sexta-feira, julho 31, 2015

Notas Soltas - julho/2015

Euro – Esta moeda, como está demonstrado, só pode manter-se com o aprofundamento da integração europeia no domínio económico, social e político, com diplomacia, defesa e harmonização fiscal próprias de uma união de Estados. Assim, só resta a lenta agonia.

Estado Islâmico (EI) –  Inovou a interpretação do Corão, o manual terrorista herdeiro do pior que o A. T. legou, e aplicou pela primeira vez a decapitação, já usada contra hereges estrangeiras, contra mulheres sírias acusadas, tal como os maridos, de feitiçaria.

Panteão Nacional – A trasladação de Eusébio, mítico futebolista, à semelhança do que aconteceu com Amália, teve o apoio unânime  de todas as bancadas da AR. Salgueiro Maia, Saramago ou Sá Carneiro (morto em funções) não mereceram tal honra.

Maria Barroso – Era uma mulher de causas. Morreu aos 90 anos a pedagoga, resistente antifascista, apoiante de presos políticos, intelectual e benemérita. Deixou saudade e foi exemplo de coragem e lucidez a única mulher fundadora do PS.

Gazeta de Mérito – A atribuição a Fernando Paulouro das Neves, diretor do Jornal do Fundão, até 2012, por ter exercido a profissão «com paixão, inteligência e grande rigor deontológico», foi o justo galardão para uma carreira impoluta de jornalista e cidadão.

PM – A Biografia encomendada foi a operação de cosmética que alterou o cadastro para currículo. Em campanha eleitoral promete um PM que nunca foi para um país diferente daquele a que o deixou chegar.

Eleições legislativas – A marcação da data, depois da recusa em antecipá-las, devia ser para o PR um ato formal. Foi o tempo de antena ao serviço do Governo e desta maioria por quem confunde a militância partidária com as funções que exerce.

PR – A ameaça de não dar posse a um governo minoritário, após as eleições legislativas de outubro, é mera chantagem eleitoral de quem nunca ocultou o amor a este Governo e o desapego à Constituição que amargamente jurou defender.

Tecnoforma – O Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) detetou a prática de infrações penais e financeiras na aplicação e/ou na atribuição de fundos à empresa que teve Pedro Passos Coelho como consultor e administrador. Prescreveram.

Durão Barroso – Desprezado no País, vai ser vedeta na Universidade de Verão do PSD deste ano, que decorre entre 24 e 30 de Agosto, em Castelo de Vide. Vai ensinar como se destrói um país [o Iraque] com mentiras e se consegue viver sem remorsos.

Finanças – Maria Luís Albuquerque, considerou a investigação da Comissão Europeia ao processo do “Banif” – o banco da Madeira –, um procedimento normal e manifestou tranquilidade em relação às futuras conclusões. A dívida da Madeira passou por ali.

Nigéria – Uma menina de cerca de 10 anos praticou um atentado suicida no nordeste da Nigéria, matando pelo menos 16 pessoas, segundo autoridades policiais. O Boko Haran é suspeito. Os combates prosseguem ali entre o Islão e o protestantismo evangélico.

Eleições presidenciais – É um tema que, neste momento, só desvaloriza as legislativas. A seu tempo, escolheremos um PR que fomente consensos e não que os impeça, embora fazendo apelos nesse sentido. É decisivo eleger um PR com senso. 

Portugal à Frente – O pseudónimo usado pela coligação no poder faz lembrar o avanço dos países islâmicos em relação às mulheres. Com o terreno cheio de minas, passaram a ir as mulheres à frente, tal como o PSD e o CDS a esconderem-se atrás do País.

ONU – Jorge Sampaio, último PR à altura do cargo, recebeu, em 24 de Julho, o Prémio Nelson Mandela. Foi a primeira personalidade a receber a distinção que visa distinguir personalidades pelo seu trabalho em prol dos ideais defendidos pela organização.

Isilda Pegado – A indigitação da ultrarreacionária militante, para candidata a deputada, beneficia os partidos de esquerda e afronta a orientação do atual magistério papal com a mais radical representante de um catolicismo jurássico.

John Sewel – Droga e sexo obrigaram o lorde inglês, conservador e devoto, a renunciar à Câmara dos Lordes. Os tabloides, em uma das imagens menos chocantes, mostraram o chefe da Comissão de Ética com um sutiã laranja. Há de tê-lo perdido mais a cor do que o adereço.

Pacheco Pereira – O ex-dirigente do PSD, um dos social-democratas ostracizado pelos ultraliberais que capturaram o partido, foi quem melhor definiu o programa da coligação que aturámos: Programa eleitoral da coligação PSD/CDS é um insulto aos portugueses.

CGD – O PM cessante, com um sentido de Estado a condizer com a sua preparação e a sensibilidade do crocodilo, atacou o único banco do Estado para o depreciar e mostrar que, se tiver tempo e o deixarem, não hesitará em privatizá-lo.

A insensibilidade que leva à santidade


Infelizmente!


quinta-feira, julho 30, 2015

Os «Filhos do Califado»

O recrutamento de crianças-soldado é a nova estratégia do covil designado por Estado Islâmico (EI).
O intenso treino militar e religioso a que os bandidos de Deus submetem as crianças tem como objetivo «educá-las» para se tornarem soldados da jihad nos conflitos armados, recebendo treino para realizarem ataques suicidas e executarem prisioneiros.

É fácil fanatizar crianças e incutir-lhes as mais macabras fantasias, como sabem os que têm um módico de formação em psicologia infantil ou, simplesmente, lidam com crianças. O entusiasmo fácil e o gosto de agradarem aos adultos ficam à mercê da demência beata de loucos e da violência dos fanáticos.

O problema já existe à escala global com recrutamentos e treino no Uganda, República Democrática do Congo, Iraque e um pouco por todo o lado onde os bandos de crentes ignaros e cruéis se viram para Meca e recitam versículos do manual terrorista Alcorão, enquanto os «filhos do Califado» degolam bonecos e assistem aos vídeos com que o EI apavora os Estados democráticos.

A mobilização de crianças tem para os recrutadores o benefício de perpetuarem o terror nas próximas gerações. Expostas a tal violência e crueldade, acabam imunes a qualquer gesto de humanidade, seres que se tornam adultos alheios à solidariedade e ao amor.

A Cruzada dos Inocentes, onde a lenda e a demência pia se confundem no proselitismo cristão, sacrificou crianças da França e Alemanha, em 1212. A demência e a realidade andam agora unidas na crueldade, oito séculos depois, através dos sicários de Maomé, com o apoio político dos Irmãos Muçulmanos.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 29, 2015

Porque sou republicano

Sou republicano porque recuso o carácter divino e hereditário do poder, porque sou cidadão e não vassalo, porque abomino o contubérnio entre o trono e o altar e porque um herdeiro do Iluminismo e da Revolução Francesa é avesso à vénia e ao beija-mão.

Sou republicano por me rever nas instituições que o voto popular sufraga e não nas que a tradição impõe. Aceitar os filhos e netos de uma qualquer família, para lhes confiar o poder do Estado, é abdicar do direito de eleger e ser eleito para as funções que dinastias de predestinados confiscavam.

Ser republicano é recusar o poder a quem não se submete ao sufrágio universal e secreto e negar o respeito a quem aceita funções de Estado sem legitimidade democrática.

Ser republicano é recusar o poder vitalício e exigir a legitimação periódica, para reparar um erro ou substituir um inapto, num horizonte temporal previamente determinado. Não há democracia plena em monarquia nem dignidade nas funções herdadas como se o país fosse uma quinta ou a Pátria uma coutada.

A República é o berço da democracia, o lugar da igualdade de género onde desaparecem privilégios de raça, nascimento ou religião, onde se aceitam todas as crenças, descrenças e anti-crenças, onde o livre-pensamento, a laicidade e a liberdade de expressão definem a matriz genética do regime.

Ser republicano é servir dedicada e abnegadamente o País sem se servir dos cargos que os eleitores confiam, ser honrado na utilização dos meios, sóbrio no exercício do poder e determinado na defesa do bem comum.

Ser republicano é exigir que homens e mulheres gozem de igualdade plena, que a escola pública seja a via para a equidade, a saúde um direito universal e a liberdade a conquista irreversível.

Ser republicano é, hoje e sempre, um acto de cidadania que tem a ética como baliza e a Liberdade, Igualdade e Fraternidade como divisa, projecto e ambição.

Viva a República.

Carlos Esperança – 05-10-2010 – Jornal do Fundão – 07-10-2010

terça-feira, julho 28, 2015

Idiossincrasias britânicas

John Sewel, respeitado lorde inglês, conservador e devoto, teve de renunciar à Câmara dos Lordes. A droga e o sexo foram funestas para o, até aqui, impoluto e influente membro da anacrónica instituição que, por precaução, tem vindo a perder poderes.

Os tabloides, numa das imagens menos chocantes, mostram o político vestido de sutiã laranja. Até pode ter sido, nas loucas fantasias, numa homenagem ao PSD português!

Mais do que o adereço, humilhou-o a cor.

Monarquia e República

Não previa o interesse que o meu comentário a uma entrevista do DN mereceu e, muito menos, que desse origem a uma bolsa de estudo aos monárquicos que viajaram até ao meu mural do Faceboock para, legitimamente, me contestarem.

Não é hábito autóctone observar a mente e tomar consciências dela, embora o conselho de Sócrates “conhece-te a ti próprio” seja amplamente divulgado. O catolicismo tem um arremedo de introspeção, a que chama “exame de consciência”, espécie de radar para os pecados, mas os livres-pensadores fazem mesmo autocrítica. À lógica cartesiana prefiro o “existo, logo penso” e, continuarei a pautar a conduta pela vigilância que me põem as dúvidas frequentes e me impõem os enganos repetidos.

