sábado, fevereiro 28, 2015

Notícias do meu País…

A notícia que invadiu hoje o País diz respeito à Segurança Social e refere o incumprimento das prestações contributivas do actual primeiro-ministro durante 5 anos (entre 1999 e 2004) link.

Claro que no País das prescrições (selectivas?) esta situação tal como outras que lhe foram imputadas em relação ao ‘caso Tecnoforma’ serão águas passadas e contas para assentar no tecto.
O facto do primeiro-ministro ter pago (na totalidade ou em parte) as prestações em atraso acarreta a impossibilidade (desistência) de invocar a prescrição. Portanto, com este gesto repositor, o caso em vez de resolvido, regressa à luz do dia em toda a sua plenitude.

É previsível o que ocorreria em situação similar a um vulgar cidadão. Acrescida do ‘rigor’ verificado no ‘ajustamento em curso’ – sustentado por tiradas político-filosóficas de Passos Coelho – as consequências seriam dramáticas de que não estariam a salvo, p. exemplo, a penhora da habitação.
Penso que não existirá um só português que aceite a desculpa do primeiro-ministro. Não pagou em devido tempo e como era devido e, agora, assaca a responsabilidade para a Segurança Social que não o terá informado atempadamente do seu incumprimento. A questão processual e burocrática que Passos Coelho pretende assacar à Segurança Social em termos de uma falha de notificação, nunca poderá esconder – ou justificar - o 'delito primário', i. e., o incumprimento das obrigações com a segurança social, um dever de todos os trabalhadores.

Mais uma vez Passos Coelho mostra a sua perplexidade em relação a estes 'strip-teases' que a imprensa vai revelando. Negou-se invocando púdicos motivos a fazê-lo em relação às contas bancárias referentes ao tempo de deputado e 'colaborador' da Tecnoforma e agora invoca o mesmo estatuto de reserva em relação às suas contribuições sociais.

Agora percebemos a hipocrisia de um Governo presidido por este (não notificado) infractor que pretendeu – em 2012 – ‘mexer’ na TSU … criando uma monumental indignação popular.

Bem, este novo imbróglio traz-me à memória a ‘Trova do vento que passa’ onde o poeta diz: “Pergunto ao vento que passa/ Notícias do meu País/ E o vento cala a desgraça/ O vento nada me diz”

O Islão e a teologia do cabotinismo

Pegue-se numa cópia grosseira do cristianismo, com laivos de judaísmo, e faça-se um manual terrorista ao gosto de um beduíno boçal de há 14 séculos. Intoxiquem-se nele os povos e constranjam-se, torturem-se os réprobos e aliciem-se os devotos com rios de mel e virgens ansiosas. Produzem-se dementes fanáticos, embrutecidos pela fé.

Algures, no que resta do Iraque, entre os rios Tigre e Eufrates, onde nasceu a escrita e a civilização teve berço, despertaram selvagens em estado místico, primatas adestrados no uso de utensílios e armas sofisticadas, aptos a recriarem o habitat da Idade do Bronze.

Um dia servem-nos decapitações; no outro, assassínios; depois, homens enjaulados a arder lentamente ao som de gritos selvagens: “Deus é grande e Maomé o seu Profeta”.

É fácil identificá-los pelo aspeto simiesco, desprezo das fêmeas, comprimento dos pelos nas trombas e, sobretudo, pelo desprezo da vida e ódio à modernidade.

Bandos ensandecidos, suspeitando da inspiração do demo na arte assíria, destroem, com marretas e martelos pneumáticos, obras únicas, três milénios de arte preservados no Museu de Mossul, com a sanha com que queimaram milhares de manuscritos e de livros raros na Biblioteca Municipal. Viram infiéis nos sumérios e assírios e quebraram tábuas de gesso com escrita cuneiforme, com mais de cinco mil anos; na cabeça esculpida, da época suméria, imaginaram o busto de Maomé com um turbante carregado de bombas e partiram-na; e, no boi alado com três mil anos, divindade assíria, adivinharam escárnio ao arcanjo Gabriel fabricado na rotativa do Charlie Hebdo, e reduziram-no a cacos.

Há, nesta tragédia cultural, na metáfora do mais perverso monoteísmo, um apelo à raiva, à revolta e ao repúdio civilizacional contra a barbárie.

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Para que a memória não se apague… (Adaptado ao ano de 2015)

Faz no hoje, dia 27 de Fevereiro, 62 anos! Acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs | Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha, Grécia e Irlanda.

O Acordo de Londres de 1953 sobre a divida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essencial da dívida. A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra. Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso.

Foi perdoada cerca de 50% (Entre os países que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920. O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efetiva de pagamento. O acordo adotou três princípios fundamentais:

1. Perdão/redução substancial da dívida;

2. Reescalonamento do prazo da dívida para um prazo longo;

3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.

O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afetos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %. A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida. O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual só se pagaram juros. Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos países endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha. Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de divisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais. EM CONTRAPARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um superavit na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem. Hoje, pelo contrário, os países do Sul são obrigados a pagar o serviço da dívida sem que seja levado em conta o défice crónico das suas balanças comerciais.

a) Marcos Romão, jornalista e sociólogo.


Ou muito me engano ou o que tem de ser tem muita força

A agressiva campanha negra contra a esquerda, em geral, e o PS, em particular, efetuada pela central de intoxicação que levou ao poder esta maioria e este Governo, não podem deixar de dar frutos. A central prosperou com este Governo e, talvez, com a apropriação partidária e privada dos serviços secretos cuja atuação tem violado a lei e a decência.

Além do medo da Justiça, os empregos asseguram lealdades e corrompem consciências. Não é impunemente que se passam quatro anos a deturpar a verdade e a inventar factos, na deriva que começou com Relvas, Marco António, Passos Coelho e outros comparsas, antes das últimas legislativas, para, num golpe de mágica, se dedicarem a novos patrões.

Este dado é irreversível. As difamações e calúnias em relação a dirigentes do PS não são movidas por qualquer razão ideológica da direita que, na sua ótica, mal por mal, prefere a vitória do PS a qualquer outra. O que move esta direita e os partidos à esquerda do PS é o espaço eleitoral que todos disputam.

À esquerda só o PCP tem vagamente consolidado o seu eleitorado. A direita, que quatro anos de governação deixam em pior estado do que o terramoto de 1755 a Lisboa, pensa em resistir o melhor possível para que o tempo e os escândalos que cria façam esquecer este governo como foram esquecidos já os de Durão Barroso e Santana Lopes.

Cavaco Silva, apêndice em Belém deste governo, está a ser largado para não ser referida a cumplicidade nas próximas eleições. Nem a imolação ética lhe agradecem.

A esquerda, com a sua atomização partidária, contribuirá para que os deputados à direita precisem de muito menos eleitores para chegarem à AR. É no espaço central do espetro partidário que se perfila o PDR, o partido que tem Marinho Pinto como cara e ideologia, alvo de azedume generalizado, que só o favorece. Pode ser a terceira força partidária.

Não me surpreenderia, embora pouco crível, que o PSD, com o seu apêndice mercantil – o CDS –, superasse o PS, tendo como certo que tal não sucede. Marinho Pinto lutará agressivamente para ser a charneira da próxima legislatura, única hipótese de lhe poder sobreviver. Se, como admito, vier a ultrapassar o PCP (não me venham falar de justiça e moral) o aliado natural é o PSD embora esteja mais longe dele do que do PS. O PS, sob pena de definhar, não se pode aliar ao PDR, com risco de forte erosão.

Com apoios de governos de direita, maioritários na Europa, não será surpresa absoluta a continuidade desta direita, sem este risível PM, e com o conselheiro de Estado, Cavaco Silva, a gozar o excelente negócio da permuta da Vivenda Mariani, na Casa da Coelha.

A vida pode ser muito injusta mas a política não o é menos.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

A ingratidão portuguesa perante a Grécia


A Líbia, o Estado Islâmico e a Europa

A Líbia do exótico coronel Kadafi, cristãmente cedido para ser torturado e assassinado ao nível da mais refinada violência islâmica, deixou de existir. As hordas libertadoras arruinaram o país, que passou do Eixo do Mal ao do Bem, antes de acabar Péssimo. As tribos roubaram as armas químicas do arsenal do exótico ditador, o sofisticado material de guerra que acumulou e o petróleo que sustenta a formação do Estado Islâmico com que generais de Kadafi se vingam das milícias que os derrotaram, apoiadas no potencial de fogo dos ‘libertadores’.

No país que resta, afundado no caos, onde todos combatem contra todos, por entre um número indeterminado de tribos insubmissas e armadas, surgiram dois governos, um islâmico e outro nacionalista, com duas capitais, Tripoli e Tobruk, e dois parlamentos. O Estado Islâmico saiu à rua neste húmus onde semeia a palavra do profeta amoral e medra a jihad.

A anarquia e a violência são mais ferozes do que mulás furiosos a recitar o Corão. A Itália aterroriza-se com a fuga em massa que se vislumbra, ajudada ou estimulada por milícias líbias. A quinhentos km memorizam-se os versículos do Corão e treina-se o manejo de armas. Lampedusa poderá ser a Meca da viagem de tunisinos cheios de fome, ódio e fé.

A jihad virá a caminho do sul da Europa num movimento inverso ao do cristianismo, de Granada ao Algarve, com vários séculos de intervalo, burkas a caminho de Albufeira e cimitarras a brilharem nas praias da Andaluzia. Nasceu um «espaço vital», agora num território que expulsará Voltaire sob pressão da epidemia demencial criada por um beduíno analfabeto.

