quinta-feira, abril 30, 2015

Vaticano e terrorismo islâmico

Na sequência de uma gigantesca operação de combate ao terrorismo, foram detidos, em Itália, 18 suspeitos de planearem um atentado ao Vaticano. Os detidos, de nacionalidade paquistanesa e afegã, estariam ligados à Al-Qaeda.

As detenções, noticiadas no dia 25 de abril p.p., desarticularam uma célula que em 2010 planeou atacar o Vaticano e cujos elementos têm pesado cadastro ao serviço da fé e do terrorismo.

Não há multiculturalismo que resista a grupos de fanáticos, Estado de direito que pactue com terroristas travestidos de imigrantes, delinquentes da fé que não renunciam a impor preconceitos religiosos à sociedade civilizada e democrática que somos.

O Vaticano pode ser uma teocracia negociada entre Mussolini e um papa de turno, mas a sede do catolicismo romano é muito mais do que isso. É o santuário das artes onde se guardam tesouros, local onde o esplendor da arquitetura, pintura e escultura transforma um bairro eclesiástico de 44 hectares em memória da civilização e da cultura mundial.

O Vaticano preserva a Basílica de S. Pedro, a Capela Sistina e os Jardins; abriga o génio de Miguel Ângelo, Rafael, Giotto, Caravaggio e Leonardo da Vinci; guarda memórias das civilizações etrusca, egípcia e grega; é a apoteose do melhor que o espírito humano criou e que sobreviveu a Pio V, inquisidor e santo, avesso à nudez e às heresias, a papas incultos, à erosão do tempo e ao saque das guerras, da época pré-cristã aos nossos dias.

Um atentado contra o Vaticano é uma atrocidade boçal contra a cultura, a civilização e o património da Humanidade. Ali, entre as sotainas e a liturgia, com incenso e água benta, repousa a memória histórica da civilização, o génio dos maiores criadores e o esplendor da memória coletiva europeia e da Humanidade.

O Vaticano é um local de culto, não por ser a sede de uma religião, por ser um museu da cultura greco-romana. Quem ameaça o bairro carregado de arte e de história, não ofende só os crentes, declara guerra à Europa culta, civilizada e democrática.

E não pode haver indulgência.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, abril 29, 2015

A FRASE

"A geração dos novos deputados já nem o 25 de Abril viveu, mas até porque são deputados têm mais obrigação de conhecer a história, e para isso têm que aprender, têm de vir a coisas como estas, para não dizerem asneiras como costumam dizer".

(Vasco Lourenço na intervenção na abertura do Colóquio "As eleições de 25 de abril de 1975 - História, Memória e Legados" na Assembleia da República, em Lisboa).

A "GERAÇÃO RASCA" DE POLÍTICOS EUROPEUS

Há em Direito Internacional um princípio básico: o da não ingerência de um Estado nos assuntos internos de outro Estado. Trata-se de um elemento essencial para que um Estado possa considerar-se independente e soberano.

Em tempos recuados, a violação desse princípio podia desencadear uma guerra. Hoje felizmente já não é assim, mas ainda há poucas dezenas de anos essa violação provocaria um grave incidente diplomático que, a não ser sanado, poderia levar ao corte de relações diplomáticas entre os dois Estados. Hoje, porém, essas ingerências tornaram-se banais na Europa, sobretudo por parte dos dirigentes alemães contra os países do sul. Frau Merkel e Herr Schäuble não se coíbem de, com todo o desplante e a maior grosseria, interferir nos assuntos internos de outros países, chegando ao ponto de lhes dizer que têm de fazer certas reformas. Isso é gravíssimo. Mas mais grave ainda é o facto de os governantes desses países (com a recente exceção da Grécia), se sujeitarem a essas ingerências, “amocharem” perante a Alemanha, suportando por parte desta todo o tipo de vexames e humilhações.

Isso deve-se à mediocridade, senão mesmo nulidade, da classe política desses países.

Com efeito, alguém consegue imaginar uma qualquer Merkel ou um qualquer Schäuble a dizer aos Presidentes De Gaulle ou Miterrand que a França tinha de fazer isto ou aquilo, esta ou aquela reforma? É impensável. A reação seria terrível. Nem os alemães teriam a veleidade de sequer tentar meter o nariz nos assuntos internos franceses. O mesmo aconteceria com Portugal, se fosse dirigido por um Mário Soares, um Sá Carneiro ou um Eanes.

O problema é que Merkel e Schäuble encontram pela frente uns badamecos, uns Sarkozys, uns Hollandes, uns Cavacos, uns Passos Coelhos, enfim, uns borrabotas sem qualquer categoria. A Europa é hoje governada por uma “geração rasca” de políticos. Uns vilões de um lado, uns cobardolas do outro.

Menina de 12 anos…

Há notícias que nos oprimem entre o nojo e a indignação. Esquecemos o drama de 3 mil mortos e o desespero dos sobreviventes do Nepal, vítimas da fúria de um vulcão, os 700 mortos de muitos milhares de náufragos, no Mediterrâneo, à espera de chegarem a terra, tragédias que diariamente a comunicação social nos serve como se o nosso sofrimento pudesse aliviar as vítimas que nos exibem.

A menina de 12 anos, grávida do padrasto que dela abusava desde os 6 anos e a violava desde os 10, internada no Hospital de Santa Maria, traz no ventre cinco meses de uma gravidez que ignorava e, entre a ética e a lei, aguarda a continuação da desdita de quem nunca foi menina e a quem a felicidade jamais será possível.

Esta é uma situação em que não gostaria de ser médico, juiz ou membro da comissão de ética do hospital, onde não importa a interpretação da lei porque na pungência do drama pouco interessa o que a lei diz para quem o lacera a dúvida sobre o que deve ser feito.

Há nesta tragédia, onde a pobreza e a sordidez se juntam, uma criança que gera outra na ignorância do corpo que nunca foi seu, na infância que lhe roubaram. Há na injustiça da criança em formação dentro de outra, a reprodução do martírio de quem nasceu de gente errada, quiçá na cumplicidade materna e nos odores a álcool do padrasto que roubou a inocência a quem não deu conta de a ter perdido.

Eu, que julgo ter direito a uma opinião, em cada circunstância, sinto-me um náufrago à deriva sem saber que boia lançar às crianças que nunca tiveram pai nem mãe, filhas dos acasos da vida e da desdita dos pobres.

terça-feira, abril 28, 2015

Equivalências do atual Governo

Desde 8 de julho de 2013, o título "Dr." foi oficialmente consagrado em Diário da República para cidadãos habilitados com o 3.º ciclo liceal.

segunda-feira, abril 27, 2015

Factos & documentos


O inimputável PM


domingo, abril 26, 2015

Há 78 anos – para que nunca se esqueça


A tela (3,50 X 7,82 m) pintada a óleo representa o bombardeamento sofrido pela cidade espanhola de Guernica em 26 de abril de 1937 por aviões alemães, em apoio do ditador Francisco Franco.

O crime nazi, apoiado pelo general golpista e genocida, inspirou a obra-prima de Pablo Picasso que, em 1937 por ocasião da Exposição Internacional de Paris, foi exposta pela primeira vez.

Acordo pré-eleitoral CDS/PSD: Day after …


O acordo pré-eleitoral CDS/PP com o PSD ontem firmado link foi um 'fogacho' pré-eleitoral mas parte de falsos pressupostos.

Um deles é quem pediu, ou condicionou, em 2011, a intervenção externa perante uma difícil situação financeira que, tendo componentes internas, nasce de manobras especulativas do sistema onde assentam arraiais os ‘investidores’ (institucionais na sua maioria), travestidos como implacáveis e inomináveis ‘credores’.

Quando, em 2011, o largo espectro político-partidário paoquial adoptou a solução de proceder a uma ruptura política interna não mediu as consequências. Uns (a Esquerda) rejeitaram a austeridade pensando que existiriam outras soluções alternativas, outros (a Direita) embrulharam-se em promessas de ‘cortes nas gorduras’ do Estado, jurando poupar os cidadãos.  
Ambos estes cenários revelaram-se absolutamente fantasiosos. E o custo desta ‘fantasia’ recaiu sobre os portugueses. Há, todavia, uma categórica afirmação que passados 4 anos não pode ser esquecida nem desvalorizada. Passos Coelho comprometeu-se a cumprir o programa da Troika (conhecido antes das eleições de 2011) e  “ir mais além das metas acordadaslink.  Esta terá sido uma das poucas intenções manifestadas que cumpriu. 
De salientar que se tratou de um compromisso pós-eleitoral perante o Presidente da República. Este, por outro lado, viria a revelar-se um fiel companheiro governamental na aplicação de uma desastrosa politica austeritária. Agora suspira por um entendimento interpartidário. Vá lá entender-se a equivoca personagem.

O outro  equívoco é o de que a governação conjunta durante os últimos 4 anos foi um sucesso linear, explícito e incontestável. Na realidade, a dívida não parou de crescer, o desemprego mantem-se a um nível intolerável, a pobreza cresceu exponencialmente e os apoios sociais caíram a pique. 
Existem, de facto, indicadores macroeconómicos que melhoraram, mas como reconhece a própria maioria governamental não atingiram as pessoas. E em Setembro/Outubro são as pessoas que votam…
O FMI que recebeu antecipadamente o dinheiro emprestado também não votará. Na realidade, é difícil contornar esta iniquidade: uns recebem antecipadamente no decurso de uma crise ainda não debelada e num clima de  indefinição futura e para os outros foi aventada a hipótese de pagamentos em suaves prestações anuais, condicionalmente, i. e.,  se a situação (orçamental, nacional e europeia) evoluir bem. Esta dualidade de critérios caracteriza bem a atitude deste Governo. É isto que estará em julgamento nas próximas legislativas.

O acordo tem, como é habitual nestes entendimentos, intenções ocultas. A primeira é meramente contabilística.  A ida em coligação às eleições – com o método de Hondt – poderá beneficiar a 'frente eleitoral de Direita', embora descaracterize as opções (nuances) partidárias, face a um plano de tentar a todo o custo a permanência no poder. Não fica qualquer espaço para as habituais tiradas de ‘desapego ao poder’.

