sábado, janeiro 31, 2015

Europa: a nova crise que se anuncia ….

O povo grego vive, depois das eleições de há 1 semana, momentos de 'stress' directamente  resultantes do exercício das suas inalienáveis competências democráticas, i. e., decorrentes da soberana manifestação de vontade popular.

A questão sobre a soberania levantada por estas eleições é bastante relevante. Primeiro, este conceito encontra-se, na UE limitado pela integração dos estados decorrentes de diversos Tratados, Convénios e Memorandos que têm sido assinados desde o já distante Tratado de Roma (1957). Não existindo, nem de facto nem de jure, uma Federação o alcance destes Tratados é necessariamente limitado.

Todavia, o mais pertinente, será analisar a pretensa ‘relativização da soberania’ esgrimida por grande parte dos Governos europeus, de modo mais acutilante pelos países do Norte da Europa, que insistem na tecla do cumprimento dos acordos assumidos no passado por Governos que antecederam no exercício do poder. A relativização da soberania aparece assim ligada a um processo evolutivo, nem sempre de modernização, que não deixa de levantar candentes questões.

Desde o conceito aristotélico de soberania muito ligado à proximidade passando pelo absolutismo real até a recente época de globalização vai um enorme conjunto de ‘relativizações’. De qualquer modo, na ordem pública internacional, os países democráticos (onde se exercem funções soberanas) continuam ligados ao conceito decorrente da Revolução Francesa que assenta na existência de ‘homens livres’, ‘iguais’ e 'fraternos'.
O princípio de que a soberania pertence ao povo (reside no povo) que tem competência e meios para a delegar num Governo (representativo) continua válido e a ser praticado em todo o lado. Falta, contudo, completar esta asserção com um outro facto igualmente relevante. Na verdade, o povo deve manter a capacidade de retomar esta sua competência fundamental quando existirem desvios ou abusos no exercício dos poderes (temporariamente) delegados. E é aqui que começam os problemas. Para além da soberania nacional existe um outro campo mais vasto (e complexo) que é o do ordenamento jurídico internacional.

E a retoma das competências soberanas pode chocar (conflituar) com os desvios e/ou preversões assumidos (de boa ou má fé) pelo órgãos em quem foram delegados poderes. Nesse sentido, a relativização da soberania grega pretendida no seio na UE não pode passar ao lado de um outro facto fundamental para gerar equilíbrios necessários e desejáveis, i. e., a imperiosa relativização da ordem jurídica internacional.  Sem esses equilíbrios -  que a pequenez e o enfeudamento prussiano do primeiro-ministro português não permite adoptar ou ter uma visão europeia link - a Europa será inevitavelmente confrontada com uma nova crise: a dos radicalismos
Crise que se apronta para suceder à das dívidas sob a irritante pergunta do: “certo, mas quem paga?”. A resposta é linear e todos a conhecemos: “os mesmos de sempre!”. Não existem ‘outros’ disponíveis. Ou que se apresentem como ‘voluntários’.  
Esta a grande e encoberta chantagem.

Viva o 31 de Janeiro! Viva a república!


Viva a República


A estratégia e os embustes desta direita (3)

Este Governo, esta maioria e este PR não representam a direita que quis resgatar o seu passado salazarista, a direita que quis afastar-se da ditadura e do colonialismo, a direita que viu na Europa o modelo e na prática democrática das homólogas a inspiração.

Passos Coelho e Paulo Portas não são herdeiros de Sá Carneiro e Freitas do Amaral, são avatares de Afonso Marchueta, o primeiro e, mais culto o segundo, de Franco Nogueira. Cavaco é Américo Tomás à civil, parecido nos discursos e igualmente prisioneiro do matrimónio, do património e do que resta saber.

Há neste Governo, nesta maioria e neste PR um estranho odor a antigamente, a remeter-nos para sombrias memórias de quem gostava da pátria dos outros e julgava que o País ia do Minho a Timor, definido por quem foi até Badajoz, a encontrar-se com o genocida Francisco Franco.

Quando esta maioria e este Governo, de que os fundadores dos partidos teriam pejo, se aliaram na retaliação ao 25 de Abril, planearam a destruição dos direitos laborais, certos de que não lhes faltaria o apoio de quem devia ser o defensor, baseado na Constituição.

Passos Coelho tinha dado provas das suas capacidades na administração da Tecnoforma e Portas na empresa de Sondagens «Amostra». Persuadiram o País de que, no desprezo dos direitos dos trabalhadores, se encontrava a solução para a criação de emprego, e nos ataques aos salários a autoestrada que traria excursões de investidores. No fundo sabiam que apenas beneficiavam os seus benfeitores e destruíam o futuro da Segurança Social.

Empresas, que criavam fundos nas Seguradoras para despedimentos ou reformas, donde se saía com 1 mês de salário por ano, ou fração, acrescidos de 3, puderam recuperar os montantes que, de certo modo, eram retirados aos vencimentos para os referidos fins.

Era assim na multinacional onde trabalhei, era assim em numerosas empresas. Deixou de ser. O desprezo pelos trabalhadores e a subserviência ao patronato uniram-se na luta contra os direitos adquiridos e a descapitalização da segurança Social. Nunca um PM, tão alheado do mundo do trabalho e inapto para a governação, teve tantos académicos dispostos a repetirem em Portugal o laboratório chileno, em democracia.

Friedemann substituiu Keynes e este PM, que talvez não saiba quem foram,  prestou-se a oferecer o País para proveta onde Frankenstein faz experiências. E não se sabe do que este Governo, esta maioria e este PR ainda são capazes no tempo que lhes resta.

sexta-feira, janeiro 30, 2015

A estratégia e os embustes desta direita (2)

Esta direita, instruída nas madraças da JSD e do CDS, hábil a provocar ruído e a alijar responsabilidades, moralmente apátrida, culturalmente analfabeta e inapta a governar, tem sequazes na comunicação social e nas redes sociais, em permanente comissão de serviço, a perturbar o seu julgamento.

Esta direita, eufórica com o linchamento de um excelente ministro da Segurança Social, Paulo Pedroso, associado ao caso de pedofilia da Casa Pia, conseguiu com a patifaria atacar o PS e provocar a demissão de Ferro Rodrigues. Paulo Pedroso nem chegou a ser acusado mas os danos foram irreparáveis.

Ficou-lhe daí o jeito e o proveito da calúnia e nunca mais precisou de discutir política, basta-lhe o enxovalho dos adversários. Só cai quando os erros e a inépcia atingem níveis intoleráveis.

No BPN, onde se enlodou a fina flor do cavaquismo, conseguiu utilizar o nome de Vítor Constâncio, então governador do Banco de Portugal, e fazer ruído suficiente para levar ao pelourinho da opinião pública o polícia da fiscalização bancária enquanto ocultava os delinquentes das fraudes. Que eu saiba, ninguém à esquerda do PSD tem casa na Quinta da Coelha, ganhou dinheiro com ações não cotadas em bolsa (SLN) ou conseguiu, sem caução, empréstimos de milhões de euros. Hoje é o País que tem a dívida e Oliveira e Costa um atestado de pobreza. Resta dizer que Oliveira e Costa, membro do Governo de Cavaco tinha sido, no Banco de Portugal, administrador e perito a detetar a ocultação de fraudes bancárias. Conseguiu superar-se a cometê-las e a ocultá-las.

Esta direita consegue esconder que o seu maior especialista em offshores, um dos raros presos, foi o chefe de gabinete de um dos seus PMs. Se Vale e Azevedo fosse militante do PCP, PS ou BE, todos saberiam a sua origem partidária.

Da Madeira, dos 7 ou 8 mil milhões de euros que, após numerosas ajudas da República, ainda sobraram para somar ao défice, não se fala da gestão ruinosa do sátrapa do PSD.

Agora, varridos para baixo do tapete, os casos do BCP, BPP e submarinos, a gestão da tragédia do GES/BES, capaz de atrair um défice de mais de duas dezenas de milhares de milhões de euros, os saprófitas desta direita já falam em Guterres, o melhor e mais bem preparado PM da democracia, para esconderem o maior escândalo bancário de sempre. Até parece que dos quatro PRs eleitos, as candidaturas de Eanes, Soares e Sampaio também foram arranjadas em casa de Ricardo Salgado na companhia dos casais Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa!

Há quem por ignorância, sectarismo ou ingenuidade defenda este Governo, esta maioria e este PR, mas há quem o faça porque refocila na gamela do orçamento ou aguarda vez.

Quando Mário Soares, a maior referência da democracia, com sagacidade invejável, se refere ao atual inquilino de Belém, as vuvuzelas desta direita grunhem impropérios e acoimam de senil e geronte o herói civil do 25 de Abril.

Correr com esta direita, este Governo, esta maioria e este PR, não é apenas uma urgência política, é um ato de higiene cívica.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Jantar republicano do 31 de Janeiro - COIMBRA

O Núcleo de Coimbra do nosso movimento vem, por este meio, convidar-vos a estarem presentes num jantar comemorativo desta imorredoura data de 31 de Janeiro de 1891.

Nesse dia, pela primeira vez em Portugal a República vigorou, embora apenas por algumas horas, facto este que não ensombra o significado e o simbolismo do Acto. Como republicanos e democratas que nos honramos de ser comemoremos, pois, a Revolta Republicana de 31 de Janeiro de 1891, prestando justa homenagem ao acontecimento e às suas principais figuras.
O nosso jantar terá lugar em Coimbra no restaurante Cantinho dos Reis (ao Terreiro da Erva) no próximo dia 31, sábado, pelas 19:30. O repasto será constituído por:
- sopa
- pratos à escolha: bacalhau à lagareiro ou vitela estufada
- vinhos branco e tinto ou águas
- sobremesas e bolo de aniversário
- cafés e aguardentes

O preço será de 12,50 euros por pessoa e as inscrições deverão ser dirigidas para os e-mails seguintes:
anabela8@hotmail.com

(a fim de facilitar as definições a ter com o restaurante, inscrevam-se, por favor, o mais rapidamente possível).
Aproveitaremos a oportunidade desta jornada republicana e o facto de estarmos reunidos para evocar condignamente não só os acontecimentos de 31 de Janeiro, mas igualmente o assassínio do General Humberto Delgado, facto histórico sobre o qual se perfarão 50 anos no próximo dia 13 de Fevereiro.

Todos os Companheiros (as) poderão usar da palavra.

Viva a República!

CITAÇÃO

Citação.

“ (…) O Islão, essa absurda teologia de um beduíno amoral, é um cadáver podre que envenena a nossa vida. A população da república turca, que reclama o direito a ser civilizada, tem de demonstrar a sua civilização através das suas ideias, sua mentalidade, através da sua vida familiar e seu modo de vida".