Entre a Tunísia e o Egito, o Mediterrâneo é a ponte para Itália, por onde passa um drama colossal que criará outro. A Itália não pode continuar sozinha, vítima dos dramas do outro lado do mar, com a Europa a ignorar os milhares de afogados que procuravam a sobrevivência e os que sobrevivem, com as vítimas da primavera árabe a desembarcarem no inverno europeu.

Ah! A União Europeia esquece-se do Chipre e da Grécia, esta com 227 ilhas habitadas, das 1400 que lhe deixam 14880 km de costa por onde se perde o rasto dos desesperados que podem chegar da Ásia, do Médio Oriente e, sobretudo, da África, invadindo a Europa num êxodo de fome e desespero onde não faltarão gregos.  

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Bertolt Brecht, Mota Pinto e a Ópera dos Três Vinténs

Quando Paulo Mota Pinto, sem problemas éticos, suspendeu as funções de presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP) para aceitar a sinecura de chairman do BES, pareceu que não restava mais um módico de pudor, um resquício de amor-próprio, uma noção vaga de serviço público no país que lhe concedeu uma reforma obscena aos quarenta anos como ex-conselheiro do Tribunal Constitucional.

Nem o facto de ele ter votado o período de nojo obrigatório a quem exerce funções no SIRP, impedindo a entrada numa empresa privada com os segredos que detém, fez com que o chefe dos fiscais se sentisse vinculado ao que os fiscalizados estão sujeitos.

A decadência ética tem acompanhado a dívida pública e, se a segunda chegou ao ponto de impagável, a primeira atingiu o ponto de não retorno.

Brecht, na Ópera dos Três Vinténs, coloca-nos no Soho, bairro pouco recomendável de Londres, no século XIX, onde antecipa o Portugal venal, corrupto e marginal de hoje.

Mota Pinto não é Mac Navalha, mulherengo e bígamo, casado com Lucy, filha de Tiger Brown, chefe de polícia, que casa secretamente, num estábulo, com Polly, a filha do seu colega marginal, Peachum, "Rei dos Mendigos", mas, ao regressar às funções que devia ter honrado, sem as trocar por uma sinecura, que falhou, no grupo financeiro do maior e mais trágico escândalo português a nível global, dá de si, da política e do país a imagem que podia ter inspirado o grande dramaturgo, poeta e encenador alemão.

Retorna à presidência do CFSIRP num final feliz, a recordar a peça notável de Brecht, desta vez em deprimente comédia e sem necessidade de perdão real. Devia regressar ao som da música de Kurt Weil, para que, nesta medíocre ópera-bufa, pudéssemos recordar a Ópera dos Três Vinténs com o som do genial compositor. (30 de agosto de 2014)

                                                                *****

Volto ao texto escrito em 30 de agosto de 2014. Como é sabido, falhada a sinecura do BES, com a conivência desta maioria e deste Governo, Paulo Mota  Pinto regressou a presidente do CFSIRP. As práticas ilegais são tão “graves e alarmantes” que Bacelar Gouveia, Jorge Miranda e Paulo Otero consideram o acesso a dados telefónicos pelos serviços secretos «uma violação muito grave».

Silva Carvalho, ex-superespião, denunciou a prática como «habitual, ainda que ilegal». O PR, receoso de ser espiado por um PM, deixou-se envolver numa manobra partidária pouco edificante e, agora, mantém o silêncio que lhe merece o BPN, o BES, a dívida da Madeira e todos as tragédias que ultrapassem o milhar de milhões de euros.

Fernando Negrão, deputado do PSD, homónimo de um violador do segredo de Justiça, quando diretor da PJ, quis ouvir Paulo Mota Pinto. Sempre que a direita está no poder as ilegalidades das secretas alarmam juristas e deputados perante um povo amorfo e um PR em severo retiro, cego, surdo e mudo, perante a desintegração do Estado de direito.


terça-feira, fevereiro 24, 2015

A Grécia, Portugal e a tacanhez

Quando, no início da década de 70 do século passado, o Governo de Marcelo Caetano, atribuiu uns magros subsídios aos rurais, onde grassava a mais confrangedora pobreza, os pobres menos pobres e mais miseráveis, apressaram-se a denunciar os beneficiários.

Porque tinham a leira de terra ou um filho que emigrara, porque o sexagenário curvado com meio século de enxada, de sol a sol, ainda podia ir ganhar o jornal, ou a idosa que devia cultivar a horta abandonada por falta de forças, tudo servia, numa disputa egoísta, para refutar míseros escudos que mudavam a fome que matava na que mantinha a vida.

Lembrei-me deste espetáculo sombrio, das aldeias da minha juventude, quando o PM do meu país, depois de insultar o povo grego, se opôs à solidariedade que lhe é devida e ao respeito que o eleitorado merece. E não lhe faltou, à guisa de jogral, o eco de Belém, na mesma lamúria do empréstimo em risco, só comparável à dificuldade de pagar as contas quando a lei o impediu de acumular reformas e vencimento.

E, para que o cálice da vergonha se esgotasse até à última gota, a ministra das Finanças serviu de mascote ao poderoso ministro alemão na foto da desonra.

Não sou cínico. Sei que não merecíamos este Governo.


Petição ACABAR COM ABORTO GRATUITO

Para: Governo e Assembleia da República

Chegou-me no fim de semana, em correio eletrónico, o convite para assinar uma petição para acabar com o aborto gratuito, uma solicitação ao destinatário errado. Logo me veio à memória a minha vizinha, D. Efigénia, amiga da missa e da hóstia, que adoeceu com o resultado do último referendo sobre a IVG.

No período que precedeu o Referendo da IVG papou a missa diária, deixou queimar o arroz três vezes, vazou-lhe a sopa outras tantas e incendiou-se-lhe o fogão quando se distraiu a rezar a salve-rainha. Até o bolo de chocolate que fizera para o filho, que vinha de fim-de-semana, se esturrou quando rezava o terço no oratório do quarto.

A D. Efigénia dizia-me que era uma pena eu não ir à missa, tão boa pessoa, até rezava pela minha conversão e não se desencorajava de ver-me subir as escadas da igreja da paróquia, entregue a uns frades depois de começarem a escassear os padres seculares.

A D. Efigénia nunca pensou perder o Referendo, era pela vida, sabia que a Senhora de Fátima andava a desfazer-se em lágrimas de sangue, estranha hemorragia ocular de uma imagem pia, e que não permitiria que as forças do mal vencessem.

Aliás, ela bem sabia como os portugueses são atreitos ao medo do Inferno, embora este tivesse sido abolido, e como sentem a falta das cantorias e do padre no funeral. Sorria feliz com o Cânone 1331 que excomungaria os que votassem SIM no Referendo: «não poderiam casar, batizar-se nem ter um funeral religioso».

Julgava a boa da D. Efigénia que o medo era suficiente para dar a vitória à Senhora de Fátima, ao seu amado filho, ao pai do Céu e a todos os que se preocupam com pecados.

Quando soube que 2.338.053 eleitores desprezaram as orações, missas, novenas, terços e outros pios demonífugos, deu em cismar que Deus não existia, a senhora de Fátima era uma invenção, os anjos não voavam e os padres eram funcionários de uma empresa cujos produtos não têm certificado de garantia nem prazo de validade.

A D. Efigénia ainda se benze mas julga que alguns defensores do Não são proprietários de clínicas clandestinas e que a despenalização do aborto lhes prejudicou o negócio.

Entre a salvação da alma e a reflexão, a D. Efigénia ainda hoje hesita e se aflige, adoece e cisma, e nunca mais rezou um pai-nosso. Tem muitos na conta e não resultaram, até se convenceu de que o aborto não é sacramento e pode ser feito sem a ajuda eclesiástica.

Se esta petição lhe chegar, não sei como reagirá, oito anos após a última deceção. Com a saúde precária e a fé abalada, temo pelo seu futuro mas estou em crer que o remetente me confundiu com a D. Efigénia e me mandou a petição que lhe era destinada.

domingo, fevereiro 22, 2015

UE e Euro Grupo: a ameaça de implosão …

A Grécia poderá ter conquistado, na 6ª. feira passada em Bruxelas, o tempo necessário para arrumar a casa ou, então, preparar uma saída da zona euro. Esta a realidade crua e nua difícil de aceitar por quem acredita e apostou num Europa unida e solidária.

Na próxima 2ª. feira vamos conhecer os desenvolvimentos do pré-acordo já alcançado e como será possível compatibilizar, num acordo duradouro, sério e honesto, uma solução que respeite os interesses dos gregos e a ortodoxia  que se apossou dos restantes membros do Euro Grupo, alinhados pelos interesses de Berlim. Não será fácil essa compatibilização já que estão em confronto questões políticas e ideológicas divergentes e interesses financeiros díspares.
Por outro lado, os 4 meses que a Europa concedeu a si mesma (e não só à Grécia) para assentar a poeira, podem (devem) ser utilizados para a Grécia (e demais países em dificuldades) estudar e planificar ‘saídas amistosas’, nada airosas, como referiu o ex-presidente da França e 'pai' da malograda constituição europeia - Giscard d‘Estaing link.

A reunião do Euro Grupo mostrou algo que os europeus teimam em não acreditar porque tem sido diligentemente ocultado.
O “grupo” enquistou-se nos seus meandros austeritários e orçamentais e sob esta ortodoxia ignorando o problema fulcral que está no modo e nas circunstâncias que ditaram a construção da moeda única. Esta a centralidade do problema. Acresce a esta situação problemas de governação (de âmbito nacional) que ao longo da existência do euro foram coleccionando défices orçamentais e consequentemente uma dívida excessiva. Deste modo, fechou-se todas as portas a uma recuperação digna e expedita dos países em dificuldades, dependente de economias mais débeis.

