sexta-feira, outubro 31, 2014

As Forças Armadas Portuguesas e as da Rússia

Depois da compra de dois submarinos, ainda não tinham chegado os veículos, só as comissões, e já um poderoso barco armado de pílulas abortivas era obrigado a retirar das costas da Figueira da Foz.

Agora foi a vez da Rússia que, com a NATO à beira de um ataque de nervos, enfrentada por aviões portugueses meteu os caças entre as nuvens e deu às de Vila-Diogo.

Desde Aljubarrota que uma vitória, em desigualdade de forças, não era tão arrasadora.

O antigo Condestável Paulo Portas, à semelhança do homólogo Nuno Álvares Pereira, aguarda agora a defunção e dois milagres para o seguir na elevação aos altares.

Homenagem a Durão Barroso

A Comissão Europeia devia ter prolongado o segundo mandato de Durão Barroso em mais dois dias. Sempre saía no dia dos mortos e a condecoração com que o PR o espera podia ser outorgada na morgue.

Há coisa mais bonita do que um peito cheio de veneras num corpo em decúbito dorsal?


Ainda me indigno...

Numa época em que a fome, a vergonha e o desespero atingem o país, há naturalmente quem acalente rancores e desejos de vingança. Os políticos deixam de ser julgados pelos eleitores e são expostos no pelourinho da opinião pública por uma turba incapaz da uma reflexão crítica mas capaz de exigir o linchamento do adversário.

Acusam-se as leis de brandura e os advogados de manobras na defesa dos constituintes. Uma calúnia sobre um adversário é uma certeza que se jura mas não se aposta. É fácil a acusação sem provas e o ódio por razões sectárias.

Os meus excessos, não sou diferente de outros, provocaram-me hoje um sobressalto. Há mais de dois anos e meio que um jovem de 29 anos, estudante, está preso, em Paços de Ferreira, a cumprir 20 anos de pena, reduzidos a 12 pela Relação, por homicídio de uma tia, de 73 anos. A reconstituição do crime e a confissão do arguido à polícia motivaram a condenação. Segundo o DN, o ora presidiário, alegou, perante o juiz que o ouviu, que a PJ o coagiu ameaçando que ia prender a sua mãe como mandante do crime.

Ontem um homem, suspeito de vários crimes, confessou, com outros cometidos, aquele que levou o jovem à cadeia.

Pensemos só na possibilidade de o crime daquele jovem se resumir a um intenso amor filial e ao ardil de polícias, habitualmente bem preparados, serem vítimas da sua própria presunção! Provas circunstanciais acrescidas terão ditado ao juiz o sentido da sentença.

Perante um eventual erro judiciário, como se sentem os defensores da pena de morte? Sabe-se que há uma percentagem de inocentes condenados nos EUA, com o Texas na vanguarda e Bush, o da invasão do Iraque, recordista em assinaturas de Governador, antes de cada execução.

A eventual inocência desta vítima de 29 anos talvez levante dúvidas a quem está sempre cheio de certezas. Por que motivo serão precisas vítimas para uma reflexão humanista?

quinta-feira, outubro 30, 2014

Momento zen de quarta_ 29_10_2014

O inefável João César das Neves (JCN), na última homilia, «Exterminador Implacável», foi buscar um dos pecados mortais – o orgulho –, considerado por Evágrio Pôntico, um monge escritor e asceta do séc. IV, era vulgar, como muito ruim.

JCN não refere o autor pio nem o método usado para medir o orgulho e a sua gravidade relativa, mas segue-o na severidade que atribui a tão grave pecado, capaz de despachar a alma do orgulhoso, em grande velocidade, para as profundezas do Inferno.

Na sua exegese, o orgulho é «maleita muito pior do que o ébola, o cancro ou diarreia». Comparar a diarreia ao ébola é porque teme a primeira, apesar de ser nele frequente, e não faz ideia do que é o segundo, mas em pecados o especialista é JCN.

O devoto perora sobre os 7 pecados capitais, que algum papa recente já passou a 8, com a desenvoltura com que debita orações ou aperta o cilício, e recorre a santos doutores na defesa da gravidade do ‘orgulho’ cuja cultura pia lhe permite chamar também ‘soberba’. Depois de referir que «Na tradição cristã (…) é este o pecado de Satanás e também de Adão e Eva», arrasa os céticos com esta demolidora citação:

«São Tomás de Aquino explica: "A soberba encerra a gravidade máxima, pois nos outros pecados o homem afasta-se de Deus por ignorância, fraqueza ou busca de outro bem, enquanto a soberba se afasta de Deus precisamente por não se querer submeter a Ele e à sua lei (...)" (Summa Theologiae II-II 162, 6)».

Pode não se perceber a que propósito traz à colação os nomes de Merkel e Salgado, mas recorre à biologia para defender a gravidade do ‘orgulho’, «maleita tão virulenta, que chega a infectar através da própria vacina: muitos somos orgulhosos da falta de orgulho, gabando-nos da nossa enorme humildade» – afirma JCN em exaltação pia e autocrítica.

Seguindo as regras da melhor parenética, JCN execra a moléstia mas receita o antídoto: «Como o quinino na malária ou a insulina na diabetes, apenas uma droga pode controlar o orgulho: humildade». Embora esteja desatualizado meio século em relação ao quinino, prescreve o remédio salvador para o orgulho, que não aparece «nas formas habituais de xarope, comprimido ou vaporizador, mas em pastilhas (…) nas páginas de um livro: A Prática da Humildade (Paulus), escrito há cerca de 150 anos por Vincenzo – Cioacchino Pecci. A referida raridade do produto no circuito comercial explica-se, em parte, por o seu humilde autor ser mais conhecido como Papa do que como químico farmacêutico».

JCN termina em êxtase místico esta inspirada homilia, citando Leão XIII, São Pedro, o beato Pio IX e São João Paulo II, referindo leituras sacras, «grandes obras doutrinais e pastorais, como as encíclicas Aeterni Patris (1879) sobre a filosofia cristã e Rerum Novarum (1891)», sem esquecer o objetivo sagrado da homilia, este momento zen de quarta, «combater o terrível e peganhento muco da soberba».

Esqueceu outros fluidos, tal como esqueceu o papa Francisco cuja santidade profissional o levará a esgotar o bicarbonato de todas as farmácias próximas da madraça de Palma de Cima.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 29, 2014

O infantilóide apontar do dedo…


Hoje, o primeiro-ministro afirmou:

O debate mais infantil a que tenho assistido desde o início da crise da dívida é o debate sobre o crescimento e a austeridade. Ele tenta resolver [um problema] – como é próprio das crianças – apresentando um desejo sem atender à realidade.link

E pensavam os portugueses que a maior infantilidade dos últimos tempos tinham sido as explicações de Passos Coelho, perante o Parlamento, sobre as suas graciosas prestações para a Tecnoforma e o Centro Português para a Cooperação. Esta, sim, foi a incrível história da carochinha à mistura com aquela outra do Ali-Babá…

terça-feira, outubro 28, 2014

O novo mandato de Dilma e a confusão reinante …


 Dilma Rousseff a presidente do Brasil eleita para o novo mandato tem pela frente aquilo a que se chamam ‘trabalhos ciclópicos’.

Na verdade, não vai governar – porque as regras da democracia brasileira não o permitem – segundo o programa que apresentou aos brasileiros na campanha eleitoral. Vai, quando muito, coordenar – ‘presidir’ - uma multidão de forças políticas que integram o vasto ‘arco da governação’, sediado em Brasília.  
Os acordos de incidência governativa envolvem mais de uma dúzia de formações partidárias. Concretamente, o real suporte parlamentar oriundo do PT ao Governo, que Dilma preside no Palácio do Planalto, representa cerca de 13% dos lugares numa Câmara com 513 deputados federais. 
Brasília está envolta, foi apoderada, por uma ‘babel partidária’ onde os apoios parlamentares a projectos de lei ou outras resoluções políticas têm de ser negociados primeiro de deputado a deputado e depois, noutro patamar, de senador a senador.
Considerada a frieza dos números e mesmo perante uma República Federativa da dimensão do Brasil uma federação com 32 partidos legalizados perante o Tribunal Superior Eleitoral, 28 dos quais representados na Câmara de Deputados, paira sobre este País o espectro da 'ingovernabilidade'.
Já foi assim no último mandato e corre o risco de assim continuar no próximo. Só que de 4 em 4 anos o partido do presidente (ou da ‘presidenta’) é chamado – isoladamente – às repsonsabilidade e tudo o que de bom ou de mau foi feito é escrutinado impiedosamente.
 
A Constituição saída do fim da ditadura militar – “das directas já!” - incorpora várias armadilhas. A primeira delas é face as restrições ditatorais que bipolarizaram o Brasil entre o ARENA e o MDB, a liberdade conquistada com o fim da ditadura ter estimulado o apetite para a criação de um alargado espectro partidário que conduziu a uma infindável variedade numerica de partidos políticos. Este 'alargamento' ficou muito longe de corresponder ao preenchimento de um leque de opções democráticas que se quer realista, diversificado e fundamentado (ideológica e programaticamente), sem passar pela simples pulverização do campo das escolhas à volta de questiúnculas estatais, regionais ou até pessoais. Isto é, a política na sua pior expressão.
No entanto, a bagunça não acaba aqui. Neste momento existem cerca de 20 novos partidos em processo de constituição, entre eles a ‘Rede Sustentabilidade’, de Marina Silva.