Mustafa Kemal Atatürk (estadista e fundador da República da Turquia)


A liberdade e o Charlie Hebdo

À medida que minguam os que afirmavam “Eu sou Charlie”, crescem os que o não são e nunca se conciliam com a liberdade e, muito menos, com o que consideram excessos. Frases como «a minha liberdade termina onde começa a dos outros» ou «liberdade, sim, mas sem ofensa», são formas dissimuladas de a limitar.

A liberdade está ligada à democracia, instituição recente e geograficamente limitada, e nem aí é consensual, mas bastaria o mar de sangue dos que se bateram por ela para que a sua defesa fosse uma obrigação cívica.

O direito à ofensa é dos mais difíceis de sustentar mas, mesmo esse, é um direito cujos limites cabe aos tribunais apreciar e não pode haver outras sanções para além das que as sentenças judiciais determinarem. A justiça popular é o simulacro da justiça, a vindicta que satisfaz o ódio e a transforma em vingança.

Todos sabemos como Maomé odiava o toucinho, a ponto de os seus seguidores sentirem como ofensa a simples presença da fotografia de um porco. Temos obrigação de discutir se as idiossincrasias dos outros devem limitar a nossa liberdade. Por que razão devemos respeitar quem encara o abandono da religião – a de cada um –, como suprema afronta, punível com a pena de morte? A descrença é tão respeitável como a crença, e o humor e a sátira, por mais cáusticos que sejam, não passam da crítica legítima de quem discorda.

Os criacionistas, protestantes evangélicos, obrigam alguns estados americanos a ensinar como ciência o mito criacionista de Adão e Eva a partir do barro na olaria divina. Exige o bom senso que sejam zurzidos pelo riso, achincalhados pela sátira, humilhados pelas caricaturas até aceitarem que Darwin tinha razão e a evolução das espécies é ciência e o alegado método de criação um mito.

Não é indiferente o sítio onde cada um exerce a sua liberdade e um livro ou um jornal só os lê quem quer. Se alguém se sente ofendido por um jornal que nunca leu, não é crente, é censor. Os cartunistas do Charlie não enviaram desenhos satíricos a cada crente e, no entanto, os terroristas procuraram-nos no local de trabalho para os assassinarem.

Deixem-me rir, enquanto choro por dentro, das doutrinas que entendem que uma mulher adúltera deve ser lapidada, que a mulher violada deve manter uma gravidez do selvagem que a agrediu, da decapitação de quem renega a religião do decapitador, das normas que impedem a igualdade de género e o direito à felicidade.  Rio de dor, a sangrar por dentro e com fratura exposta.

Os que hoje apelam à liberdade «sem ofensa» são herdeiros dos que viam nas vacinas a ofensa ao projeto divino, dos que pensavam que o Sol parava, por milagre, e que girava à volta da Terra, merecendo pagar com a vida a ofensa ao que estava escrito.

Geralmente, apela-se à tradição para evitar a evolução. Devia estarrecer-nos o tormento dos que lutaram contra a escravatura, contra as tradições que dividiam a Humanidade em classes, contra as que impediam o acesso da mulher ao mercado do trabalho e contra diversas formas de discriminação que continuam a existir, agora de forma mais subtil.

O riso e a sátira são armas de quem as troca por ideias. Os terroristas são alienados que recusam as ideias e o riso, de armas em punho.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 28, 2015

A estratégia e os embustes desta direita

Um social-democrata, como eu, tem dificuldade em entender a intoxicação da opinião pública a que esta direita se dedica despudoradamente.

Parece que quem arruinou a economia e lançou Portugal no pântano foram os governos de esquerda, social-democratas a tender para a direita, e não o capitalismo, puro e duro, na sua deriva especulativa a nível global. Esta direita ultraliberal, que esqueceu depressa a falência do banco Lehman Brothers, ainda mais depressa do que os infaustos governos de Durão Barroso e Santana Lopes, procura arranjar bodes expiatórios das suas próprias malfeitorias e justificações para a permanência, no poder, de Passos Coelho e Portas.

A inépcia deste Governo, o desastre deste PR e a tragédia desta maioria, deixar-nos-ão sem esperança e sem empregos. Esta direita omite que foram os seus patrocinadores que protagonizaram os escândalos que mais nos pesam e maior relevo tiveram no horizonte sem futuro que nos legam quando as próximas eleições a varrerem.

BPN, Banif, BCP, BES, submarinos, sobreiros e Universidade Moderna são alguns dos mais estridentes escândalos que qualquer pretexto serve para fazer esquecer, escândalos nascidos nela e ocultos do quotidiano sob a cortina de reais ou inventados escândalos da oposição. Até o empréstimo do BES à Festa do Avante, uma normal transação bancária, serve para denegrir os outros e esconder os próprios crimes.

Só não considerava capaz esta direita, hoje arrependida dos oportunistas que assaltaram os seus partidos, de condenar o sentido do voto de um país que sofre na pele as mesmas dores que nos afligem, a Grécia. Esta direita é serventuária de quem lhe dá migalhas e é composta por indivíduos que têm da ética uma leve ideia e da Pátria, nenhuma.


terça-feira, janeiro 27, 2015

Há 70 anos


Na rede de campos de concentração do sul da Polónia, onde o Terceiro Reich fez da morte uma indústria, do antissemitismo religião, e da crueldade o apogeu da demência, a libertação dos que sobraram, judeus, ciganos, homossexuais e deficientes, aconteceu há 70 anos em Auschwitz-Birkenau, com a chegada do exército soviético.

Esquecer esse dia é ser cúmplice da mais atroz das ideologias, do mais bárbaro racismo e da maior alienação coletiva. Calar aos filhos e netos o horror dos que aí morreram nas câmaras de gás, é colaborar na repetição a que a loucura dos homens pode conduzir.

O antissemitismo cristão

Surpreende o vigor com que o cristianismo e, em particular, o catolicismo nega quase vinte séculos de antissemitismo militante, hoje menos virulento do que o islâmico.

Martinho Lutero que conhecia a Bíblia tão profundamente quanto a corrupção papal, dizia dos judeus: «são para nós um pesado fardo, a calamidade do nosso ser; são uma praga no meio das nossas terras». (1543)

Quanto à ICAR não é preciso recordar o tribunal do Santo Ofício, basta relembrar as declarações papais ou citar as abundantes e descabeladas manifestações de ódio que o Novo Testamento destila.

Eloquente, chocante e demente foi a atitude do cardeal da Alemanha, Bertram, ao saber da morte do seu idolatrado führer Adolfo Hitler. Já nos primeiros dias de maio de 1945, com a derrota consumada (a rendição foi no dia 8), ordenou que em todas as igrejas da sua arquidiocese fosse rezado um requiem especial, nomeadamente «uma missa solene de requiem, em lembrança do Führer». Entretanto o católico Salazar decretou três dias de luto pelo facínora.

Para alguns católicos e, sobretudo, para ateus, agnósticos e fregueses de outras religiões, é preciso dizer-lhes que, de acordo com a liturgia do requiem, uma missa solene de requiem se destina a que os devotos possam suplicar a Deus, Todo-Poderoso, a admissão no Paraíso do bem-aventurado em lembrança de quem a missa é celebrada.

Os quatro Evangelhos (Marcos, Lucas, Mateus e João) e os Atos dos Apóstolos são uma fonte de ódio antijudaico cristão, tal como o Corão para os muçulmanos. Felizmente, os cristãos, sobretudo os católicos, leem pouco a Bíblia e creem vagamente no conteúdo.

Em períodos de crise, há o risco de se agarrarem ao livro sagrado como os alcoólicos à bebida e, tal como estes, sem discernimento ou força anímica para renunciarem à droga, inibem-se pela habituação e dependência que os escraviza.

O livre-pensamento é uma tentativa séria para promover uma cura de desintoxicação, absolutamente necessária nesta Europa onde o antissemitismo desponta em numerosas manifestações de matriz nazi.

Curiosidades – Passos Coelho, Pires de Lima e o Syriza

Se não fosse o medo de morrer de vergonha pelos governantes que nos couberam, teria morrido de riso. O indescritível Passos Coelho considerou que os gregos votaram mal e o exótico ministro Pires de Lima achou insólito que um partido de «extrema-esquerda» se aliasse, em meia-hora, a um partido que está ‘ainda’ mais à direita do que qualquer dos partidos que estão no Governo português. De facto, é preciso ser extremista embora o Nuno Rogeiro tenha dito que é equivalente ao CDS.

Camilo chamou a Frei Gaspar da Encarnação «uma santa besta», epíteto que não uso para os supracitados, por três razões: primeiro, não sou forte em zoologia, segundo, não quero cair sob a alçada do Código Penal e, finalmente, eles podem não ser santos.


segunda-feira, janeiro 26, 2015

Passos Coelho, a economia e a fé

Ontem o trágico PM que os portugueses escolheram foi, na qualidade de governante, à inauguração da Residência Sénior Casa de S. Paulo, na Cova da Piedade, em Almada.

Tratando-se de uma obra da Igreja católica estava naturalmente presente o pároco, o que era forçoso, e o presidente da Câmara de Almada, o prestigiado médico Joaquim Judas, filantropo e militante do PCP, o que era natural e de elementar cortesia.

Juntou-se à cerimónia, em campanha eleitoral, Passos Coelho que de economia mostrou ter aprendido,  no curso tardio, a persignar-se durante a bênção, demonstrando que, num país laico, conhece o sinal mais.

Lamentável foi a obsessão eleitoral. Virou-se para o Presidente da Câmara e aconselhou a que não entravasse o início da atividade da Residência que, pelos vistos, não começou ainda a funcionar, mas já contou com a bênção e a inauguração.

O Presidente da Câmara, com a paciência evangélica de quem conhece o PM que temos, lá o informou de que isso depende do ministro da Segurança Social.

Corrupção

Agora, que o Syrisa ganhou as eleições, refere-se a corrupção na Grécia e em Portugal, contrariamente ao que sucede na Alemanha, quando foi esta que corrompeu, de facto, altas individualidades gregas e portuguesas para lhes vender submarinos.

Na Grécia até foi preso um ministro. Em Portugal, felizmente, prescreveu o processo.


domingo, janeiro 25, 2015

A Grécia, o Syrisa e a União Europeia

A coragem e o desespero deram-se as mãos num grito de esperança, na manifestação de raiva e no corajoso desafio à União Europeia.