A saída da crise onde a Grécia está, no imediato, mergulhada – mas também outros países do Sul – passa pela necessidade (e a possibilidade) de ter uma política cambial e monetária autónoma que permita uma desvalorização da moeda. A Grécia não dispondo de tal instrumento de acordo com as ‘regras’ unionistas sabe que todas as medidas serão sempre paliativas e todos os acordos fragéis e ilusórios. Na verdade, todos os impecilhos relativos à recuperação da crise europeia passam por questionar em que moldes se criou o euro.
Ora tal mudança não é possível dentro do actual quadro da moeda única que engloba (sem servir de igual modo) um vasto e divergente contingente de 19 países e de um Banco Central erguido segundo os moldes germânicos e sob a tutela de Berlim. E não vale a pena fixar-se em culpas pessoais, i. e., na chanceler Merkel. Qualquer governo alemão, independentemente da sua coloração política, defenderá o ‘status quo’ vigente porque, na realidade, a existência de uma moeda forte serve – para já - os interesses da Europa rica, i. e., economicamente mais desenvolvida e, portanto, beneficiária directa desta situação.

Todos sabemos que a pressão germânica não abrandará após o frágil acordo conseguido na última reunião do Eurogrupo. É extremamente prematuro e manifestamente despropositado 'decretar' o fim (ou mesmo o alívio) da austeridade porque, na realidade, este é um instrumento fundamental de dominação (a par do ‘Pacto Orçamental’) que permite assegurar a manutenção, no seio do grupo euro, de um devastador caudal de transferências dos países pobres para os ricos.

A única possibilidade de inverter o actual rumo seria a conjugação de esforços (e de políticas) dos países do Sul contra os mentores ideológicos destes modelos e a postura adoptada (induzida?) pelo sistema financeiro  - parasitário em relação ao euro - e que, no presente, por razões de natureza táctica e mediada por complexos meandros técnico-monetaristas, os levam a advogar 'à fortiori' o prolongamento de severas políticas de austeridade geradoras de um empobrecimento galopante e progressivo. Táctica que, para futuro, compromete drasticamente o desenvolvimento, a coesão europeia e, consequentemente, a viabilidade da União Europeia.
O tempo aparentemente atribuído à Grécia, mas que está à disposição de todos, deverá ser utilizado nesse sentido. Repensar os moldes de funcionamento e os equilíbrios da Zona Euro, tendo por base o questionamento objectivo e realista dos parâmetros que orientaram a criação e entrada em funcionamento da moeda única e a vontade de corrigir as suas maléficas deficiências.
Esta será a última esperança para a preservação da Zona Euro. A partir daí a desagregação da Europa entrará num caminho irreversível.

Esta também a nefasta consequência das políticas emanadas de (ou apadrinhadas por) Berlim e que tem merecido um subreptício apoio do actual Governo português.
A transição do estatuto de ‘bom aluno’ para o de ‘cúmplice’ será dramática em termos políticos e tremenda para as pessoas. Porque todos os sacrifícios impostos aos portugueses em nome de um saneamento financeiro (feito à custa de alguns) e uma prometida ‘regeneração económica’ reveler-se-ão vazios e despidos de sentido estratégico. No fim de tudo, saberemos que nada é sustentável. Nem a disciplina orçamental, nem o crescimento, nem a dívida, nem a crispação social.
Contudo, dentro da linha que tem sido expandida desde a Europa Central e do Norte sobre os ‘malandros do Sul’ que ‘vivem acima das possibilidades’, vamos verificar, a breve prazo, que a liderança férrea e errática da Zona Euro lançará sobre os cidadãos o opóbrio dos resultados destas más políticas. Não podemos permitir ‘isso’. A última oportunidade foi datada e durará no máximo 4 meses.

Se nada for feito neste curto intervalo de tempo, se deixarmos a Grécia ser ‘cozinhada em banho-maria’, se não afrontarmos estas novas indignidades que estão na forja, estamos todos perdidos. Todos e não só a Grécia.

A União Europeia, a Grécia e o que adiante se verá

Enquanto a Europa se debate em contradições internas, entre uma Europa cada vez mais alemã e a Alemanha progressivamente euro-evasiva, a fome, vinda através do Magreb, afoga-se no Mediterrâneo ou, se sobrevive, entra por Lampedusa, Chipre ou pelas ilhas gregas onde se perde o rasto de origem dos esfomeados.

A UE lambe feridas na Ucrânia, onde o entusiasmo mal pensado mantém um conflito de interesses entre os EUA e a Europa, com uma guerra no horizonte. Gorbatchov avisou a Europa das injustiças contra a Rússia, com a obsessão da Nato a querer cercá-la. Dentro de fronteiras, as mesquitas e madraças são uma ameaça constante à paz e à liberdade.

É neste caldo de cultura, onde se joga a paz e a democracia, que a luta ideológica toma o lugar do pragmatismo no diferendo interno que opõe a Grécia aos credores que desejam vacinar os povos contra a esperança, perante um Golias que deseja salvar da fome o seu povo enquanto os governos de Portugal e Espanha têm sido a escória dos falcões.

A luta do Governo grego é uma gesta heroica de quem não renuncia à luta, sabendo que a vitória é difícil e mitigada. Tem contra ele a rede de interesses partidários e a sede de vingança dos que, fazendo chantagem sobre os eleitores gregos, se viram vencido nas urnas. A vitória da coragem, inteligência e patriotismo esbarra no medo do contágio do eleitorado dos países que se renderam e deixaram humilhar.

A Europa devia ser uma federação de países e não um mosaico de interesses nacionais, uma união civilizacional e não a arena onde se digladiam interesses nacionalistas a que nem o internacionalismo capitalista – o único que subsiste –, parece conseguir opor-se.

Penso que a Grécia merece a solidariedade de todos e uma contenção na luta ideológica dos que, de um lado e doutro, pretendem tirar dividendos do sacrifício de um povo e dos patriotas que têm nas mãos a responsabilidade de o defender. Paradoxalmente, Merkel e Hollande deram-se conta do perigo europeu de humilharem a Grécia enquanto Rajoy e Maria Luís foram os rostos da desonra e da degradação política.


A vingança dos fracos é a catarse da impotência e da vergonha quando o futuro é cada vez mais imprevisível e o presente já não é o que julgávamos. 

sábado, fevereiro 21, 2015

A Zona Euro face aos ‘novos investidores’…


O Euro/Grupo conseguiu com muita dificuldade, devido às reticências dos países do Norte e Centro, capitaneados pela Alemanha, dar mais tempo à Grécia para definir um caminho alternativo à austeridade. Foi o ‘primeiro passo’ numa nova direcção … link.
Não um passo tão largo como o solicitado por razões de oportunidade (mero cálculo político). O Euro/Grupo trocou os 6 meses solicitados por 4 (um corte de > 30% que parece estar no ADN dos ‘credores’) para que, no fim do prazo agora estabelecido, este ‘Grupo’ não ficar colocado e nem confrontado com as eleições a realizar em Espanha e Portugal, para não falar das britânicas.

A turbulência política que eventuais resultados eleitorais 'anti-austeritários' (existirão diversas saídas)  poderão introduzir no seio deste grupo - que tem comandado os destinos da Zona Euro e imposto severas políticas de austeridade - é o grande enigma resultante das decisões de ontem.

O processo que agora se inicia está impregnado de uma dinâmica própria com incontornáveis repercussões no futuro e está por detrás da enorme complexidade das decisões tomadas ontem em Bruxelas.
Jogam-se vários peões num armadilhado tabuleiro. A UE ‘construída’ sob o Tratado de Lisboa, um expediente encontrado para contornar o modelo de constituição europeia - gizado por Giscard d’Estaing - que começou a ruir nos referendos nacionais, ao meter-se pelos caminhos de uma severa austeridade acabou (não ocasionalmente) por favorecer as economias mais pujantes e minar a «unidade europeia». Estas ‘políticas’ viriam também a recolocar na ordem do dia o ‘modelo europeu’, cada vez mais ameaçado, em sucessivas eleições legislativas nacionais, que adquirem especial significado nos países periféricos.

O 'modelo tutelado europeu' que se acentuou no pós-crise, sempre existiu desde a criação da moeda única (consolidou-se em Maastricht), mas tornou-se especialmente agressivo nos últimos tempos e teve efeitos devastadores nas economias e no terreno social (acentuados pelas cardápio das respostas impostas) entrou numa fase agónica. Os próximos meses (e não exactamente só os 4 pretendidos) vão ser decisivos. Em estado larvar começa a levantar-se uma Europa dos cidadãos que inevitavelmente afrontará a Europa financeira e dos mercados.

O curioso é que a política de resgates indutoras de alterações económicas e sociais de cariz político neoliberal começaram há 5 anos na Grécia e, no presente, são novamente os gregos que exaustos, desgastados e à beira do precipício (crise humanitária) sacodem de novo a pretensa tranquilidade que a Europa financeira desejaria para paulatinamente ‘cumprir o seu plano’.

