quarta-feira, dezembro 31, 2014

2015 e a Batalha de Kobani: os curdos, os fundamentalistas islâmicos e os ‘instintos’ ocidentais…

(Imagem da Batalha de Kobani)

Hoje, com o Mundo em trânsito para um Ano Novo, longe dos lares onde festejamos para desejar um melhor provir, uma comunidade curda, na área de transição entre o Médio Oriente e a Europa, tem outra ‘ocupação’. Luta pela defesa sua cidade – Kobani, no Curdistão sírio.
Num mundo conturbado por conflitos regionais e locais e inundado por 'tacticismos' que pretendem escamotear hipocrisias e interesses, os curdos estão a lutar heroicamente contra o Estado Islâmico (porque este é o inimigo do momento).
Ou melhor, mais do que heróis voltam a ser mártires.

A resistência nessa pequena cidade curda (encravada na Síria) desempenha um importante capítulo da sobrevivência dos curdos enquanto povo perseguido e ostracizado pela comunidade internacional.
 
No meio deste infortúnio os curdos são a ‘carne para canhão’ para um Ocidente que decidiu colaborar sem ‘assentar as botas no terreno’. E são também, numa visão de proximidade, o braço escondido de uma Turquia, cheia de contradições internas, onde o secularismo fenece diariamente sob a senda de uma islamização galopante, o tampão da expansão para Ocidente do Estado Islâmico. 

Na Turquia, onde reside actualmente a maior comunidade curda, depois de incessantes diásporas e, fundamentalmente, de sanguinárias e exterminadoras perseguições que há poucos anos sofreram no Iraque (ainda) de Saddam Hussein, joga-se vários destinos em simultâneo. A criação de um Estado Curdo decorrente da contenção de um novo califado que os subjugaria como fez o otomano durante séculos. São, no presente, o maior grupo étnico mundiam que não usufrui de um Estado. 

O ‘Curdistão’ (existirão hoje vários ‘Curdistões’), existiu com alguma autonomia até ao século XVII e sempre teve uma vida atribulada.
Integrados politicamente, mas não subjugados culturalmente, pelo Império Otomano, viriam a ser vítimas das partilhas decididas pelos vencedores decorrentes da I e II Guerras Mundiais. A ‘República de Ararate’ (1927-28), brutalmente esmagada pela Turquia, terá sido a primeira manifestação independentista surgida na sequência do fim do Império Otomano, i. e., da I Guerra Mundial. Em 1946, no Irão, e já na sequência do segundo conflito mundial, a efémera ‘República de Mahabad’, traduz o início da chamada ‘Guerra Fria’, de que terá sido uma das suas primeiras vítimas. 

Em kobani pequena cidade localizada na fronteira entre a Síria e a Turquia está a verificar-se um fenómeno que não deixará de ter consequências futuras, nomeadamente, em relação às aspirações do povo curdo à sua independência. O derrubar de velhas quesílias internas entre curdos, agora unidos contra a ameaça do Estado islâmico, bem como facto de serem no Médio Oriente – apesar de muçulmanos sunitas - a única oposição operacional e fiável a lutar contra o Daesh, terá necessariamente, e no futuro próximo, um preço. E como os curdos põem acima da sua religião a necessidade de uma Pátria é fácil de adivinhar qual será esse ‘preço’.
Por outro lado, grande parte das riquezas petrolíferas do Iraque estão sediadas em territórios da área ‘residente’ curda e esse será o grande apetite do Estado Islâmico, para financiamento da sua mortifera ‘cruzada’ pelo Levante. O desígnio de ser um Estado independente faz com os curdos se oponham terminantemente ao confisco das suas riquezas. Será essa uma das evidentes premissas quanto à fiabilidade da sua luta de resistência. 

Kobani é, em 2014, um marco no contexto do Médio Oriente e da situação mundial. Os curdos protegem o petróleo porque é um bem que lhes pertence.
Os ‘outros’ que publicamente 'choram' o massacre de Kobani buscam o quê?
Com toda a certeza o mesmo petróleo mas com outros ‘instintos’…

O ano de 2015 revelará como é, como poderia ser ou, então, como não foi.

NÚMEROS

«280.557 MILHÕES
– Dívida pública real imparável –

Há uma dívida pública oficial, que ronda os 225.175 milhões de euros em outubro (129% do PIB), mas depois há a outra, cerca de 45,5 mil milhões devidos pelo universo das empresas públicas. Um problema grave à luz do pacto europeu».  (in DN – 29-12-2014)

Perguntas:
- Quem acredita no cumprimento do pacto?
- O que pretendem os que fingem que acreditam, credores e devedores?


Notas Soltas - dezembro de 2014

1.º de Dezembro – Só a incultura e ausência de patriotismo poderiam ter eliminado esta data identitária do calendário dos feriados. Voltará, após o ausência dos que ignoraram a História e os sentimentos dos portugueses.

Ramalho Eanes – O ex-PR, que exerceu bem o cargo, para que não fora preparado, deu uma entrevista à RTP onde, com a sua indiscutível seriedade, se distanciou do atual PR, que pretende manter o Governo indiferente ao calendário do OE-2015.

Mário Soares – Nunca um homem com tantos defeitos foi tão grande. Culto, corajoso e cosmopolita, é a grande referência desta segunda República. O degredo e as prisões não quebraram o ânimo de quem, aos 90 anos, conserva invejáveis a lucidez e a coragem.

CIA – Com anos de atraso, conhecemos sevícias, violência e gratuita prática de crimes que a lei internacional e a consciência humana repudiam. O mais poderoso país terá de redimir-se dos exemplos que o envergonham.

EUA – A pena de morte não é apenas uma injustiça e crime legalizado por Estados que exoneram a humanismo do seu Código Penal, é uma atrocidade que se torna dramática quando se descobrem os erros judiciários que levaram à condenação de inocentes.

BES – A falência do GES/BES arruinou a economia, o prestígio do País, a confiança na banca e a honestidade dos políticos que, à sua sombra e com o seu dinheiro, construíram as suas carreiras. Assiste-se ao melancólico ocaso das figuras emblemáticas do regime.

CML – O voto contra a atribuição da Chave de Honra da cidade de Lisboa a Mário Soares, o maior vulto da 2.ª República, pelo solitário vereador do CDS, revela a matriz reacionária do único partido português que retirou da sede a foto do seu fundador.

Nigéria – O rapto de meninas cristãs por bandos islâmicos que as reduzem à escravidão é uma prática recorrente na zona do Sahel, onde o protestantismo evangélico e o Islão se digladiam num proselitismo que exacerba a nocividade e perigosidade das religiões.

Paquistão – Para os que condenam a descolonização portuguesa, eis o exemplo de um país que não passa de uma sigla unida pelo Corão, isolado pelo tribalismo e palco da violência sectária que escolhe crianças das escolas como alvo do terrorismo.

Cuba – O fim do boicote americano foi a decisão cuja demora não beneficiou os EUA e lesou gravemente a vida dos cubanos e a abertura do regime. Parabéns a Raul Castro e a Obama, cujo humanismo superou a vingança, e ao apoio interessado do Papa Francisco.

Vítor Crespo – Partiu o herói de Abril e alto-comissário que presidiu à transferência de poderes para Moçambique. O País recorda-o mas o PR e PM, ausentes do funeral, não se fizeram representar, nem apresentaram pêsames à família. Ingratidão ou vingança?


Violência doméstica – Em 2014, foram assassinadas 40 mulheres pelos maridos, o que coloca Portugal numa posição indigna que obriga os portugueses a olhar para os dramas silenciosos que o empobrecimento multiplica.

PR – A Mensagem de Natal foi feita a duas vozes, com Cavaco e a Esposa a alternarem na alocução. A surpresa não pôs em causa o carácter unipessoal do órgão de soberania. A eleição de uma mulher para o cargo terminará com a exótica figura de primeira-dama.

Vaticano – A chegada de Francisco não altera o que cada um pensa da religião católica mas foi saudável a chegada de um jesuíta, em contraste com dois antecessores ligados ao Opus Dei. Corajoso na luta travada, merece vencer e sobreviver.

Sonny – O cancelamento da exibição do filme «Uma entrevista de loucos», sob ameaça de terrorismo contra as salas de cinema e clientes, é uma cedência indigna à chantagem, abdicando de uma das maiores conquistas civilizacionais, o direito à livre expressão.

TAP – Não se pode confundir a greve patriótica de vários sindicatos, na defesa de uma empresa estratégica, com o apetite dos pilotos que, há muito, pretendem apropriar-se de ações gratuitas, num estranho mimetismo com governantes e banqueiros.

Ébola – A morte de 7518 pessoas, dos 19.340 casos de infetados, no ano que findou, na África Ocidental devia fazer morrer de vergonha e remorso os países ricos, que ignoram os dramas silenciosos do continente mais martirizado pela fome, epidemias e tiranos.

Fracking – A técnica para transformar em energia o gás de xisto nos EUA produz nova ameaça ecológica, a descida violenta do preço dos combustíveis, com problemas sociais graves na Rússia, Brasil e Venezuela. Portugal, nem assim, conseguirá reduzir a dívida.

Comissão Europeia – O primeiro relatório sobre a economia portuguesa após a partida da Troika não foi mera apreciação técnica, é a humilhante ingerência interna, perante o silêncio cobarde de quem, não podendo fazer pior, nem sequer defende a honra do País.

António Guterres – A notável entrevista ao Público é exemplo de carácter, inteligência e cultura de que só um homem de exceção é capaz. Deviam empalidecer de vergonha os que, não tendo a sua envergadura, podiam esforçar-se por imitá-lo na generosidade.