A Grécia, tal como Portugal, empobreceu com os empréstimos que colocaram a dívida a níveis intoleráveis, e conduziram o País ao desespero, fome, miséria e humilhação. Cada dia foi maior a dívida e o desemprego, mais penosa a vida e mais intangível o equilíbrio financeiro. Entre a espada e a parede, o eleitorado escolheu a espada.

A Grécia tudo suportou, incluindo a repressão policial, mas a humilhação ultrapassou o limite que a dignidade permite. Não é apenas o país, berço da nossa civilização, que não sabe como reagirá a União Europeia, de que não pode ser expulsa, é esta que terá de decidir o que fazer com a Grécia.

Seria lamentável que à vontade expressa nas urnas se seguisse uma vingança, à guisa de vacina que advirta os povos para os limites da própria liberdade.

Eu teria votado Syrisa e, pelo menos, respeito a decisão do povo grego. Estou solidário, mas não eufórico, com a vitória da democracia, a manifestação de coragem e o exemplo de um povo que os burocratas da troika humilharam continuamente.

Eu sei do que estes líderes europeus são capazes, da crueldade com que o capital pune, dos riscos que corre quem desafia a europa alemã, capaz de homenagear serventuários e incapaz de ser solidária, como, depois da guerra, foram para com ela.

Fico, em pungente ansiedade, solidário com a Grécia, a pensar em Portugal, à espera de que os deuses do Olimpo não sejam derrotados por uma única e execrável divindade – os mercados –, e pela raiva dos países mais poderosos da União Europeia.  

A insustentável leveza do ecumenismo

Na mesquita de Lisboa – disse a comunicação social –, juntaram-se, em oração, cristãos, judeus e muçulmanos, numa comovedora e fraterna devoção ao Deus abraâmico que os empurra para intermináveis guerras numa orgia de sangue que começou com um gracejo divino a dizer a Abraão para lhe sacrificar o filho, o que o troglodita faria se não tivesse sido uma brincadeira de Deus para pôr à prova a sua fé. O Deus de Abraão não confiava nos homens mas estes teimam em confiar nele.

Não penso que as orações pela paz sejam ouvidas, onde ou por quem quer que seja, mas é comovedor saber os três monoteísmos unidos por um intenso e unânime desejo de paz.

Foi lindo ver a notícia mas gostaria que o ato litúrgico tivesse ocorrido simultaneamente numa sinagoga de Jerusalém e numa mesquita da Palestina, que na Arábia Saudita e no Iémen, uns de joelhos, outros de cócoras e todos de rastos, anunciassem não mais matar.

Assim, em Lisboa, numa cidade cosmopolita, pode encenar-se uma cerimónia pacífica, mas onde a correlação das crenças não é mediada pela laicidade do Estado e pela força da democracia, há a sharia, bem mais de difícil de satirizar do que crenças anacrónicas.

Quem detesta decapitações, lapidações, amputações, vergastadas e outros castigos que fazem babar de gozo os funcionários de Deus e as multidões intoxicadas pela fé, não se conforma com espetáculos pios encenados.

O catavento e o presidente do BCE


sábado, janeiro 24, 2015

As eleições gregas e o BCE: “First we take Manhattan, then we take Berlin”…


As eleições legislativas que decorrerão amanhã na Grécia são um severo e decisivo teste às ‘soluções europeias’ face à crise financeira que varre o Mundo desde 2008. Originária em Wall Street essa proteiforme crise atingiu duramente a Europa, nomeadamente os países periféricos, cuja debilidade económica e social, bem como descontrolos orçamentais, os tornou uma presa fácil do financeirismo internacional.
 
A ‘crise’ subsidiária de actividades especulativas dos mercados que grassavam pelo sector financeiro mundial, nomeadamente o bancário (bancos de investimento), foi um descalabro que rapidamente atingiu transversalmente a economia real traduzindo-se numa catadupa de falências de empresas, profundos cortes salariais e despedimentos em massa. Instalou-se a recessão.
Simultaneamente, os ‘investidores’ resolvem, face aos défices de liquidez, pressionar estes mesmos países agitando a ‘crise das dívidas’ ponto vulnerável dessas debilitadas economias. Na periferia da Europa o festim foi grandioso.
 
Na verdade, na Europa do Sul para animar o desenvolvimento e caminhar no sentido da coesão (social e económica) socorreu-se do investimento público para atingir patamares de desenvolvimento. A resposta inicial face ao anúncio da crise foi ‘keynesiana’ com o intuito de travar a esperada recessão mas a breve trecho o poder político europeu, a reboque do contexto global, enveredou por um caminho neoliberal com todo o cortejo de consequências: austeridade, empobrecimento, as ditas ‘reformas estruturais’ (que mais não são do que uma tentativa de consolidação das medidas austeritárias) e a completa submissão aos mercados financeiros.
 
A circunstância de alguns dos países periféricos terem, na resposta inicial às ameaças da crise (recessão e desemprego), optado por acentuar o investimento público viria de imediato evidenciar graves desregulações orçamentais (absolutamente planeadas como uma resposta) e geraram um aumento das dívidas públicas (soberanas) e foi por esse caminho que os ‘mercados financeiros’ resolveram atacar.
 
O problema da dívida (existente de facto em termos de facto e nominais) deu azo à imposição e à justificação (o tal ‘viver acima das possibilidades’) de duras políticas de austeridade como um instrumento de controlo dos deficites orçamentais e supostamente das dívidas públicas. 
Ao fim de um longo período de execução (a história das crises financeiras era no sentido de uma curta duração embora os efeitos fossem visíveis a médio-prazo) os equilíbrios orçamentais foram discretos (e objecto de acertos e postergações tal era o seu irrealismo), pelo caminho submergiram as ‘conquistas’ do Estado Social (considerado ‘luxuoso’ e ‘perdulário’) e as dívidas galgaram os ratios em relação ao PIB, tornando-as insustentáveis (e ‘impagáveis’). 
Ao fim e ao cabo a resposta austeritária desenhada e ditada pelos mercados e seguida pela Europa revelou-se pródiga no que respeita a sacrifícios e parca (para não dizer desastrosa) em resultados.
A par da austeridade a questão da dívida foi sendo protelada sob os mais variedados pretextos, um deles obscenamente desafiador da inteligência e compreensão humana, i.e., tentou ‘vender’ a ideia de que da austeridade (do empobrecimento brutal) ‘nasceria’ o crescimento económico que aprioristicamente foi apodado de ‘saudável’ e ‘sustentável’. Na realidade, todos os ajustamentos, todas as intervenções externas não pararam de fazer aumentar a dívida pública e, por essa via, condicionar o crescimento económico. 

Tentou-se - até as eleições gregas - esconder que a austeridade estava ligada à recessão e, pior, camuflar um dos objectivos de sempre, i. e., continuarem os países em recessão e fustigados pela deflação a pagar, com língua de palmo, juros usurários aos ditos mercados. 
É neste ponto que estamos. Manter como uma ‘vaca sagrada’ o cumprimento do ‘serviço da dívida’, tal como os mercados exigem, pagando religiosamente juros cujas taxas estão sujeitas a flutuações de contexto decididas não se sabe quando e por quem. Ninguém quer falar da reversão (devolução) do capital emprestado porque toda a gente já se apercebeu dessa impossibilidade. Aliás, os investidores estão manifestamente interessados que os países periféricos mantenham ad eternum o estatuto de ‘devedores’ e reservam para eles próprios os benefícios de perenes ‘credores’. Enquanto esta situação durar os mercados financeiros continuarão a demonstrar confiança nas políticas que têm sido implementadas pela clique neoliberal europeia e estarão disponíveis para financiar as (suas) políticas e os seus desvarios.

As recentes medidas de intervenção advindas do BCE poderão favorecer o alongamento da actual situação de transferências de dinheiro dos cidadãos para os mercados sem resolverem a essência dos problemas. Isto é, com a compra de dívida nos mercados secundários que o banco central vai praticar permitirá utilizar metodologias de emissão de dívida (supostamente a juros mais suaves) para liquidar empréstimos antigos à custa de contracção de novas dívidas. Esta a táctica de manutenção de uma espada de Damocles sobre os países periféricos. 
Deste modo a reestruturação da dívida – uma inevitabilidade segundo a maioria dos economistas - poderá estar a ser adiada e substituída pelo seu ‘rolling over’ empurrando-a com o umbigo em direcção ao precipício, com os acrescidos e permanentes riscos de imparidades que este método acarreta. Este risco é muito visível em muitas das declarações que responsáveis europeus tecem sobre as eleições gregas. Mas toda a gente já percebeu que o tabu da dívida poderá cair estrondosamente no domingo em Atenas.

Aliás, o repisando este assunto, existe uma pergunta premente e nunca equacionada ou sequer respondida: 
- Porque razão o ‘quantitative easing’ não foi adoptado pelo BCE quando os mercados fabricaram a crise das dívidas públicas e se resolveu lançar os países em dificuldades na arena da austeridade e do empobrecimento?  
Ao que tudo indica não haveria então – como parece não existir no presente – qualquer impedimento nos tratados da União Europeia. Logo, as razões foram eminentemente políticas e esconderam por detrás de obscuros interesses financeiros apresentados sob a capa de moralista da ‘honra dos compromissos’.
Na realidade, nada do que o BCE promete e ameaça fazer será executado contra os mercados. É, portanto, de supor que as recentes medidas sejam absorvidas pelo sistema financeiro para substituir velhas ‘bolhas’, por outras, devidamente recauchutadas e deste modo consolidar o domínio do monetarismo sobre a componente política. Esta via compromete de maneira directa e brutal os actuais conceitos de soberania e as práticas democráticas que (ainda) nos regem. 

Foi por essa razão, ou por entender essas motivações, que o comício do Syriza no encerramento da campanha eleitoral em Atenas se cantou bem alto algo que revestindo-se de imenso significado sistematiza este percurso crítico. Quando em uníssono no comício de Atenas se trauteou “First we take Manhattan, then we take Berlin”, uma misteriosa canção de Leonard Cohen difícil de enquadrar no tempo e no espaço, os gregos sabiam - por um saber de experiência feito - porque o fizeram…

Uma no cravo outra na ferradura

Tive um amigo que dizia, bem humorado, que dos três filhos só o primeiro era dele, sendo o segundo filho do Ogino-Knaus, aliás dois, Hermann Knaus e Kyusaku Ogino, e o terceiro da sogra. O último resultara do método que a sogra ensinara à filha e que não se revelou mais eficaz na contraceção do que o método das temperaturas.

É da saudar a abertura do papa Francisco para a limitação da natalidade no planeta, que já não suporta a população atual. Dizer aos casais católicos, nos outros terá ainda menos influência, que devem ser conscientes e não se reproduzirem como coelhos, é acertado e revela consciência social.