As políticas financeiras e fiscais mantêm-se fora da estrondosa perversão desenhada pelo sistema político (instigadas por interesses financeiros) e foram designadas de ‘reformas estruturais’.
Por outro lado, tudo o que mudou no sistema financeiro - e haveria muito a fazer - ficou-se por alterações circunstanciais e cosméticas.
A política financeira - fugindo sistematicamente a uma regulação rigorosa e eficaz - acantonando-se numa trincheira que temporariamente conquistou alguns adeptos baseado num conservadorismo impregnado de chavões pseudo-moralistas que levam credores (e os seus lídimos defensores) a considerarem qualquer renegociação ou reestruturação de dívidas um profano e vergonhoso 'calote'.
E o mote foi: quem financia as mudanças políticas e sociais ou as alternativas à austeridade?
A resposta é conhecida apesar de todas as camuflagens. Quem financia são sempre os mesmos. Os credores ‘primários’ (primitivos!) são, sempre foram, os contribuintes europeus.

Terá chegado a hora de colocar condições ao sistema (político e financeiro) no sentido que existir uma justa e equilibrada redistribuição da riqueza produzida para que esta não seja colonizada (absorvida) por ‘transferências’ obscuras dentro do sistema montado pelas instituições financeiras e seus serventuários políticos que a todo o custo ‘alguma Europa’ - com assento nas reuniões do Euro/Grupo - pretende salvar, para preservar o ‘esquema’.
Todavia, começa a sentir-se que se ergue pela Europa um novo grupo de ‘investidores’: os eleitores!

Os portugueses é que estão pior


sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Eusébio e o Panteão


Eusébio teve os melhores pés de um país onde as cabeças pensavam o que pensava o chefe, e não eram precisas, ou pensavam de forma diferente, e eram indesejáveis.

Num país com 40% de analfabetos, o salazarismo aproveitou o virtuosismo do atleta e a voz de Amália para esconder a mais alta mortalidade infantil e materno-fetal da Europa, a mais clamorosa miséria e a ditadura clerical-fascista.

Hoje, a democracia rende-lhe homenagem numa unanimidade suspeita, através dos seus legítimos representantes, na A.R.. Nada acrescentaram ao prestígio do atleta e reincidem na demagogia que esconde problemas dramáticos do País e a tragédia para que o mundo se encaminha.

Depois de Amália, Eusébio. Portas já convidou o Papa a visitar Fátima no 1.º centenário das alegadas aparições marianas, um número repetido em numerosos países católicos e nunca ocorrido em países protestantes, ortodoxos, judeus ou muçulmanos, em estranha preferência que faz lembrar os partidos do Governo a nomear militantes.

Foi lenta a caminhada desde o 25 de Abril mas, de novo, a trilogia ressuscita: Fátima, futebol e fado, quando outros efes nos atingem.

A máquina de intoxicação a funcionar




O preço da traição à Grécia é a propaganda a este Governo

Momento de Poesia


Homenagem em linha ascendente…

Aos meus pais
Aos meus avós

Ainda não paguei a dívida da vossa dádiva.
Nem sei se a pagarei.
O pó do tempo dissolve-se na memória
e ainda sinto o veludo dos afagos
e o respirar das vossas vidas.
As palavras ainda são as mesmas
- as desenhadas pelas incandescências
do fogo dos vossos lábios
e pelo eco das ressonâncias das vossas falas.
E é assim que vos trago no meu peito
enquanto vou traçando as marcas do meu caminho…

Alexandre de Castro


Lisboa, Dezembro de 2014

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Austeridade seletiva


Quem não tem dinheiro não tem vícios

A herança judaico-cristã, exacerbada pelo calvinismo e protestantismo evangélico, não nos deixou apenas complexos de culpa e de pecado, impôs-nos, como axiomas, aforismos falsos e cruéis.

A conduta da União Europeia em relação à Grécia, movida mais por razões de ordem ideológica do que racional, trouxe-me à memória colegas com quem convivi ao longo de três décadas.

Pernoitávamos nos mesmos hotéis, juntávamo-nos e jantávamos em bons restaurantes onde, depois da refeição, ficávamos a conversar e a filosofar num fraterno convívio de amigos, onde os mais novos estimavam ouvir os mais velhos, talvez por generosidade, sempre com bonomia.

Não esqueço a simpatia que me prodigalizaram os mais novos à medida que passei a ser dos mais velhos. A muitos ainda os encontro, outros sumiram-se da vida ou da vista e os que descubro dão-me notícia de desempregados, apanhados nas curvas da vida. Não são os que partiram que ora me preocupam, são os que andam por aí aos baldões da sorte.

Descobri alguns a iniciar negócios onde arriscaram o subsídio de desemprego e algumas poupanças, na esperança de um novo recomeço, para desaparecerem depois do fracasso. Lembro-me deles nos locais onde deixaram as últimas ilusões, não deixaram morada nem se despediram, esconderam-se decerto.

A outros ainda os vou encontrando, falam-me de envios de currículos, das dificuldades acrescidas pela idade e falta de empregos, mas esperam melhores dias, como se fosse eu a precisar de consolo, querendo mostrar que não desistem.

Encontro os que, durante o desemprego, se divorciaram e perderam a casa e os filhos, os que têm alguns recursos de que vivem com um módico de dignidade e aqueles que estão desesperados. Um, pediu o subsídio de desemprego da Segurança Social e o negócio ruinoso deixou num quarto alugado onde passou fome e acumulou rendas por pagar até que uma instituição de caridade lhe valeu. É celibatário e há muito que deixei de o ver.

Outro, fui-o encontrando a dizer que esperava novo emprego e, mais tarde, a vaguear com ar de abandono. Acabou a arrumar carros num parque onde várias vezes deixou o seu. Vi os esgares a que o sorriso deu lugar, perdidos os incisivos do maxilar superior, a evitar-me pela vergonha e pelo odor, salvo quando o apanhava no torpor de viagens que os químicos induzem. Abalou. No meu círculo não sabem dele.

Afinal, quem não tem dinheiro, tem vícios.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Némesis…

Némesis
A Grécia encontrando-se sob um ultimatum, orquestrado pelo Conselho Europeu, está a beira de uma situação terrível e perigosa. Não tem nada a perder!

Do outro lado, na UE ou na Zona Euro (não é igual mas no presente momento aproximam-se), existe a noção de que uma eventual ruptura será uma ‘convulsão controlada’.

É difícil compreender a situação grega, ela terá multiplas particularidades, terá variados antecedentes mas, na verdade, toda a reacção europeia não pode assentar num clamoroso dislate. Isto é, sem entrar em considerações financeiras e económicas, sem esgrimir argumentos acerca de hierarquizações democráticas, conclui-se que nada melhorou desde o início resgate que decorre desde há 5 anos. 
De concreto, o resultado mais tangível, dramático e doloroso é o continuado deslizar de um País para uma catástrofe humanitária. 

Pouco se sabe sobre as propostas que o novo governo grego terá apresentado no dito Conselho Europeu. Mas existe um facto que ressalta: a proposta de ‘prolongamento do programa’ é manifestamente provocatória. No mínimo, passa pelo branqueamento dos erros cometidos no gizar do programa e nas verificações da sua execução (por cá Vítor Gaspar chamou-lhes ‘exames regulares’) tarefa desempenhada pela Troika. 

Uma Europa solidária tem uma missão prioritária: partilhar. No caso vertente, a Grécia, perante o manifesto enquistamento da UE, solicita soluções provisórias. Ou seja mais tempo para negociar. O afogadilho onde o Eurogrupo tenta meter o problema grego, i. e., os 4 dias concedidos para o novo Governo grego apresentar propostas concretas, não tem rodas para andar, nem cadeira para se sentar.

Na actual situação e ‘à minima’ interessaria dividir pelas aldeias os abundantes erros cometidos durante o 'resgate' expurgando-os das fastidiosas e grotescas tiradas do tipo ‘não existem alternativas’. A existirem asserções repelentes estas passariam pelas concepções do ministro alemão das Finanças no sentido que a Grécia ao fim de 5 anos de intervenção externa 'está a melhorar'. Estas ‘boutades’ que tentam ignorar, ou manipular, a brutal queda do PIB (- 25%), o dramático aumento do desemprego (+ 26%) e o espectro de uma crise humanitária sucedânea de uma grave fractura da sociedade são mais extremistas (ultra) do que o apregoado radicalismo do Syriza.

Némesis é segundo alguns autores uma figura da mitologia grega que representa as ‘causas impossíveis’. Porém, em português, poderá ser uma representação conotada com ‘inimigo’ e ‘vingança’. Esta diversidade de abordagens é o espelho dos próximos conselhos europeus, antecipando-os.
Ou se quisermos o tiro de partida para ‘novas Odisseias’.  

A Grécia e a Madeira

A Grécia está para a União Europeia como a Madeira para Portugal. São partes do todo. A amputação de uma parcela é a cicatriz incurável no corpo e no espírito do conjunto.

A Madeira, tal como a Grécia, não teve, na governação de direita, um executivo à altura das necessidades nem uma economia capaz de resistir à crise do capitalismo financeiro e das dívidas soberanas. Seria trágico deixar perpetuar as forças que confiscaram uma e outra, apoiar os interesses que aprofundaram o caos e permitiram o parasitismo durante décadas.

O que surpreende é a obstinação da UE em preferir na Grécia um Governo que mostrou a incapacidade e falta de patriotismo em vez de outro que se empenha na erradicação da corrupção e no relançamento económico, assumindo os compromissos, ora impossíveis de cumprir, quando a economia crescer, o que, com os atuais apertos, é impossível.

Não haverá quaisquer benefícios para ninguém e todos têm muito a perder. A obsessão do Eurogrupo é de natureza ideológica. Prefere um desastre a soluções pragmáticas que só o atual Governo grego propôs e está determinado a pôr em prática.

