terça-feira, março 31, 2015

Barreto Xavier: gato escondido com rabo de fora…


O Governo está prestes a completar 4 anos de exercício de funções. 
Barreto Xavier, secretário de Estado da Cultura, andou a passear-se pelos corredores do poder e dá a sensação que se entreteve a despachar à toa (como no mediático caso da venda dos quadros de Miró).

A poucas semanas de acabar o mandato, num Forum a decorre no CCB, lança um intrigante desafio: “Durante três dias, artistas, governantes, pensadores e especialistas nas áreas da política, religião, economia, entre outras, vão debater o papel da cultura na sociedade portuguesalink.

O comentário que esta afirmação suscita é o seguinte: os portugueses julgavam que o governante para a cultura saberia ab initio qual era esse papel. Em caso de dúvida, de dificuldade de compreensão ou incapacidade de apreensão sobre esse papel seria de esperar que não tivesse aceitado exercer esse cargo.

Será difícil compreender que o desejo manifestado pelo secretário de Estado não seja uma peça da campanha eleitoral da actual maioria. Decidiu fazer prospecção para elaborar o programa eleitoral respeitante à Cultura a apresentar para a legislatura de 2015-19. Por mais desmentidos que sejam proferidos.

Os portugueses não andam por cá para ver passar os comboios…

Notas Soltas - março de 2015

Segurança Social – A dívida de Passos Coelho, criada entre os anos de 1999 e 2004, já prescrita, era sua conhecida e só foi liquidada por ter sido noticiada. Pagou a dívida mas a nódoa permanece no PM que é um clamoroso erro de casting.

Rússia – O assassinato do opositor russo Boris Nemtsov foi a dádiva que os adversários de Putin esperavam. É preciso ser muito imaginativo para pensar que Putin tivesse nesse assassinato tanto interesse quanto os igualmente pouco recomendáveis inimigos.

P. R. – A delinquência fiscal do primeiro-ministro, agravada pelas declarações públicas, tornou intolerável a sua permanência no cargo. A gravidade da situação exigia que o PR dissolvesse a A.R. mas, na sua colagem ao Governo, só viu, na nódoa, «odor eleitoral».

Estado Islâmico – A demência sectária alastra como mancha de óleo, do Iraque à Líbia, da Nigéria ao Iémen, com raízes no petróleo, numa mistura de fé e tribalismo, excitados por invasões de modernos cruzados e pela crueldade atávica.

Estado Islâmico-2 – O maior cancro mundial contra a liberdade e os direitos humanos já tem metástases na Argélia, Líbia, Egito, Síria, Afeganistão, Paquistão, Iémen, Nigéria e, naturalmente, no Iraque cuja invasão facilitou a manifestação do tumor.

E.U.A. – Netanyahu foi chamado a discursar no Congresso pelos radicais Republicanos, que dominam as duas Câmaras. Parecia o líder da direita americana que, sem honra nem ética, exultou com os ataques do sionista a Obama. Ainda trocam a Sr.ª Palin por ele.

Racismo – A conduta hostil da polícia americana, contra os negros, vaticina a repetição de conflitos étnicos de dolorosa memória. O fim do mandato do presidente Obama será dramático se a ala mais reacionária dos Republicanos eleger o próximo presidente.

Pena de morte – Por todo o mundo, apesar da comprovada ausência de efeito dissuasor e dos reiterados casos de punição irreversível de vítimas inocentes, a pena capital ganha adeptos. Vivemos tempos de recuo civilizacional. Salva-se a posição inédita deste Papa.

Civilização – Não podemos admitir quem rega com gasolina um homem numa jaula e o incendeia, quem vende mulheres como escravas ou põe um garoto de 12 anos a abater, a tiro, um homem. É urgente o combate contra a barbárie.

Barbárie – Houve no atentado ao Museu e à Biblioteca de Mossul, tal como no ataque à cidade histórica de Nimrud ou, em 2005, na destruição de 18 séculos de História com os Budas de Bamiyan, a pulsão suicida de quem odeia a Humanidade e despreza a vida.

Finanças – A lista de contribuintes VIP da direção de segurança informática do Fisco, decisão tomada no auge do "caso Tecnoforma", que atingiu Passos Coelho, não garante o sigilo fiscal obrigatório, protege os amigos do Governo e corrói o Estado de Direito.

Brasil – A queda abrupta dos preços do petróleo inverteu a época dourada da economia, ora estagnada, e comprometeu os programas sociais que livraram milhões de brasileiros da miséria. A democracia está refém da economia e da corrupção.

Venezuela – O País que mais sofre com a queda dos preços do petróleo vê a miséria e o desespero a aumentarem, o Governo a reprimir de forma ditatorial e os falcões dos EUA à espera de intervir.

Vaticano – Numa atitude inédita, defendeu a ingerência militar no Estado Islâmico, no caso de fracassar uma decisão política, sem recurso à violência. O Papa, corajosamente, rejeitou a hipocrisia habitual e denunciou o ultraje reiterado aos direitos humanos.

Síria – Após a devastação, em vias de regressar ao «Eixo do Bem», vê-se como foram insensatas e contraproducentes as intervenções ocidentais no Afeganistão (2001), Iraque (2003) e Líbia (2011), com a derrocada dos Estados e os cristãos a serem aí dizimados.

Israel – A vitória de Benjamin Netanyahu é o triunfo do radicalismo sobre a moderação e da vingança sobre o perdão. Um líder que prometeu impedir a existência do Estado da Palestina afrontou a comunidade internacional que o reconhece e intensificará a guerra.

Tunísia – O atentado ao museu do Bardo, um espaço aberto a todas as civilizações que fizeram o País, com 22 mortos, é um insulto à civilização, um ato terrorista de facínoras intoxicados nas mesquitas e madraças pelo estúpido manual de um beduíno analfabeto.

Iémen – Homens-bomba fizeram-se explodir durante as orações de sexta-feira em duas mesquitas, usadas por apoiantes de rebeldes xiitas em Sanaa, capital do Iémen, matando 126 pessoas e ferindo 260. O mortífero ataque foi assumido pelo Estado Islâmico.

França – A vitória de Sarkozy, o mais profissional dos políticos franceses, foi o triunfo pessoal que impediu a extrema direita de ser a primeira força política, enquanto a social-democracia se afundou sob a melancólica liderança de Hollande e do governo de Valls.

Espanha – A derrota pesada do PP, partido que governa o País, na Andaluzia, pressagia as alterações que sofrerá a geografia partidária, no fim do mandato de Rajoy, vítima da descoberta da corrupção e contabilidade oculta do PP, durante 18 anos.

Henrique Neto – Ver nesta pseudocandidatura a PR mais do que a hílare provocação da direita é querer que esta maioria permaneça e que o lugar de PR continue com o mesmo descrédito a que o atual titular o reduziu para benefício deste Governo e desta maioria.

Madeira – A maioria absoluta do PSD é a vitória pessoal de Miguel Albuquerque (MA) e um triunfo do partido, que mudou a tempo A. J. Jardim. A dimensão da vitória de MA e a arrasadora derrota da esquerda facilitam as medidas necessárias para gerir a herança de 6 mil milhões de euros, de dívidas.

O silêncio de Boliqueime


segunda-feira, março 30, 2015

A Madeira e o deixa passar esta nossa brincadeira...

A vitória de Miguel Albuquerque à frente dao PSD/Madeira, nas eleições regionais do passado fim-de-semana, tem obrigatóriamente de fazer soar campainhas em todo o espectro partidário nacional. Mas particularmente na Esquerda.

Não basta minimizar a vitória de M. Albuquerque assacando-a a uma dimensão regional. O 'terramoto' aconteceu na Madeira mas haverá necessariamente ‘réplicas continentais’.

O que passou na Madeira não é inédito como também não é ocasional o aproveitamento do Centro-Direita das hesitações e erros dos partidos colocados à Esquerda.

Passar a vida a medir forças, a guerrear-se, não pode ser uma opção perene. Os resultados eleitorais na Madeira estão pejados de mensagens para as oposições (cá e lá). Muita gente acreditava que o ‘jardinismo’ morreria com o fim político de Alberto João. Nada disso vai acontecer e o ‘jardinismo’, parasitário de múltiplos clientelismos instalados durante mais de 3 décadas, está pronto para sobreviver. 

As eleições regionais demonstraram que não basta de ‘fazer-se de morto’ para conquistar o eleitorado. É preciso mais. As vitórias não caiem no regaço sem mais nem menos. 

O PSD/Madeira soube fingir o expurgo dos responsáveis políticos da desastrosa situação em que a Região se encontra. Distanciou-se de Alberto João Jardim e de Pedro Passos Coelho. Aparentemente, assassinou o pai e o padrasto (políticos). É um partido muito treinado nestas andanças e sempre que muda de líder enjeita tacticamente o passado. O criador e a criatura das dificuldades que varrem a Madeira puseram-se de lado. 
Hoje, o PSD nacional veio reivindicar esta vitória que lhe passou ao lado e Alberto João, amanhã, vai influenciar o aparelho político regional para continuar a supervisionar o destino da Ilha. Não é impunemente que se permanece tantos anos no poder. 

As oposições deixaram-se enredar com a história das favas contadas. Os portugueses sabem como são efémeras as favas: Maio as dá e Maio as leva! E, como sabemos, Maio nem chegou a dá-las. E tudo o vento levou. 
No horizonte, o que se alevanta e avizinha é um autêntico vendaval que poderá atingir o Continente, lá para o Outono.

Eleições na Madeira

A maioria absoluta do PSD é uma vitória pessoal de Miguel Albuquerque e um triunfo do partido que soube substituir a tempo Alberto João jardim.

A confiscação do aparelho autonómico e das atividades económicas ao longo de 40 anos não chegam para denegrir a vitória do próximo presidente da RAM e dourar a arrasadora derrota da esquerda.