Foi no exercício da autocrítica de homem livre que produzi três textos com que justifico as minhas posições cívicas:

- Porque sou republicano
- Porque sou ateu
- Porque sou social-democrata

Dentro de dias voltarei a publicar o texto «Porque sou republicano», por consideração aos monárquicos, não à monarquia, e pela estima que me merecem as espécies em vias de extinção.

segunda-feira, julho 27, 2015

Silly season

Encontrei no meu PC um conjunto de frases que fizeram história e que, tal como em janeiro de 2016 sucederá com o atual PR, rapidamente foram esquecidas.

Não garanto a autenticidade mas é forte a probabilidade de serem fidedignas. Menos perigosas do que as medidas deste Governo, aqui as deixo para gáudio dos leitores:

- Finalmente, a água corrente foi instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes.
(Presidente da Junta de Freguesia do Fundão)

- Esta nova terapia traz esperanças a todos aqueles que morrem de cancro em cada ano.
(Dr. Alves Macedo – oncologista)

- Os sete artistas compõem um trio de talento.
(Manuela Moura Guedes – TVI

- A polícia encontrou no esgoto um tronco que provém, seguramente, de um corpo cortado em pedaços. E tudo indica que este tronco faça parte das pernas encontradas na semana passada.
(Paulo Castro – Relações Públicas da PJ)

- A vítima foi estrangulada a golpes de facão.
(Ângelo Bálsamo – Jornal do Incrível)

- Um surdo-mudo foi morto por um mal entendido.
(António Sesimbra – O Independente)

- Os nossos leitores nos desculparão por este erro indesculpável.
(Rui Lima – Jornal “A Bola”

- Há muitos redatores que, para quem veio do nada, são muito fiéis às suas origens.
(António Tadeia – Crónicas do Correio da Manhã)

- Ela contraiu a doença em vida.
(Dr. Joaquim Infante – Hospital de Santa Maria)

- A conferência sobre a prisão de ventre foi seguida de farto almoço.
(Diário da Universidade de Bragança)

- O acidente provocou forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido.
(António Bravo – SIC)

- O aumento do desemprego foi de 0% no mês passado.
(Luís Fontes – A Capital)

- À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel.
(Ribeiro de Jesus – PSP de Faro)

- As circunstâncias da morte do chefe da iluminação permanecem rigorosamente obscuras.
(Paulo Assunção – EDP)

- Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça.
(Crónicas do Diário da Beira)

- Os antigos prisioneiros terão a alegria do reencontro para reviver os anos de sofrimento.
(Maria do Céu Carmo – Psiquiatra)

- A polícia e a justiça são as duas mãos do mesmo braço.
(Bento Ferreira – Juiz)

- O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos. Teme-se que não haja vítimas.
(Juliana Faria – TV Globo)

- O acidente foi no tristemente célebre retângulo das Bermudas.
(Paulo Aguiar – TV Globo)

- Quatro hectares de trigo foram queimados. Em princípio trata-se de incêndio.
(Lídia Moreno – Rádio Voz de Arganil)

- Antes de apertar o pescoço à mulher, o velho reformado suicidou-se.
(João Cunha – Testemunha)

- Jogar à defesa pode ser uma faca de dois legumes
(Jaime Pacheco, treinador de futebol)

- À pergunta “o que achou do jogo”, responde: «Eu, nada... mas o Aloísio achou um pente no balneário»
(Roger – Ex-jogador do Benfica)

domingo, julho 26, 2015

A Sr.ª D. Isabel Herédia e a democracia

O DN de ontem ocupa duas páginas com uma entrevista à senhora que trocou uma vida profissional pela reprodução de «infantes», graças ao enlace com um suíço que Salazar importou com o pai para uma eventual restauração da monarquia.

Nada tenho quanto aos critérios jornalísticos do meu jornal diário mas não posso deixar de tecer algumas considerações sobre uma senhora que casou com o descendente do Sr. D. Miguel, o facínora, filho da promíscua D. Carlota Joaquina que, com apoio do clero mais reacionário, quis restaurar o absolutismo monárquico, ensanguentando o País. Foi derrotado e teve de assinar a renúncia às veleidades reais. E não foi julgado dos crimes!

É-me indiferente que seja conservadora e mulher de fé, que reze o terço com os filhos e se julgue rainha sem trono [que não há] ou considere a verdadeira rainha de Portugal a «Nossa [dela] Senhora», num país republicano, laico e democrático.

Admitir que usufrui títulos nobiliárquicos é ignorar a sua abolição há mais de um século e pensar que as monarquias têm qualquer legitimidade. O poder, ainda que simbólico, é um anacronismo quando se exerce de forma vitalícia e se transmite pela via uterina.

Imaginar que as suas viagens ao estrangeiro são em representação de Portugal é delírio de quem, à semelhança de certos doentes, se julga outra pessoa, mas o que me indignou foi interrogar-se: «se vivemos num país democrático porque é que não deixam o povo escolher»? Onde é que o povo foi privado de votar num partido monárquico e onde é que as monarquias promovem eleições para as reais cabeças coroadas serem submetidas periodicamente ao escrutínio eleitoral?

Diz a senhora que “um rei pensa a 100 anos para a frente” como se a tarefa de um rei fosse pensar ou o marido obrigado a tamanho esforço.

Entrámos na «Silly season». Um jornalista faz o frete para manter vivo o sonho de uma noite de verão a uma família que tropeça em pessoas com alma de vassalos e entra em delírios reais. Só não admito que duvide da liberdade do povo português, liberdade que levou Cavaco Silva a PR e Passos Coelho a PM.

Até para a asneira somos livres.

sábado, julho 25, 2015

A FRASE

«O número [694] chocante de execuções no Irão na primeira metade do corrente ano transmite um quadro sinistro da maquinaria do Estado a efetuar homicídios premeditados, judicialmente aprovados em massa».

(Said Boumedouha, vice-diretor do programa da Amnistia Internacional para o Médio Oriente)

sexta-feira, julho 24, 2015

A última mensagem presidencial…

Os partidos do ‘arco do poder’ sonham com maiorias absolutas link, link quando tudo indica que o mais provável é as eleições de 4 de Outubro darem origem a uma maioria relativa.
O irrealismo desta exigência não augura nada de bom. Mostra porque o leque partidário está hermeticamente fechado a coligações e acordos porque, na prática, existe um mínimo de transversalidade política e ideológica. 
O afunilamento das opções e a contracção da flexibilidade partidárias não é uma ‘doença nacional’. Resulta de transformações políticas ‘importadas’ e/ou ‘impostas’. Não é fácil lidar com constrangimentos como os que constam do ‘Tratado Orçamental’ sem assassinar ideologicamente um programa político e, em caso de vitória eleitoral, de governo. 

Aparentemente, esta canga de contradições favorece o aparecimento de grupos radicais e, pior, é um estímulo ao seu crescimento. E o radicalismo não assenta unicamente em grupos que emergem de novo no espectro político. Instalou-se no interior do dos partidos tradicionais inviabilizando coligações, acordos e soluções de legislatura ou de regime.

O ‘caso português’ é paradigmático. Acantona, de um lado, a Direita subjugada ao citado Tratado e, para além disso, comprometida com medidas aí incluídas que não arrisca enunciar (e anunciar) e, de outro lado, a Esquerda que, para aplicar os seus diferenciados programas necessita de alterar os compromissos daí inerentes sabendo que só as boas contas públicas a libertam da ditadura financeira.
O posicionamento partidário está, portanto, prisioneiro do ‘Tratado Orçamental’. 
As consequentes escolhas recaem, com particular acuidade, neste pantanoso terreno. Essa discussão tem sido evitada a todo o transe porque sob ela impendem terríveis ameaças dos chamados ‘mercados’. Ninguém ousa (excepto os partidos ditos ‘radicais’) questionar o âmbito, dimensão e a velocidade de execução das metas orçamentais que em larga medida congrega os factores responsáveis por um empobrecimento súbito, feroz e cruel.

Fora do radicalismo – algumas vezes utópico e irrealista – reina o deserto criativo e tardam em surgir propostas inovadoras.
Chegará o dia em que não será possível adiar por mais tempo as rupturas. E a clarificação política é em larga medida subsidiária desse difícil passo e muito menos de arranjos ‘maioritários’, aparentemente ‘estáveis’, como sugere o Presidente da República link.

Na verdade, entramos num terreno claramente armadilhado. São os tempos dos ‘alívios’ (da austeridade, do deficit, da divida, etc.) deixando funcionar o esquema (ou serão os ‘mercados’?) condicionante e redutor imposto pelo Tratado Orçamental. Os partidos têm receio das consequências ao enfrentar a ordem estabelecida (a Grécia é um exemplo paradigmático) e retransmitem estes medos aos dirigentes e depois aos potenciais eleitores. Uma cascata de terror foi paulatinamente instalada. É o alimentar de um círculo vicioso que corrói a dinâmica partidária, as alternativas e o escrutínio democrático.

Enquanto não for discutido o âmago do problema – o actual texto e contexto do Tratado Orçamental – a actividade política não sairá da penumbra. É necessário existirem regras orçamentais mas não balizas férreas que façam os países mais pobres permanecer ad eternum no subdesenvolvimento.
Logo, as eleições de 4 de Outubro não são um fim em si mesmas. Poderão, ou não, abrir caminho para a revolução política que a Europa está necessitada. E essa revolução (não tenhamos medo das palavras) passa pela mudança de regras. 
Aliás, é tempo de os europeus tomarem consciência que as regras não tem uma proveniência divina e são discutíveis e alteráveis.

O problema é que os 3 partidos do chamado ‘arco da governação’ não incluem o questionamento do Tratado Orçamental, nomeadamente o seu timing e dimensão (que deverá estar em consonância com o crescimento económico), nos respectivos programas eleitorais. Assim, as próximas eleições, serão mais um adiamento dos problemas que afligem o Sul da Europa e, em contrapartida, favorecem países do Norte e Centro.
É para este protelar da situação que o Presidente da República solicita estabilidade e durabilidade. Mais não faz do que defender o ‘status quo’. 
Uma mensagem muito neoliberal. De acordo com a pequenez do seu emissário!