O totalitarismo ideológico da bíblia neoliberal considera pecado mortal qualquer desvio à vulgata. É o abismo que nos propõe.  

Se Portugal tratar a Madeira como a União Europeia trata a Grécia, estaremos a amputar uma parte de nós mesmos. Não podemos ser cínicos e fazer a uma parcela nossa, que teve a desdita de ser governada por um irresponsável, o que a UE ameaça fazer à Grécia que, tal como a madeira, teve um Governo inapto, irresponsável e com clientelas pouco recomendáveis.

A dívida da Madeira, per capita, é capaz de ser superior à da Grécia.


terça-feira, fevereiro 17, 2015

Um artigo histórico de Yanis Varoufakis

É pena que muitos leitores não tenham acesso ao artigo de Yanis Varoufakis, ministro das Finanças grego, publicado no The New York Times e no DN português, de hoje.

A dimensão política, ética e académica está plasmada a 3 colunas, no DN, com o título «Não é altura para jogos na Europa».  É o europeísta com dimensão humanista que nos previne: «A Europa só recuperará a sua alma quando recuperar a confiança do povo», é o professor cosmopolita que nos dá uma aula de política internacional, passando pela filosofia de Kant e pela sua própria experiência pedagógica.

É a prosa de um intelectual pragmático, o Colosso de Rodes que precisava de terra firme e encontra um ministro das Finanças alemão, esquecido da democracia e da decência, a declarar que os gregos «elegeram um governo que se comporta de maneira bastante irresponsável».

Não é a condição de credor e alemão, povo que sofreu e fez sofrer com a delinquência de um chanceler que quis submeter a Europa, que lhe permite insultar o povo grego e isolar, com os lacaios que aguardam migalhas, quem demonstrou que a dívida grega, tal como a portuguesa e de outros países europeus, só pode continuar a espiral de pobreza e revolta.

É fácil destruir o Syriza e vergar os povos ao pensamento único, mas é ainda mais fácil abrir as portas ao partido Aurora Dourada e aos seus homólogos.

No espaço de um século, a Alemanha pode ter contribuído para o início da 3.ª Guerra Mundial. Na ex-Jugoslávia e na Ucrânia apenas treinou.

Apostila - Pode ser lido aqui


Portas, Machete e a dama do véu


Um luzido séquito, capitaneado pelo vice-PM e coordenador dos assuntos económicos e canónicos, assistiu anteontem, no Vaticano, à criação do único cardeal português dentro do prazo e que, sob o pretexto de haver em Lisboa um cardeal com direito a voto, manteve adiado o barrete cardinalício. Só agora, após o passamento do cardeal Policarpo, logrou aconchegar o cocuruto com o ambicionado adereço.

A tradição de criar cardeal o patriarca de Lisboa é um costume do rito romano da ICAR que vem do século XVIII, um estatuto conferido por inerência de funções numa diocese patriarcal. Que desta vez o Governo tenha mandado Paulo Portas, carregado com o casal Machete e o pio secretário de Estado da Cultura, em vez de um elefante com ouro, como fez D. João V, é sinal de penúria e da degradação zoológica da comitiva.

Surpreende que um país, com graves problemas financeiros, mantenha a embaixada do Vaticano, com a de Itália a poucas centenas de metros, num Estado onde, por falta de espaço, a representação diplomática está domiciliada fora.

Quanto à ida de Paulo Portas nada há a dizer. Salvo os colegas do Opus Dei, afligidos com cilícios e mais horas de genuflexão, poucos têm tantas missas no currículo e tanta devoção exibida.

O que surpreende num país laico, onde a Constituição obriga à separação da Igreja e do Estado, é o convite ao Papa para vir a Portugal no centenário das ‘aparições de Fátima’, como se o acesso à agência lhe fosse vedado, e como se o ministro tivesse competência para certificar a Cova da Iria como local de ‘aparições’, anjódromo ou laboratório para acrobacias solares.

O Sr. Duarte Pio descobriu que os cavalos de D. Nuno se ajoelhavam em Fátima quando as cabras não tinham ainda a guardá-las crianças com queda para a santidade. Agora é o imutável Paulo Portas que certifica a beatitude do local e as aparições que o Vaticano, para evitar o ridículo, prefere qualificar de ‘visões’.

Esta gente é mais dada à fé do que à realidade e às orações do que ao sentido de Estado.

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

A União Europeia vai de vitória em vitória

No mesmo dia, hoje, o Eurogrupo elogia Portugal, aceitando um pagamento antecipado ao FMI, e faz um ultimato à Grécia dizendo, em substância, que está disposto a discutir tud,o desde que se submeta ao que lhe impõem. Não é só a Grécia que fica sem saída, é o futuro da União Europeia que fica comprometido.

Quanto a Portugal, numa clara manobra de apoio eleitoral, o elogio é o preço da traição e da cumplicidade com o diretório da UE. Em 2014 o investimento estrangeiro baixou 23%, a balança de transações correntes, apesar do aumento das exportações, agravou-se e a dívida soberana aumentou.

Os elogios são os trinta dinheiros do entusiasmo com que venderam a Grécia e que não custam dinheiro. A fatura ficará para o Governo que vier e a que a União Europeia fará o que fez ao Syriza.


Exaltações migratórias sob o diáfano manto do patriotismo…

Os trágicos acontecimentos, de índole terrorista, que recentemente atingiram judeus no dramático ataque ao supermercado ‘kosher’, numa sinagoga da Dinamarca e mais recentemente na profanação de túmulos judaicos em França link, motivaram uma inusitada reacção do Governo de Israel que não deve ignorada ou desvalorizada.

Benjamin Netanyahu, chefe do governo israelita, a exemplo do que já tinha feito em Paris numa sinagoga, quando das imponentes manifestações públicas contra o terrorismo, volta a defender o regresso dos judeus europeus à ‘pátria’, ou seja, a Israel link. E, na passada, adverte que atentados como estes se repetirão.
Este último remoque mostra bem como começaram a surgir aproveitamentos políticos enviesados de um clima de suspeição, insegurança e medo a que a Europa sendo estranha é, no entanto, um dos alvos privilegiados.

Todavia, esta proposta de ‘novo Exodus’ não assenta em parâmetros realistas. Se existe local onde os judeus são vitimas de atentados é exactamente no Estado israelita onde perdura um arrastado conflito que continua sem solução à vista.  Mais uma vez o presidente do Governo israelite agita espantalhos culturais históricos e religiosos em que misturam conceitos e actos como o judaísmo, o sionismo e o anti-semitismo. Existe aqui um velado regresso às teorias de Theodor Herlz onde a ‘pátria’ adquire a centralidade política e cultural. Este o âmago da doutrina sionista histórica que – como a realidade demonstra - não conduziu à Paz.

Já o anti-semitismo actual dificilmente se entronca na vergonhosa vaga europeia que atingiu o trágico auge durante o período nazi, com as abomináveis consequências ligadas ao holocausto. Hoje, o anti-semitismo cultivado essencialmente por diversificados sectores fundamentalistas islâmicos – é impossível ignorar esta realidade - tem outra génese e partilhou outros caminhos. Os mesmos que levaram – no pós II Guerra Mundial – a Europa a apoiar as reivindicações (sionistas) para obter a criação (artificial?) do Estado de Israel através da ocupação da Palestina o que originou um - aparentemente - insanável conflito.

As declarações de Benjamin Netanyahu não são um bom augúrio. Depois de alguma distanciação histórica elas vão de encontro aos desejos expressos por antigos dirigentes israelitas (p. exº: Ben Gurion e Golda Mier) no sentido de construir o denominado ‘Grande Israel’, que pressupunha o regresso da totalidade dos judeus à ‘terra prometida’ (por quem?). 
Não é difícil adivinhar ao que conduziria, no contexto regional do Médio Oriente, o desenvolvimento de tal pretensão.

O pungente apelo de Netanyahu em favor de um novo “Exodus” dos judeus europeus em direcção a Israel, incitando a uma diáspora de sentido contrário, deve ser encarado como um acto incendiário em relação à perigosa e instável situação do Médio Oriente que, como tem sido repetidamente referido, será uma das causas remotas (não a única) do clima de insegurança que a Europa tem vindo a arcar. 
E este será um momento em que os europeus – sejam judeus, cristãos ou muçulmanos – dispensam estes desbragados incendiários.

Delenda Athens est

O problema global do sistema financeiro, com epicentro nos EUA, teve como detonador o banco Lehman Brothers Holdings Inc.. Não se sabe se essa crise do capitalismo, cujas ondas de choque penetraram na Europa, foi a última ou se, à falta de alternativa política, teremos ainda de aguardar outra, mais devastadora.

Curiosamente, na pátria do descalabro atenuaram-se os danos enquanto a Europa entrou em agonia, com as maiores economias em respiração assistida à custa do oxigénio das mais frágeis.

A reunião de hoje, do Eurogrupo, não augura nada de bom. O luso Catão paroquial, um ventríloquo da Sr.ª Merkel, que está para o PM grego como o meu professor de Física da década de 50 do século passado estava para Einstein, já disse que é preciso destruir o Syriza. O seu porta-voz em Belém, um modesto economista a quem falta o patriotismo, a cultura e o currículo académico de Yanis Varoufakis, já envergonhou o país afirmando que os gregos vivem à custa dos portugueses, quando o seu vizinho da Praia da Coelha, Oliveira e Costa, esbanjou o sêxtuplo do montante da contribuição para com os gregos e o patrocinador da sua candidatura a PR, Ricardo Salgado, um múltiplo muito mais vasto e impossível de prever.

