante Passos Coelho, sinto saudades de Sá Carneiro. Se fosse ele que estivesse hoje à frente do PPD/”PSD” de certeza que Portugal não seria a prostituta internacional em que a corja que domina o País o transformou.

A que abismos descemos com tais “dirigentes”!

Cavaco e o vinho

Ontem, Cavaco Silva foi visto na televisão. Não foram as saudades que nos aquietaram, mas a certeza de que pode dissolver a Assembleia da República, se for obrigado.

A falar de vinho, de que não deve ter provado uma só gota, e com as gotas tomadas para eventuais problemas vagais, foi com desenvoltura que falou da pinga e das exportações, na inauguração de uma adega em Alijó.

O PR explicou que os empresários e trabalhadores têm sido os “verdadeiros motores da recuperação da economia portuguesa”, mas foi omisso quanto às balbúrdias do Governo em relação ao Tribunal Constitucional, às irregularidades do Orçamento de Estado e ao funcionamento das instituições democráticas.

Cavaco prefere a vinicultura à política, o Douro ao País e os agricultores aos juízes. O caso Espírito Santo, onde certamente nunca teve ações do GES, mereceu-lhe o mesmo silêncio e alheamento que mantém em relação à SLN/BPN.

Quem veio de Boliqueime dá-se melhor em Alijó do que em Lisboa e gostaria de ter um país à sua medida, mas somos nós, portugueses, que temos um PR à medida de Alijó.

O PR não tem o País que desejava e o País anseia por outro PR, outra maioria e outro Governo. Mas o erro foi do País.

O Governo, o PR e a democracia

Quando a saúde do PR é motivo de preocupação nacional, o silêncio se torna aterrador e o Governo desrespeita ostensivamente o Tribunal Constitucional, o Estado de Direito é uma caricatura a que a incúria, cumplicidade ou inaptidão, de quem devia preservá-lo, o reduz.

Sucedem-se os escândalos financeiros, com o BPN à espera de prescrição, a desonrar a fina flor cavaquista, o BPP, de João Rendeiro, e do qual foi acionista qualificado José Miguel Júdice, a contas com a Justiça, o BCP, de onde Jardim Gonçalves e o Opus Dei vão sair incólumes, os bancos insulares de que não se conhece o desfecho, tal como  as suspeitas de cartelização entre bancos.

Como banco do regime, com imagem imaculada, resistia o Espírito Santo, protegido por ressonâncias místicas do nome e crença na divindade. Ana Gomes, eurodeputada do PS, acrescenta às suspeitas que timidamente afloraram na comunicação social, novos dados, e ficamos com a convicção de que a banca portuguesa está ao nível da do Vaticano.

Dado o hábito de se privatizarem os benefícios e nacionalizarem os prejuízos, temo que à dívida que não poderá ser paga nos 30 anos com que nos ameaçam, se juntem outras de que os portugueses que nascerem no próximo século ainda se encontrem reféns.


Estamos à beira do abismo e o Governo não para.

quinta-feira, junho 19, 2014

Cobardes, porcos e maus



Voltaram as guerras religiosas

Quando julgávamos que a secularização tinha contido as pulsões homicidas em nome de Deus, esquecíamos o cancro que corroeu povos tribais e países civilizados onde germina o ódio e floresce a fé. A laicidade não foi suficiente, nem na Europa, para impedir que a fanatização tivesse lugar nas madraças e mesquitas.

Muitos europeus caucasianos, sem emprego nem futuro, aderiram ao mais implacável dos monoteísmos – o Islão –, e combatem por um déspota virtual ao serviço do ódio, do tribalismo e de um “misericordioso” profeta analfabeto, impacientes por impor a sharia.

Depois do tirocínio na Síria, Iraque, Iémen ou Líbia, vão regressar à Europa, cheios de ódio e de tempo, com enorme experiência militar, ansiosos de virgens e rios de mel!

Blair, grotesca caricatura de católico, dissimulado anglicano, enquanto PM, conduziu com Bush a guerra assassina contra o Iraque, arrastando idiotas úteis, Aznar e Barroso. Sentiu agora necessidade de mentir, outra vez, dizendo que a atual tragédia do Iraque é alheia às armas químicas que brotaram da cabeça dele, de Bush e dos outros cruzados que o invadiram.

O Islão, a cópia grosseira do cristianismo, com laivos de judaísmo, falhada a civilização árabe, converteu-se, no seu primarismo, numa mancha de óleo que escorreu para o Irão e Turquia e contaminou povos onde a repressão política sobre o clero tornara pacíficas as religiões. É certo que o sionismo o ajuda a exacerbar o ódio, mas ninguém pense que a destruição de Israel pacificaria a horda de fanáticos viciados em jejuns e orações.

Europa e EUA, embevecidos com a paz religiosa de que têm gozado, salvo o sobressalto na ex-Jugoslávia, imaginam que na Turquia governa um “muçulmano moderado”, como se o substantivo fosse compatível com o adjetivo.