Políticos, bombeiros e lugares-comuns

Em Portugal não se deve dizer bem de nenhum político nem mal de qualquer bombeiro.

Os políticos são todos maus, corruptos, venais, incapazes e oportunistas, seja qual for o partido. O axioma herdado da propaganda salazarista, contra os políticos, exceto os do partido único, foi refinando com a incultura que não superou as discussões clubistas dos jogos de futebol.

Ficou-nos do salazarismo a nódoa que turva o juízo, a aversão aos partidos e políticos e a tudo o que não fosse único, o chefe, a União Nacional, o deus, o diabo e o raio que os partisse. Deus, Pátria e Família, o primeiro era o do Papa, a segunda incluía as de outros povos e a última submetia a mulher à prepotência e aos humores do marido.

Agrava-se agora, em véspera de eleições, a cruzada contra os políticos da oposição, hoje como no fascismo, a campanha onde se nota a arrogância dos ignaros, o moralismo dos imbecis e a autodefesa de quem chama primeiro aos outros o que merece, na convicção farisaica de que no enxovalho alheio branqueia a honra própria.

Mas falemos de bombeiros onde apenas as palavras, abnegação, generosidade, altruísmo    coragem e sinónimos, são permitidas. Não há, em Portugal, o escrutínio das corporações de bombeiros, das mortes por impreparação para executar missões, do amadorismo com que se combatem incêndios ou se socorrem vítimas, da afetação de recursos sem que a relação custo/benefício seja ponderada.

Os bombeiros e os inúmeros quartéis que nasceram à sombra das autarquias, em linha com a anacrónica e pesada divisão administrativa, não são examinados. Quem fiscaliza os “soldados da paz” e quem os comanda? Quem investiga a propriedade das empresas abastecedoras de bens, a adjudicação de produtos que apoiam a indústria dos incêndios, mais florescente e luminosa do que a da floresta?

As corporações de bombeiros não podem gozar de foro especial em democracia.

quinta-feira, julho 23, 2015

Hollande e a UE

A ‘guarda avançada’ europeia sugerida por François Hollande para ‘governar’ a Europa link é, no momento em que surge, um facto político verdadeiramente surpreendente, representando uma ‘fuga em frente’, perante o descalabro à vista.

No plano interno, retoma as preocupações – tantas vezes esquecidas - de um francês que foi um lídimo ‘obreiro’ da ideia europeia, Jacques Delors, e assume vagas reminiscências com um remoto 'gaullismo'. Nada de 'socialismo' é vislumbrável.
Percebe-se bem a razão do tacticismo do momento. Trata-se de uma tentativa de melhorar a imagem doméstica de um presidente caído em desgraça perante os seus eleitores. Imagem que se foi degradando, entre outras coisas, pelo titubeante exercício de uma medíocre e desequilibrada co-liderança europeia (com Angela Merkel). 
Esta é uma situação que, a médio prazo, ameaça a sociedade francesa porque a cedência a políticas de austeridade faz paulatinamente o seu caminho (de progressivo empobrecimento) sob a batuta de Hollande/Valls.

A 'proposta' funciona, por outro lado, como um tampão colocado para estancar uma incoercível hemorragia. Não é líquido que tenha êxito e será preciso, nas contas a efectuar, ter em consideração situações mais recuadas como, por exemplo, o resultado do referendo francês sobre a ‘Constituição Europeia’ elaborada por (um outro político francês) Giscard d’Estaing, para perceber o equívoco desta proposta.

Quando se evocam (convocam) os países subscritores do Tratado de Roma (episódio tão longínquo das actuais políticas europeias), como uma hipotética ‘guarda avançada’ europeia, há uma lamentável confusão entre Estados e governantes. Isto é, mistura-se o que é transitório com aquilo que se apresenta perante a diversidade de povos como soberano. Interessaria saber qual foi o facto fundamental nos tempos primordiais da cooperação europeia pós II Guerra Mundial (a CEE). Resta saber se foi fundamental a convergência política dos governos de Itália, Alemanha, França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo ou a liderança e a visão estratégica de alguns vultos políticos oriundos desses países como Monet, Spaak, Schuman, Adenauer, Gasperi, entre outros. Políticos como os atrás referidos não são comparáveis – nem de perto, nem de longe - aos actuais figurantes (Merkel, Hollande, Juncker, etc.) o que justifica o estado das coisas.
Para reduzir esta discrepância a um jargão nacional todos sabemos que que não é possível, nem aceitável, comparar um guarda-chuva com a feira de Espinho.

No plano externo, a sugestão do presidente francês é uma proposta que navega à boleia da suspensão (temporária) do Grexit.
Hollande tenta - através desta manobra - arquitectar, a partir desse facto, um modelo de governação europeia onde pretende explorar o incipiente protagonismo que terá desempenhado em relação a crise vivida pelo novo governo grego no seio do Euro Grupo. Trata-se, contudo, de um balanço efémero sob uma situação terrível que não permite qualquer tipo de alteração na liderança da Europa, nem conduzirá à alteração das suas políticas. O único rebate de mudança perceptível poderá ocorrer no interior da governação alemã, à volta de um 'desentendimento' Merkel/Schauble.
Na verdade, a resolução acordada no Conselho Europeu sobre a dramática situação grega não contem motivos de júbilo (para qualquer uma das partes) e, por outro lado, a crise europeia - entendida na sua globalidade e profundidade – não foi aí ultrapassada.

A proposta de Hollande, vista sob uma perspectiva de futuro para a Europa, é extemporânea e, acima de tudo, ambígua.
Entre uma Europa Federada, dos Estados e a dos Povos existem múltiplas nuances. E o denominador comum passará por democratizar as estruturas e instituições europeias, através de escrutínios populares, retirando poder aos burocratas e dando espaço a que surjam dirigentes europeus com estatura.
Não existem ‘malabarismos’ políticos capazes de camuflar esta realidade.

«Tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos possíveis»

A dívida soberana disparou 60.000 milhões de euros nos quatro anos do atual Governo. Só em maio, a dívida das administrações públicas subiu 3.777 milhões de euros face a abril, fixando-se nos 229.204 milhões de euros, [números ontem divulgados pelo Banco de Portugal (BdP)] mas a central de propaganda, onde Miguel Relvas, Marco António e Paulo Júlio contam com o apoio de Cavaco Silva, oculta o descalabro.

O referido boletim estatístico do BdP informa ainda que, no final de maio, as empresas tinham falhado pagamentos aos bancos num valor superior a 13,4 mil milhões de €€, ou seja, 15,7% dos empréstimos totais, 85,2 mil milhões de €€, dois máximos históricos.

O País viu partir os seus mais jovens e qualificados emigrantes, aumentar o desemprego e alienar ativos estratégicos do Estado no cumprimento implacável da agenda ideológica desta maioria, num processo contrarrevolucionário de dimensões imprevisíveis.

A inépcia na governação foi substituída pela máquina de intoxicação onde o aumento da dívida, 36%, deu origem à reiterada afirmação de que o Governo pôs as contas em dia.

O acelerado empobrecimento é a marca do mais inapto PM do período democrático sem que o nepotismo da despedida o impeça de reabrir embaixadas encerradas por motivo de poupança e perdulariamente ativadas para colocar correligionários.

Nunca os impostos tinham atingido proporções tão insuportáveis nem a decadência ética ido tão longe. Com o Governo moribundo, uma maioria a desagregar-se e o PR em fase terminal, aproximam-se eleições com o país sem rumo, sem futuro e sem Orçamento de Estado num quadro previsivelmente conflituoso e sem tempo para corrigir a rota.

Passos Coelho, Cavaco Silva e Paulo Portas afirmam que «Tudo corre pelo melhor no melhor dos mundos possíveis». Nenhum cora de vergonha, os primeiros porque nunca leram o “Cândido”, de Voltaire, e ignoram o Dr. Pangloss, e o último por ser cínico.


Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 22, 2015

Respeitar as religiões, sem condições???!!!

17 de julho de 2015 – O tribunal condenou um pai a cinco anos de prisão efetiva. O devoto explicou que pretendeu evitar que a filha cometesse um pecado, “se a criança tivesse relações antes do matrimónio” e, para defendê-la de tal perigo, decidiu casá-la aos 12 anos com um libanês de 26, que entrou na Austrália com um visto de ‘estudante’.

O casamento tinha sido ‘celebrado’ por um xeque local, segundo a lei muçulmana, em 2014. A noite de núpcias foi passada num hotel e a semana seguinte em casa do pai da noiva. Esta tinha sido instruída para não usar métodos contracetivos, por contrariarem a vontade divina. Ficou grávida e sofreu um aborto espontâneo.

Li a notícia no “Correio dos Açores” , sábado, dia 18, pág. 17. O libanês foi condenado a sete anos e meio de prisão por abuso sexual de menores. Quanto ao xeque era omissa. Presumi que o respeito pelo múnus o inocentou.

Exultei com a jurisprudência que desprezou a crença religiosa que diariamente devasta o corpo e a ‘alma’ de crianças que têm o azar de nascer em países onde as mulheres são objetos e abjetos os homens, todos escravos da tradição e do mimetismo com o beduíno amoral que deu origem ao mais ignóbil dos monoteísmos.

Há um vómito que me assalta, e ameaça ser incoercível, quando oiço falar do Islão. Não é xenofobia, é uma idiossincrasia de quem execra a discriminação de género e fará da luta contra a barbárie a bandeira dos dias que ainda restam para defender a civilização.


No país do avesso

Os portugueses sabem que Cavaco Silva tem a confiança de Passos Coelho. Ontem, em entrevista à SIC, Paulo Portas afirmou: «Tenho confiança em Pedro Passos Coelho».

Num país ao contrário, já ninguém estranha que este Governo, esta maioria e este PR tenham a confiança de Miguel Relvas e Marco António.

terça-feira, julho 21, 2015

Crise académica de 1962

Testemunho de

Francisco Paiva

Há dias(maio de 2015),o meu neto Miguel (estudante universitário) em conversa, diz-me: mas, afinal qual foi o crime que tu cometeste quando foste castigado na Universidade em 1962?

