sábado, outubro 31, 2015

Grave suspeita

Reflexão

Não pode ser Cavaco Silva, no seu inferior juízo, a julgar os superiores interesses dos portugueses, o que apenas compete aos partidos que os representam na AR.

No velório de ontem sobressaiu o sorriso do oficiante quando o efémero secretário de Estado – filho de Jaime Gama – assinou a precária posse e o olhar com que perseguiu os glúteos de uma desconhecida secretária de Estado provisória.

A câmara atenta revelou mais do que as palavras da reedição mitigada do ressentimento que o devora.

sexta-feira, outubro 30, 2015

O fingimento que pairou na tomada de posse do XX GC…

Hoje a democracia portuguesa assistiu a um cerimonioso ritual, esvaziado de sentido político, com a lúdica intenção de preservar formalidades. Mais parecia uma sessão de poesia no sentido pessoano do termo. Havia ‘fingidores’ por todo o lado. E, cúmulo da desfaçatez, o coro de jograis, engravatado e sorumbático, fingia que estava ali por 4 anos …

A indigitação do partido mais votado (outra coisa é ‘vencer as eleições’) para formar Governo parte de um costume democrático para, no caso presente, desembocar numa abstracção política. 
Na realidade, a coligação PSD/CDS quer pela prática dos últimos 4 anos, quer pela sua inflexibilidade ideológica que a leva a querer continuar a desempenhar o papel de ‘bom aluno’ acrítico e subserviente, esgota no seu seio a capacidade de alargar-se ou de suscitar os mínimos consensos (mesmo os mais circunstanciais).

A retoma da tese - por parte do Presidente da República - de que governos minoritários podem ser ‘estáveis’ e ‘duradouros’ não passa de um despudorado recuo pessoal, aparentemente assente não em factos políticos, mas em mirabolantes visões salvíficas, que já se tinham revelado em Junho/Julho de 2013.

Nas cerimónias de hoje existiu um facto político relevante e preocupante. Quando o Presidente da República afirma que durante a audição dos partidos representados no Parlamento não lhe foi colocada outra alternativa de governo, das duas, uma: ou recebeu os partidos sem a verdadeira intenção de ouvir o que tinham para dizer, ou sofre de problemas de acuidade auditiva. 
Na verdade, disse de viva voz e está estampado na página oficial da PR: “Tive presente, por outro lado, que, até ao momento da indigitação do Primeiro-Ministro, não me foi apresentada, por parte das outras forças políticas, uma solução alternativa de Governo estável, coerente e credível…link.

Esta manifestação de autismo político não augura nada de bom para a democracia portuguesa. Como o povo sabe o pior cego é aquele que não quer ver, assim como será obvio que o pior surdo é aquele que não quer ouvir.

Apesar de todos estes dislates no discurso na tomada de posse do Governo transparece - pelas palavras de Cavaco Silva - a noção de que na entourage de Belém já alguém tomou nota de que será difícil continuar a servir de modo incólume a Direita, sem que a dignidade do cargo não caia irrevogavelmente na lama.
Daí o tom menos crispado para quem não querendo retirar linhas ou vírgulas, resolveu baixar o registo. Falou uma oitava abaixo. Como voltará a falar daqui a 11 dias (um pouco mais do que uma oitava)?

Esta a incógnita que permaneceu no ar apesar das dúbias vozes que entoavam um soneto que soava a uma ode alusiva à (sua) morte anunciada…

XX Governo Constitucional

Na cerimónia fúnebre da tomada de posse do fictício Governo desfilaram os esqueletos dos figurantes a fazerem prova de que sabiam assinar o livro de atas. O dia dos Fiéis Defuntos foi antecipado 3 dias.

O lúgubre espetáculo terminou com um discurso da coligação mortuária, lido pelo PR terminal, e outro do líder dos defuntos. Resta saber se estes terão direito ao subsídio de reintegração quando regressarem ao convívio das almas penadas.


Cavaco Silva, o anti – PR

No início da década de sessenta do século passado, quando do início da guerra colonial, a Legião Portuguesa, em Coimbra, colocou na varanda um cartaz provocatório «Aqui não reside o temor».

Na casa de estudantes em frente, a «Real República Prá-Kys-Tão», logo apareceu outro: «Aqui também não». Bastou a imaginação democrática para vencer o desafio fascista.