Na área do socialismo e da social-democracia a confusão é verdadeiramente assustadora. 
À variedade numérica não corresponde uma multitude de políticas diferenciadas (ideologicamente) e idóneas já que o chamado ‘sincretismo político’ infesta transversalmente o sistema partidário brasileiro e alimenta ilusões de que o exemplo acabado é o PSDB, presidido por Aécio Neves, onde a social-democracia serve para acoitar (e camuflar) opções políticas e económicas declaradamente neoliberais. 
Nesta área, dita de ‘centro-esquerda’, cabem nem mais nem menos que 11 partidos [Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido Democrático Trabalhista (PDT), Partido dos Trabalhadores (PT), Partido da Mobilização Nacional (PMN), Partido Verde (PV), Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Partido Popular Socialista (PPS), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Pátria Livre (PPL), Partido Republicano da Ordem Social (PROS), Solidariedade (SD)]. 

Pelo meio e ainda imiscuído no sistema partidário brasileiro existe a indelével marca do ‘getulismo’, isto é, do ‘trabalhismo brasileiro’, cuja inclusão na área do ‘centro-esquerda’ é plausível e assenta nos marcados contornos populares, de consolidação social e do ‘nacional-desenvolvimentismo’ característico do getulismo, cujo trajecto partindo da concepção e acção política de Getúlio Vargas acabou por mobilizar alguns sectores da esquerda (incluindo Luís Carlos Prestes do ex-Partido Comunista Brasileiro) e perdurar – sempre com a perene vigilância dos políticos da caserna (militares) - até à deposição do presidente João Goulart e instauração de 21 anos de ditadura (1964-85).
A sombra do velho Partido Trabalhista Brasileiro ainda perdura sobre o centro-esquerda no Brasil resistindo (existindo) residualmente em todas as ‘teses desenvolvimentistas’. 

De igual modo a Direita mais acirrada e nacionalista hoje representada pelo Partido Progressista (PP) continua a ter como referência remota a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), suporte político da ditadura militar que, após o seu colapso, navegou pelo campo ‘Democrático e Social’ e pela área ‘Liberal’. Hoje, o PP integra o Governo de Dilma (Ministério das Cidades), não porque exista qualquer tipo de afinidades políticas, mas porque o PP tem na Câmara de Deputados 38 representantes. 

Esta ‘babel partidária’ é [outros exemplos continuariam a fluir se houvesse tempo e espaço] um dos mais difíceis imbróglios políticos com que Dilma Rousseff terá de lidar no seu segundo mandato presidencial. 
Não se entende como tal poderá ser feito através de actos referendários (ou plebiscitários) como foi anunciado na declaração de vitória link... 

Reflexão

Há numerosos portugueses preocupados com a reeleição de Dilma Roussef. Temem que a permanência do Partido dos Trabalhadores, no poder durante 16 anos, seja um período demasiado longo de um só partido a ocupar presidência… do Brasil.

Curiosamente estas preocupações, aliás legítimas, partem de quem nunca se manifestou contra a mais longa ditadura europeia pelo mesmo esbirro – Salazar.

E nem se dão conta de que consentiram que a lei permitisse a Alberto João Jardim levar já 36 anos de contínuo poder na Madeira, sendo o mais antigo governante euroafricano,

ou

a Jaime Soares, 38 anos à frente da Câmara de Poiares e, depois de legar a maior dívida por habitante, entre todos os municípios portugueses, ser eleito presidente da Liga de Bombeiros Portugueses, lugar que ocupa com a eficiência com que geriu a Câmara.


David Cameron e a comunicação social inglesa


O PM inglês, David Cameron, tendo como referência Margaret Thatcher, grita contra União Europeia a pretexto da quota adicional de 2,1 mil milhões de euros que lhe deve, de acordo com a subida do PIB, acima do previsto, como bem sabe.

Não é apenas o PM que é hipócrita. Também a comunicação social britânica se atira a Bruxelas, por causa do valor da pensão de Durão Barroso, como se não estivesse fixada e não fosse pública, muito antes de ele abandonar as funções.

A política, transformada em comédia, dirige-se para a tragédia.

segunda-feira, outubro 27, 2014

Parabéns, presidenta Dilma!

Há nessa vitória sofrida o júbilo de ver congelado o liberalismo que faria mais desigual um país que, desde Lula, tem vindo a resgatar da pobreza dramática milhões de pobres. Há na vitória, que a torpe campanha com que tentaram assassinar o carácter da mulher que ousou ser guerrilheira, contra a ditadura, uma epifania. Foi o triunfo da coragem, da obstinação e da social-democracia contra o liberalismo, a demagogia e o oportunismo.

Foi a vitória contra a comunicação social, nas mãos dos grandes grupos económicos, e o triunfo contra as Igrejas que queriam transformar o Planalto numa sacristia.

A corrupção é uma hidra que se enrola ao poder e que medra com ele. A presidenta sabe disso, e todos contam com a sua coragem para a erradicar. É uma luta sem quartel e que nunca é vencida, mas há passos firmes que não deixará de dar. Não desiluda quem está consigo, porque gosta de si, e quem a apoia porque não esquece Lula, o mais sólido dos seus apoiantes, o mais carismático dos seus eleitores e o mais português dos brasileiros.

Felicidades, Presidenta. A queda do preço do petróleo, com o gás americano extraído do xisto, vai dificultar projetos sociais e são difíceis as opções e impiedosos os adversários. Há de achar, na luta contra a pobreza, o caminho de que os rivais a queriam afastar.

Este texto vai arreliar muitos dos meus amigos, não pela alegria que manifesto, pois a maioria deles estava a seu lado pela razão e pelo coração. É o nome de «Presidenta» que os amofina, esquecidos de que a língua comum pode ter diferenças, mas é a mesma, e de que a palavra «presidenta» só surge para designar uma função que em nenhum outro país de língua portuguesa tinha sido desempenhada por uma mulher.

Esquecem-se de que um dia escreverão também «presidenta» porque já é tempo de uma mulher ocupar o mais alto cargo e temos mulheres que o merecem.

Aliás, os que se indignam com o feminino que Dilma consagrou esquecem-se de que já temos, na língua que nos une, as “infantas” que morreram e as “governantas” que estão como criadas de senhores feudais mas que não são outra coisa para além do feminino de “governante”, um feminino aceite para funções menos nobres por razões misóginas.

Boa noite, Presidenta. Feliz mandato. Viva o Brasil!


Parabéns, Dilma


O Passos Coelho brasileiro, embora mais preparado cultural e politicamente, foi derrotado. A herança de Lula, não sendo eterna, fica mais acautelada.

Confesso. Fico satisfeito.

domingo, outubro 26, 2014

A montanha ia a Maomé


A FRASE:

«Não admira que, depois de dez anos no cargo [Durão Barroso], apenas cento e cinquenta dos setecentos e cinquenta deputados tenham estado presentes no seu discurso de despedida».
(Pedro Marque Lopes, hoje, no DN, pág.7)

Comentário: Só 20% o acompanharam no último suspiro)


O ocaso de Durão Barroso e os acasos da História

A presidência da Comissão Europeia (CE) de Durão Barroso (DB) devia ser motivo de orgulho para Portugal se DB não tivesse sido o mais americano dos europeus e o mais alemão dos portugueses.

Não há, em Portugal ou na Europa, quem tão facilmente exonere a ética e use a tática na defesa dos interesses próprios. Onde estiver o poder, aí está, como lapa agarrada à rocha em dia de tempestade. Quis ser o Jacques Delors da Europa e foi a medíocre reedição de Jacques Santer.

A melancólica despedida, com o Parlamento Europeu quase vazio, só com uma reduzida representação dos seus companheiros de estrada, talvez em busca da senha de presença, foi a metáfora de dois mandatos com a mesma insuficiência com que fugiu do Governo de Portugal.

A invasão do Iraque foi a nódoa que o levou para a CE, enquanto fingia apoiar António Vitorino, e a Sr.ª Merkel era a sua paixão quando fantasiava mérito próprio na alegada «pipa de massa» que tinha sido atribuída a Portugal.

Bush e Blair, depois de Aznar ter mentido aos espanhóis na atribuição à ETA do crime islâmico na estação de Atocha, sobrou-lhes Barroso para presidente da CE. Insondáveis interesses podem ainda guindá-lo a presidente da ONU, se for baixo e dócil o perfil que interesse aos senhores do mundo, mas não será o decisor nesta época conturbada.

Pode aspirar a altas honrarias graças às armas químicas e cumplicidades que teceu. Não lhe faltarão apoios.

Calígula também fez cônsul um cavalo.

Fidel e a face oculta do obscuro Juan Reinaldo Sánchez

Um ex-guarda-costas de Fidel Castro escreveu um livro no exílio dourado de Miami, onde tem os dois filhos. Depois de 17 anos como segurança de Fidel, a acreditar nele, é a Zita Seabra cubana.

Quem, como eu, nunca defendeu um regime de partido único, mas reconhece a Cuba os notáveis sucessos na saúde e educação, rejubilou com a vitória sobre o antigo ditador e dono do bordel, Fulgêncio Batista, e hoje se limita a condenar o desumano boicote ao país, distingue um biógrafo de um mercenário, um cidadão honrado de um trânsfuga oportunista e a informação da propaganda.

Defendo, como sempre defendi, a democracia política, pelo que não posso ser suspeito de adepto de Fidel, por mais que me maravilhem as vitórias sobre a mortalidade infantil e o analfabetismo, por muito que me espante o triunfo da música, da dança, das artes, do desporto e da medicina, em Cuba. Admiro, de facto, o povo cubano.

Pergunto-me para que quer Fidel as várias casas que o avençado biógrafo lhe atribui, em Cuba, e para que precisará de uma fortuna no estrangeiro quem viveu sempre no seu país e nunca pensou abandoná-lo para gozar a riqueza que alegadamente acumulou em parte incerta.

O aparecimento do panfleto*, com o glorioso nome de «livro», traduzido em português, não revela a face oculta de Fidel mas os interesses obscuros de quem procura prejudicar o PCP nas próximas eleições, preferindo um expediente baixo ao confronto ideológico e a propaganda soez ao debate de ideias.