Eu vou procurar explicar, mas adianto já que os Arquivos da Universidade de Coimbra também não conseguem explicar porque parece que o processo disciplinar desapareceu e só consta a pena aplicada sem os seus fundamentos, e isto é válido para os 32 estudantes castigados.

Venhamos então à História. Quando cheguei a Coimbra em 1955 a Associação Académica era liderada por uma facção conservadora que perdurava desde a década de 40 em que pontuaram Salgado Zenha e Almeida Santos entre outros. No 3.º ano da Faculdade ingressei na República dos Galifões ao mesmo tempo que obtinha uma maior consciencialização sociopolítica. No fim do 4.º ano fui eleito para a Comissão Central da Queima das Fitas cuja presidência pertencia por tradição ao estudante de medicina. Nesse ano também as eleições da AAC deram a vitória à corrente progressista liderada por Carlos Candal, finalista de Direito. Toda a postura mudou e saliente-se a publicação no jornal académico “Via Latina” da “Carta à jovem portuguesa” da autoria de Marinha de Campos, finalista de medicina e hoje psiquiatra.

Para as eleições de 1961-62 o Conselho de Repúblicas propôs o meu nome para a lista candidata (certamente pela minha postura pessoal e pela prestação na Comissão da Queima do ano anterior). Esta lista era composta pelo Lopes de Almeida, finalista de Direito,    para presidente, José Augusto Rocha, José Sumavielle e António Taborda (finalistas de Direito), David Rebelo e eu próprio(finalistas de medicina),Eduardo Soeiro(finalista de Letras),Margarida Lucas e Jorge Aguiar (3.º ano de Direito). Ganhámos as eleições contra a lista liderada por Nogueira de Brito(que veio a ser Secretário de Estado).O Lopes de Almeida foi mobilizado para a guerra colonial antes mesmo da tomada de posse. Decidiu-se que o Jorge Aguiar assumisse a presidência e o mesmo lhe aconteceu foi de imediato mobilizado. Entendeu então o grupo, que eu deveria assumir a presidência (eu estava isento do serviço militar porque a minha incorporação era de 1958 e a guerra colonial começou em 1961).

A direcção da AAC prosseguiu a postura progressista constante do programa eleitoral e decidiu propor às academias de Lisboa (secretário geral da RIA era Jorge Sampaio) e do Porto,  a realização do I Encontro Nacional de Estudantes, que mereceu logo a proibição do Ministro da Educação. Porém nós mantivemos a decisão do Encontro, o que obviamente desencadeou uma violenta campanha com intervenção policial. Por coincidência no dia de abertura do Encontro(9.3.1962) eu parti para Moçambique, satisfazendo a tradição de sempre qualquer deslocação de uma secção da AAC ser acompanhada por um elemento da direcção-geral, neste caso era o basquetebol. Claro que manifestei pública e oficialmente o meu apoio absoluto à realização do Encontro. Foi muito interessante a minha postura em Luanda e Lourenço Marques, em que nos discursos oficiais eu pude transmitir a postura da  AAC, o que foi acolhido com muito entusiasmo particularmente pelos anfitriões Drs. Almeida Santos e Soares de Melo.

Quando, algum tempo depois, fui interrogado no processo disciplinar pelo inquiridor e assistente da Faculdade de Direito e ex-presidente(de direita)da AAC Manuel Mesquita, tentou desligar-me da minha solidariedade, sugerindo-me que pelo facto de não ter estado fisicamente presente no Encontro, tal seria tomado em consideração. Entretanto a actividade continuava fervilhante, com assembleias magnas quentes, luto académico e anulação da Queima das Fitas de 1962,que causou sofrimento particularmente aos quartanistas. O tempo ia passando e em plena época de exames(2.7.1962)recebo no correio a comunicação de que por decisão do Senado Universitário, homologada pelo ministro Lopes de Almeida, fui expulso de todas as escolas nacionais por 2 anos com efeito imediato. No dia seguinte faria exame oral de Urologia, pelo que pedi para falar com o júri (Profs. Morais Zamith e Luís José Raposo) comunicando-lhes que não prestaria provas porque estava expulso pelo Senado (a que eles pertenciam !). Ficaram sem saber o que dizer.

Não senti gestos de solidariedade explícita por parte dos colegas. Comuniquei aos meus pais, regressei à Guarda onde constatei que no Governo Civil havia indicação para recusar    passaporte. Mas encontrei o ex-professor de religião e moral, Padre Inácio, que me propôs  participar num curso de cristandade!
Depois, resumidamente:

Inicio de 1963 emprego como delegado de propaganda médica concomitantemente com frequência voluntária(disciplina e funções de médico interno)do serviço de Medicina do Hosp. Sta. Maria e urgência semanal no Hospital S. José.
Outubro 63:casamento com as ajudas dos nossos pais + empregos (a Marília trabalhou 1 ano  na Escola primária do Bairro Alto). É justo lembrar que os meus pais custearam a minha vida desde sempre até à partida para o exílio em 1967(30 anos).
Julho de 64 e setembro de 65:nascimentos do Pedro e Rui.

Em outubro de 64 reinicio o 6.º ano na Fac. Medicina de Lisboa, mantendo o emprego. Estabeleci relações de amizade com novos colegas de curso, participei na récita de fim de curso e na viagem de curso - Itália, Áustria e Suíça. Aquisição por via mutualista do Montepio Geral dum apartamento em Alfragide. Após o estágio obrigatório(=7.º ano de Faculdade), defendi tese de licenciatura em 18.1.1967 e terminei então o emprego de delegado PM.

Ainda indeciso sobre o que fazer, integrei um grupo de estudo para preparação ao Concurso para o internato geral dos Hospitais Civis de Lisboa. Desse grupo já só me lembro do Souto Teixeira e do Brandão Rocha. Foi através do Souto que conheci o Branquinho. Fiz o concurso em março-abril tendo ficado classificado em 16.º lugar entre 64 concorrentes. Não cheguei a tomar posse, porque decidi então sair do país. A posse teria que ser homologada pelo poder político e por outro lado seria reinspeccionado como médico e em seguida mobilizado para a guerra colonial.

Saí do país em 10.5.67 e em 1 de junho comecei a trabalhar como interno residente num   hospital geral com 100 camas, na Suiça (H.Vallée de Joux). Um mês depois a Marília e os 2 filhos, Pedro (3 anos) e Rui (2 anos) juntaram-se-me e passámos a viver num pequeno apartamento simpático integrado dentro do hospital. Durante 6 meses acumulei com substituição no consultório privado de clinica geral.
Outubro de 68:internato de medicina interna no Hospital Cantonal de Friburgo. Fiz 2 substituições de 15 dias em medicina geral privada.

Janeiro 71:internato de ginecologia + obstetrícia no Hospital distrital de Martigny.
Abril 72:internato g/o na Clínica Universitária de Lausanne onde obtive o diploma federal da especialidade em 30.4.76.
Maio 76: regresso a Portugal e em 10.12.76 após múltiplas dificuldades burocráticas ingresso como especialista no Hospital Distrital de Portimão.
Abril 79: concurso nacional com provas teóricas e práticas para especialista dos hospitais.   Em ginecologia fiquei em 1ºlugar entre 9 concorrentes e em obstetrícia em 4º lugar entre 20 concorrentes, o que me permitiu entrar no quadro do Hospital de Faro em 14.1.1980.
Já que contei este capítulo, mas como não vou escrever Memórias nem blogs e como já escrevi um texto sobre Solidariedade, um dia destes escreverei outro sobre Hostilidades.
27.6.2015

Ponte Europa – Dado o interesse deste depoimento enviado a um grupo restrito de amigos do autor, pedi-lhe autorização para o divulgar. Aqui fica, como homenagem aos protagonistas da crise de 1962.

segunda-feira, julho 20, 2015

Alexis Tsipras, Syriza e sondagens

Se hoje houvesse eleições – dizem as sondagens –, Alexis Tsipras venceria com maioria absoluta.

Os gregos, por mais que lhes digam que cinco meses do Syriza foram responsáveis pela tragédia dos últimos cinco anos, preferem a derrota de quem teve a coragem para lutar, à ignomínia de quem rasteja em tornos dos poderosos.

Preferem uma estrela que brilhou na luta aos satélites que apenas refletem a luz alheia.

Há mais de um ano, sempre a crescer


É no Porto, para levantar uma tigela de sopa e um prato quente de comida. Em Portugal, o país que foi bem sucedido nas reformas.

domingo, julho 19, 2015

A capitulação grega e Wolfgang Schäuble

Após a reunião do Eurogrupo, sobre o ‘caso’ grego, pensei em Cervantes, na Inquisição e  na Pide, numa estranha viagem em que revivi literatura, história e política. À primeira fui buscar D. Quixote, investindo contra moinhos de vento, Tsipras, debalde, a brandir a espada; na segunda vi a Contrarreforma a flagelar com sádicos instrumentos de tortura a heresia grega de dizer impagável a impagável dívida, cujo adjetivo ninguém permite e o implacável Schäuble a querer a humilhação do mensageiro e a imolação da Grécia, qual Torquemada ao serviço da Inquisição do ultraliberalismo.

Mas foi a história recente de Portugal que me levou a perceber o drama de Alex Tsipras. Recordei os presos políticos exaustos, após meses de tortura, noites de insónia, ameaças à família, a vacilarem para salvar uns a troco de traírem outros, ele que tinha contra si portugueses, espanhóis e outros camaradas da insolvência.

Antes do 25 de Abril, magoava-me a dureza com que resistentes julgavam outros, quem não resistia à tortura, consciente dos limites humanos da resistência e da tempestade que varre um preso entre a solidão, o terror e a fidelidade que deve, no estado de torpor em que o colocavam, perante o dilema de quem devia salvar. Quem vacilava era acoimado de rachado.