As Igrejas são instituições difíceis de compreender e de difícil compreensão do mundo.

Não se pode exigir a um homem solteiro, por mais amparo que tenha do Espírito Santo, pai uma só vez, de forma exótica, que seja uma autoridade em contraceção e que rompa com os preconceitos da sua Igreja.

Francisco esteve bem na advertência à proliferação humana, condenando o fenómeno mimético com a cunicultura, mas esteve mal quando, manteve a tradição de aconselhar os métodos caseiros do meu amigo e, pior, quando apelou à abstinência, um método tão infalível, é certo, como o do copo de água. Em vez de.

Esqueceu o apelo das hormonas.


sexta-feira, janeiro 23, 2015

Cavaco Silva – 9º aniversário na Presidência da República


Em democracia, nunca tantos portugueses desejaram tanto que passe depressa o último ano do segundo mandato de um PR.

Associação Ateísta Portuguesa (AAP)

Email para «Je suis Charlie Hebdo »

Chers Messieurs,
La barbarie semble être partout ; la démocratie et l’ensemble des droits et libertés qu’un régime républicain se doit d'assurer – notamment la liberté d’expression et la liberté d’opinion – sont en danger.

En tant qu’Association Athéiste Portugaise (AAP), fondée en 30 mai 2008 à Lisbonne, nous voulons démontrer notre engagement vis-à-vis de ces principes. C'est pourquoi la Direction de notre Association, a décidé à l'unanimité de vous adresser une contribution financière symbolique de 1 000 €.

Avec notre profonde solidarité, veuillez agréer, chers Messieurs, l'expression de nos sentiments les meilleurs.
a) A Direção da Associação Ateísta Portuguesa.

Odivelas, le 22 Janvier de 2015

Annexe: Ci-joint vous trouverez le document concernant l’opération bancaire.

PT Portugal estava à venda

Com este Governo, cúmplice da alienação, na obstinada agenda ideológica a que Garcia Pereira, nos Prós e Contras, designou de «traição à Pátria», a PT foi vendida quase sem votos contra.

O Governo na sua teologia do mercado é insensível aos interesses de Portugal. O Novo Banco, a CGD e a Segurança Social tinham capacidade para impedir a OI de vender a empresa como quem vende hortaliça.

Os coveiros continuarão até ao fim do ano com a bênção do seu mandatário.


quinta-feira, janeiro 22, 2015

A burka e a liberdade

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH) considerou em 20-01-2015 “legítima” a proibição do uso de véu integral em França, rejeitando um pedido de uma francesa que reivindicava o direito a usar o niqab ou a burqa.

Parece um paradoxo que a decisão mereça o aplauso de quem defende as mais amplas liberdades e a censura dos que geralmente as negam, mas são os mais permissivos nos costumes que condenam o analfabetismo, a recusa de vacinas ou o uso da burka. Quanto a normas de higiene, a regras de saúde ou hábitos de educação, por exemplo, não devem permitir-se sistemas alternativos. Incoerência? A democracia proíbe e a teocracia impõe.

Há, quanto à burka, um argumento irrefutável se for comparada aos capacetes, máscaras ou outros adereços que impeçam, por motivos de segurança, o reconhecimento de quem os usa. Basta esse fundamento para legitimar a decisão proibitiva do Estado.

Mas vamos à sub-reptícia defesa da liberdade de religião, também apelidada de cultura. É natural que uma mulher criada numa sociedade ou família onde se incentive o uso, se sinta disponível para o aceitar ou defender, mas, por cada mulher a quem se recusa esse símbolo de humilhação, há milhares a quem é imposto, se a lei o não impedir. Os filhos de escravos adaptavam-se mal à liberdade e houve escravos que preferiam permanecer.

Não se trata do conflito entre culturas diferentes, digladiam-se a civilização e a barbárie, a modernidade e o anacronismo, a igualdade de género e a submissão da mulher.

Quem sustenta que não se pode satirizar uma religião, entende talvez que não se deva impedir o uso público da burka porque, depois, se persegue a excisão do clitóris, a seguir a lapidação de mulheres e, finalmente, se esvazia uma religião pacífica quando se impedir a amputação de membros, a decapitação de hereges e a venda de noivas.

A situação é diferente quanto ao uso da palavra e da imagem. Se hoje proibimos uma revista satírica, amanhã condenamos a pornográfica, depois o filme que é ofensivo e, finalmente o livro. Voltamos à censura e reiniciamos as guerras que nos outorgaram a liberdade.

A laicidade vai ganhando terreno. Lenta e penosamente.

Ponte Euroa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 21, 2015

DESCULPABILIZAÇÃO DOS ATENTADOS TERRORISTAS ISLÂMICOS

Passados os primeiros dias de indignação geral pelo atentado assassino contra os redatores do Charlie Hebdo, logo começaram a ouvir-se as costumadas vozes de extrema-direita e de extrema-esquerda a desculpabilizar os seus autores.

Desta vez o principal porta-voz da extrema-direita foi Sua Santidade o Papa, que disse, em substância, que se alguém ofendesse uma religião era natural que levasse “um murro”. Claro que, neste caso, a palavra “murro” é um eufemismo. Todos sabemos como são os “murros” da Igreja Católica: as horríveis torturas da Inquisição, os autos-de-fé, etc.

Quanto à extrema-esquerda, esmera-se nuns rebuscados raciocínios dos quais acaba por concluir que os verdadeiros culpados do atentado foram, como sempre, a CIA, os EUA, a NATO, enfim, o “Ocidente”. Isto é: “os suspeitos do costume”.

Esta esquerda caracteriza-se por ter dois pesos e duas medidas. Se no “Ocidente” um marido der um empurrão à mulher logo protesta – e faz muito bem – contra a violência doméstica. Mas se um muçulmano matar a mulher à pancada já não há problema nenhum (ou então a culpa foi da CIA).

Se um Estado ocidental tivesse a peregrina ideia de proibir o “topless” nas praias, seria – e muito bem - um coro de protestos por parte dessa esquerda. Mas se os islâmicos obrigam as mulheres a andar de burka, acham muito bem. Como também não os incomoda a excisão genital feminina…desde que praticada por islâmicos! Bem vistas as coisas, a culpa é da CIA!

A adoção de crianças por casais do mesmo sexo

No chumbo da votação, a que a AR vai proceder, não está em causa uma questão moral, está em causa um preconceito e, quase sempre, por razões meramente confessionais ou de oportunismo político.

Escrevi ‘quase’ porque há deputados cuja formação religiosa os impede de votar uma lei que, na sua fé, e, com seriedade igual à minha, consideram inadequada. No meu ponto de vista, cujas dúvidas são habitualmente tão fortes quanto as certezas deles, não vejo razões morais para votar contra a lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo.

Neste momento, há crianças filhas de um dos membros do casal que vive legalmente em regime de comunhão de adquiridos. Se lhes faltar o vínculo familiar ao outros membro, em caso de morte do cônjuge de quem era filho, perde o direito à responsabilidade e aos bens do cônjuge sobrevivo. É, pois, uma questão de proteção das crianças o que está em discussão. Deve punir-se uma criança e arredá-la do direito sucessório pelo facto de ser criada por um casal do mesmo sexo?

Valia a pena estudar “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Friedrich Engels, baseado nos estudos de um dos fundadores da antropologia moderna, L. H. Morgan.

O voto contra não passa de uma punição a crianças que não têm culpa de viver no seio de um casal que alguns consideram viver em pecado. É mera vingança contra pessoas erradas e indefesas.


terça-feira, janeiro 20, 2015

Mateus 3:7

Evangelho de Mateus (3:7) «Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura»?

Não se podem ofender as religiões, mas Mateus, um evangelista com créditos cristãos firmados, não se coibiu de atribuir a Cristo esse vitupério à elite judaica, um hábito que ficou na oração católica das sextas-feiras, já abolida, e que Lutero e Hitler repetiram.

Não foi por acaso que o nazismo, uma ideologia sinistra de natureza secular, teve apoio do clero protestante e católico que lhe entregaram os registos de batismo para, por exclusão, diagnosticar judeus de forma mais expedita.

O «ninho de víboras», como o meigo Jesus designou o judaísmo,  não será ofensa mas era útil que o Papa Francisco, santo por profissão e estado civil, desmentisse a estrela da Companhia e o seu biógrafo Mateus.


Há que prefira os conflitos sem liberdade de expressão


Num editorial, o Global Times, jornal próximo do Partido Comunista Chinês, reagindo a esta caricatura do jornal humorístico francês, Fluide Glacial, escreveu: «a mania da liberdade de expressão pode gerar conflitos». (In DN, hoje, pág. 2)

segunda-feira, janeiro 19, 2015

A FRASE

«Acho que numa sociedade livre existe o direito de ser ofensivo com a religião dos outros».

(David Cameron, PM do Reino Unido, a manifestar discordância com o Papa)
Fonte: DN, hoje, pág. 8)


O conflito israelo-árabe

A independência de Israel, em 14 de maio de 1948, foi um erro que o futuro mostrou ser perigoso.

A adoção da resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 29 de novembro de 1947, recomendando a adesão e implementação do Plano de Partilha da Palestina para substituir o Mandato Britânico, criou uma teocracia judaica, rodeada de teocracias islâmicas, ungida pela comunidade internacional onde o remorso, o cinismo e as boas intenções se reuniram.

Hoje, sendo as coisas o que são, devem os países exigir a Israel a devolução de território que foi conquistando à Palestina e esta a respeitar a existência e segurança do Estado de Israel. Não podemos perpetuar acusações mútuas de natureza política e, muito menos, usarmos o sangue alheio para a guerrilha ideológica e partidária de quem vive longe.

O Islão, no ocaso da civilização árabe, não carece do pretexto de Israel para repetir atos terroristas, nem Israel de alegar questões de segurança para perseverar no imperialismo sionista. Não há Conservatória do Registo Predial Celeste que conserve a escritura que lhe outorgou os direitos sobre a Palestina.

A alegada guerra das civilizações pode ter surgido de uma imaginação delirante mas os factos estão a encarregar-se de converter um pesadelo imaginário numa tragédia efetiva onde a civilização enfrenta a barbárie, onde quem não aceita a modernidade tem acesso às armas atuais, agravando o pesadelo e pondo em risco a segurança global.