Não entenderam o genocídio de utus e tutsis, incitados os ódios tribais pelo proselitismo cristão, a tragédia africana na zona do Sahel, com muçulmanos a massacrar os cristãos, tensões na Índia entre hindus e islamitas, enfim, a globalização da “banalidade do mal”, na expressão de Hannah Arendt, para decifrar a perversidades de criaturas imbecilizadas por um credo e fanatizadas na obediência a um ser imaginário.

Há uma ameaça religiosa global à espreita, a demência ecuménica que serve interesses económicos, redistribui recursos energéticos e concentra a riqueza nos fornecedores de armas.

E nós, ingénuos, a julgar que o fanatismo não é contagioso.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, junho 18, 2014

A frase

«De cada vez que uma medida de poupança de despesa não é possível de prosseguir, o Governo não tem outra possibilidade que não a de ir pelo lado da receita».

(Pedro Passos Coelho, mostrando conhecimentos de português iguais aos que possui da CRP)

- Onde se lê: «… não é possível…», devia ler-se «…não seja possível…»
(O conhecimento das conjugações no modo verbal do conjuntivo é imprescindível).

- Onde se lê: «…que não a de ir…», deve ler-se «…que não ‘seja’ a de ir…».

Finalmente, «…ir pelo lado da receita…» não significa obrigatoriamente atirar-se aos vencimentos dos funcionários públicos e às pensões, mas isso é gramática política.


A prostituição e o Governo

Por decisão da UE, logo acolhida por Portugal, a riqueza oriunda da prostituição, tráfico e contrabando, integrará as estatísticas nacionais, a partir de setembro, e ampliará o PIB em 0,4%, qualquer coisa como 700 milhões de euros.

Dada a dificuldade na cobrança do IVA às empresas do ramo, serve apenas para reduzir a percentagem da dívida pública! No último trimestre do ano, assistiremos à exibição da subida do PIB, enquanto, à beira das estradas, a prostituição grassa, alheia ao número de contribuinte, com prostitutas sem código de barras, inspeção médica ou livro de recibos.

O défice da dívida pública pode ser disfarçado mas a tuberculose, hepatite, sífilis e sida não deixarão de contribuir para o défice moral e sanitário de um país doente.

terça-feira, junho 17, 2014

17 de junho – efemérides da liberdade

1789 – Paris a caminho da Revolução. Na sequência dos Estados Gerais, juramento na Sala do Jogo da Pela, pelo Terceiro Estado, do compromisso de não abandonar o local até à elaboração da Constituição;

1885 – Chega a Nova Iorque a Estátua da Liberdade, oferecida pela França para comemorar os 100 anos da Independência dos EUA (1776/1786);

1922 – Gago Coutinho e Sacadura Cabral chegam ao Rio de Janeiro, completando a primeira travessia aérea do Atlântico Sul;

1940 – O cônsul português em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, contraria as ordens do ditador Salazar e começa a emitir vistos de entrada em Portugal aos refugiados de guerra que o solicitaram;

1944 – É constituída a República da Islândia;

1991 – O Governo sul-africano elimina a última lei do apartheid;

1992 – É atribuído o prémio da Associação Portuguesa de Escritores ao romance de José Saramago “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, obra notável, vetada pela ignorância e espírito censório do Governo de Cavaco Silva, através do indigente secretário de Estado, Sousa Lara, para o Prémio Literário Europeu de 1992.


Breves considerações à volta de um desaire...


A pesada derrota de Portugal na estreia do Mundial de 2014 não deixa de levantar algumas questões que até aqui têm sido ignoradas e ‘toleradas’ em nome da correcção de uma benevolente postura em prol do País (?) e no intuito de alimentar 'o sonho' da conquista de um lugar ao sol no campo do chamado ‘desporto-rei’. Mas a noite de ontem terá sido um marco influenciador à volta de um hipotético ‘nacionalismo’ ultrajado (no confronto com a realidade). 

Tornou-se penosamente ridícula e aviltante a campanha ‘patrioteira’ à volta da selecção nacional que vem sendo exibida por todo o lado e com amplos reflexos na comunicação social. Dá a sensação de que Portugal partiu para o Brasil como fim de disputar numa estrondosa e fatídica guerra púnica (sem que Roma e Cartago sejam para aqui chamados) que estaria centrada na disputa de um lugar hegemónico no Mundo. 
Os repetidos apelos a um alargado apoio anímico, colectivo e a utilização ad nauseam de símbolos e cores nacionais impressionam. Uma enxurrada de portugueses embrulhados em panos verdes e vermelhos ou uma multidão de aficionados munidos de cachecóis em plena canícula estival são um espectáculo revelador e deprimente. 
O Mundial de futebol deveria ser uma disputa desportiva mas, desde há muito que, este evento foi pervertido com enviesadas representatividades que se imiscuem em variadíssimos campos (social, político e cultural). Falta aqui nomear os interesses financeiros já que para os treinadores, jogadores e clubes este certame está transformado num mercado.

