terça-feira, junho 30, 2015

A União Europeia está à deriva

Passos Coelho e Cavaco estão na proa, à conversa, a divertir-se com os gregos.

segunda-feira, junho 29, 2015

Multiculturalismo

Multiculturalismo, sim. Humilhação da mulher, não. 

Por cada mulher que deseja a burca há centenas que são obrigadas. Também houve escravos que recusaram  a liberdade que a abolição da escravatura lhes concedeu!

Quo vadis, UE?

Não há qualquer união monetária duradoura sem união política e a UE foi incapaz de a concretizar, mobilizando os povos europeus que a integram.

Insistir no cumprimento da promessa de pagamento de dívidas que credores e devedores sabem não ser possível liquidar, é um ato de terrorismo financeiro destinado a alterar a vontade política dos povos submetidos à tirania da dívida. E que sentido faz assinar um compromisso impossível de honrar?

Ainda não terminaram as ondas de choque da falência do banco Lehman Brothers nem o risco sistémico do sistema financeiro mundial e já o caso grego ameaça tornar inúteis os paliativos que burocratas inventaram, repartindo sacrifícios por economias débeis e com mais dificuldade em resistirem à chantagem.

Penso que a convocação do referendo grego foi a única saída honesta para quem, sob a ameaça da guilhotina financeira, pergunta se quer morrer combatendo ou morrer sem luta. Não se percebe a alergia dos burocratas, sem qualquer legitimidade democrática, à consulta referendária.

A União Europeia prefere morrer com a Grécia a deixá-la viver. A sentença antecedeu as alegações do condenado.

domingo, junho 28, 2015

Grécia: até ao lavar dos cestos é vindima...

O drama grego e, concomitantemente, o futuro da UE, estão cada vez mais decifráveis e previsíveis. 
Não são bons os sinais que vêm de Bruxelas, como não será fácil o caminho a trilhar pelo povo grego, na sequência dos últimos acontecimentos.

Perante a situação criada – ao longo de 5 meses de negociações - à volta de o fecho do 2º. resgate da Grécia existe uma evidência (existem muitas outras!). Uma das primeiras ilações a tirar deste abrupto desfecho foi o Eurogrupo prosseguir, com olímpica fleuma e sem pestanejar, os trabalhos da parte da tarde (depois da retirada do ministro das Finanças grego da reunião), mostrando que tudo estava previamente arquitectado (para o esticar da corda). 
Os ministros dos países europeus que integram o Eurogrupo, para prosseguirem os seus planos, não necessitaram de consultar os respectivos governos. Significativo.

O facto de ter ocorrido na Grécia uma mudança de Governo, que incorpora uma substancial alteração política, motivou os parceiros europeus para o confronto que, ontem, acabou da pior maneira possível link. As condições inerentes a este resgate ainda em curso foram negociadas pelo Governo anterior (presidido por Antónis Samarás, da Nova Democracia) e, segundo era suposto, foram previamente definidas pelo que é difícil de perceber as justificações para um tardio 'endurecimento''. 
Na recta final do referido programa de assistência financeira resolveram os membros do Eurogrupo, do BCE e o FMI alterar as regras do jogo. Não se tratava de um novo resgate que de resto se mostra - face ao descalabro dos anteriores - ser imperativo. 
Tratava-se (tratou-se) de esconder o insucesso das sucessivas intervenções decorrentes da concertação entre a batuta europeia, o BCE e o FMI.

O novo Governo grego acossado pelo arsenal político ultra-conservador europeu ensaia um caminho de fuga às sucessivas armadilhas e resolve questionar do controlo burocrático de Bruxelas avançando para um referendo. A exemplo, aliás, do que já tinha sido tentado pelo governo do PASOK, dirigido por Georges Papandreau link, em funções na fase inicial da intervenção externa, face a um impasse negocial do mesmo tipo.

Nada no contexto europeu está resolvido, nem sanado, nem sequer dimensionado no seu âmbito e consequências. Pelo contrário, o recurso a um referendo tem para os burocratas europeus dois pecadilhos: 
1 - primeiro, trazer para o imbróglio, criado e alimentado nas reuniões do Eurogrupo e do Conselho Europeu, o recurso a uma solução referendária link (nunca desejada no seio oligarquia europeia); 
2- segundo, afrontar os arranjos no interior da UE que sustentam o princípio da ‘não alternativa’, da  ‘teoria de vacina’, da ‘austeridade redentora’, etc.

Caricata é. para terminar, a posição do Governo português. Um país brutalmente empobrecido e exponencialmente endividado no decurso de um ‘ajustamento’, imposto pelos credores, julga-se agora mais ‘resiliente’ (termo da afeição do mundo financeiro) ao assalto e especulação dos mercados. A justificação é: Porque temos os cofres cheios (de dívidas!) link.
Vamos, então, verificar como será o rápido trânsito (alguns meses?) da fanfarronice da resiliência à mais dura e cega obediência. Supostamente, com 'língua de palmo'.

O fascismo islâmico

Os recentes atentados islâmicos, cada vez mais globais e selvagens, vêm aprofundar a necessidade de combater a lepra que corrói a paz e a civilização.

Não pode ser um monopólio da direita reacionária, xenófoba e populista o combate ao fascismo islâmico. É uma tarefa de islamitas, cristãos e budistas, como é uma obrigação de ateus, agnósticos, racionalistas e céticos, enfim, uma necessidade comum de crentes e livres-pensadores que não sacrificam valores do Iluminismo, os ideais da Revolução Francesa.


sábado, junho 27, 2015

Portugal e a dívida

As dívidas impagáveis não são exclusivas do Estado, empresas e famílias de Portugal. A falência do banco Lehman Brothers, quiçá com a cumplicidade do rival Salomon Sachs, paraíso dos seus mais destacados cúmplices, antecipou a crise financeira internacional e as ondas de choque que ainda não pararam.

Não se sabe se esta foi a última das crises cíclicas do capitalismo mas a previsão de Karl Marx revela-se certeira, ainda que a falência da teologia liberal não encontre a solução na marxista-leninista. Não se conhece, aliás, solução.

Não é preciso ser iniciado em ciências económicas e financeiras para ver que as dívidas se tornaram impagáveis. Bastam rudimentos de aritmética e, eventualmente, a máquina de calcular.

Vejamos o caso da dívida portuguesa que este PR, um especialista na matéria, e o PM, especialista em coisa nenhuma, garantem estar controlada, tal como o ‘especialista na matéria’ garantia que o BES tinha reservas para o pior cenário. Viu-se.

Quando da falência do Lehman Brothers, Portugal tinha uma dívida soberana moderada. Organismos internacionais, os mesmos que dois anos depois optariam pela austeridade, instigaram os governos a não se preocuparem com a dívida e a salvarem os empregos. Depois foi o que se viu. Este Governo chegou ao poder à boleia da desgraça nacional e a salivar de contentamento. Herdou a dívida incontrolável de 90% do PIB, arruinou o País e tem uma dívida «controlada» de 130%.

A dívida está, de facto, controlada, em Portugal e noutros países, com créditos cada vez maiores para pagar o serviço da dívida, que não para de crescer. A prática da usurária D. Branca foi elevada a teoria económica. Enquanto houver empréstimos não há falências.

Não é possível pagar a dívida. Ponto final. A dívida soberana (130% do PIB) + a dívida das empresas + mais a dívida de particulares = 684.000.000.000 de euros (dados do BdP). E todos os dias aumenta.

Talvez o 'inevitável' crash mundial resolva a situação. Pobres poupanças particulares.


PIB português relativo a 2014 – 173.053,3 milhões de euros. (Fonte: PORDATA)

sexta-feira, junho 26, 2015

Uma abortada pergunta: Qual a pressa?

Qual a pressa?

Esta a pergunta feita por António José Seguro, na altura dirigente do PS, quando da crise interna criada por dirigentes afectos a facções que solicitavam a realização de um Congresso link e que passou vezes sem conta nos média, só para achincalhar.
Desaparecido da cena política a pergunta volta a colocar-se agora com mais premência. Trata-se da desorientada actuação deste Governo no fim de mandato. Encetou uma saga (espiral) de privatizações, aparentemente avulsas, que revelam o intento de ‘cumprir’ o seu programa (é suposto segundo os seus próprios ditames que a troika tenha já saído...).

Sem olhar ao passado recente onde avulta a entrega da EDP, REN, ANA, CTT, PT, etc. as baterias estão, neste momento, assestadas para a TAP, Oceanário, Transportes Urbanos, CP carga e, quiçá, as Águas. Um autêntico esvaziamento do País. Dá a sensação que, no final, não restará pedra sobre pedra.

E, para além dos atropelos e das ignorâncias estratégicas, nomeadamente em relação aos sectores da energia, transportes e comunicações o problema está efectivamente nos ‘finalmente’.

Na realidade, esta ‘fúria’ deverá corresponder a projecções eleitorais que têm sido ocultadas aos portugueses. Tanta precipitação é demais até para negociantes neoliberalizantes. A razão não deve andar longe de que mais vale antecipar do que aguardar. Ou será melhor despachar do que contemporizar.