Lembrei-me deste episódio que ficou na memória da cidade e do país com a afirmação de Cavaco Silva, legionário da PàF, esquecido das funções de PR, em relação à ameaça e ofensa aos partidos do novo «arco do poder», não se arrepender de «uma só linha» do novelo em que enredou a lógica, a honra e o respeito que deve a todos os portugueses.

Depois de tão insólita insistência na provocação só há uma resposta, a censura de todos os patriotas a quem tem da democracia uma leve ideia, da República total desprezo e da Constituição, que jurou, uma verdadeira amnésia.  

Fascismo nunca mais

1969 - A questão era saber se era legal as mulheres usarem calças. Este artigo insólito ajuda a conhecer a ditadura clerical-fascista.


quinta-feira, outubro 29, 2015

Tribunal proíbe o grupo Cofina de publicar notícias sobre a «Operação Marquês»

Como os meus leitores sabem, não me tenho pronunciado sobre processos em curso nos Tribunais e, como diz um ilustre magistrado que é leitor deste mural, «tão justiça é a que condena como a que absolve».

Manifesto a minha discordância sobre qualquer decisão que proíba a informação, por mais torpe, oportunista e avençada que seja; por mais repulsa que me mereça; por mais tendenciosa e abjeta que seja, sem, com isto, procurar a absolvição de quem se presta à vindicta, à intriga e à intoxicação. Já a condenação de quem difama, persegue e injuria merece sanções. Também para isso servem os Tribunais.

Não aceito limites à liberdade de expressão que não seja a lei de países democráticos. Foi este o caso. É, pois, legal. Mesmo assim, discordo.

Há 79 anos


O Campo de Concentração do Tarrafal começou a funcionar em 29 de Outubro de 1936 com a chegada dos primeiros prisioneiros.

Recordar esta data de ignomínia é execrar o facínora que o quis, o regime que o instituiu e os cúmplices que apoiaram.

Tenho o privilégio de ser amigo de Edmundo Pedro, o heroico sobrevivente do antro de terror onde a face mais sinistra de Salazar se espelhou. Vai para ele, para a sua coragem e determinação, o abraço fraterno de quem não esquece a violência do regime e as suas vítimas, lembrando todos os que foram torturados ou mortos a mando do sádico ditador.


Quando os salazaristas de ontem querem ser os detentores do poder, hoje, não podemos esquecê-los ou perdoá-los.

Um episódio de pura chicana política, felizmente abortado…

A 'golpada institucional' com que a Direita pretendia ab initio subverter a próxima legislatura link fracassou e passava por balizá-la, amarando-a de pés e mãos aos instrumentos-chave que a 'maioria neoliberal' europeia foi ditando para sustentar a 'sua solução' face a uma crise financeira, orçamental e monetária que nunca quis discutir, apresentando-a como sendo um 'castigo divino' que se abateu sobre os povos malandros, perdulários e pouco sagazes que habitam o Sul do Velho Continente.

Na verdade, o respeito pelos Tratados em vigor - certamente um dos pontos difíceis de consenso da plataforma governamental de Esquerda em constituição para governar Portugal - é o compromisso necessário, realista e objectivo face às condições políticas, económicas e sociais existentes no País, mas não pode violentar as diferentes sensibilidades partidárias na execução dos referidos textos e na análise crítica dos respectivos conteúdos, seja através de uma ‘interpretação inteligente’, seja pela denúncia das suas iniquidades ou ainda pela legitimidade de, para futuro, apresentarem sugestões, emendas, alternativas, etc.. Uma coisa os portugueses sabem: a Esquerda se vier a constituir ou a sustentar um governo vai cumprir as regras de uma governação democrática, responsável, inclusiva e, no dia a dia, deverá reger-se pela ética do regime - a republicana.
A aceitação desses Tratados deve ser entendida como as ordenações judiciais que têm de ser cumpridas muito embora ‘os condenados’  quase sempre se mostrem em desacordo.

Os Tratados subscritos pelos diversos Governos ao longo dos seus exercícios, quer seja o de Lisboa, quer o Orçamental e qualquer outro que vier adoptado, são convénios de Estado, necessariamente datados, referentes a circunstâncias políticas, económicas, financeiras, sociais e culturais específicas que, enquanto vigorarem, têm de ser necessariamente respeitados, mas não podem ter a pretensão de vestir as diáfanas roupas da eternidade.