A central de intoxicação autóctone, da pior direita em regime democrático, não deixa de exibir o gozo reacionário de uma encomenda dos exilados de Miami com a assinatura de um de muitos conspiradores que aí se fixaram. Miami não é uma escola democrática, é um antro de ressentimento e de conspiração, espécie de Rua de S. Caetano e de Largo do Caldas, coligados no exílio americano.

O oportunismo, à força de repetido, perde eficácia. A alegria com que ora atacam os que se situam à esquerda do PSD, talvez se transforme em azia depois das próximas eleições legislativas.

*A Face Oculta de Fidel Castro, Ed. Planeta, 17,76 €


sábado, outubro 25, 2014

Valls ou os ventos da Gália…

O que se passa em França sempre interessou e influenciou Portugal. Embora recentemente a sua influência tenha sido debilitada pelos novos tempos da globalização a França, quanto mais não seja pela Revolução Francesa, sempre teve um papel relevante e marcante na cultura e na política nacional. Trata-se de um facto que remonta à origem da nossa nacionalidade, isto é, à disnastia dos Borgonha.

No século XIX verificou-se o apogeu dessa influência subsidiária da literatura, das artes e no campo político com o advento do liberalismo. No campo do socialismo, dito utópico, são vultos da cultura francesa como Saint-Simon, Fourier e Proudhon que o pensam, divulgam e lhe conferem credibilidade. Embora a evolução do socialismo – do utópico ao científico – tenha de certo modo escapado ao redil francófono, nomeadamente Engels que a par de Marx influenciará determinantemente o seu percurso, será através de editoras francesas (com o tradicional atraso de ‘incorporação’) que o mesmo ‘chega´a Portugal.

O enorme acontecimento político que foi a Comuna de Paris, isto é, um dos factos históricos relevantes da construção ideológica do socialismo já que, esse momento revolucionário, acabaria por revelar ao Mundo a primeira experiência de um governo popular que, muito embora tenha sido um episódio efémero, marcou o percurso histórico da evolução política contemporânea.

Mais recentemente, no pós-guerra não sendo o prévio e único precursor é o socialismo (provavelmente as políticas sociais nascem na esteira da ‘grande depressão’/anos 30), e muito especialmente a social-democracia, o veículo revelador do chamado Estado social (ou de bem-estar social) que marcou na Europa a segunda metade do século XX (e ainda hoje é invocado por muitos políticos).
Desenganos e insucessos como foram os regimes comunistas de Leste subsidiários de erros  e desvios totalitários e de uma nomenclatura dirigente que adoptou o autoritarismo como modelo de governação interna fizeram esboroar, no final do século passado, o processo socialista em curso na ex-URSS não apagam, nem afectam, este relevante percurso. A 'revolução de Outubro' não pode ser excluída da história do socialismo.

Bem, o lastro histórico é imenso e impossível de abarcar num post.

As declarações de Manuel Valls sobre uma putativa ‘renovação da Esquerda’ girando à volta de um incensado ‘pragmatismo’, do ‘reformismo’ e do ‘republicanismo’ link não contêm nada de inovador para além de serem (mais) um insulto à História. As afirmações de Manuel Valls são repugnantes porque, na verdade, o clamor pela ‘morte das ideologias’ costuma soprar de outras bandas.
De facto, não há política sem causas e essas entroncam-se em conceitos ideológicos e nunca em atitudes instrumentais (pragmáticas, de eficácia ou outras). A morte das ideologias emparelha um pouco com uma outra ideia (lá estão as ideologias) que é o fim da História (Fukuyama). Nada mais se pretende com estas mistificações do que ‘justificar’ o capitalismo neoliberal denegrindo a concepção dialéctica que continua a ser o instrumento de análise decisivo na compreensão da organização política e social dos povos. A defesa do ocaso ou da morte das ideologias abre, efectivamente, o caminho a todo o tipo de oportunismos mas não traz nada de esclarecedor e muito menos de renovador. Trata-se pura e simplesmente da 'sacralização' dos mercados que são convocados para 'assassinar'  ideais democráticos que marcam a Idade Moderna (Liberdade, Igualdade e Fraternidade).
Quando alguém aparece a fazer ‘strep-tease’ das ideologias (anunciando o seu ocaso ou o seu fim) certo e seguro que, para não morrer desamparado (despido) e enregelado pela frieza da eficiência, estará próximo de vestir outra indumentária (ideológica).

Manuel Valls ao pretender ‘refundar’ (conceito muito caro à Direita) o socialismo por caminhos ínvios prejudica muito mais a causa da Esquerda do que esclarece ou ultrapassa a óbvia confusão que por este espaço político grassa no período de crise mundial que tanto marca a Europa.
Teve - na entrevista concedida ao Nouvelle Observateur como resposta a Martine Aubry - uma intervenção que pretendeu ser desabrida mas não mostrou coragem suficiente para declarar-se naquilo que realmente se tornou, isto é, num fervoroso adepto do ‘socialismo liberal’. O medo de ser explícito levou a querer eliminar a palavra ‘socialismo’ mas, pelo contrário, a sua filia pelo conteúdo ‘liberal’ na sua ‘inovadora’ (neo) expressão, infesta todas as suas declarações.

Ao lermos o texto percebe-se quais as razões remotas do declínio da França. E ficamos com a certeza que elas não se confinam a Marine Le Pen. Existem outros ‘artistas’ que estão a dar um inestimável contributo. Há uma coisa que parece nítida: o socialismo não aguenta dois (ou vários) Tony’s Blair’s…

sexta-feira, outubro 24, 2014

A Arábia Saudita, os petrodólares e o terrorismo

Mulheres da classe alta
Alwaleed bin Talal, um empresário multimilionário e membro da casa real da Arábia Saudita, confirmou que o país financiou o Estado Islâmico (EI) para ajudar a combater e derrotar o Governo da Síria.

A reiterada cumplicidade da obscura ditadura nos atos de terrorismo islâmico goza de surpreendente impunidade. Não vale a pena referir o suspeito do costume porque são muitos os países manchados de sangue e petróleo. Certo é o apoio do grande produtor de petróleo a todos os desmandos pios da falhada civilização árabe, que se agarra à fé como náufrago à única tábua. E, mais surpreendente ainda, é a cumplicidade de países que procriaram evangelizadores, cruzados e inquisidores de que se envergonham. 

Surpreende-me que países, com massa crítica e instituições democráticas, se precipitem em aventuras patrocinadas por uma família medieval que dá o nome e é proprietária de um país. A mais sórdida teocracia, onde se situam Medina e Meca, locais que atraem os crentes islâmicos, como o mel às moscas, goza da proteção do mundo civilizado.

A Europa e os EUA continuam a ter como aliado o país medieval onde germina a mais demente interpretação do mais primário dos monoteísmos. Apesar de sofrerem, dentro das fronteiras, a demência mística, que alicia jovens, e ataques terroristas, que lançam o medo e a morte nos seus cidadãos, há uma pulsão suicida anestesiada pelo petróleo.

A ausência de quaisquer liberdades, direitos ou garantias, a mais infame misoginia e o despotismo patriarcal são apanágio da sociedade arcaica da santuário teológico do mais perverso islamismo.


Até quando a Arábia Saudita será um «país amigo»?

Dois amigos, dois destinos

O da esquerda já foi canonizado

Momento zen de quarta_22_10_2014

João César das Neves (JCN) na homilia de quarta, denominada «sínodo em família», partilha com os crentes a pungência da dor que o dilacera: «a Igreja está dolorosamente dividida nas questões da família», temendo que desvirtue a doutrina e atraiçoe o Mestre (epíteto que no jargão de JCN designa o crucificado).

A ansiedade que o devora não é nova: «Vivemo-lo há muito tempo, durante o Concílio. O de Niceia em 325, ou qualquer um dos 21 ecuménicos, incluindo o último, Segundo do Vaticano de 1962 a 1965». Não significa que JCN tenha estado no de Niceia mas no de Trento, a avaliar pela rusticidade da sua fé, certamente esteve ou, pelo menos, bebeu aí a interpretação bíblica com a mesma fé com que os talibãs assimilam o Corão.

JCN justifica a tragédia que o atormenta, depois de citar uma epístola: « A doutrina é clara, sólida, indiscutível, vinda do mais alto dos céus. Aí não há dúvidas. A confusão está na vida, que brota do fundo do coração dos homens».  Maldito coração! E tem fé: «A nossa confiança é sólida porque, além de avisados dos tumultos, fomos também informados do resultado: "Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: eu já venci o mundo!" (Jo 16, 33).

JCN, apesar de afirmar o contrário, não esconde a suspeição no papa Francisco e afirma que as questões deste sínodo, questões contra as quais já manifestou mais horror do que Maomé ao toucinho, «foram muitas, difíceis e complexas. Acesso aos sacramentos por casais irregulares, acolhimento a divorciados, uniões de facto, homossexuais são dilemas pastorais profundos e espinhosos (…).

Com o cilício a sangrá-lo, os dedos doridos das contas do terço e os joelhos magoados, JCN, na sua fé tridentina, termina a homilia com um louvor: “o papa Montini, a quem o Senhor confiou a Sua Igreja no último período homólogo, é, não apenas um exemplo e um mestre, mas um poderoso intercessor para os caminhos actuais da Igreja e da família».

E, à guisa de quem se dirige aos paroquianos, para repetirem com ele a jaculatória, ora:

«Beato Paulo VI, rogai por nós!»

quinta-feira, outubro 23, 2014

Machete, (sin.: ‘cavaquinho’…)

Ainda não assentou a poeira sobre o caos lançado por Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz, que mereceram o beneplácito de Passos Coelho, já o País está confrontado com um outro caso:
Rui Machete e as declarações sobre jihadistas portugueses. link.