Como se não bastassem estes malabarismos económicos e financeiros, ontem, a maioria governativa, à laia de nefasto entretenimento, avançou com o ‘chafurdar’ da lei da interrupção voluntária de gravidez a coberto de um movimento de ‘cidadãos pelo direito a nascer’ link
Quando o País está a morrer centra-se a atenção política de nascimento de filhos não desejados. Só que a morte anunciada do País não é, para a maioria dos portugueses, voluntária.

Foi difícil conter o riso face ao argumento esgrimido pela inefável senhora Isilda Pegado de que é preciso pressionar a revogação da lei da interrupção voluntária de gravidez para resolver as dramáticas questões demográficas que enfrentamos.

A que dislates vamos estar sujeitos nesta campanha de ‘evangelização’?
Já não nos bastava o diácono João César das Neves?

Seis séculos de diferença

Dois mundos separados por 2 metros de areia

quinta-feira, junho 25, 2015

A trapalhada das secretas

Só com um governo que chegou até aqui e com um PR que o deixou chegar, foi possível a impunidade de que gozam os mais altos dignitários que confiscaram o poder. Podem ser néscios e incompetentes mas não lhes falta eficácia na propaganda e na chantagem.

Marco António, o cocriador de Passos Coelho, mantém-se no poder, e dispõe do poder, depois das acusações que a Visão lhe faz hoje. Passos Coelho passa incólume na fuga à Segurança Social e o silêncio é a norma, quer se trate dos documentos que se perdem, dos submarinos às contas na Suíça, quer nos que se acham e comprometem a segurança do país.

A revelação dos candidatos a espiões é motivo de gracejo quando o Estado chega a este estado. O Conselho de Fiscalização está mudo perante o e-mail dos candidatos a espiões e não se preveem demissões.

Veiga Simão enviou um dia, a pedido dos deputados, os nomes dos espiões para a AR. Foi demitido. E bem. Os serviços secretos viram arruinados o prestígio e a eficácia.

O povo, que perdeu o respeito por quem governa e se governa, alheio à decadência ética, acaba por perder o respeito por si próprio.

As religiões e o proselitismo

Nada tenho contra os crentes e tudo contra as crenças, sobretudo quando os fiéis querem impor aos outros a sua fé e, muito especialmente, se recorrem à violência.

O ateísmo também merece igual censura se for sectário e violento. As guerras santas são devastadoras e a Europa tem longa tradição nesse desvario. Por mais que a componente económica influencie os conflitos, é o ódio religioso que aparece como o mais violento detonador de guerras.

Que raio de deuses inventaram os homens que precisam de religiões como agências de promoção e instrumento de coação?

A laicidade é a vacina que interessa a crentes de todas as religiões não dominantes, no espaço em que se inserem, bem como a todos os não crentes, e não pode ser descurada.

É tão perverso um Estado ateu como um confessional. O Estado deve ser neutro e evitar intrometer-se na vida das associações cuja liberdade lhe cabe respeitar e defender. Só o código penal deve limitar a demência do proselitismo e a violência dos prosélitos.

Não posso deixar de recordar Voltaire no leito da morte, a quem, como era hábito, para terem o troféu «converteu-se na hora da morte», pretendiam que «negasse o Diabo», ao que respondeu com fina ironia: «Não é o momento apropriado para criar inimigos».

Mais sarcástico, Christopher Hitchens, influente escritor e jornalista britânico, autor do livro «Deus não é grande», quando soube que, na sequência do cancro que o consumia, se faziam apostas na NET sobre se se converteria antes de morrer, declarou: «se me converter é porque acho preferível que morra um crente do que um ateu».

Ponte Europa / Sorumbático 

quarta-feira, junho 24, 2015

A falência do GES/BES – «Caso BES – A realidade dos números»

O mais tremendo colapso financeiro e o mais trágico para a economia, o emprego e as finanças de Portugal, deve-se – segundo o relatório de peritos, da SaeR, Sociedade de Avaliação Estratégica e Risco –, a vários fatores que se conjugaram:

- A falência do banco Lehman Brothers cujas ondas de choque puseram em xeque os bancos mundiais e a economia de numerosos países e que, ao contrário do que sucedeu, devia, a meu ver, fazer repensar o papel dos Estados, anulado pela insânia neoliberal, no controlo dos grupos financeiros e na economia de casino que promoveram e promovem;

- Os «erros graves» na gestão do Grupo Espírito Santo (GES) que estiveram (em parte), na origem do colapso e cuja responsabilidade criminal cabe aos Tribunais julgar;

- Os erros do Estado que, sem isentar culpas da gestão do grupo, foram corresponsáveis na falência do maior empregador privado (cerca de 40 mil colaboradores), com um volume de negócios aproximado de 90 mil milhões de euros e 400 empresas.

O relatório critica fortemente o Governo e o Banco de Portugal (BdP) pela inépcia das decisões.

Hoje, parece não haver dúvidas de que ter salvado o grupo GES/BES era infinitamente mais barato do que tê-lo deixado falir, numa atitude obstinada de desmantelamento do Estado.

A propaganda depreciará mais esta atuação danosa para a economia nacional. Entretanto o Governador do BdP já foi reconduzido para defender erros próprios e os do Governo.

Só falta que o eleitorado reconduza o Governo.

Fonte: DN, ontem.


Ainda o 10 de Junho


terça-feira, junho 23, 2015

Islão

A oferta de uma escrava, considerada herege, como prémio de um concurso para quem (homem) melhor memorize o Corão, é a última indignidade do Estado Islâmico, a mais refinada ofensa à civilização e a mais demente inspiração pia. 



A cimeira ibérica

Duas figuras menores, embora sem comparar a preparação política de Rajoy à de Passos Coelho, estiveram reunidos na Galiza para discutir assuntos de interesse para os dois países.

O acordo no gás, defesa e trasladação de cadáveres revela que o relevante, as dívida soberanas, o desemprego e a questão da água dos rios ibéricos, deu lugar ao secundário.

A menos que a trasladação de cadáveres seja o grande desígnio, que permita trocar o de Passos Coelho pelo de Rajoy, ambos adiados em governos moribundos, certamente receosos de que os países de origem os enjeitem.


E os homens criaram deus…


Quando os homens criaram Deus, era o medo do desconhecido, a ignorância da ciência, a dor sem remédio, a doença sem cura, as epidemias sem explicação, a imaginar um ser, à sua imagem e semelhança, capaz de os proteger em troca do pior de que eram capazes.

Sacrificaram-lhe filhos, animais e bem-estar. Criaram exigências tolas para satisfazer o mito e foram infelizes na parva ilusão de que fariam feliz o imaginado carrasco.

A ignorância foi sendo vencida e o medo, a mãe de todos os medos, o medo da morte, é a derradeira justificação para o ser hipotético que continua a exigir que os homens se lhe ajoelhem como se tal indignidade fosse a forma de honrar quem quer que seja.

As religiões são multinacionais organizadas em torno da fé e detonadoras de ódios que todos os totalitarismos destilam. Têm funcionários e torturadores amestrados.

O Diabo é a antítese dialética da mais infeliz das criações humanas. O homem é o único animal que reza e nenhum outro se sujeita a atos ridículos de adoração.


Será a religião necessária? As necessidades criam-se. Bom proveito aos crentes mas não queiram que o deus de cada um de vós seja o algoz de todos e cada um de nós.  

segunda-feira, junho 22, 2015

Grécia: Cozedura em lume brando…

Mais uma reunião dos ministros das Finanças do Euro-grupo sem fumo branco para usar uma linguagem piedosa.
A desculpa de que ‘houve pouco tempo para fazer uma avaliação mais aprofundada das propostas’ [gregas] link é o verdadeiro ‘encanar a perna à rã’.

Quem acreditar na esfarrapada desculpa pensará que os credores são um sujeito passivo no processo ou que as negociações começaram esta manhã. Tratar os cidadãos europeus como atrasados mentais é insultuoso. 

Na verdade, o processo é o inverso. Tendo a faca e o queijo mas mãos os ‘credores’ tentam impor condições draconianas para libertar a última tranche referente ao 2º. resgate grego.

O Governo grego tem tentado compatibilizar essas condições de prossecução da austeridade com o programa que se apresentou aos eleitores centrado no repúdio de uma 'espiral de empobrecimento'.
A contraproposta (a proposta é propriedade dos credores) apresentada pelo Governo grego na reunião de hoje decorre de um esforço para chegar a um acordo. 
Os credores sabem perfeitamente as exigências que fizeram e hoje tiveram a resposta às condições impostas. Não precisam de fazer mais contas pois andam há meses a fazê-las.

Neste momento, ao que assistimos é o ‘cozer em lume brando’ um País para castigar um Governo. Chega de malabarismos. Não tentem, de modo tão grotesco, tapar os olhos ao ceguinho…

Basta…

A carta de Eurico Figueiredo a acusar Marinho e Pinto de criar um partido fascista é indigna do seu passado e injusta para o visado.

Coagido a sair da Madeira pelo salazarista A. J. Jardim, quando aí foi o responsável da Agência de Notícias (ANOP), regressou ao Continente. Foi jornalista e advogado sem trair os ideais que levaram a PIDE a prendê-lo. Marinho e Pinto presidiu à Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados e foi eleito bastonário duas vezes.

Não sei nem me afeta o futuro do novo partido mas admitir que o fundador seja capaz de liderar um partido fascista é um insulto à inteligência e uma provocação gratuita a um democrata, tanto mais grave quando feita por outro que sabe o que foi o fascismo.