Não existe uma 'ordem constitucional' europeia para que qualquer governo que entre em funções no espaço europeu tenha de a jurar. Hoje, os europeus têm a noção de que a 'Constituição para a Europa', desenhada por Giscard d'Estaing, trabalhada, orquestrada e aprovada em Bruxelas, em 2004, pelo Conselho Europeu, tornou-se num esboço de documento fundamental que viria a ser rejeitado por processos referendários em alguns Países europeus e acabou por morrer na praia.

Só 3 anos após (2007) se 'remendou' esta a lacuna institucional arquitectando um novo Tratado - o de Lisboa - uma 'actualização' de anteriores (Maastrich, Amsterdão e Nice) à mistura com a 'importações' avulsas de texto oriundas da fracassada 'Constituição Europeia' e, deste modo, criou-se um expediente burocrático e administrativo para fugir aos escrutínios populares (multi)nacionais.

O que a Direita nacional pretende é, na ausência de uma Constituição Europeia, fazer a Esquerda portuguesa (e outras que ainda resistem pela UE) jurar obediência a Tratados e ‘regras comuns’ (o que encerrará esta nova semântica?) que cimentam estratégias políticas circunstanciais de marcado cariz neoliberal que tem colonizado a construção europeia e imperado na UE durante os últimos anos. Que se conheça só é costume (nestas circunstâncias) jurar 2 coisas: As constituições e/ou textos sagrados. Com um Estado laico e na ausência de uma Constituição Europeia o próximo governo (seja ele qual for) só tem uma possibilidade: jurar a Constituição da República Portuguesa. É nesse terreno que os seus membros deverão empenhar publicamente a sua acção, honra e palavra.

Se fosse honesta, competente e civilizada e resolvesse abandonar as trincheiras ideológicas redutoras onde se acantonou e pretende eternizar-se teria enveredado por outro caminho e aberto a possibilidade de - pelo menos uma vez - os portugueses poderem discutir e referendar directa e livremente um texto europeu.

Ricardo Salgado, a política e o XX Governo

A primeira candidatura de Cavaco a PR foi concertada em casa de Ricardo Salgado, que ofereceu o jantar e o ungiu, tendo como hóspedes e cúmplices os casais Durão Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa, todos casais da sua confiança. O erro de casting para Belém nasceu, de facto, pela mão do mais funesto banqueiro da economia portuguesa e coveiro da credibilidade bancária.

Agora, num período dramático para o País, sem o orçamento para 2016 e para enviar a Bruxelas, por culpa exclusiva de Cavaco Silva, que dilatou o prazo das eleições até ao limite, mais sensível aos interesses do seu partido do que aos do País, a democracia está suspensa dos seus humores e rancores.

Este PR foi um mero veículo de propaganda deste PSD. O ódio aos partidos de esquerda levou-o a convidar Passos Coelho para lhe apresentar uma maioria estável [sem a qual, segundo ameaçou antes das eleições, não daria posse] sem ouvir os partidos.

Como comissário político, esqueceu a promessa pré-eleitoral, mera chantagem sobre o eleitorado, e indigitou finalmente, como era seu direito, o líder do maior partido, apesar de saber que não teria apoio parlamentar. Escusava naturalmente de fazer um comício e apelar à vingança sobre os portugueses por terem votado em partidos que o desprezam.

Assim se chegou à constituição do governo que amanhã tomará posse, ao meio dia, em cerimónia que se adivinha patética. Tal como as faturas pró-forma pedidas às empresas antes de uma compra, teremos um governo pró-forma que a AR certamente recusará.

A decadência ética da coligação atingiu o auge com a nomeação do vice-presidente do PSD, Marco António, para seu porta-voz, e para ministro das polícias Calvão da Silva, o fiador da idoneidade de Ricardo Salgado, no caso do presente de 14 milhões de euros, e autor do parecer que habilitou o Banco de Portugal a manter-lhe a idoneidade.