Da França à Bélgica, da Alemanha à Dinamarca, dos EUA ao Reino Unido, um pouco por todo o mundo civilizado, os facínoras de Deus regressam da Síria e do Iraque, aptos a arrastar infiéis para o Paraíso ou Inferno, os antónimos de um lugar imaginário.


domingo, janeiro 18, 2015

O Sr. Duarte Pio e o Charlie Hebdo

O Sr. Duarte Pio, comprovado Bourbon e improvável Bragança, é conhecido por ser um imigrante suíço-alemão, a quem o salazarismo reconheceu a nacionalidade portuguesa, e que se tornou no exótico aspirante ao inexistente trono do reino de Portugal.

Além de várias tolices avulsas, é autor de um opúsculo em que pesquisou a devoção dos cavalos de D. Nuno Álvares Pereira que se ajoelharam em Fátima antes da batalha de Aljubarrota: “Quando passava de Tomar a caminho de Aljubarrota, a 13 de Agosto de 1385, D. Nuno foi atraído a Cova da Iria, onde, na companhia dos seus cavaleiros, viu os cavalos do exército ajoelhar, no mesmo local onde, 532 anos mais tarde, durante as conhecidas Aparições Marianas, Deus operou o Milagre do Sol».
 (“D. Nuno de Santa Maria - O Santo”, ACD Editores, 2005).

Referindo-se a Saramago declarou a um jornalista que «...é uma ganda merda», antes de responder à pergunta sobre os livros que tinha lido do Nobel, tendo declarado que nunca leu tal autor e deixando a ideia de que nem esse nem outro.

Ontem, afirmou em Braga que o semanário ‘Charlie Hebdo’ é “um pasquim nojento”. Ora aqui está um direito inalienável à liberdade de expressão e um pensamento legítimo. Lamentável seria se revelasse sobre a liberdade o mesmo pensamento do antepassado de que herdou o nome, a devoção e a cultura.

O Sr. Duarte Pio é um conhecedor mais profundo da devoção equídea do que do humor, da sátira ou do desenho, sentindo-se mais à-vontade numa estrebaria do que na redação de um jornal satírico.


Na antecâmara de novas medidas securitárias…

A questão da segurança dos cidadãos europeus face à ‘ameaça jihadista’ estará na agenda política dos países membros da UE, nos próximos tempos.
Estamos (estão os políticos) a criar a necessidade de legislar para defender diversas ‘conquistas’ [civilizacionais] que objectivamente se encontram sob uma velada ameaça. 
Na verdade, o perigo vem de diversas direcções sejam dos extremistas religiosos (latu sensu) ou de formações políticas autoctones (europeias) que intentam minar o projecto europeu. Existem, portanto, ‘ventos’ que sopram de vários quadrantes.

A primeira grande regra deverá ser o escalonamento de prioridades fundamentais e, para além disso, o reafirmar de conceitos (também fundamentais). O perigo de uma ‘deriva securitária’ que inquine todo o espaço europeu não é despiciendo e deve ser a preocupação central do modelo de sociedade futura (que desejamos para a Europa).

Interessaria obter consensos sobre pontos essenciais. A segurança adquire-se pelo pleno exercício das liberdades individuais e colectivas e não com constrangimentos. Isto é, as liberdades não são emanações de medidas de segurança decorrendo, isso sim, do exercício dessas mesmas liberdades. 
Não impressionam as manifestações (qualquer que seja a sua dimensão) de cidadãos afirmando, p. exº., que “são muçulmanos e amam o profeta” desde que estejam asseguradas e protegidas [pelo Estado de Direito] opções e convicções de os cidadãos poderem não acreditar em [quaisquer] divindades, i. e., um direito e, simultaneamente, o dever social e cívico de “amar o próximo” (para usar uma expressão grata do catolicismo).

Isto é, o enviesamento multissecular da liberdade de expressão [e de manifestação] com outras liberdades (entre elas a religiosa) atingiu, no presente momento, um ponto crítico muito à custa de estratégias religiosas. Na verdade, as religiões assentando sob crenças de natureza dogmática convivem mal com a amplitude das liberdades que, na era contemporânea, modelam civilizacionalmente os seres humanos e são na sua essência ‘libertárias’. Todavia, parece evidente e notório que a adaptação aos novos tempos deve partir das confissões religiosas e não o inverso. Nomeadamente, passará pelo abandono das múltiplas formas e modelos de proselitismo que se transformaram em instrumentos para conquista de influências e poderes seculares. Uma sociedade pejada de condicionamentos ‘sagrados’, repleta de tabus e controlada pelo medo, nunca será livre.

Esta mistura é explosiva e nada tem a ver com eventuais revisões do Tratado de Schegen ou outras medidas excepcionais de segurança que, por mais malabarismos políticos que se façam, acabam por condicionar [quando não anular] liberdades fundamentais, indispensáveis para assegurar a dignidade humana. As soluções não são fáceis, nem serão expeditas, mas não podem assentar na promoção de estados de excepção encapotados.
 
E a grande questão será equacionar a capacidade política dos actuais dirigentes europeus em enfrentar o peso dos ‘poderes religiosos’ [e não só do Islão] sobre a sociedade civil mas, simultaneamente, passa pela reafirmação dos ideais do Iluminismo [não será preciso ‘inventar’ nada de novo] que, paulatinamente, nos têm conduzido em direcção a uma vida mais pacífica, mais justa e mais digna, logo, a incontestáveis ‘avanços humanitários’. O ‘fecho de fronteiras’ face a esta espécie de caótico ‘renascimento religioso’ a que assistimos vai isolar-nos sem sermos capazes de enfrentar ou resolver as verdadeiras causas e as pertinentes questões que gravitam à volta dos endémicos fundamentalismos.

Fora do polémico conceito de ‘guerras de civilizações’ existe, contudo, uma evidência de ‘ameaça civilizacional’ (uma outra coisa!) que, inevitavelmente, nos conduzirá a [mais] um dramático empobrecimento social e cultural, tanto mais grave quanto é previsível um ‘efeito cumulativo’ com a degradação económica e a especulação financeira que já nos assedia - quotidianamente - a vida.
Mais pobres todos estaremos vulneráveis!

O respeitinho é muito bonito

Ao correr da tecla – o respeitinho é muito bonito

“Temos a obrigação de falar abertamente, de ter esta liberdade, mas sem ofender. É verdade que não se pode reagir violentamente, mas se Gasbarri, grande amigo, diz uma palavra feia sobre minha mãe, pode esperar um murro. É normal!” (Papa Francisco)

Quando um ignaro ministro da economia é capaz de redigir um caderno de encargos de uma privatização em que atropela a lei e se vinga dos trabalhadores que não concordam com ele, tenho obrigação de o ofender, de lhe insultar a mãe (em pensamento, que é o meu registo) e de percorrer Gil Vicente para o adjetivar.

Se Paulo Portas diz que o CDS salvou o País, com uma dívida maior do que a herdada, a balança de transações correntes mais desequilibrada e o desemprego acrescido, tenho de lamentar que o aborto não possa ser retroativo.

Quando um líder religioso exige respeito por uma religião, só posso exigir-lhe respeito por quem a despreza. Se uma quiromante, um bruxo, um cartomante ou um profissional de um ofício correlativo exigem respeito pela sua profissão, só posso pedir-lhes que me convençam da sua verdade, utilidade ou interesse. E não deixarei de me rir!

Quando a religião manda matar infiéis, apedrejar mulheres ou decapitar apóstatas, deixa de ser uma associação respeitável e passa a ser um bando de criminosos. Quando apenas pretende persuadir as pessoas da bondade do incenso, da eficácia da água benta ou de que o batismo é um detergente para os pecados, apenas provoca o riso de quem não crê.

Quando um padre diz que um tsunami é castigo de Deus pelos pecados dos homens não é um ministro do culto, é um terrorista da palavra, um explorador do medo, um aldrabão que merece o nariz do tamanho da mentira e as orelhas na razão inversa da honestidade.

O respeito é uma forma subtil de censura. Porque há de um crente respeitar o ateísmo? Só não tem o direito de esmurrar os ateus. De resto, pode ofendê-los pela estupidez que lhes atribui, a insensibilidade que lhes imputa ou a maldade de que os julga capazes.

Ai de nós se esperarmos que nas madraças, sacristias, mesquitas e sinagogas vai nascer o respeito pela liberdade e imaginar que o cristianismo e o Islão desistem de converter os outros à fé que lhes ensinaram desde pequenos. A indulgência não é uma virtude evangélica, é uma conquista civilizacional adquirida com a laicidade e o secularismo.

Riam-se de mim que eu também me rio deles.

sábado, janeiro 17, 2015

Francisco e uma viagem do banal ao grotesco…

As recentes declarações do actual chefe da ICAR sobre liberdade de expressão são de um primarismo gritante e confrangedor. Quando afirma que “… se o doutor Gasbarri [organizador das ‘peregrinações papais’] diz uma palavra feia  de minha ‘mamã’ pode esperar um murro. É normal!”. link.

Sobre a liberdade de expressão existem múltiplos ‘pensamentos’ que repetidamente são trazidos à colação: “a minha liberdade tem por limite a dos outros…”; “liberdade de expressão não deve ser utilizada para ofender…”, etc.

Convinha recordar o óbvio. A liberdade de expressão é, na nossa cultura e desde a Revolução Francesa, um inalienável direito da pessoa humana, tendo como objectivo fundamental consolidar a sua dignidade e simultaneamente protege-la do livre arbítrio e das soluções de força. Poucas vezes temos ouvido esta evocação nos últimos dias. Por outro lado, pretende-se através de sinuosos exemplos, de caricaturas da realidade e da exploração do medo, vestir-lhe uma ‘camisa de forças’. E as limitações sugeridas, em nome da eficiência do combate ao Terror, pretendem passar ao lado do terrível conceito (ou acto) de censura.

A ICAR deveria ter algum pudor em teorizar sobre esta situação.  Ela historicamente tem um terrível mancha negra neste campo. Trata-se do Index Librorum Prohibitorum postura tridentina (dos meados do século XVI), que vigorará centenas de anos (até meados do século XX - 1966).  Dessa lista constaram livros de homens ilustres como Voltaire, Pascal, Rosseau, Diderot, Montesquieu (só para falar de alguns vultos da cultura francesa que os crimes do Charlie Hebdo colocaram na berra). 

O denominador comum desta longa e duradoura ‘lista de proibições’ foi a heresia que justificou muitas coisas (algumas violentas) e, no plano dialéctico, coarctou aos cidadãos a capacidade de optar e castrou muitas capacidades criativas. E deste modo espezinhou e feriu liberdades fundamentais. 