Custa-me imaginar que Eurico de Figueiredo seja outro Henrique Neto capaz de trocar o passado respeitável por uma ambição tardia ou um ressentimento antigo.

Declaração de interesse: sou amigo pessoal de Marinho e Pinto e da mãe das suas duas filhas, há mais de 40 anos. Não sou seu apoiante.

Nem todos os gatos são pardos…

O ex-chanceler alemão Helmut Schmidt numa entrevista concedida à agência Athens-Macedonian News Agency link defendeu um ‘significativo’ haircut da dívida grega e simultaneamente um grande pacote de investimentos. 
Criticou o impasse das negociações, manifestou receios e preocupações sobre o futuro da Europa e alertou para problemas prementes que não estão a ser discutidos…

De facto, um homem presente de um (já) distante SPD. Todavia, um impressionante contraste com os actuais dirigentes que nos representam nos Conselhos Europeus. Faz falta a ‘realpolitk’ de que Schmidt foi um mestre nos duros tempos de contenção da ‘Guerra Fria’.

Seria bom que os actuais membros da UE recordassem uma frase que proferiu nas comemorações dos seus 90 anos. Disse então: “One needs the will. And cigarettes."…
Enfim, falta o querer ('will'). Já os cigarros são 'coisas de adultos', como invectivou a Srª. Lagarde a Varoufakis, na falta de melhor argumento...

Cavaco e o futuro do dito

Há já um frenesim da direita na reabilitação do pior PR da democracia, uma pungente necessidade de lhe criar vida depois das funções de porta-voz do atual Governo, uma desesperada tentativa de o manter vivo à espera de lhe encontrar préstimo.

Os politólogos, que, tal como a pitonisa de Delfos, no seu tempo, ou a popular bruxa da Lousã, ainda em funções, vivem das previsões do futuro, já vaticinaram que regressará à vida académica, fará conferências ou escreverá nos jornais, a partir do Convento do Santíssimo Sacramento onde tem reservado o gabinete de ex-PR.

A um morto nada se recusa mas o próprio já ameaçou: «Escreverei as minhas memórias depois de março de 2016», dia por que os portugueses há muito anseiam.

Não se acredita que esclareça os negócios nebulosos, cumplicidades suspeitas e, muito menos, a ausência de passado democrático durante a ditadura. Aproveitará o mérito do assessor que escolher, talvez Fernando Lima, melhor a pensar e a escrever do que a fabricar escutas, para recriar o passado privado e desencardir o público.

O assessor e o secretário, a que tem direito, têm de inventar virtudes ao bem-aventurado e ser postuladores do processo de beatificação que o Opus Dei patrocinará

A hagiografia futura há de inscrever no Flos Sanctorum romano a vida e a obra de Santo Aníbal de Boliqueime, herói e mártir de um partido desaparecido.

Laus Deo.

domingo, junho 21, 2015

Que distância vai de Reykjavik a Atenas, passando por Bruxelas?

O drama grego leva-nos a meditar sobre o ‘caso islandês’. Numa análise muito sumária é fácil constatar que a Islândia conseguiu sacudir rapidamente os efeitos da sua gigantesca crise bancária porque não integrava a zona euro e, portanto, escapou à receita de austeridade para controlar e divida e, supostamente, crescer à sombra de um empobrecimento. Não se deixou 'resgatar'. Tomou esse desafio como seu e resolveu-o à sua maneira.
Na verdade, dispunha (e continua a dispor) de moeda própria mas o cerne da sua reacção à crise bancária instalada foi associação desse trunfo monetário ao primado da política sobre os lobbys e interesses financeiros.

Mas, para além disso, a Islândia desenvolveu, a partir de 2008, um sistema de controlo de capitais disciplinado a sua movimentação. Só agora – passados 7 anos e em plena recuperação – pensa em aliviar esse controlo mantendo-o, todavia, condicionado à estabilidade económica e financeira. 
O alívio passa pela instituição de uma “taxa de estabilidade” sobre o valor dos activos bancários transaccionáveis (resgatáveis) no valor de 39%. 

Os islandeses não esquecem o rombo bancário que, na sequência da crise financeira mundial, envolveu os principais bancos islandeses e que, para um país de cerca de 300 mil habitantes, atingiu a soma astronómica de 80 mil milhões de euros. Tendo recusado veementemente a via da austeridade e optando por responsabilizar os políticos e o sector bancário pelos seus erros e desmandos, a Islândia está hoje na rota do crescimento económico (previsão de 3% a 4% para 2015) e resolveu o problema do desemprego gerado à sombra da crise (desceu da taxa de 11,9% atingida no auge da crise para 3-4% em 2014) link.

A Islândia, sendo um pequeno País, não deixa de ser o laboratório vivo que atesta, no presente e para futuro, o falhanço das políticas de austeridade impostas pela UE aos países da periferia europeia.

A Europa ignora, ostensivamente, esta realidade. Facto que, também, não ficou sem resposta. A Islândia 'desinteressou-se' de integrar a UE.
 
Vai uma grande distância entre o que se passou em Reykjavik e o que se vive hoje em Atenas porque o atalho de Bruxelas (e de Frankfurt e Washington) estragou tudo: a existência soberana dos países e a vida dos cidadãos. E as (outras) soluções demoram, i. e., quem se mete em atalhos...

A FRASE

«Pois eu digo: discutamo-la [a democracia], meus senhores, discutamo-la a todas as horas, discutamo-la em todos os foros, porque, se não o fizermos a tempo, se não descobrirmos a maneira de a reinventar, sim, de a re-inventar, não será só a democracia que se perderá, também se perderá a esperança de ver um dia respeitados neste infeliz planeta os direitos humanos».

(José Saramago, Última frase de um texto inédito, lido numa conferência em Sevilha em 1991, aquando da comemoração do quinto centenário dos Descobrimentos, e agora publicado pelo Expresso).


sábado, junho 20, 2015

A contemporânea dramaturgia europeia…


A mais recente tragédia grega vive o seu último acto. À boca de cena muitos intérpretes e um só vilão. Há qualquer coisa de burlesco nesta representação. 
O pano de fundo é representado por um cenário devastador. O impasse cénico eterniza-se. A artista principal - qual Antígona sem saber onde enterrar o seu 'irmão' - hesita perante os figurantes em cena. Não sabe se vai atirar o vilão para o fosso da orquestra ou se o crucifica em palco à frente da ansiosa plateia. 
Os 'artistas' estão todos mascarados. É a sua condição de persona (máscara). O suspense continua a marcar pontos. Mas o ‘ponto’, nos bastidores, não é capaz de se fazer ouvir.
A peça foi escrita, há alguns dias, nos Alpes austríacos. O seu título é: ‘Bilderberg Action’. Como poderia ser ‘Bilderberg Motion’.

Ao fim e ao cabo, como afirmou um ex-presidente do grupo, Étienne Davignon, esse clube detém a paternidade do euro link
Cabe-lhe, agora, na agonia, ungi-lo e enterrá-lo. São ‘cortesias’ pias e misteriosas. Afinal, nada que seja estranho para os portugueses. O teatro, em Portugal, começou com a representação de ‘mistérios’.

Enfim, o teatro tem um longo percurso histórico.  Começou na Grécia Antiga. Então, as tragédias decorriam ao ar livre e os ‘festivais’ duravam vários dias.
Como no presente…

A lição dinamarquesa…

O partido populista (DF) de extrema-direita prepara-se para integrar o próximo governo dinamarquês. Até há 4 anos influenciou o Governo de Direita dinamarquês mantendo-se na sombra. 
Os resultados das eleições dinamarquesas mostraram uma viragem à Direita do eleitorado onde os populistas ultrapassaram os liberais (líderes da ‘aliança azul’) e mostram-se prontos para assumir o poder, já que são a 2ª. força política do reino de Hamlet link.
O DF cultivando uma mistura de eurocepticismo e de xenofobia penetrou profundamente no eleitorado dinamarquês.

Repete-se, de certo modo, o que já se verificou nas últimas eleições finlandesas. O ‘cerco neoliberal’, sem rebuço de procurar apoios da extrema-direita, abre um ‘arco escandinavo’ dentro das fronteiras da Europa. Trata-se de um alargamento político da Europa Central em direcção ao Norte com fortes consequências nos equilíbrios económicos e sociais europeus.

Por outro lado, os populistas com a força adquirida nestas eleições vão alinhar na estratégia europeia britânica e forçar a mudança dos tratados europeus através de actos referendários.
A ‘onda referendária’ tem ganho força e ameaça tornar-se endémica. A legitimidade europeia enfraquece a cada passo porque foge de escrutínios democráticos para embrenhar-se numa distante e arrogante burocracia.

O último caso desta deriva é o ‘tratado euro-atlântico’ (TTIP) link que, se algum dia entrar em vigor, pretende passar ao lado de uma transparente discussão pública e afirmar-se sem qualquer tipo de escrutínio directo.

Os parlamentares europeus não estão em Estrasburgo mandatados pelos seus eleitores para decidir a esse nível e não passará muito tempo até que os lobbys burocratas e as elites económicas e financeiras europeias e norte-americanas transformem o ‘tratado’ numa simples parceria, contornando a opinião dos europeus e fugindo ao controlo democrático.