Chegados ao momento da verdade verificamos que estas tensões não permitiram a prática de uma partida de futebol aceitável e na nossa equipa a indisciplina tática e o desnorte individual, reinaram.
Portugal não está preparado desportivamente nem tem estofo psicológico para estas complexas andanças. Deixou-se dominar pela responsabilidade das circunstâncias e no relvado afundou-se mostrando uma fraqueza (desportiva) assustadora onde todos fizeram gala em ‘desencontrar-se’. Ninguém conseguiu observar uma ténue réstia de profissionalismo e na globalidade a prestação dos portugueses foi um desastre. Os jogadores 'pareciam' cansados de tantas entrevistas e conferências de imprensa prévias às disputas. Os reflexos psicológicos deste tremendo fracasso não permitem continuar a ‘sonhar’ com outros voos e tornaram a nossa ‘missão’ no Brasil uma sombra do esperado e do sub-liminarmente propagandeado através de um insidioso e fastidioso marketing.

Mais uma vez Portugal acaba por inibir-se e perder-se na voracidade competitiva. Hoje, o País estará absorto e entretido a discutir a arbitragem, as tácticas e as prestações individuais dos jogadores. Um medíocre entretenimento para uma esperança assente em alienações ou um passatempo para ocultar frustrações. Todos percebemos que ‘assim’ não vamos longe. Mas ninguém quererá enfrentar essa realidade e a partir daí corrigir o tiro.

As mutações de Deus

Enquanto os animais, ao longo da história da Humanidade, progrediram e melhoraram, até ao aparecimento do género humano, cada vez mais evoluído, Deus sofreu mutações que o fizeram regredir e o tornaram pior.

As mutações que empobreceram o produto original foram introduzidas pelos charlatães tribais da Idade do Bronze, que fabricaram Deus, sem terem em conta os benefícios dos crentes, olhando aos interesses patriarcais das suas tribos.

O Islão clonou o Deus judaico-cristão, sem conhecer a cultura helénica nem o direito romano. Produziu um aborto que o profeta Maomé, analfabeto e rude, converteu num perigoso inimigo da humanidade e em violento fator de retrocesso civilizacional.

Para piorar, Deus, per se, um produto imperfeito, ficou entregue aos clérigos cujo poder e consideração dependem do servilismo dos fiéis, do fanatismo que impõem e do terror que infundem.

É este o dilema da civilização islâmica, como outrora foi a da cristã: ou afasta o clero do poder ou perde os homens para a modernidade, a democracia e o progresso. Deus está a mais num processo de paz social. É um elemento perturbador da felicidade humana.

O que está a acontecer no Iraque, Quénia, Líbia, Iémen, Paquistão, Nigéria, e um pouco por todo o mundo, não pode continuar. A barbárie, o terror e o ódio ao progresso são os argumentos de quem pretende perpetuar paradigmas perversos e crueldades ancestrais.

Basta!

segunda-feira, junho 16, 2014

Wanted!




A frase



«…alguns dos juízes que propusemos criaram a ilusão de que tinham uma visão filosófico-política que seria compatível com o projeto reformista que temos [nós, PSD] para Portugal no quadro europeu».

(Teresa Leal Coelho, deputada e vice-presidente do PSD)

Nota – Com os critérios de escolha aviltou a AR e, ao revelá-los à comunicação social, insultou os tribunais e o país.

Herança de cruzados

Bush, Blair, Aznar e Barroso dormem tranquilos

domingo, junho 15, 2014

Portugal, Europa e o Tratado Transatlântico*

Há boas ideias que podem acabar mal. A União Europeia foi um excelente projeto que a germanização europeia ameaça alterar. A europeização alemã teria sido virtuosa e fator de equilíbrio político, económico e social. Teria sido, mas não foi, uma condição de paz e prosperidade num continente flagelado por guerras. Aconteceu o contrário.

A federação das nações, a Europa dos povos, converteu-os em protetorados alemães que a reduziram ao atual estado sob a égide da Alemanha que reincide na sua hegemonia.

A transferência de recursos dos países periféricos para o centro da Europa e a migração da riqueza no mesmo sentido piorou com a crise das dívidas soberanas e a especulação financeira cuja fatura foi apresentada aos países mais frágeis.

Os países mais pobres, deslumbrados com o enriquecimento rápido, e com fácil acesso a bens de consumo, deixaram enredar-se numa teia de globalização selvagem, sem regras e sem limites, assumindo o ónus de uma tragédia que o capitalismo financeiro provocou e que nos cabe pagar.

A incapacidade de Bush para lidar com a falência do banco Lemon Brothers, destruiu a economia de numerosos países sendo a fatura maior a dos mais frágeis.