Madeira – A sucessão de A. J. Jardim conduziu à derrota do autocrata e demagogo que, durante 40 anos, fez da Região uma coutada e da democracia um simulacro, apoiado na gestão ruinosa, na rede de cumplicidades e no endividamento irresponsável.

Ilhas Selvagens – A ambição sobre as águas territoriais, ricas em gás, levou a Espanha a solicitar à ONU a respetiva soberania. Nesta altura precisávamos de um Governo, um PR e um MNE decididos e com prestígio para defenderem os interesses nacionais.

terça-feira, dezembro 30, 2014

Grécia

Durante cinco anos a União Europeia lançou o pânico e a miséria nas famílias gregas. Agora, pelo menos até 25 de janeiro, a democracia grega apavora a Europa. O partido Syriza, liderado por Tsypras, não é desejado pela Sr.ª Merkel e, talvez por isso, seja o favorito.

Espero que a UE não tenham um coronel à espera de corrigir a democracia porque caminha pelo lado errado do capitalismo liberal.

Estes biltres ultraliberais são vingativos e os únicos valores que respeitam são os que se guardam nos cofres de um banco ou se evadem para um offshore.


A entrevista de Guterres ao Público


A entrevista ao Público é um exemplo de carácter, inteligência e cultura de que só um homem solidário e generoso é capaz. Qualquer comparação é ofensiva para o grande vulto desta segunda República e personalidade de dimensão internacional.

A entrevista de um homem de carácter.

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Madeira: a sucessão e o provável dilúvio…


Alberto João Jardim (AJJ) permaneceu quase 4 decénios na presidência do Governo Regional da Madeira e como líder do PSD/Madeira.
Retira-se envolvido em acusações de despesismo, como ‘pai’ de uma enorme dívida para a Região e com a ameaça ao seu ‘reinado’ que foram os resultados das últimas eleições autárquicas.

Ao fim desta longuíssima permanência no comando do PSD/Madeira seria natural que tivesse preparado e indiciado um sucessor. Preferiu dividir para reinar sem incómodos (oposições). E, neste momento, o eleito é alguém que pertenceu ao seu restrito círculo mas que saíu desse núcleo zangado e desiludido. 

Miguel Albuquerque foi presidente da Câmara do Funchal tendo abandonado este cargo na qualidade de ‘dinossauro ineligível’. O novo líder do PSD/Madeira quererá distanciar-se do consulado de Alberto João Jardim, dentro da velha tradição do PSD de se renovar das cinzas (uma Fenix partidária). 

A herança é pesada porque deriva dos métodos caciqueiros de exercício do poder na Região e ainda de uma enorme teia de interesses (aparentemente corporizada por Jaime Ramos que sofreu uma humilhante derrota na 1ª. volta) da qual Miguel Albuquerque não estaria tão distante como parecerá.
Na verdade, o espólio político que AJJ deixa na Madeira não passa de um presente envenenado. A sua saída tem fortes possibilidades de dar origem a um período conturbado e confuso para a Madeira. A presente eleição de Miguel Albuquerque não é clarificadora para a Madeira, nem sequer para o PSD/Madeira.  

A passagem de AJJ pelo PSD regional e pelo Governo da Madeira sugere uma profecia de Luís XV ou de Madame Pompadour: ‘après moi le déluge’ (depois de mim, o dilúvio). 
O que na altura demorou 2 décadas a concretizar-se (Revolução Francesa) poderá ‘acontecer’, na Madeira, em 2 semanas. AJJ abandona os cargos a 12 de Janeiro!

A UE e o novo desafio grego…

A Grécia está obrigada, após o insucesso de uma 3ª votação para a eleição presidencial, a fazer um interregno no negro e difícil ciclo de resgate financeiro para ir a eleições e clarificar as suas políticas.

É cedo para anunciar vencedores e vencidos mas a campanha-relâmpago que vai iniciar-se trará obrigatoriamente para o terreno a discussão sobre o modelo e os resultados de uma intervenção externa sobre um País, um povo e uma sociedade. Esperemos que o terror (da dívida), os medos (das incertezas e da bancarrota) e as chantagens (dos mercados) sejam arredados dessa discussão.

Finalmente, as severas políticas de austeridade vão ser julgadas nas urnas depois de terem sido, anos a fio, impostas por sucessivos Conselhos Europeus, onde os Países mais débeis e periféricos pouca ou nenhuma voz têm.

Cometeram-se, na Europa, desde o início do presente século clamorosos erros políticos, económicos e financeiros que colocaram importantes e decisivos desafios aos Países europeus oriundos de uma profunda crise financeira e bancária internacional.

A resposta não tem apresentado, contudo, esta abrangência, nem existiu preocupação em preservar os equilíbrios necessários que cedo se revelarão indispensáveis.
Foi sobretudo uma resposta política com preocupações orçamentais, eminentemente ideológica e com enormes repercussões sociais. A vertente financeira primeira responsável pela ‘crise’, manteve-se, até agora, fora do burburinho e rebuliço. A componente económica arcou com falências em série e sofreu uma espécie de desordenado 'expurgo', que fez disparar o desemprego.
Procedeu-se a um brutal ajustamento orçamental gerador de uma prolongada recessão económica com todo o cortejo de consequências e acima de tudo destruidora da coesão social. Esta espúria ‘aliança’ austeridade/recessão não passará impune no acto eleitoral que se anuncia.

Todavia, perante estes factos, a cúpula dirigente europeia tem sido monocórdica (dominada pelo 'eixo Berlim/Frankfurt/Bruxelas'), não conseguindo coordenar-se internamente para pensar o presente e decidir o futuro fora dos grilhões dos mercados (quer por motivações ideológicas, quer por submissão a obscuras estratégias de globalização), dificilmente consegue traduzir ou concertar-se com a diversidade económica, financeira, social e cultural existente no velho Continente.
A Europa deixou morrer a sua criatividade (comunitária e reformista) que, no passado recente, a guindou à situação de parceira na liderança política, económica e social do Mundo, deixando sucumbir o projecto comum em construção (associativo, federal ou unionista, à escolha), por rígidas políticas fiscais ditadas pelos insondáveis mercados, pela cegueira de uma feroz competitividade a ser erguida à custa do desmembramento do bem-estar e coesão social e pelas infindáveis peias burocráticas (não isentas de conteúdos ideológicos) emanadas da Comissão sediada em Bruxelas.
Todo este processo foi sendo desenvolvido por um círculo muito restrito de decisores - onde as vozes dissonantes foram sistematicamente abafadas - acantonados num Conselho Europeu pouco ágil, comprometido e nada criativo. Este 'desconcerto' é hoje bem visível.
No ‘quadro comum europeu’ só as eleições para o Parlamento Europeu (despojado de poderes executivos ou do seu efectivo controlo) vieram esporadicamente dar um ténue e pouco clarificador ‘ar da sua graça’, infelizmente, sem consequências.

As reacções nacionais obtidas por escrutínio democrático e eleitoral, como as que se verificaram em França, ou de modo orgânico na Itália, foram rapidamente anuladas e subjugadas.
No presente, a crise grega surge como uma situação nova, carregando um carácter plebiscitário que ultrapassa as suas fronteiras.
Trata-se de um País sujeito a uma drástica intervenção, sob os auspícios da cúpula dirigente europeia, associada a organismos financeiros internacionais, com vista a solucionar uma dramática situação interna próxima do incumprimento (do default), em nome da preservação da ‘unidade e integração europeia’ e, através de uma receita apresentada como ‘resgatadora’, muito próxima de uma severa punição.

Ao fim de mais de 4 anos de intervenção e de muitos precalços os resultados vão ser avaliados pelos cidadãos.
A actual ‘crise grega’ será, em primeiro lugar, um escrutínio nacional sobre o conturbado resgate, embora o reflexo na União não possa, nem deva, ser escamoteado.
Estamos, portanto, perante uma avaliação (democrática e nacional) que tem sido permanentemente evitada ou postergada pela clique dirigente europeia.

Não será mais possível à UE, e à Euro Zona, continuar a responder à crise como tem feito até aqui. As transferências de capitais da periferia para os países europeus mais desenvolvidos, sob ameaça dos mercados manipulados pelos ditos ‘credores’, para além de ser o sustentáculo de superavits orçamentais para alguns (poucos), transformou-se num caudal de aberrações e iniquidades, com pretensões de durabilidade a médio e longo prazo que não são compatíveis com o mais moderado (ou federado) conceito de soberania e mais não fizeram do que cavar mais fundo os problemas (que existiam à partida e continuam a existir).

Ao fim de 4 anos de intervenção financeira dura e rigorosa já era tempo de (co)existirem mudanças significativas na economia e alterações na inaceitável taxa de desemprego, que nem o mais crente e afoito europeísta vislumbra.

A intervenção externa foi pomposamente denominada de ‘Plano de Assistência Económica e Financeira’. 
Hoje, é notório para a Grécia, e para a toda a Europa do Sul, que estamos circunscritos a medidas financeiras e fiscais traduzidas pela rigidez do Pacto Orçamental (arvorada em 'regra de ouro') e que a Economia continua a não ter estímulos que a façam mexer e crescer. Ficamos prisioneiros de um conceito que ninguém lhe reconhece virtudes intrínsecas e continua infrutífero: a ‘austeridade criadora’.
Pelo contrário, a austeridade, os sacrifícios e o empobrecimento cansaram e perderam o sentido perante o depauperar da Economia, o aumento do desemprego e o galopante empobrecimento.
Os equilíbrios que geraram a UE ameaçam romper-se. As eleições gregas podem ser o agente detonador, sem que existam mecanismos moderadores e controladores de uma anunciada ‘explosão’.