Deste modo, pretende-se montar um gigantesco ‘esquema de rendas ocidental’, que representa 60% do PIB mundial, para contrapor ao crescimento do semi-esclavagista e selvático ‘modelo oriental’, ficando garantidas permanentes transferências dos contribuintes para as multinacionais, à margem de qualquer controlo, nomeadamente, o recurso aos tribunais. Até aqui demos para o peditório do sistema financeiro. Daqui para a frente o que se pretende é estender esse peditório às grandes multinacionais. 
Este trânsito – à imagem do que está actualmente a ser efectuado para o sector financeiro e bancário - passa, para além de um brutal empobrecimento, pelo amesquinhamento dos direitos políticos, sociais e culturais e viverá iludido por números ‘globais’ unicamente referenciados ao ‘mundo empresarial’. Os cidadãos desaparecem de cena.

Se não for posto um travão a esta miserável e capciosa manobra restam duas alternativas: sair do espaço comum ocidental (é no que a extrema-direita europeia emergente aposta) ou, limitar-se a ‘cumprir as regras’ (feitas fora de qualquer controlo), como defende acriticamente o nosso presidente da República.
Bem, na verdade, existe uma terceira alternativa que passa pela ruptura frontal com o desvario neoliberal em pleno desenvolvimento. São os ‘execráveis radicais’ exorcizados diariamente nos órgãos de comunicação social.
Todavia, só esta última alternativa que vive momentos de dificuldades e de percalço e que terá de fazer um longo caminho, será capaz de inverter o rumo dos acontecimentos. Este o drama da Esquerda europeia que terá de regressar ao clássicos teorizadores sobre a indecência redistributiva do modelo capitalista.

Quando olhamos para o panorama político europeu perpassa a sensação que algo de grave e arripiante ensombra o horizonte.

Cavaco substitui Passos Coelho na campanha eleitoral


Regressado da viagem oficial em que insultou a Grécia, fez o elogio do seu Governo e referiu a necessidade de combater a corrupção na Roménia, isto é, falou da corda em casa do enforcado PM que não o recebeu, Cavaco desistiu de terminar o mandato com dignidade.

Enquanto Paulo Portas anda nas feiras e Passos Coelho finge de PM, Cavaco Silva entra na propaganda partidária como piolho em costura. É por pouco tempo, que os técnicos de marketing vão aconselhar que o escondam, mas, por enquanto, é o último serviço que presta ao partido e o pior que pode prestar à democracia e a si próprio.

Com o prestígio abalado, o seu e o da instituição que lhe exigia um módico de pudor, já pouco tem a perder e ainda convence o alfaiate da mulher, o barbeiro de Belém, o Lima das escutas, o Oliveira e Costa das ações da SLN, o Fantasia da permuta das vivendas Mariani e Gaivota Azul, os assessores e os incautos.

O futuro conselheiro de Estado fica num estado deplorável, mas sacrifica-se, até ao fim, na defesa de interesses partidários. Ventríloquo do Governo, será arrastado no vendaval eleitoral que só não é tsunami graças às divergências entre as várias esquerdas.

É preciso recuar à ditadura para encontrar um PR tão irrelevante e prejudicial ao sistema democrático. É o primeiro presidente desta segunda República a sair com pouco mais de 20% dos portugueses que suportam o PR que a ironia do destino e os apoios de Ricardo Salgado, Marcelo e Durão Barroso conduziram a Belém. Com tais reis magos até a D. Maria tinha chegado ao cargo e a primeiro cavalheiro o consorte.

sexta-feira, junho 19, 2015

O Erdogan de Boliqueime

O PR turco, o Irmão Muçulmano que traiu o dever de isenção, colocando-se ao lado do seu partido, AKP, não disfarça o horror que lhe causa a Constituição e não desiste de a revogar.

Em Portugal, de forma dissimulada, o PR também não esconde o desamor pela CRP que jurou cumprir, e fazer cumprir, nem a dependência da coligação que sustenta o Governo de que é porta-voz. O que não se esperaria do PR, por decoro, era a utilização da viagem ao estrangeiro, de interesse duvidoso e com um séquito a recordar o espírito perdulário de D. João V, para elogios ao moribundo Governo, a que prorrogou o prazo de validade, ligado à máquina de Belém.

Cavaco Silva, o Irmão Cristão, que desistiu de um módico de neutralidade para se tornar o caixeiro-viajante do Governo PSD/CDS, exonerou o respeito que constitucionalmente lhe é devido a favor do ataque às oposições, em especial, ao PS, tendo falhado mais uma ocasião porque a Justiça romena, não a portuguesa, quer prender o PM em exercício. Falhou, assim, o encontro e o pretexto para reincidir nos elogios ao PM luso com quem partilha a cultura, o espírito democrático e o apego às privatizações.

Cavaco Silva, entrou na campanha eleitoral, onde não devia pôr os pés. E pôs. Todos. A campanha eleitoral não pode esquecê-lo. Será uma campanha onde o PSD o ignora, por necessidade, e as oposições o julgarão, por dever e com fundamento.

Quem troca a neutralidade partidária, a que a dignidade da função obriga, pela condição de comissário político, não pode esperar o respeito que delapidou.

quinta-feira, junho 18, 2015

Há 200 anos – Batalha de Waterloo


Tal como há dois séculos, por irónico desígnio de Bruxelas, trava-se no mesmo dia uma batalha, também na atual Bélgica, em que não se joga apenas o fim do primeiro império francês, mas o fim da União Europeia.

Há duzentos anos terminaram os sonhos imperiais de Napoleão, mas saíram vencedores o Duque de Wellington e von Blücher, britânicos e prussianos, que devolveram ao trono francês Luís XVIII.

Hoje, a 13 quilómetros de distância, no ar condicionado, com computadores e folhas de Excel, trava-se a derradeira batalha pela sobrevivência europeia, com o sonho de paz e de prosperidade a esvair-se entre impulsos ideológicos e a irracionalidade de um novo deus, Os Mercados, falso e isotérico, sem a beleza dos deuses gregos e mais implacável.

Hoje, na derrota anunciada da Grécia, é a Europa que soçobra, sem vencedores. Apenas fica de pé a vitória de uma ideologia liberal a agonizar com a Europa ajoelhada aos seus pés, como outrora perante os papas.

Os bárbaros já estão cá dentro.

Efeméride

Homenagem do Ponte Europa a José Saramago

5.º aniversário da morte do maior ficcionista português de todos os tempos, o Nobel do nosso orgulho e contentamento.

O PR, a TAP e o ex-economista


O Prof. Aníbal Cavaco Silva, ex-economista, há muito dedicado a negócios particulares e à política, abdicou da profissão académica a favor da profissão de fé neste Governo de que se tornou porta-voz.

Alguns escolhem os amigos, outros são escolhidos. Cavaco Silva foi escolhido e ficou refém. Nunca se lhe ouviu uma censura à promiscuidade entre a política e os negócios, ao tráfico dos banqueiros, onde colaboradores próximos perderam a honra e ganharam milhões, à decadência ética do regime ou ao empobrecimento dos portugueses.

Tornou-se o notário privativo do Governo e o eco das suas tropelias. Não admira que as próximas eleições constituam também o seu julgamento pelos portugueses. Não pode, aliás, ser excluído da luta partidária, que foi o seu campo de batalha dos últimos seis anos, no derrube do anterior Governo e na manutenção do atual até ao fim do prazo, impedindo um Orçamento de Estado ao Governo que sair das eleições de outubro.

Um homem sem passado democrático, conseguiu 21 anos de político de topo em 41 de democracia. É obra!

Com a privatização da TAP – diz a comunicação social –, sentiu-se aliviado. Não se trata da resolução de um problema digestivo a quem a obstipação atormenta, trata-se da execução da agenda ideológica do Governo de que se tornou dependente. Em termos de digestão são os portugueses, sem alívio, a sofrer de azia e a pagar as consequências.

«A maioria do capital da TAP é português, temos de aplaudir» – (Cavaco Silva 14-06-2015). Será que acredita na nacionalidade do capital e na bondade da nacionalização? Foi como economista ou como assessor do Governo que considerou a privatização da TAP “um bom negócio para Portugal”, a bordo do avião que o levou a Sófia, numa das últimas viagens, designada como visita de Estado?

A TAP foi comprada pelo empresário norte-americano David Neeleman, dono de uma companhia aérea no Brasil e aparentemente por Humberto Pedrosa que em Portugal é o maior acionista da empresa rodoviária Barraqueiro. Alguém acredita que o empresário norte-americano se candidatava à pechincha sem garantias de decisão?

A TAP deixa de ser portuguesa e passa a brasileira, com o mesmo gestor, ao serviço do Brasil e da agenda política deste Governo; os aviões são vendidos e passam a alugados e o empresário português, cuja nacionalidade serve para contornar normas comunitárias, vai poder transportar os passageiros, dentro do aeroporto, nos autocarros Barraqueiro.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, junho 17, 2015

A FRASE

«Não nos orgulhamos da falta de estabilidade política, mas neste momento temos um governo estável (governo de centro-direita) baseado numa coligação e que tem feito as reformas necessárias».