Sem este enigma concluído, está em curso um tratado euro-americano para conduzir à desregulação dos mercados – com 50% do PIB mundial e 12% da população –, em dois continentes, acelerando certamente a transferência dos recursos dos países pobres para os ricos e dos cidadãos débeis para os poderosos, numa imparável voragem em que as desigualdades se aprofundam e a miséria se agrava com a produção de riqueza imensa e os recursos do Planeta a caminho da exaustão.

Dos poucos que votaram para o Parlamento Europeu, raros portugueses pensaram nisso e, menos ainda aqueles que se abstiveram, mas todos pagaremos a nossa incúria e muito poucos serão beneficiados.

Apostila* – O anúncio do TTIP (Transatlantic Trade and Investement Prttnership), também conhecido por TAFTA (Transatlantic Free Trade Area), foi feito em fevereiro de 2013. Alguém o discute? Quantos têm conhecimento da sua existência?


sábado, junho 14, 2014

Desfaçatez e mitomania


O fascismo e a miséria



Finda a guerra de 1939/45, Salazar sentiu que a derrota dos amigos podia ser o fim dele. Mal imaginava que faltavam muitos anos para uma cadeira fazer o que o país devia.

O volfrâmio, vendido aos seus amigos alemães, fora pago em ouro roubado aos judeus e os cofres do Banco de Portugal guardavam centenas de toneladas do metal amarelo.

No entanto, o povo morria de fome. O velho seminarista era insensível. O racionamento prolongou-se por vários anos, quando já não era preciso ajudar o seu amigo Franco, o genocida cujos crimes foram abençoados pelo Vaticano e considerados como Cruzada pelo papa de turno.

Das privações do povo português ficam aqui, como prova, as senhas de racionamento que se mantiveram até depois da década de 40 do século que foi.  

sexta-feira, junho 13, 2014

Iraque a ferro e fogo


Dado que o TPI não tem competência sobre eles, apenas se pergunta se estes cristãos, como todos fizeram questão de o explicitar publicamente, dormem tranquilos o sono dos justos quando, há muito, merecem o sono eterno.

A CONSTITUIÇÃO E OS LUNÁTICOS

O meu Ilustre Colega Dr. Santana-Maia Leonardo resolveu juntar-se ao coro de carpideiras que, desde que a Troika, Passos Coelho & Comandita ocuparam o País, resolveram denegrir a nossa Constituição democrática e os juízes do Tribunal Constitucional.

 Assim, aproveitando a guarida que lhe dá o jornal conimbricense "As Beiras", o Dr. Santana-Maia Leonardo, num artigo que publicou na edição de anteontem daquele periódico, significativamente intitulado "Tribunal (in)Constitucional", atira-se à Constituição e ao Tribunal, chegando ao ponto de dizer que os deputados da Assembleia Constituinte que aprovaram a Constituição eram "lunáticos". Ora essa Assembleia era constituída por 250 deputados de todos os partidos, sendo a maioria deles do PS e do então PPD. A Constituição foi aprovada, sem qualquer abstenção, por todos esses deputados, com exceção dos escassos 16 do CDS.

Quer dizer: excetuados estes 16 ajuizados, os restantes 234 eram todos "lunáticos". Lunáticos eram pois Mota Pinto, Miller Guerra e Sophia de Mello Breyner Andresen; lunáticos são Barbosa de Melo, Pinto Balsemão, Jorge Miranda, Mota Amaral e Costa Andrade, entre tantos outros.

 Este episódio faz-me irresistivelmente lembrar aquela mãe extremosa que, assistindo a uma marcha militar em que participava o seu filho, disse: "vejam como o meu filho é esperto: todos vão com o passo trocado exceto ele!

Uma ‘produtiva’ maquilhagem…

O Eurostat e a Comissão Europeia pretendem ‘alavancar’ o principal indicador da produtividade económica – o Produto Interno Bruto (PIB). O regulamento normativo europeu SEC 2010 link ordena a ‘contabilização’ de  actividades ilegais, como por exemplo a prostituição, a droga e o contrabando, na determinação do Produto Interno Bruto, ‘manobra’ que deverá ocorrer até 2016.

Alguns países europeus (Espanha, Grã-Bretanha, Itália, Bélgica, …) já estão a trabalhar no sentido de integrar estes sectores do ‘mercado negro’ (angelicamente designado por ‘economia não observada’) nas suas estatísticas económicas. Daí resultará um acréscimo pontual do PIB (diverso conforme os métodos de captura destes dados) que será contabilizado como ‘crescimento’ e terá consequências (benéficas) no cálculo défice e na percentagem da dívida (calculado em relação ao PIB).

Trata-se de mais uma ‘manobra de prestigiação’ dos indicadores e contas públicas, que determinará em paralelo outras especulações (nomeadamente sobre índices de ‘produtividade’) e que ocorre paralelamente à farisaica ‘luta contra a economia paralela’ e o 'combate à fraude fiscal'. Um 'mar de contradições'...