Esta a nova fase da política europeia que sendo aparentemente um assunto interno vai, ao fim e ao cabo, pronunciar-se sobre duas questões bastantes lineares mas sumamente importantes de âmbito europeu: as receitas actuais e o futuro (da Grécia e da UE).

Existe uma outra hipótese, mais macabra, que não deve ser excluída. As eleições para o parlamento grego poderão revelar uma Grécia ingovernável e conduzirem a uma implosão do regime democrático. Essa seria uma outra derrota para a Grécia e para toda a Europa, talvez a mais grave de todas, porque acarretaria consequências e rebates imprevisíveis.
A verificar-se essa tragédia poderíamos ter a certeza que os equilíbrios necessários e fundamentais para a existência (ou persistência) da UE terão irremediavelmente desaparecido.


Homenagem ao almirante Vítor Crespo por Martins Guerreiro

Vítor Crespo, um herói de Abril e um cidadão exemplar

Há quem não merecendo a Pátria que lhe coube sinta sobejar-lhe o desprezo que os compatriotas lhe devotam.

Num país em que o PR e o PM ignoraram a morte do almirante Vítor Crespo, sintamo-nos redimidos pela homenagem que lhe prestou o seu camarada Martins Guerreiro.

DESPEDIDA  /  ÚLTIMA VIAGEM

– Homenagem de Martins Guerreiro ao seu camarada almirante Vítor Crespo –

«O Almirante Vítor Crespo partiu para a viagem sem regresso.

Navega agora por outros mares deixando-nos uma esteira luminosa que nos ajudará a escolher o rumo certo e  será uma referência para os vindouros.

Nos anos 70 Vitor Crespo foi para nós, jovens oficiais da Armada, o camarada mais antigo, o comandante que respeitámos, mesmo quando dele discordámos. A sua coragem e determinação foram da maior importância para a participação da Marinha no 25 de Abril.

Oficial de Marinha "até à raiz dos cabelos", militar íntegro, cidadão de corpo inteiro, republicano exemplar, capitão da liberdade e da dignidade, construtor da paz entre o povo português e os povos africanos.

Honrou a Marinha, dignificou as Forças Armadas, serviu o País com denodo e valentia.

Homem de grande sensibilidade humana, artística e cultural, surpreendeu-me por vezes com a profundidade dos seus conhecimentos científicos nos ramos da mecânica e da matemática.

Era cativante a sua ternura pelas filhas nos tempos em que nos conhecemos e mais recentemente pelos netos.
Vítor Crespo foi dos que sem qualquer hesitação tudo arriscou para que Portugal fosse um País livre e respeitado entre os países livres.

Vítor Crespo foi dos que fizeram História. É um dos homens que por obras valorosas da Lei da Vida se foi libertando  .
O seu exemplo de vida perdurará para além da areia dos dias e da pequenez dos governantes, que o são exactamente porque houve homens como Vítor Crespo que tudo arriscaram e deram sem nada pedir.

O Almirante Vítor Crespo cumpriu com distinção a sua parte do lema da Marinha -"A Pátria honrai que a Pátria vos contempla" -
Se quem nos representa no âmbito político e no plano simbólico não está à altura de cumprir a outra parte, não diminui o seu exemplo de bem servir a Pátria e a sua grande dimensão de homem, de cidadão e de militar.

Obrigado Almirante Vítor Crespo, obrigado companheiro.

Ditosa Marinha que tal filho teve.

Continuaremos a luta por um País livre e digno.

Agora a vigília é nossa!»

a)      Martins Guerreiro


domingo, dezembro 28, 2014

Os monoteísmos e a violência

As religiões provaram ao longo dos séculos a sua nocividade e falsidade, sobrevivendo através dos interesses instalados e de constrangimentos provocados. Os sistemas criados mantêm os povos na sujeição do clero e a intoxicação começa à nascença.

Os monoteísmos distinguiram-se pela sua intolerância e inquinaram as sociedades onde se consolidaram. Nem a modernidade os conseguiu implodir. De um livro da Idade do Bronze, o Antigo Testamento, de matriz hebraica, surgiu o judaísmo cujos seguidores residuais (cerca de 18 milhões) ainda creem na Conservatória do Registo Celeste, onde estará guardada a escritura que lhes garante direitos imprescritíveis sobre a Palestina.

Paulo de Tarso fez a única cisão bem conseguida do judaísmo, criando a primeira seita de vocação global, que o Imperador Constantino imporia com inaudita violência como a religião do Império Romano, a que serviu de cimento.

O catolicismo romano só viria a reconhecer a liberdade religiosa na década de sessenta do século XX, durante o Concílio Vaticano II. Nem o Renascimento, o Iluminismo e a Revolução Francesa o conseguiram vergar.

No entanto, o mais implacável dos monoteísmos, o Islamismo, fez da cópia grosseira do cristianismo com laivos de judaísmo, um inflexível é totalitário código de conduta que se agrava com a decadência da civilização árabe mas mantém, no seu primarismo dos 5 pilares, um poder de sedução a que não são alheios radicalismos em certas idades e em várias fases da adolescência de indivíduos que vivem à margem dos valores humanistas que a Europa herdou do Iluminismo e da Revolução Francesa.

Se as democracias continuarem a abdicar da laicidade, única forma de conter o carácter prosélito dos dois últimos monoteísmos, em especial o Islão, ficam desarmadas contra os surtos terroristas de superstições à escala global, que se reclamam da vontade divina para imporem aos outros o que só têm direito de usar como crença doméstica.

O proselitismo é a mais nefasta nódoa das crenças e a laicidade o único antídoto para o conter.

sábado, dezembro 27, 2014

Entrevista de Guilherme Silva ao DN

O emissário e cúmplice de Alberto João Jardim deu hoje uma entrevista de duas páginas ao DN (pág. 4 e 5), num misto de agradecimento ao benfeitor e explorador de um lugar para o reformado madeirense, com  o fígado e o prestígio finalmente desfeitos.

Guilherme Silva (GS) é o bombeiro de serviço da Região Autónoma e uma espécie de veículo limpa-neves a tentar desimpedir o caminho para um ofício para o protetor de longa data.

Quando afirma que  AJJ «tem capacidade para qualquer cargo do Estado», não faz uma afirmação gratuita, é uma encomenda bem paga com o estipêndio mensal de consultor do Governo Regional da Madeira, antiga sinecura que o amigo pratica generosamente com os dinheiros públicos.

Aliás, se Passos Coelho serve de bitola, Jardim podia ocupar qualquer cargo sem fazer pior figura. Quando se tem no partido um tal exemplo é fácil adivinhar qualidades.

Só um homem tão dedicado ao trabalho, como Alberto João Jardim à poncha, consegue, aos 71 anos, ser vice-presidente da AR, Consultor do BPI, Consultar do Governo Reg. da Madeira, panegirista de serviço do amo e, ainda ter tempo, para ser advogado.

Os fenómenos do Entroncamento acontecem hoje na Madeira.


sexta-feira, dezembro 26, 2014

Breve remoque ao Sr. Primeiro-ministro nesta quadra e para além dela…

Tive sérias dúvidas no encaminhamento e denominação a dar a este remoque. Trata-se como uma legitima reacção (de indignação e de enfado) às tradicionais 'lengas-lengas mensageiras’ que infestam este período. Hesitei quanto à formalidade de este ser dirigida ao cargo institucional que (ainda) exerce, ao chefe de um partido ou ao cidadão Pedro. Se, na verdade, o último endereço possibilitaria um maior desbrago e abertura das minhas opiniões e posições permitindo o recurso ao coloquial ‘tu cá-tu lá’ é certo e sabido que o cerne das questões que informam esta forma de expressão deverá ser, objectivamente, o exercício institucional.
Esta confusão instalou-se porque ninguém percebeu em que qualidade falou o mensageiro Pedro Passos Coelho. Se enquanto primeiro-ministro, se no papel de presidente do PSD, se enquanto cidadão nacional. Esta ‘mistura’ é reveladora do ponto a que chegamos da promiscuidade político-partidária.

A frase-chave da mensagem natalícia é um lancinante apelo: “Não queremos deitar tudo a perderlink.

Certamente que esta catilinária não pretende ser direccionada à generalidade dos portugueses. Já estamos a falar de ‘perdas’, seria bom olhar para aqueles que mais perderam. E não esquecer também aqueles que já tendo perdido muito, muitos deles o essencial para continua a ter dignidade (humana) vivem no espectro de continuar a perder ainda mais (e não são poucos).
Esta a ‘negritude das nuvens’ que foram alegoricamente esbatidas na pintura da mensagem mas que anunciam ‘borrasca’.

Falar do colapso do BES para continuar a ignorar, ou encobrir, olimpicamente, o seu rebate no sistema financeiro e na economia nacional ou passar ao lado do pesadelo que representa o ‘Pacto Orçamental’ é, literalmente, enganar os portugueses. Ambas estas situações – uma interna e outra europeia – condicionam o nosso futuro de maneira determinante. A primeira faz com que os resultados do exercício orçamental (em termos de défice, p. exº.) sejam mais uma maquilhagem (como tantas outras que as contas públicas tem sido objecto) e a segunda uma imposição ditada por Berlim é, na sua rigidez e cegueira, um garrote nos condiciona o desenvolvimento (e não só o crescimento económico) e nos arrasta, inexoravelmente, para um empobrecimento progressivo e destruidor.