(Cavaco Silva, enviado especial do Governo, na visita à Bulgária)


O país da Magna Carta e outro, da magna conivência

No Reino Unido, o prestigiado professor universitário, Tim Hunt, Nobel da Medicina, durante um brinde na Coreia do Sul, afirmou que as cientistas deviam trabalhar em laboratórios apenas com outras mulheres, porque distraem os homens do seu trabalho, apaixonam-se pelos colegas e choram quando são criticadas.

Não prejudicou a ciência, de que é notável expoente, mas portou-se como um troglodita. O prestígio científico não o absolve de preconceitos incompatíveis com a civilização e a decência.  Há na descontraída tolice resquícios de atavismo, mais próximo do tribalismo  patriarcal do que da evolução civilizacional, e a Universidade foi implacável na decisão – demitiu-o.

A University College London [UCL] onde Hunt e a mulher, Mary Collins, eram professores não tolerou o despautério. Lamuriou-se o cientista e apenas teve a solidariedade da mulher que atestou o seu bom comportamento, garantiu que “Tim não é machista” e, quando não está a trabalhar, «vai sempre às compras e cozinha sempre».

O próprio reconheceu que a sua afirmação foi uma «coisa estúpida» e que, depois disso, está «acabado» por ser «tóxico». A sanção foi o que foi. Irrevogável.

Em Portugal, um professor da Faculdade de Economia do Porto, Pedro Cosme Vieira, assumidamente racista, já defendeu que “se se fizesse o abate sanitário de todos os infetados com SIDA, a doença desapareceria da face da terra”. É um caso psiquiátrico  que se tornou notado ao avançar a solução para «pretalhada» [sic] vítima dos dramáticos naufrágios do Mediterrâneo, ‘abalroar-lhes os barcos e aos que sobrevivessem, recebê-los a tiro na Europa’.  Eis a estratégia n.º 2 que propõe: « Em vez de tentar salvar as pessoas que vêm nos barcos precários, ‘salva-los’ [sic] atropelando-os com navios portugueses e, depois, todos os que consigam nadar, meter um tiro em cada um».

Que me conste, este “humanista” continua tranquilamente a bolçar o seu “pensamento” na FEP, onde há mais de vinte anos é “pedagogo”.

Eis a enorme diferença entre uma Universidade de um país civilizado e outra, do nosso.

terça-feira, junho 16, 2015

O partido mais estalinista de Portugal

Até hoje só um partido baniu o fundador – o CDS –, que tirou da parede o retrato de Freitas do Amaral, mas ainda o mantém na história do partido, assim como a Lucas Pires, dois demo-cristãos que se envergonharam de Paulo Portas e Manuel Monteiro.

Agora é o PSD que, na morte do velho social-democrata (espécie em vias de extinção, no PSD), António Marques Mendes, pai do comentador televisivo com acesso à agenda ministerial, apagou o nome de um dos três fundadores do PPD.

Para a malta que confiscou o PSD, os fundadores foram Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Mota Pinto, Mota Amaral, Alberto João Jardim e Barbosa de Melo, como se lê no comunicado de homenagem ao advogado António Marque Mendes um honrado republicano a quem rendo também a minha homenagem.

Não me surpreende que Emídio Guerreiro, o patriota que combateu na Guerra Civil de Espanha e na Resistência em França, seja omitido, mas ignorar o n.º 2 do PPD, Joaquim Magalhães Mota, um dos três fundadores, de que só resta Pinto Balsemão, é um ato da maior ignorância ou do mais primário estalinismo.

Carta de há 10 anos. A situação mantém-se

Sr. Ministro de Estado e da Administração Interna
Dr. António Costa – Lisboa

Excelência:

Carlos Esperança, residente em Coimbra, eleitor n.º 1675, vem expor e solicitar o seguinte:

1 – Grassa na cidade de Coimbra uma onda de tal santidade que levou o presidente da Câmara, Carlos Encarnação, a baptizar a Ponte Europa com o nome de Rainha Santa Isabel;

2 – Uma procissão católica recente (creio que do Corpo de Deus) contou com a presença e terminou com uma homilia do dito autarca, temendo eu que, de futuro, em vez da gestão do Concelho, que lhe cabe, passe o pio edil a dedicar-se a tarefas religiosas e à salvação da alma;

3 – Nada tenho contra a presença particular nos actos litúrgicos mas vejo a laicidade do Estado ameaçada quando o autarca participa na qualidade das funções que exerce;

4 – Agora, a Junta de Freguesia passou a exibir um imenso painel na ampla parede que dá para a via pública com uma enorme imagem de Santo António e encimada com os seguintes dizeres:  «António, cidadão de Coimbra». Ao fundo destacam-se as letras
garrafais de «Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais».

Em face do exposto, venho solicitar a V. Excelência, senhor ministro, o seguinte:

a) Que peça à diocese de Coimbra para colocar numa das paredes da Igreja de Santo António, sita no lado oposto do largo que a separa da Junta de Freguesia, um painel de dimensões equivalentes onde  se leia: «Afonso Costa, Lente da Universidade de Coimbra», com a foto de igual tamanho à do santo.

b) Na impossibilidade de se prestar homenagem ao antigo primeiro-ministro nas paredes da Igreja, que seja mandado retirar o painel do Santo, da Junta de Freguesia, para evitar a promiscuidade entre a autarquia e a sacristia.

Certo de que o País não deve menos ao estadista do que ao Santo, confio no ministério  da Administração Interna para exigir o respeito pela laicidade do Estado e preservar o pudor republicano.

Apresento-lhe respeitosos cumprimentos e saudações laicas e republicanas.

a) F…, 16_06_2005

segunda-feira, junho 15, 2015

Basta!

Já não nos bastava a insensibilidade social deste Governo. Agora, perdeu a compostura educativa link.

A utilização de militares na reserva como ‘contínuos’ revela uma concepção educativa anómala e distorcida. Nem os pavilhões de aulas são casernas, nem os recreios paradas.

Os militares tem funções e competência definidas à volta de uma condição.  Essa condição é a militar e compreende subordinação, hierarquia, disponibilidade, riscos, disciplina, ética, direitos e deveres especiais. 
Transpor esta condição para as escolas é mais uma macabra fantasia de um Governo que só pensa poupar uns cobres em assistentes operacionais à custa da subversão dos objectivos específicos de formação dos alunos.

Quem não compreende isto, não entende nada de educação. Já não bastavam os cortes. Agora caminha-se para a perversão do campus escolar encaminhando militares para funções que lhes são estranhas. 

Os militares mereciam melhor tratamento e os alunos, professores e famílias mais respeito. A Escola é, por princípio, um antro da Pax. Excepto para os insensíveis senhores que ainda nos governam.

Magna Carta – oito séculos de combate pela liberdade

Oito séculos de História se passaram desde a assinatura da ‘Magna Charta Libertatum’ imposta ao rei inglês João-Sem-Terra, por barões insurretos. As circunstâncias em que o rei viu limitados os poderes absolutos são do conhecimento geral mas o valor simbólico de submeter um rei aos limites da lei é o marco indelével da longa e dolorosa caminhada da Humanidade para a democracia e o primeiro passo para o constitucionalismo.

O rei e os seus sucessores ficaram privados do poder discricionário e, a partir daí passou a vigorar um artigo decisivo: "Nenhum homem livre será preso, aprisionado ou privado de uma propriedade, ou tornado fora-da-lei, ou exilado, ou de maneira alguma destruído, nem agiremos contra ele ou mandaremos alguém contra ele, a não ser por julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra" (in Wikipédia). Que avanço!

Em Portugal duraria ainda mais de seis séculos a monarquia absoluta e, depois de 1820, não faltaram caceteiros miguelistas, a D. Carlota Joaquina e o alfobre de padres rurais a tentarem reverter o liberalismo e a ensanguentarem Portugal.

Não somos um país com entranhado amor à liberdade, nem hoje e ao mais alto nível, mas no dia em que se toma conhecimento do despedimento expedito de um grevista, não recordar os oito séculos da Magna Carta é faltar à homenagem que merecem os que se bateram ao longo dos tempos para que o poder absoluto desse lugar ao liberalismo, a monarquia à República e a ditadura à democracia.


Cristo e Maomé (Crónica ímpia)

Naquele tempo o anjo Gabriel era o alcoviteiro de serviço. Foi ele que anunciou a Maria a gravidez que já sabia. Foi ele também que, seis séculos depois, comunicou a Maomé a sua missão.

Os anjos viviam muito tempo embora poucos conhecessem a notoriedade, levando uma existência discreta e anódina. Gabriel distinguiu-se. Fora criado por judeus, que criavam anjos como o João Paulo II criava santos, que acreditavam em milagres com a mesma fé com que alguns padres rurais acreditam na existência de Deus.

Maomé nasceu em Meca durante o ano de 571 e viria a morrer em Medina em 632. O Corão e as agências de turismo fizeram santas as duas cidades e há períodos do ano em que uma chusma de fanáticos aí acorre, apesar dos perigos que os espreitam.

Muito parecidas com as largadas de touros, um espetáculo ainda em uso no concelho do Sabugal e noutras localidades portuguesas, as peregrinações têm perigos idênticos. O apedrejamento ao Diabo, um ódio transmitido de geração em geração, salda-se sempre por várias mortes enquanto o Diabo fica incólume, à espera do próximo apedrejamento.