Parabéns a Miguel Albuquerque e boa sorte na gestão da dívida colossal que herda do inimputável antecessor.

Sinal + e Menos Um

Imagem de Maputo

domingo, março 29, 2015

Violência doméstica

 

No início deste mês, um homem de 33 anos matou a mulher, de 29, e, a seguir, atirou-se da Ponte 25 Abril, deixando o filho de 3 anos que assistiu ao crime. A monótona notícia que se repete, à média de 40 mulheres por ano, é um ferrete de ignomínia que nos marca com o estigma da brutalidade, num desmentido violento da brandura que alardeamos.

Sei que também há homens que são vítimas da violência doméstica e que o assassinato  não é a única forma de violência, mas são as mulheres que estão na vanguarda destacada do inventário das vítimas. 

Falar do ‘país de brandos costumes’, expressão cunhada pelo frio ditador que deixava os adversários entregues às mãos criminosas dos esbirros ou o ao gatilho rápido da polícia política, e sabermos que, nos últimos dez anos, a violência doméstica deixou 700 órfãos, é sermos percorridos por um frémito de incredulidade e de revolta e sentirmos, em cada órfão, um filho que a violência deixou aos baldões da sorte e o remorso da indiferença.

Que raio de genes conservamos ainda das cavernas da nossa ancestralidade, da miséria de um povo que foi sempre pobre e onde o pão se disputava numa leira de terra ou num rego de água para a cultivar, à custa da vida de um irmão ou do pai que teimava em não morrer?

É deste povo que somos que brota a violência que nos envergonha, a morte que nasce na ponta de uma faca, na lâmina de uma sachola ou no gume de uma foice por motivos que a inteligência repudia ou ciúmes que a educação há muito devia ter erradicado.

Que raio de genes e de gentes, moles com os fortes e violentos com os fracos, incapazes de pensar nos outros, descarregando frustrações e impotência em quem se habituou a ser culpada pela família, Igreja e sociedade que mais facilmente desculpam algozes do que protegem as vítimas!

Fonte: Comissão de Proteção às Vítimas dos Crimes (CPVC)

sábado, março 28, 2015

O mundo é feito de mudança...


Ninguém se demite e quem o devia fazer finge-se morto

Quando se soube da compra e venda de ações de uma sociedade não cotada em Bolsa, [SLN] pelo cidadão Aníbal Cavaco Silva e, por coincidência, da sua filha Patrícia, com excelentes mais-valias, e da rentável troca da Vivenda Mariani pela Gaivota Azul, em 1999, sem necessidade de tornas, pensava-se que o Presidente da República, homónimo do feliz investidor, renunciasse ao cargo.

Depois veio aquele caso das escutas, onde Fernando Lima arruinou a reputação e José Manuel Fernandes aumentou a sua. E aos costumes disse nada.

Faltava regressar ao Caso Moderna onde juízes conselheiros davam aulas pro bono e a empresa de sondagens «Amostra» faliu fraudulentamente sob a gestão de Paulo Portas e sem que a vítima, que seria nomeada chefe de gabinete do futuro ministro, apresentasse queixa. Só as Finanças apoquentaram o implacável jornalista de ‘O Independente’ antes de se tornar ministro da Defesa. Até queriam recibos de despesas. É preciso topete!

Depois disso estavam criadas as condições para que um prevaricador fiscal e caloteiro da Segurança Social fosse elevado a PM por Relvas, Marco António & C.ª, com o júbilo do feliz proprietário da vivenda Gaivota Azul.

Pretender agora que a ministra das Finanças afaste o secretário de Estado Paulo Núncio, é não saber que Paulo Portas pode exigir de novo a demissão de Maria Luís, já ministra, demitindo-se irrevogavelmente, e regressar como PM. Quem se atreveria a afastar quem reservou para si, Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas, o direito ao sigilo fiscal a que todos os contribuintes têm legalmente direito?

Nem o PR dissolve a AR, nem a ministra demite o secretário de Estado do CDS. Neste jogo de sombras o poder não está onde parece, não está onde devia e não se sabe onde está.

Sofreremos, até ao fim, esta maioria, este Governo e este PR. O último estará até 9 de março. Os escândalos planeados pela central de intoxicação ao serviço deste Governo, desta maioria e deste PR, reserva para o Correio da Manha as escutas e informações que no controlo do aparelho de Estado vai escavando para atirar à Oposição quando o julgar oportuno.

Tal como na Madeira, o PSD não se resigna a estar fora do poder e o CDS não pode correr tal risco.

sexta-feira, março 27, 2015

Portugal está melhor, os portugueses…


Ali, na Praça do Comércio, junto ao Tejo, onde estão cheios os cofres no ministério das Finanças e é farta a dívida soberana, a foto documenta a metáfora da tragédia silenciosa de quem não é grego.

Na opulência da reconstrução pombalina, jaz a decadência da ética e da solidariedade, ali onde a rutura do tecido social é a imagem da nossa vergonha.

Secularização

Um texto* que, quase dez anos depois, voltaria a escrever.

***
A emancipação do Estado face à religião iniciou-se em 1648, após a guerra dos 30 anos, com a Paz da Vestfália e ampliou-se com as leis de separação dos séc. XIX e XX, sendo paradigmática a lei de 1905, em França, que instituiu a laicidade do Estado.

A libertação social e cultural do controle das instituições e símbolos religiosos foi um processo lento e traumático que se afirmou no séc. XIX e conferiu à modernidade ocidental a sua identidade.

A secularização libertou a sociedade do clericalismo e fez emergir direitos, liberdades e garantias individuais que são apanágio da democracia. A autonomia do Estado garantiu a liberdade religiosa, a tolerância e a paz civil.

Não há religiões eternas nem sociedades seculares perpétuas. As três religiões do livro, ou abraâmicas, facilmente se radicalizam. O proselitismo nasce na cabeça do clero e medra no coração dos crentes.

Os devotos creem na origem divina dos livros sagrados e na verdade literal das páginas vertidas da tradição oral com a crueza das épocas em que foram impressas.

Os fanáticos recusam a separação da Igreja e do Estado, impõem dogmas à sociedade e perseguem os hereges. Odeiam os crentes das outras religiões, os menos fervorosos da sua e os sectores laicos da sociedade.

Em 1979, a vitória do ayatollah Khomeni, no Irão, deu início a um movimento radical de reislamização que contagiou Estados árabes, largas camadas sociais do Médio Oriente e sectores árabes e não árabes da Europa e dos EUA.

Por sua vez o judaísmo, numa atitude simétrica, viu os movimentos ultraortodoxos ganharem dinamismo, influência e armas, empenhando-se numa luta que tanto visa os palestinianos como os sectores sionistas laicos.

O termo «fundamentalismo» teve origem no protestantismo evangélico norte-americano do início do séc. XX. Exprimiu o proselitismo, recusa da distinção entre o sagrado e o profano, a difusão do deus apocalíptico, cruel, intolerante e avesso à modernidade, saído da exegese bíblica mais reacionária. Esse radicalismo não parou de expandir-se e já contaminou o aparelho de Estado dos EUA.

O catolicismo, desacreditado pela cumplicidade com regimes obsoletos (monarquias absolutas, fascismo, ditaduras várias), debilitou-se na Europa e facilitou a secularização. O autoritarismo e a ortodoxia regressaram com João Paulo II (JP2), que arrumou o concílio Vaticano II e recuperou o Vaticano I e o de Trento.

JP2 transformou a Igreja católica num instrumento de luta contra a modernidade, o espírito liberal e a tolerância das modernas democracias. Tem sido particularmente feroz na América latina e autoritária e agressiva nos Estados onde o poder do Vaticano ainda conta, através de movimentos sectários de que Bento XVI é herdeiro e protetor, se é que não esteve na sua génese.

A recente chegada ao poder de líderes políticos que explicitam publicamente a sua fé, em países com fortes tradições democráticas (EUA e Reino Unido), foi um estímulo para os clérigos e um perigo para a laicidade do Estado. Por outro lado, constituem um exemplo perverso para as populações saídas de velhas ditaduras (Portugal, Espanha, Polónia, Grécia, Croácia), facilmente disponíveis para outras sujeições.

A interferência da religião no Estado deve ser vista, tal como a intromissão militar, a influência tribal ou as oligarquias - uma forma de despotismo que urge erradicar.

A competição religiosa voltou à Europa. As sotainas regressam. Os pregadores do ódio sobem aos púlpitos. A guerra religiosa é uma questão de tempo a que os Estados laicos têm de negar a oportunidade.

 A ameaça de Deus paira de novo sobre a Europa. Os saprófitas da Providência vestem as sotainas e ensaiam o regresso ao poder. Os pregadores do ódio voltaram aos púlpitos.

*Artigo de opinião publicado no Expresso em 27 de agosto de 2005

quinta-feira, março 26, 2015

Associação Ateísta de Portugal (AAP) - carta ao embaixador do Egito

Embaixador do Egito em Portugal
egyptembassyportugal@net.novis.pt
S. Exa. Amr Ramadan
Av. D. Vasco da Gama, 8
1400-128 LISBOA


Senhor Embaixador,

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP), dececionada com a condenação do estudante de engenharia, Karim Ashraf al-Banna, a 3 anos de prisão pelo «crime» de ser «ateu», vem manifestar-lhe o seu repúdio pela pena injusta contra um cidadão que se declarou ateu e o afirmou em redes sociais.

Sendo o Egito um país com uma História milenar, herdeiro de ricas tradições, com uma Constituição que protege «em absoluto» a liberdade de consciência, embora criminalize, paradoxalmente, o insulto a qualquer uma das três religiões monoteístas, não se compreende que o ateísmo possa ser considerado um «insulto às religiões».