É à luz do passado que hesito em julgar o presente. Afinal a Sr.ª Merkel foi uma pomba, sem que a Alemanha prescinda de decidir quem substituirá Tsipras no próximo resgate.

sábado, julho 18, 2015

A oculta derrota de Schäuble…


O Parlamento alemão discutiu ontem o novo plano de intervenção na Grécia. A República Alemã exerceu deste modo as suas competências parlamentares já que se trata da gestão e aplicação dos dinheiros públicos e é natural que os representantes do povo dêem o seu aval. Para além deste acto formal de confirmação da decisão já tomada por Merkel no último Conselho Europeu o que pairou no ar foi um notório clima de tensão entre a chanceler e o seu ministro das Finanças. Nada de extremamente divergente em matéria de estratégia para a Europa mas o vulgar conflito entre o ‘mata-se’ e o ‘esfola-se’.

Schäuble, todavia, aproveitou a situação embaraçosa para dar um passo em frente. Anunciou que não haveria qualquer renegociação da dívida grega invocando ‘regras da Zona Euro’ link.

Como temos conhecimento a dívida grega já foi sujeita a um corte, em 2011 e, nessa altura, essa situação foi considerada como um ‘evento de crédito’, sem outras consequências. Aliás, o corte na dívida grega que foi efectuado não passou de uma operação de cosmética com diminutas repercussões em termos efectivos na economia servindo antes para o equilíbrio do sistema financeiro.
Por outro lado, o termo 'renegociação' (que teve origem no seio da Esquerda) foi banido do léxico burocrata. O que se ouve nos corredores de Bruxelas, e mais recentemente em Frankfurt, é o eufemismo de um ‘alívio da dívida’ (mais do agrado da Direita).

Na verdade, a Europa do Sr. Schäuble confina-se à área financeira. Visa a consolidação das instituições dessa área, prioritariamente, as alemãs. Esta política instrumental que está a ser paulatinamente ‘construída’ levará a que os acertos orçamentais e da dívida se façam à custa de uma austeridade galopante, i. e., de ‘transferências’ de capital dos bolsos dos contribuintes para o sistema financeiro europeu e internacional. Deste modo, o Sr. Scauble assume o papel de fautor e a Srº. Merkel uma mediadora com aparentes preocupações políticas e geoestratégicas. São um par inseparável.

O que se passou à volta do acordo sobre o 3º. resgate à Grécia veio expor aos europeus todo este macabro tacticismo.
O ‘suplício’ de Alexis Tsipras não terminou. Aliás, só é previsível que cesse quando se demitir (ou for demitido) sobre a pressão popular.
Os próximos pacotes terão como contrapartida o endurecimento das medidas de austeridade. E a cereja em cima do bolo será quando a Europa enfrentar a incontornável questão da reestruturação da dívida. Aí, Merkel, vai exigir nomear o próximo Ministro das Finanças grego. Um sósia de Schäuble.

O ‘alívio’ da dívida, ou da austeridade, só será possível com o do alijar pela borda fora desta camarilha que tem dirigido a Europa e o regresso aos princípios fundadores da União Europeia. Outra hipótese, já há algum tempo em marcha, é prosseguir o desmantelamento da UE. Estes são os caminhos possíveis para ultrapassar os sucessivos impasses.
As regulamentações (regras) da Zona Euro que o Sr. Schäuble ‘cria’ e evoca a seu belo prazer, não passam de um fogo-fátuo. Para aumentar a pressão, hoje, o ministro faz um braço de ferro com a chanceler ameaçando com a sua demissão link. A crise política que daí pode advir só tem um objectivo: afundar ainda mais a Grécia a partir da desestabilização europeia.

Resta bastante claro que Schäuble foi um dos derrotados na maratona negocial da semana passada. O desforço em que se empenhou revela que algo está a desfazer-se...

Portugal – as dívidas e as dúvidas

Diz o FMI que a dívida grega “se tornou insustentável” e ‘exigiu’ o alívio sob a ameaça de se excluir do pré-acordo com que Tsipras e a UE fingiram resolver a situação. Que a dívida da Grécia é impagável, por mais dilatado que seja o tempo a que amarrem o País, por mais sofrimento que inflijam aos gregos, já todos o sabemos.

Sabemos igualmente que a UE finge que a portuguesa, espanhola, italiana e francesa se pagarão com crescimentos económicos do domínio da fé. É preciso manter os governos de direita e acreditar em milagres, sendo a primeira decisão insofismável e a segunda do domínio esquizofrénico.

Manuela Ferreira Leite, a perigosa esquerdista do PSD que, ao contrário de Cavaco, não esqueceu princípios elementares de macroeconomia e, contrariamente a Passos Coelho, os estudou, disse que a União Europeia tem uma dívida cuja reestruturação é inevitável para poder ser paga.

Este Governo não resolveu qualquer problema e agravou-os todos com a cumplicidade partidária do PR e a abolia desta maioria, mas este governo ou outro não poderão pagar a dívida que resultou, em primeiro lugar, da crise internacional das dívidas soberanas, da economia de casino do sistema bancário, e, em menor medida, de erros dos governos portugueses, incluindo o atual, do aventureirismo ou roubos no BPN, Banif, BCP, BES, e os que ainda aí virão, das administrações autárquicas, com particular destaque para o Governo Regional da Madeira e da voracidade dos próceres do regime que puseram o produto dos roubos a recato de um qualquer offshore.

Depois da redução de salários e pensões, do brutal aumento de impostos, das vendas do património do Estado (Portugal foi campeão europeu de privatizações em 2012, 2013 e 2014, ocupando sempre, nestes anos, o primeiro lugar em volume de vendas a nível europeu), como é possível explicar que a dívida pública de cerca de 90% do PIB, deixada pelo anterior Governo, tenha ultrapassado largamente os 120%?

À venda dos sectores estratégicos PT, EDP, Galp, ANA, REN, Carris, TAP, juntou a CP Carga, Correios, hospitais, quartéis, até o Oceanário e o Pavilhão Atlântico, na vingança contra o 25 de Abril em que contou com a cumplicidade entusiástica do PR.

Com a contrarrevolução feita e o país penhorado restam feridas para lamber na ‘apagada e vil tristeza’ a que os portugueses e os próximos governos ficam condenados. Não restam dúvidas, só dívidas.

sexta-feira, julho 17, 2015

O PAI-NOSSO SEGUNDO JACQUES PRÉVERT

PATER NOSTER

Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terre
Qui est quelquefois si jolie
Avec ses mystères de New York
Et puis ses mystères de Paris
Qui valent bien celui de la Trinité
(...)

Pedro, o cuco…


Passos Coelho, quando regressou da maratona negocial de Bruxelas, vangloriou-se que tinha sido o autor da ideia do ‘fundo de privatizações’ para a Grécia link . Nada havia para estranhar e muito menos para celebrar já que esse 'fundo' faz parte do aviltante ‘pacote de humilhações’ que adorna o ‘3º. programa de resgate’ da Grécia.

Hoje, foi desmentido pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que atribuiu a paternidade do facto (e de facto) ao primeiro-ministro holandês, Mark Rutte link .

Como sabemos o cuco é uma ave que costuma pôr os ovos nos ninhos de outros pássaros...

Que escolha teremos de fazer num futuro próximo:
- Entre um mentiroso e aquele repetitivo boneco canoro que adorna os relógios de parede?

A obscena apropriação do dinheiro dos funcionários públicos

CM, hoje (capa)

O Eurogrupo

O Eurogrupo, que carece de legalidade, é um grupo clandestino formado pelos ministros das Finanças da União Europeia.

Sabe-se apenas que é uma orquestra que toca para si própria sob a batuta de Wolfgang Schäuble, ao arrepio do escrutínio dos países a que pertencem os músicos, e cuja pauta é alemã, com arranjos do maestro.

A democracia é a última das suas preocupações, mas pode tornar-se o primeiro dos seus medos. Assim o queiram os povos que querem uma Alemanha europeia e não aceitam a Europa alemã.

quinta-feira, julho 16, 2015

Afinal, como é?

O homem que foi o primeiro responsável pela governação nacional nos últimos 4 anos não se cansa de proclamar que foi ‘obrigado’ a tomar medidas que ninguém gosta, oriundas de um programa que não negociou, …, etc. A 'lenga-lenga' eleitoral do costume.

Na apreciação tecida no Porto acerca das declarações  proferidas pelo líder do Syriza (Alesis Tsipras), que afirmou não acreditar nas medidas impostas à Grécia, classificou-as como não sendo um ‘bom sinal’link.

Sendo que se pode deduzir não ser suficiente o cumprimento dos programas de resgate. É preciso acreditar neles (isto é, ser neoliberal).

E ficamos a saber que a confiança - sempre invocada nas reuniões de negociação - advém daí. Do compromisso partidário. Porque de política estamos conversados.

GRÉCIA: Reflexão amarga sobre a votação no parlamento …


Atenas viveu ontem um dia negro da sua longa existência política link. Os acontecimentos recentes alimentam o caos, num clima com muitas características pré-revolucionárias.
O risco de o poder cair na rua nunca foi tão grande. A democracia vale muito mais do que o réquiem orquestrado em Bruxelas durante os últimos 5 meses. A repressão que voltou à praça frontal ao Parlamento grego tem pouco caminho para andar enquanto durar a democracia. Ontem foram os anarquistas que fieis às suas crenças se manifestaram mas ninguém duvida que amanhã serão os apoiantes do Syriza, da Aurora Dourada, etc.

É cada vez mais evidente que a impositiva e alienante estratégia do poder financeiro não se coaduna com uma vivência democrática. A intervenção externa e a humilhação são armas terríveis porque afrontam directamente a dignidade dos povos. E uma vez beliscada a dignidade deixam de existir mecanismos de controlo e de coesão da sociedade.

A Grécia hesita entre estigmas dramáticos: a desilusão, o inconformismo, o repúdio e a submissão. Sob estes pilares nada de positivo, que tenha futuro ou seja duradouro, pode (ou deve) ser construído.
A questão fulcral passou a ser:
- a permanência na zona euro justifica todos estes desmandos?
E, ainda, outra:
- no fim desta cavalgada de austeridade o que restará de identidade a este martirizado povo helénico?