Do ‘direito à critica’, frequentemente tomado como um insulto o transito corre no sentido de  um implacável regresso ‘ao crime de blasfémia’. Um trajecto tenebroso e difícil de esconder. 
Não devemos esquecer que no 3º livro da Antigo Testamento (Levítico 24:16) está escrito: “Aquele que blafesmar o nome de Jeová certamente que será morto”!

As evasivas (ou evasões) papais desviam-se da profundidade destes assuntos e, de facto, entroncam-se num outro tema muito mais ligeiro: as rixas. Isto é desordens entre 2, ou mais pessoas, onde se esgrimem ‘golpes’ e presume-se que a reciprocidade é possível.
Tratar o trágico ‘caso Charlie Hebdo’ sob este prisma é pequenino.  Demasiado infantil. Terrivelmente vazio e grotesco.

No 20.º aniversário da morte de Miguel Torga

Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.  

Miguel Torga, in 'Diário XII'

Francisco deixou cair a tiara

Por mais que se encoste à férula, não retomará o equilíbrio que parecia distingui-lo dos dois últimos antecessores. A nódoa das declarações sobre a liberdade são o corolário da tradição romana, a síntese entre a Inquisição e a liberdade religiosa, o Index Librorum Prohibitorum e a liberdade de expressão, o concílio de Trento e o Vaticano II.

O Papa saiu da Argentina do ditador Videla mas essa Argentina não saiu de dentro de si. Francisco tem o direito de pensar o que pensa, mas os livres-pensadores têm o direito de pensar de forma diferente. Ai de nós, se tivéssemos de nos comportar de acordo com o regedor de um bairro de 44 hectares, sem maternidade, constituição ou democracia. O líder da única teocracia europeia, nascida dos acordos de Latrão, entre Mussolini e o Papa de turno, não faz a lei dos países democráticos.

O Papa tem o direito de pensar que «Não podemos provocar, não podemos insultar a fé dos outros, não podemos ridicularizá-la» (…) e que «É legítimo usar esta liberdade, mas sem ofender».  Eu é que reclamo, dentro das leis do meu país, o direito de rir das roupas femininas com que se veste, de gozar com o fenómeno alquímico dos sinais cabalísticos que transformam a água da rede em benta e a rodela de pão ázimo em carne e sangue de um profeta com dois milénios de defunção.

O passado das Igrejas só não é motivo de riso porque o horror e as lágrimas o impedem. Pensar que o Sol parou em Fátima e que durante séculos fez o movimento de translação à volta da Terra é tão cómico como a cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus por D. Nuno Álvares Pereira, quando a cozinheira de Ourém o queimou com salpicos de óleo fervente de fritar peixe porque tinha uma pagela do herói medieval que logo beijou.

Haverá ato de humor mais apropriado do que desenhar um preservativo no nariz de um Papa cuja teologia do látex se tornou responsável pela infeção de centenas de milhares de pessoas a quem dissuadiu do seu uso?

O Aiatolá  Khomeini, na sua piedosa loucura, emitiu uma fatwa contra Salman Rushdie e o Papa, o arcebispo de Cantuária e o grande rabino de Jerusalém foram unânimes no silêncio cúmplice. Deviam ser respeitados? O falecido bispo de Coimbra, João Alves, escreveu no Diário de Coimbra que compreendia a fatwa contra o escritor  porque este tinha ofendido o profeta que, para os muçulmanos, era sagrado.

Sagrada é a liberdade de rir e criticar. O que os papas disseram dos ateus era um direito, não o que lhes fizeram.

sexta-feira, janeiro 16, 2015

A TAP e o apodrecimento do Governo

O Governo, na sua impetuosa obstinação de tudo privatizar, torna-se um corpo pútrido que se desfaz, um cadáver insepulto a que o coveiro contratado recusa a enterro.

Ontem, o ministro Pires de Lima e o secretário de Estado, Sérgio Monteiro, no ódio às leis, equivalente ao de Maomé ao toucinho, referiam-se a uma clandestina privatização da TAP, de que desconheciam o preço e as condições, onde o comprador apenas ficava responsável por não despedir, durante algum tempo, os trabalhadores dos sindicatos que se mancomunaram com o Governo.

Os outros trabalhadores, diziam com desfaçatez os ignaros governantes, não podiam ter os mesmos direitos dos que cederam ao Governo e, na sua estultícia, afirmaram que era uma questão jurídica, a diferença entre quem aceitou subscrever o que o Governo queria e quem recusou.

A mais despudorada marginalidade, a mais vergonhosa ofensa aos direitos e ao respeito mínimo pelo Estado de direito, levou hoje o alegado PM a dizer que o alegado ministro da economia lhe tinha pedido para informar a AR de que as suas palavras tinham sido mal interpretadas.

Talvez. Afinal, nenhum deles sabe o que diz e, menos ainda, o que faz.


Momento de poesia

Dissertação sobre as vírgulas…

À minha amiga Maria João Correia,
que se diverte imenso, quando eu
invento uma vírgula…

Não ligues
são apenas moscas
entre as palavras
como se fossem pestanas
a embelezar o olhar
de quem as lê.
São artifícios burlescos
para ilustrar os discursos dos políticos
às segundas feiras
quando inventam as mentiras
para entreter os jornais durante a semana
são as pausas do esquecimento
quando já não há mais nada para dizer
a não ser o que foi dito
ou, se quiseres, são os berros do Cristiano Ronaldo
quando os neurónios migram para os pés
e ele dá pontapés na gramática.
A vírgula é uma síntese do nada
e o limite do zero absoluto,
a bissetriz dos ângulos rugosos da memória,
o ponto morto do equador,
que o Gama levou para a Índia
e que por lá ficou a apodrecer
no túmulo de um jesuíta.
Mas a vírgula é muito mais do que isto.
A vírgula é, na sua profunda essência e potência,
a caganita da mosca, que aterrou no poema…

Alexandre de Castro

Lisboa, Janeiro de 2015 

Sim mas… ou a cobardia e a dissimulação

Perdoo menos aos que me são próximos do que aos de que me distancio. Compreendo as reservas do patriarca de Lisboa, do Papa ou mesmo do intelectual Boaventura Sousa Santos. Aceito a convicção do primeiro a defender o direito à vida, mas… a considerar irrecusável «a liberdade e a responsabilidade de expressão e o direito a ser considerado naquilo que são as convicções e na expressão das ideias», numa forma dissimulada de limitar a liberdade de expressão, quando ninguém o obriga a ler um jornal satírico ou a assistir a um filme iconoclasta. Lembro-lhe que Pio IX excomungou comunistas, ateus, livres-pensadores, democratas e liberais. Pensará a ICAR levantar-lhes a excomunhão?

A liberdade não nasceu nas sacristias mas contra elas. O direito à blasfémia custou vidas e provocou tormentos inauditos. O medo do Inferno embruteceu gerações e as religiões, incluindo o cristianismo, crucificaram a liberdade. Em democracia não se provocam os crentes nos seus espaços, mas nenhuma religião tem o direito de banir a negação, crítica ou sátira do seu deus, através da imagem ou da palavra, fora do adro dos seus templos.

O papa, que hesita entre a modernidade que os dois antecessores recusaram e a tradição que mantém o negócio, acaba por dar razão aos terroristas, talvez lembrado da tradição da sua Igreja, ao afirmar que «Não se pode insultar a fé dos outros». E o ateísmo, pode?

Em Boaventura Sousa Santos, com a inteligência que se lhe reconhece, é bem patente aquela esquerda que saiu das madraças católicas onde se ensinava a catequese da nossa infância, minha e dele. Tem uma visão social progressista e uma leitura inquisitorial do livre-pensamento.

A quem não perdoo é à eurodeputada do PS, Ana Gomes, cuja estima, ganha em Timor, se esvaziou na náusea, pela pusilanimidade das suas posições em relação à liberdade de expressão. A cobardia atinge o asco quando pergunta: «Porquê insistir na representação do profeta, que se sabe ofender os muçulmanos? Não estou de acordo». Prefere que os sevandijas matem mais cartunistas?

É desta cobardia, denominada bom senso, que se fazem as vitórias dos que nos querem de joelhos, mãos postas e prostrados perante um ser imaginário. E sempre, e só, o deles.

Ontem todos eram Charlie, hoje são mais as deserções do que as adesões sem «mas».

ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana.


quinta-feira, janeiro 15, 2015

A censura das religiões


Jornal judeu apaga mulheres da marcha dos líderes em Paris

Ultraortodoxo HaMvaser segue a regra dos judeus Haredi, que proíbe a publicação de fotos de mulheres. Angela Merkel e Frederica Mogherini 'desapareceram' da foto da marcha.

O homem era um santo (crónica)

A mulher, que chegava do trabalho antes dele, chegou ao ponto de lhe dizer que não era sua criada, que um dia acabava o hábito de ser ela a única a cozinhar, a lavar e a passar a ferro a roupa, a fazer a cama e a limpar a casa.

O homem, um santo, aguentava a desfaçatez, suportava a sopa, a que faltava ou sobrava sal, sem um queixume, a salada que estava mal temperada, o peixe mal grelhado e ainda a ouvia resmungar enquanto lia o jornal e ela arrumava a mesa e lavava a louça.

Casados há mais de vinte anos, a mulher queria agora gozar dos mesmos direitos, exigir iguais deveres para ambos, depois de ter criado dois filhos sem que o marido soubesse o que era mudar uma fralda ou onde era a creche ou a escola.

Suportou ao longo dos anos que a mulher tivesse um vencimento maior que o seu, sem mostrar a irritação que isso lhe causava, ouvia-a cantar quando queria silêncio e sentia-a emudecida na altura em que  queria conversar. Começou a arremessar para a roupa suja as camisas onde via uma ruga, o homem era um santo mas não podia aguentar mais.

Um dia, estava ela na lide da casa, depois de um dia de trabalho de que viera exausta, o homem não podia adivinhar, fez-lhe uma pergunta e não obteve resposta. Nesse dia, depois de anos a aguentar aquela mulher, agarrou na faca da cozinha e deixou-a a esvair em sangue, enquanto se foi entregar à polícia.

No tribunal, presidiu ao coletivo de juízes uma mulher, sem capacidade de compreensão para a bondade do homem que, naquele dia, se excedeu. As testemunhas eram unânimes a denunciar os maus tratos de que o santo homem fora vítima, mas poderia uma mulher compreender o tormento de um homem!? Na sua beca, imaculadamente passada a ferro, a juíza acusou-o de crueldade, violência gratuita e amoralidade, enfim, um exagero que as mulheres cometem, sem se esquecer de o acusar de ter repetido as facadas 12 vezes.