Não sendo a crença, qualquer crença, um ato da vontade, como podem os tribunais, quer o de primeira instância ou o de recurso, condenar quem não acredita em Deus?

Em nome da liberdade e do livre-pensamento solicitamos a V. Ex.ª que transmita ao seu Governo o nosso perplexidade pela cruel e injusta decisão, esperando que a pena de um pacífico ateu seja revista e o estudante referido, com o qual a AAP se solidariza, seja libertado tão breve quanto possível.

Apresentando ao Sr. Embaixador os nossos cumprimentos, aguardamos que nos possa comunicar, logo que possível, a reparação da injustiça que fere os sentimentos humanos.

Direção da AAP

Odivelas, 25 de março de 2015-03-25


Portugal à deriva

Portugal é uma espécie de navio Costa Concordia que se encaminha para o desastre, em velocidade de cruzeiro, com um Francesco Schetino a dirigi-lo ao naufrágio, não na ilha de Giglio, nos obstáculos da União Europeia, no tempo que decorre da dissolução ética do Governo até à dissolução obrigatória da A. R..

Aqui não é o amor que perde o casto comandante, é o medo de enfrentar o Governo, na sua imutável servidão, preso na rede dos interesses partidários. Prefere trocar encómios com o seu homólogo Hollande, numa metáfora perfeita de dois erros de casting.

Após os solavancos do Concordia, perante a incúria de Schetino, 32 viajantes perderam a vida no naufrágio. Em Portugal, com o mar agitado, o capitão adivinha odor eleitoral quando o Citius aborta, a colocação de professores gera desordem, o PM, que assessora, finta a S. S., e a ministra das Finanças ignora a lista VIP criada nas madraças do partido cujos tentáculos confiscaram o aparelho de Estado. Nas trapalhadas governamentais há sempre um expedito diretor-geral lesto a pedir a demissão.

Em Portugal, o timoneiro, privado de bússola, deu posse à ministra das Finanças de um ex-Governo, donde saíra um partido e o ministro irrevogável, com a mesma displicência com que abençoou Orçamentos inconstitucionais. O País é o navio batido pelo vendaval da dívida imparável, o desemprego endémico e a emigração jovem.

Na ‘zona de conforto’ restam esta maioria, este governo e este PR, confiantes em que os portugueses seguirão o destino dos 32 passageiros do Concordia sem um queixume, sem sobressaltos cívicos, até ao último dia, quando o próximo governo herdar o País esvaído com um orçamento feito por este governo, aprovado por esta maioria e promulgado por este PR. Antecipar eleições, uma exigência ética e política, é recusado por quem servirá o cálice de veneno, até à derradeira gota, a dois e meio milhões de pobres.

O PM, hábil a abrir portas, para a Tecnoforma e para os amigos, finge ser o salvador da Pátria, com os ‘cofres cheios’, de empréstimos a juros, usando a linguagem salazarista, sem perceber que a dívida não parou de subir durante o seu consulado.

«O país está melhor, os portugueses é que estão pior», diz na sua desfaçatez quem julga que o País são eles.


Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 25, 2015

VEJAM O QUE AINDA TEMOS QUE AGUENTAR......

https://countingdownto.com/countdown/quanto-ainda-falta-para-cavaco-ir-embora-2016-01-23-countdown-clock

O que a PIDE pensava de Herberto Helder


Henrique Neto e a falsa candidatura presidencial

A central de intoxicação ao serviço deste Governo, desta maioria e deste PR já cumpriu o seu dever. Pôs a comunicação social a esconder a cobardia de um Governo que deixa imolar diretores-gerais para proteger os seus membros e engendra uma candidatura, as preocupações éticas são modestas, para desviar as atenções.

António Barreto, digerido por excessos de favores, deixou de ser o homem da direita a fingir de esquerda. Medina Carreira hilariava demasiado. Veio a calhar Henrique Neto.

A lista VIP das Finanças estava a desgastar o pior Governo depois de Pimenta de Castro e, depois da abnegada demissão do diretor-geral, para poupar o pusilânime secretário de Estado, era preciso ruído de fundo para desviar as atenções.

Nesta altura, o ancião de honesto passado antifascista, ex-comunista e ex-socialista, há muito sucessor de António Barreto ao serviço da direita, sem apoio na concelhia do PS da Marinha Grande, que o levou a deputado, anuncia uma candidatura para que não será difícil recolher assinaturas nas estruturas do PSD, e que dificilmente chegará às urnas.

A comunicação social já engendrou que a candidatura, apoiada por essa referência ética que dá pelo nome de Medina Carreira, embaraça o PS, isto é, deixa a esquerda incapaz de ter um candidato.  A direita baba-se de gozo enquanto guarda na agenda a lama para, na altura própria, desacreditar o PS e, dessa forma, inviabilizar um candidato a PR que resgate a dignidade do cargo, perdida com o atual titular ao seu serviço.

Esta candidatura deixa os que respeitam o passado de Henrique Neto tão tristes quanto a do falecido Mário Sottomayor Cardia, com outra dimensão cultural, quando anunciou a sua, de forma igualmente patética, nas escadarias da A. R.. De Henrique Neto apenas se pode dizer que não seria pior do que o atual.

Ver neste epifenómeno uma notícia, denota que a central de intriga da direita não brinca em serviço. Henrique Neto, a que se aliarão alguns que trocam, como o falso candidato, a honra anónima do combate antifascista pela fátua glória da ribalta, presta um módico serviço à direita, que já o usava, e vai explorar até à náusea.

Ver nesta pseudocandidatura mais do que uma hílare provocação da direita é querer que esta maioria permaneça e que o lugar de PR continue com o mesmo descrédito a que o atual titular o conduziu para benefício deste Governo e desta maioria.

terça-feira, março 24, 2015

Na morte de um enorme poeta

«AS MUSAS CEGAS - II» - HERBERTO HÉLDER (1930-2015)



Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
Enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça -
e as palavras nascem.
                                            - Límpidas, amargas.

Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria -
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
                                        E apagaram-se as luzes.

- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. - É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.

(Do livro «A Colher na Boca», 1961)


segunda-feira, março 23, 2015

Ateísmo e liberdade

Sou contra um Estado ateu da mesma forma que sou contra os Estados confessionais.

***
«O Estado também não pode ser ateu, deísta, livre-pensador; e não pode ser, pelo mesmo motivo porque não tem o direito de ser católico, protestante, budista. O Estado tem de ser céptico, ou melhor dizendo indiferentista» Sampaio Bruno, in «A Questão religiosa» (1907).

«O Estado nada tem com o que cada um pensa acerca da religião. O Estado não pode ofender a liberdade de cada qual, violentando-o a pensar desta ou daquela maneira em matéria religiosa». Afonso Costa, in «A Igreja e a Questão Social» (1895) R & L

***

No Egito, com uma Constituição laica, um jovem ateu foi condenado a três anos de prisão, depois de ter estado preso preventivamente, pelo delito de ser… ateu, ou na linguagem de quem odeia a liberdade, por «insulto às religiões».

Imaginem a sorte que lhe reservaria o Irmão Muçulmano, deposto pelos militares. Se o Islão é incompatível com a liberdade, terá de ser combatido, respeitando as vítimas de tão celerada crença.


As religiões podem ser um insulto ao livre-pensamento mas não devem impunemente ofender a liberdade.

Documento


A FRASE

«Se não está disposta a mostrar o rosto numa cerimónia em que se vai unir ao melhor país do mundo, francamente, se não gosta de o fazer, ou não o pretende fazer, deve ficar no inferno donde veio».

(Larry Miller, deputado conservador canadiano sobre o uso do niqab durante a cerimónia da cidadania)


domingo, março 22, 2015

Os cofres (mal) 'cheirosos’…


Há alguns dias a Ministra das Finanças anunciou ufana perante uma plateia de jotinhas que ‘temos os cofres cheioslink.

Hoje, Passos Coelho, em reunião partidária nos Açores revelou que, em 2011, quando chegou ao Governo os ‘cofres estavam vazioslink.

Ficamos à espera de explicações como se operou esta sonante trasfega. 
De concreto sabemos que, em 2011, existiam dificuldades de financiamento derivadas da instauração de uma ‘crise da dívida soberana’, congeminada pelos mercados à volta de um endividamento excessivo (97% do PIB) e que determinaram – com cúmplices paroquiais – uma intervenção externa.
Hoje, com um maior endividamento (130% do PIB), temos os cofres cheios à custa de sucessivas idas aos mercados, já que as actividades produtivas não justificam esse tipo de aforro.

Torna-se, portanto, público e notório que o dinheiro saiu dos bolsos dos contribuintes para os cofres públicos. Estas meças sobre as volumetrias dos cofres são pornográficas. Na verdade, o dinheiro não se multiplicou. Foi transferido, isto é, mudou de mãos (ou de bolsos). 
Falta constatar onde ele está a faltar. Perante cerca de 2 milhões de portugueses em risco pobreza, não é difícil adivinhar. Continuamos na dicotomia de um País aparentemente melhor em contraste com as pessoas realmente cada vez piores.

Quer o primeiro-ministro, quer a ministra das Finanças, dão funestos sinais de embriaguez monetária. Mas nunca ouviremos o inquilino de Belém alvitrar sobre estas imoralidades tecidas pela actual maioria, como ‘cheirando a eleições’…

O país é cada vez mais estranho


No meu país do medo…

Quando o medo nos domina, porque é incerto o futuro e imprevisíveis os desígnios dos patrões, porque à nossa volta a insegurança nos contagia, a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro, arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos envolver pelo temor e acabamos em pânico.

Vão maus os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.

O eclipse do Sol que outrora pressagiava desgraças de um Deus vingativo, sinal do Céu de que bruxas, judeus ou hereges tinham ofendido o deus de Abraão, é agora a raridade que serve de pretexto para óculos bizarros e romarias de curiosos.