Outra vertente deste acordo pré-eleitoral é permitir o clássico 'sacudir a água do capote'. No dia seguinte às eleições os 2 dirigentes partidários subscritores do presente acordo apressar-se-ão a endossar ‘um’ ao ‘outro’ os resultados tentando cada um salvaguardar a sua posição partidária. 
O primeiro acto ocorreu ontem (sem surpresas), segue-se o enredo eleitoral que não expurgou todas as possibilidades de correr mal e o terceiro acto vem depois e não oferece garantias de qualquer estabilidade.

Finalmente, existe como é habitual nestas situações a canibalização partidária. Tradicionalmente, o partido de maiores dimensões tende a canibalizar o mais pequeno, capitalizando as suas áreas de influência (partidária). Este é um desafio que os militantes do CDS não deixarão, ao longo da campanha, de ponderar. A ‘irrevogável’ avaliação ficará para depois.

O meu desejo

Não creio que o conjunto da dívida pública, privada e das empresas possa algum dia ser paga por Portugal. Há erros nossos, com certeza, e com mais certeza, ainda, do sistema capitalista para o qual não se veem alternativas democráticas. Nem exemplos alheios.  

A curto prazo teremos de viver da esperança infundada e de justificadas certezas de que não teremos pior Governo, tão desvairada maioria e tão inepto PR, depois de o povo ser chamado às urnas. O que poderemos ter é uma instabilidade que nos desgrace perante a teimosia do PR, que persiste em não antecipar em dois meses as eleições que, a troco da submissão do PS, prometia para 15 meses antes.

O PSD e o CDS, que ontem anunciaram o conúbio eleitoral, depois da desastrada união de facto, com saídas de casa e adultérios recíprocos, com o sacristão de serviço a ungir a promiscuidade, garantem a progressão da inépcia e a ausência de um módico de respeito pelo serviço público e pela legalidade democrática. Com um terço dos eleitores, tolhidos  pelo medo ou arregimentado por angariadores, ficarão longe da maioria mas com poder para travarem uma solução de esquerda onde as divisões jogam a seu favor.

Num parlamento que se prevê atomizado, sem maioria coerente, estaremos de novo à mercê da chantagem desta direita a guinchar que, sem ela, não há solução, sabendo que, com ela, será sempre pior. E poderá voltar a ser.

A situação desesperada que esta maioria, este governo e este PR escavaram não garante um futuro risonho. Que cada um saiba escolher o menos mau dos partidos que disputam o mercado eleitoral. É o meu desejo.


Resta a alegria de saber que nunca mais o adversário do 25 de Abril, alérgico aos cravos e à CRP, voltará a arengar na Casa da Democracia, num dia que lhe causa azia e ao qual deve o que não merecia. O melancólico discurso de despedida foi mais um exercício de mediocridade, de apelos repetidos até à náusea, sem assumir as culpas que lhe cabem. Foi o epitáfio para o último Roteiro, sem grandeza nem seriedade. 

sábado, abril 25, 2015

Autocrítica ou recado do PSD?

"Ao fim de quatro décadas de democracia, os agentes políticos devem compreender, de uma vez por todas, que a necessidade de compromissos interpartidários é intrínseca ao nosso sistema político e que os portugueses não se reveem em formas de intervenção que fomentam o conflito e a crispação e que colocam os interesses partidários de ocasião acima do superior interesse nacional", afirmou o chefe de Estado na sessão solene do 25 de Abril, na Assembleia da República.

25 de Abril de 2015 – Aos capitães de Abril

Tecendo a manhã de todas as esperanças, o MFA fez raiar a mais radiosa de todas as auroras naquele distante ano de 1974. Abril era mês e 25 o dia resgatado do calendário para o sonho coletivo da liberdade, com cravos floridos nos canos das espingardas.

Nunca uma revolução fez tanto, em tantos séculos de país, para, de um só golpe, abrir prisões, derrubar a censura e abrir as portas da democracia. O 25 de Abril não é um dia, é o dia da História e das nossas vidas, o dia inapagável que traçou a baliza e a marca, o antes e o depois, do cárcere à liberdade, da ditadura à democracia, da guerra à paz.

Foi o dia em que os capitães, que fizeram a guerra, impuseram a paz, numa epopeia em que a coragem de um dia resgatou do opróbrio da ditadura um povo amordaçado.

Ao comemorar os 41 anos da data que os democratas trazem dentro de si, na mágoa de verem os que o traíram, alérgicos ao cravo e ao povo que os elegeu, recordamos a gesta heroica dos que arriscaram a vida para nos devolverem o direito de decidir o destino.

Da guerra sem fim, da discriminação da mulher, da censura e dos cárceres, dos bufos e rebufos, resta hoje a amarga presença dos notálgicos da ditadura, de ingratos e traidores, esperando que o 41.º aniversário seja o último que ostracize os capitães que nos deram o direito ao sonho e à liberdade e o primeiro que sirva de epitáfio a quem os trai.

No sonho de outras manhãs que nos libertem do pesadelo da pobreza, do desemprego e da vingança contra Abril, deixo o poema do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(João Cabral de Melo Neto)

sexta-feira, abril 24, 2015

Pailobo – uma aldeia privada das suas gentes (Crónica)


Quando aos 8 ou 9 anos, montado na albarda de uma burra com o dobro da minha idade e paciência, fazia sozinho uma longa jornada, havia de julgar-me adulto e envaidecido quando me cruzava com alguém nos caminhos quase desertos que da Miuzela do Côa conduziam a Monte Perobolço, uma légua bem medida.

Só a inabalável afoiteza daqueles avós maternos, tão meigos e orgulhados do primeiro neto que lhes coube, permitia que confiassem à criança, a besta, a missão que levava e o dinheiro que pagava a mercadoria.

Partia de manhã, cedo, pela fresquinha, bem comido, com a burra aparelhada a preceito, a cilha bem apertada, não fosse a albarda virar-se, o cabresto ajustado e, sobre a manta garrida, os alforges destinados a regressarem cheios.
Já levava uma boa meia hora de caminho quando, montado na burra, passava o Noémi a vau, junto às poldras, a caminho de Pailobo. Era uma pequena aldeia com pouco mais de uma centena de habitantes onde logo era reconhecido e me perguntavam pelos avós, mas o peito inchava quando indagavam se ia sozinho, e viam bem que ia. A subida era íngreme, ou assim me parecia, desde a ribeira até à aldeia onde, à vinda, de tudo o que me ofereciam, aceitava, quando o sol abrasava, o púcaro de água fresca do cântaro de barro, da Malhada Sorda, que jazia numa cozinha.

Pailobo era povoação pequena, comparada com a Miuzela, que tinha para cima de 800 pessoas, e era ponto de passagem obrigatório para quem se dirigia a Monte Perobolço, a menor distância do que a que a separava da Parada do Côa de cuja freguesia era anexa.

Em Monte Perobolço, saltava da burra, prendia o rabeiro à ferradura metida na parede, que servia de argola, e entrava no estabelecimento do Sr. José Simões que abastecia de tabaco as aldeias em redor. Era recebido com alegria, tão pequenino e vem sozinho da Miuzela, como vão os avozinhos, então a encomenda é grande, e lá puxava eu do papel onde a avó escrevia os nomes e quantidades de tabaco que pretendia.

As embalagens enchiam os alforges, do Kentucky, de 12 cigarros, conhecido por mata-ratos, com uma cinta onde se lia o preço de venda ao público, $80, até às caixas de 10 maços de 20 cigarros, de Português Suave, Paris ou Três Vintes (20-20-20), e aos mais populares Definitivos e Provisórios, grandes e pequenos, respetivamente com 24 e 12 cigarros. Onças de tabaco Superior e Holandês, com outros tantos livros de mortalhas, e cigarros de outras marcas, da Tabaqueira ou da Companhia Nacional de Tabacos, hoje desaparecidos, e cujo nome fui esquecendo, completavam a encomenda.

Depois de criança voltei a Pailobo algumas vezes para comer as perdizes caçadas pelo Manuel da Cabreira, o famoso Manuel Caçador, a quem se pagava o dia de trabalho, os cartuchos, o chumbo, a pólvora e as buchas para abater à roda de vinte perdizes que a mulher, a Sr.ª Alice, estufava primorosamente . Era o tempo em que as perdizes eram mais numerosas do que os caçadores e, nessas tardes, com o meu tio Brardo, o Sr. Zé Rita, o Sr. Messias Pereira e outros, passávamos a tarde, bem comidos e bebidos, a jogar à sueca e a conversar.

Depois dos 20 anos não voltei a tal aldeia. Soube da existência de um cemitério, velho anseio do povo, que o 25 de Abril concretizou, quando surgiu o primeiro defunto capaz de gozar o melhoramento, não porque tivesse sido notícia a obra, mas porque o morto, o António Pereira, tratado por Seabra, recusou um cemitério privativo, ou alguém por ele, e, como era hábito, foi para o da Parada, destino usual para a defunção das pessoas de Pailobo. Outros morreram e ficaram nas terras onde acabaram os dias, antes do Manuel Pereira, o Micas, ter inaugurado o cemitério que, desde aí, passou a cumprir a função.

Em 23 de agosto de 2013 voltei a Pailobo. O fogo andou lá, há pouco, e os lanchais que descem até ao Noémi estão ardidos, só mostram as pedras tisnadas, como tisnadas estão as pontas dos arbustos que atravancam o caminho para Monte Perobolço. Sucedeu pior, há anos, quando um pavoroso incêndio ligou a Miuzela a Pailobo, sem poupar a capela de Santo Antão, alheio à santidade do edifício e à aflição das pessoas.

Hoje, a capela está fechada, como cerrada está a capela do Calvário onde o patrono que decorava a fachada, S. Sebastião, foi apeado, e fechado dentro, por mor dos ladrões que não respeitam a memória pia do que foi uma pequena aldeia com gente, hoje espalhada pelo mundo, a recordar a procissão de 16 de janeiro, quando o andor de Santo Antão ia em visita a S. Sebastião e voltava, depois da missa, com foguetes e cânticos religiosos.

Junto à capela do Calvário ainda resiste o Cruzeiro que os da Parada já levavam quando um trator lhes franqueou a passagem e os obrigou a devolvê-lo à peanha que o sustenta.

Na aldeia moram agora três viúvas, uma de 87 anos, que vive sozinha, e outra de 91 que está acompanhada de uma filha, também viúva, mas, durante o inverno passado, só um homem de 55 anos, padeiro em Pínzio, que no regresso vende, em várias aldeias, o pão que ajuda a fabricar, foi o persistente morador celibatário, duplamente solitário.