Quando a morta devia ter sido condenada foi o pobre do viúvo que ouviu um longo e penoso acórdão que o condenou a 18 anos de prisão. Já não há justiça. Essa defunta foi uma das 40 de que os companheiros, fartos de tanto sofrimento, acabaram por matar no ano que há pouco findou.

Não sei porquê, lembrei-me da perseguição dos polícias franceses aos que piedosamente executaram os desenhadores do Cahrlie Hebdo. Mataram os santos homens que rezavam cinco orações diárias e só queriam uma assoalhada no Paraíso recheada de 72 virgens.

Já não há justiça!

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Quando ser ministro não é currículo, é cadastro

As frases:

- «Nunca irei comentar as escolhas do Conselho Geral Independente (CGI)
- «[O CGI] representa a desgovernamentalização do serviço público»

(Miguel Poiares Maduro, ministro-adjunto, sobre as escolhas para a administração da RTP) – Fonte: DN, hoje, pág. 10)

Ao 7.º dia a vítima ressuscitou o algoz


Alguns versículos corânicos

II- 8 a 10: “Entre os homens há os que dizem: “ Cremos em Deus e no Último Dia”, mas não são crentes.
Esses querem enganar a Deus e aos que crêem, mas só se enganam a si mesmos, embora não o saibam.
Em seus corações existe uma enfermidade, que se agravará, terão um castigo doloroso por terem mentido.”

II-24: “Se não o fizerdes, e não o fazeis, temei então o fogo que tem por alimento os ídolos, e que foi preparado para os incrédulos.”

II-39: “Os que forem infiéis e recusarem a verdade contida nos nossos versículos irão para o Inferno, onde viverão eternamente.”

II-193: “Matai-os até que a perseguição não exista e esteja no seu lugar a religião de Deus. Se eles se converterem, não haverá mais hostilidade; esta não cessará senão para os injustos.”

V-33: “A recompensa dos que combatem Deus e o seu Enviado e se esforçam em espalhar pela Terra a corrupção, consistirá em serem mortos ou crucificados, ou no corte de sua mão e pé oposto, ou na expulsão da terra em que habitam. Isto será a sua recompensa neste mundo. Na outra terão um tormento enorme.”

V-36, 37, 38: ”Se os que não crêem tivessem tudo o que está na Terra e incluso outro tanto para com ele se resgatarem do tormento no Dia da Ressurreição, não se lho aceitaria: terão um castigo doloroso.
Quererão sair do fogo, mas não sairão. Terão um tormento permanente.
Cortai as mãos do ladrão (quer seja homem ou mulher) como castigo e aviso de Deus. Deus é poderoso, sábio.”

VIII-7: “…enquanto Deus queria que se tornasse patente a verdade das Suas palavras e exterminar até ao último dos incrédulos.”

VIII-12,13, 14, 15: “…Lançarei o pânico no coração dos que não crêem! Batei-lhes acima do pescoço! Batei-lhes nas pontas dos dedos!
Isto porque eles estão afastados de Deus e do seu Enviado, e os que se afastam de Deus e do seu Enviado são castigados, pois Deus é terrível no castigo.
Isso é vosso: saboreai-o e sabei que os incrédulos terão o castigo do fogo.
Ó vós que credes! Quando encontrardes os que descreem a avançar, não lhes volteis as costas.”

VIII-17: “Crentes! Não os matastes: Deus matou-os. Não atiras quando atiras: Deus é quem atira a fim de experimentar os crentes, pela sua parte, com uma bela prova.”

VIII-50: “Se pudésseis ver o momento em que os anjos chamam os que não crêem! Batem-lhes na face e nas costas, dizendo: “Saboreai o tormento do fogo!””

X-4: “…Os que não crêem terão uma bebida de água a ferver e um tormento doloroso, porque terão sido ímpios.”

XVIII-29: “…Preparamos um fogo para os injustos: as suas labaredas os rodearão. Se pedirem auxílio, serão socorridos com uma água semelhante a ácido, que queimará os rostos. Que péssimo refrigério! Que mau apoio!”

XXII-19 a 22: “Esses – os crentes e os descrentes – são dois inimigos que combatem acerca do seu Senhor. Aos incrédulos preparar-se-lhes-á uma vestimenta de fogo; do cimo da sua cabeça verter-se-lhes-á água a ferver.
Com ela se derreterá o que há em seu ventre e na sua pele.
Serão açoitados com barras de ferro.
Cada vez que, angustiados, quiserem sair do fogo, dir-se-lhes-á: “Provai o tormento do fogo!””

XLVII-4: “Quando encontrardes os que não crêem, golpeai-os no pescoço até os deixardes inertes; depois, concluí os pactos. Depois concedei-lhes favor ou libertai-os quando a guerra haja deposto as suas cargas. Assim agireis. Se Deus quisesse, vencê-los-ia sem combater, mas põe-vos à prova uns com os outros. As obras dos que sejam mortos na senda de Deus não se perderão.”

LIX-4: “Será assim, porque eles se afastaram de Deus e do seu Enviado. Quem se afasta de Deus sofre um castigo. Deus é duro no castigo.”

LXVI-9: “Ó Profeta! Combate os incrédulos e os hipócritas! Sé duro para com eles! O seu refúgio é o Inferno. Que péssimo destino!”

terça-feira, janeiro 13, 2015

Peso relativo: 1 desenho = 1.000 palavras...


Um dos cartazes que desfilou domingo 11.01.2015 na grandiosa manifestação de Paris e que diz muito...(eventualmente haverá ainda outras coisas para dizer!).

A FRASE e a PULSÃO CENSÓRIA

A frase:

«Se no passado os valentes cartoonistas mortos em França puseram Hollande com o seu ‘coiso’ de fora, o presidente português também podia ser desenhado de calças na mão e com as letras BPN tatuadas na nádega direita».
(Rui Cardoso Martins, in Pública – Revista 2)

A pulsão censória:

Existem nas sociedades europeias e noutras sociedades do mundo conquistas que são irrecusáveis e que têm que ver com os direitos humanos, onde está o direito à vida, à liberdade e à responsabilidade de expressão e o direito a ser considerado naquilo que são as convicções e na expressão das ideias».
( Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa)

Fonte: DN, 12-01-2015, pág. 14.


A prudência e a coragem

A dia de ontem deu emprego a imensos comentadores que repetiram até à náusea que os terroristas nada têm a ver com o Islamismo. Pareciam papagaios amestrados a negar as evidências. Basta ver os chacais que hoje se pronunciaram a favor da legitimidade do ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, aceitando a crueldade e o assassínio.

Devemos, no entanto, compreender a legião de mentirosos, que procuram honestamente defender de retaliações os muçulmanos. Quem os molestar deve ser punido com o rigor que os crimes sectários merecem mas não se pode absolver uma religião anacrónica que não foi capaz de fazer a Reforma, de aceitar a laicidade ou de abdicar da propriedade masculina das mulheres.
O islamismo é perverso e intoxica os crentes. É um sistema totalitário controlado por boçais, posto ao serviço das frustrações e do atraso de quem não aceita a modernidade.

Defender os muçulmanos, tal como os cristãos, hindus, budistas ou judeus é a obrigação dos democratas. Combater a superstição, o preconceito e a barbárie é um dever, quer se trate dos cristãos evangélicos que impõem o estudo do mito criacionista nas escolas dos EUA, assassinam médicos e enfermeiros em clínicas onde se pratica o aborto legal ou inspiram o Tea Party; quer sejam islamitas que raptam meninas cristãs na Nigéria e as reduzem à escravatura; quer sejam católicos devotos de João Paulo II que, seguindo a teologia do latex, deixaram morrer centenas de milhares de negros a quem privaram do uso do preservativo; quer sejam hindus nacionalistas, budistas do Tibete ou os judeus de trancinhas à Dama das Camélias, que na pausa de cabeçadas ao Muro das Lamentações, inspiraram os massacres de Sabra e Chatila e promovem o sionismo.

Dizer que o Islão é pacífico, tal como outras religiões, antes da repressão política sobre o respetivo clero, é uma mentira que, de acordo com o mito do Pinóquio, não deixaria o nariz de qualquer crente, que o afirme, caber no maior dos templos.

É preciso defender os crentes e combater as crenças. O Renascimento, o Iluminismo e a herança republicana da Revolução Francesa são irrenunciáveis.


segunda-feira, janeiro 12, 2015

Paris valeu uma missa

A manifestação de Paris foi relevante e necessária. Foi um dos maiores acontecimentos dos últimos tempos, a nível global, ultrapassando os dolorosos motivos que reuniram hipócritas de vários quadrantes e alguns chefes de Estado e de Governo que deviam ser julgados por crimes graves. Importantes foram os homens e mulheres anónimos que ali estiveram para dizer não à violência religiosa e ao direito sem reservas à liberdade de expressão.

Mas não é altura de misturar as nódoas no pano alvo do repúdio pelos crimes sectários de uma religião que já foi tolerante quando o cristianismo era a mais perversa. É altura de exigir que ao medo que sentimos oponhamos a coragem que nos tem faltado.

Ontem, em Paris, uma multidão imensa defendeu a liberdade que hoje mesmo começou a ser restringida. O medo é o veneno que mais nos pode matar. Mata-nos primeiro o espírito e expõe-nos depois o corpo. Vamos morrendo em cada silêncio que fazemos, em cada grito que calamos, em todos os instantes em que ficamos mudos à violência.

A utilização partidária era uma inevitabilidade, mas grave é não haver partidos, não ter opções, não poder chamar canalhas a quem responde às palavras com balas. Grave é ter medo, é fazer como o New York Times, uma referência mundial do jornalismo, a omitir as caricaturas pelas quais os desenhadores do Charlie Hebdo deram a vida.


Viva a república.

domingo, janeiro 11, 2015

Paris ou por quem os sinos dobram…


As declarações do imã da comunidade islâmica de Lisboa, Sheik Munir, no sentido que os bárbaros incidentes terroristas ocorridos em Paris não se identificam com o estipulado no livro sagrado dessa religião deixam no ar algumas questões por esclarecer link.
É verdade que esta também foi a posição ‘politicamente correta’ adoptada por diferentes governos – e entre eles o Presidente da República Francesa link - que se apressaram a separar o fanatismo emergente da religião propriamente dita. Compreende-se que assim seja, quanto mais não seja pela defesa da liberdade religiosa, mas tal facto não basta para que se coloque uma pedra sobre o assunto.

Na verdade, todas as religiões têm o seu percurso histórico. E nesse longo trânsito multisecular existiram vários momentos de fundamentalismo e de perseguições em nome do proselitismo, da blasfémia ou ainda de outros pretextos.
Para não cairmos no perigoso, inoportuno e inconsequente terreno da islamofobia será melhor começarmos pela religião católica.