De reter que a expressão “não queremos deitar tudo a perder” nunca poderá ser entendida como um mensagem de esperança ou de futuro. É não entender que a sociedade portuguesa está sedenta de 'mudança'.
Em primeiro lugar, a expressão do primeiro-ministro não passa de um slogan partidário assente na visão neoliberal deste Governo e revela antecipadamente a bandeira com que a actual maioria pretende apresentar-se ao eleitorado. Lamentável, que o primeiro-ministro teça e dirija ao País uma mensagem assente em propaganda partidária.
Finalmente, é justo que os portugueses anseiem pela reversão de um doloroso e vergonhoso empobrecimento que nos fez regredir decénios (política, social e civilizacionalmente). E é esta reversão que só não acontecerá se não tivermos a força de deitar muita coisa ‘conseguida’, nos últimos 4 anos, pelos indignos mensageiros, numa implacável, consciente e desejável 'rota de perdição' …

Propaganda eleitoral

«Este será o primeiro Natal desde há muitos anos em que os portugueses não terão a acumulação de nuvens negras no seu  horizonte. Houve muita coisa que mudou».

(Mensagem de Natal de Pedro Passos Coelho, ajudante de meteorologista, no tempo de antena do PSD)


O Governo, a TAP e o País

A obsessão ideológica deste Governo, com notário privativo e devoto na pessoa do PR, jamais visou o interesse público. A privatização da EDP e dos CTT mostraram como os interesses do País e dos trabalhadores foram exonerados dos planos de alienação.

Podia referir-se a Galp, a ANA e outras empresas públicas que, por inépcia ou maldade, nos arrastam num infindável 11 de março de 1975, de sinal contrário e piores desígnios, onde não houve um módico de patriotismo ou ponderação de interesses estratégicos.

A pressa da alienação da TAP precipitou os sindicatos numa greve justa cuja data pode ter sido infeliz e beneficiado um Governo cuja exibição de força acabou por jogar a seu favor, mas a defesa do interesse nacional foi notória na maioria dos sindicatos.

O Governo odeia a CRP e quaisquer direitos aí consagrados, julgando que a eleição lhe permite desmantelar o Estado nos quatro anos em que, um dia saber-se-á porquê, o PSD conseguiu manter reféns o PR e o CDS.

A venda da TAP, sobretudo com a displicência e pressa com que o Governo pretende, representa para o turismo nacional, uma das poucas atividades que resistem, um golpe de consequências imprevisíveis. Não sei se esta é a vingança contra o País por quem não digere a independência dos que consideravam seus.

Nesta tragédia há um sindicato que merece profunda execração, sindicato que, aliás, foi responsável, no passado, pela deterioração financeira na TAP com exigências obscenas de vencimentos e regalias, chegando ao dislate da reclamação, não satisfeita, de isenção de impostos, para os pilotos.

Juntamente com administrações incapazes, os pilotos, beneficiando dos conhecimentos adquiridos na TAP e com um mercado de trabalho generoso à escala planetária, nunca pautaram as reivindicações pelos interesses e sustentabilidade da Empresa.

Desta vez, o Sindicato dos Pilotos começou por anunciar uma greve contra a intenção da privatização da TAP,  para depois desaprovar as negociações dos outros sindicatos com o Governo e, finalmente, opor-se à requisição civil do Governo se, na privatização a que deixam de opor-se, parte das ações da TAP lhes sejam oferecidas gratuitamente.

Eis uma eloquente diferença entre trabalhadores e mercenários.

Ponte Europa / Sorumbático

quinta-feira, dezembro 25, 2014

Um inoportuno mensageiro...

O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, é um político da 'velha guarda' que tem navegado entre as 'gaffes' (algumas graves) e a mediania das prestações. Resolveu, tardiamente, intrometer-se na política.

Aparece, através da Lusa, a endereçar uma mensagem de Natal - aparentemente sem destinatário definido - onde apela à "classe política para que garanta o 'escrupuloso respeito pelos sacrifícios feitos pelos portugueses' no 'caminho de consolidação' que o país tem "pela frente".

Ninguém lhe reconhece autoridade, quer institucional, quer ao nível partidário, para pisar os terrenos (armadilhados) por onde resolveu deambular. O tema dos 'sacrifícios que valeram a pena' é demasiado pantanoso (e 'eleiçoeiro') para ser invocado ao desbarato.

Na realidade, o reconhecimento da existência de pesados sacrifícios por parte dos portugueses para superar os problemas levantados pela resposta deste Governo à crise orçamental e financeira é um assunto demasiado sério e traumático para ser abordado num âmbito de 'pieguice natalícia'. 
Os sacrifícios (já) efectuados deverão ser avaliados quanto a sua (nebulosa) finalidade, (imperiosa) inevitabilidade e (injusta) proporcionalidade. 
Não caíram do céu e não carregam um inevitável (determinista) cunho divino. E, por outro lado, não representam uma fase transitória, intermédia e fugaz do processo em curso. Estão para ficar e para prolongar-se para futuro. Este é o 'caminho da consolidação' (de que fala pela rama) e que pretende apresentar como um facto adquirido, inevitável e acidental (um dano colateral) para ser lamentado e colocado fora de qualquer discussão e isento de alternativas.

Para que a sua mensagem fosse verdadeira e conforme o momento de 'concórdia' que inunda esta quadra motivando a produção de mensagens em catadupa, o senhor Ministro que tem dificuldades em recordar a sua participação no 'escândalo BPN' e em evitar 'embrulhadas' relativas aos processos do MP relativos a dirigentes angolanos, bem como revelações inoportunas sobre jihadistas, etc., deveria manifestar um escrupuloso respeito pelo 'exército de pobres' e de 'exilados' que os tais sacrifícios geraram e que no presente não se lhes oferece qualquer tipo de 'redenção' (para usar a linguagem piedosa desta época), a não ser 'mais sacrifícios'..

Não o fez porque a sua ambição é pequena e as sua intenções medíocres. Ao pretender justificar o 'seu Governo', passou ao lado do 'seu' País. O que não sendo inédito, é manifestamente recorrente nos actuais governantes e reveste-se de uma incomensurável hipocrisia, absolutamente deslocada do momento político, social e, atendendo à quadra, religioso.

Existem mensageiros apossados de intolerável espírito 'peregrino' que os portugueses dispensariam, sem qualquer sacrifício.

quarta-feira, dezembro 24, 2014

A Natividade de Hórus

     

        

Natal

Em meados do século XX o Natal era oportunidade para reunir as famílias. Os ausentes voltavam todos os anos à aldeia de origem, nas carruagens de 3.ª classe de comboios apinhados de pessoas e cabazes, com odores a que se resignavam as pituitárias de então.

Através do vidro partido, ou da janela avariada, o ar gélido entrava nas carruagens e nos corpos. Os passageiros partilhavam a vida e as merendas nas penosas e longas viagens de pára-arranca. Os Senhores Passageiros precisavam de embarcar, ou de desembarcar, e a máquina a vapor, de abastecer de carvão a fornalha e de água a caldeira.

Às vezes o comboio parava nas subidas para que a caldeira ganhasse pressão e pudesse rebocar o peso acrescido que deslocava. Entre Lisboa e a Guarda era normal um atraso de duas ou três horas, pela Beira Alta, e mais ainda pela Beira Baixa.

Nas estações e apeadeiros esperavam bestas e pessoas, impacientes e enregeladas. À chegada do comboio havia abraços, ternos e demorados, e lágrimas de alegria. Do comboio acenavam mãos e ouviam-se votos de Feliz Natal quando o apito anunciava o retomar da marcha. Aos que se apeavam, só o caminho lamacento os separava, então, da casa da aldeia onde aguardavam os parentes que ficaram em ansiosa espera.

Quando eram pequenas as casas e numerosas as famílias, sobrava sempre lugar para os que chegavam. A ceia de Natal era o momento mágico que matava fomes ancestrais e a saudade das ausências.

Na lareira fumegavam panelas cheias, cujos odores, fundidos com os que vinham da sala, traziam à memória os sabores da infância.

A candeia de azeite iluminava os trajetos domésticos enquanto o candeeiro a petróleo projetava as sombras dos familiares reunidos em conciliábulo.

Estranhava-se o milagre que permitira tantas postas de bacalhau, já que os repolhos e as batatas os dava a horta e os frutos eram secos no tempo devido. Rabanadas, arroz doce, sonhos, filhós e toda aquela variedade de guloseimas eram fruto dos ingredientes próprios e de segredos herdados, a que o lume brando da lareira requintava o sabor.
Não deixava de ser estranho que tanto desse, quem tão pouco tinha, e negasse, avaro, quem muito podia. Eram esses os tempos, ainda são assim as pessoas que restam.

Ceavam primeiro as crianças, por questão de espaço e de impaciência; passavam, depois, à sopa, os mais velhos, antes de se saciarem no bacalhau, repolho e batatas, regados com azeite. Só depois de esgotado o vinho no garrafão e de se ver o fundo à panela se entrava nas sobremesas, nas aguardentes e na jeropiga.

As crianças impacientavam-se com a demora do menino Jesus que raramente trazia os presentes que ansiavam, mas conformavam-se com os que lhes coubessem. Os adultos sugeriam-lhes a cama enquanto os sapatos rodeavam a lareira à distância conveniente do lume que ainda crepitava. O sono acabava por  vencê-las, adormecendo primeiro as mais pequenas, que as mães e a avó iam depositando em camas improvisadas.

No pouco espaço disponível havia ainda lugar para o presépio, uma ingénua encenação do mito cristão, que o pinheiro, oriundo de outras culturas, havia de substituir num prenúncio da globalização, para acabar feito de plástico, coberto de bolas coloridas.
De manhã, à medida que acordavam, os miúdos corriam para a chaminé, ansiosos por encontrar as prendas e exultavam com os presentes.

O Menino Jesus que, então, descia pelas chaminés, foi trocado pelo Pai Natal, a viajar de trenó, puxado por renas, em terras onde só a neve fazia jus à nova fábula que roubou o encanto dos musgos, da serradura, do algodão em rama e dos animais que rodeavam o menino de barro, deitado em berço de palha.