Não bastavam as nomeações de boys, a manipulação da devolução da sobretaxa do IRS, e o congelamento de despedimentos em empresas de amigos até ao dia seguinte ao das eleições. A herança de quem quis eternizar-se no poder é demasiado trágica e dolorosa mas um módico de patriotismo impunha, por razões de higiene cívica, que esta maioria, este Governo e este PR fossem neutralizados.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 28, 2015

Humor divino


A frase


«Um governo de amplo fôlego político, que capta personalidades altamente respeitáveis, com experiência política, mas com carreiras profissionais e académicas de grande relevância»

(Marco António Costa, vice-presidente, porta-voz do PSD e referência ética da coligação, referindo-se ao XX Governo Constitucional, um governo para Cavaco ver)

terça-feira, outubro 27, 2015

Governo espanhol assustado

«Sou partidário de que governe sempre o mais votado. Há precedentes que não me agradam. Vimo-lo em municípios [casos de Madrid, Valência ou Saragoça] em que todos se puseram contra o PP e não gostei. O que estou a ver agora em Portugal também não me agrada».

(Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol e do PP)

É a esta gente que Cavaco insiste em confiar o País


Com a cadeira do líder vazia, coube a Marco António segredar a tática.

segunda-feira, outubro 26, 2015

Para memória futura

Quarenta anos de democracia não apagam as mazelas genéticas de quem aprovava a ditadura e nada fazia para pôr fim à opressão, sendo indiferente ou conivente.

Há quem não tenha reconhecido o carácter criminoso da PIDE, da guerra colonial e do fascismo salazarista.

Há quem não tenha sentido qualquer sobressalto com as torturas, o degredo, as prisões arbitrárias e os assassinatos, mas quem não formou convenientemente a personalidade durante quatro décadas de democracia, facilmente exonera da lapela o cravo e do pensamento o povo.  

domingo, outubro 25, 2015

Cavaco e os discursos

Há em Cavaco Silva um doentio fascínio pelo abismo. Nota-se quando as comunicações ou discursos são da sua autoria.

Os confrangedores momentos da sua passagem por Belém são tristemente memoráveis, reeditando os piores do seu consulado como PM.

O discurso de vitória do segundo mandato revelou o mais primário espírito de vingança, de onde a ética e a urbanidade foram exoneradas, um soberbo tesourinho deprimente.

A aprovação unânime do Estatuto dos Açores exasperou-o, num dos raros momentos em que tinha razão. Manifestou-se contra e devolveu-o, como era seu direito, à AR. Depois, quando confirmado, obrigado a promulgar o diploma, descarregou o rancor sobre os deputados num patético e ofensivo discurso de quem não respeita a separação de poderes e tem pelo parlamentarismo um ódio salazarista.

Agora, na indigitação de Passos Coelho para formar governo, direito que lhe assistia, revelou o azedume que a CRP, a democracia e os eleitores lhe provocam, com  ameaças intoleráveis, desajustadas e antipatrióticas.

No ódio que o habita apelou aos credores, sem um chilique, para se vingarem de um governo legítimo com apoio do PCP e BE. O sectarismo primário teve apenas o mérito de destacar, pela diferença, a grandeza ética, cívica e patriótica de Sampaio da Nóvoa.

A dignidade com que termina o mandato envergonha a função que exerceu.

A PIDE existiu


Quem sabe se não foi o seu desmantelamento que permitiu grandes carreiras políticas a quem a podia ter servido.

sábado, outubro 24, 2015

Portugal deve precaver-se contra qualquer tipo de ultimatos?…

A ‘crise política’ – é já impossível disfarçá-la – tem o seu epicentro em Belém. O regime mostra-se periclitante perante um travestismo político e institucional verdadeiramente inaudito e saloio. Assiste-se a um improvisado duelo: Constituição versus Tradição. Confronto que não tem um árbitro efectivo já que o Presidente da República resolveu, descaradamente, ‘tomar partido’.

Ontem, com a eleição do Presidente da Assembleia da República, ficou bem mais visível até onde pode chegar o larvar confronto. 
Na realidade, perante os preceitos constitucionais – que obrigam o PR – este resolveu contrapor os ‘compromissos europeus e internacionais’ que, aparentemente, qualifica como imutáveis. 
Se é verdade que as condições objectivas do País não permitem questioná-los, no imediato, seria bom salvaguardar que, para futuro, não existem ‘vacas sagradas’.
Qualquer regime democrático não pode permitir esse tipo de condicionamento e de imobilismo. Aliás, ninguém assente nos arraiais da Direita questionou, por exemplo, a legitimidade do Governo de Sua Majestade britânica, dirigido pelo conservador Cameron, de referendar a permanência do Reino Unido na UE.