Maomé teve uma vida pouco recomendável, um casamento com uma menina de seis anos, coisa que a Igreja católica também não via com maus olhos, e um casamento com a rica viúva Cadija cuja fortuna lhe permitiu dedicar-se à guerra, à religião e ao plágio grosseiro do cristianismo mesclado com judaísmo rudimentar.

Depois aconteceu-lhe o mesmo que a Cristo. Começou a ser adorado, correu o boato de que tinha nascido circuncidado, de que tinha ouvido Deus, de que foi para o Paraíso em corpo e alma, enfim, aquele conjunto de coisas idiotas que se atribuem aos profetas.

Hoje já ninguém pergunta se tomavam banho, sofriam prisão de ventre ou eram vítimas de salmonelas, se urinavam virados para Meca ou para o Vaticano, que hábitos sexuais ou manifestações de lascívia tinham. Foram os seguidores de Moisés, que subiu ao cimo do Monte Sinai em cujo divódromo recebeu de Deus as tábuas dos Dez Mandamentos.
Cristo e Maomé são hoje espetros adorados e os incréus defuntos apetecidos pela fé.

domingo, junho 14, 2015

TAP e SPAC: nova e conflituosa deriva …

O inquérito que a TAP vai instaurar a um dos seus pilotos (Paulo Lino Rodrigues) por possível implicação na última greve, decorrida nos primeiros dez dias de Maio deste ano, parece introduzir, no nebuloso imbróglio que vive a companhia área nacional, uma preocupante ingerência no domínio sindical link.

Claro que como é habitual no Governo PSD/PP tudo começa com tonitruantes declarações de princípio acerca do direito à greve e dos direitos dos trabalhadores. A inquirição a dar crédito às informações veiculadas pela comunicação social visa a componente ética. Durante a greve circularam especulações sobre o papel desempenhado pelo referido piloto na organização e planeamento da greve. Essas especulações denegriam, em primeiro lugar, o piloto-assessor mas, no fundo, atingiam o Sindicato dos Pilotos, já que o coloca à mercê de oportunismos políticos. 
Mais difícil será conciliar pacificamente esta retaliação com o propósito avançado pelo Sindicato de processar a administração da TAP por ‘gestão ruinosa’ link.

A greve da TAP não colheu grande simpatia ou compreensão perante a população em geral mas esta constatação não deve ser dissociada da campanha mediática patrocinada pelo Governo baseada em relatos ‘caseiros’ e facciosos, nem das ameaças que lhe estavam inerentes link
Nesta campanha de desacreditação da greve – que em determinado momento passou pela imolação do piloto-assessor - saíram notícias de algumas peripécias políticas (contra a privatização) e outras de âmbito financeiro e retributivo sobre o piloto em causa, apontado como “cérebro da greve” que foram prontamente desmentidas pelo Sindicato link .

Na verdade, o Código de Trabalho (sujeito a todo o tipo de revisões no mandato da actual maioria), no seu artigo 406º, ainda continua a proibir todo o tipo de discriminações contra os trabalhadores salvaguardando actos de despedimento, transferência ou que, por qualquer modo, possam prejudicar os trabalhadores, devido ao exercício das actividades no sindicatos, não esclarecendo se objecto ou não de remuneração.

Face à greve decretada pelo sindicato (e não pelo piloto-assessor) qual o procedimento da administração a solicitação do Governo?
Primeiro, apressou-se uma reestruturação (punitiva e chantagista) visando directamente os grevistas mas fazendo recair a ameaça sob toda a empresa de modo a fracturar a força de trabalho, 'domesticando-a' link.
Depois, manteve em lume brando a possibilidade de despedimentos à volta de uma urgente ‘reestruturação’. Nada sobre uma análise às opções e resultados da gestão.

Na verdade, o acordo de empresa não incide sobre actividades 'extra-profissionais' e, no caso de dúvida, a sua interpretação passa pela criação de uma comissão paritária (clausula 106 do acordo de empresa).

Em meados de Janeiro, alguns dias depois do tão invocado 'acordo de 23 de Dezembro 2014', ficou no ar uma angustiante dúvida. Afinal as garantias resultantes desse acordo estendiam-se (ou não) aos trabalhadores afiliados nos sindicatos não subscritores link. A questão foi aparentemente sanada depois de esclarecimentos posteriores ao mais alto nível. Contudo, continuará a pairar a sensação que este Governo, quando lhe convém, faz tábua rasa da Lei Geral do Trabalho e move-se essencialmente pela 'revanche'.

Encurtando razões: o início de um inquérito ao piloto-assessor não passa de um rasteiro ataque à actividade sindical e à sua independência organizativa e, mais, uma manobra de intimidação nas vésperas de eleições no Sindicato dos Pilotos de Aviação Civil (SPAC).

Que nas fundamentações do inquérito sejam invocados motivos éticos seria uma anedota caso não se tratasse de uma grave deriva democrática. O que o Governo está a tentar, através da Administração da TAP, é que tomemos a nuvem por Juno. E Juno é no caso vertente, nem mais nem menos, a liberdade sindical.

Tomada de posse em Madrid




A ‘Madrid imperial franquista’ com o Arco da Vitória e o opulento edifício de Ministério do Ar foram marcas heráldicas inscritas pelos falangistas na zona de Moncloa, alguns anos depois de - em 1939 - terem ‘reconquistado' a capital castelhana num dos episódios mais sangrentos da guerra civil espanhola que foi a chamada ‘Batalha de Madrid’.
Hoje, embora a situação política degradada gerada pelas medidas do Governo de Mariano Rajoy tenha devastado a capital no campo económico e social não permite falar de uma (nova) Batalha de Madrid mas sim de uma límpida 'Campanha por Madrid'. 

Todavia, este desfasamento histórico não retira significado ao acto ontem vivido e a entrada de Manuela Carmena no Palácio Cibeles (actual sede do Ayuntamento madrileno) em resultado de eleições municipais recentes tem um vasto conteúdo emocional e faz história. Quanto mais não seja derruba, pela vontade popular, uma longínqua dinastia de políticos de Direita que 'conquistaram' sucessivamente a capital do reino, ‘apesar’ do comprometimento histórico com o franquismo dos seus alcaides e, uma vez instalados aí, o seu maior afã foi servir os grandes grupos económicos e financeiros e o seu mister quotidiano a corrupção. 

Depois do interregno (1979 a 1986) protagonizado por Tierno Galván, do PSOE, que morreu no exercício de funções, a Câmara de Madrid foi um baluarte político da Direita e até afectivo. Para aí foram destacados ‘pesos-pesados’ da Direita, inclusive Ana Botella a mulher de Aznar (ex-presidente do Governo) que, cautelarmente, não se recandidatou nas últimas eleições.
Madrid foi durante anos a fio (mais de 2 decénios) a praça-forte do PP e um elo estratégico da política espanhola. 

A tomada de posse no último sábado de Manuela Carmena que foi à urnas pelo ‘Ahora Madrid’ (Podemos) conseguindo uma expressiva votação foi, ontem, apoiada pelo PSOE, conseguindo garantir a maioria democrática e derrotar a Direita, tem um tremendo significado político. 

Associando este facto à tomada de posse de Ada Colau, em Barcelona, estamos perante um verdadeiro ‘terramoto político’ que não deixará de ter réplicas nas eleições gerais próximas já que, finalmente, a Esquerda parece ter entendido que aos povos de Espanha não basta a realização (imposição) de ajustamentos económicos e financeiros e é imperativo a eliminação do défice político e de cidadania para obter bons resultados sociais (justos, equitativos e verdadeiramente democráticos).

A TAP a voar cada vez mais baixo


sábado, junho 13, 2015

O alfaiate de D. Maria Cavaco Silva e a venera

Não se duvida da criatividade do estilista, da dificuldade de fazer a roupa à medida do corpo de que dispõe e, muito menos, do merecimento de tal peito para a venera.

O que surpreende não é a condecoração cair num estilista, é a distinção incidir no da mulher do PR e ser atribuído o mais alto grau de uma das maiores condecorações. Assim, estranha-se que tivessem sido ignorados o sapateiro, a manicura e o cabeleireiro e esquecida a Ordem de Mérito Empresarial, Classe de Mérito Comercial, ao vendedor de frutas e legumes para o Palácio de Belém ou a comenda do Mérito Industrial para o fabricante e fornecedor de pastéis de bacalhau.

Se nada há a dizer quanto ao grau de grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique a Júlio Pereira, fica por atribuir o de comendador ao fotógrafo dos netos, o de cavaleiro  ao sapateiro e o de dama à manicura. Aliás, nunca mais terminariam os esquecidos.

Reconheço que na feira das vaidades é difícil agradar a todos sem melindrar o mestre da obra na marquise da Travessa do Possolo, que esperaria a comenda da Ordem do Mérito Empresarial.

A lucidez não é monopólio da esquerda


sexta-feira, junho 12, 2015

CAVACO - DE PR A MINISTRO DA PROPAGANDA

Cavaco, que sempre maltratou o anterior governo socialista, sempre se deu com o atual - maioritariamente constituído por elementos do seu partido de sempre - como Deus com os anjos. Ou melhor: sempre andou com ele ao colo.

A princípio ainda disfarçava, aparentando uma certa equidistância entre governo e oposição. Mas isso era apenas para pedir o "consenso" do PS, isto é, para tentar corresponsabilizar este pelas malfeitorias do governo.