Não é na astronomia que os eclipses despertam mais interesse ou qualquer resquício de superstição, é na política. Nesta, assistimos a eclipses totais da ética, à interposição dos interesses pessoais com os coletivos, ao desaparecimento das estrelas sob uma chuva de meteoritos que atulham o firmamento político. O fulgor das estrelas é substituído pela cauda reluzente de cometas efémeros, de trajetória incerta, ou pela sombra dos satélites que entram na atmosfera partidária e queimam o aparelho de Estado.

Trágica é a substituição progressiva dos astros de primeira grandeza por poeiras siderais que nos intoxicam os pulmões, nos poluem o ar e privatizam a água, no cumprimento de uma agenda que nos exclui, numa deriva que intimida, numa obsessão que nos paralisa.

O medo é a arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos. Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo de quem nos governa tornamo-nos vegetais com falta de luz para a fotossíntese e acabamos mortos. De medo e de vergonha.

A FRASE

A FRASE

«A pena de morte representa um fracasso, porque obriga a matar em nome da justiça e porque nunca haverá justiça com a morte de um ser humano».

(Papa Francisco, em carta entregue ao presidente da Comissão Internacional Contra a Pena de Morte)

Doutrina da Igreja católica – Cânone n.º 2267 do Catecismo

2267. A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.

O rompimento do Papa com a doutrina tradicional da Igreja de que é o sumo pontífice, não prova a existência de Deus mas é um avanço civilizacional do catolicismo romano cujo passado foi tantas vezes causa de sofrimento inútil e crueldades impensáveis.

Nenhuma religião pode reivindicar a verdade dos mitos que a criaram mas é inegável o efeito benéfico que os líderes religiosos podem exercer. Seria um avanço enorme para a paz e a democracia se todos os dignitários religiosos partilhassem esta posição inédita da Igreja católica.

Obs.: A última edição do catecismo da Igreja católica é de João Paulo II e à sua autoria não foi decerto alheio o cardeal Ratzinger, então prefeito para a Sagrada Congregação da Fé (ex-Santo Ofício).

sábado, março 21, 2015

O que há de novo no Brasil?

O Brasil agita-se à volta de insuportáveis fenómenos de corrupção que ameaçam não própriamente Governo de Dilma mas mais profundamente todo o processo democrático retomado em 1985 com o fim da ditadura militar. 
O que está em causa é novamente mudanças de regime num sentido absolutamente irresponsável.
A ‘redemocratização’ do Brasil iniciada na década de 80 não será ab initio um processo liderado pela esquerda embora caiba a esta a fatia de leão no combate às atrocidades democráticas e humanitárias perpretradas pelo regime militar. Mais uma vez quem colhe os louros da história dos povos não são aqueles que lutaram pela mudança.

A transição da ditadura militar para a ‘Nova República’ foi indelevelmente marcada pela ascensão do neoliberalismo ao nível mundial e colheu aí muito da sua formatação. Existem neste novo período constitucional do Brasil duas figuras políticas que se agigantaram e que tornam os restantes protagonistas meros sobressaltos. Trata-se de Fernando Henriques Cardoso (FHC) e Lula da Silva.
FHC, na sequência dos governos de Sarney, decretou várias medidas de combate à inflação e, entre elas, o fim da Comissão de Combate à Corrupção (criada por Itamar Franco, entretanto caído em desgraça).

Essa extinção serviu impiedosamente – nos anos 90 - as medidas de privatização (na altura chamadas de ‘privatarias’) consequência do fim da guerra fria e na dependência de uma mundialização que tem sido o suporte económico e financeiro para as mais diversificadas e sofisticadas políticas neoliberais (que ainda por aí andam).

Esta foi a política do PSDB (tucana) que tem fugido (sobrevivido) ao julgamento da História e arrastou-se até às últimas eleições sob a chapa de Aécio Neves (onde enfrentou um ‘lulismo’ decadente e pouco ‘iluminado’).
A concentração de riqueza decorrente destas políticas, bem como de várias crises monetárias ‘geridas’ pelo FMI e a retoma de projectos ‘desenvolvimentistas’ enquistaram (paraizaram) a sociedade brasileira até ao dealbar do século XXI.

Na verdade, o ‘escândalo Petrobrás’, que hoje agita o Brasil, vegeta por terras de Santa Cruz desde há muito tempo. Mais precisamente desde a presidência de FHC quando se suprime o regulamento das licitações (públicas) com o Dec. 2.745/98 link que se enxertou na emenda constitucional 19/98, travestida de Reforma Administrativa mas, na verdade, foi o escancarar das portas a todo o tipo de corrupção sob a melifica forma de ‘convite’ e que acabou por afectar – por longo período – todo o tipo de contratualizações da Petrobrás. Este passo em frente na senda a corrupção foi mais uma vez promovido por FHC e entronca-se num outro, muito querido da ideologia neoliberal, que foi a extinção do monopólio da Petrobrás e sua consequente abertura ao capital privado, decretado em 1995. Criada por Getulio Vargas, em 1953, por se considerar uma empresa estratégica na área energética (petrolífera), acabou por ser acabou por ser dispersa em mercado sob o ‘ímpeto modernizador’que mais não fez do que abrir a holding estatal a todo o tipo de ‘negociatas’.
Na altura este feito deu origem a uma chicana política tendo um deputado exibido um dinossauro e afirmando que “as estatais são assim. Têm o corpo pesado, uma cauda enorme e o cerebro mínimo”. 

Faltou a visão de prever que no meio da sofreguidão especulativa e nos subterrâneos meandros da corrupção as nóveis empresas privatizadas (desestatizadas) caminham para a extinção como sucedeu aos excelentíssimos sáurios. Na verdade a privatização da Petrobrás serviu exclusivamente para financiar o ‘Plano Real’.

Mas a recuperação da Petrobrás ocorrida durante o governo Lula passou por um tímido e efémero regresso aos concursamento contractual público e a execução de um quadro de investimentos (nomeadamente no petróleo pré-sal). Todavia não abandonou, nem revogou, o facilitismo advindo dos tempos de FHC. Lula com dificuldades em assegurar maiorias no Congresso contemporizou com ‘esquemas’ de financiamento que, como toda a gente percebeu, não se esgotam no escandalo “mensalão”.  Este tem sido o esquema da ‘governabilidade’ brasileira.

Em 2008 e 2009 surgiu a crise financeira mundial e a Petrobrás foi uma das poucas megaempresas brasileiras que resistiu aos mercados. A exploração da plataforma pré-sal devolveu a posse (propriedade) do petróleo à União Federativa que tinha sido ‘doada’ às companhas petroliferas exploradoras ficando o Estado com as ‘migalhas’ (royalties). Mas o PT não desmontou o esquema de corrupção oriundo dos tucanos, nem combateu o tráfico de influências políticas. A sombra da ‘Petrobrax’, neologismo anglicista oriundo dos tempos de FHC (a  bolsa novaiorquina assim o desejou), sinónimo da sua privatização total, paira sobre esta fulcral empresa da economia brasileira.

O PT (de Lula e agora de Dilma) está a pagar condescendências passadas com liberalismos espúrios a que se junta o esboço de uma crise económica que coloca em causa a marcha do 'elevador social' accionado por Lula da Silva.
Não houve firmeza política para afrontar enormes interesses financeiros e no campo ideológico a atitude foi titubeante. Tudo isto tem custos.

O que, hoje, se exige nas ruas do Brasil é uma 3ª. volta das eleições presidenciais.  O capital financeiro, que governa o Mundo, não está disposto a contemporizar com mais um mandato de Dilma. O ‘escândalo Petrobras’ é um poço de corrupção, mas os apetites políticos e partidários vão além disso. Querem o regresso à ‘privataria’.

A reforma política que parece ter tocado os brasileiros passa necessariamente pelo regresso aos concursos públicos, pela defesa intransigente da empresa pública derrogando o estatuto de empresa de capital aberto, atribuição de maiores competências à Agência Nacional do Petróleo (organismo regulador) e pelo fim das emendas orçamentais, privilégios dos deputados previstos na Constituição, que abrem portas a todos os dislates corruptivos.
 
Os que julgam que a (re)entrada em cena de Aécio Neves aportaria alguma coisa de novo em relação ao tenebroso passado tucano na Petrobrás cedo verificariam ter caído num dramático logro.

Nós não somos a Grécia...

Com os cofres vazios e a enfrentar uma fuga maciça dos depósitos, Alexis Tsipras, após a reunião de anteontem à noite, com Merkel, Hollande e um grupo restrito de credores, foi abandonado no pelourinho do Eurogrupo.

Portugal não é a Grécia, condenada à morte, é um país que se deixa morrer lentamente, com cuidados paliativos, por entre elogios aos estrategos da morte lenta.  

Não temos um Governo que se bata pelo povo mas que lhe bate, em nome de interesses alheios. Temos a cobardia de gente videirinha, incapazes uns, capazes de tudo, outros. A dívida soberana dilatou e a estridência de plástico das vuvuzelas do Governo amplificou o volume para anunciar a saída da troica e o regresso aos mercados no doce enlevo do embuste que estupefaz.

Nós não nascemos no Jardim de Academus, sob os auspícios de Platão, 384 anos antes da era vulgar, como comunidade consagrada ao culto das Musas de Apolo, próximo da cidade que tem o nome de Atena, deusa da guerra, é certo, mas também da civilização, das artes, da sabedoria e da justiça. Nós vimos do século XII com um bravo guerreiro, nado em sítio tão incerto quanto a tareia à mãe, hábil a alargar fronteiras com a espada.