Politicamente, destina-se a ‘selar’ o ‘estrondoso’ êxito das políticas de austeridade tão arduamente defendidas pelos actuais dirigentes europeus como resposta à presente crise e deverão ser apresentadas como 'alavancadoras' de um mítico (e fraudulento) crescimento da actividade económica, para consumo eleitoral e de ‘incautos’.

Os burocratas de Bruxelas não têm emenda.

A Espanha, Portugal e a República

O líder do PSOE conhece as pulsões republicanas dos membros e simpatizantes do seu partido e, no entanto, apoia a anacrónica monarquia. É uma atitude responsável perante um pacto de regime que permitiu a transição pacífica de um governo terrorista para uma democracia.

Os pactos de regime devem ser respeitados e a sua duração esgota-se com a geração que os assinou. Rubalcaba fez o que devia e a sua geração ainda não se esgotou. O problema fica – e bem –, adiado.

A maior dificuldade está nas mãos de Felipe, com o primeiro problema para resolver já, na tomada de posse, quanto ao convite da irmã e do cunhado a contas com a Justiça. Ou sacrifica a honra da família ou a da coroa, ainda que esta a não possua mas a simule. Vai ser a primeira prova de fogo.

Em Portugal, o reiterado e patético apelo de Cavaco Silva para um pacto governamental é um mero pretexto para debitar no faceboock «eu bem avisei» ou para manifestar numa homilia à nação: «o PR bem avisou». Em vez de se ter tornado o membro adventício do Governo, a clamar um impossível e indesejável pacto de Governo, devia aprender com os espanhóis e promover um pacto de regime e o consenso europeu multipartidário.

Infelizmente perdeu a capacidade e a credibilidade para ser um árbitro, depois de tantas jogadas a favor do Governo e das reiteradas manifestações hostis aos outros partidos.


E a eutanásia continua por discutir!

Era uns dias mais novo do que eu o marinheiro tetraplégico que queria morrer e não o deixavam. Há anos que aquela bela cabeça sem corpo pedia que o deixassem morrer. Vi-o várias vezes na televisão, lúcido e sereno, exigindo o direito à morte. «Sou uma cabeça sem corpo, tenho direito a morrer», repetia Ramón Sampedro, corajoso galego.

Sete anos depois da morte, decorrido o tempo para a prescrição do «crime», a amiga que o ajudou, Ramona Monteiro, revelou como o fez. A morte foi gravada por vontade de Ramon,  que demorou anos a cumprir um desejo, dolorosos anos de sofrimento que a hipocrisia judaico-cristã queria prolongar enquanto «Deus quisesse».

Tetraplégico desde os 25 anos, lutou na justiça pelo direito de morrer dignamente. Dada a sua incapacidade física para suicidar-se, Ramon desejava que seus amigos e familiares o pudessem ajudar a morrer sem que cometessem algum delito.

Suicidou-se em 12 de janeiro de 1998. Soube-se depois que a morte foi mais amarga do que previra o lúcido suicida e do que julgara a abnegada mulher que o acompanhou nos três últimos anos de vida.

O cianeto não terá proporcionado uma morte tão rápida e doce quanto a eutanásia exige mas foi o produto que Ramon conseguiu. Enquanto morria os olhares de amor ficaram como última carícia de quem partiu e de quem ficou, com o aviso de quem se despediu: «depois de beber não me beijes os lábios».

E a eutanásia continua por discutir.

quinta-feira, junho 12, 2014

O que se passa no Médio-Oriente?

A guerra do Iraque que foi um dos eixos fundamentais da política externa no mandato do ex-presidente G.W. Bush e está a dar os ‘seus’ resultados link.
A facção islamita sunita aperta o cerco no Médio Oriente e o Mundo assiste a atitudes como esta: No Iraque os fundamentalistas sunitas são condenados pelos EUA por rebeldia contra o Governo fantoche de Nouri al-Maliki mas, na Síria, os mesmos rebeldes são os ‘heróis’ do levantamento contra a dinastia al-Assad, lançando o País numa sangrenta guerra suportada pela corrente xiita aí ‘activa’ (nomeadamente o Irão e o Hezbollah).
As ‘primaveras árabes’ mais não fizeram do que proporcionar à facção sunita a possibilidade de concretizar o domínio político no Médio Oriente e no Norte de África e a progressiva ‘implantação’ de Estados Islâmicos, onde a lei fundamental é a sharia.  

Desde 2003 que os feitos de G. W. Bush mais não fizeram do que acirrar os já seculares problemas entre sunitas e xiitas torpedeando todas as janelas para a Paz. 
Se o Iraque está à beira de uma impiedosa guerra civil (com os jihadistas a assediarem Bagdade) e a caminho da sua desintegração como País, esse facto deve ser integralmente imputado à estratégia norte-americana que, no último decénio, tem condicionado em absoluto ‘todas’ as insurreições no Médio Oriente, com directas ou indirectas interferências bélicas e perdendo rapidamente o controlo das consequências políticas.