Agora, porque já perdeu as esperanças do "consenso", porque está em fim de mandado e sobretudo porque se aproximam as eleições legislativas, perdeu completamente o decoro e anda pelo País fora a fazer campanha pela coligação governamental. Papagueia as balelas do Coelho sobre a "recuperação", a "superação da crise", etc., como se fosse um altifalante do governo, senão mesmo o seu porta-voz.

E critica asperamente os "profissionais da descrença", isto é, os sem-abrigo (ai aguenta, aguenta!), os desempregados, as crianças que passam fome, os velhos que não têm dinheiro para os medicamentos de que precisam, etc.

Abandonou por completo a postura de Presidente para assumir sem qualquer rebuço a de Ministro da Propaganda!

A Turquia, a Europa e o futuro

As recentes eleições turcas deram a vitória ao AKP, partido de Erdogan, sem a maioria absoluta. Foi um revés para o presidente, que pretendia alterar a Constituição e reforçar os seus poderes, transformando a natureza parlamentar do regime em presidencial, com poder para abolir a laicidade do Estado e acelerar o processo de reislamização.

A propaganda a favor do seu partido, violando os elementares deveres de isenção de PR, não surtiu efeito. A entrada do partido secularista, HDP, no Parlamento, foi uma proeza num regime eleitoral que exige o mínimo de 10% dos votos.

A Turquia tem o mais numeroso exército da NATO fora dos EUA, um exército que era o garante da laicidade do Estado. Erdogan, o político que viu sucessivamente o diploma de “muçulmano moderado” rubricado pelos EUA e UE, logrou neutralizá-lo em nome da democracia e com depurações cirúrgicas, tal como fez à magistratura.

O desfecho eleitoral resultou do medo do seu crescente autoritarismo, neutralizando a intensa propaganda das mesquitas e madraças. A ameaça islâmica foi adiada, mas pode tornar-se precária a vitória da laicidade e da democracia.

Erdogan domina o seu AKP e conta com o MHP, partido nacionalista secular que lhe é próximo mas não quer um regime confessional. A laicidade tem um único partido com acesso parlamentar garantido, o republicano kemalista CHP, herdeiro do fundador da Turquia moderna, Kemal Atatürk.

No primeiro discurso desde que o seu partido AKP perdeu a maioria no Parlamento de Ancara, nas eleições legislativas de 7 de junho, Erdogan, pediu aos partidos turcos que "deixem os egos de parte" e formem um governo o mais rapidamente possível.

A previsível instabilidade beneficia o projeto autoritário e confessional do político que não enjeita ser um novo califa otomano. A curto prazo, novas eleições são um perigo e um desaire eleitoral do HDP, pró-curdo e sensível às minorias, ou do MHP que Erdogan pode desgastar, novas eleições podem dar ao ‘islamita moderado’ capacidade de inspirar um Governo virado para Meca.

O MHB nasceu financiado pela CIA na luta contra o comunismo. É um partido político ultranacionalista, de extrema-direita, herdeiro de uma mitologia turca e com um passado terrorista de assassinatos de militantes de esquerda, na década de 70 do século passado. A ala juvenil era formada pelos “Lobos Cinzentos” a que pertenceu o enigmático Ali Agca, executor do 3.º segredo de Fátima, segundo João Paulo II, vítima do ato terrorista falhado, graças à Sr.ª de Fátima, que guiou a bala. Em 1993, seis deputados do MHP deixaram o partido e fundaram o  BBP, igualmente ultranacionalista, mas islamita.

O interesse geoestratégico da Turquia é decisivo para a Europa. A paz ou a guerra estão na sua dependência. O futuro da civilização europeia pode jogar-se no mar de Mármara e, sobretudo, no Estreito de Bósforo, tal como a tranquilidade da Rússia será perturbada com uma teocracia turca a alastrar através do Mar Negro.

A Turquia separa a Europa da Síria e do Iraque, onde começa o Estado Islâmico.

Não há democracias vitalícias e, no Islão, as ditaduras perpetuam-se teocraticamente.

quinta-feira, junho 11, 2015

Lamego – 10 de junho_2015

A Pátria, em dívida com benfeitores e filantropos ávidos de veneras, cachaços à espera do aconchego do colar, peitos insuflados para aguentarem o impacto da medalha, foi a Lamego afagá-los em cerimónia vigiada.

Os agraciados são numerosos mas há outros a quem nunca a venera lhes baterá no peito, sem títulos académicos, militares ou eclesiásticos, simples Pereiras, Silvas ou Oliveiras, sem dinheiro para brasão da casa ou laço de banda de qualquer colar, para a lapela.

É divertido ver o ar dos agraciados e a forma eficiente como os embrulham, com mais esmero do que nas ourivesarias atam as caixinhas das alianças, mas dói a manutenção da coreografia, até a soturna evocação, “morte de Camões”, de quem devia celebrar-se a vida dada a incerteza da data e local de nascimento.

O 10 de Junho, cuja simbologia Jorge Sampaio resgatou, há dez anos que remete para o passado sombrio da ditadura, com gente de negro, pais a receberem medalhas dos filhos, mulheres de maridos mortos e crianças amestradas, junto de Américo Tomás, para lhes ensinarem que deviam estar gratas pela orfandade que as atingira.

A liturgia regressou ao Portugal de Abril, com um presidente eleito a repetir gestos de antigamente, num palanque onde sobem atentos e veneradores os agraciados, com ar de quem vai cumprimentar os familiares do morto. Até a Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) se negou a assistir à última homilia do Comandante Supremo, certa de que o homem mais sério de Portugal e um dos mais sérios de Boliqueime não faltaria com o seu apoio e propaganda ao Governo de que se tornou mandatário.

Não simpatizo com o dia, apesar do amor ao poeta e aos dez cantos d’Os Lusíadas. Não vejo televisão nem oiço rádio. Recuso-me a ver cerimónias do passado em ‘playback’.

Prefiro esquecer o épico cosmopolita de que a ditadura se apropriou para a exaltação da suposta raça, ideia de panegiristas de má raça que adularam Salazar. Nem a distinção a Mariano Gago, cujo mérito o PR só reconheceu após a morte, e que talvez lha recusasse se vivesse ainda, nem esse ato de justiça redime a cerimónia lúgubre.

E prefiro o lírico.

Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, junho 10, 2015

Lamego: Cavaco Silva, o fim de festa e o barulho das luzes…

O discurso do Presidente da República em Lamego mais não foi do que o prolongamento do discurso da tomada de posse proferido no início deste último mandato. 
Mais uma vez recorre ao ajuste de contas e percorre por caminhos ínvios o passado recente.

Foi, antes de tudo, um penoso (mas esperado) alinhamento com a actual maioria governativa derrubando todos as barreiras de isenção e independência inerentes à função e, deste modo, excluindo muitos portugueses. 
Recuperou e incluiu, na sua errática arenga, muitos dos slogans partidários que informam a propaganda governamental. 
Alimentou uma visão salvífica do cruel resgate a que o País foi submetido, como capaz de exorcizar erros do passado (que existiram) e lançou-se no branqueamento de incontornáveis consequências económicas e sociais, nomeadamente, a selvática expansão da pobreza e a ameaça pendente de desestruturação social. 
Preferiu acantonar-se nas empresas, na competitividade, no empreendedorismo e em números e estatísticas fora que qualquer tipo de interpretação política e a partir dessa posição ‘equilibrista’ olhar para o País como um ébrio que dando voz a uma bizarra alucinação é capaz de vislumbrar laranjas em roseiras (a imagem não é inocente).

Uma mensagem presidencial absolutamente virada para o mais desbaratado ‘autismo nacionalista’, Cavaco Silva, ignorou ostensivamente a Europa e meteu-se a exaltar a ‘gesta heróica nacional’. Não chegou ao ‘orgulhosamente sós’ mas andou lá perto. 
Infelizmente, a crise fez compreender aos portugueses que o nosso futuro passa pela Europa pelo que o discurso do nosso (ainda) presidente assumiu ares de patético. Ou de intolerável propaganda pré-eleitoral.

Abandonou, por cansaço, os apelos ao consenso que têm norteado as suas intervenções políticas nos últimos tempos e derivou para outra posição. Apresentou os pilares (4!) para a próxima governação. Pouco para quem pretendeu, sem o conseguir, influenciar prematuramente o ‘pós-troika’. Criticou os arautos do ‘pessimismo’ e transformou-se num arauto de um optimismo infantilizado. 
Um discurso que não surpreendeu o País e que veio indirectamente sublinhar a profunda fragmentação social e política que, de facto, existe (ver as reacções das diferentes forças partidárias). Isto é, foi um discurso contemporâneo com a fatal tríade que enfrentamos: uma maioria, um governo, um presidente.

Finalmente, não é necessário ser profeta para vislumbrar o ‘miserabilismo’ desta intervenção presidencial, eivada de um inqualificável 'servilismo'. Para chegarmos ao merecido descanso falta ainda ‘gramar’ a Mensagem de Ano Novo, mas felizmente falta pouco.
 
Como diz o povo quando se abespinha: Passar bem, senhor Presidente!

Lamego - hoje

Cavaco Silva, lendo um discurso partidário
O colagem ao Governo foi a nota dominante.