Somos a Grécia, na cultura helénica que assimilámos, na judaico-cristã que nos moldou, no Renascimento, no Iluminismo e na Revolução Francesa de que somos herdeiros. Somos ainda a Grécia no volume aproximado da dívida soberana, impossível de pagar, na tragédia do desemprego e na miséria a que chegámos, mas divergimos na fantasia de que teremos um destino diferente, para melhor.

A falência financeira, o desastre económico, o desemprego e a rutura do tecido social são, na Grécia e Portugal, o resultado do liberalismo económico e do aventureirismo financeiro internacional, a que se juntaram erros próprios e corrupção.

A Grécia, posta entre a espada e a parede, elegeu a primeira, com Portugal ao lado dos algozes, a desejarem o seu fracasso. Portugal, embalado no torpor da propaganda, crente perene do sebastianismo, espera a manhã de nevoeiro. Não basta a negritude de cada dia e o fulgor da incompetência permanente de quem nos governa.

Nós não somos a Grécia mas teremos o mesmo destino, sem a dignidade dos gregos. Os algozes preferem que as vítimas vão para o açougue pelo próprio pé.


Ave, Troika, morituri te salutant.

sexta-feira, março 20, 2015

Num país de crédulos


A lista VIP da Autoridade Tributária

Num país disfuncional, onde os diretores-gerais apresentam a demissão para evitar a dos ministros, como aconteceu com o Comandante-Geral da PSP que seria substituído pelo que, na sua atuação, deu origem à demissão, cria-se um lugar político para os abnegados mártires. Na PSP, hoje com 13 oficiais equiparados a generais de 3 estrelas, arranjou-se um lugar… em Paris, por 12 mil euros mensais, para o desprendido demissionário.

A demissão do responsável máximo da Autoridade Tributária, um diretor-geral, tem certamente à espera uma sinecura à altura do sacrifício. Imolou-se no altar da hipocrisia ao serviço da degradação ética do regime que este Governo e esta maioria, à rédea solta, levam a cabo, com o PR preso curto.

Um país onde o segredo fiscal, à semelhança do de justiça, é para ser violado, protegem-se os amigos, hoje os deste Governo, amanhã os do próximo. O sigilo fiscal era a prática dos funcionários de Finanças como os pagamentos à Segurança Social e ao fisco o eram dos governantes. Hoje é a arma de serviço… partidário.

Mudam-se os tempos e, quando as trapalhadas da Tecnoforma estavam no auge, com o PM esquecido da formação dos técnicos de aeródromos e heliportos, aparece a lista que não existiu e cuja violação deu origem a inquéritos e à demissão de um diretor-geral.

A lista, que devia ter os nomes de todos contribuintes, só tem os de alguns e nem sequer existe. O diretor-geral demitiu-se por masoquismo, o formador dos novos inspetores só a referiu para advertir que, em termos fiscais, todos somos iguais mas há alguns que são mais. De futuro, quando um inspetor tributário tropeçar em sinais exteriores de riqueza de um alto dignitário da situação, não se atreverá a ir mais além. E, porque a oposição pode ser Governo, é melhor não arranjar problemas, há a mulher, os filhos, a política é o trabalho.

Este episódio é tão enigmático como a troca de vivendas, uma velha por outra moderna, melhor situada e com mais amplo logradouro, isto é, a permuta da vivenda Mariani pela Gaivota Azul, sem tornas, um belo negócio de um ‘mísero’ professor que viria a ser PR.

Quem sabe se a solidariedade do PSD, que emergiu no caso dos submarinos para com Paulo Portas, não submergiu agora na luta intestina para embaraçar o CDS cujas vítimas da lista VIP são bem-vindas até outubro.

Nada nos pode espantar.

quinta-feira, março 19, 2015

O caloteiro relapso, a ingratidão, a hipocrisia e a frase

«Eu acho que ele (António Brigas Afonso) fez bem em ter apresentado a sua demissão, porque o governo nunca admitiria que uma lista dessa natureza ou um procedimento desta natureza pudesse existir na Autoridade Tributária».

(Pedro Passos Coelho, PM em forma de assim, em Portugal – in DN, hoje, pág. 8)


Quo vadis, Europa?

Que é feito de ti, bela Europa, filha de Argenor, por quem Zeus traiu Hera e, disfarçado de touro, levou para Creta para te amar e fazer filhos?

Que é feito de ti, dileta do pai dos deuses e dos homens, abandonada a usurários que te violam numo vão de escada de agiotas e abandonam à concupiscência do liberalismo?

Esqueceste os filhos da mitologia grega, Minos, Radamanto e Sarpedão, mas deste-nos o Renascimento, o Iluminismo e a Revolução Francesa. Deixaste-nos primeiro os ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade e, com eles, a ciência, a técnica e a cultura com que fizeste feliz quem nasceu em ti.

Tal como Fídias, sob Péricles, esculpiu o mármore em êxtase, tu criaste uma sociedade talhada com o cinzel da liberdade na pedra da tolerância. As artes, a ciência e a cultura brotaram de ti, grávida de Zeus, para deleite humano. Como pudeste esquecer a região da Ática onde Atenas guarda, há 3.400 anos, o porto de Pireu, hoje à venda, para matar a fome dos que vivem no berço da civilização que herdaste?

Não se pode entregar a Acrópole ao Banco Central Alemão nem o futuro da civilização à Prússia. A Europa não nasceu no Portão de Brandeburgo e não pode ser abandonada, exangue, à frieza teutónica ou à irascibilidade prussiana.

A Europa, laica e democrática, só sobreviverá inteira, e morrerá em cada povo que seja abandonado, em cada pobre que pereça de inanição, em cada nação que deixe soçobrar.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 18, 2015

AS FRASES

«Imaginemos um primeiro-ministro ou um presidente de qualquer democracia que adverte, por exemplo, que o seu governo está em perigo  porque os eleitores negros estão a votar em massa. É horrível, não é verdade?»

(Shelly Yachimovich, deputada israelita sobre o apelo de Netanyahu ao voto contra os árabes – in DN, hoje, pág.6)


Percurso de um troca-tintas


Vêm aí eleições legislativas e presidenciais

Quando se exige serenidade e bom senso, reflexão e inteligência, argúcia e esperança, a proximidade de eleições infeta o ambiente e polui as mentes. Não se pensa no futuro, remói-se o passado e olvida-se o presente. Poupam-se os adversários e combatem-se os que estão mais próximos, na ânsia da caça ao voto.

Não se avalia este Governo, este PR e esta maioria, esquece-se o voto que lhes foi dado e deseja-se que sejam os tribunais a julgá-los, porque só estes podem prender.  Não é o futuro melhor que se almeja, é um ajuste de contas que se procura contra os adversários. Rumina-se vingança onde só a humilhação conta e a aniquilação serve.

Das futuras eleições, donde sairá um PR menos mau do que o atual, por não haver pior, pode sair um Governo idêntico, sem aptidão, honra ou patriotismo. A direita une-se, e a esquerda, com pruridos incuráveis e ódios atávicos, é incapaz de fazer uma tentativa patriótica de unidade, no eterno preconceito de quem é ou não é de esquerda, a navegar entre o radicalismo pequeno-burguês e a ausência de reflexão sobre o que é possível no espaço e tempo em que habitamos, condicionados pela geoestratégia regional.

Será triste que o PRD ultrapasse o PCP e o CDS o BE, mas a pulverização da esquerda, onde o oportunismo deixou de ser apanágio da direita, pode levar à ingovernabilidade ou à manutenção da direita no poder.

A comunicação social já está ao seu serviço. Os serviços secretos e tudo o que conta no aparelho de Estado já está minado por quem viu no 25 de Abril a contrariedade que urge apagar e aproveitou os últimos quatro anos para uma desforra irreversível.

Só tenho um voto e não aceito outra forma de escrutínio, mas sei que os adversários têm armas desiguais. E dispõem de outros meios. As esquerdas não são perfeitas.


terça-feira, março 17, 2015

Religião e política e a política da religião


As manifestações contra o Governo brasileiro têm causas legítimas e objetivos obscuros que exigem uma cuidadosa atenção.

Deixemos de parte a corrupção, apesar da importância basilar, que cresce com o rápido desenvolvimento económico e cuja perceção pública aumenta em regimes democráticos, para analisar outras vertentes, igualmente relevantes.

O Brasil tem hoje uma riqueza, jamais conseguida no passado, e um desenvolvimento que o tornou uma potência económica mundial. A fome, a pobreza e o analfabetismo foram fortemente combatidos e com assinalável êxito.

O que leva, então, às gigantescas manifestações de protesto? Por um lado, a estagnação económica que a descida dos preços do petróleo tornou inevitável, por outro o domínio dos órgãos de comunicação social ao serviço de interesses que, no passado, sustentaram ditaduras e se alimentaram delas.

As religiões deviam evitar comprometer-se politicamente sob pena de verem um dia o seu clero a ser reprimido em nome da democracia e da laicidade que este regime exige.

No Brasil, salvo raras exceções, e estas também politicamente expostas, várias correntes cristãs têm assaltado o aparelho de Estado através de partidos políticos e do domínio de órgãos de comunicação que convocam e apoiam, em direto, as manifestações. A Rede Globo é uma central de intoxicação ao serviço de interesses financeiros e dominada por cliques religiosas. Terá poder para derrubar um governo democraticamente eleito mas as consequências poderão ser fatais para o seu futuro.

Quando uma manifestação organizada, não são bandos caóticos, deixa que os cartazes a anunciem como “Marcha dos Cristãos” e tenha como lema o combate ao comunismo e o apelo à ‘intervenção militar’, sem que a hierarquia religiosa denuncie o carácter golpista e o condene, é legítimo ver no combate à religião a defesa da democracia.
Será dramático para os crentes, mas, entre a democracia e a religião, os cidadãos têm de fazer a sua opção. No Brasil, tal como no passado, a religião apoia de novo um regime totalitário de natureza militar, arriscando a credibilidade e a sua própria liberdade.