Hoje, no 'Ocidente', assistimos atónitos a uma guerra de índole religiosa onde os extremismos são a regra e o terror (político e humanitário) a sua face visível.
Convém relembrar que a ‘cruzada’ de Bush no Médio Oriente nasce como resposta ao ataque terrorista da Al-Qaeda contra a torres gémeas de Nova-York. Uma década após este acto de terror o Ocidente abre, objectivamente, caminho à implantação de um “Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS)”, subsidiário da concepção fundamentalista de Bin-Laden…
Torna-se óbvio que existe, pelo meio, uma história mal contada e, necessariamente, o jogo no tabuleiro do xadrez político mundial tem outras motivações, outros interesses e ocultos objectivos que carecem de resposta.

Regressando ao continente europeu surge uma inquietante pergunta antes do nos lançarmos em novas e terríficas ‘aventuras’.
Qual o papel da UE no meio desta embrulhada?
Os europeus devem exigir para esta dramática situação uma resposta explicativa e concreta do presidente da Comissão Europeia (Durão Barroso), um comparsa oportunista da estratégia então delineada pelos EUA (e que lhe valeu o actual cargo).
Aguardemos…

As fobias e o medo do sufixo

Condenar fobias coletivas, que levam o sofrimento e a violência a minorias, é um dever  de cidadania e um ato de humanismo. A misoginia é uma fobia de contornos religiosos que atrasou a emancipação da mulher e a submeteu, ao longo dos séculos, ao sofrimento violento e à tristeza profunda.

A xenofobia é responsável por guerras e dramas que uma sociedade civilizada não pode consentir. Os dramas vividos ao longo da história, pela pulsão homofóbica, tantas vezes oriunda de quem se sente atraído pelos comportamentos que execra, são uma mancha na história da humanidade e um comportamento que está longe de ser erradicado.

As fobias individuais são um caso psiquiátrico, as coletivas um problema social.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem devia ser assimilada em qualquer lugar e por todos. O analfabetismo, a fome, o atraso social, o tribalismo e os preconceitos são responsáveis pelos atropelos a direitos que muitos povos nem sequer conhecem.

Dito isto, urge denunciar o sufixo «fóbico» como álibi para absolver crimes. Tal como a escravatura e o canibalismo foram combatidos, porque o horror a tais comportamentos a isso conduziu, outras iniquidades devem ser combatidas sem constrangimentos.

O apodo de cristianofobia não pode impedir que se averiguem os crimes praticados em épocas recentes pelo catolicismo irlandês, sobre mulheres e crianças, ou a cumplicidade do clero espanhol no genocídio franquista. É preciso neutralizar as forças que afastaram o juiz Baltasar Garzon, as ameaças do cardeal Rocco Varela e os resquícios franquistas das hostes do PP.

Ninguém se atreve hoje a chamar a alguém fascismofóbico ou nazismofóbico porque as ideologias eram e são perversas e porque produziram e produzem crimes. Não é o ato de pensar, por mais perverso que seja, que pode ser punido, mas os crimes a que conduz e quem os pratica.

A acusação de islamofobia afigura-se hoje como a cumplicidade com o mais implacável dos monoteísmos, a mais primária das religiões do livro e os mais perversos métodos de proselitismo, perpetrados por indivíduos fanatizados, desde crianças, nas madraças e nas mesquitas, por pregadores do ódio que prometem virgens e rios de mel.

O medo dos talibãs é uma arma que a extrema-direita europeia usa para se substituir na redução de liberdades e no ódio sectário. A Al-qaeda, ao contrário do que certa esquerda diz, é a expressão das crenças e desejos de um profeta analfabeto vertidos num manual terrorista chamado Alcorão.

Do Paquistão aos EUA, da Europa à região africana de Sahel, do Kosovo às Repúblicas ex-soviéticas, todos os dias se formam novas células de fanáticos que querem submeter o mundo a Maomé e as liberdades aos ditames da sharia. Tal como sucedeu na Europa, com a repressão política ao clero, para que pudéssemos ter ou não ter religião, é urgente reprimir a vontade de um deus malévolo para que os homens possam ser livres e felizes.

Um caso grave é a Turquia, com um vigoroso exército. Erdogan, muçulmano moderado, como europeus e americanos o designam, declamando tautologicamente um oximoro, decapitou as Forças Armadas e o aparelho judicial, que defendiam a laicidade, com a legalidade do voto, enquanto reislamizou o País, ao sabor da fé e a caminho da sharia.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, junho 11, 2014

O PR na Guarda


Enquanto lia a narrativa deste Governo, o PR desmaiou, felizmente sem consequências pessoais, mas tornando-se a metáfora do estado a que o País chegou. 

Sobre as grosserias soezes dos governantes contra os juízes do Tribunal Constitucional ou a reincidência assídua na inconstitucionalidade dos Orçamentos de Estado, aos costumes disse nada. 