De facto, assim não dá!

Depois da gafe sobre as investigações do MP a altos dirigentes angolanos  link o MNE – um velho quadro do ‘PPD’ - deveria ter ‘apanhado’ juízo…

Jangada de Pedro salva Crato do naufrágio

Rui Pinto Monteiro é um professor de 36 anos que leciona em Biscoitos, Ilha Terceira, nos Açores. A sua colocação em 95 escolas do Continente transformou um professor do ensino básico em recordista.

As solicitações numerosas têm sido motivo de gozo para com o ministro da Educação e Ciência, um ministro que se esforça por ser o pior num Governo onde tem de enfrentar a concorrência feroz de muitos dos seus colegas.

O referido professor precisa de desistir de tão insólito assédio cada vez que uma escola o convoca para preencher a vaga e, só depois, o sistema informático notifica outro para a função.

Por cada vaga que lhe foi destinada há, pelo menos, 21 crianças que continuaram sem aulas e um professor que ficou a aguardar colocação. O facto de precisar de recusar cada oferta de lugar, para que o mesmo possa ser preenchido por outro professor, complica-se pelo facto de ter desistido do concurso do Continente e, assim, ter perdido condições legais para renunciar.

Na página onde os professores podem desistir, com um simples «clic», não consta o seu nome e o computador não comunica a sua desistência do concurso às escolas.

O desespero do ministro, após sobejas provas de inaptidão, levou-o a transferir para as escolas os problemas que criou e acabou por juntar à inépcia este naco de humor negro onde a vida de professores e alunos se complica.

Não é por acaso que Passos Coelho diz que acertou na escolha de ministro da Educação e Ciência. Não destoa nem lhe faz sombra.

Passos Coelho e as eleições legislativas



Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro, cargo de que usufrui as prerrogativas e benefícios, incapaz de autocrítica, ameaçou o país com a recusa de antecipar as eleições legislativas, assustando os portugueses com mais um ano a rebolar-se no exaurido pote.

Não estão em causa os prazos constitucionais, mas as instituições, a agonia do regime e a decadência ética do Governo que fez de Portugal um laboratório de experiências mal sucedidas, com o caos na Justiça, a Educação e Ciência em colapso e a desconfiança nos governantes igual à que Passos Coelho adicionou com as peripécias da Tecnoforma.

A antecipação de eleições depende da vontade do Governo ou da decisão do PR, sendo a última uma improbabilidade e a primeira a única decisão certamente irrevogável.

Passos Coelho corre para o abismo, sabendo que não tem soluções e que, quanto mais tempo permanecer com a turma, mais hábil a agarrar o poder do que a usá-lo ao serviço do País, mais complica o OE-2016 e menos tempo deixará ao próximo Governo para o
elaborar, com o calendário eleitoral a comprometer o do Orçamento.

O PSD, dececionado com o PM que Marco António e Relvas inventaram, com a bênção de Cavaco, anda a lançar nomes para o substituir. Desde a ministra das Finanças até Rui Rio, nem Marco António escapa à lista dos inefáveis e putativos sucessores.

A estratégia de crescimento que teve assinalável êxito, em três anos do funesto governo da pior direita, foi no camo dos impostos, do empobrecimento e da dívida pública.

O próximo Governo herda um país desmoralizado, com défice na balança de transações, emprego em extinção, acordos impossíveis de honrar e um PR impossível de recuperar.

A obstinação de quem nunca devia ter passado de vogal de junta de Freguesia e acabou PM, longe de se arrepender, insiste em fazer beber até à última gota o cálice de veneno do Governo que lhe adjudicaram e que os portugueses são obrigados a digerir.

Que raio de sorte a nossa!

Ponte Europa / Sorumbático

Acontece...


quarta-feira, outubro 22, 2014

A Portugal Telecom e o País

A PT é o reflexo do País. A empresa emblemática de setor público, precursora de várias inovações, na vanguarda da investigação e desenvolvimento, foi devorada pela ganância dos acionistas e falta de escrúpulos de quem a usou, em aflição, para cobrir desmandos que a Justiça investigará, se puder.

A empresa de telecomunicações, geradora de emprego e de avançada tecnologia acabou ingloriamente em leilão de abutres, perante um Governo que, na ânsia de desmantelar o Estado, a abandonou às mãos do deus comum – o Mercado.

Houve, na plangência do descalabro, uma tal falta de sensibilidade e uma tão obsessiva marca ideológica que nenhum resultado eleitoral é suficiente para julgar os culpados.

A PT era a empresa portuguesa que conquistara mercados do Brasil ao Quénia, de S. Tomé a Timor, de Angola à Hungria, para acabar à mercê de candidatos que a absorvem e descaracterizam.

O apogeu e a queda da PT estão ligados ao antes e depois deste Governo como metáfora do estado a que este Governo conduziu o País.


terça-feira, outubro 21, 2014

Proselitismo religioso


Quem os ameaça? Ou é o casamento dos outros que querem irrevogável? Cerejeira conseguiu isso com Salazar e os dramas foram penosos.

segunda-feira, outubro 20, 2014

Martine Aubry, Valls e a “guerra de nervos”..

A entrevista concedida por Martine Aubry ao jornal JDD link - “Eu exijo que se reoriente a política económica” - merece ser atentamente lida.

A afirmação - feita pela maire de Lille e ex-primeira secretária do PSF - de que não é possível mobilizar um País à volta da gestão financeira, sendo necessário dar-lhe um destino de viagem - é um tremendo repto para a Esquerda europeia absorvida em derivas à volta de ‘socialismos liberais’, totalmente manietados por questões orçamentais e na adivinhação dos desejos e execução dos ditames dos mercados.

Esta ‘pedrada no charco’ incomodou o primeiro-ministro Manuel Valls que ‘ressabiado’ veio a terreiro declarar ter ‘nervos sólidoslink .

Para já, está instalada uma ‘guerra de nervos’…

João Paulo II (JP2) e os mártires da ICAR

As Igrejas pelam-se por mártires. Os santos têm escassa cotação e poucas se dedicam à sua criação. A ICAR entrou na era industrial com JP2, um caso de superstição e doentia fixação em defuntos a quem atribuiu passadas virtudes e poderes perenes. Para fabricar um santo basta engendrar dois milagres e cobrar os emolumentos do processo canónico. Para produzir mártires urge encontrar algozes predispostos a causar vítimas.

Os mártires podem ser dementes que procuram o Paraíso ou infelizes que estão à hora certa no sítio errado. Os suicidas islâmicos ilustram o primeiro caso, os missionários apresados por canibais fazem parte do segundo. Estes, em vez de serem benquistos pela eucaristia que levavam eram apreciados como manjar divino, em ávida antropofagia.
 
O nacionalismo e a fé convivem de mãos dadas. A vontade divina coincide muitas vezes com a do príncipe e este é usualmente um agente predestinado. A glória terrena facilita-lhe a bem-aventurança eterna. A rainha Santa Isabel fez o milagre das rosas, um milagre de que uma tia avó, húngara, certamente lhe enviara a receita para Aragão. Herdou-lhe o nome, o truque, a realeza e a santidade.

Nuno Álvares Pereira andou aí, depois de muitas humilhações nas provas para santo, a ser ultrapassado pelas bentinha de Balasar, os pastorinhos de Fátima e outros defuntos com milagres comprovados e devoções firmadas. Faltou-lhe o martírio que infligiu aos castelhanos e a coragem da Cúria Romana para enfrentar Espanha. Quando muitos já desistiam da canonização, o patriarca Policarpo porfiou na devoção e exigiu a Roma um milagre para dinamizar a estatuária e colocar nos altares portugueses uma peanha mais.

Destinados à santidade, o Vaticano, bairro que também usa o pseudónimo de Santa Sé, já leva três pontificados a publicar listas de mártires e defuntos virtuosos. As mortes são antigas e a utilização, para fins de propaganda, é a macabra operação de marketing que a ICAR favorece. O Cardeal Crescenzio Sepe, criado cardeal e nomeado prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos pelo inefável JP2, evocava o “generoso tributo de sangue de muitos irmãos e irmãs para o crescimento da Igreja no mundo”.

Morrer ao serviço de Deus é garantir o Paraíso – garante o clero –, com a mesma certeza com que na praça nos afiançam a excelência da hortaliça e no talho a saúde do animal de que nos cortam os bifes.

ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana


domingo, outubro 19, 2014

Uma insondável tempestade helénica …

A Europa desde há meses que cultiva um preocupante estado de entorpecimento.
O Conselho Europeu, continua a apostar na continuidade nas soluções de emergência prévias, vazias de estratégia, que se resumem a um cego e obstinado cumprimento do Tratado Orçamental e a infindáveis ‘reformas estruturais’ e este caminho mostra que opções cada vez mais eivadas de indefinições, subterfúgios e fugas à realidade, (re)lançaram a Grécia na arena dos mercados e o rugido dos ‘leões’ da especulação já é  bem audível. Trata-se de uma penosa rota de regresso a 2010 quando começou o ‘ajustamento’ grego, iniciando-se, deste modo, um infindável círculo vicioso, impossível de gerir politicamente (e democraticamente) link.

As ‘yields’ gregas a 10 anos aproximam-se vertiginosamente dos 2 dígitos (8.22%), tendo contagiado de imediato quase todos os países periféricos (Portugal, Espanha e Itália). A perspectiva de uma nova crise da dívida ensombra a Europa do Sul já que, considerados esses níveis de juros, a Grécia está – na prática - impossibilitada de financiar-se nos mercados financeiros e o contágio aparece como inevitável.