Ontem, soou pela Europa uma versão trágica e suicida dos célebres hinos órficos. Estes falavam do fogo, da prosperidade, da riqueza, da juventude e da beleza. Ontem, segundo a milenar tradição helénica, procedeu-se a uma pungente imolação destes valores, celebrada com o venal erguer dos flutes de champanhe em Berlim, Frankfurt e Nova Iorque.

As insuportáveis odes à pobreza, à miséria, à submissão e à indignidade declamadas (proclamadas) pelos (neo)sacerdotes do capital, sucumbirão – mais rapidamente do que se julga - no altar da Humanidade, antro comum de todos os povos.
Algum Prometeu se (re)encarregará de roubar o fogo aos deuses e entregá-lo aos homens.

A Europa, a Alemanha e o “IV Reich”

Concordo com a Sr.ª Merckel ao dizer que os países europeus devem estar preparados para perder soberania. Há muito que defendo a integração europeia, política, económica e social, com harmonia fiscal, diplomacia comum e defesa coletiva, o que não é pacífico entre os europeus. Só desconheço se a chanceler engloba na afirmação a Alemanha, cuja reunificação foi benevolência de vencedores, e se a vontade democrática dos povos que a habitam é tida em conta.

O pré-acordo com a Grécia, embora admita a reestruturação da dívida, uma necessidade comum a toda a União Europeia, foi um acordo firmado sob o sequestro do povo grego, com Tsipras a ver as imagens do seu país sem comida, medicamentos ou alternativa. Foi um acordo apoiado em métodos da Inquisição para a obtenção de provas de heresia.

O Sr. Wolfgang Schäuble provou que não desdenha o “IV Reich” e que a destruição do Syriza e a expulsão da Grécia da zona euro e da UE eram o seu objetivo. O primeiro já o conseguiu e o segundo está em curso com um único percalço, a União Europeia e a sua moeda não sobrevivem ao naufrágio grego. O implacável ministro alemão das Finanças sabe de números mas esquece a história do seu país e desconhece a alma dos povos que são filhos da cultura helénica e herdeiros do Iluminismo e da Revolução Francesa.

Os ministros que se põem de cócoras ou pousam a seu lado, para o álbum da ignomínia, são seus cúmplices na destruição da Europa, ontem sob as botas cardadas, agora sob as regras que impõe aos outros e não cumpre, à revelia de qualquer escrutínio democrático.

Há um clamor entre os europeus, que não exoneraram a ética e a solidariedade dos seus sentimentos, que acaba virado contra a Alemanha e a impedirá do devaneio hegemónico e do despertar dos demónios que ciclicamente ressuscita para atormentar a Europa.

Se os alicerces do IV Reich já foram lançados é o novo holocausto que se aproxima.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 15, 2015

Silly season - humor negro

Declaração

«Este é um bom exemplo de como os erros do governo [grego] durante uma negociação externa se transformam em sacrifícios muito grandes para a população (…) Seria algo impossível em Portugal».

(Cavaco Silva, porta-voz deste Governo, proprietário da vivenda Gaivota Azul)

Silly season - humor


Para a biografia de quem só tinha cadastro


terça-feira, julho 14, 2015

Arraial saloio ou um Carnaval eleitoral…

O debate sobre o Estado da Nação foi um arraial de interpretações sui generis que pretendem ‘marcar’ a campanha eleitoral. Foi a antecâmara do que se vai passar na campanha eleitoral arquitectada pela actual maioria.

Tudo gira – na concepção da actual maioria - no pedido de assistência externa solicitado em 2011, continuou com o percurso de resgate para terminar sobre a análise da situação actual. 
Vamos circunscrever-nos ao chamado pedido de ‘resgate’. Em 2011, não fomos empurrados para uma situação difícil unicamente por erros do Governo de Sócrates, embora estes sejam indesmentíveis. 

No ano de 2011 aconteceu a necessidade de solicitar auxílio externo, por diversas razões. Convinha não esquecer que a especulação orquestrada pelos mercados que rapidamente passou da crise financeira inicial dos ‘subprimes’ para a da dívida soberana que nos envolveu pesadamente foi, quando se olha para o volume actual da dívida pública portuguesa, manifestamente artificial. Serviu para interferir na política interna de acordo com um padrão ideológico escondido por detrás de um resgate financeiro.  O pedido de intervenção externa, por outro lado, teve cúmplices internos, com especial relevo para a actual maioria que ‘confessou’ ser do seu agrado governar sob os auspícios da Troika . A cumplicidade da Direita vai ao ponto de se ter apressado a sentar à mesa das negociações e aí ditar as suas dicas sobre o conteúdo de um memorando de entendimento que agora é assacado como sendo da única responsabilidade do Governo PS então em funções. Não o foi e os portugueses conhecem as circunstâncias políticas e financeiras que o ditaram. Se houve alguém que lavou as suas mãos dessa infame desgraça que caíu sobre o nosso País foi certamente a Esquerda mais radical (PCP e BE) que, na altura, se recusaram a participar na negociação do famigerado memorando, sem resultados palpáveis.

Argumentou o chamado ‘arco do poder’ que, dadas as circunstâncias, não havia outra alternativa. Nunca o saberemos porque tudo ‘cozinhado’ para ser apresentado como uma inevitabilidade. 
Mais, o programa imposto por Bruxelas escudado no FMI, claramente tendo por base a concepção ideológica dominante, ultraliberal, representada pelo Partido Popular Europeu (PPE), foi vendido como sendo a única saída credível (para os mercados). Para reforçar as condicionantes sublinhou-se que FMI era uma organização com experiência na intervenção em países com dificuldades. Mentira: Não tinha qualquer tipo de lastro de intervenções em Países com moeda comum (sem capacidade de desenvolver políticas monetárias e cambiais próprias)

Sobre a credibilidade das medidas propostas para o dito “resgate”, ninguém, neste arco do poder, ousou questionar. Os números que agora se classificam de errados (e efectivamente estavam) serviram para justificar a mais severa austeridade. Existia a convicção que o primeiro passo passaria pelo controlo das contas públicas. O que nos foi ‘oferecido’ foi outra coisa. 

Faltou a ousadia de submeter destas questões a um escrutínio ou a um referendo. É óbvio que será legítimo questionar se um País pequeno, com uma economia débil, problemas de solvência financeira, endividado, teria forças para resistir à avalanche neoliberal que varria (e ainda varre) a Europa. 
Com certeza que não. Mas faltou a capacidade de questionar e a dignidade de resistir. Esse foi o grande pecadilho decorrente das eleições de 2011. Seria bom que em 2015 não se repetissem os mesmos erros. A democracia não resiste a tudo. O Carnaval regressa todos os anos.

Notícias que só o são conforme o quadrante


Esta notícia devia merecer averiguação.

Se o ridículo resolvesse o défice...

Nenhum dirigente europeu corroborou a narrativa com que reivindicou o 1.º lugar no campeonato do ridículo.

segunda-feira, julho 13, 2015

Um mini-balanço para um maxi-problema…

O Eurogrupo chegou esta madrugada a um acordo para manter a Grécia na moeda única link
Sempre a moeda na centralidade dos mecanismos decisórios.
Um dia chegará a vez da política (europeia). Nesse dia teremos a noção da fragilidade, da indecência e do carácter efémero do se pretendeu, ainda, ‘arrancar’ do já espoliado povo grego, sob a batuta dos ‘credores’.

A Europa conseguiu [mais uma vez!] adiar a hecatombe anunciada no horizonte do Velho Continente. Segue-se um compasso de espera com as eleições gerais em Portugal e Espanha. De seguida o filme prosseguirá com estes ou outros actores. As eleições decidirão. Mas sendo importantes os protagonistas fulcral será o guião (político). É por esta razão que muitos cidadãos europeus esperam (desejam) que a crise grega possa ter aberto novas portas. É, também, por estas razões, que as eleições peninsulares tornaram-se, subitamente, importantíssimas. O equilíbrio (e dialecticamente todos os desequilíbrios) passarão por aqui.

O acordo arrancado ‘a ferros’ ontem, com outras variantes do espectro político e outros protagonistas (por esta ordem), teria sido fácil, menos pungente, enfim, mais justo.

O fogo na UE e o bombeiro Passos Coelho

O pânico da União Europeia e o desespero da Grécia consentiram um amargo e precário pré-acordo no duelo onde os falcões quiseram esmagar o povo que resistiu à chantagem e ao medo no último referendo, para castigarem o sentido do voto democrático.

A grande vantagem, para além de mitigar a crise humanitária do povo grego, residiu na quebra da unanimidade em torno da Alemanha, com a França e a Itália a deslocarem-se em direção à Grécia, contra a troika, conscientes do perigo que as ameaçava e do risco de implosão da UE. Os próximos tempos constituem uma excelente oportunidade para novos realinhamentos e para que as várias famílias políticas ponderem a UE que querem e, sobretudo, a que recusam, até à próxima crise.

Do lado contrário mantiveram-se os governos de Espanha, Portugal, Eslováquia e outros exíguos satélites alemães, adquiridos pela UE para que a Nato pudesse cercar a Rússia com bases militares, na cegueira de quem teme o autocrata Putin, de um país que devia ser aliado, e despreza a perigosidade do Islão que estarrece a Europa laica e civilizada.

Passos Coelho deixou de ser a insignificância nacional e passou a ser uma irrelevância internacional ao gabar-se de ter sido a representação portuguesa (ele próprio) a sugerir a pouco recomendável instituição ‘independente’ no Luxemburgo para onde o Eurogrupo propôs transferir 50 mil milhões em ativos gregos.

Por ignorância, não por tão baixa subserviência, PPC não sabia que a instituição referida é gerida pelo KfW, banco estatal alemão, administrado por detentores do poder político, sendo “chairman” Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças, e vice-chairman Sigmar Gabriel, o ministro da Economia.