A Sr.ª Maria Romeira, viúva de Messias Pereira, cujos 91 anos já referi, disse-me que o Zé Rita e a mulher, nascidos em 1913, estavam no lar de Vela, no concelho da Guarda. É rija aquela gente e o coração não renega a aldeia de Pailobo onde, no posto escolar em ruínas, trepava pela parede uma parreira com dois cachos em maturação tardia.

Nas casas abandonadas da aldeia saem dos telhados dezenas de antenas de televisão que o vento vai torcendo enquanto o silêncio toma conta do espaço onde a vida se extingue numa dolorosa metáfora do país que arde.

Jornal do Fundão – 23-04-2015

Viva o 25 de Abril, Sempre!

É amanhã

Amanhã celebrarmos o 41.º aniversário da data que venceu a censura, a tirania e o crime. Nunca, como hoje, foi tão grande o desamor dos mais altos dignitários à data emblemática da nossa História, à Revolução que mais longe levou a paz e a democracia, aos heróis que a fizeram e consolidaram, para as entregarem ao povo organizado em partidos.

Quem mais lhes deve é quem mais os despreza. É por isso que os meus adversários são esses que aí ficam a olhar para nós, cheios de azia, sem qualquer gratidão para quem devem o que são e sem vergonha de serem como são.

quinta-feira, abril 23, 2015

Conventos, ‘vida’ monástica e liberdade

As religiões têm casas de reclusão, a pretexto da piedade e da oração, onde encarceram débeis de vontade, fanáticos do divino ou devotos depressivos. Às vezes são as vítimas de famílias que lhes querem confiscar a herança, de coação ou de chantagem. Têm, em regra, uma hierarquia rígida, uma disciplina despótica e um tratamento desumano. Bem sabemos que é para maior glória de Deus e para gozo da Santa Madre Igreja.

Os conventos estão atribuídos a Ordens, consoante as patologias. Uns dedicam-se à contemplação, outros ao silêncio, vários à autoflagelação, quase sempre em acumulação de diversas perversões que, no caso da ICAR, são autorizadas pelo Papa e conduzem em regra o/a fundador/a à canonização.

Admitamos que as vítimas se encarceram de livre vontade, que o desejo do Paraíso as inclina para o masoquismo, que a ociosidade as anula, que a inteligência, a vontade e os sentimentos se consomem na estéril clausura e na violência dos votos. Aceitemos que há seres racionais a crerem que, algures, um deus aprecia a alienação, o sofrimento e a violência. Imaginemos um Deus que se baba de gozo com ambientes concentracionários despoticamente defendidos por madres ou frades ungidos do direito à tirania.

A título de exemplo lembro a Ordem das Carmelitas onde, só a título muito excecional, é permitido falar. E essa magnânima autorização tem fortes grades a proteger qualquer encontro. É nestes ambientes carcerários, privados de nome, de pertences e de memória, que exércitos de inúteis vestidos de forma bizarra se encontram ao serviço do Papa.

Na Irlanda, há anos, o Governo foi constrangido a averiguar o que se passava no campo de concentração «As irmãs de Maria Madalena», tendo fechado a espelunca e libertado as vítimas, condenadas a prisão perpétua pelas próprias famílias, por terem sido mães solteiras ou, apenas, demasiado bonitas, perigosas na sedução dos homens.

Será possível que os Governos democráticos, a quem cabe a defesa da Constituição, o dever de respeitar e fazer respeitar os direitos e liberdades dos cidadãos, se conformem com a renúncia à cidadania e não averiguem se é de livre vontade que bandos de frades e freiras façam de lúgubres conventos o mausoléu da vida?

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, abril 22, 2015

A desvalorização do órgão da soberania PR

A decadência ética do regime e a degradação de um módico de dignidade das funções de Estado atingiram, com esta maioria, este Governo e este PR um ponto insuportável para o regular funcionamento das instituições.

À erosão acentuada da decência e dignidade das funções presidenciais não é alheio o perfil do atual titular, mas não se pode absolver de responsabilidades esta maioria e este Governo que, à solta, deixaram enxovalhar quem é seu cúmplice.

Que pensará o País, o que pensa, de receber a notícia da ida de 30 militares portugueses para o Iraque, destinados a combater contra o Estado Islâmico (EI), através do chefe da diplomacia dos Estados Unidos? O PR e o PM ocultaram aos portugueses a informação sobre o envolvimento nacional. Retribuem o desprezo que os cidadãos lhes devotam.

Hoje, lê-se no DN, pág. 15, num artigo assinado por M.C.F., este último parágrafo: «O CSDN reúne-se hoje para autorizar o envio de caças F-16 para a Roménia, anunciado por Bucareste quando o Presidente da República desconhecia a missão e a composição dessa força».

Claro que assinará o que o Governo lhe impuser. O Comandante Supremo das Forças Armadas nem o prestígio destas salvaguardará. Quanto ao seu já nada tem a perder. O Governo, que tanto lhe deve, não o ajudou a terminar o mandato com dignidade.

Que saudade de Jorge Sampaio, que impediu as FA de participarem no crime da invasão do Iraque para o qual Durão Barroso as quis empurrar.



O ministro da Saúde, os hospitais e as mamas

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A aura de santidade, que as missas e o cilício conferiram ao contabilista, pode exaurir-se na coação de mulheres obrigadas a espremer as mamas para provarem que amamentam os filhos.

É verdade que o Governo, especialmente o ministro dos hospitais ainda não encerrados, está habituado a espremer a teta, no duplo sentido da expressão. O que não se imaginava era a sujeição da mulher ao opróbrio de exibir a mama ao inquiridor para lha apertar ou, segundo uma enfermeira, ser a própria a espremer o leite das mamas à frente de médicos de saúde ocupacional.

O Dr. Paulo Macedo cuja competência, em saúde, é um boato do tamanho da inaptidão do seu Governo, talvez um mito urbano, não pode colocar à frente dos hospitais quem, sendo fiel a este Governo, possa ignorar os métodos biológicos que permitem detetar as fraudes, que justamente se devem combater, com doseamentos hormonais adequados.

A violação gratuita da intimidade feminina é um ato indigno saído do espírito misógino de quem o ordenou ou de quem, sem mãe, irmãs, filhas ou mulher, tem a sensibilidade de um crocodilo.

terça-feira, abril 21, 2015

Portugal e o Estado Islâmico

Dentro da coerência que procuro, regozijo-me com a presença, embora simbólica, de 30 militares portugueses no combate ao Estado Islâmico. É a defesa da civilização contra a barbárie. É um sinal de que não permitiremos que a sharia substitua a democracia.

Só lamento que o PR e o PM tenham ocultado a informação aos portugueses e que fosse   o chefe da diplomacia dos Estados Unidos a dar a notícia, antes do encontro com Rui Machete, agradecendo o envolvimento de Portugal no combate contra o EI no Iraque.

Acontece, quando os dirigentes de um país estão de joelhos. Acabam a rastejar, sem que os aliados respeitem o protetorado.


Madeira

Miguel Albuquerque, novo governador, propôs a limitação de mandatos e o fim da acumulação de reformas e vencimentos, à semelhança do que vigora no Continente. É louvável a aceitação da legalidade democrática e do corte com o passado. Afigura-se que, depois das trapalhadas eleitorais, a normalidade democrática, interrompida em 28 de maio de 1926, acabará por chegar à Madeira.

Curiosamente, pela mão do PSD que ali prolongou o salazarismo durante 41 anos!

segunda-feira, abril 20, 2015

A TAP, a reforma administrativa e outros desmandos

O bando que gerou esta maioria e o Governo, que se apoderou do PSD e do poder com a cumplicidade do PR, ignorou a reforma administrativa a que estava obrigado, mantendo um mapa autárquico obsoleto. Foi a oportunidade perdida na cosmética inócua da fusão de umas dúzias de freguesias, conservando concelhos sem massa crítica, freguesias com falsos habitantes e a manutenção faraónica de lugares político-partidários, no aparelho de Estado, nas Regiões Autónomas, Assembleias regionais, municipais e de freguesias, as redes de caciques que interessam a todos os partidos.

Este Governo, onde coexistem ressentidos com o 25 de Abril, nostálgicos salazaristas e académicos politicamente incapazes, fez do País o laboratório político de experiências fracassadas e a desforra contra a saúde, a cultura e o ensino do Estado.

Deixado à solta pelo PR, ou com o PR preso, sabe-se lá porquê, o Governo apostou em deixar uma herança pior do que recebeu, com os portugueses espoliados de anéis e com vontade de lhes amputar os dedos, ansioso de exonerar o Estado das funções sociais.

Deixemos os crimes contra o Estado democrático para outros textos, bem como a venda de ativos estratégicos onde avultaram empresas de vanguarda científica e tecnológica.

A TAP é uma obsessão ideológica de quem mentiu para explicar a venda inadiável. Para o bando da comissão liquidatária do País, não contam interesses estratégicos, o turismo que comprometem ou o valor simbólico.

Convém aqui dizer que os pilotos da TAP se comportam como aliados do Governo que aparentemente combatem. No início da Revolução exigiram a isenção de impostos, hoje não fazem greve contra a privatização, mas contra a impossibilidade de confiscarem em proveito próprio, em benefício restrito da casta, uma parcela da empresa, sem qualquer preocupação com a viabilidade da empresa e o futuro dos outros trabalhadores.