Insistiu na pressão sobre o PS para ser fiador do Governo que quis.

Coimbra - Cultura


O 10 de junho e as condecorações

Cavaco nem depois de morto lhe poupou o peito a uma venera e a nós a amarga lembrança.

terça-feira, junho 10, 2014

O 'faraónico' discurso da Guarda...


Discurso do Presidente da República na Sessão Solene das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas - Guarda, 10 de Junho de 2014

 “…Os Portugueses têm direito a esperar que as principais forças políticas e as suas lideranças adotem uma atitude e uma cultura em que o superior interesse nacional seja colocado acima dos interesses partidários. Que sejam capazes de ultrapassar as divergências do tempo curto dos ciclos políticos e eleitorais e compreendam que Portugal enfrenta desafios que nos remetem para um tempo longo, para um horizonte alargado que ultrapassa os mandatos dos governantes.
Os desafios que temos diante de nós, de todos nós, só podem ser vencidos através de uma cultura de compromisso. Adiar por mais tempo um entendimento partidário de médio prazo sobre uma trajetória de sustentabilidade da dívida pública e sobre as reformas indispensáveis ao reforço da competitividade da economia é um risco pelo qual os Portugueses poderão vir a pagar um preço muito elevado.
O tempo de diálogo que se estende agora até à discussão do próximo Orçamento do Estado será o mais indicado para que as forças políticas caminhem no sentido da concretização do direito à esperança dos Portugueses, numa perspetiva temporal mais ampla, situada para além de vicissitudes partidárias ou de calendários eleitorais. É essa a responsabilidade das forças partidárias”… link.

Trata-se de uma prosa política totalmente coincidente (perfeitamente sobreponível) com a arenga da maioria governamental desde a derrota nas eleições autárquicas. 
Trata-se, fundamentalmente, de tentar condicionar o próximo mandato governamental que decorrerá dos resultados das eleições legislativas que ocorrerão no próximo ano. O Presidente sabe mas prefere iludir que os próximos tempos não são de diálogo. No imediato, tudo aquilo que vai ocorrer “até à discussão do próximo Orçamento do Estado…” não é o tempo mais indicado para que as forças políticas caminhem no sentido da concretização de consensos ou de acordos … O sonho do 'cavaquismo' seria regressar à Quinta da Coelha e tudo permanecer imutável (sem alternativas).

Quem publicamente acha que o Governo tem o ‘direito’ de solicitar aclarações’ ao Tribunal Constitucional deveria ter a hombridade de fazer chegar esse mesmo ímpeto clarificador ao suporte representativo das actuais forças (e lideranças) partidárias. Só existe uma maneira de o fazer: convocar eleições antecipadas. Esse é como sabemos um tabu para Cavaco Silva. Todos nós conhecemos no que desembocam os seus recorrentes tabus. De resto, não se percebe como grande parte das medidas de ‘ajustamento’ decorreram sob o manto da maioria governamental (PSD e CDS) que dispensou solenemente (e autoritariamente) qualquer contributo e diálogo da(s) oposição(ões) e subitamente daqui para a frente (quando se anuncia tempos de ‘esperança’) essa ‘coligação’ tornou-se pequena, estreita e incapaz. Indisfarçável é a noção (de Cavaco Silva) de que o terreno lhe foge debaixo dos pés e o Presidente, que se tornou no 'abono de família' da actual maioria, pretende, desesperadamente, adiar o futuro numa mescla de compromissos antecipados o que significa dissociar a ‘liberdade’ da ‘esperança’.
 
O discurso da Guarda foi uma utópica elegia à eternização da Direita no Poder.  Pretendia que os futuros Governos teriam de viver assombrados pelas soluções impostas pela actual maioria governamental. Não são esses os ventos da História. 
Como dizia Diderot: “A paixão quer que tudo seja eterno, mas a natureza impõe que tudo acabe." 

Foi ‘isso’ que o discurso da Guarda mais uma vez confirmou: a 'paixão' de Cavaco Silva pela actual maioria não lhe permite arbitrar a ‘vontade nacional’ nos tempos próximos, nem alimentar a abusiva pretensão de condicionar Portugal para futuro.
O ilusionismo pode fazer saltar coelhos da cartola mas não assegura a eternidade. Nem os faraós, que foram  em vida tratados como deuses, conseguiram esse feito...

10 de junho

Perdido o carácter civilista que Jorge Sampaio acentuou, compreende-se agora melhor o regresso metódico e progressivo da data ao figurino salazarista. Hoje é o Dia Mundial de Alcoólicos Anónimos.

MAIS UM ATAQUE ALARVE AO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL

TODOS OS CIDADÃOS PODEM CRITICAR O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL E AS SUAS DELIBERAÇÕES, EXCETO ... PASSOS COELHO!