Delenda est Syriza

Destruamos o Syriza, diz o Catão prussiano, acolitado pelos bajuladores do costume, a lembrar, no fanatismo e na deficiência, o tristemente célebre general franquista, Miláns del Bosch, a gritar na Universidade de Salamanca, «Viva a morte»!

Hollande ainda se esforçou por ser Unamuno, sem a grandeza e a coragem do reitor da Universidade de Salamanca, mas os satélites fazem coro com o implacável Schaeuble, sem perceberem que repetem a história do lobo, quanto à credibilidade grega, quando acusam o seu último governo, de cinco meses, da desconfiança que deviam merecer-lhe os anteriores, conservadores e desonestos, dos cinco anos precedentes.

Sem menosprezar o grave problema grego, aliás comum aos que acreditam em milagres em casa, não é apenas a Grécia que está refém dos humores dos falcões, é a democracia e a União Europeia que estão suspensas.

A humilhação de um partido democrático, sufragado em eleições e de novo legitimado pela via referendária, hostilizou um povo e abriu a caixa de Pandora na União Europeia. A moeda única, a paz e a unidade europeia deslizam sobre o fio da navalha, com o Islão e outras metástases a prenunciarem o pior prognóstico ao cancro que corrói a UE.

A Alemanha e os seus aliados iniciaram todas as guerras, sem vencerem nenhuma. Hoje não se adivinham vencedores porque, antecipadamente, já todos foram vencidos.

Os próximos dias serão de pânico e os próximos anos de pavor. O grito «Viva a Morte!» ressoa nos corredores de Bruxelas e nas maratonas do Eurogrupo.

domingo, julho 12, 2015

Para memória presente (2)


sábado, julho 11, 2015

Madre Teresa de Calcutá e a indústria dos milagres

Deixo a biografia de Madre Teresa para os ódios de estimação e os devotos do costume. Refiro apenas a ajuda que prestou a João Paulo II na defesa da teologia do látex quando em África morriam centenas de milhares de vítimas da Sida e um cardeal afirmava que o preservativo era perigoso.

João Paulo II (JP2), amigo do peito e da hóstia de Pinochet a quem denodadamente quis defender, sem êxito, da prisão em Londres, foi mais político do que santo. Madre Teresa escapou à canonização em vida por não ser canónica antes da defunção. Recém defunta, obrou o primeiro milagre.

JP2 atribuiu a cura de uma indiana, com um tumor gástrico, à intervenção sobrenatural de Madre Teresa, um ano após a sua morte, e logo assinou um decreto confirmando a veracidade do milagre, com vista à beatificação da freira. A jovem indiana Monica Besra explicou em 1998 que foi curada de um tumor de tamanho grande no estômago mediante orações à Madre, apesar de os médicos que a trataram terem assegurado que ela não tinha cancro, mas um quisto. O Vaticano aceitou a cura como milagre em 2002.

Foi o que deu encomendar o milagre em país pouco devoto ao Deus de Madre Teresa!

O papa Francisco, com alvará para criar santos, é mais prudente, por vergonha ou receio de que o segundo milagre seja de novo posto em causa, mas os negócios da fé não se compadecem com pausas na máquina da santidade.

Assim, o milagre de que a bem-aventurada precisa, para ser elevada de beata a santa, foi adjudicado no Brasil, com menor hipótese de escândalo, também na especialidade de oncologia. Foi obrado em Santos e está a ser ‘investigado’ pelo Vaticano para canonizar Madre Teresa de Calcutá. Um homem internado em estado terminal, num dos hospitais da cidade, teve cura inexplicavelmente alcançada, segundo a Cúria Diocesana de Santos.

Não espanta a vocação dos defuntos para o exercício ilegal da medicina, o que admira é o faro do Vaticano para descobrir o/a taumaturgo/a.

Como é hábito, depois de apresentarem currículo para a canonização, os santos, depois de o serem, nunca mais se dão ao trabalho de obrar novos milagres. E a falta que fazem!

sexta-feira, julho 10, 2015

Para memória presente


quinta-feira, julho 09, 2015

Parabéns, Fernando!

Fernando Paulouro das Neves - jornalista e escritor

Quando fiz uma incursão tardia no domínio da crónica, no Jornal do Fundão, a convite do saudoso Oscar Mascarenhas (Chefe de Redação) tive Fernando Paulouro das Neves como Diretor do jornal.

Hoje, através do JF e da Visão, tomei conhecimento da atribuição da Gazeta de Mérito a Fernando Paulouro das Neves, diretor do JF, até 2012, por ter exercido a profissão «com paixão, inteligência e grande rigor deontológico».

A justificação do júri fala por si. Eu limito-me a deixar aqui um abraço ao amigo.

A Concordata de 2004

A cerimónia de despedida do núncio apostólico em Lisboa, em 2002 deixou as piores apreensões sobre os bastidores das negociações da Concordata.

O então MNE, Martins da Cruz (foto), prometeu o que não podia nem devia, o reforço da influência da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) no domínio «do ensino, da assistência social, da cultura, nos múltiplos domínios em que nos habituámos a ver uma Igreja ativa e empenhada em contribuir para a solução de problemas nacionais».

É sempre através das redes de assistência social [lares, hospitais, escolas, creches] que as Igrejas se infiltram para controlar o quotidiano dos cidadãos. A tragédia dos países islâmicos, onde a religião tem hoje a mesma influência que a ICAR tinha na Europa na Idade Média, devia fazer refletir os crentes e os não crentes. E, com total impunidade, afirmou ainda: «Como católico considero um privilégio ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros no momento desta importante negociação».

O país livrou-se do ministro e não se livrou da Concordata. A experiência de 1940 devia ter-nos vacinado contra a reincidência. A própria ICAR, que sofreu o ónus de se tornar refém da ditadura fascista, associada à repressão de meio século, devia evitar a tentação dos privilégios, embora quem tenha privilégios os julgue ‘direitos’.

Esta Concordata foi negociada à sorrelfa e não foi fácil aceder-lhe, mesmo alguns dias depois de assinada. Urge discutir o texto que, depois de ratificado, se tornou direito interno português, diretamente aplicável.

A religião não se impõe por tratados. A propagação da fé não se confia aos Estados. O mundo islâmico é o mais trágico exemplo. A Concordata, não pode ser um tratado de Tordesilhas que submeta à órbita do Vaticano um país a que a Cúria trace o meridiano. A subserviência à tiara não augurou nada de bom para o futuro que se queria plural e a revisão ficou à mercê do promíscuo contubérnio entre ministros de Deus e de Durão Barroso. O resultado está aí.

Não consta que a ICAR tenha sentido qualquer limitação ao exercício do múnus nestes anos de democracia. Que pretendia mais, ou o que pretendeu proibir?

A Concordata fere princípios de universalidade e igualdade de direitos e de obrigações, que a lei geral estabelece e acautela; opõe-se à lei geral na medida em que a ICAR exige tratamento especial naquilo que lhe diz respeito; e enuncia deveres religiosos como se o princípio da separação não impusesse ao Estado total alheamento em relação a esses ‘deveres’.

Por ser bizarro, cita-se o n.º 2 do Art.º 15: «A Santa Sé, reafirmando a doutrina da Igreja Católica sobre a indissolubilidade do vinculo matrimonial, recorda aos cônjuges que contraírem o matrimónio canónico o grave dever que lhes incumbe de se não valerem da faculdade civil de requerer o divórcio».

Imagine-se que, por reciprocidade, havia um n.º 3 com esta redação: «A República Portuguesa, reafirmando a doutrina do Estado sobre o casamento civil, recorda aos cônjuges que contraírem o matrimónio civil o grave dever que lhes incumbe de se não valerem da faculdade canónica de requerer o matrimónio religioso».

Enfim, a Concordata fere a laicidade do Estado e não era, nem é, precisa.

Talvez só o facto de ser assinada apenas por Durão Barroso e o cardeal Angelo Sodano nos tenha poupado à primeira frase da de 1940: «Em nome da Santíssima Trindade».

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 08, 2015

O Governo e o luto nacional

Eusébio teve direito a 3 dias, Saramago e Manuel de Oliveira a 2, a vidente Lúcia a 1 e Maria Barroso a esgares de conveniência.

A FRASE

«Grécia e zona euro têm de se preparar para o pior»
(Passos Coelho, ontem à saída da reunião do Conselho Europeu)

Passos Coelho, putativo PM saído da proveta de Miguel Relvas, Marco António e Paulo Júlio, ungido por Cavaco Silva, acabou, à força de lhe chamarem primeiro-ministro, por assumir a representação do cargo.

A inépcia é tal que, ainda há dias, assegurava que Portugal era imune ao que se passasse na Grécia, enquanto o PR o secundava com o prestígio de um curso honestamente tirado mas esquecido na cegueira de notário do PSD.

Perante aquilo que qualquer leigo sabia, com notícias de que só a Bolsa chinesa, em três semanas,  perdeu 10 vezes o PIB grego, lá percebeu os avisos de Obama e de todos os responsáveis políticos que previram, passe o paradoxo, a imprevisibilidade das trágicas consequências da falência grega a nível global.

Indiferente ao drama grego, e ao facto de Portugal ser quem se segue, o inepto político, amestrado na madraça da JSD, limitou-se a ajudar a esticar a corda que asfixiou o povo grego sem saber que sobrava para quem lhe permitiu o lugar que ocupa.

E ficará até outubro, com o país sem rumo, sem desígnio e sem Orçamento de Estado para 2015.

Grécia: a ordem democrática das coisas…


O ultimato do Eurogrupo à Grécia, publicamente transmitido por Doanld Tusk (presidente do Conselho Europeu) é um facto político verdadeiramente obsceno. 
Simultaneamente, a revelação feita por JC Juncker (presidente da Comissão Europeia) de que a UE tem já trabalhado um cenário de Grexit link,  provavelmente com prejuízo do empenho em encontrar soluções negociadas (é legítimo pensar isso), mostra a prossecução de intimidação por parte dos mesmos que apontam os encontros Tsipras com Putin como manobras provocadoras.