Parece que os partidos de esquerda temem afrontar greves injustas. Não se trata de uma greve de funcionários modestos, que reivindicam 2% ou 3%  de aumento salarial, mas de pilotos que pretendem locupletar-se com parte da venda numa dupla imoralidade, a exigência do que não é seu e a indiferença pela venda em que o Governo insiste.

domingo, abril 19, 2015

Para memória futura

A FRASE
«A reforma da Segurança Social para a qual apelam ao consenso dos partidos da troika é para liquidar a Segurança Social pública e esmagar de forma brutal o valor das pensões e das reformas»
(Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP)

A BOÇALIDADE SECTÁRIA:
«Apesar de ter servido em governos do Partido Socialista, (…)
(Pedro Passos Coelho, a iniciar o elogio fúnebre de Mariano Gago)

A TRAGÉDIA INSUPORTÁVEL
Várias centenas de pessoas terão morrido esta noite no Mediterrâneo, em mais um naufrágio entre as costas da Líbia e a ilha italiana de Lampedusa. Foram resgatadas 28 pessoas, mas a bordo da embarcação estariam cerca de 700.
(Notícia  de hoje)


Os meandros e os calendários nas negociações UE, FMI e Grécia …


A UE tem dado mostras que se encaminha para adoptar o ‘Grexit’ julgando que essa fractura (e factura) não terá consequências de maior e a libertará do ‘problema helénico’, deixando os gregos entregues à sua sorte.
Na reunião de Primavera do FMI de há 2 dias, Jacob Lew (Secretário de Estado do Tesouro dos EUA) advertiu o presidente do Euro Grupo, Jeroen Dijsselbloem, que não chegar a um acordo [entre as ‘instituições’ e a Grécia] “criaria problemas imediatos para a Grécia e incertezas para a Europa e para a economia mundial como um todolink.

Esta recente versão desmente o postulado germânico, defendido por Angela Merkel, e ‘imposto’ aos parceiros europeus, de que  a saída da Grécia  da Zona Euro (‘Grexit’) não teria consequências de maior para a UE. 
Trata-se de uma posição política que a julgar pelo anunciado não é recente, nem decorre das negociações em curos ente a UE e o novo governo grego dirigido pelo Syriza de Alexis Tsipras link . O artigo do Der Spiegel (online), de 5 de Janeiro de 2015 (o novo governo grego decorre dos resultados eleitorais de 25 de Janeiro), já mencionava – com um ‘avanço’ de 3 semanas - essa estratégia política link.

A substituição da ‘teoria do dominó’, i. e., do ‘contágio’ que a aceitação das reivindicações do novo governo grego poderia provocar noutros paíse europeus que têm mostrado resistências às políticas austeritárias emanadas de Berlim, pela ‘teoria da cadeia’, que poderia tornar os elos mais fortes com ‘o expurgo’ dos contestatários é a nova nuance política construída pela dupla Merkel/Schauble.

A intervenção dos EUA, há 2 dias, veio recolocar o problema grego numa dimensão geopolítica e estratégica que Berlim faz questão em ignorar. Por outro lado, a pressão que vem sendo feita por Berlim, Bruxelas e Frankfurt à volta do espectro de um ‘incumprimento’ grego, poderá ser aliviado pelo recente acordo Atenas – Moscovo sobre o gasoduto Turkish Stream (previsto para ser assinado em 21 de Abril) link, já que prevê a entrada de 5.000 milhões de dolares nos cofres helénicos. 
Esta ‘folga’ deverá ser aproveitada por ambas as partes mas, efectivamente, joga contra os interesses de  Berlim que desejaria ‘arrumar’ liminar e rapidamente o novo governo de Atenas, transformando-o num exemplo (teoria da 'vacina') para os outros países europeus.

Esta estreiteza de visão a par da cega obsessão pela austeridade poderá ter custos mais elevados do que ‘ajudar’ a Grécia, vítima de um programa de intervenção absurdo, incompetente e fracassado.
Aliás, os saldos das intervenções externas levados a cabo pelas ‘instituições internacionais’ (FMI, BCE e CE) em Portugal, Irlanda, Chipre e, noutra medida (sem programa explicito), em Espanha e Itália, estão longe ser os êxitos que Berlim teima em apresentar e 'incensar' como uma miraculosa confirmação da chamada ‘austeridade expansiva’.

O futuro (não tão distante como é suposto) nos dirá de sua justiça. Mas o arrastar das negociações entre a UE, FMI e a Grécia transmite-nos a ideia que, para já, o impasse assemelha-se mais a ‘gato escondido com o rabo de fora’. E sabemos que o tempo sempre jogou contra os embustes.

Recordações…

Há dias estive com o Dr. Guedes Pinto, um velho gastrenterologista a quem a solidão, a idade e a falta de saúde vão arruinando os dias. É uma excelente pessoa, que conheci no exercício da profissão e com quem fui estabelecendo laços de simpatia e estima, que me dói ver na decrepitude que o atinge. É a vida, a previsão do que me pode esperar.

Há cerca de 40 anos tive uma história que a vergonha me devia impedir de contar mas a catarse das cenas ridículas está feita, há muito, na sublimação permanente que aprendi, rindo-me de mim próprio.

Estávamos no velho Hospital da Universidade de Coimbra, à entrada do serviço onde ele prestava serviço. Era um ponto de conversa habitual e o Guedes Pinto um agradável interlocutor. Sob o claustro do antigo convento, não sei do que falámos antes e, a certa altura, já na presença de outro colega meu, o Beto Rebelo, o médico dispara-me:

- Ó Esperança!
- …
- Então no sábado!...
- Ah! – respondi, a ganhar tempo.
- Vai ser memorável…
- Pois…
- Não nos vamos esquecer…
- Não…
- Que jogo!...
- Sim. E respirei de alívio por ter descoberto que se tratava de um jogo. De futebol.
- Há muito que não vemos um jogo assim…
- Pois não…
- São duas grandes equipas.
- Sem dúvida…
- Vai ser um grade jogo.
- Se vai!
- Lá estaremos a ver…
- Claro. E, farto de responder com monólogos, olhando a chuva miudinha que caía no jardim interior do Hospital, resolvi antecipar-me: «O pior é se chove»!

E vi o ar de surpresa do Dr. Guedes Pinto onde transparecia a estupefação clara de quem julgava estar com uma pessoa normal e que – como via –, era um idiota. A cara do Beto, vizinho, colega e amigo, era de desolação. Há muito que ele queria que eu me calasse, conhecia bem a minha ignorância futebolística.

O Dr. Guedes Pinto foi chamado e levou para a enfermaria aquele ar de espanto por ter falado com um indivíduo que julgava normal e, afinal, não regulava bem.

Foi então que o Beto me esclareceu: já previa que metias o pé na poça, quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão, não sabes que o jogo de sábado, entre (já não sei que clubes), é na televisão. Joga-se na Dinamarca.

Se contasse todas as cenas ridículas que vieram ter comigo ao longo da vida não parava mais. E ainda não aprendi a prudência que uns têm por virtude e eu por cálculo.


sábado, abril 18, 2015

SONDAGEM RECENTE

PS DESCE

PSD SOBE

PCP REGOZIJA-SE COM ESSES RESULTADOS

Foi ontem publicada uma sondagem da Eurosondagem para o Expresso e a SIC, da qual resulta que o PSD sobe 1,25 %, enquanto o PS desce 0,6%.

Ainda não ouvi ninguém do PSD exultar, nem ninguém do PS lamentar-se.

Mas do PC já vi alguns militantes e simpatizantes (aqueles a quem Lenin chamava "idiotas úteis") manifestar o seu contentamento. Isto demonstra mais uma vez que o PC elegeu o PS como seu inimigo principal, gastando mais tempo e energia a combatê-lo do que a combater o governo, e que pratica a política do "quanto pior melhor". Depois proclama que pretende a unidade da esquerda, mas a "esquerda" resume-se a ele próprio e aos "Verdes", que juntos ficam muito abaixo dos 15% dos votos!

Hão de ir longe com tal "ampla coligação"...

Factos & documentos


Os crentes e a tolerância

O aparecimento de crentes tolerantes vai-se tornando uma constante a que urge estar atento. É um fenómeno das sociedades democráticas onde a secularização exerce a sua pedagogia. Tal como o ateísmo, a religião não faz ninguém bom, mas não estraga todos por igual. Os livros sagrados refletem a violência da época e a idiossincrasia de quem os escreveu, mas são poucos os crentes que os leem e menos os que os levam a sério.

A verdade revelada dos quatro livros escolhidos no consulado de Constantino teve mais a ver com os interesses do Império Romano do que com a fé do Imperador. Esses livros, evangelhos, refletiam interesses políticos que se tornaram essenciais para a organização política da ICAR e a conquista do poder temporal que logrou. O mesmo aconteceu com a Tora, primeiro, e o Alcorão, depois.

Curiosamente, ainda hoje a ICAR vai buscar aos evangelhos que ela própria declarou apócrifos factos e personagens a que atribui valor canónico. É o caso de Ana e Joaquim, proclamados santos e atribuídos a Jesus, como avós maternos cuja vida e existência os «verdadeiros» omitem.

Excetuando épocas de crise em que o sentido literal da Tora, Bíblia e Alcorão são objeto de um proselitismo infrene, a tendência vai no sentido da relativização dos textos e o cumprimento da vontade de Deus aligeira-se como se o próprio, suspeito de Alzheimer, ficasse sob suspeita.

Com crentes tolerantes e civilizados é possível alargar os espaços democráticos e levar o respeito pelos direitos humanos a regiões onde é desconhecido. Seria trágico que, por questões de assepsia, os ateus recusassem dar as mãos aos crentes, de qualquer credo, que sobrepusessem o espírito da paz à paranoia do proselitismo. Basta, para desgraça, que a inversa se verifique.

Quando a sabedoria, a diversidade cultural e a miscigenação aproximam os povos, aumenta no seio das diversas religiões, o pavor da perda do poder, o horror à extinção, a volúpia da hegemonia e a obsessão totalitária da verdade única.

O clero tem reflexos tribais, que urge conter com a laicidade, e tendências prosélitas que a separação da Igreja e do Estado atenuam. A tendência totalitária, que a sociedade civil deve refrear, precisa de uma vacina que permita a vitória da paz, da liberdade e do livre-pensamento. A laicidade é essa vacina e interessa a ateus, crentes e agnósticos.

A liberdade religiosa, reconhecida pela primeira vez, pela Igreja católica, no concílio Vaticano II, foi vista com azedume por João Paulo II e Bento XVI, mas a reafirmação recente, explícita e veemente, pelo Papa Francisco, dá à sua Igreja autoridade moral.

ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana

sexta-feira, abril 17, 2015

Lampedusa, o sonho incerto de um trágico pesadelo

Lampedusa foi o paraíso do arquipélago das Ilhas Pelágias onde 5 mil habitantes e 20 km quadrados recebem turistas, ali, a meio caminho do curto espaço entre a Tunísia e a Sicília, com águas cálidas do Mediterrâneo a percorrer-lhe as praias e o sol a dourar os corpos de veraneantes privilegiados.