Ou melhor: Passos Coelho e os restantes titulares de órgãos de soberania. É que estes estão sujeitos a certas limitações que não atingem os cidadãos comuns. Só para dar um exemplo: qualquer português maior de idade pode livremente deslocar-se ao estrangeiro sem ter que pedir licença a ninguém, exceto um: o Presidente da República! Este não pode sair do País sem autorização da Assembleia da República.

Em democracia - em todas as democracias - vigora o princípio basilar da separação de poderes. Por isso os membros do governo, e por maioria de razão o primeiro ministro, têm de acatar, sem as discutir, as decisões dos tribunais; e muito menos podem atacar estes.

São por isso inadmissíveis as alarvidades há dias bolçadas pelo 1.º ministro sobre o T. C.. E de tal modo são inadmissíveis que o próprio Presidente da República se sentiu na necessidade de sair da sua letargia para dar um ligeiro puxão de orelhas ao seu protegido.

Só que um puxão de orelhas não basta. Passos Coelho tem reincidido tantas vezes em escoicinhar naquele Tribunal e na Lei Fundamental que o P. R., se exercesse cabalmente as suas obrigações de cumprir e fazer cumprir a Constituição, já há muito devia ter corrido a desbocada criatura por indecente e má figura!

A Guarda e o feriado do 9 de junho

Dizem-me da Guarda, da minha querida cidade, onde me desloquei a fazer a 4.ª classe e o exame de admissão ao liceu, onde fiz o liceu, tirei o curso do magistério Primário e fiz exames do 7.º ano, que a presença do PR na cidade levou ao encerramento das escolas e à formatura de crianças com camisolas iguais para ovacionarem o venerando chefe de Estado.

A mocidade portuguesa da Guarda foi de novo chamada a prestar vassalagem ao PR. Américo Tomás era diferente, porque nunca foi eleito democraticamente, mas a liturgia e os paramentos infantis pouco mudaram na coreografia pífia.

É o regresso manso ao passado que a falta de cultura democrática vai reintroduzindo.


segunda-feira, junho 09, 2014

Como se faz um líder e, até, um PM

Curse a madraça juvenil de um partido da alternância do poder e percorra os degraus que levem da colagem de cartazes à direção da respetiva organização. Cuide do aspeto físico e evite ter ideias. Não crie anticorpos e escolha os amigos, não os que lhe podem fazer sombra mas os que estão dispostos a repartir despojos na hora certa.

Lembre-se de que o aspeto físico é importante e que os sorrisos das companheiras são um esteio forte para as suas ambições. É preciso cativá-las. Valem, pelo menos, votos. Não regatei beijos, abraços, fêveras e bifanas. Beba pela mesma garrafa de vinho de outro cúmplice com a televisão andar perto. Não revela higiene mas mostra que não tem nojo. Não é preciso cabeça, basta estômago.

Depois defenda a representação da quota juvenil na AR, de modo a que possa ser eleito. Durante o mandato viaje sem visitar museus ou perder tempo a ver paisagens, tendo em conta que as visitas a sedes partidárias e aos centros juvenis são investimentos rentáveis. É na paciente tecedura de cumplicidades que o seu futuro político se joga.

Leia os estatutos do partido, mas não lhes dê importância, e não desanime por encontrar as bases programáticas em colisão com o que aprendeu em casa, com a herança que veio de outros tempos ou de outros pensares. Se for preciso ponha um cravo ou a bandeira na lapela.

Quando tiver suficiente força no partido comece por se remeter ao silêncio para, depois, insinuar discordâncias com o líder, seja qual for o pretexto. Ah!, não se esqueça de tirar uma licenciatura. Há imensas universidades a dar diplomas e, se já tiver sido deputado, não precisa de se esforçar. Fuja das que têm docentes que exigem frequências, exames e outros incómodos. Outras, até o convidam para dar umas aulas para o currículo, depois de lhe darem o diploma.

Se nesta altura ainda não tiver um barão do seu partido que o apadrinhe, um desses que já foi ministro e que, não podendo ser primeiro-ministro, se dedicou a ganhar fortunas, é porque você é tão medíocre que não tarda a que os cúmplices o abandonem.

Mas se tudo correr como foi previsto quem correrá com os mais aptos é você. Concorra à liderança num período em que não se prevejam eleições próximas e verá as distritais a apoiar a sua liderança em vez de discutirem ideias ou programas. Nunca descure os seus apoiantes. Vá deixando cair os lugares que podem estar disponíveis.

É a altura de concorrer a líder do partido e, se não estiver a vagar o lugar de PM, é ideal para ganhar a liderança. Os mais preparados estão em cargos de responsabilidade.

Quando previr que o Governo de turno está com os dias contados não hesite em dizer que está pronto para o substituir mas certifique-se de que tem o exército de cúmplices disposto a bater-se por si.

É nestas alturas que se ganha o Governo e se começa a perder o País. Mas isso pouco interessa. O princípio de Peter exige confirmação.