Dificilmente o Ocidente consegue hoje – fora de uma perspectiva meramente histórica - digerir as Cruzadas e a Inquisição para ficarmos restritos a dois momentos marcantes da ICAR. As Cruzadas por detrás de movimentações com guerreiras voluntaristas embuídas de intenções ‘piedosas’ que não conseguem ocultar pretensões hegemónicas entroncam-se com a necessidade de domínio territorial e de ocupação (entre outros dos emanentes lugares sagrados) para manter um estatuto preponderância político-militar e económica na charneira Europa/Médio Oriente. Começa nestes remotos tempos o percurso da hegemonia europeia que desde o fim da II Guerra Mundial está em profunda crise. A vertente cultural desde empreendimento será também à custa da importação de valores do ‘orientalismo’ que ocupará um lugar pouco mencionado, mas destacado, no Renascimento. As moedas têm sempre 2 faces.
Um outro facto histórico foi a Inquisição. Trata-se de algo correlacionável com a heresia, mas não só. A Inquisição foi, também, um longo, penoso e macabro processo de confisco de bens, de atentado aos mecanismos sucessórios e de incitação ao exílio. Para esse fim a ICAR utilizou o ‘braço armado’ dos mendicantes dominicanos. Na verdade, o efeito imediato e permanentemente ocultado - para o desvalorizar - foi o reforço do poder ‘temporal’. Estes desvarios religiosos levaram à concepção e expansão de ‘ideais iluministas’ onde a razão será apresentada como o motor da libertação dos povos, nomeadamente, da ignorância, das superstições, dos enganos e dos fanatismos. Depois foi a Revolução (Francesa): Liberdade, Igualdade e Fraternidade.  Fiquemos por aqui.

O Islão aparece um pouco tardiamente e desfocado da realidade cristã e do seu trajecto. Trata-se de um processo histórico divergente.
Criando um imenso ‘Império Islâmico’, nos séculos VII e VIII, i. e., logo após a morte do profeta Maomé, e sob a organização política de ‘califados’, o poderio económico dispensou, numa primeira fase, inquisições e intolerâncias. A expansão islâmica ultrapassou esse negro passo inquisitorial e essa nomada ‘cavalgada’ foi contemporânea de um ‘Renascimento islâmico’ (‘Idade de Ouro’ islâmica) que se afirma no Comércio, nas Artes e na Ciência.
É um período onde se exalta o valor do conhecimento e onde cabem afirmações como esta: ‘a tinta dos cientistas vale tanto como o sangue dos mártires' (Hadith).
O declínio deste ‘império’ começa cedo com recorrentes conflitos religiosos internos (entre sunitas e xiitas). E o califado organização teocrática agregadora do poder político-militar e religioso foi sendo dispersa por diversos emires que não detinham a perrogativa da chefia religiosa. Mais tarde, quando o califado, ou os califados, entram em decadência (económica, social e cultural) e acabam extinguindo-se, os emires associam-se aos chefes religiosos (aiatolas, imãs, mulás, ulemas, xeques, etc.) para refazerem uma nova espécie de califado, oculto e diferente. Curiosa é, por exemplo, a coincidência entre o fim do califado otomano e o surgimento da Irmandande Muçulmana (1928) que, no presente, continua a ser notícia.
Na verdade, alguns (muitos) destes clérigos islâmicos não vivem da misericórdia divina. Capturaram as riquezas nacionais ou transnacionais e passaram a comandar (administrar directamente ou por interpostas personagens) a economia e as finanças dos países onde ‘pontificam’. Dividem o seu munus religioso com actividades ‘pecaminosas’ do foro mundano. Logo, no mundo islâmico, está em curso um regresso ao califado, como o recente surgimento do 'Estado Islâmico' demonstra.

Os bárbaros acontecimentos ocorridos na semana passada em Paris podem, de facto, não ser a expressão directa do Alcorão, até porque os livros sagrados são ambíguos e imprecisos (diria ilegíveis para os cidadãos), mas decorrem (e ocorrem) de um denominador comum matricial onde o islamismo é uma marca quase presente e constante. Aliás, dentro de um contexto estrictamente religioso e apesar de múltiplas condenações vindas de vários quadrantes islâmicos, será difícil ignorar as palavras do dirigente religioso iemenita Harit al-Nadhari, simultaneamente membro da Al Qaeda da Peninsula Arábica (AQPA) link para perceber múltiplas disparidades.

Quando o imã de Lisboa se apressa – e bem - a condenar os trágicos acontecimentos de Paris seria bom que, também, se esforçasse para explicar o porquê destas derivas e, nomeadamente, onde e de que modo nascem e proliferam interpretações fundamentalistas do livro sagrado. Existem diferenças – e a comunidade islâmica de Lisboa é disso um exemplo – mas não podemos esquecer os alçapões que começam a revelar-se com demasiada frequência e insistência.
Claro que ninguém exige ao imã de Lisboa que assuma a liderança de um movimento rectificativo e purificador do islamismo mas seria útil que olhasse abertamente para o seu extenso quintal (espalhado pelo Mundo) que está a ser possuído por um incontrolável alvoroço. Seria bom, também, que não fizesse caminho um permanente ‘lavar das mãos’ acerca do caos que aí vigora e, na prática, tem possibilitado muitas barbaridades.

Independentemente de ser imperioso evitar uma ‘questão religiosa’ já que a missão republicana (presente na majestosa manifestação de hoje em Paris) é acima de tudo a mensagem de determinação no assegurar e defender liberdades (de expressão e religiosa, entre outras) parece que o Mundo chegou a uma encruzilhada onde não é mais possível esconder que ninguém aceitará – muito menos por imposição divina - viver sob um clima de medo e subjugado ao terror. 
Surge novamente – e à custa de muitas vidas humanas – um amplo campo de confrontação política, de análise e de consequências, que se querem pacíficas, em que os livros sagrados têm, nesse contexto, pouca, ou nenhuma, relevância.
Bastará universalizar um singular documento (também oriundo de Paris, 1789) – A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen). Que, no seu artigo 11º., reza:
A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo o cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei.”

Ou será pedir muito?

O velho, o rapaz e o Marco António


Paradoxos

 Nem todos fomos Charlie,

a começar pelo gang Le Pen, que tentou integrar a onda de comoção coletiva, e a acabar nos inimigos do humor corrosivo e da blasfémia. Uns fizeram-no por convicção, outros por cobardia. Há quem honestamente pense que não de devem ferir sentimentos alheios e quem não aceite apenas que ofendam os seus.

Os fascistas franceses da FN já renegaram a solidariedade a quem os zurzia, a quem fez da ofensa e da provocação uma bandeira que deu cobertura às formas mais benignas de crítica. Ninguém tenha ilusões, se não houver quem arrisque mais do que nós, quem se exponha até aos limites, seremos nós os alvos da intolerância.

Eu defendo o direito à ofensa, apenas não admito que repliquem às ofensas pela palavra e pelo desenho com armas diferentes. Não se responde ao insulto a tiro, não se limpa a nódoa da desonra com a lixívia do duelo. Sempre que um papa abençoa os portugueses, ofende-me, mas não ultrapasso um protesto ou uma maldição, sabendo que a bênção e a maldição não passam de placebos, à semelhança dos maus olhados.

Passado o pico da emoção, que condicionou os bem pensantes e os cobardes, já vozeiam por aí os que pensam que o respeitinho é muito bonito, que as vítimas se puseram a jeito e que o Charlie Hebdo era imoral. São herdeiros de Krus Abecasis a impedir a exibição de Je Vous Salue Marie, de Jean Luc-Godard, em 1985, quando presidia à Câmara CDS de Lisboa; são filhos de censores d’As Horas de Maria (1979), de António de Macedo e dos escribas que desencadearam campanhas contra a exibição desses filmes e da Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorcese.".

Do Portugal de Cavaco e Sousa Lara, censores d’O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, Passos Coelho voa para Paris, num ato de solidariedade cuja honestidade se aceita por, certamente, não frequentar livros e revistas satíricas e de extrema-esquerda.

É insuportável ver responsabilizadas as vítimas dos assassinatos, atenuando a cobardia dos algozes. O jornalista Ferreira Fernandes lembrou bem o paralelo com o acórdão do STJ, que não pode ser designado ignóbil por ser crime, acórdão em que os conselheiros consideraram atenuante ao crime de violação, de duas jovens estrangeiras, o facto de andarem com roupa demasiado leve «em plena coutada do macho ibérico», no Algarve.

Se todos soubessem quantas vítimas custou a liberdade de que ainda usufruímos…


sábado, janeiro 10, 2015

O proselitismo e a violência

O pior que algumas religiões encerram é o seu proselitismo. Não lhes bastam os crentes próprios, exigem a conversão dos alheios ou a sua eliminação. A evangelização cristã é hoje, felizmente, uma tara acalmada com a repressão política sobre o clero. Abandonou há muito os métodos cruéis de evangelização que usou em vários continentes e, de forma particularmente violenta, na América do Sul.

Na Europa , a paz de Vestefália, pôs fim à sangrenta Guerra dos 30 Anos e a Igreja católica só aceitou a liberdade religiosa na década de 60 do século passado, no concílio Vaticano II. O azedume de João Paulo II e de Bento XVI apenas fez mal aos próprios e foi irrelevante para a liberdade religiosa europeia onde o secularização dos países tornou impensável qualquer perseguição.

O Islão, pelo contrário, na cópia grosseira do cristianismo introduziu a guerra como um instrumento de contágio e submissão, agravado pela decadência da civilização árabe e o ressentimento dos crimes de que foi alvo por países saqueadores de matérias primas, em especial o petróleo.

É incontestável que os crentes não são piores nem melhores do que os não crentes mas ninguém faz o mal com tanto entusiasmo e satisfação como os que são movidos pela fé.

Não é inocentando os crimes sectários das religiões que se estabelece um modus vivendi num mundo onde as diferenças deviam ser fatores de enriquecimento e não motivos de conflito.

Quando os crentes se convencerem de que as suas religiões refletem as formas de pensar da época em que surgiram e não palavras ditas por um ser ilusório, sem aparelho fónico, podem cumprir os preceitos que se habituaram a observar, desde crianças, e deixar no templo a obsessão de submeter os outros às suas próprias convicções.

Ao proselitismo não se podem tolerar outras armas para além da palavra e do exemplo e as armas devem ser banidas da evangelização. As democracias, por mais que sangrem, não podem ultrapassar os limites do Estado de Direito contra o terrorismo, sob pena de perdermos o Estado e o direito e ficarmos apenas reféns do terrorismo recíproco.