Nos sapatinhos, onde então cabiam os chocolates e os carrinhos de corda, que faziam as delícias das crianças, o terço para a tia beata ou a onça de tabaco para o avô, não cabem hoje os jogos de computador, esperados sem ansiedade, nem os presentes embrulhados em papel reluzente.

Alguns pais ainda voltam aos sítios de origem para mostrar, aos avós, os netos, com o mesmo ar de enfado com que os levam ao Jardim Zoológico, a verem a girafa e o elefante, ou os metem nos Centros Comerciais. Mas o mais frequente é tirar os velhos da toca e pô-los a fazer o percurso inverso, com 50% de desconto no preço do bilhete, num exílio que começa na véspera da consoada e termina, no início do Ano Novo, com a devolução ao habitat.

Mudaram-se os tempos. Do Natal que havia, resta a recordação das crianças que foram.

O cronista, serve-se do texto que há anos publicou no Jornal do Fundão para, à guisa de boas-festas, o dedicar aos leitores que tem e amigos que são.


terça-feira, dezembro 23, 2014

UE: da ausência de ‘gratidão’ a um Governo servil ao ultraje aos portugueses…

O relatório de Bruxelas sobre a situação de Portugal depois de – formalmente e não de facto - findo o PAEF, melhor dizendo o intolerável ‘raspanete’ ditado pela Comissão Europeia e BCE, mostra à saciedade em que sarilho estamos metidos.

Para além das diatribes sobre o salário mínimo que não merecem resposta link, porque revelam a grave esquizofrenia à volta de um 'redentor' empobrecimento dos portugueses,  a CE não se coibiu de lançar outros e diversos avisos link.

Grande parte do relatório assenta em análises enviesadas por um pessimismo confrangedor em redor das fragilidades do crescimento económico e, noutros parâmetros, ameaça com uma nova crise da ‘dívida’. Neste campo, contraria, em absoluto, a propaganda do actual Governo que jura a pés juntos existir um crescimento sustentável e que a divida é pagável (e não necessita de reestruturações).

O documento de Bruxelas é um longo repositório de mais medidas de austeridade a que chama eufemisticamente ‘reformas estruturais’ (mais despedimentos [‘requalificações’] na função pública, reforma das pensões, alterações da legislação do arrendamento, etc). Esta maquilhagem que pretende incidir sobre os cortes atrás de cortes (e justificá-los) dando-lhe o epiteto de ‘reformas’, tornou-se enjoativa e, no mínimo, é pouco imaginativa (dado o seu carácter circular e repetitivo).

E o actual Governo que alinhou servilmente nessa fábula, durante todo o período de intervenção directa da troika, tem dificuldades no presente em sacudi-la. Quem muito se agacha... alguma coisa deixa à mostra. Sendo assim, condoído, tem de encaixar – sem poder estremecer - com a acusação de laxismo ("O apetite pelas grandes reformas estruturais parece ter desaparecido nos últimos meses. Além disso, um consenso sobre uma estratégia de crescimento de médio prazo parece não estar à vista" link).

A presente troika, de composição eminentemente europeia, abstém-se de especificar o que, no seu entender, são as ‘grandes reformas estruturais’. Pensamos que se referem à polémica e adiada ‘reforma do Estado’. Se for esse o caso, a Comissão manifesta uma de duas situações possíveis: ou, ignora a situação partidária nacional e o (fim do) ciclo político, ambas as situações nada propícias a consensos; ou, pretende alterar o regime passando por cima do ordenamento constitucional. Não se percebe. Mas no caso da última hipótese a gravidade da intromissão é incomensurável.  Trata-se de um ultraje ao País.

Todos sabemos que o Mundo muda velozmente mas a verdade é que, em 1986, quando entramos oficialmente para a Europa (então CEE) as condições de associação eram bem diferentes. Na verdade, é legitimo perguntar se foi para esta Europa que entramos.

Existe uma outra rábula que é preciso desmistificar. O Governo não se cansa de apregoar que ao longo de 3 anos lutou para (e no seu entender terá conseguido) ganhar o respeito dos seus parceiros europeus. Não teve êxito e acabou vexado por um bando de burocratas.
Pior balanço para uma legislatura não é concebível…

De mal a pior


segunda-feira, dezembro 22, 2014

É o tempo de ser bom

O frio chegou, intenso e persistente, a causticar os pobres, os sem-abrigo e todos os que não podem beneficiar da queda abrupta dos preços dos combustíveis. O País atingiu um estado de desânimo que a decadência ética e a mediocridade dos governantes acentua.

Há lares onde a magra pensão dos velhos é o arrimo dos mais novos varridos na onda de desemprego para a miséria e a desolação. Noutros, vivem-se os dramas que a violência e a adversidade transportam. Em todos se antecipa a ansiedade da borrasca que aí vem.

É tempo de ser bom, de fazer um intervalo no desespero, de gozar a pausa de uma sopa quente e do suave encanto dos afetos que afloram depois de prolongadas ausências, mas a chaga do desemprego não se esvai, os tempos que se abeiram não anunciam melhorias e o empobrecimento é o futuro que ameaça eternizar-se.

Este é um período triste numa Europa que perdeu o sentido da união e da solidariedade, um lapso de tempo em que Portugal se tornou mais periférico e empobreceu, quando é de bom tom fingir alegria e sentimos que nos tiraram os anéis que levaram os dedos.

Há pouco, numa cerimónia pífia, o inepto PM tartamudeou as tradicionais boas-festas ao PR, com ar de cangalheiro num funeral em que os defuntos se fingiram vivos. O PR respondeu com palavras a despropósito, como é hábito, a lembrar o Prof. Pangloss, a dizer que tudo corre pelo melhor, da melhor maneira, no melhor dos mundos, na versão atual de um Leibniz de dimensão paroquial. Que falta faz Voltaire!

Os ministros estavam compostinhos. O PM e o PR, muito bem.

É o tempo de ser bom.

Turquia ao encontro dos Irmãos Muçulmanos

Há vários anos, enquanto Bush armava o maior exército da NATO e chamava moderado a Erdogan, comecei a afirmar que não há Islão moderado nem religiões moderadas. Há crentes bondosos, solidários e pacíficos mas nenhum credo tem essas virtudes.

Erdogan, há anos que defende os assassinos de juízes protetores da laicidade e, quando a correlação de forças lho permitiu, começou a sanear os militares laicos. O Islão, na sua decadência, impõe-se pelo terror que cultiva, pela guerra santa que o Profeta preconiza e pela demência dos que as madraças e as mesquitas intoxicam.

O artigo do El País é elucidativo. Aqui ficam as primeiras frases traduzidas:

[“O pior é o medo. Toda a gente tem medo na Turquia”, lamentava-se há pouco numa entrevista o prémio Nobel de Literatura Orhan Pamuk. “A liberdade de expressão caiu para o seu nível mais baixo”, denunciava o autor de O museu da inocência, para descrever o clima de ameaça às liberdades civis que reina no seu país perante a perseguição à oposição e aos meios de comunicação críticos, plasmado em perseguições policiais e ordens judiciais de detenção. Perante as queixas da União Europeia pela deriva autoritária do Governo do islamita Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, nas suas siglas em turco), o presidente Recep Tayyip Erdogan replicou: “É o mesmo que nos aceitem ou não. Não nos preocupa o que pensem na UE. Que se ocupem dos seus próprios assuntos. Não têm nenhum direito a dar-nos lições de democracia”].

A tragédia vem a caminho da Europa, ou melhor, esta tem ido ao seu encontro.

domingo, dezembro 21, 2014

O último Conselho Europeu e o espectro grego...

Desconheço qual será a narrativa que Passos Coelho apresentará aos portugueses ao regressar desta última reunião do Conselho Europeu do dia 18 de Dezembro. 

Mas, a verdade dos acontecimentos, isto é, o que a Srª. Merkel ‘autorizou’, não é mais do que o 'borregar' do Fundo de Investimentos Estratégicos
Uma bandeira de Claude Juncker,  actual presidente da Comissão Europeia que segundo a propaganda ‘populista’, para inglês ver (e apresentar ao Parlamento Europeu), e nas contas eleitoralistas, ‘valeriam’ cerca de 315.000 M€ link
Mais um engodo eleitoral que morre à nascença. Nada que possa aliviar as restritivas regras de austeridade que estão a condicionar o crescimento europeu (à beira de uma nova recessão), ou que flexibilizem as ‘regras fiscais’ (de ‘ouro’) que comandam as políticas orçamentais, obterá o acordo do actual Governo da Alemanha. 

Duas das três premissas que o presidente do Conselho Europeu Donald Tusk colou ao ‘Plano Juncker’ dizem respeito á ‘intensificação das reformas estruturais’ (sabemos o que ‘isso’ significa) e a outra versa sobre a ‘solidez das finanças públicas’ (cuja via de sentido único é o Tratado Orçamental). 
Uma Europa condenada a ser ‘assimétrica’ não tem futuro porque não se manterá coesa. 

O primeiro-ministro de Itália bem lutou para que esses investimentos fossem subtraídos aos cálculos do deficit orçamental dos países que fossem beneficiários. Não terá sido aceite esta proposta e desconhecemos quem a apoiou. Todavia, pelos relatos da reunião, é fácil de adivinhar quem a terá obstaculizado link. Mais uma vez levanta-se a querela entre entre a austeridade, as reformas ('estruturais') e o investimento para conseguir equilíbrios precários à custa da destruição da coesão do espaço europeu (neste momento residual), não havendo pejo em adiar 'ad eternum' os problemas -  esses verdadeiramente estruturais -  dos países do Sul. 
 Merkel não quer ouvir falar de ajustamentos ao nível orçamental por recear (quando se aborda o investimento público) o aumento da dívida que, na realidade, não para de crescer. link
E o impasse actual prevalecerá até que se aprofunde a 'crise' e, então, sejam impostas outras medidas a reboque de cataclismos eminentes.