A Grécia, no terminus do seu 2º. resgate, não tem capacidade financeira e económica para uma saída ‘limpa’ da intervenção externa e é confrontada com a ‘necessidade’ de um novo programa de ajudas (seja um programa cautelar, seja um novo resgate). Independentemente do conceito espúrio de ‘saída limpa’, circunstância enigmática e de contornos indefinidos que os portugueses há bem pouco tempo debateram e ainda permanece no nosso inconsciente colectivo o leque de soluções vindas da Europa e das instituições internacionais que mereçam o beneplácito dos mercados está, perigosamente, a estreitar-se.
O beco sem saída para aonde a Grécia está a ser empurrada é um gritante libelo para avaliar da qualidade, dos meios e fins dos denominados ‘programas de resgate’ engendrados por instituições financeiras internacionais e europeias para os países em dificuldades financeiras, decorrentes de ancestrais fragilidades de desenvolvimento que a moeda única veio agravar.

O FMI insiste num programa cautelar que dê conforto ao financiamento grego, não sendo explícitados os custos dessa medida o que torna o futuro da coligação de Antonis Samaras muito periclitante.  
Por outro lado, a Bloomberg News link revela que as próximas eleições poderão levar o partido Syriza ao poder que, defendendo a renegociação das dívida e a reversão de algumas das reformas impostas pela troika, rebentarão estrondosamente com toda a estratégia que vem sendo desenhada por Berlim para a Zona Euro.
A par da deflação que grassa na Zona Euro a ameaça grega tem de ser considerada como uma questão europeia da maior importância não valendo de nada dichotes do tipo “…nós não somos a Grécia!”.

A última reunião do Conselho Europeu (26/27 de Junho 2014) passou olimpicamente ao lado destes problemas porque esteve ocupada em 'jogos políticos' para a nomeação do presidente da Comissão Europeia. A próxima a realizar em 26/27 de Outubro não deverá ser diferente. Esta a postura habitual do Conselho quanto à previsão de cenários evidentes e eminentes. Depois vêm as ‘soluções drásticas’ e as 'recriminações abusivas', quando não as ameaças de exclusão. Só que seria importante ter a noção de que a Europa está à beira da exaustão, i. e., manifestamente cansada e incrédula!

Estrasburgo: um novo pantanal?

A dissolução do grupo parlamentar da extrema-direita no parlamento europeu (EFDD) link é, à primeira vista, uma boa notícia.
A Europa tem muito poucos ‘euro-convictos’ e pode, muito bem, dispensar os eurocépticos e/ou os eurofóbicos.
 
No centro da dissolução do grupo de extrema-direita está a saída da eurodeputada letã Iveta Grigule. Ao abandonar a formação parlamentar, que tantas dificuldades tiveram para se organizar, sob a batuta de Nigel Farage, dirigente do movimento britânico UKIP, Iveta enviabilizou a sua existência já que regulamentarmente o EFDD (Europe of Freedom and Direct Democracy) deixou de representar uma diversidade de deputados que lhe assegurou, até aqui, a necessária representatividade (são necessários deputados oriundos de 7 dos 27 países) e a consequente subsidiação das instâncias europeias (de milhões de libras, já que abominam o euro).

Existem nesta situação vários problemas em suspenso que seria bom esclarecer e precaver.

O principal será para o grupo parlamentar da extrema-direita que perde a capacidade de actuar em bloco no PE, apresentar propostas e ver a suas acções (contra a UE) largamente subsidiadas. Sendo um problema do EFDD que revela uma brutal inconsistência política do grupo que vive à custa de demagógicas posições sobre a emigração deve, no entanto, colocar de atalaia a instituição parlamentar europeia para todo o tipo de ‘golpismos’ tão caros à extrema-direita.

Um outro problema é a própria deputada letã Iveta Grigule. Denunciada através de um comunicado emitido pelo EFDD link de ter sucumbido às pressões conjuntas do presidente do PPE, Manfred Weber, em consonância com o presidente do PE, Martin Schulz, tendo como moeda de troca a sua nomeação para presidente da delegação parlamentar da UE para o Cazaquistão, a eurodeputada letã deveria justificar (politicamente) a sua saída do grupo EFDD a fim de esclarecer todas as dúvidas que envolvem este caso. Para já um comunicado do gabinete de Martin Schulz, à BBC, negou estas acusações.
A não ser que o currículo de Iveta Grigule, uma solitária eleição do Latavia Farmer’s Union para o PE sugira que esteja de regresso ao Latavian Green Party, que concorreu coligado sob a bandeira da ‘Union of Greens and Farmers’, partido letão dos ‘verdes’ e dos ’fazendeiros’, colonizado por (ultra)nacionalismos geradores de 'sistémicos eurocepticismos', donde a deputada europeia é oriunda e acabou por ser expulsa link, num circuito sinuoso e fechado, algo incompreensível, mas pejado de venialidades  e oportunismos, acabe por levantar dúvidas e interrogações sobre a sua idoneidade política…
Aliás, Sharon Ellul-Bonici, secretária-geral da European Aliance for Freedom (agrupamento que incluiu a Frente Nacional de Marine Le Pen) veio prontamente a terreiro afirmar que Iveta Grigule… ‘não era de confiançalink .

A implosão do grupo parlamentar de extrema-direita em Estrasburgo (EFDD) significa um inegável recuo na pujança deste bloco político - revelada nas últimas eleições europeias - surgida à custa dos erros dos actuais ‘reformadores da Europa’, orquestrados sob a batuta de Berlim.
Todavia, o 'populismo' - seja sofisticado ou bacoco - é sempre um terreno de fogos-fátuos. E isto é verdade para todos os espectros políticos.

Mas existem, neste processo, demasiadas coincidências e obscuridades a esclarecer quer da parte da deputada Iveta Grigule quer do presidente do Parlamento europeu. Da parte do Sr. Farage e do ‘palhaço’ Grillo só chegarão insinuações, queixumes e ataques avulsos às instituições europeias.
Para o PE o cabal esclarecimento dos contornos e motivações deste ‘crash’ é a melhor garantia que amanhã do EFDD não (re) surgirá no PE com outros protagonistas, novos embustes e as mesmas pretensões.
É que as boas notícias devem ter por detrás claros e bons motivos. De resto, este ‘incidente’ faz lembrar o ‘método limiano’, bem conhecido dos portugueses, que, como sabemos, desembocou no ‘pântanolink.

Frases de um grande cientista

“No passado, antes de entendermos a ciência, era lógico acreditar que Deus criou o Universo. Mas agora a ciência oferece uma explicação mais convincente”

“Acredito que conseguiremos entender a origem e a estrutura do Universo. De facto, mesmo agora já estamos perto de lograr esse objetivo. Não há nenhum aspeto da realidade fora da mente humana.”

(Stephen Hawking, físico britâncico, um dos maiores cientistas mundiais, em entrevista ao El Mundo)

sábado, outubro 18, 2014

O catolicismo, o poder e a política no início deste milénio

As religiões não toleram a perda de influência. Depois de criarem um deus verdadeiro, de o promoverem e enfrentarem a concorrência, vieram o iluminismo, a laicidade e a democracia a estorvar o proselitismo.

A pedagogia ativa com que combatiam heresias e converteram réprobos já não pode ser aplicada porque a tortura é proibida e as fogueiras tornaram-se obsoletas, para desespero dos padres e eterna perdição das almas.

Quando os jesuítas anunciaram na China a boa-nova de que o filho de deus tinha vindo ao mundo, espantaram-se os chineses como, durante tanto tempo, ninguém os avisou. E, talvez por isso, preferiram ao deus, que se deixou pregar na cruz, um homem que sorriu quando lhe disseram que era eterno – Buda.

Apesar dos reveses, os deuses dos monoteísmos gozam de sólida reputação. Os humores e idiossincrasias não os destroem mas sabe-se que, quando a repressão abranda, germina o ateísmo e, sempre que o poder do clero se debilita, a confiança esmorece.

As religiões, não podendo destituir, em nome da fé, os mandatários do povo, sufragados por eleições, pedem, por amor de deus, que sejam eleitos governantes tementes a deus e generosos com os seus devotos servidores.

Em Chipre, em 2001, os padres rezaram muito para que o partido comunista perdesse as eleições e interromperam as orações a vê-lo ganhar. Os resultados eleitorais provaram que deus não estava na ilha e que as orações eram placebo.

Nessa altura, em Itália, andou o Vaticano numa azáfama a pedir orações por Berlusconi, um cristão que pouco deve à santidade. Ganhou as eleições mas houve quem pensasse que influíram mais a comunicação social e o dinheiro do que o deus do Vaticano.

Em Espanha a Conferência Episcopal jogou tudo na luta contra o PSOE que, entre outras maldades, legalizou as uniões homossexuais, permitiu-lhes a adoção de crianças e tornou facultativa a aula de religião católica nas escolas públicas. As eleições foram entre Zapatero e a Conferência Episcopal e o primeiro ganhou-as.

Penso que, um dia, em qualquer país, ganhará as eleições quem tiver a animosidade do clero. Deus perdeu influência. Até para obrigar as crianças a comer a sopa.

Em Roma está, de facto, em perda. Infelizmente, de Jerusalém, Meca e Medina, onde os monoteísmos germinaram, há um surto epidémico de consequências imprevisíveis.  

Uma demissão incompreensível

«O secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, João Grancho, apresentou, esta sexta-feira, a sua demissão alegando "motivos de ordem pessoal", tendo sido aceite pelo ministro Nuno Crato, segundo nota do Ministério da Educação e Ciência».

Há na melancólica desagregação do Governo desaforos e patifarias diversas. A ministra que combate os swaps é especialista nesse instrumento financeiro. Passos Coelho é uma espécie de PM. O PR é clone de Américo Tomás. Paulo Portas é uma imitação de figura de Estado. Nuno Crato é o especialista na destruição do Ensino público, parecido com a ministra da Justiça, a criar o caos nos Tribunais.