Na sua mediocridade, pressentem que a solução do problema grego e, simultaneamente, europeu, sendo bom para Portugal arrasaria o resto da base de apoio que nos condenou à pior maioria, ao pior Governo e ao pior PR do regime democrático. O pavor da esquerda democrática grega e do mimetismo possível conduziu este Governo e este PR à cegueira que os impede de verem o abismo para que empurram Portugal.

A Grécia perdeu 25% do PIB e atirou para o desemprego quase 26% da sua população. A coragem, a competência e a determinação do seu PM e do ministro das Finanças têm de ser postas em causa. A honra e o patriotismo ofendem os cobardes e medíocres. Não se trata de negociar, é preciso humilhar quem ousa sacudir a canga. Tal como, outrora, a Cartago, é hoje necessário destruir Atenas.

As guerras púnicas começam hoje. Delenda Athens est.

domingo, fevereiro 15, 2015

Momento de poesia


Quero que a vaca de Berlim deixe de dar leite

[Poema panfletário de sabor anarquista]

Ao povo da Grécia

Quero que a vaca de Berlim deixe de dar leite
e que o Lutero de Atenas pregue as suas teses
no portão vermelho da catedral da Acrópole.

Que o monstro, a abarrotar de banha e maldade,
se suicide, como o Hitler, nas labaredas do bunker
num sacrifício perpétuo
em memória das vítimas da fome.

Que venha a nova Reforma
a nova Bíblia dos desventurados
rasgar os céus com raios e coriscos
e iluminar a esperança dos dias.

Abatam-se ao inventário
os palácios de todos os vaticanos
o de Bruxelas e o de Berlim
e decrete-se o fim das gravatas
dos fatos cinzentos
dos sorrisos postiços
dos salamaleques forçados
e dos discursos enfatuados a cheirar a mofo.

Que venha a Revolução
amarrem os agiotas e os lacaios
e deixem-nos a secar nos ramos das figueiras.

Venham todos para a rua,
com as bandeiras desfraldadas,
arrancadas  do fundo dos baús,
para celebrar o fim da escravatura.

Venham, venham todos
para exorcizar a tortura da ditadura dos mercados
destruir os buracos cavernosos dos off-shores
e ouvir o último arroto dos banqueiros.

Venham, venham todos!...

Alexandre de Castro


Lisboa, Fevereiro de 2015

UM VÓMITO DE CAVACO SILVA

Há dias, a propósito do novo governo grego, Cavaco bolçou umas inadmissíveis alarvidades que mais uma vez envergonham Portugal e os Portugueses.

Em primeiro lugar, não tinha nada que "botar faladura" sobre o governo democraticamente eleito de um País estrangeiro com o qual Portugal tem relações diplomáticas e que nunca nos atacou. Sobretudo quando nunca se lhe ouviu uma palavra sequer de discordância relativamente a outros países, como a Alemanha, que nos oprimem, nos desprezam e até nos insultam, de modo a justificar, no mínimo, um protesto diplomático.

Depois, em vez de se solidarizar com a Grécia, que é, como nós, vítima da troika e ousou bater-lhe o pé, solidarizou-se cobardemente com os nossos comuns algozes. Foi "a voz do dono", limitando-se a papaguear o discurso das merkels do norte da Europa. Em vez de falar como Presidente de Portugal e dos Portugueses, falou como um comissário das potências estrangeiras que nos oprimem e cujos diktats a corja que nos governa aceita servilmente. Atuou como presidente do seu PPD e não como Presidente de Portugal.

Disse, em substância, que não havia maneira de os gregos "aprenderem a lição", subentendendo o humilhante lugar comum de que nós somos os "bons alunos", que suportamos mansamente "o castigo" pelos nossos "desvarios".

Enfim, uma vergonha!

E as eleições presidenciais são só em 2016! Pobre país o nosso...

Um salazarista impenitente

Um reacionário, mesmo que tenha sido bastonário, será sempre um reacionário.

sábado, fevereiro 14, 2015

Laicismo, laicidade e hipocrisia

O laicismo é a doutrina que procura emancipar as instituições do seu caráter religioso e excluir a influência das religiões no estado, na cultura e na educação, sem lhes impedir os direitos de ensino e organização que confere às outras associações.

A laicidade é o modo concreto da tradução e aplicação prática da doutrina. O laicismo é, pois, a doutrina e a laicidade o modo de a levar à prática.

Dizer que se é a favor da laicidade mas contra o laicismo é a forma enviesada de afirmar o apreço pela separação da Igreja e do Estado desde que não seja praticada. É a dialética das religiões dominantes, impedidas de serem totalitárias, usada sonsamente à guisa de argumento.

Ser contra o laicismo e a favor da laicidade é o mesmo que ser a favor da heroicidade e contra o heroísmo. Só notará a diferença quem tenha um paladar, tão requintado, capaz de distinguir a água benta da outra ou a hóstia consagrada de uma rodela de pão ázimo.

Em Portugal, a Constituição exige a separação do Estado e da Igreja, isto é, defende a laicidade. Os Governos julgam que as sotainas lhes trazem votos e contrariam-na. Hoje, o bispo de Lisboa foi criado cardeal e a RTP-1 parecia a emissora eclesiástica, contra a laicidade. O contubérnio entre a Igreja e o Estado continuam.


Dos Budas do Afeganistão ao Estado Islâmico

Há cerca de 14 anos, num país assolado pela miséria, minado pelo fanatismo, devastado pela guerra, as mulheres foram proibidas de aceder à educação e à saúde, compelidas a  observar os mais rigorosos preceitos islâmicos e a renunciar aos direitos mais básicos, com frequência à própria vida.

Aconteceu num país com uma cultura antiquíssima, outrora pujante, onde o poder foi tomado pelos célebres estudantes de teologia, vulgo talibãs, que logo destruíram dois budas gigantes esculpidos em pedra nos séc. II e V (e. v.) com mísseis e espingardas automáticas para que não viessem adorar-se falsos ídolos que “insultam o islamismo”. Foi no Afeganistão.

Em todos os tempos e em várias religiões houve selvagens que entenderam que os livros diriam o mesmo que o livro sagrado, e seriam inúteis, ou diziam coisas diferentes e eram prejudiciais.

A inteligência, a cultura e a sensibilidade não são apanágio de uma só cultura mas são incompatíveis com a mais funesta de todas as misturas: a ignorância, o proselitismo e a fé. E é desta mistura perversa que se faz a infelicidade dos povos, a miséria das nações e a tragédia das sociedades que aniquilam em asfixiante submissão.

Apagam o património cultural da mesma forma selvagem com que anulam as liberdades cívicas e, enquanto a fome, a doença e a miséria devastaram uma população bloqueada pelo terror, o mundo civilizado assistiu incapaz, na sua raiva, a ver postergados os mais elementares valores que são a marca da modernidade.

Os povos não são donos exclusivos do património que conservam e por cuja guarda são obrigados a responder. Os governantes, sobretudo os que detêm o poder de forma ilegal, terão de responder pelos dislates e crimes que cometeram. E têm de ser os homens a julgá-los sobretudo aos que pensam ter apenas obrigações perante Deus. Provavelmente o direito de ingerência encontraria aí plena justificação.

Perante as hordas selvagens que, um pouco por todo o lado, tomam o poder com armas sofisticadas que as grandes potências nunca deixaram de fornecer, exige-se uma nova ordem que liberte do caos e do crime organizado multidões que tiveram o azar de nascer no sítio errado sob o jugo de tenebrosos trogloditas.

Infelizmente, a teologia do beduíno amoral e analfabeto, como Atatürk definiu Maomé, tem sido o escalracho que destrói as searas da cultura, do Afeganistão à Líbia, do Iémen ao Iraque, num imparável contágio rumo às teocracias e ao Estado Islâmico.


O Código Penal, a jurisprudência e o bom senso

«1 - Quem, por qualquer forma, ofender gravemente a memória de pessoa falecida é punido com pena de prisão até 6 meses ou com pena de multa até 240 dias.
2 – (…)
3 - A ofensa não é punível quando tiverem decorrido mais de 50 anos sobre o falecimento.»

Não creio que as ofensas a Salazar, Franco, Pinochet ou Pol Pot, já que Estaline e Mao continuam mortos há mais de 50 anos, sejam punidas pelos juízes a quem cabe julgar.

Há, no Código Penal, anacronismos que o bom senso recomendaria rever. Se, ainda se tratasse de crimes particulares, a exigir queixa dos próprios, ainda se compreendia. Não era natural que abdicassem do calor do Inferno, onde a crença popular os domicilia, para virem nomear um advogado que lhes lavasse tantas e tão severas nódoas para as quais não haveria benzina que as desencardisse.

Valha-nos o bom senso da jurisprudência e a falta de pulhas litigantes para nem ser preciso pôr à prova os Tribunais.


sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Arrependimento ou incentivo aos padres e bispos?


«A escolha de não ter filhos é egoísta».

(Papa Francisco, em intervenção na Praça de S. Pedro)

A Irmã Lúcia e o Quincas

A Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado, Lúcia para os amigos, íntima da Senhora de Fátima, morreu carregada de anos e de visões a 13 de fevereiro de 2005.

Em 19 de fevereiro de 2006 foi trasladada para a Basílica de Fátima onde foi sepultada junto dos primos, Francisco e Jacinta, adiantados no processo de santidade devido à precocidade na defunção. Chovia. As bátegas não pararam de fustigar os peregrinos. As novenas dos padres não conseguiram que S. Pedro contrariasse a meteorologia.