Quem não defende a liberdade dos adversários não é digno da sua.

A fé é que os salva

Pela primeira vez na minha vida, na semana passada, fui a uma reunião da tão criticada Igreja Universal e partilhei as práticas e orações dos presentes.

De repente, o Pastor se aproximou do lugar onde estava, olhou-me fixamente e apontou-me o dedo.

Piedosamente, ajoelhei-me e ele colocou as suas mãos na minha cabeça e clamou em voz alta: Você vai caminhar!
Eu respondi-lhe baixo: mas não tenho nenhum problema de locomoção.

Ele ignorou minha resposta e quase gritando, voltou a exclamar: irmão, você vai caminhar!

Toda a Assembleia, com as mãos ao alto, começou a chorar: Você vai caminhar!

Mais uma vez, tentei explicar que não tinha nenhum problema com meus membros inferiores, mas foi em vão.
Cada vez mais forte e com mais energia, ele repetiu: Você vai caminhar!!!! , enquanto a Assembleia em transe gritava ainda mais forte: irmão, você vai caminhar!!!!

Optei por me calar e não dizer mais nada.


Quando o acto acabou deixei a Assembleia e, acreditem ou não, o maldito pastor tinha razão:

Tinham-me roubado o carro!!!!

Apostila - Texto anónimo, enviado por email, cujo humor me levou a publicá-lo.

segunda-feira, março 16, 2015

FRASES

«Falar de propostas sobre abusos sexuais de menores numa creche é algo que nos insulta a todos. Julgo que o primeiro-ministro foi, no mínimo, muito infeliz na escolha.
(Catarina Martins, líder do BE, sobre Passos Coelho falar da lista de pedófilos numa  creche)

«O caso BES é exemplar, pois demonstra que, depois de sucessivos testes de stress, de três anos de escrutínio da troika, dos alicerces lançados da união bancária, é ainda possível um país ser engolido pelo buraco negro de crimes que ludibriam todos os níveis de regulação, nacional e europeia».
(Viriato Soromenho Marques, Professor universitário)

Fonte: DN, hoje

Notícias

O primeiro-ministro a falar, numa creche, da controversa lista de pedófilos de crianças, aprovada pelo Governo a semana passada, mostrou o bom-senso que revela na defesa dos interesses do País.

O Governo, depois do ataque feroz que levou à demissão de alguns dos seus membros, poupando a ministra das Finanças, pretende lançar novas PPP no valor de 13,6 mil milhões de euros. Só a reestruturação  das águas custa 3, 7 mil milhões. É a maior PPP… para depois privatizar.


Bento XVI, o ateísmo e o nazismo

Fez dois anos que Francisco iniciou o pontificado. Sei que um homem bom não prova a existência de Deus, mas pode melhorar a vida de muita gente, se a tiara cobre a cabeça certa. Aos olhos indiferentes de um ateu, este papa é um bom homem que parece sofrer com as injustiças humanas. Não me inspira devoção mas merece-me respeito.

Tenho pelos Papas, por todos os papas, uma devoção inversa à que a Aura Miguel nutre por qualquer um e João César das Neves por todos menos o atual. Mas uma coisa são estados de alma e outra os factos.

Sou incapaz de desejar a alguém o que a ICAR fez a judeus, bruxas, hereges e a todos os que contrariaram os seus interesses. Não vou remexer nos crimes que desde Paulo de Tarso e Constantino se fizeram em nome de um judeu imolado pela salvação do mundo e nem a si próprio se salvou. É hoje a referência para as multinacionais da fé que vivem da sua alegada divindade como os homeopatas do valor terapêutico das mezinhas.

O que um ateu não pode olvidar é que o ex-inquisidor comparou o ateísmo ao nazismo, esquecendo que a sua Igreja já excomungou o ateísmo, o comunismo, a democracia, a liberdade e o livre-pensamento, o que nunca fez ao nazismo ou ao fascismo. O próprio Estado do Vaticano, a única teocracia europeia, foi obra de Benito Mussolini que, entre outras manifestações pias, impôs o ensino da religião católica nas escolas públicas.

Uma Igreja que apoiou Franco, Pinochet, Mussolini, Salazar, Videla, Somoza e o padre Tiso perde autoridade para condenar assassinos como Estaline, Mao, Pol Pot, Ceauşescu ou Kim Il-sung cuja esquizofrenia sanguinolenta os levou a cometer crimes em nome de uma crença política e não do ateísmo.

Bento XVI foi conivente na ocultação de crimes cometidos pelo clero, manteve o IOR como offshore do Vaticano, protegeu o Opus Dei, Legionários de Cristo, Comunhão e Libertação e a seita fascista de sequazes de monsenhor Lefebvre. Carecia de autoridade para difamar os ateus a quem a liberdade deve mais do que à sua Igreja.

Se não receasse a morte prematura, podia continuar ainda a canonizar admiradores de Franco, colaboradores da CIA e outros defuntos pouco recomendáveis. Podia continuar a exibir relíquias falsificadas e vender os milagres engendrados numa repartição pia, mas não podia insultar os ateus e esperar que estes esquecessem a diatribe.

domingo, março 15, 2015

A arte de Paula Rego

Faltam 356 dias para se acabar a mama

A central tóxica e os idiotas úteis – Aviso à navegação

Há à esquerda quem pulverize as intenções de voto com grave prejuízo para a remoção deste Governo, desta maioria e deste PR cuja troca, mesmo dentro dos atuais partidos, nunca poderia ser para pior, mas não seria saudável a impunidade nem higiénica a sua perpetuação.

Ninguém, com formação democrática, contestará a legitimidade de criar novos partidos como legítimo exercício da cidadania. Esta direita, que nos deu a pior maioria, o pior PR e o pior Governo da democracia, unida nos interesses, ameaça perpetuar a calúnia, a intriga e a cizânia.

Lastimável é encontrar à esquerda desempregados políticos, oportunistas e trânsfugas, à espera de exposição mediática ou consideração pública, capazes de se juntarem ao coro afinado do bando ultraliberal que, em quatro anos, subverteu o regime e a Constituição, para denegrir qualquer nome que apareça com hipóteses de ser PM ou PR, se não for o que congeminaram. A esquerda não pode fazer coro com os seus algozes.

Carvalho da Silva, um cidadão com um percurso cívico, académico e sindical que deixa a perder de vista quer a criatura que o bando capitaneado por Relvas e Marco António elevou a PM, quer o PR que o casal Ricardo Salgado ungiu para a primeira legislatura, acolitado pelos de Marcelo e Durão Barroso, disponibilizou-se para ser candidato a PR. Que a direita trauliteira o combata, está no seu legítimo direito, mas incomoda que à esquerda já se denigra.

A recusa do PEC IV levou ao poder quem ansiava, na ausência de capacidade própria, governar com a troika. Portugal amarga a experiência de que, ao contrário de Espanha, foi laboratório. A subida dos juros tornou insustentável a dívida e não se sabe como se resolverá e com que custos.

Quando está em causa a desinfeção do aparelho de Estado, é lamentável que os nomes de esquerda sejam sucessivamente denegridos por quem não se importa de contribuir para a perpetuação da direita a troco de cinco minutos de glória ou da vaidade de quem prefere a direita a uma esquerda que não seja a que sonhou.

O combate a personalidades de esquerda é um serviço à pior direita que em democracia chegou ao poder.

sábado, março 14, 2015

Desenho de António

A virgem, que o não é, pega nos braços o moribundo que não devia ter nascido.


A notícia

A grevista que foi às Finanças e bateu com o nariz na porta por causa... da greve.

(DN, hoje)

O caloteiro. No princípio era o verbo – tempos e modos


Passos Coelho apresentou-se como o futuro indicativo da transparência e tropeçou no gerúndio do verbo delinquir. Delinquindo, tornou-se delinquente no cumprimento das obrigações fiscais que exigiu aos portugueses. Relvas e Marco António guiaram-no na arte de bem fintar o Fisco e a Segurança Social e fizeram do discípulo mestre.

Tendo delinquido, o adjetivo verbal trouxe ao presente o pretérito mais-que-perfeito do delinquente fiscal, delinquiu, e deixou-o sem futuro do indicativo ético.

O imperfeito do conjuntivo podia salvá-lo da infâmia, isto é, se pagasse, quando baniu do seu objetivo ressarcir a Segurança Social, passando a ‘delinquir´ – infinitivo pessoal –, à espera do termo do mandato. A desculpa foi arranjada com a notícia que o obrigou a pagar imediatamente. A dívida [pelos vistos, parcial] foi paga, mas a nódoa avoluma-se e todos acreditam no presente do conjuntivo, isto é, que delinqua de novo.

Foram, aliás, os tempos compostos do verbo que fizeram do deputado em exclusividade de funções uma espécie de tuk -tuk com espaço para vários lugares. Já tinha delinquido com a Tecnoforma e acumulou com a dúvida do condicional: ‘delinquiria’ outra vez, se tivesse oportunidade. Delinquiu na falta de entrega da declaração de IRS quando pediu o subsídio de reintegração de deputado, e delinquiria – pretérito mais-que-perfeito – nas sucessivas retificações do IRS apresentadas às Finanças e só poderá conjugar o futuro imperfeito do indicativo na 1.º pessoa do singular: eu ‘delinquirei’, porque está no seu ADN e só o PR duvida.

O Tribunal Constitucional, que não perde papéis, porque não está sob a alçada de quem delinqui, também não recebeu a declaração de bens a que era obrigado. Só as Finanças* levantam autos aos funcionários que queiram consultar a sua situação fiscal. De quem delinqui em vários tempos e formas verbais, espera-se que o volte a fazer no presente do conjuntivo, que ‘delinqua’ sempre.