É muito difícil calcular o impacto de referendo grego na política europeia. Mas dentro desta névoa de dificuldades há uma coisa que parece óbvia. 
A bola (nesta fase das negociações) passou para o lado do boco de 18 membros do Eurogrupo (segundo a ‘aritmética cavaquista’) e as pressões dos tempos pré-referendários não têm, no actual momento, qualquer cabimento. Todavia, elas continuam na ordem do dia ou até agravaram-se.

A pergunta que parece mais pertinente, na sequência do referendo do domingo passado, é: 
- Face à VITÓRIA do NÃO quais as reformulações que o Eurogrupo pensa introduzir nas suas propostas sobre o resgate grego que tem trazido à mesa das negociações? 
O inverso, i. e., o que está a acontecer, não passa do atirar para cima dos gregos a responsabilidade da propositura de medidas e colocar-se na retranca exigindo a cada cedência, outras mais.
 
O que passou no último Conselho Europeu peca por ser 'pouco democrático' e o permanente endossar da bola para o lado grego ('apesar' dos resultados do referendo), dificilmente se afasta de um intolerável 'ultimatum'...

Falta o vento eleitoral


terça-feira, julho 07, 2015

Maria Barroso


Na morte de Maria Barroso, seria imperdoável não prestar a homenagem devida à grande lutadora antifascista, única mulher fundadora do PS, culta, destemida e democrata.

Aos 90 anos terminou a vida, única e irrepetível, deixando o exemplo de cidadã cuja luta contra a ditadura foi o empenhamento de uma vida.


Obrigado, Maria Barroso Soares. 

Ai Portugal!

Este Governo e esta maioria estarão, até ao limite do que o PR pode, a destruir o País, a minar o ânimo dos portugueses e a corroer os alicerces da democracia.

Este Governo, que dispõe da maioria e do PR, anda à solta. E pior, não podendo atacar a Constituição agride o Tribunal Constitucional quando o obriga ao seu acatamento.

No que diz respeito a privatizações, v.g., EDP e REN, é o Tribunal de Contas que acusa o Governo de não “acautelar os interesses estratégicos do Estado Português após a conclusão do processo de privatização", por não prever “qualquer cláusula de penalização para o seu incumprimento".

Este Governo é um conjunto vazio na competência e cheio de membros capazes de tudo na marginalidade legal.

O desleixo criminoso em relação ao interesse do país não gera alarido público nem um simples gemido de vergonha pelo PR.

O País adormeceu, ferido no orgulho, desalentado e abatido, incapaz de um sobressalto cívico que acorde o Palácio de Belém e leve a inquietação ao de S. Bento.

Portugal já não é um país, é uma coutada.


segunda-feira, julho 06, 2015

Pensando alto...

Não sei se a União Europeia tem meios para apagar todos os fogos e emendar os erros, e a inteligência para reconhecer que os burocratas, que sentem pela democracia a aversão de Maomé ao toucinho, devem, nas decisões, ser substituídos por políticos.

O povo grego ainda só ganhou o respeito pela coragem e dignidade com que resistiu às ameaças e à chantagem. A União Europeia salva-se com a Grécia ou afunda-se com ela.

Ontem, em Atenas, a direita ultraliberal, antidemocrática e caceteira, foi derrotada. Os gregos ajudaram a salvar a Europa enquanto Passos Coelho e Cavaco foram a imagem do síndrome de Estocolmo.

A comunicação social ao serviço dos grupos económicos foi também humilhada. A taxa de participação eleitoral de 40%, que admitia poder ser ultrapassada, para ser válida, foi um estrondo de 62,5%.

A vitória do Não provocou a crispação e  azedume dos que preferiam o Aurora Dourada ao Syriza, para negociarem. As sondagens, que davam um empate técnico, apenas com ligeira tendência para o Não, ficaram desacreditadas. 61,31% dos gregos contra 38,69%, derrotaram esmagadoramente os que encenaram o circo do desespero nos multibancos, os instigadores do medo e, sobretudo, o diretório da UE, com os líderes entupidos.

Pela Europa, por Portugal e pela Grécia, um obrigado ao povo grego que me ressarciu da vergonha que sinto por este PR, este Governo e esta maioria.

Grécia: o “Big NO”!



É cedo para ter uma dimensão (europeia) sobre o rotundo NÃO (“Big NO”) link dos gregos às mais recentes alterações introduzidas no plano de resgate da Grécia pelas instituições europeias e pelo FMI (os representantes dos ‘credores’).

Mas existem duas ilações imediatas:
- A UE tem forçosamente de dialogar com o interlocutor legítimo do povo grego – o Governo grego em funções presidido por Tsipras;
- Não haverá mais espaço para destrinçar esse povo de um Governo que muitas vezes apresentado aos europeus como irrealista, radical e outros ‘mimos’.

As coisas não correram bem para os defensores do “Sim”. E para memória futura convém sublinhar que as instituições europeias - dos organismos intermédios aos de topo - apostaram, publicamente, no cavalo errado.

Na próxima 3ª. feira link  (re)começa a digestão deste referendo que para além de todas as interpretações é um acto político relevante e inovador no seio da UE.

domingo, julho 05, 2015

Passos Coelho: mais uma blague infeliz…

O primeiro-ministro teceu, de novo, mais uma consideração sobre a Grécia. Disse referindo-se aos gregos que “é difícil ajudar quem não quer ser ajudadolink
Incorreu naquela conhecida asserção de o que é novo não é inovador e o que pretende ser inovador não é novo. Isto é, entrou na 'quadratura do círculo'.

Todos se lembram de um trocadilho sobre: “Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa, nem deixa ser governado”. Esta ‘boutade’ é atribuída Júlio César quando, no seu ímpeto imperialista, sentiu, no terreno, dificuldades na ocupação da Península.
Representa, por outro lado, a vontade indómita de marcar a identidade lusitana contra a ocupação estrangeira.

A frase de Passos Coelho, diferente no tempo, encaixa-se no contexto, indo beber a este aforismo. Mostra, contudo, que existe sempre espaço para traidores dispostos a venderem-se. Contudo, Tsipras não é um novo Viriato. 
A Grécia tem uma história longa e rica no que diz respeito à resistência perante múltiplas tentativas de ocupações estrangeiras. Quando muito os gregos têm como referência e inspiração Esparta e o mítico rei Leónidas que, encurralado no desfiladeiro das Termópilas, resistiu heroicamente à dominação persa.

A arenga de Passo Coelho, salvaguardadas as distâncias históricas, faz-nos relembrar o episódio de Minuro, o traidor, a quem coube a vil tarefa de assassinar Viriato. O traidor não teve um 'fim feliz'…

Prometeu agrilhoado

Da trilogia das tragédias, Prometeu agrilhoado, Prometeu libertado e Prometeu portador do fogo, só a primeira permaneceu, sendo incerta a ordem, o que dificulta a investigação do mito grego de que Ésquilo poderá ter sido o provável autor. A lábil interpretação do mito permite ao sapateiro cronista tocar o rabecão ao som do qual o adapta.

Alexis Tsipras é, há cinco meses, o Prometeu acorrentado a Yánis Varoufákis, acusado de cinco anos de dívida insolúvel. Todos os dias os abutres lhe devoram o fígado que se regenera para que o suplício não termine, por ordem de Zeus (Troika) a quem evitou que aniquilasse, na sua fúria, os gregos. A piedade de Tsipras permitiu-lhes viver, mas Zeus, quis que o suplício que lhe destinou por lhes ter ensinado a não desejarem mais a morte, lhes deve também caber, sobretudo depois de lhes dar o fogo com que ateou a ira dos credores. Zeus tinha-o proibido de dar o fogo divino da liberdade, o que incendiou a sua fúria. Prometeu previa o castigo, só desconhecia o grau de violência e a diferença da tragédia original, o castigo para todos.

Zeus temeu que os devedores ficassem tão poderosos quanto os próprios credores e tê-lo-á punido pelo crime, deixando-o amarrado à rocha por toda a eternidade enquanto a águia lhe comia permanentemente o fígado, que crescia novamente no dia seguinte, tal como a dívida, e os abutres dilaceravam as vísceras do povo há mais de cinco meses.

A rocha (Varoufákis) manteve-se firme e Prometeu, tolhido pelas correntes, enquanto a águia lhe devorava o fígado, via as vísceras dos gregos, que quis defender, dilaceradas pelos abutres de Zeus. Perante o suplício convocou o povo para usar o fogo da liberdade que lhe ensinara. Hoje, com os abutres a ameaçarem a Acrópole, devedores e credores estão em pânico. O último relatório do temível abutre [FMI] até confirmou, na véspera do uso do fogo referendário, que a rocha e o agrilhoado tinham a razão que negaram.

Todos os comentadores, antigos e modernos, de Hesíodo a Ésquilo, passando por Safo, Platão, Esopo e Ovídio, de Nova York a Bruxelas e Berlim, são unânimes quanto ao papel decisivo de Prometeu na economia global, execrando-o uns, louvando-o outros, sem que algum saiba antecipar as sequelas do veredicto, seja ele qual for.

O suplício de Prometeu, contrariamente ao mito, pode consumir Zeus no fogo a que era imune. Os deuses morrem com os homens. Uns e outros partilham o destino comum.

Até à recolha das cinzas do fogo referendário que lavra na Macedônia, Grécia Central, Peloponeso, Tessália, Épiro, Ilhas Egeias (incluindo o Dodecaneso e Cíclades), Trácia, Creta e Ilhas Jônicas, deixo aos leitores um belo poema de Goethe, «Prometheus», que recolhi na Wikipédia:

"Encobre o teu Céu ó Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto
Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!
(...)

Eu honrar a ti? Por quê?
Livraste a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?
(...)

Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?
Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:
homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que sejam parias,
não se renderão a ti como eu fiz"

a) Eu também sou grego, hoje, 5 de julho de 2015, era vulgar.