Resumindo: 
A UE continuará a viver penosos dias de incerteza e sem perspectivas de investimento que a façam acreditar no futuro. 
O desenvolvimento do espaço europeu não passa de uma miragem para engalanar a retórica política. O ritmo de crescimento permanecerá numa parte da Europa (Norte e Centro) numa cadência ténue enquanto o Sul periférico está destinado a empobrecer de modo 'irremediável'.
Todavia, e apesar deste terrível espectro, nenhum português ficaria admirado se, mais tarde, soubéssemos que Passos Coelho - governando um País com dificuldades de acesso ao crédito e com o investimento em queda prolongada – tenha, nesta reunião, alinhado com o Governo de Berlim e com o Bundesbank. 

Continuaremos assim até que uma eventual saída da Grécia da Zona Euro, por decisões políticas, nos venha acordar… e interromper o pesadelo que nos envolve.
Tudo começou na Grécia e muito poderá mudar a partir da Grécia.

Mordem a mão de quem lhes deu o pão


Antes mal acompanhado do que Sony


Quando o frio e alienado assassino, aiatola Khomeini, emitiu uma fatwa contra Salman Rushdie e a horda de intoxicados pelo Corão perseguiu e matou editores e livreiros que ousaram publicar e vender o livro «Versículos Satânicos», perduraram na história como devotos criminosos, os primeiros, e os últimos, como mártires da liberdade.

Quando as caricaturas de Maomé, o profeta muito amado e pouco recomendável, foram divulgadas, os dementes do costume quiseram assassinar o autor e assaltaram os jornais que, em nome da liberdade, não se deixaram chantagear.

Quando se cancela a exibição de uma comédia satírica sobre um complô para assassinar o líder norte-coreano, a figura grotesca cujo penteado é suficiente para levar um cidadão incauto do riso à incontinência urinária; quando basta um grupo de hackers e a ameaça de provocar um novo 11 de setembro em cada sala de cinema que exiba o filme, para que a Sony Pictures se acobarde, assiste-se a uma vergonhosa humilhação perante Kim Jong-un. Ceder à chantagem de Pyongyang ou de quaisquer crápulas, é a liberdade de expressão que se cancela.

A exibição do filme suspenso, «The Interview», ‘Uma entrevista de Loucos’ sobre dois jornalistas (Rogen e James Franco) contratados pela CIA para matar o líder norte-coreano, é uma exigência de quem se bate contra os totalitarismos e não abdica de uma das mais duras conquistas civilizacionais, o direito à livre expressão.

Se insistirmos em defender o respeito por idiossincrasias e preconceitos, preterindo o direito à liberdade, deixamos de ser dignos da civilização e dos direitos conquistados.

É preferível morrer pela liberdade do que morrer de medo… e de vergonha.

sábado, dezembro 20, 2014

20 de dezembro de 1973

Luis Carrero Blanco, era presidente do Governo espanhol e cúmplice do maior genocida de todos os tempos na Península Ibérica.

Há 41 anos, saído da missa, bem rezado, comungado e incensado, graças a 100 quilos de Goma-2, colocados pela ETA no túnel dedicadamente construído pela ETA, o carro blindado em que se deslocava foi projetado a uma altura de cinco andares, ficando mais perto do Céu.

Na queda, o carro caiu no pátio de um convento. Nunca foi tão santa e desejada a morte de um carrasco.  


Indícios de um anunciado 'cataclismo’…

O actual Governo não se cansa de apregoar que ao período de austeridade que tanto sacrificios provocou aos portugueses, lançando milhares de cidadãos na miséria, desestruturando e empobrecendo dramaticamente a dita ‘classe média’, extorquindo aos reformados modestas pensões, inundou os cidadãos de impostos ao mesmo tempo que ‘esvaziava’ o Estado Social, deveriam seguir-se ‘tempos gloriosos’ de crescimento económico progressivo e ‘sustentado’…
Trata-se de mais um mito que caí. E a prova cabal de que a receita estava errada tornando os sacrifícios inúteis.

Os 'indicadores de conjuntura' do Banco de Portugal são extremamente preocupantes link.  
Na realidade, o Banco nacional constata que a “actividade económica afunda para o valor mais baixo desde o Verão de 2013”. 

Será difícil iludir por mais tempo que estamos a andar para trás e que nada do que foi conseguido é 'estruturante' e sustentável. 
As ‘desculpas’ que não tardarão a surgir são previsíveis. A responsabilidade será da (má) conjectura internacional. Uma razão que no passado esteve ausente do armamentário da actual maioria quando estava na Oposição e tinha ‘soluções’ para tudo.

Daqui a 9 meses – quando os portugueses forem convocados a pronunciar-se nas urnas  - estaremos pior. Mas não tardarão a aparecer velhas soluções travestidas como sendo novas alternativas. 
Sabemos que a radicalização da sociedade portuguesa, ocorrida nos últimos anos, tem profundos efeitos na dita ‘classe média’ (a tal que nas democracias ocidentais decide as eleições). Este sector intermédio do tecido político e social encolheu, está literalmente pulverizado, sendo visíveis os sinais de uma inexorável fragmentação. Parte dela virou à Esquerda desiludida com os partidos do ‘arco governamental’, outra está disposta a embarcar em qualquer 'experiência populista' e, finalmente, uns tantos (esperemos que poucos!) deixaram de acreditar em soluções democráticas e estarão disponíveis para apoiar aventuras extremistas.

A situação política nacional vive um momento de pré-ruptura. Nunca - desde o 25 de Abril - foi tão melindrosa e perigosa. O risco de desvios na prossecução de um caminho democrático estão presentes e são elevadíssimos.
Gravíssimo!

O que o Governo disfarça


sexta-feira, dezembro 19, 2014

Política internacional e as Caraíbas dos tornados...


O restabelecimento de relações diplomáticas (e não o fim formal do bloqueio) entre os EUA e Cuba é, aparentemente, uma medida de distensão política regional (nas Caraíbas), no continente americano  e, obviamente, com abundantes reflexos internacionais que surpreenderam o Mundo link.
Mais de meio século (52 anos na prática) de afastamento entre os dois países, uma situação eivada de medidas punitivas e de respostas dúbias caiu estrondosamente sob os escombros de variadas evidências liminarmente foram reconhecidas como sendo um falhanço.

Existirão várias causas para a escolha deste momento. Uma delas será a próxima Cimeira das Américas a realizar em Abril de 2015, no Panamá, em que o governo anfitrião decidiu convidar Cuba. Este convite colocava a administração em Washington com dificuldades. Os EUA não podem ‘desistir’ do continente americano por fortes razões históricas e estratégicas muito menos num momento em que a supremacia económica ianque está ameaçada noutras partes do globo.  Era necessário desbloquear algo para que desaparecessem entraves artificiais alimentados por uma brutal inércia. E a arrancada começou pelo 'quintal'.
Claro que o processo já vem de longe e, por exemplo, à sombra de muita discrição e alguma hipocrisia têm-se desenvolvido trocas comerciais entre os dois países, desde o fim da guerra fria, por exemplo, no domínio dos produtos agrícolas, que Cuba necessita de importar. 

Agora que os Republicanos desejam colocar todos os entraves possíveis a esta ‘abertura’ seria oportuno recordar que previamente, no campo dos negócios, no século XXI, a administração de G.W. Bush que apareceu publicamente a endurecer o embargo político  tornou-se um activo praticante do laxismo (travestido de ‘humanitário’), no campo das trocas comerciais, sempre que estas significassem ‘exportações’ americanas.

A par de necessidades imediatas e evidências económicas existiu algum trabalho político e esforços diplomáticos. O passo mais visível (mas não o único) foi o funeral de Nelson Mandela. A partir dai e apesar de todos os desmentidos oficiais passou a pairar algo no ar. O incompreensível é o reconhecimento - por parte de Obama na comunicação ao País - de que o bloqueio a Cuba foi um fracasso link quando, no presente, está empenhadíssimo em arquitectar medidas idênticas em relação à Rússia.

Os EUA, aparentemente, optaram por uma outra estratégia. Abandonaram as acções políticas visando o prioritariamente derrube do governo de Havana. Apostam em alterações emergentes no modelo económico cubano, aguardando que estas induzam mudanças políticas. O embargo (‘bloqueo’ para os cubanos) que efectivamente se iniciou em 1962 na sequência da ‘crise dos mísseis’ (J. F. Kennedy) só foi oficialmente consagrado em 1996 (Bill Clinton) na célebre ‘Lei de Helms-Burton’ que carrega o nome dos dois senadores relatores. Ambos republicanos, Jesse Helms faleceu em 2008 e Dan Burton terminou funções em 2013 dedicando-se actualmente a actividades lúdico-sociais no Tea Party.

Para Barak Obama – apesar do domínio republicano no Congresso – a difícil situação política internacional criou espaço para actuar administrativamente na questão de Cuba.
Para Raul de Castro as dificuldades económicas de Cuba necessitam urgentemente de ser superadas em nome da sustentabilidade do regime.
Um encontro de vontades com um desfecho em suspenso do qual dificilmente os dois países conseguirão sair vitoriosos. A médio prazo entenderemos melhor o que esta semana foi anunciado. Mas, sem sombra de dúvida, ambos os dirigentes deram um passo em frente. 