O Parlamento, em Portugal, tem sido manietado por lógicas partidárias restritivas e muitas vezes foi a correia de transmissão de maiorias reais ou conjunturais. 
Os órgãos dirigentes do Estado revelaram, sempre, uma ampla complacência perante os jogos parlamentares, reflexo directo de posições partidárias oriundas do fantasmagórico ‘arco da governação’. 
As eleições de 4 de Outubro colocaram o País sob outras perspectivas, novas opções e 'outras' respostas. 
A ‘cultura de diálogo’, muitas vezes apresentada como o incentivo a compromissos, começou a funcionar. O que os portugueses não sabiam, porque lhes foi sistematicamente ocultado, é que esses compromissos só eram possíveis e, portanto, só teriam legitimidade política, se fossem dirigidos para validar o ‘Centrão’, de modo a que a Direita, independentemente do veredicto dos portugueses, se perpetuasse no poder. 
Ora, a Democracia portuguesa, tal como ficou estampada na Constituição, abre caminho e ‘encaixa’ uma ampla conjugação de soluções políticas. Entretanto, inusitadas ‘manobras de bastidor’, orquestradas pelo Presidente da República, pretendem esvaziar o seu conteúdo – e a sua credibilidade - num quadro de hipotéticas ‘incompatibilidades’.

A mais importante delas será a novela do posicionamento dos partidos à Esquerda do PS em relação à ‘Europa’. De facto, a Esquerda não questiona a ideia da Europa, já que a sua postura internacionalista, mostra bem o contrário. O que deve colocar sérias reservas à Esquerda será a subtil transformação de uma Europa dos povos, bandeira da Esquerda, numa Europa dos bancos e outras instituições financeiras (objectivo da Direita) . 
Na longa ditadura portuguesa, existia um chavão que nos empurrou para o abismo: “a Pátria não se discute”. 
Hoje, será difícil a qualquer democrata aceitar que a Europa (tal com está) não pode ser questionada. Quando emergem na praça pública os fundamentalistas de um europeísmo cego e surdo(radical)  ninguém tem por hábito questionar: qual Europa?  
O Tratado de Lisboa, cerne das actuais estruturas políticas e organizativas europeias, nunca referendado pelos portugueses, é por assim dizer o filho bastardo de uma Constituição Europeia coordenada por um político de Direita francês (Giscard d’Estaing) e, desde logo, objecto de rejeições referendárias, a começar pela França. É, por isso, um tratado muito nebuloso na sua génese e não deve ser erigido como uma torre de marfim imune a qualquer contestação.

Em relação outros tratados europeus, como o Orçamental, devemos ter presente o nosso longo trajecto histórico. E devemos regressar a 1890 época do célebre e humilhante ‘Ultimatum’ britânico a Portugal. De facto, a Inglaterra esteve ligada ao nosso País por uma centenária aliança (desde 1373) mas não teve qualquer pejo, quando se colocou na ordem do dia a partilha (colonial) de África, em lançar-nos um vergonhoso e humilhante ‘ultimatum’ que viria a abalar decisivamente o regime (Monarquia) acelerando a implantação da República. 
Hoje os tratados europeus são multinacionais, envolvem muitos países, estão baseados em complexos equilíbrios e em entranhados interesses mas a regra do mais forte continua a imperar e ninguém pode excluir novos ‘ultimatos’. Estivemos à beira disso neste Verão com o ‘problema grego’.

 Este um exemplo (entre outros) daquilo que se pretende transformar numa mítica ‘vaca sagrada’ e que Cavaco Silva resolveu esgrimir contra o Parlamento, isto é, contra o regime. Temos de nos precaver contra qualquer tipo de ultimatos. Não restam dúvidas!

A Concordata é um abcesso na laicidade do Estado

Ninguém duvida da necessidade de punir um falso médico pelos riscos a que sujeita um paciente incauto que se lhe submeta, um falso engenheiro que desconhece a resistência dos materiais e põe em risco a solidez de um edifício, um falso professor que não ensina aos alunos o que deve, mas não se percebe porque há de o Estado punir os falsos padres.