* «O Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais terá entregue, em outubro passado, uma lista de contribuintes VIP à direção de segurança informática do Fisco. Paulo Núncio nega, mas a VISÃO soube junto de fontes das Finanças que a decisão terá sido tomada no auge do "caso Tecnoforma", envolvendo Passos Coelho». (In Visão, ontem)

No princípio era o verbo, agora um adjetivo. Substantivado. Caloteiro.

sexta-feira, março 13, 2015

A insustentável leveza ética


Há um clima de medo numa atmosfera irrespirável

 A central de intoxicação deste governo e desta maioria, que este PR e a comunicação social ungiram, está ativa e com escândalos preparados contra adversários políticos. O PR considera a indecência política mera guerrilha partidária e as falências fraudulentas dos bancos, azar de amigos que lhe merecem prudente silêncio.

O domínio dos meios de produção, a manipulação da informação e os funcionários de serviço nas redes sociais cumprem a tarefa de evitar uma alternativa à tragédia que nos coube. Preferem um país ingovernável à sua substituição no aparelho de Estado. E não lhes faltam idiotas úteis como cúmplices.

Não é por acaso que nada foi feito contra a dimensão faraónica do aparelho de Estado, das assembleias municipais, regionais ou de freguesia e contra o número de concelhos e freguesias. Os partidos, todos os partidos, encontram aí guarida para os seus militantes.

As IPSSs pululam sem fiscalização, as EPs mantêm-se, as Fundações atraem a evasão fiscal e o confisco de subsídios, para colocação de amigos e criação de clientelas, numa multiplicação de lugares parasitários, enquanto empresas rentáveis e as que contribuíam para a identidade do País são vendidas à pressa.

O mundo é um local mal frequentado, com gangues religiosos, políticos ou meramente criminosos, a tomar conta dos destinos individuais, à sombra do pensamento único, uma globalização financeira que impõe o status quo e produz turbas de pobres e famintos.

O futuro é uma incógnita onde a equação da guerra se desenha sem sonhos de amanhã. A Europa deixou de ser um local de paz e prosperidade para se transformar numa arena onde se digladiam os seus povos.

Portugal, exonerada a ética do Estado e a competência nas funções, está em vias de se tornar um protetorado que invertebrados gerem por conta de outrem.


Num horizonte sem futuro e sem salubridade, a coragem foi bloqueada e cresce o medo. Sinto que o próprio ar se deteriorou e tornou irrespirável. 

quinta-feira, março 12, 2015

Processo de canonização do bem-aventurado Aníbal Cavaco Silva

Há muito que se exige um postulador da causa do bem-aventurado Aníbal, que preenche os requisitos para a beatificação e posterior canonização, exceto a defunção que, embora simulada, não aconteceu ainda.

É injusto que a subida aos altares se atrase por incúria do bispo de Lisboa a quem cabe, segundo a Constituição Divinus perfectionis Magister e a instrução Sanctorum Mater, por iniciativa própria ou a pedido de fiéis, a competência de investigar sobre a vida, virtudes ou martírio e fama de santidade e milagres atribuídos. O bispo do Algarve está arredado porque o ditoso é mártir e obra milagres longe de Boliqueime, noutra diocese, tal como Fernando de Bulhões, de Lisboa, que acabou a obrar em Pádua.

Dado que o senhor bispo da Guarda se recusa a libertar-me do batismo, encontro-me na condição de «fiel», apto a solicitar a inquirição do bem-aventurado que, há muito, devia ser considerado Servo de Deus pela Congregação para a Causa dos Santos. As virtudes em grau heroico, que o exornam, já deviam tê-lo elevado a Servo de Deus "Venerável".

Não é preciso alegar o longo e piedoso casamento, nem a bondade com que carrega este Governo para reconhecer nele um mártir que a Igreja convidou para presidir à Comissão de Honra para a canonização do então beato Nun’Álvares Pereira. O milagre de ter sido reeleito PR era bastante para ser declarado santo por aclamação popular.

E obrou outros para os quais não são precisos médicos para assinarem curas pífias como a cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, salpicado de óleo fervente de fritar peixe, graças à intercessão do Beato Nuno. Os milagres do beato Aníbal, ainda omissos na Congregação para a Causa dos Santos, são públicos e nem os ateus os contestam.

1.º milagre obrado pelo bem-aventurado Aníbal – Empossou a ministra das Finanças em um Governo inexistente, com o CDS ausente e o líder irrevogavelmente demissionário. Foi um ato heroico e o milagre, que nunca tinha sido obrado na História do cristianismo romano, estupefez os créus e a todos maravilhou.

2.º milagre obrado – A transubstanciação de uma fraude fiscal do primeiro-ministro em odor pré-eleitoral, transformação evidente da substância de um delito noutra substância, o reclame ao PSD, com núcleo benzénico ou odorífero.

3.º milagre obrado, embora desnecessário, à guisa de IVA canónico – É o único Servo de Deus com a graça concedida de um sorriso das vacas açorianas.

Com estes milagres, que nem um pétreo ateu pode contestar, o bem-aventurado Aníbal torna-se digno de ser levada aos altares e receber a mesma veneração em todo o mundo, concluindo assim o processo de Canonização.

A Pátria anseia ver o beato Aníbal criado santo e a exornar o Calendário hagiológico romano.

Ponte Europa / Sorumbático

Apagão

Caros leitores:

Não sei o que se passou mas os posts das duas últimas semanas desapareceram. Vou tentar publicar alguns.

As minha desculpas aos leitores e colaboradores.

quarta-feira, março 11, 2015

A FRASE

É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens.

(João César das Neves, talibã católico, in DN, pág. 8, hoje)

Dúvida metódica


terça-feira, março 10, 2015

Manual do bom caloteiro

(Qualquer semelhança com a realidade é coincidência)

- O caloteiro nunca ofende, é sempre ofendido.
- O caloteiro coloca a honestidade acima de tudo. A dele.
- Exceção feita aos que o conhecem demasiado bem.
- O caloteiro tolera os adversários, desde que não ameacem o seu lugar.
- E o elogiem.
- O caloteiro respeita a presunção de inocência e só a despreza se necessário.
- O caloteiro não gosta de ser chamado caloteiro, acha que o retrato é injusto.
- E a justiça é muito importante para o caloteiro, ele não suporta injustiças.
- O caloteiro é sempre justo, mesmo quando reconhece não ser «exemplar».
- O caloteiro não pensa. Ele é mais um homem de ação.
- O caloteiro não tem saudades de Salazar, tem inveja.
- Acha apenas que lhe faltam os meios.
- Alguém que impedisse a divulgação dos factos contra si.
- E publicasse calúnias contra os adversários.
- Ou mesmo factos, se lhe fossem úteis.
- O caloteiro sabe que a descolonização foi muito mal feita.
- O caloteiro gostava de uma Pátria maior, a que julgava dele.
- E de mandar nela.
- O caloteiro acha que os políticos são todos corruptos.
- E por ele ia tudo preso.
- Mas diz que nem todos os políticos são iguais.
- O caloteiro não é político, ocupa o lugar que os amigos lhe impuseram.
- O caloteiro acha que pagou todas as contas.
-  Pelo menos, nunca deixou de pagar o que o Fisco o convidou a pagar.
- O caloteiro acha que as dívidas são para pagar.
- Mas pagá-las, antes de serem noticiadas, é eleitoralismo.
- O caloteiro sempre pensou em pagar, apesar de prescrito o calote.
- E só não pagou a totalidade porque o credor negou qualquer dívida.
- O caloteiro gosta de um presidente que não se meta na luta eleitoral.
- E aprecia que repita o que dizem os outros assessores.
- O caloteiro acha que isso é isenção.
- O caloteiro sente-se injustiçado e não é como o preso.
- O caloteiro acha que a prisão preventiva é o mínimo para quem o ataca.
- O caloteiro respeita a Justiça.
- Quando é aplicada a adversários.
- O caloteiro é contra o direito à diferença.
- Mas ofende-se que não lhe reconheçam o direito à diferença.
- O caloteiro sabe que é crime enriquecer no lugar que ocupa.
- Mas não aceita a confusão com os lugares que ocupou.
- O caloteiro sofre de amnésia.
- O caloteiro não sabe onde trabalhou durante alguns anos.
- O caloteiro esqueceu-se de quem lhe pagou.
- Mas reconhece que desconhecia que tinha de pagar impostos.
- O caloteiro é pela transparência.
- Mas recusa a devassa às suas declarações de IRS.
- O caloteiro pede um subsídio de reintegração pela exclusividade de funções.
- Mas não se recorda se outras funções, em simultâneo, eram pagas.
- O caloteiro é a favor da democracia.
- Mas acha que uma democracia, com esta oposição, não é democracia.
- O caloteiro detesta que lhe chamem caloteiro.
- O caloteiro sabe que, ao negar que o é, está a ser manhoso.
- Outras vezes não sabe mesmo.
- O caloteiro odeia as Finanças e a Segurança Social.
- Mas defende que todos devem cumprir as suas obrigações.
- O caloteiro só não paga por distração e falta de dinheiro.
- O caloteiro nunca perde autoridade para exigir aos outros o que não faz.
- O caloteiro não cumpriu porque não foi convidado a fazê-lo.
- Ou foi.
- Sem carta registada.

(Texto adaptado de Rui Zink, sobre o «Manual do bom fascista)


Convite para gente fina

"Nunca deixei de pagar o que o Fisco me convidou a pagar". (P. P. Coelho)

Autarca socialista pede apoios a Bruxelas para Museu Salazar

 «O presidente da Câmara de Santa Comba Dão, Leonel Gouveia, assegura ao i (9-3-15) que se trata de um ‘projeto prioritário’ para a autarquia, numa altura em que o município já se prepara para apresentar uma candidatura a fundos comunitários para financiar a intervenção».