Hoje, com monótona regularidade, é a linha do horizonte onde se fixam pela última vez os olhos de milhares de náufragos, antes de os tragar a água do mar. Viajam em frágeis embarcações que os agiotas abandonam, depois de os espoliarem dos últimos pertences, para aguardarem desidratados e famélicos o milagre de um resgate pela guarda costeira italiana. Quase sempre as crianças acompanham no abraço das mães o mergulho mortal.

O Canal da Sicília é o sarcófago onde repousam restos das embarcações que arrastam no mergulho letal viajantes sem nome e sem pátria, com pulmões cheios de sal e água, sem direito à vida.

Vêm de países destruídos pela guerra, expulsos pela fome, o medo e o ódio tribal. Não sabem para onde vêm nem por onde andaram. Trazem apenas o sonho de não morrerem, com crianças que querem salvar, sem outro horizonte que não seja a terra firme onde um copo de água e um naco de pão lhes prolonguem a esperança.

Lampedusa é o sonho dos que nasceram no continente errado, à mercê de infames que a avidez do mando tornou algozes, joguetes de interesses geoestratégicos e da banalização da apatia e da morte.

E nós, tolhidos pelo medo, aturdidos com a incerteza do nosso futuro, somos incapazes de um gesto fraterno, esquecemos quem morre sem ser ouvido, com gritos perdidos nas ondas, gente sem lágrimas, raiva e força para se manter à tona do mar que os devora.

Maldito mundo!

quinta-feira, abril 16, 2015

O Governo prepara um crime hediondo

O Governo encontrou na marionete, que dá a cara pela agenda ideológica, o mensageiro das más notícias e assumido carrasco das vítimas desta maioria e da conivência do PR.

Passos Coelho anunciou a descida da Taxa Social Única (TSU), rastilho que fez levantar os portugueses contra o Governo e que, em setembro de 2012, o obrigou a recuar, com Paulo Portas, após o fracasso, a afirmar que não aceitaria que o ónus da redução recaísse nos trabalhadores.

Então, transferiam-se os encargos das empresas para os trabalhadores, agora reduzem-se para as empresas e ninguém terá de os suportar, só a Segurança Social (SS) é espoliada.

O  crime é disfarçado. A redução da TSU não implica a subida das contribuições para a SS, pelos trabalhadores, e Portas benze o crime encoberto.

Eles são feios, porcos e maus mas têm quem lhes ensine o disfarce. Segundo o PSD, a quebra de receitas da SS é compensada pela criação de emprego e, logo, de aumento do montante oriundo dos descontos por parte dos trabalhadores.

Ninguém acredita, mas é preciso evitar a revolta de um povo que o sofrimento bloqueia e o medo paralisa. Está em curso o processo de falência da Segurança Social enquanto prossegue a cegueira ideológica e a insensibilidade social do bando que quer entregar os reformados, nos anos que ainda lhes restam, à inclemência do acaso.

E não há um sobressalto cívico que transfira o terror para quem o fomenta?

Todos somos ateus

Não há a mais leve suspeita ou o menor indício de que Deus exista, nem qualquer sinal de vida da parte dele. No entanto, o ónus da prova cabe a quem afirma a sua existência e, sobretudo, a quem vive disso.

Cada religião considera falsas todas as outras e o deus de cada uma delas, afirmação em que certamente todas têm razão. Os ateus só consideram falsa uma religião mais e mais um deus, o que, no fundo, faz de todos ateus. E não é no sentido grego, em que ateu era o que acreditava nos deuses de uma cidade diferente, é no sentido comum da negação de Deus [com maiúscula para o deus abraâmico] ou de qualquer outro.

Todos somos hoje ateus em relação a Zeus, Osíris ou ao Boi Ápis, como amanhã outros serão em relação a Vishnu, Shiva e Brahma ou ao Pai, Filho e Espírito Santo da trindade cristã. Os deuses de hoje serão os mitos do futuro. Outros serão criados, por necessidade psicológica, para servirem de explicação, por defeito, a todas as dúvidas, e de lenitivo a todos os medos.

A morte, a angústia que desperta, o fim biológico de todos os seres vivos, é o maior dos medos. Deus é o mito bebido no berço, a esperança de outra vida para além da morte, a boia dos náufragos que se habituaram a acreditar desde crianças e se conformaram com a pueril explicação da catequese e se intimidaram com a dúvida. Os constrangimentos sociais ou/e a repressão violenta ao livre-pensamento tem perpetuado mitos milenares.

A crença, em si, não é um perigo nem ameaça, perigoso é o proselitismo, essa demência de quem não se contenta em ter um deus para si e exige que os outros também o adotem e o adorem. A vontade evangelizadora transforma as religiões em detonadoras do ódio e a competição entre elas em rastilho da violência.

A fé, vivida por cada um, é inócua; transformada em veículo coletivo de conquista ou aglutinação de povos, torna-se um instrumento de violência. É por isso que os Estados devem ser neutros, em matéria religiosa, para poderem garantir a liberdade de todos.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, abril 15, 2015

O PR e a obsessão na aniquilação do PS


O Público anuncia hoje que Cavaco Silva, no discurso do 25 de Abril, vai insistir num acordo PSD/PS, nem sequer PS/PSD, o que certamente fará como PR dos portugueses que ainda o suportam e no derradeiro recado do partido de que é delegado e refém.

O mais parcial, inculto e inepto PR da democracia desconhece ter sido o mais obstinado adversário da esquerda, em geral, e do PS, em Particular? Quem recusa, indiferente aos riscos, antecipar dois meses as eleições legislativas e insiste no acordo entre o pior PM, apoiado pela pior maioria, sob os seus auspícios, não é a consistência governativa que procura, é a prévia atribuição de culpas ao partido que ambiciona destruir.

O 25 de Abril, o dia sagrado do devocionário democrático, não merecia ser usado para a propaganda partidária e o combate contra a esquerda que o ama. Ao usá-lo, o PR revela a débil cultura democrática e a nostalgia do regime em que se sentia confortável.

Cavaco Silva carregará a agonia do atual Governo até à última privatização e só terá de suportar a afronta de cravos vermelhos, a vicejarem na AR, uma vez mais. O País é que não terá de suportar mais Roteiros e a repetição tautológica dos apelos à capitulação do PS sob a designação de acordo.

Carta ao DN - Professor Anselmo Borges

Para o Diário de Notícias, com os meus cumprimentos.
leitores@dn.pt


Ó meu caro Professor Anselmo Borges!!!

Unidos na defesa da laicidade, há anos que o leio com enorme prazer e com a certeza de que um ateu deve escutar um crente douto e tolerante. Há, aliás, no DN, dois pregadores a que me avezei, o caro Professor Anselmo e o bem-aventurado João César das Neves (JCN) que, embora não pareça, não tomou ordens sacras.

Quanto a JCN, deixei de o ler. O devoto, desde a imposição da tiara ao papa Francisco, remeteu-se ao amargo silêncio sobre a fé, prodígio do papa que levou o devoto a trocar a defesa da sua Igreja pela do Governo. Mantém a tineta para o disparate, mas perdeu a graça pia, aquela graça que fazia rir a bandeiras despregadas, e, em economia, diz o que dizem os economistas de direita.

Agora foi o Professor Anselmo Borges que tropeçou. Receando o mimetismo de JCN, venho alertá-lo para o perigo de trazer à colação os ateus com o mesmo desacerto com que a sua Igreja meteu Pilatos no Credo.

No artigo de sábado, dia 11 de abril, para provar que ninguém gosta de ouvir “a verdade nua e crua” [título do artigo], deu dois exemplos, um dos quais com um hipotético ateu. Passo a citar o segundo exemplo, «Vamos supor que, num funeral, o padre se ergue a dizer: “Meus irmãos, levamos hoje a sepultar um ateu crasso, materialista, que fugiu ao fisco, matou, e todos, lá no íntimo, consideram que era tão-só um crápula. Graças a Deus, estamos livres dele, vai hoje a sepultar”». Também era crápula “graças a Deus”?

Não nego que um ateu, à semelhança dos crentes, possa ser tudo o que disse, mas tenho a certeza de que, na defunção, o ateu dispensa o padre. Aprecio a sua companhia, como sabe, mas jamais a aceitaria no funeral, a exercer o múnus, apesar da apatia dos defuntos quanto às exéquias fúnebres.

É improvável que um ateu se sujeite ao odor do incenso e à aspersão da água benta, cuja diferença da água vulgar não notou em vida. E não é justo apanhar, à falsa fé, um ateu em letárgica defunção para lhe encomendar a alma e cantar os responsos.

O seu exemplo, caro Professor, é do domínio freudiano, o gozo de enterrar um ateu, de o mimar com as rezas que consolam os familiares dos crentes, mas não pense na unção para quem considera placebo os sacramentos.

Cumprimenta-o com estima,

o

Carlos Esperança

terça-feira, abril 14, 2015

O PR e o PM deixam o sítio do Estado à beira do estado de sítio

Conquistar o poder é um direito e um dever da luta democrática mas a forma como esta maioria e este Governo saltaram para o pote tornou-se um caso de estudo e de vergonha. O discurso de posse deste PR foi a metáfora deste Governo e desta maioria, a vingança de quem ganha sem merecer e o rancor de quem os caprichos da sorte levaram ao poder.

A terminarem um ciclo catastrófico de regabofe ideológico, numa orgia de propaganda em que o PR e o PM parecem Dupont e Dupond, não compreendem como conseguiram escorraçar tantos jovens, lançar no desemprego 14%  da população ativa e milhões de portugueses na miséria, reduzir a riqueza nacional a níveis de 2001 e aumentar 30% a dívida pública, com a febre das privatizações a fazerem de Portugal um laboratório.

Falam das atuais taxas de juro como se o mérito tardio do BCE e de Draghi fosse deles, apesar de a dívida pública continuar a ser considerada lixo pelas agências terroristas de rating que os ajudaram no assalto ao poder e, logo a seguir, reduziram continuamente as notações com as consequentes subidas de juros.

Não se pode levar a mal o mal que este Governo e este PR fizeram a Portugal. Cada um só dá o que pode e sabe, e eles não sabem nem podem dar mais. Apenas deviam receber menos.