Não se compreende que o secretário de Estado de Nuno Crato se demita, por um plágio, quando o elenco que integra é um plágio de Governo e o secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário só ensinou aos alunos a maneira de progredirem na vida, de forma diferente do PM, que prefere a emigração.

Quem sabe se a tese do secretário de Estado, denunciada pelo Público, não seria mais apreciada do que quando apresentada pelo autor? Era uma forma de valorização de um trabalho académico.

Aliás, o secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário acabou por demonstrar que se dedicou com afinco à colocação de professores e ao bom funcionamento das escolas, de tal modo que teve de recorrer ao plágio para não roubar tempo à governação.

Neste Governo as palavras ganham novos significados, o plágio é «motivo de ordem pessoal».

Admira que um Governo, que começou com equivalências escolares, termine com um plágio académico. Em Matemática, este Governo, chama-se um conjunto vazio.


sexta-feira, outubro 17, 2014

OE 2015: um ‘empurrão’ para a uma necessária clarificação política…

A proposta de OE 2015 link é um extenso e confuso documento que se apresenta como revelador do estado estado a que o País foi conduzido e pretendeu ‘trabalhar’ uma incontrolada avalanche de números e situações para funcionar como sendo uma ‘cortina de fumo’ de inconfessáveis fábulas eleitorais.

Não se trata de um documento que ‘encaixe’ ou tenha uma estratégia para o futuro de Portugal ou seja portador de opções que - tendo os portugueses e as portuguesas por centralidade – defina um quadro desenvolvimento assente numa saudável, equilibrada e justa utilização dos dinheiros públicos. 
No OE 2015 está inscrita uma metodogia absolutamente inversa. A par do que foi inconcebivelmente negado [a (in)existência de um 'fundamentalismo orçamental], 'brincou-se' com números, conceitos, objectivos e metas como aquele do ‘não aumento de impostos’ a par da admissão de um significativo aumento da ‘carga fiscal’,  como se a dita fosse um resultado de secretaria e não a tradução prática do (enorme) esforço dos contribuintes.

À primeira vista o OE 2015 tem um objectivo fundamental que é o ‘permitir’ encontrar equilíbrios externos (da UE, do FMI e do BCE) e camuflar dissensões politico-eleitorais internas para que esta coligação chegue ao fim do seu mandato. Os autores e mentores deste projecto de Lei tiram meios daqui para os colocar acolá, voltam a remetê-los para o mesmo sítio donde provieram, outros transferem a sua verificação e concretização para 2016, num incessante ‘jogo orçamental’ que faz lembrar empresas ou famílias quando confrontadas com um quadro de insolvência optam por ocultar a realidade e enveredam por engenharias financeiras de sobrevivência cujo desfecho é muito previsível e sempre fatal.

O Orçamento de Estado foi transformado num bacoco instrumento de falsos equilibrismos que tem como única virtude revelar o estretor de uma política de ‘fundamentalismo orçamental’ que, na verdade, vem sendo praticada por este Governo.
 
É cada vez mais visível e evidente o caminho que terá obrigatoriamente de ser adoptado. A ‘renegociação’ ou a ‘reestruturação’ da dívida pública link, que mais parece um problema semântico do que ‘outra coisa', tornou-se um factor central e primordial capaz de influenciar decisivamente as políticas públicas, com inegável rebate orçamental (presente e futuro), é, ainda, a fronteira que, no presente, divide a Esquerda.  
Trata-se, para muitos portugueses, de uma ténue linha divisória que parece – no crítico momento que atravessamos - não ter cabimento continuar a valorizar e muito menos escavar ou aprofundar. Um entendimento urgente sobre este tema fulcral deixando de lado malabarismos semânticos tornou-se imperativo e inadiável e deverá ser a resposta pronta e frontal aos permanentes apelos a pactos e acordos vindos da Direita, com a omnipresente benção da Presidência da República.

A discussão, no Parlamento, da proposta de Lei do OE 2015 poderá (deverá) lançar novas luzes sobre o futuro de um País exausto e exangue, há mais de 3 anos entregue às tropelias deste Governo.
Basta!

Marco António e a luta partidária

Marco António, um epifenómeno da política, é um Maquiavel a nível paroquial, um prócere do PSD que está para a intriga política como a cascavel para os répteis.

O antigo homem de mão de Luís Filipe Meneses e coadjutor de Miguel Relvas é agora o ideólogo do PSD. Sem tino, sem programa e sem futuro, é um atirador furtivo a disparar tiros de chumbo miúdo, na esperança de acertar.

Fala em nome do partido e do Governo, com autoridade. Foi ele que, na sua ignorância política, sujeitou Passos Coelho a recusar o PEC IV que acabara de jurar, de manhã, a renegar a promessa, de tarde, e a derrubar um Governo.

Hoje, na leitura hesitante de quem aprendeu pelo método de silabação antigo, disse que o PS «virou para a extrema-esquerda». Não lhe bastou acusar o PS de virar à esquerda, o mínimo que lhe permite a sua formação na madraça onde incubou o bando que tomou conta do partido e do poder, é acusar o PS de extrema-esquerda.

Com tal consciência política para discernir sobre o espetro politico-partidário português, o mínimo que o PS de extrema-esquerda pode dizer de Marco António é que se trata de um independente de direita, entre Hitler e Pinochet.

Com a ignorância que grassa nesta clique que refocila no pote, até a evolução semântica é uma corrida de obstáculos. Marco António é o paradigma dos primatas em funções.


quinta-feira, outubro 16, 2014

Momento zen de segunda_15_10_2014

João César das Neves (JCN), ao contrário de Batista-Bastos, continua com o púlpito no DN onde as homilias passaram de segunda para quarta-feira. Hesito no título a dar à exegese a que me habituei. Talvez passe para «Momento zen de quarta», mais de acordo com as inanidades que piamente debita.

A homilia de quarta (feira) crismou-a o devoto de «Amputação» e é uma diatribe contra o divórcio, um pecado cujo pensamento lhe liquefaz os miolos e o obriga a apertar dois furos no cilício.

Para condenar o divórcio usa esta deliciosa imagem:  «Tenho problemas respiratórios desde pequeno, com asma, bronquites, etc. Viver com os meus pulmões não é nada fácil, mas nunca me passou pela cabeça andar sem eles». E acrescenta: «Tenho tido problemas com a minha mulher desde que casámos (…) mas haverá alguma razão para eu pensar em viver sem ela»? A única surpresa é o masoquismo da mulher.

Não falou no problema da enxaqueca e da possibilidade de ser tão intolerável que tenha abdicado de viver sem cabeça. JCN usa imagens fortes, mas prescinde da cabeça.

Para JCN, o divórcio é uma aberração e « A aberração torna-se visível se considerarmos qualquer outra época, região ou cultura. Uma breve consulta mostra que (…) o divórcio, a existir, tem estatuto semelhante à amputação de membros». Provavelmente ainda tem os membros todos!

JCN, certamente já confessado e comungado, termina a homilia desta quarta com uma profecia: «O futuro voltará a tratar o casamento como ele realmente é: uma enxertia definitiva na árvore genealógica, onde todos somos apenas ramos, que morrem se cortados do tronco. O futuro lamentará o tempo louco que esqueceu esta verdade essencial e, pela sua desgraça, provou a toda a humanidade essa importância vital».

O homem pensa com os membros todos ou, pelo menos, com os quatro da locomoção.

Religiões e democracia

Todas as religiões se consideram as únicas verdadeiras, tal como o seu deus. Cada uma considera falsas todas as outras e o deus de cada uma delas e, provavelmente, todas têm razão. Os ateus só consideram falsa mais uma religião e um deus mais. Em certa medida todos somos ateus.

E somo-lo, não apenas na aceção grega, em que um ateu era o que acreditava nos deuses de uma cidade diferente, mas também na aceção atual, na descrença num ente superior imaginário, e, ainda, em relação a  Zeus, a Shiva, ao Boi Ápis e à multidão que aguarda, nas páginas da mitologia, os deuses atuais.

No soneto «Divina Comédia», de Antero de Quental, os homens perguntam, com voz triste, «deuses, porque é que nos criastes»? E os deuses respondem, com voz ainda mais triste, «homens, porque é que nos criastes»?

A crença, em si, não é apenas legítima, é um direito que cabe ao Estado laico assegurar. O que assusta é o proselitismo dos que não lhes basta a sua crença e a procuram impor a outros, a violência que usam para agradar ao deus que lhes ensinaram desde a infância ou àquele que os seduziu numa qualquer fase da vida.

Infiéis são os fiéis da concorrência e os descrentes de qualquer fé, e que devem gozar de igual proteção, quer pertençam a uma seita ou religião poderosa. A seita é a religião de minorias e a religião é a seita globalizante. Todas têm direitos e deveres e não se aceita que sejam exoneradas do respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O pluralismo é uma exigência democrática a que nenhum deus devia poder esquivar-se. Há para com os crimes praticados em nome das religiões uma condescendência que não existe para outras associações ou ideologias profanas. Porquê?

O nazismo é reprimido mas o totalitarismo religioso é tolerado. A democracia não deve consentir quem a combata, não pode conformar-se com os vírus que a ameaçam. Não se compreende que uma religião que não aceita as outras nos países onde é dominante e escraviza os que aí vivem, possa gozar de igualdade de direitos nos países que ameaça.

Com que legitimidade se permitem mesquitas aos crentes de uma religião que não aceita igrejas, pagodes, sinagogas ou templos às outras religiões? A Europa, onde se recrutam soldados de um deus cruel e vingativo, continuará a aceitar a divulgação de manuais que apelam à guerra santa e a deixar circular os pregadores que destilam ódio nos sermões e aliciam terroristas para a guerra santa?