Mariani e a mensagem de Natal


Mariani era a vivenda de Mari(a) e Aní(bal) um casal algarvio que a tinha batizado com os nomes próprios de cônjuges enlevados e que as vicissitudes da vida levaram a trocar por uma sumptuosa vivenda na Praia da Coelha, numa feliz permuta sem tornas.

Tendo o cônjuge masculino do ditoso casal, depois de um jantar em casa de Ricardo Salgado, com os casais Marcelo e Barroso, aceitado candidatar-se a PR, passou a ser o órgão unipessoal da República, com direito a debitar mensagens de Natal.

Hoje, a mensagem, cujo conteúdo me escapou, perdido na coreografia conjugal, teve um aspeto inédito. Em vez do PR apareceu o casal presidencial e, a substituir o Comandante Supremo das Forças Armadas, veio a primeira dama, acompanhada do esposo. A recitar a mensagem de Natal estiveram os dois inquilinos de Belém a alternar as falas, atentos às deixas, numa ternurenta aparição, como se fossem dois adereços do presépio.

No próximo ano, quem julga o PR incapaz de inovar, assistirá à mensagem de Natal, em jeito de jograis, com os dois cônjuges a recitarem em conjunto as mesmas falas. O PR já não é um órgão unipessoal, é um casal que arrematou Belém com 10 anos de isenção de renda.  

Comentário político e incidências ‘familiares’…

Comunicado de José Maria Ricciardi sobre a última homilia dominical do comentador Marcelo Rebelo de Sousa:
“Eu compreendo que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tenha muita mágoa em não poder continuar a passar as suas habituais e luxuosas férias de fim de ano na mansão à beira-mar no Brasil do Dr. Ricardo Salgado, mas essa mágoa não o autoriza a dizer mentiras a meu respeito e do banco a que presido, conforme fez no seu comentário de ontem…" link.
Este é mais um pormenor (a ser escrutinado) à volta de eventuais promiscuidades entre o comentário político e relevantes factos (de vária ordem) que vão surgindo à luz do dia neste conturbado período de resolução de problemas políticos, económicos, financeiros e sociais.

O cautelar (para o próprio) e ético (para os ouvintes) sistema de ‘declaração de interesses’ não faz caminho em Portugal. No comentário político a ‘organicidade das prestações’ sobrepõe-se a tudo e veste o manto diáfano da seriedade técnica, científica e política (este um denominador comum dos prestadores).
E não é um problema exclusivo de Marcelo já que, com nuances discursivas ou gradientes de exposição, poderá ser encontrado em outros assíduos ‘parceiros do comentário’ nomeadamente na área televisiva: Manuela Ferreira Leite,  Marques Mendes, Bagão Félix, Morais Sarmento, Francisco Louçã e José Sócrates (para falar dos mais mediáticos).
A representatividade deste ‘arco do comentário’ mostra ab initio sinais de iniquidade já que alguns sectores do espectro político nacional são mantidos à margem ou têm actuações esporádicas (como é o caso dos comunistas).
Mas existe uma outra vertente como são os casos de ‘tertúlias de comentadores residentes e associadas’ (Quadratura do Circulo, Eixo do Mal,  Bloco Central, etc.).

Os clãs sociais, académicos, lobistas, […os ‘comentadores instalados’] deveriam ser mais parcimoniosos e mais cautelosos.
Ao ouvinte, ou ao telespectador, espanta como nunca são invocados conflito de interesses para abster-se de palpites e pronunciamentos. Marcelo, por exemplo, dado o entrosamento pessoal e social com a família Espírito Santo, deveria revelar algum pudor no tratamento do monumental escândalo financeiro que está a ser objecto de um inquérito parlamentar. Ninguém o obriga a pronunciar-se sobre tudo e todos.  O comentário político não pode funcionar ao estilo de ‘testemunha abonatória’  ou ser ‘plataforma de lançamento’ para projectados novos voos.

Como conciliar, então, a necessidade de comentar notícias com objectividade, didactismo e a necessária independência?
Difícil sem dúvida. 
Em primeiro lugar, deveriam ser chamados à colação os diferentes partidos políticos através da suas estruturas de comunicação para darem uma ‘imagem institucional’. Seria uma boa maneira de evitar que os mesmos sejam conotados como máquinas exclusivamente direccionadas para a conquista de poder(es). O comentário poderá funcionar - quando utilizado correctamente - como um bom instrumento de 'pedagogia política'.
Mas a intervenção partidária não pode, nem deve, hegemonizar o comentário transformando-o numa produção institucional. A clarificação – que deverá ultrapassar circunscritos academismos sem os excluir - poderá (terá de) passar pela sociedade civil, i. e., por centros de estudo, fóruns de discussão,  grupos de ‘brainstorming’, 'think tanks', tertúlias, etc.
Esta é, todavia, uma questão de política editorial que depende dos conselhos de redacção dos diferentes meios de comunicação social. Assim exista espaço para os mesmos decidirem de modo livre e independente, subordinados a uma política de informação aberta e transparente baseada em critérios jornalísticos e à margem de servidões político-partidárias e pressões económicas (como scores, audiências e tiragens).

O que parece inquestionável é a necessidade do comentário político deixar de ser circular, redondo ou vicioso.
Esta função não deverá ser sistematicamente (ou sistemicamente) entregue a políticos ou ex-políticos e muito menos àqueles que estrategicamente se encontram em período de defeso, nojo ou emboscados a aguardar oportunidade para uma ‘próxima jogada’.

Ninguém se admiraria que, seguindo a lógica do 'sistema', dentro em breve, Durão Barroso renasça como um futuro (próximo) comentador ‘orgânico’. Reúne todas as condições para ser ‘convidado’ a representar esse papel.  Este foi o susto que a 'bordoada' de Ricciardi a Marcelo Rebelo de Sousa veio suscitar.
Afinal, Barroso, também frequentava a casa do Estoril onde, no meio de repastos, se promoviam candidaturas presidenciais link
Com este trajecto fechado e circular, tipo pescadinha de rabo na boca, o comentário político nunca deixará de ser redondo. Afinal, é também para esses lados que fica a ‘Boca do Inferno’. 
Trata-se de mais uma questão de família... a aguardar outras 'insolvências'.

O urso Maomé e a fauna devota

«Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa». (Pascal)

Há 7 anos, No Sudão, obscuro país onde a fome e a fé dizimam o povo, uma professora de inglês foi condenada a 15 dias de prisão, seguidos de deportação, por ter permitido aos alunos que dessem o nome de Maomé a um urso de peluche, o que foi considerado uma ofensa ao Profeta e não ao urso.

Poupou-a às chibatadas a nacionalidade e a intervenção do primeiro-ministro inglês e às balas, a polícia antimotim. Os piedosos sudaneses que se manifestaram, junto ao palácio presidencial, contra a clemência da sentença, queriam vingar a afronta ao Profeta à saída das orações de sexta-feira, excelentes para estimular a violência.

Desiludiram-se os crentes, por terem sido impedidos de linchar a professora. Estavam munidos de paus, facas e machados e só ansiavam por dar público testemunho da sua fé e agradarem ao seu Deus.

Há quem pense que a demência mística é mera manifestação tribal ou apanágio de uma única religião, quiçá por desconhecimento do Levítico, por exemplo, e da dívida para com o Iluminismo e a Revolução Francesa.

O fundamentalismo é uma palavra que serviu para definir, primeiro, o protestantismo evangélico americano que no início do século XX pregava um Deus apocalíptico, cruel e vingativo, e que atualmente ameaça ser a característica comum de diversas religiões.

É preciso um sobressalto republicano e laico para evitar que as religiões destruam a civilização e comprometam a sobrevivência humana e que a blasfémia – um «crime» medieval – desapareça do Código Penal de todos os países civilizados.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

A morte de Vítor Crespo


Morrem os bravos, ficam os bárbaros.

Um a um, os heróis de Abril vão perecendo e Portugal fica mais pobre, carecido de referências, entregue à comissão liquidatária que escondeu a agenda ideológica durante a campanha eleitoral.

Vão-se os bravos e ficam a uivar os lobos nesta melancólica quadra em que os próximos voos da TAP são de aves migratórias que não regressam mais, obrigadas a levantar voo, expulsas do seu habitat.

Como o crocodilo, ficam a voar baixinho os membros da comissão liquidatária do país que nunca sentiram seu. Falam grosso, como se as polícias estivessem ao seu serviço, o poder fosse um direito e a governação uma viagem ao passado.

Vítor Crespo foi um dos melhores. Vai a sepultar enquanto ficam os que nos enterram e preparam campanhas sujas para se perpetuarem.

Em Abril, Vítor Crespo estava na Pontinha, depois esteve na transição da independência de Moçambique e continuou a servir Portugal sem se servir da Pátria que amou.

A mágoa pela perda de um herói só tem paralelo na que permanece pelos cobardes que ficam.

Há luto em Portugal e Moçambique. Em Belém e S. Bento a vida continua indiferente à perda que os democratas sentem.

Relações entre Cuba e EUA

A abertura das relações entre Cuba e os EUA é uma vitória do pragmatismo e do bom senso, uma decisão que enobrece Obama, o fim de uma medida injusta acicatada pelo ódio dos exilados de Miami.

Como foi possível castigar o povo cubano por causa do seu regime quando as relações com a Arábia Saudita permanecem?

A alteração das relações não significa o fim definitivo, nem sequer o termo do boicote, porque  obriga a que as duas câmaras, Senado e Câmara dos Representantes, declarem o fim do bloqueio, ao que os Republicanos, maioritários nas duas Câmaras, se opõem.

Obama pode, no entanto, através de decisões executivas, aliviar a violência do bloqueio e tornar menos penosas as condições de vida em Cuba.