Não podendo fazer melhor, porque não estavam preparados, aprontaram uma gigantesca máquina de propaganda a que não faltam cúmplices, idiotas úteis, ressentidos de vários quadrantes e psicopatas desejosos de consideração pessoal.

É essa corja imensa que teremos de enfrentar no tempo que falta para nos vermos livres deste PR, deste PM e desta maioria, sem o mais leve indício de que um governo digno e um PR capaz os substituam sem uma maioria coerente que inverta tão funesta herança.

Há 5 horas, na Faculdade de Economia de Coimbra, Eugénio Rosa disse que a dívida de Portugal, pública, privada e das empresas, ascende a 684 mil milhões de euros, cerca de 3,9 vezes o PIB nacional. Pelo menos, deviam informar os portugueses.

segunda-feira, abril 13, 2015

A FRASE

«Porque legitimar um ditador cruel de um regime repressivo?»
(Jeb Bush, ex-governador da Flórida e provável candidato à nomeação republicana para a candidatura presidencial).

Nota: O irmão de G. W. Bush referia-se a Raúl Castro, de Cuba, e não ao Rei Salman, o líder da Arábia Saudita.

O PR e as eleições legislativas

Só quem acredita na maioria absoluta do PS ou do PSD, com ou sem coligações, onde o novo PDR pode ser a surpresa que todos calam, não está preocupado com a aprovação do inevitável Orçamento Retificativo, sem o qual este Governo nunca passou, e do OE-2016.

Cavaco Silva, cúmplice deste Governo e desta maioria, será o único responsável por uma turbulência que pode agravar de forma insustentável a situação política, económica e financeira do País, deixando-o sem OE aprovado, a estrebuchar em duodécimos.

Não sei se, na sua dependência desta maioria e deste Governo, sonha com a vitória deste PSD/CDS para acusar a oposição, inevitavelmente maioritária, de não deixar governar quem mostrou total inépcia ao longo do infeliz mandato e jamais somará 116 deputados.

A central de intoxicação teria então tempo para substituir o inenarrável Passos Coelho e de lançar as culpas do desastre para as oposições, como o salazarismo fazia com o PCP. O PR só quer deixar quem lhe limpe o passado e lhe dê tranquilidade no futuro.

O frenesim presidencial foi a casca de banana que os estrategas da direita afinaram para os inocentes úteis e a cumplicidade de aliados do Governo, com as eleições legislativas a perderem a excecional relevância própria para que os alquimistas da experiência ultraliberal passem pelos pingos da chuva  no primeiro escrutínio do ciclo eleitoral.

O PR, que foi membro suplente deste Governo, levará até ao fim o desastre que lhe foi destinado. O país está depois.

domingo, abril 12, 2015

Ucrânia: da purga imperfeita à ditadura perfeita…

Batalhão Azov

A Ucrânia decretou uma purga de símbolos e de uma assentada proibiu as insígnias comunistas (foice e martelo) e as nazis (cruz suástica) link.

Aparentemente, esta será mais uma provocação a Moscovo ou então uma intrépida vontade de agradar à União Europeia. Ambos os objectivos estão deslocados das pretensões ucranianas e não servem os desígnios pretendidos.
Por um lado, a Rússia não é, nem de perto nem de longe, um regime comunista, ou aparentado, pelo que o gesto decidido no Parlamento da Ucrânia só poderá ser um insulto à memória histórica do seu povo. Por mais que os actuais dirigentes se esforcem, ou tentem ‘apagar’, a Ucrânia, de facto, integrou a URSS de 1922 a 1991.

Quanto ao símbolo nazi existe também uma importante (mas diferente) memória marcada pelo belicismo. Trata-se da II Guerra Mundial e da ocupação pelas forças militares de Hitler do território ucraniano de 1941 até 1943 e poucos ucranianos ignoram, p. exº., o massacre de Babi Yar.

Uma coisa é uma integração política no decurso de um processo revolucionário, outra uma ocupação militar como consequência de uma guerra.

Todavia, enquanto o parlamento ucraniano procede ao expurgar de símbolos soviéticos e nazis misturando a história da federação das repúblicas soviéticas com a catastrófica ocupação nazi na última Guerra Mundial, o actual regime de Kiev, na defensiva contra o avanço dos ucranianos separatistas [apoiados por Moscovo], socorre-se do 'popular' Batalhão Azov para defender a estratégica cidade de Mariupol junto ao Mar de Azov e situada na rota de passagem (terrestre) da área leste da Ucrânia para a Crimeia.
Para quem tenha ilusões, ou esteja a ser tentado a entrar na ‘conversa’ narrada por Kiev, é melhor olhar para o estandarte deste ‘heróico’ batalhão (na foto) que defende a Ucrânia ‘libertada’…

Estamos perante um (estilizado) percurso da extrema-Direita no Leste europeu sob a forma de uma ‘patriótica libertação’ contra o domínio russo que, apesar de uma pesada e ancestral carga histórica na região, é apresentado como 'neo-imperialista'.
A UE terá, levianamente embarcado no enredo, construído em Kiev à volta de interesses ocultos, colocando levianamente o Velho Continente em pé de guerra. 

A purga em curso, aparentemente imperfeita, não deverá ficar por aqui. Tradicionalmente (para a extrema-Direita) segue-se a proibição dos partidos políticos (já está em curso a do Partido Comunista Ucraniano link) e depois toda uma cascata de medidas repressivas que conduzirão, a breve trecho, a Ucrânia a uma ditadura. Esta última, sim, perfeita!

Associação Ateísta Portuguesa (AAP) - Carta ao Núncio Apostólico

Excelentíssimo Senhor
Núncio Apostólico Rino Passigato
Embaixador do Vaticano
nunciaturapt@netcabo.pt
Avenida Luís Bívar 18
Lisboa 1069-147 LISBOA


Excelência,

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) segue com perplexidade a aparente recusa de acreditação do novo embaixador de França pelas autoridades do Vaticano.

Sendo Laurent Stefanini um prestigiado diplomata, cuja acreditação o Governo Francês continua a aguardar, teme-se que a Cúria Romana procure um incidente diplomático devido à homossexualidade  do embaixador nomeado.

A verdade é que, após a nomeação pelo governo francês, em 5 de Janeiro, do seu novo embaixador no Vaticano, na Villa Bonaparte – residência oficial dos embaixadores franceses no Vaticano –, vivem-se momentos de incerteza e desconforto sob o odor de uma intolerável homofobia.

Lê-se no preâmbulo da D.U.D.H. que «As palavras de abertura da Declaração Universal dos Direitos dos Humanos são inequívocas: “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.” Entretanto, atitudes homofóbicas profundamente enraizadas, muitas vezes combinadas com uma falta de proteção jurídica adequada contra a discriminação em razão de orientação sexual e identidade de género, expõem muitas pessoas LGBT, de todas as idades e em todas as regiões do mundo, a violações evidentes de seus direitos humanos.»

A AAP, na defesa dos Direitos Humanos, pede a V. Ex.ª para transmitir ao Chefe de Estado do Vaticano, de que V. Ex.ª é embaixador em Portugal, a nossa inquietação pela demora da acreditação do supracitado embaixador e, sobretudo, pela legítima dúvida de que tal demora se deva a uma intolerável postura homofóbica.

Excelência, a AAP espera do atual Papa uma decisão de não discriminação de quem quer que seja em função da sua orientação sexual e um procedimento de acordo com o adotado pelos Estados de países democráticos.

Aguardando a resolução deste problema de acordo com os Direitos Humanos,

Apresentamos a V. Ex.ª os nossos cumprimentos.

Odivelas, 11 de abril de 2015

Direção da Associação Ateísta Portuguesa

Curiosidades


O que pensava a referência académica, ética e política desta gente:

sábado, abril 11, 2015

A renúncia de Guterres e uma preliminar reflexão sobre as presidenciais…

António Guterres em entrevista dada recentemente demarcou-se das próximas eleições presidenciais link. Decidiu seguir outro caminho o que é perfeitamente legítimo. E, por outro lado, inteligível. 
O ‘pântano político’ (a que condescendeu chamar de ‘democrático’) que denunciou (em Dezembro de 2001) e o fez abandonar o poder permanece incólume ou até está mais cavado. Esta é uma interpretação possível e justificativa da sua indisponibilidade em concorrer ao acto eleitoral do início do próximo ano.
E um exemplo acabado do tal pântano são as hipócritas declarações de 2 putativos candidatos da Direita: Pedro Santana Lopes e Marcelo Rebelo de Sousa. Um ‘vê com pena’ a retirada de Guterres link e o outro contabiliza, desde já, as perdas da Esquerda e cavalga o momento (político e mediático) para valorizar as legislativas de Set/Out afirmando “quem governa é o Governo…link, numa de que para ocupar o cargo de Presidente da República “bacalhau basta!”.
É esta herança que Cavaco Silva nos deixa.

Se a libertação do País dos problemas causados pela crise financeira, económica e social dependesse da dose de falsidade, impostura e jacobice tínhamos o problema resolvido. E ficaríamos convencidos que a Direita – se acaso Guterres concorresse – iria às presidenciais numa espécie de 'jogo a feijões'.

A catadupa de candidatos a candidatos para as próximas eleições presidenciais (Henrique Neto, Sampaio da Nóvoa, António Vitorino, Marinho Pinto, Paulo Morais, Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa, Rui Rio, etc…) releva, com nitidez, as profundas fracturas que este Governo criou na sociedade portuguesa onde ninguém se revê em alguém e afastaram figuras consensuais (como seria em certa medida o caso de Guterres).

Este cenário de pulverização das opções presidenciais para 2016 conduzirá, inevitavelmente, a um duelo, na 2º. volta, disputado - com toda a probabilidade - entre a Esquerda e a Direita.  Será essa a estratégia (condicionada!) a longo prazo que os aparelhos partidários estarão a preparar. 
É cedo para tecer cenários precisos mas a eventualidade de uma 2ª. volta fará com que haja mais tempo para decicir e escolher. 
Coisa que o actual presidente pretendeu evitar ao impor um calendário pessoal, por ventura partidário, ao País (ao não aceitar a antecipação das legislativas), onde as Legislativas e Presidenciais surgem praticamente em sobreposição.

Bichos (parábola)…

Quando fazemos o ponto da situação da visita do Sr. Valls a Portugal concluímos que bem podia ser postergada para a calendas gregas. 