O pluralismo, conquistado com a sangrenta Guerra dos Trinta Anos, em Vestefália, não pode ser posto em causa por ideologias que pretendem a exclusividade do mercado da fé e a eliminação da concorrência. Basta de cobardia para com as crenças. Urge resguardar os crentes dos fenómenos racistas detonados pelo medo à sua fé. E o medo existe.

A democracia é incompatível com o totalitarismo pio e belicista que anda à solta.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 15, 2014

A FRASE:

«É [errado] dizer –se que pela via da redução dos lucros da Caixa Geral de Depósitos, os contribuintes podem vir a suportar custos pela resoluções do BES».

(Cavaco Silva, in Forum das Empresas)

O PR não mente, esconde a realidade. E imagina que a CGD vai apresentar lucros).

terça-feira, outubro 14, 2014

Nuno Crato, ministro da Educação e Ciência

Nuno Crato não pode ser apenas um erro crasso, ao nível do Governo a que a vaidade e a decadência ética, o associou. Um professor universitário qualificado que se esmerou a destruir o serviço público, um revolucionário que não precisava de se esforçar a provar o arrependimento, o ilusionista que brinca aos tempos verbais para iludir compromissos, deixou de ser um caso político, é um caso de polícia.

Passos Coelho ou Marco António não tinham habilitações para tão metódica e paciente destruição da credibilidade do ensino público. O ministro da Defesa, eficiente a  destruir as Forças Armadas, não tinha experiência académica que lhe permitisse destruir a vida familiar de professores, impedir os alunos de ter aulas e colocar a normalização escolar nas casas de apostas.

A destruição do ensino público é um objetivo entregue a Nuno Crato cuja competência tem sido insuperável. Com ajudas públicas a escolas privadas e sem atrasos no início do ano letivo, ninguém podia fazer mais pelo descrédito do ensino público e pela punição dos professores que querem servi-lo.

Nuno Crato ficará como ministro vedeta de um Governo que está para o País como a pata de um elefante para uma loja de cristais.


Alguns comentários aos comentários sobre Marinho Pinto

Combater um político que, insinuando-se contra os partidos cria mais um, apontar-lhe as contradições e combatê-lo no plano dos princípios, faz parte do jogo democrático e é um dever de quem se bate por outro partido.

Chamar fascista a um cidadão que foi preso pela Pide, oportunista a quem podia vender o seu prestígio por menos trabalho e maior remuneração, enxovalhar um homem que já deu sobejas provas de coragem, é uma iniquidade.

Há no desvario ético uma tal falta de senso que insinua que Marinho Pinto é um político tão venal como Passos Coelho, tão reacionário como Paulo Portas ou tão faccioso como Cavaco Silva.

Depois admirem-se que a sua votação seja uma surpresa desagradável para quem perdeu a noção das proporções e o sentido da decência.


Luís Marques Mendes e o comentário político

Gosto de Luís Marques Mendes (LMM) porque diz coisas interessantes e verdadeiras e as verdadeiras não costumam ser interessantes e as interessantes não são verdadeiras.

Na TV antecipa os assuntos dos Conselhos de Ministros, engenho de quem tem prévio conhecimento da agenda ou a elabora. Neste caso diz coisas verdadeiras.

Desde que deixou de ser empregado do Sr. Joaquim Coimbra, ex-presidente do PSD e comprometedor patrão, LMM passou a profissional da exegese política com a mesma determinação com que vigiava o alinhamento das notícias na RTP quando a tutelou.

No último número da revista Visão disse coisas só interessantes. Fez o panegírico de Cavaco Silva (CS).

1 – Começou, como acabaria, por elogiá-lo e, numa pergunta retórica sobre o discurso de CS, no 5 de Outubro, escreveu: «O que é que se disse?», isto é, o que disse CS, e cita o PR «Que quem tem muitos anos de poder não pode falar assim, que devia ter criado esperança e não desesperança, que isto, aquilo e aqueloutro» [sic]. CS e LMM referiam-se, com igual cinismo, aos partidos da oposição.

2 – “CS fez um importante discurso sobre o estado de falência do nosso sistema político: perda de qualidade da democracia, desprestígio das instituições (…) e dificuldade de concretizar acordos de regime”. E acrescentou: “CS tem, neste particular, uma especial coerência e autoridade». LMM disse a coisa interessante, mas confundiu o que podia ter sido a autocrítica do mensageiro com a mensagem para incertos.

3 – E terminou no ponto 3, que estou a seguir, com outra afirmação interessante: “CS, com este discurso, contribuiu para estimular» [o que devia ser feito pelos partidos, o contrário do que fazem], isto é, outorgou a CS o diploma de gerador de consensos.

Em relação ao PSD e ao CDS, gera consensos. CS é, de facto, o porta-voz da coligação.
Quanto à oposição é um adversário obstinado. Mas estas conclusões não estão à altura de LMM. A este respeito só faz afirmações interessantes.

segunda-feira, outubro 13, 2014

Perplexidade

Não se percebem as dificuldades ou discordâncias deste Governo para a elaboração do OE-2015, com a encenação pífia, para fins eleitorais, do CDS e do PSD.

Os portugueses sabem que, mal seja aprovado, começa a ser elaborado o orçamento retificativo.

domingo, outubro 12, 2014

OE 2015

A sabatina de 18 horas para a aprovação da proposta de OE 2015 é  - per si - extremamente reveladora do estado a que este Governo de coligação PSD/CDS chegou link.

Mas as ‘surpresas’ não acabam aqui. A tão balada mexida no IRS, segundo as mais recentes informações, ficou-se por uma (aparentemente meritória) intenção. Para já tudo como dantes (Quartel-General em Abrantes!) mas se a economia ‘responder’ satisfatoriamente (situação que nem o oráculo semanal do Governo acredita link) poderão ser distribuídas benesses (migalhas?) aos contribuintes. 
Como pormenor pitoresco é anunciado que tal situação só será efectiva em 2016 (para além do mandato deste Governo) link.

Daqui para diante vão começar as promessas para serem diferidamente (perfidamente?) cumpridas, (em 2016, 17, 18, etc.), mas desde já assumidas. Isto é, tudo o que não foi conseguido ou aquilo que não foi deliberadamente feito pelo actual Governo deverá (ou poderá) acontecer no futuro. Se possível num futuro em que estes senhores estejam longe.

Chama-se a isto processo de intenções ou, mais terra a terra, charlatanice política.

BRASIL - Considerações sobre o anúncio de Marina Silva…



A segunda volta das eleições presidenciais brasileiras entrou numa nova etapa (fase) com o anúncio do apoio da candidatura (derrotada) de Marina Silva ao candidato Aécio Neves link.
Existem, contudo, na declaração proferida por Marina Silva algumas passagens que não se entendem ou são preocupantes.

Marina não declarou o apoio ao candidato do PSDB enquanto ‘cidadã independente brasileira’, como tentou fazer passar na sua proclamação. A ex-canditada concorreu pelo partido PSB e foi nessa condição que expressou a sua decisão.  Muito embora este apoio não seja pacífico no seio do PSB, como demonstra a carta aberta do presidente do partido link, Roberto Amaral, a declaração de Marina Silva parece representar a posição oficial do mesmo. Aliás, qualquer cidadão brasileiro verifica que as questões políticas no seio do PSB estão a ser tratadas por processos muito pouco ortodoxos já que não se entende em que qualidade Marina (pertencente ao movimento ‘Rede Sustentabilidade’) e a família Campos interferem nas questões partidárias. Tudo indica que o PSB ficou refém do ‘grupo pernambucano’ e deixou de ser um partido nacional.

Por outro lado, a ‘rejeição de qualquer interpretação’ (estes foram os termos ultilizados) sobre a ‘carta de intenções’ assumida pelo candidato Aécio Neves, não passa de uma manobra de prestigiação para ocultar negociações prévias link.  Negociações que, como Roberto Amaral revela na sua carta, já contemplam (‘nas ante-salas da sede em Brasília’) a distribuição de pastas ministeriais num futuro e eventual governo de Aécio Neves.

A reorientação da campanha eleitoral na 2ª. volta das presidenciais à volta da sigla ‘todos contra Dilma’ não é um bom prenúncio nem conduzirá a resultados satisfatórios porque não será baseada no esgrimir democrático de projectos e objectivos para o quadriénio 2014-18 mas parece condenada a sucessivas chicanas políticas e eleitorais. 
Escudar-se numa almejada ‘alternância do poder’ só pelas virtudes democráticas da ‘alternância’, sem ter na manga uma alternativa programática e verdadeira é extremamente superficial e frágil. 
Sem subscrever cegamente a acção governativa de Dilma Rousseff que a realidade mostrou ter fracassado em muitos aspectos, será difícil deixar de constatar que, quando a Presidência foi entregue pelos brasileiros ao PT, muito mudou no Brasil e muito poderá ser revertido, por exemplo, por uma governação ultra-liberal.

Certamente que existirão outras e várias alternativas dentro de um quadro de governação de Esquerda. Mas não as que foram anunciadas por Marina a reboque da declaração de compromisso de Aécio.
Por princípio um partido socialista seria uma natural aternativa ao PT, desde que se mantivesse fiel aos princípios ideológicos do socialismo. Marina na declaração de endosso e orientação dos seus votantes para a 2º. volta, bem como Aécio na sua declaração, não tiveram a clareza e abertura suficiente para explicitar que programa têm acerca, por exemplo, do futuro do Banco do Brasil, uma alavanca financeira fundamental para o desenvolvimento País. Os boatos que inundaram a 1ª. volta link sobre uma eventual privatização e submissão aos mercados financeiros continuarão a ser esgrimidos e alimentados.