Vida cultural e política

Miguel Relvas e Paulo Júlio, os mais eminentes políticos portugueses vivos, e dos mais ilustres do PSD, produziram, em coautoria, um tratado de pensamento político sobre a reforma na administração autárquica. Não é «O outro lado da Governação», o livro que Maquiavel gostaria de ter escrito, se não continuasse morto, que dilata a fama e glória dos autores. Já não precisam.

O que surpreende é a generosidade com que reabilitaram figuras funestas, dando a José Maria Aznar a oportunidade do prefácio e a Durão Barroso a glória da apresentação. A generosidade dos autores contribuiu para atenuar o passado sinistro dos dois biltres que viram armas químicas em Bagdad, ludibriaram os compatriotas e foram cúmplices do caos no Médio Oriente.

A grandeza ética e a dimensão cultural de Miguel Relvas e Paulo Júlio permitem que a benevolência que os exorna constitua a benzina bastante para limpar tais nódoas.

O lançamento da genial obra está agendada para o próximo dia 2 de julho e, certamente, contará com a presença de Cavaco Silva e Passos Coelho, respetivamente o melhor PR e o mais competente PM, em exercício.

terça-feira, junho 09, 2015

Coimbra - Passos Coelho no Portugal dos Pequenitos

O PM criado por Miguel Relvas, Marco António, Paulo Júlio e outros especialistas da manipulação das redes sociais esteve em Coimbra, desta vez no sítio cujo nome faz jus à sua dimensão, o Portugal dos Pequenitos.

Não se pode exigir a quem se esqueceu dos compromissos com a Segurança Social e da prestimosa colaboração na Tecnoforma que se recorde do conselho dado aos professores para emigrarem ou de um ministro seu criticar quem se recusava a abandonar “a zona de conforto”, na pitoresca designação do País cujo Estado o PM se esforçou a desmantelar.

Quem perde a memória e, sobretudo, o tino, atreve-se a afirmar que “não passa de um ‘mito urbano’” a ideia «generalizada na opinião pública de que o PM incentivou os jovens portugueses a emigrarem para procurarem emprego no estrangeiro».

Não é a sugestão que se condena, é a reiterada insistência na mentira que se recrimina.

Eis um excerto da sua insânia: “Desafio qualquer um a recordar alguma intervenção ou escrito que eu tenha tido nesse sentido”.

Ver, por exemplo, este video.

Ou esta notícia.


TURQUIA

A vitória do AKP, partido de Erdogan, sem maioria absoluta, é um revés para o autoritário presidente e uma brisa de esperança na continuidade laica, com a entrada no Parlamento do partido secularista pró-curdo, HDP.

O totalitarismo islâmico ficou adiado.

segunda-feira, junho 08, 2015

O desenho ao serviço da pedagogia


Brasil ou o salve-se quem puder.

Os supostos desabafos de José Dirceu a ‘amigos’, transcritos pelo “Estadão.com.br” link, vêm acicatar o problema da corrupção no Brasil e lançar a confusão política.
Os escândalos ‘Mensalão’ e ‘Lava Jacto’ continuam a corroer a sociedade brasileira e a minar a democracia, sem que o sistema político brasileiro manifeste capacidade em reformar-se. Este o drama brasileiro e não só o do PT. A corrupção no Brasil é endémica e transversal a todo o sistema partidário.

Mesmo tomando em consideração que a notícia publicada no 'Estadão' versa conversas ‘off record’ de José Dirceu (condenado pelo papel desempenhado no ‘Mensalão’) a mensagem que o jornal tenta passar é a de que o cerco começa a apertar-se à volta da actual ocupante do palácio do Planalto, não poupando o seu antecessor.

E a desvalorização do papel político do PT, no Brasil de hoje, não é inocente. Como não é despiciendo analisar que órgão propala a notícia.

O “grupo Estado”, de que o “Estadão.com.br” é - desde 2000 - a versão on line, tem uma longa história. Ninguém ignora o seu apoio aos militares que, em 1964, instauraram a ditadura e o visceral combate que alimentou contra o então Presidente João Goulart. Esta opção profundamente golpista viria revelar-se trágica. Poucos anos mais tarde (1968) o grupo mediático de S. Paulo, ao denunciar evidentes e selváticos atropelos das presidências ditatoriais militares, foi submetido uma feroz censura que rapidamente levou à sua suspensão.

Hoje, a versão on line, parece tentada a percorrer o mesmo caminho cometendo os mesmos erros.
O ‘impeachment’ da actual presidente conspurca sub-repticiamente esta notícia. O que se seguirá a esse ‘impeachment’ não é, contudo, revelado na desbragada notícia, mas não será difícil adivinhá-lo. Os indícios estão aí… link, para quem quiser ver.

Quem é o António Ribeiro Ferreira?

Não é certamente um solípede à solta, sem cabresto, um asno a que se partiu a cilha e abandonou a albarda, um réptil que o calor tirou da hibernação ou o psicopata que se evadiu do manicómio e aterrou nos jornais.

Há de ser falsa a frase que atribui o I ao «redator principal do Correio da Manha, diretor do i, redator principal e editor de Economia do i, agora redator principal e editor do Internacional do i», como se lê na biografia para que remete o ‘link’.

Não é justo que imputem a um jornalista, por mais intensa que seja a sua sujeição a este Governo, uma frase tão ignominiosa, amoral e perversa como esta: "Dava tudo para, sentado no balcão, ver o avião [a TAP] despenhar-se", referindo-se à privatização cuja ânsia se compreende na fase terminal do atual Governo, sem desejar tal catástrofe.

Um jornalista, por mais demente que fosse, não seria tão cruel. Por mais dependente que estivesse da avença governamental não se cobriria de tamanho opróbrio. Por mais ébrio que se encontrasse, a voar sob o efeito dos pós, não escreveria tamanha alarvidade.

Peço, a quem conhecer o jornalista, que o avise da partida que lhe fizeram no jornal, tal como em tempos aconteceu ao Times, como deliciosamente nos conta Eça de Queirós, sem que a pulsão de morte estivesse presente nas obscenidades que uma loira criancinha lia ao avô, major reformado de Sua Majestade, como agora aconteceu.

Não se humilha assim uma pessoa, eventualmente de bem, não se agrava gratuitamente o nojo do Governo que, procedendo mal, não deseja imolar pessoas no altar do desvario.

A jihad deste governo, desta maioria e deste PR contra o Estado social não admitiria um talibã ao seu serviço e, muito menos, sacrificaria inocentes onde pudesse ter cúmplices.

domingo, junho 07, 2015

Mais um embuste à volta da Constituição…

Uma nova lei – esta apodada por Berlim de ‘ouro’ – que este Governo quer submeter a um mirifico consenso partidário em busca de uma maioria qualificada. Desta vez trata-se de inscrever o limite da dívida na Constituição link.

Se, porventura, o País (político) aceitasse transformar a Constituição numa ‘folha de cálculo’ ou para colocar em consonância com a época informática numa folha de Excel, estaria a dar um grande empurrão à consagração das políticas ultraconservadoras que nesta fase europeia dominam o Mundo.

O País não esquece como a experiência de desenhar um ajustamento segundo uma folha de Excel (como tentou Vítor Gaspar) conduziu a resultados desastrosos, nomeadamente, a uma profunda recessão, ao disparar do desemprego, à imigração desenfreada e à imolação dos trabalhadores e da classe média subsidiária de um empobrecimento descontrolado. As medidas que foram adoptadas para controlar o desastre perduram na memória colectiva dos portugueses. Forma uma intragável receita que a coligação de Direita apresenta agora como uma (falsa) iguaria mas que não ultrapassa a vulgar peçonha. 

A introdução de limites de endividamento na CRP para além de uma tosca tentativa para cimentar a parafernália ideológica que campeia despudoradamente na UE (o neoliberalismo existe e necessita de suporte institucional) é, também, a abdicação de um instrumento de gestão das contas públicas, nomeadamente, face a evoluções imprevisíveis da conjuntura europeia e mundial. 
Despojados de mecanismos orçamentais de correcção e adaptação, bem como de instrumentos monetários e cambiais decorrentes da integração no euro e dominados pela definição política (e não só financeira) restrita a um banco central (por 'coincidência' sediado em Frankfurt), mais esta argolada seria um acto puramente suicidário.
Aliás, o exemplo prevaricador vem do País hoje governado pela chancelerina Merkel, a grande e actual promotora desta medida que tanto continua a motivar o actual primeiro-ministro. A Alemanha, como é do conhecimento púbico, violou estes limites de défice em 2002, 2003 e 2004 link quando se encontrava a braços e pejado de dificuldades com o processo de reunificação do País, sem que os restantes parceiros europeus ousassem abrir a boca.

A Direita que tanto gosta de proclamar o seu apego a questões de soberania após fazer esta proposta perde literalmente a face. Daqui para a frente soará a falso a tradicional e recorrente esgrima de valores patrióticos tão cara e habitual no armamentário desta hipócrita 'maioria'. 
Tornou-se cada vez mais visível que o dinheiro (é disso que se trata) não tem pátria e os defensores de medidas conducentes a garantir um circuito financeiro e de endividamento sem riscos (para os ditos 'credores'), ao arrepio das escolhas e das opções políticas soberanas e democráticas, não passam de reles embusteiros.

O sonho...

... e a realidade