Não tendo adiantado nada de substantivo no campo das relações bilaterais (económicas, sociais, culturais ou outras) serviu, no entanto, para expandir opiniões políticas.
O primeiro-ministro francês, num regime nitidamente presidencialista, começa por não ter uma importante projecção política doméstica (Le Monde de hoje não faz a mais leve referência a esta visita) e, por maioria de razão, os seus 'palpites', fora de portas, não influenciam decisivamente a opinião pública.

A braços com uma perigosa e profunda crise partidária, Manuel Valls, deveria gerir com mais parcimónia as suas intervenções no estrangeiro.  
Compreende-se que a ala direita da social-democracia (o tal ‘socialismo liberal’) capitaneada em França, de modo claro e decidido, pelo primeiro-ministro, muito embora com resultados controversos, tenha muitos pontos de contacto com o Centro-Direita que (ainda) governa por cá. 

Valls veio a Portugal buscar justificações para as suas actuais políticas que não convencem a grande maioria dos franceses. 
E a grande justificação para esta visita é experimentar conviver com exemplos práticos de ‘sucesso’ das políticas de austeridade. 
Escolheu um País em que as relações com os mercados financeiros melhoraram à custa de factores vários (de salientar as posturas do BCE desde 2013 ao ‘quantitavive easing’ de 2015) mas onde a situação social alberga aspectos absolutamente dramáticos (entre eles o risco de pobreza e o desemprego) e a económica (a taxa de crescimento) manifesta evidentes sinais de prolongada anemia. Não é de crer que os cidadãos franceses engulam estes pretensos ‘exitos’ e queiram, de alguma forma, adoptá-los para consumo interno.

Para Passos Coelho tratava-se de uma visita perfeitamente enquadrável na sua campanha eleitoral. Valls há muito que mostra incontroláveis apetites pelas políticas de austeridade e a suas reacções (e propósitos) eram absolutamente previsíveis. Resta, portanto, à Direita explorar (eleitoralmente) as declarações proferidas em Lisboa. De resto não existe muito mais história.

Valls encontrou-se, à margem da visita, com António Costa num rápido pequeno-almoço. No Portugal rural seria comum dizer-se o encontro decorreu durante um “mata-bicho”. Resta saber quem, na parábola, é “bicho”…  e quem o vai devorar!

A coerência cavaquista e as eleições legislativas

O pior Governo e a pior maioria do regime democrático não são apenas o epifenómeno que levou Passos Coelho a PM, através das redes sociais e de falsos perfis criados pela central de intoxicação da direita, chefiada por Miguel Relvas e Marco António. São os resíduos tóxicos do sistema democrático.

Este Governo e esta maioria foram ungidos pelo pior PR democraticamente eleito, com rudimentar cultura democrática e provado desamor à Constituição,  disfarçado, de motu próprio ou por razões ocultas, em membro suplente do governo que assiste.

Em julho de 2013, a troco da vassalagem do PS ao Governo, dispunha-se a antecipar as eleições legislativas para o verão de 2014. Tendo o PS recusado a indecorosa cedência, vinga-se agora no álibi do prazo constitucional para deixar o País, muito provavelmente, sem o OE-2016 aprovado. Não terá um economista que o avise dos riscos da situação e do desastre a cuja dimensão o seu Governo não é alheio e de que o PR será responsável?

Como é que um Orçamento de Estado, a aprovar até 15 de outubro, pode ser preparado por um Governo saído de eleições que marcará «entre 14 de setembro e 14 de outubro», como consta da CRP e já ameaçou cumprir, quando há menos de dois anos se propunha antecipá-las cerca de 15 meses? Por que motivo nega agora a antecipação dos meses que então acrescentava a 1 ano, por causa do OE anual?

Não ocorre ao pior PR desta República que, das eleições, pode não resultar uma maioria que permita formar Governo? Ou está convencido de que o seu Governo lhe sobreviverá com 116 deputados para o PSD/CDS?

Basta ter pela Pátria o amor que nutre pelo seu património para pôr os interesses do País acima da derradeira afirmação de poder pessoal, numa vertigem suicidária da dignidade própria e dos interesses do país.

sexta-feira, abril 10, 2015

AS FRASES e a água:

«O Governo esbulha as câmaras que geriram bem os seus sistemas, integrando o seu património na nova empresa, onde são também integrados os sistemas deficitários em milhões de euros».
(Marcos Perestrello, líder do PS-Lisboa, sobre reforma do Governo no setor das águas)

«A subida prevista para os próximos cinco anos [nas tarifas] é de mais de 14%  no caso das águas residuais e de 24% na água para consumo. O que o Governo pretende é abrir o caminho para a privatização [do setor].
(Bernardino Soares, presidente da Câmara de Loures, sobre a reforma do Governo)

Fonte: DN, hoje, pág. 8


A praxis como implacável critério da verdade…

Villa Bonaparte
A verdade não é uma questão exclusivamente adstrita à filosofia cartesiana mas, na realidade, o comportamento do Vaticano levanta metódicas dúvidas ao Mundo sobre este tema.
 
A aparente recusa de acreditação do novo embaixador de França pelas autoridades do Vaticano, cuja responsabilidade absoluta recai sobre o actual papa (Giorgio de registo e Francisco de alcunha), chamusca a ‘nova’ imagem da ICAR que vem sendo laboriosamente ‘construída’.

Se for verdade que a causa remota deste incidente diplomático é a homosexualidade do nomeado, Laurent Stefanini link, será legítimo suspeitar que muito dos conteúdos das desabridas prédicas de índole popular, ousadas e inovadoras que têm marcado mediaticamente este pontificado, não passam de um penoso regresso à imagem antoniana da ‘pregação aos peixes’.

A verdade é que após a nomeação pelo governo francês, em 5 de Janeiro, do seu novo embaixador no Vaticano (a expressão ‘Santa Sé’ parece diplomaticamente desadequada), na Villa Bonaparte – residencia oficial dos embaixadores franceses no Vaticano -, vivem-se momentos de incerteza e desconforto sob o odor de uma intolerável homofobia.

Tudo isto demonstra que o Vaticano não faz reformas. Prefere os paulatinos ‘aggiorgamentos’. Significa, também, que prefere viver o dia-a-dia tentando iludir verdades arreigadas (travestidas de 'sagradas') e assim passar incólume entre os pingos da chuva…

A Europa não pode virar-se para Meca nem pôr-se de joelhos


A suspensão das emissões da TV5 Monde, por terroristas informáticos, não é apenas um crime contra uma televisão, é um crime contra a liberdade de informação. Anteontem, contra a TV5, há tempos, contra o Charlie Hebdo, com banho de sangue, os crimes sectários do fascismo islâmico incitam à repressão e convidam ao martírio que garante aos autores uma assoalhada no Paraíso, 72 virgens e rios de mel doce. No Quénia ou na Nigéria, no Iémen ou em França, onde quer que seja, a Al-Qaeda, Boko Haram ou Estado Islâmico, são heterónimos das metástases do mesmo cancro – O Corão.

O obscurantismo, a demência pia e o desespero de quem encontra na fé o lenitivo para o falhanço da sua civilização, vai criando o caldo de cultura para a repressão que pretende e para a tentativa de destruição do mundo livre. A Europa não pode cair na armadilha de crentes desvairados que seguem o manual terrorista de um beduíno analfabeto e amoral, como Ataturk definiu Maomé. Não pode replicar fora das normas do Estado de Direito, mas pode, e deve, submeter às normas desse mesmo Estado todos os cidadãos.

Admite-se que as madraças e mesquitas sejam interditas a quem recusa a liberdade e a democracia. Há o dever de reciprocidade dos países islâmicos, o dever de aceitarem, nos países onde são maioritários, os crentes das outras religiões e respetivos locais de culto, bem como os que não professam qualquer religião ou as desprezam.  

Os facínoras difundiram ainda no Facebook cartões de identidade e dados de supostos familiares de militares que participam nas operações contra o Daesh, num texto com a mensagem: «Soldados da França, fiquem longe do Estado Islâmico! Vocês têm a oportunidade de salvarem as vossas famílias, aproveitem-na» e acrescentaram que «O Cibercalifado continua a sua ciberjihad contra os inimigos do Estado Islâmico».

Independentemente do que cada um de nós pensa da política externa francesa, europeia ou americana, o repúdio pela barbárie e pela chantagem, que se repetem com monótona regularidade, deve ser manifestado de forma a conter a demência prosélita do Islão. Não é islamofobia, é o medo real de quem se deixa envenenar pelos versículos do Corão, um plágio medíocre do cristianismo com laivos de judaísmo, que urge conter.

A democracia está primeiro.

Estatísticas e manipulação governamental

Como é que este Governo, esta maioria e o seu influente, digo, afluente, PR justificam que haja mais pedidos de emprego do que desempregados «oficiais»?


quinta-feira, abril 09, 2015

TV5 Monde…

Ocorreu, ontem, mais um ataque do Estado Islâmico a um orgão de informação francês (TV5) link
O facto de não ter causado vítimas humanas não diminui o alcance, nem atenua a perigosidade deste novo acto de terrorismo. Na verdade, ao atingir meios que materialmente suportam a liberdade de expressão este ataque é um manifesto e violento atropelo aos direitos dos cidadãos, às suas liberdades e reveste-se de um enorme um significado político.

A ‘pressão’ do Estado Islâmico sobre a civilização ‘ocidental’ que é a base das relações entre os europeus tornou-se insuportável. Existe cada vez mais a sensação que este terrífico problema não pode ser deixado ao cuidado do massacrado povo curdo, nem consegue resolver-se com ataques aéreos ‘cirúrgicos’ planeados à distância nos gabinetes do Pentágono.

Todos estes gravíssimos incidentes expõem a enorme incapacidade política do Mundo em lidar com problemas ‘globais’, nomeadamente, pela inoperacionalidade da ONU e do seu Conselho de Segurança. 
Os alicerces civilizacionais e os esforços em prol da Paz desenvolvidos e consolidados no pós II Grande Guerra estão a ruir à frente dos nossos olhos perante a impassibilidade dos governos que inscrevem nos seus programas políticos o assegurar de um vasto conjunto de liberdades que remontam à Revolução Francesa, isto é, ao País que volta a ser vitima. 
Se estes actos não induzirem modificações qualitativas nas reacções do Mundo, em breve, teremos os nossos quintais a arder e o incêndio ateado e alimentado pelo bárbaro jihadismo tornar-se-à incontrolável.