Não foi a inutilidade das rezas ou a ausência de Deus que dissuadiu os crentes, alagados de fé e chuva até aos ossos, de estarem presentes na segunda edição do funeral de Lúcia.

Não houve na repetição das exéquias fúnebres a saudade genuína das prostitutas de S. Salvador da Baía a passearem o cadáver do Quincas Berro D’Água, nas ruas em cujos botequins devorou cachaça com a mesma sofreguidão com que as beatas chupavam hóstias.

A freira, a quem o terrorismo religioso do catecismo induziu alucinações, nunca terá um Jorge Amado que a celebre em «A morte e a morte da Irmã Lúcia, vidente».

O Quincas, quando devorou, de um só trago, água em vez de cachaça, deu tal berro que passou a ser carinhosamente tratado por «Berrinho» e fez-se personagem de romance. Lúcia comungava por hábito e obrigação pia, mantinha olhos vagos e a postura de quem vive morta por dentro envergando como mortalha o hábito.

Quincas é o delicioso personagem que diverte e comove o leitor de «A morte e a morte de Quincas Berro D'Água», marginal que viveu a vida, pecador que amou e foi amado.

Lúcia é o exemplo trágico de criança pobre, fanatizada com orações e amedrontada pelo Inferno, que sonhou virgens nas azinheiras, cambalhotas do Sol no caminho das cabras, profecias de conversão da Rússia e churrascos de almas para absentistas da missa.

A criança amestrada com pios embustes sobre o divino tornou-se cadáver de estimação, acolitada pela força pública, a viajar com padres, bispos, freiras e romeiros, num cenário com quatro missas, orações pias e um futuro promissor de oferendas de gente aflita.

Não foi o final da história de uma encarcerada de Deus, foi o início da caminhada para a santidade, à espera de milagres e oferendas que hão de alimentar funcionários de Deus e manter Fátima como uma das mais lucrativas sucursais do Vaticano.
A fraude não acabou, começou um novo ciclo. Faz hoje 10 anos que iniciou a etapa da santidade.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Amanhã, sexta-feira, em Coimbra


Humberto Delgado – 13 de fevereiro de 1965 – 50 anos depois

A ditadura salazarista impediu Humberto Delgado (HD) de ser presidente da República (1958), por fraude, e de continuar a viver (1965), por assassínio, baleado por Casimiro Monteiro, agente da PIDE, o instrumento repressivo ao serviço do déspota.

HD não foi a única vítima dos esbirros do fascismo, uma exceção na extensa história de repressão, mas foi um destacado opositor a quem o exílio e o assassinato, depois de uma fraude eleitoral, conferiram a auréola do martírio.

O chefe da brigada da PIDE que o assassinou, Rosa Casaco, passearia, depois do 25 de Abril, pelo país que ajudou a transformar em cárcere. Arrastou desbragadamente a sua incultura e pusilanimidade com ameaças a democratas, depois de prescrito o crime que o mandante, escondida a mão, se apressou a atribuir aos comunistas, através da RTP.

O então ministro do Interior, Alfredo dos Santos Júnior, morreu de velho e de velhaco, com a reforma de presidente do Conselho de Administração de uma importante empresa do Estado.

Salazar, ditador vitalício, perdeu o conhecimento, sentado, graças ao caruncho de uma cadeira, e morreu deitado no Hospital da Cruz Vermelha. Os velhos torcionários ficaram impunes, enquanto o «general sem medo» continuou a ser difamado depois de morto.

Hoje, meio século depois do seu assassinato, recordamos quem fez tremer a ditadura e quem, no combate persistente que lhe moveu, perdeu a vida.

Humberto Delgado foi, até então, o general mais novo das Forças Armadas Portuguesas.

A partir de 1958 consagrou a vida à luta pela liberdade. Hoje é património do País que amou e dos democratas que não suportam as tiranias seja qual for o pretexto, qualquer que seja o seu sinal.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

O PR e a Grécia

Hoje, Cavaco Silva pronunciou-se sobre a Grécia. Não o censurem pelos seus silêncios, reparem no que diz.

A ministra da Justiça e a legalização das drogas leves

Que este Governo tem os ministros que esta maioria, este Governo e este PR merecem é um truísmo cuja repetição é redundante. A saída de Miguel Relvas, talvez o menos mau da orquestra onde sobram músicos incapazes, com um regente que nem para segurar a pauta serve, tornou o elenco ainda mais irrisório.

A ministra da Justiça, uma jurista qualificada, deixou os Tribunais à deriva com a pressa de impor um novo programa informático e, depois da asneira, em vez de se demitir, foi pusilânime, acusando dois técnicos, do Citius, de sabotadores, e, depois de a PGR ter comprovado a falsidade da acusação, exonerou-os num ato de vingança gratuita.

Acusá-la dos erros cometidos foi justo e razoável, atacá-la pela proposta de legalização da venda de drogas leves em Portugal, é um erro de quem não quer discutir o problema, com negócios e crimes associados, que a ministra referiu. Os ataques surgem de quem está mais interessado na luta partidária do que na mitigação do problema.

O Governo, que fez do desmantelamento do Estado programa e do empobrecimento do País desígnio, já habituou os portugueses a ruídos mediáticos, para ver o efeito, sem se preocupar com a desafinação produzida na orquestra, com os sons dissonantes, mas não creio que a proposta de legalização da venda das drogas leves se insira na guerrilha que os talibãs do PSD travaram para levar o indizível Passos Coelho ao poder.

É claro, em termos políticos, que um ministro não faz afirmações a título pessoal, como até este PM devia saber. A ministra manifestou – e bem –, a convicção sobre o fracasso da repressão, e não é com a execração da mensagem que se combate o mensageiro.

O flagelo da droga exige a contribuição de médicos, juristas, sociólogos, psicólogos e outros técnicos; a análise dos resultados de legislações mais permissivas; a permuta de experiências entre países de molduras jurídicas diversas; a avaliação dos efeitos da despenalização  do consumo, desde 2001, e reflexão sobre a vasta literatura médica.

Até parece que atividade de gangues violentos e o branqueamento de capitais a que a ministra Paula Teixeira da Cruz aludiu não são uma realidade! Ora, aqui está uma boa ideia que não deve ser abandonada à guerrilha partidária mas ponderada por quem se interessa pelo gravíssimo e insolúvel problema de saúde pública.

Pessoalmente, não tenho uma posição definida e, muito menos, definitiva.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

A Grécia, a União Europeia e Portugal

Sei pouco do que quer que seja e ainda menos de macroeconomia, mas sei alguma coisa de política e de história. É por isso que não perdoo a Reagan, Thatcher e João Paulo II a herança sinistra do pensamento único a que o ultraliberalismo conduziu, nem a Helmut Kohl e a João Paulo II o desmembramento jugoslavo que começou nas independências eslovena e croata, com que abriram a caixa de Pandora, e acabou no offshore da droga e da jihad, o Kosovo.

Sei pouco de geoestratégia mas condeno quem desafiou Putin e o virou contra a Europa também sua, servindo interesses alheios. Conheço os cruzados que, ao arrepio da ONU, invadiram o Iraque e, além do crime, perderam a face para acusarem a Rússia quando se excedeu na defesa dos russos contra a Geórgia ou contra o golpe de Estado da Ucrânia.

Acompanho a Grécia desde o jugo dos coronéis até à asfixia atual e lamento que os dois partidos, de duas famílias, fossem incapazes de fazer um país laico e virtuoso, sem botas de coronéis e o hissope dos patriarcas. Lamento que o PASOK traísse o seu programa e se tenha suicidado na corrupção e compadrio, de mãos dadas com a Nova Democracia.

Os dois partidos estruturantes da democracia política atual foram os coveiros da Grécia, que lhes deu repetidas oportunidades, sem que o patriotismo que moveu o Syriza tivesse despontado neles.

 Localizada estrategicamente no cruzamento entre a Europa, a Ásia, o  Médio Oriente e a África, a Grécia hesitou entre a modernidade e a tradição, sufocada pelas vestes talares do clero e a incompetência e corrupção de dois partidos políticos.

Com a UE tolhida pelo medo e pusilanimidade dos seus dirigentes, Yanis Varoufakis interroga: “Se a Grécia sair, quem irá a seguir? Portugal?”.

O alerta do ministro das Finanças grego para Portugal e para toda a zona euro, “se a Grécia sair da união monetária, esta irá ‘desmoronar-se como um castelo de cartas’, é ignorado por um Portugal que ressona, com um Governo autista, uma maioria acéfala e um PR comprometido.

Hoje, ao contrário dos que querem punir o Syriza, arruinando a Europa, é o Syriza que, querendo salvar a Grécia, pode salvar a União Europeia. Alexis Tsipras está a fazer à Europa o que Eça de Queirós quis fazer a Portugal: « E simplesmente o que eu quero fazer é dar um grande choque elétrico ao enorme porco adormecido (refiro-me à Pátria).

[Eça de Queirós, carta a Ramalho Ortigão, de 10 de Novembro de 1878, in Cartas e Outros Escritos].

Que os porcos, feios e maus acordem.


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

No Vaticano, um bairro de 44 hectares (Crónica para ímpios)

O Papa é o mandatário terráqueo do mítico Jesus Cristo, emigrante perpétuo do Paraíso, local sem código postal, sito em parte incerta.

Sendo a estrela da Companhia, conhecida por Igreja católica, encontra-se desaparecido há dois mil anos, tendo deixado um representante no planeta Terra a promover a fé e a gerir os negócios. Quando o Padre Eterno é servido de chamar à sua divina presença o Papa de turno, sabe-se que papa morto, papa posto, outro é escolhido vitaliciamente por eminentes purpurados iluminados pelo pai biológico de Jesus, uma pomba denominada Espírito Santo, sem qualquer grau de parentesco com o ex-banqueiro Ricardo.