Que a intenção boçal do edil do PSD/CDS/PPM, que o antecedeu, seja retomada por um eleito do PS não provoca apenas perplexidade, é motivo de vergonha e revolta.

A determinação em criar o Museu Salazar não é um ato de cultura, é uma manifestação fascista. Enquanto em Espanha, o genocida Francisco Franco, estátua a estátua foi sendo remetido com o cavalo para os depósito municipais, por razões de sanidade e de justiça histórica para com um milhão de espanhóis que sofreu a morte ou o exílio, em Portugal há um autarca que quer recuperar a memória do déspota.

As famílias de presos, torturados e mortos, em Peniche, Caxias, Aljube, Tarrafal, Timor e Campo de S. Nicolau, merecem a afronta da veneração do algoz? O país com o maior índice de analfabetismo e mortalidade infantil da Europa, no consulado do ditador, tem motivos para glorificar o biltre que exibia sobre a secretária a foto de Benito Mussolini, que apoiou Franco e foi um ditador fascista?

O autarca de Santa Comba talvez ignore o assassinato de Humberto Delgado pela PIDE, em Espanha, e a desfaçatez do crápula a culpar do crime os comunistas. Por ignorância, pode desconhecer as torturas, prisões sem culpa formada, tribunais plenários, desterros e perseguições do verdugo que oprimiu um povo durante quase meio século. Mas, se é tão ignorante, rude e primário, não tem perfil para dirigir um município num regime que foi criado contra tudo o que Salazar representou e foi.

Leonel Gouveia não é um primata insensato, um solípede à solta a bolçar alarvidades, é um medíocre cidadão, de rudimentar cultura e imenso analfabetismo político, a que não será alheio o habitat. Há três razões que me coíbem de o considerar uma besta perfeita: não o conheço, posso ser injusto e sei que ninguém é perfeito.

A FRASE

«Com a ironia de Strauss-Kahn, se ao designar o seu sucessor dissesse «no FMI só um homem casto», Cavaco Silva definiu um critério para o próximo PR: “Ter alguma experiência na política externa”».

(Ferreira Fernandes, hoje, DN)

domingo, março 08, 2015

PSD/ PPD/PPC*


Quando o principal partido do Governo trata a verdade e a gramática como os jihadistas os prisioneiros, não podemos admirar-nos de que o PM desconhecesse que as prestações à Segurança Social fossem para pagar ou que a Declaração de rendimentos de deputado, após terminar o respetivo mandato em 1999, fosse de entrega obrigatória no Tribunal Constitucional.

O PSD, no exercício legítimo da propaganda eleitoral que a democracia lhe consente, e a que aderiu depois do 25 de Abril, publicitou a isenção de taxas moderadoras, no S. N. S., a todos os menores de 18 anos.
O exagero publicitário é uma refinada mentira e o atropelo à gramática é clamoroso. Um e outro estão ao nível deste Governo, desta maioria e do seu delegado em Belém.

« TRATAM-SE DE SEIS MILHÕES DE PORTUGUESES » [sic], como se houvesse 6 milhões de jovens com menos de 18 anos; e a gramática sai tão ferida como os direitos dos trabalhadores.

Onde está «TRATAM-SE…» devia estar «TRATA-SE…», se a língua de Camões lhe merecesse mais respeito do que os direitos dos trabalhadores.

PPC* = Pedro Passos Coelho

sábado, março 07, 2015

Coisas…

A «distração e a falta de dinheiro» estiveram na origem da delinquência perpetrada por Passos Coelho ao fisco e à Segurança Social. Ainda que seja injusto duvidar de “Um homem invulgar”, segundo a biografia de Felícia Cabrita, fica a vaga sensação de ser um oportunista amoral e analfabeto que comete os delitos de forma reiterada: "Nunca deixei de pagar o que o Fisco me convidou a pagar", como se a liquidação de impostos, à semelhança do anúncio do último casamento de Miguel Relvas, se fizesse por convite.

Entendo os novos descamisados, para cujo acréscimo o atual Governo tem contribuído, mas não posso aceitar que um sem-abrigo, que recebeu 60 mil euros como subsídio de reintegração, na qualidade de deputado caído no desemprego, em vez de procurar um lugarzinho, para cujo desempenho possuía habilitações literárias mínimas e padrinhos à altura, tenha almejado ser primeiro-ministro de Portugal.

Relvas e Marco António tiveram mais responsabilidade do que Cavaco Silva, cujo ódio ao Governo antecedente era manifesto; mas que máquina publicitária e com que meios levaram um distraído e indigente prevaricador fiscal a líder do PSD?

Estranha-se que, apesar do medíocre percurso académico e do sinuoso percurso de vida, Passos Coelho não tenha noção da incompatibilidade do seu passado com as funções do presente. Atemoriza pensar que os seus assessores, apesar do medo do desemprego, não lhe digam que as funções de PM, num país europeu, estão vedadas aos padrões éticos do Zimbabué ou à desfaçatez do sátrapa da Região Autónoma da Madeira.

Cavaco Silva, por mais receio que tenha dos amigos de Passos Coelho, não pode manter em S. Bento um indivíduo venal que só paga quando solicitado e dá aos contribuintes os argumentos para arriscarem a fuga.

A decadência ética desta maioria e deste Governo feriu os alicerces do Estado de direito de tal modo que o PR jamais pode fingir ignorância. Passos Coelho está a uma distância cultural e política incomensurável do homólogo grego mas, desconhecendo o que é um conto de crianças, ofendeu-o de forma primária com a mesma leviandade com que conta aos portugueses as suas traquinices ao fisco e à Segurança Social.

A demissão já não é questão política, é uma elementar medida de higiene que livrará do vexame quem aceitou ser ministro, na convicção de que seria currículo o cadastro que fica.

É urgente «convidá-lo» a sair.


sexta-feira, março 06, 2015

Os novos pobres

Enquanto choramos os pobres que o desemprego lançou na miséria, os jovens que não acham um posto de trabalho e os emigrantes que levam um diploma na mala de cartão, rumo a outro país, esquecemos os novos pobres que a Justiça lançou na indigência.

São mais merecedores de dó os últimos, antigos membros de Governos, ex-banqueiros que patrocinaram partidos políticos, ministros, deputados e até o PR.

Quem pode ser indiferente ao atestado de pobreza que Oliveira e Costa foi obrigado a pedir ou à inexistência de quaisquer bens na família Espírito Santo, cuja divindade do apelido não a protegeu da indigência legal?

Quem é tão insensível que não se comova com a situação precária do atual PR a quem o anterior Governo cortou a acumulação das pensões de reforma com o salário da função? Sem os 40% do vencimento presidencial, referentes a despesas de representação, talvez não pudesse cumprir os compromissos! E, na sua nobreza, cala as dificuldades próprias e só se preocupa  com «os muitos milhões de euros que saem da bolsa dos contribuintes portugueses» para os caloteiros gregos que não os podem pagar. Que patriotismo!

O pobre, que nunca deixará de o ser, só perde a refeição que lhe resta. Um rico perde os amigos, a fama e a fortuna. Imagina-se a amargura dos banqueiros saídos dos governos do PSD, multados, inibidos de exercer funções, constituídos arguidos, expostos à crítica dos lesados da SLN, dos investidores de papel comercial, obrigações e ações do BES ou de insignificantes acionistas do BCP, Banif, BPN ou BPP, arruaceiros e exigentes?!

Veja-se a diferença entre um pobre que sorri feliz por entre dentes perdidos, coberto de papelões, num vão de escada, e o ar sofrido do banqueiro sujeito às perguntas insolentes de uma deputada comunista que o humilha. Ao primeiro não se exige sequer que saiba ler e ao segundo exige-se que recorde cada milhão de euros que acautelou em offshores.

Pobres ricos!

quinta-feira, março 05, 2015

Santo Aníbal, santo súbito…

À semelhança de João Paulo II, as multidões reclamam em vida a canonização que tarda e a subida aos altares. Infelizmente, para Cavaco Silva, amigo da hóstia e do Governo, a intercessão com o divino só é permitida após a defunção.

Cavaco tem-se esforçado a fazer de morto, sempre que o seu Governo e a sua maioria se excedem em desmandos, mas a Sagrada Congregação para a Causa dos Santos já não tem a dirigi-la o inefável cardeal Saraiva Martins, um diligente chefe de repartição, para agilizar a adjudicação de dois milagres exigidos para a consagração pia do compatriota.

De qualquer modo só por cegueira partidária não se vislumbra no beato Aníbal a aura da santidade. Depois de um retiro espiritual, longo e profundo, enquanto o país se afundava na mais deprimente decadência ética, emergiu com odor a santidade a tranquilizar o País e, na benevolência evangélica, acentuada com a idade e a proximidade do encontro com o seu Deus, viu na evasão contributiva de Passos Coelho, ao Fisco e à Segurança Social, um mero «odor a eleições».

Que bondade! Que excelsa benevolência! Que virtuosa candura! A delinquência fiscal é uma questão de pituitária; a ausência de pagamento das prestações à Segurança Social é um mero ruído que só o ouvido interno capta; a evasão contributiva é, no fundo, uma questão de visão para os olhos que as cataratas poupam; o comportamento cívico é uma exigência que só amarga ao paladar da oposição.

Santo Aníbal pensa que a bênção perpétua que conferiu ao PSD e as indulgências plenas que atribuiu a Passos Coelho são sacramentos. Um homem assim já não é deste mundo, é um defunto precoce, com a pituitária desfeita, que o direito canónico devia levar em conta, para lhe certificar os milagres.

A casa da praia da Coelha não é a mansão de veraneio, é o mausoléu de um santo que se antecipou à defunção e desatou a fazer milagres cujo reconhecimento é urgente.