Uma coisa são os cada vez mais banais hackers outra é um ciberataque deste género, na verdade levado a cabo por crackers.

É preciso não vulgarizar a violência (em todas as suas vertentes) e tornou-se urgente não contemporizar com a barbárie.

Natureza morta, de autor desconhecido


S.N. S. – Os hospitais, as dívidas e as pessoas

Este Governo, esta maioria e este PR, eles próprios a necessitarem de cuidados especiais de saúde, certos de que não lhes faltarão, apostam na destruição do Serviço Nacional de Saúde. É a bandeira ideológica dos que julgam que o SNS, universal e tendencialmente gratuito, não é um direito mas um bem qualquer, destinado a quem possa pagá-lo.

A mais obscena das audácias e a mais vil está na forja de quem assaltou o poder e detém os meios de propaganda. «Os hospitais públicos com dívidas em atraso a fornecedores podem ser impedidos de pagar salários. Esta sanção foi criada pela nova versão da Lei dos Compromissos, publicada a 17 de março em Diário da República, e que prevê que os pagamentos ao pessoal sejam suspensos se não houver dinheiro para pagar despesas assumidas.» – escreve a jornalista Ana Maia (DN, domingo, 5-04-2015, pág. 10).

Este Governo exonerou a ética e a legalidade da sua atuação com a cumplicidade do seu PR. A CRP é, tal como o eleitorado, um obstáculo a contornar. Tudo farão para a rever, criando condições para a neutralizar e, se possível, rever. Neste momento não é possível cumprirem a ameaça de não pagarem aos trabalhadores hospitalares.

O ministro da Saúde goza a aura da competência e aspira a que os hospitais endividados sejam proibidos de pagar aos funcionários. Desafia a Constituição e entra na chantagem para destruir o SNS dividindo-o entre privados e Misericórdias. Tamanha competência é um misto de propaganda da direita liberal e da unção de uma qualquer prelatura, ambas interessadas no negócio que brota dos destroços a que querem reduzir a mais simbólica conquista de Abril e aquela que mais portugueses beneficiou.

O Dr. Paulo Macedo pode babar-se de gozo com o cilício mas tem de ser impedido de o acomodar ao país. Quem, ao serviço do Estado laico, mandou celebrar uma missa para a direção-geral dos Assuntos Fiscais, é capaz de restituir à Providência divina o precoce chamamento das almas, mas não se lhe pode confiar o destino da saúde dos corpos.

Restam 113 hospitais públicos quando os privados já somam 107. A agenda ultraliberal está a ser cumprida numa odiosa afronta à saúde dos portugueses. A destruição lenta e obstinada do S.N.S. é um crime silencioso que os portugueses não mereciam.

Portugal não é sacristia nem o Governo um grupo de paquetes ao serviço dos interesses  privados. É preciso salvar o que ainda for possível, com outro Governo, outra maioria e outro PR, e retirar aos aparelhos político-administrativos, reduzindo os seus efetivos e sinecuras, os recursos para reparar os rombos do S.N.S. e recuperar a sua eficácia.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, abril 08, 2015

Debate civilizado

Escola Prof. Doutor Ferrer Correia – Debate com o padre Nuno Santos

Referida a impossibilidade teórica de o ateísmo ser uma crença, tal como não jogar futebol não ser desporto, o debate foi um exemplo de moderação e respeito mútuo, com o padre Nuno a manifestar a sua crença e eu, que não distingo a água benta da outra, a dizer que a descrença não depende de um ato da vontade.

É fácil num ambiente circunscrito concordar em objetivos comuns, com um único ponto de discórdia, o clérigo, doutorando em Teologia, a afirmar que se trata de uma ciência e o ateu a negar tal qualidade por lhe faltar o método e o objeto.

Foram duas horas cordiais, sem azedume ou ofensas, com a minguada plateia a aceitar opiniões divergentes. Sobrou em urbanidade o que faltou em picardia. O padre aceitou o facto de as religiões serem, ou terem sido, detonadoras de violências, tal como o ateu se referiu a violências de regimes ateus por razões políticas.

Ambos concordámos que a laicidade é um fator de liberdade, a única possibilidade de garantir a liberdade religiosa ou, mesmo, antirreligiosa.

Cumprimos o dever cívico de manifestar as convicções sem pretender conversões, com a benevolente moderação da Prof. Dr.ª Cristina Vieira.

A falar é que a gente se entende...


terça-feira, abril 07, 2015

O fundamentalismo anda aí...


Os crentes e a tolerância

O aparecimento de crentes tolerantes vai-se tornando uma constante a que urge estar atento. É um fenómeno das sociedades democráticas onde a secularização exerce a sua pedagogia. A religião não faz ninguém bom, mas não estraga todos por igual. Os livros sagrados refletem a violência da época e a idiossincrasia de quem os escreveu, mas são poucos os crentes que os leem e menos os que os levam a sério.

A verdade revelada dos quatro livros escolhidos no consulado de Constantino teve mais a ver com os interesses do Império Romano do que com as necessidades espirituais do Imperador. Esses livros, evangelhos, refletiam interesses políticos que se tornaram determinantes para a organização política da ICAR e a conquista do poder temporal que logrou. Outro tanto aconteceu com a Tora, primeiro, e o Alcorão, depois.

Curiosamente, ainda hoje a ICAR vai buscar aos evangelhos que ela própria declarou apócrifos factos e personagens a que atribui valor canónico. É o caso de Ana e Joaquim, acoimados de santos e distribuídos a Jesus, como avós maternos cuja vida e respetiva existência os «verdadeiros» omitem.

Excetuando épocas de crise em que o sentido literal da Tora, Bíblia e Alcorão são objeto de um proselitismo infrene, a tendência vai no sentido da relativização dos textos e o cumprimento da vontade de Deus aligeira-se como se o próprio, suspeito de Alzheimer, começasse a merecer desconfiança.

Com crentes tolerantes e civilizados é possível alargar os espaços democráticos e levar o respeito pelos direitos humanos a regiões onde é desconhecido. Seria trágico que, por questões de assepsia, os ateus recusassem dar as mãos aos crentes de qualquer credo que sobreponham o espírito da paz à paranoia do proselitismo. Basta, para desgraça, que a inversa se verifique.

Infelizmente, à medida que a instrução, a diversidade cultural, o pluralismo e a miscigenação vão aproximando povos e criando laços fraternais, recrudesce no seio do clero das diversas religiões o pânico pela perda do poder, o horror à extinção, a volúpia da supremacia e a obsessão pelo absolutismo e a verdade única.

O clero tem reflexos tribais que urge conter com a difusão e aprofundamento da laicidade e tendências prosélitas que a separação da Igreja e do Estado minoram. A vocação totalitária, que a sociedade civil deve refrear, precisa de uma vacina que permita a vitória da paz, da liberdade e do livre-pensamento. A vacina existe – chama-se laicidade –, e interessa a ateus, crentes e agnósticos.

A liberdade religiosa, reconhecida pela primeira vez, pela Igreja católica, no concílio Vaticano II, foi vista com azedume por João Paulo II e Bento XVI. Reafirmada de forma explícita e indiscutível pelo Papa Francisco, dá à sua Igreja autoridade moral.

segunda-feira, abril 06, 2015

Do Pogrom de Lisboa à violência islâmica de hoje

Abril era mês e 19 dia, de um domingo do ano 1506 da era vulgar. Reinava el- rei D. Manuel I e no convento de S. Domingos, em Lisboa, rezava-se com fervor pelo fim da seca, da fome e da peste. Um crente, embrutecido pela fé e, certamente, pelo clero,  viu no altar o rosto iluminado de Cristo, milagre que os devotos julgaram de bom augúrio.

Um cristão-novo, a quem a astenia da fé não estiolara a razão, tentou explicar o prodígio com o reflexo da luz mas, calado pela multidão, foi espancado até a morte. Em Portugal, nove anos depois da conversão forçada, os judeus ainda eram os suspeitos habituais da heresia que incitava a vingança divina, aplacada com a morte dos hereges, acusados de deicídio e de todos os males.

Com a corte em Abrantes, para fugir à peste, a populaça, instigada por dominicanos que prometiam a absolvição, a quem matasse hereges, fez a «Matança da Páscoa». Homens, mulheres e crianças foram chacinados e queimados em fogueiras improvisadas, junto ao largo de São Domingos. No alvoroço, o escudeiro do rei, João Rodrigues Mascarenhas, um cristão-novo, foi morto por engano por crentes exaltados, entre milhares de pessoas que Deus se encarregaria de descobrir quais eram judias.

A barbaridade de há meio milénio é uma nódoa indelével cujo enforcamento, por ordem do rei, dos frades beneditinos que incitaram ao crime, não apagou. A Inquisição viria depois para prolongar até à náusea a infâmia da demência cristã.

Hoje, depois do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa, o cristianismo comemora o mito da ressurreição pacificamente e em festa, enquanto a cegueira da fé e do Corão espalham o medo e a morte. No Iémen, a Cruz Vermelha Internacional pediu uma trégua de 24 horas para prestar cuidados de saúde a 1700 feridos que sobreviveram a 519 mortos. Numa universidade do Quénia, mais de 800 estudantes foram atacados por jihadistas da Al-Shabab que indagavam se eram cristãos ou muçulmanos. Mataram 148 que não sabiam ler em árabe os preceitos muçulmanos.  Na Nigéria, continuam os raptos e um ex-ditador islamita ganhou as eleições. Prometeu eliminar o terrorismo mas é adepto da ‘sharia’. Naturalmente. Os Estados norte serão submetidos à lei islâmica e o sul, cristão, ficará também dominado por um muçulmano democraticamente eleito.

Al-Qaeda, Boko Haram ou Estado Islâmico são metástases do mesmo cancro. Não se fala em matanças da Páscoa porque os facínoras não têm Páscoa nem fazem tréguas às matanças e infundem o terror e a violência de que são portadores lembrando os tempos mais sombrios do passado cristão das Cruzadas e da evangelização.


E nós, livres-pensadores, cristãos, ateus, ou crentes de qualquer outra religião menos violenta e implacável, esperamos que a ‘verdadeira interpretação’ do Corão, o manual terrorista, o torne humanista e defensor da laicidade.