Seria injusto não manifestar regozijo por esta decisão, saudando Obama, Raul Castro e o Papa Francisco que compreendeu e intercedeu pelo fim do drama que tem dilacerado o povo de um país do continente americano.

Deixo outras leituras a quem se move por catecismos rígidos e preconceitos ideológicos.

O islamismo, a laicidade e a democracia

Sendo ateu, é natural que considere falsas todas as religiões e que, segundo os diversos momentos históricos, avalie o grau de nocividade e perigosidade de cada uma. Hoje, a mais nociva e perigosa é, na minha opinião, a islâmica.

‘Segundo um estudo efetuado pela cadeia televisiva BBC e do King’s College London, divulgado esta sexta-feira, 12 de dezembro, e citado pela revista Fátima Missionária, só em novembro os radicais islâmicos mataram mais de 5.000 mil pessoas e, segundo os investigadores, verificaram-se 664 ataques, em 14 países, que provocaram uma média diária de 168 vítimas mortais, ou seja, sete por hora’.

Não gosto que matem cristãos, muçulmanos, judeus, animistas, budistas, hinduístas, ateus ou quaisquer outros crentes ou livres-pensadores. Não gosto de assassinatos e ferem-me especialmente os cometidos por ódio sectário e xenófobo.

A metódica intoxicação nas madraças e o apelo ao ódio e à guerra santa nas mesquitas não é propaganda religiosa, é incitamento ao terrorismo. Não é um problema de fé, é um caso de polícia e uma preocupação democrática.

A indulgência com o islamismo, não confundir com o respeito e proteção que merecem os crentes, é um problema de cobardia dos democratas, excelentemente aproveitada por neonazis, fascistas e populistas, de diversas estirpes, em numerosos países europeus.

Esquecem-se as meninas cristãs raptadas na Nigéria, por muçulmanos, e escravizadas, ignoram-se meninas de 9 anos vendidas a homens de 40, 50, 60 e mais anos, pelos pais a quem o Islão confere a propriedade, da Somália ao Iémen, o casamento de Maomé  com uma menina de 6 anos, consumado aos 9, um ato de pedofilia cuja perpetuidade os dignitários islâmicos apoiam.

A sharia e a discriminação da mulher devem envergonhar qualquer sociedade mas até os europeus, filhos do Iluminismo e da Revolução francesa, se intimidam na denúncia e no combate ideológico a tal barbárie, enquanto o primarismo islâmico seduz adolescentes europeus sem ideais, sem convicções e sem futuro.

O Islão não admite a laicidade e sem esta não há democracia nem liberdade religiosa.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Ódio divino à cultura - Imagens


Ódio divino à cultura

Os grupos fundamentalistas visam, no ódio cego à cultura que liberta, a morte dos que gostam de aprender. As escolas são o palco predileto de atentados, como a escola em Peshawar, onde mais de 140 pessoas, na maioria alunos, foram esta terça-feira mortas por um comando talibã.

Foi uma larga centena de pessoas anónimas que não sobreviveram, impedidas de saber mais do que o Corão aconselha, de abrir as mentes à cultura e à sabedoria, de aspirar à emancipação e à fruição dos direitos individuais. É a vingança contra cada Malala que escapa, cada mulher que se liberta e cada vida que os fanáticos não controlam.

Há idiotas úteis debitam lugares-comuns, que não são terroristas todos os muçulmanos, que são minoritários os criminosos, mas não veem que é terrorista o Corão, perigosas as madraças e instigadoras de ódio as mesquitas? Não viram a alegria que percorreu as ruas islâmicas após a queda das Torres Gémeas de Nova Iorque ou do massacre de Atocha?

Esquecem-se 1.200 reféns de Ossétia do Norte numa escola de Beslan, no dia do início do ano escolar de 2004, por rebeldes armados pró-chechenos, e a morte de 186 crianças entre as 331 pessoas que pereceram durante o assalto das forças especiais que os foram libertar e que também sofreram 31 mortos.

Nas Filipinas, em 28 de janeiro de 1999, 500 alunos e 70 professores de uma escola perto de Cotabato (sul) foram sequestrados por membros da Frente Moro de Libertação.

Na Nigéria, os bandos islâmicos de Boko Haram, responsáveis por ataques e sequestros, reivindicaram o rapto a 14 de abril passado de 276 raparigas, estudantes num liceu de Chibok (nordeste). Algumas conseguiram fugir, mas 219 continuam desaparecidas.

No Afeganistão os talibãs serravam vivos os militares da URSS perante o silêncio da comunicação social. Que interessava? Eram comunistas! Mais tarde foram os soldados americanos a sofrer igual sorte. E o silêncio manteve-se, eram imperialistas!

Este maniqueísmo uniu, em silêncio cúmplice, dignitários de várias religiões perante a fatwa contra Salmon Rushdie. Esses e outros cúmplices ficaram cobardemente calados perante os editores assassinados ou os jornais incendiados por causa das caricaturas de Maomé. Quando se pronunciaram foi contra a liberdade de expressão, em manifestações de compreensão perante as dementes demonstrações de raiva e de vingança.

A tragédia dos países árabes deve-se à natureza não secular do Estado. O ódio dos clérigos ao laicismo e a sua arrogância moral exacerbam-se com o declínio económico e cultural.

Afigura-se profético o título do livro de Robert Hutchison: “O Mundo Secreto do Opus Dei – Preparando o confronto final entre o Mundo Cristão e o Radicalismo Islâmico”. (Ed. Prefácio, Novembro de 2001)

Fontes: Imprensa mundial.


terça-feira, dezembro 16, 2014

Amigo de uma Escola amiga

Hoje, um Agrupamento de Escolas, do distrito de Coimbra, honrou-me com a inclusão no grupo dos seus amigos, numa cerimónia a que motivos de ordem pessoal me impediram de comparecer.

Agradeço a quem teve semelhante generosidade para com um cidadão que está sempre disponível para colaborar. Sem qualquer título académico, castrense, nobiliárquico ou eclesiástico, nem sequer uma venera, é uma honra que me desvanece.
Aqui fica o currículo enviado.

Nascimento: janeiro/1943

Profissão: professor do ensino primário, o que gostaria de ter sido toda a vida, mas, ao fim de 3652 dias, porque de pão também vive o homem, fui agente comercial, delegado de informação médica e chefe de secção de uma multinacional farmacêutica.

Atividades cívicas e políticas:

- Filho de uma professora que teve de pedir autorização ao ministro da Educação para casar com o meu pai, funcionário de finanças, conheci a descriminação das mulheres a quem eram vedadas a magistratura, a carreira diplomática, as Forças Armadas e a administração de bens próprios ou a saída para o estrangeiro, dependentes do marido.

- Antifascista por convicção e devoção, tive em 25 de Abril de 1974 o dia mais feliz da vida, depois de severa vigilância policial, ameaças profissionais, como professor, e da participação em diversos movimentos e organizações na luta pela democracia.

- Fiz dois filhos com quem os quis, escrevi um livro, colaborei em jornais e revistas e plantei árvores. Sócio n.º 1177 da Associação Portuguesa de Escritores, fui o primeiro presidente da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) em 2008, reeleito sucessivamente, com o mandato de 2014/2016, em curso.

- Do livro da vida, a poucos dias dos 72 anos, vejo a contracapa à distância de poucas folhas, com a enorme felicidade de envelhecer com a mulher de sempre, ver os netos crescer, amando e sendo amado, vivendo de pé a única e irrepetível vida que me coube.

- Há um capítulo que queria poder rasgar, quatro anos e quatro dias na guerra injusta e criminosa da tragédia colonial e ainda sinto um camarada a exalar o último suspiro nos meus braços, acabado de esmagar pela Berliet, a memória amarga do soldado que perdi na jangada do Zambeze, virada nas águas revoltas do rio, infestado de crocodilos. Das 101 vítimas, uma era dos meus.

- Feliz por ter assistido aos maiores avanços da Humanidade, defenderei sempre tudo o que julgo justo, num país sem presos políticos, censura e medo, mas já receoso da fome que avança, dos recursos que se esgotam no Planeta, do ar contaminado e da água e dos alimentos que vão faltar. Que fazer para que vença a trilogia da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade?

Ficam os meus filhos e netos. E os jovens de Portugal que teimam em permanecer.

16/12/2014 – Carlos Esperança

A violência doméstica e os animais selvagens


Este crime silencioso não é exclusivo dos homens mas pertence-lhes o maior quinhão. É a velha prática que a sociedade, a Igreja, a família e as próprias vítimas consentiram, um hábito a que não faltava o pérfido adágio: «entre marido e mulher não metas a colher».

Quantas feridas, no corpo e na alma, quanta vergonha escondida com desculpas pueris, quanta violência reproduzida através dos filhos de cujos gritos e espetáculo se tornaram reprodutores!

A morte às mãos de um facínora que não controla o ciúme, que esquece o amor que um dia o arrebatou e o respeito constante que devia, é o retrato de uma sociedade medieval que recusa a modernidade sem longos estágios no cárcere.

A quantidade de mulheres agredidas, física e moralmente, humilhadas e assassinadas, é uma tragédia recorrente, perante a indiferença de quem esquece a mãe, irmãs e filhas, de quem não sublima instintos primários e faz da violência a catarse das suas frustrações.

A quotidiana divulgação da brutalidade a que as mulheres estão sujeitas é a nódoa que não se apaga, a vergonha que nos acompanha, a iniquidade cuja incúria nos remete para um passado medieval e para épocas históricas que a civilização devia ter erradicado.

Como é possível condenar metade da humanidade a um sofrimento acrescido, à exaltada manifestação da selvajaria masculina, reproduzindo os valores anacrónicos herdados da época em que a força física era condição de sobrevivência?

Maldita herança, malditos herdeiros.