A Esquerda não deve gerar à sua volta um deserto de alternativas. É salutar que não o faça. Mas existe uma condição essencial e primária: que as alternativas caibam e identifiquem-se com o quadro ideológico onde a Esquerda tem necessária e historicamente de se movimentar.

ZB e o ‘strip-tease’ desnecessário…

 
Vamos abordar a história de Zeinal Bava (ZB) sucintamente. ZB exerceu, desde 1999, diversos cargos na PT tendo assumido a presidência executiva da empresa em 2008 e, nesse cargo desfrutou do reconhecimento da Europa, enquanto gestor de 'sucesso'. 
A 4 de Junho de 2013, na sequência da fusão das empresas (Oi e PT) assumiu a presidência da Oi, em regime cumulativo com as funções na PT. A 7 de Outubro deste ano ZB renunciou ao cargo de presidente da Oi por não conseguir libertar-se de uma outra recente imagem (má gestão) resultante da aplicação de mais de 900 milhões de euros da PT em papéis da Rioforte (GES). Será, deste inglório modo, uma das primeiras vítimas (no 'estrelato da alta gestão') do caso BES/GES.

Ficamos a saber que o ex-gestor auferia um ordenado mensal de cerca de 150 000 euros e despediu-se (ou foi aconselhado a 'renunciar') com uma ‘compensação’ de 36 meses. O que associado a outras alcavalas perfaz a ‘módica’ quantia de 5 milhões de euros link.
ZB tem uma cláusula restritiva no seu contracto de rescisão: não poderá exercer funções em empresas de telecomunicações durante 3 anos. Trata-se de tentar precaver aspectos concorrenciais que dominam o mundo das telecomunicações.

Este o maravilhoso mundo da gestão e dos negócios (dos CEO's) onde as remunerações, participações nos lucros e as indemnizações dos cargos de topo são 'livres', generosas e em regra secretas.  
Todavia, não ficam de fora do escrutínio dos cidadãos. Vivemos todos no mesmo País, estamos (aparentemente) no mesmo barco.
Bem, estamos num País em que a subida do Salário Minímo Nacional em 20 euros demorou tanto tempo e para ter acordo foi ‘compensada’ com uma descida da TSU para as empresas, em que as indemnizações por despedimento desceram para 18 dias por cada ano de trabalho, em que não havendo cláusulas restritivas sobre exercício futuros a perda do posto de trabalho, se tivermos em consideração a idade do ex-gestor, é o desemprego de longa duração (definitivo?).

Sabemos, também, que a existir algum problema (e não existirá) este terá a ver, directamente, com os accionistas da empresa e, indirectamente, com os consumidores de serviços de telecomunicações. É nesta última qualidade que muitos portugueses não deixarão de ficar indignados com as prebendas e sinecuras atribuídas e interrogar-se como esta medida, e outras de igual teor, podem influenciar a factura mensal (dos consumidores).

Há ‘gestos compensatórios’ que só pela sua dimensão e desproporcionalidade entram no domínio da pornografia. E ninguém exige – ou vai exigir - que o ex-gestor faça um ‘strip tease’ (fiscal, entenda-se)…
Os contornos estão à vista e sua a pública exibição virou num espectáculo escandaloso...

António Barreto – o oportunista lusitano

Para António Barreto, António Costa pode perder o partido, ao estar a unir-se a partidos comunistas. "O PS é geneticamente anticomunista e deixar de ser anticomunista e passar a ser amigo ou aliado do comunismo, do Bloco de Esquerda ou do Livre põe problemas seríssimos”, diz ao Dinheiro Vivo.

António Barreto (AB), sociólogo competente, fotógrafo experiente e ex-empregado de um merceeiro, com sede na Holanda, não está preocupado com o PS mas com a direita. Sem o mínimo pudor, esqueceu o apoio expresso a José Sá Fernandes, aliás excelente candidato, nas eleições para a Câmara de Lisboa, quando este, há anos, concorreu pelo Bloco de Esquerda.

Que o sociólogo e político ressentido use o seu prestígio para combater as ideias que já foram suas não é motivo de admiração. AB, apesar da cultura, mantém-se o provinciano que Mário Soares fez ministro da Agricultura e Pescas, com vergonha de ser de direita e sôfrego de tornar-se seu ideólogo como, em tempos, quis ser o do PS.

Barreto foi um dos trânsfugas que permitiram a Sá Carneiro ornamentar a AD (Aliança Democrática) com penas de esquerda. Desde aí nunca mais o abandonou a sedução pela direita. Tem sido tão antissocialista como foi anticomunista na medíocre passagem pelo Governo numa pasta onde caiu como Pilatos no Credo e onde os seus despachos eram revogados pelos Tribunais dado o empenho ideológico com que desafiava as leis então vigentes.

A grande diabrura do omnipresente comentador televisivo foi o alvitre de uma nova Constituição para Portugal, que dispensasse a democracia representativa e fosse votada por referendo. O que parece uma ideia original, felizmente ignorada pela comunicação social e pelos portugueses, o que  prova que o País ainda não ensandeceu de todo, seria a reedição do método salazarista para a Constituição Política de 1933. Só não disse – porque isso ficaria para a ampla discussão popular que preconizava –, se as abstenções voltariam a contar como votos a favor.

Faz pena ver um intelectual de sólida cultura com posições tão reacionárias mas, sempre que a direita está aflita, António Barreto vem em seu socorro. E, quanto à coerência, é a Zita Seabra do PS. Demonstrou-o ontem, mais uma vez, na entrevista ao DN.


A escola, a laicidade e a fé

Dedicatória: A Malala, prémio Nobel da Paz, a quem a doçura do rosto juvenil esconde a afoiteza, e a ânsia do conhecimento se sobrepõe aos preconceitos da fé.

«Abrir uma escola é fechar uma prisão». A frase, atribuída a vários pensadores, teve a calorosa defesa de Vítor Hugo, num discurso inflamado, na Assembleia Constituinte Francesa, em 1848. A instrução que seduziu Malala é o ódio de estimação dos talibãs, que a impedem, sobretudo às mulheres, o alvo dos terroristas que julgam o Paraíso ao alcance da ignorância e como prémio da discriminação de género.

Abrir uma escola laica é uma impossibilidade nos pântanos onde germina o Islão, mas é a única forma de revezar madraças e rejeitar mesquitas, ainda que os trogloditas de Alá continuem a gritar que Deus é grande e Maomé o seu profeta. As democracias não são confessionais.

Hoje, um jornalista escreveu que a Turquia é o único país islâmico democrático. Não há democracias muçulmanas, cristãs, judaicas ou hindus. As democracias adjetivadas não o são. A Turquia é uma democracia porque é laico o país. Está em risco com o presidente, Erdogan, que se esforça na reislamização. Prefere um Estado Islâmico, com riscos para si próprio, a um Estado curdo na fronteira da Turquia.

Um Estado confessional não é democrático. Veja-se o Vaticano ou o Estado monástico do Monte Atos, autónomo da Grécia, a título de exemplo. São teocracias.

O ensino, tal como a ciência, não podem ser tutelados pela teologia, a exótica «ciência» sem método nem objeto. Não pode preparar almas para a morte, deve conduzir pessoas  para a vida e ter como objetivo a felicidade humana e a autodeterminação individual.

Que muitas Malalas floresçam no pântano da boçalidade medieval dos dementes da fé e que as sementes da sabedoria frutifiquem em mulheres que arrasem os valores tribais de sociedades patriarcais onde a mulher continua a nascer com pecado original, vítima dos preconceitos ancestrais e da vontade divina interpretada por facínoras.


sábado, outubro 11, 2014

Boa tarde, camaradas

 De (...), saúdo os camaradas que, faz hoje 47 anos, embarcaram no Vera Cruz, num doloroso afastamento da Pátria e das famílias, para amargarmos em Malapísia e no Catur a tragédia da guerra, injusta e inútil, a que a ditadura nos condenou.

Foi no Cais de Alcântara, com as lágrimas e a raiva dos que ficaram e dos que partimos, que começaram a forjar-se os laços que tornariam os homens de Malapísia e do Catur a família que fomos e seremos enquanto a vida nos deixar. Hoje, estes almoços deixariam de ter sentido se os homens que integraram as duas Companhias do Bcaç. 1936 viessem a separar-se. Seria uma família desavinda num tempo em que tudo serve para desunir o que a história e os afetos ligaram. Não sucederá.

Saúdo as famílias dos que se estão nesse almoço, dos que não puderam ir e, sobretudo, a dos que já não voltam. Agradeço a dedicação do Barros, do Torres e do Lopes que, ano após ano, tornam possível a repetição deste convívio anual.

A minha falta é mínima para quem tem tantos companheiros à sua volta, mas, para mim, é enorme, porque todos me faltais. E à falta insuperável da vossa presença, dos braços que cada ano me abraçaram, dos sorrisos de alegria que me acolheram, sinto convosco a dor dos que nos deixaram, dos que todos os anos vieram enquanto viveram.

Para esses vai a minha eterna saudade. Omito-lhes os nomes mas jamais os esquecerei. Guardo comigo a lembrança dos bons e maus momentos vividos em Malapísia e no Catur e os excelentes momentos de todos os reencontros anuais.

Prometo que este será o último dos anos que ainda tiver em que não estou fisicamente convosco. De resto, foi em vós que pensei durante a noite e sois vós que preencheis os meus pensamentos no dia de hoje. Só quem viveu o que nós vivemos e sofreu o que nós sofremos, compreende a dimensão desta saudade que hoje me persegue.

Para vós, queridos amigos e camaradas, para as vossas famílias, para essa minha família alargada, vai o mais caloroso abraço, a mais viva recordação e a enorme mágoa que sinto da vossa ausência.

Até para o ano!

Carlos Esperança