Hoje há dois papas, o que pediu a demissão por ser nele maior o temor à Cúria do que ao seu Deus, e outro, que herdou o alvará, assegura o expediente e gere o negócio da fé. Causa estranheza que o representado não tenha deixado procuração, quiçá por não saber escrever ou por não haver notários quando exercia o ofício dos milagres e da pregação.

Há crentes que ignoram se o Papa jubilado ainda pode criar cardeais ou se perdeu, com o alvará, as qualidades que demonstrou na criação de santos, a partir de defuntos da sua estimação, e cardeais, a quem bastava encomendar o barrete que fazia perder aos bispos a cabeça e ganhar o adereço.

Perdeu a carteira profissional mas, nas férias ou noutro impedimento do sucessor, podia ser chamado ao múnus como os médicos reformados nos surtos gripais. Exceto a tiara, cujo uso lhe passou a ser vedado, e outros adereços pios, tal como o camauro, mantém direito a vestes femininas que o jargão apelida de ‘talares’.

Estes problemas são desafios à teologia, a única “ciência” sem método nem objeto, que faz parte do currículo dos quadros da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR, S.A), uma multinacional da fé que vende bênçãos, graças, bulas e bilhetes para o Paraíso.

A FRASE:


“Se não mudarmos a Europa, a extrema-direita irá fazê-lo”.

(Tsipras Alkis Konstantinidis, PM grego)

domingo, fevereiro 08, 2015

A estratégia e os embustes desta direita (4)

Não, não se pode considerar traição à Pátria, como o fez Garcia Pereira num dos últimos Prós e Contras, na RTP-1, quando a inépcia e a fé estão na origem das velhacarias.

Esta direita, este Governo e este PR serão julgados nos próximos atos eleitorais, sendo o último julgado pelo resultado das próximas eleições legislativas.

Esta direita e este PR são os responsáveis da chegada a aiatola de um medíocre talibã da madraça da JSD. Predestinado, pela cor da pele e pela paternidade, a ser capataz em um país africano, se a História parasse, pode não sentir como sua a Pátria que lhe deram. É o epifenómeno de um momento de desvario, o D. Sebastião que esta maioria, este PR, o Relvas e o Marco António escolheram para liderar um país.

Não admira que o ódio ao 25 de Abril fosse programa e a inaptidão estatuto, quando os ventos ultraliberais assolaram o País e lançaram o povo na miséria. A venda da PT é o paradigma do desmazelo ou vingança deste Governo, que esta maioria e este PR nos impuseram.  Até o CEO da Altice, estupefacto, confessou que ‘O Governo português foi inacreditavelmente distante da operação’ e que o grupo, ao contrário do que se passou em França, não tem “qualquer compromisso” quanto à preservação de emprego na PT Portugal porque não lhe foi feita qualquer espécie de exigência pelo PM ou por qualquer ministro ou secretário de Estado de Portugal”.

A população, mais interessada na humilhação de um ex-PM em Évora, não se deu conta da pressa deste Governo e desta maioria na alienação sem condições de uma empresa de referência e tecnicamente avançada.

Sobre o aiatola do Governo que, tal como no Irão, é um dignitário subalterno, lembrava ontem a notável jornalista Fernanda Câncio, no DN, que em 2010, na primeira festa do Pontal em que o colocaram à frente do PSD, ‘não teve pejo em aludir à cegueira de que foram vítimas pacientes de uma clínica privada algarvia, acusando as “autoridades públicas” de “incúria” por “se demitirem da função de fiscalização” e acrescentando: “É isto culpa do PSD? É este o Estado social que o PS quer oferecer a Portugal?”’.

Não se pode descer, na exploração de tragédias, ao nível deste Governo e desta maioria, a que o PR prolongou o prazo. A maior catástrofe é a duração deste PR, deste Governo e desta maioria.

A falta que nos faz


sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Custe o que custar, sim, a qualquer custo

A única certeza da Europa, para além do frio gélido que a percorre, é a incerteza do seu projeto político, económico e social.

Enviesado, à sorrelfa, o Tratado de Lisboa pelo Tratado Orçamental, entrou-se na deriva financeira que asfixiou a solidariedade, deprimiu a economia e minou o projeto político comum europeu. Não sei se a crise das dívidas soberanas trazida pela falência do banco Lehman Brothers podia ter sido evitada, mas o julgamento, feito à posteriori, não deixa dúvidas sobre o falhanço das políticas seguidas.

Independentemente da proximidade ou distância política, em relação ao Syriza, somos forçados a reconhecer que Tsipras e Varoufakis, PM e ministro das Finanças da Grécia, provaram em poucos dias que o caminho seguido tinha conduzido ao abismo.

Têm contra eles quem menos se esperava, iletrados com alma de escravos, oportunistas à espera de migalhas, aves de rapina à espera de um cadáver. Nos PIGS, a seguir ao ‘G’ segue-se o ‘P’, e, por maior que seja a subserviência e a falta de solidariedade, podia, pelo menos, pensar-se aí na aritmética que, perante a tragédia grega, condena Portugal a ser o próximo país a passar da desgraça à catástrofe.

Tsipras interpreta o sentir de milhões de homens e mulheres desempregados, de crianças que morrem sem cuidados médicos, sem comida e sem medicamentos, esmagados pela dívida que sabe impagável na atual conjuntura, e entre o “aguentam, aguentam…, ‘custe o que custar’” e o ver morrer o seu povo que pretende salvar ‘a qualquer custo’, escolhe a espada em vez da parede a que viu o seu povo encostado.

Não se sabe o conclusão dos esforços obstinados de Tsipras e Varoufakis mas ninguém duvida que, não tendo eles a solução, apenas enjeitaram uma situação insustentável. Já ninguém lhes tira a aura de heróis de um povo que se levantou e que prefere suicidar-se a morrer de vergonha, enquanto os abutres locais transferem capitais para o estrangeiro, como se o sangue sugado ao povo lhes pertencesse, como se a tragédia de todos não fosse agravada por eles.

As palavras de Yanis Varoufakis para os decisores da Alemanha e do BCE podem ter batido num muro de betão armado, mas provocaram um sobressalto cívico e calaram fundo no coração dos europeus que assumem a herança do Iluminismo e da Revolução Francesa:

“Eu esta noite vou voltar a um país em que a terceira força politica é um partido Nazi. Vocês têm de decidir quem querem ajudar”

Para já, a Grécia impedirá o acordo de comércio e investimento entre a UE e os Estados Unidos (TTIP) quando este tiver de passar pelo processo de ratificação nacional. É uma arma que está nas mãos dos gregos e que podem exportar para os PIGS que rapidamente procederão à higienização governamental que espera pelo próximo ato eleitoral.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

A FRASE

«Exige a punição referida no Alcorão para os opressores corruptos que combatem Alá e o seu profeta: morte, crucificação ou corte de membros».

(Hhmed Al-Tayeb, principal autoridade muçulmana sunita sobre a morte do piloto jordano, in DN, hoje, pág. 8)


A Grécia e a União Europeia

O novo Governo grego, o «sonho de crianças», como um estouvado e inimputável PM lhe chamou na sua abissal ignorância, e subserviência ainda maior aos poderosos, tem um problema com a União Europeia, mas esta tem um problema maior com a Grécia.

Há vários países cuja dívida jamais poderá ser saldada nas condições atuais e nem todos os governos suportam ver 20% dos seus cidadãos em confrangedora miséria e no maior desespero. Surpreende, mesmo em governantes a quem as madraças juvenis facultaram um curso tardio, quiçá por equivalência política, que não tenham aprendido no 4.º ano de escolaridade que um total é 100%, que o superavit de alguns países exige o défice de outros, que o capitalismo, descontadas virtudes conhecidas, tem intrínsecas maldades a corroê-lo e a atirar os povos para o desespero, a revolta e a revolução, sendo esta última a única situação em que os poderosos podem sair prejudicados.

A Grécia não é a causa do beco em que a União Europeia (UE) aparece mergulhada, é a consequência gravosa de a última ter deixado substituir políticos por contabilistas e, por fim, ter permitido aos incapazes e oportunistas o assalto às alavancas do poder.

A Grécia foi espoliada, desprezada e humilhada. Cansou-se e é fácil destruí-la. Hoje não é preciso enviar exércitos, basta deixá-la morrer à fome, mas, tal como sucede com uma infeção que não é tratada, é o corpo todo que se contagia e engana-se quem considera a cirurgia solução, esquecendo as metástases que alastraram para os órgãos nobres da UE, isto é, para os bancos dos países ricos que exageraram nos juros e perderão o capital.

A vitória do Syriza foi a vitória da democracia grega e não o regresso dos coronéis ao poder. Demonizar a decisão eleitoral de um povo é ter da democracia uma leve ideia e da vontade popular uma visão míope. Só mesmo um filho da troika a pode contestar.

A Grécia, berço da democracia e da civilização em que nos revemos, pode ter abreviado o fim desta época histórica da Europa mas não cabe a Alexis Tsipras a responsabilidade do fracasso. Ele apenas se limitou a perguntar à UE se há salvação.

É fácil esmagar o Syriza e satisfazer a obsessão de muitos. Impossível é, depois, insistir no sonho de uma Europa comum e na preservação da paz e da democracia. Adivinha-se facilmente onde despontarão as primeiras ditaduras.

Ponte Europa / Sorumbático