Para além do gosto duvidoso de se vestirem como mulheres, os verdadeiros e os falsos, gostos não se discutem, não se vê que caiba ao Estado atestar a validade do alvará que confere legitimidade para transformar em água benta a outra.

Acaso ficará pior sacramentado, confessado, comungado ou ungido o crente que receba de um falso padre os sinais cabalísticos ou ouça a palavra de uma empolgante homilia por um verdadeiro ou falso ministro do culto?!

Salvo, por razões fiscais, de que o Estado português injustamente abdica, que interesse tem que a partícula seja ministrada por quem saiba ou não latim?

Há coisas que só a cumplicidade pia justifica. Ainda veremos os Tribunais a decidir sobre os verdadeiros e falsos milagres como se os primeiros existissem.

Parabéns, Sr. Presidente da A. R.


Pode espumar de raiva o dono da Gaivota Azul, babar-se pela comissura dos lábios o amigo de Dias Loureiro, digerir mal a azia o ex-acionista da S.L.N., ameaçar o país e atiçar o ódio entre os portugueses. Os deputados não se deixaram intimidar. Estiveram à altura do mandato que receberam.

Foi feita justiça a quem foi vítima do aproveitamento sórdido de um nebuloso escândalo sexual e que permitiu ao futuro paquete de Bush ser PM.

Ferro Rodrigues, alheio ao processo judicial, foi chamuscado graças à intriga da central de intoxicação que começou a formar-se.  Foi ressarcido.

sexta-feira, outubro 23, 2015

Coimbra - Confiscação de um passeio público


O SR. SILVA TIROU A MÁSCARA

Durante toda a legislatura que agora terminou, o PS, o BE e o PC manifestaram-se radicalmente contra o governo de Passos Coelho e a coligação PSD/CDS que o apoia. Essa oposição radical recrudesceu durante a recente campanha eleitoral.

Assim, não há qualquer dúvida de que quem votou num desses três partidos votou contra esse governo e essa coligação. E as pessoas que assim votaram constituem a larga maioria da população.

Pois o Sr. Silva, contrariando a vontade da maioria do povo português, usou, ou melhor, abusou do cargo de PR que ocupa para favorecer o seu partido, reincidindo em nomear para primeiro-ministro o dito Passos Coelho.

Isto é: o Sr. Silva tirou a máscara e demonstrou claramente que não não age como Presidente da República mas sim como presidente do PSD.

É preciso reforçar os poderes de Cavaco Silva

Quando se chega a presidente da República, ainda que sem cultura ou sentido de Estado, não se aceita que o mais alto magistrado da Nação não possa reescrever a Constituição, mandar deter os socialistas, prender os comunistas e deportar os bloquistas.

Reservar para o mais alto cargo da República o mero direito de insultar quem votou nos partidos errados e de chantagear o povo que preveniu para não votar onde não queria, é uma grave restrição a quem há mais de quarenta anos se conforma com a democracia.

O PR devia ter poderes discricionários para evitar aos portugueses vê-lo em sofrimento na televisão, a tremer, e com baba a escorrer pela comissura dos lábios enquanto adverte quem é bom e mau, melhor do que um padre de paróquia saído do Concílio de Trento.

Portugal pode dar um péssimo exemplo, como já sucedeu com o 25 de Abril, à vizinha Espanha e, depois, quem sabe, alastrar à Europa a lepra da democracia, um sistema que já Salazar dizia não servir para Portugal.

Cavaco Silva, essa referência histórica da ética e do desprendimento dos bens materiais, arrisca-se a passar à posteridade como o último PR que não sujeita as suas decisões aos acasos do voto popular nem ao espartilho da Constituição.


Desde Salazar que não tínhamos um homem tão obstinado e coerente. O país não o merece.

Dito e lido


«Na minha perceção, e daquilo que nos chega todos os dias no terreno, já houve tempos em que as famílias estavam pior. Nó último ano, a situação de muitas famílias registou, de alguma forma, uma melhoria».
(Isabel Jonet, presidente dos bancos alimentares contra a fome e apoiante da caridadezinha)

***


Durão Barroso

Esta luminária da ética e da política, a mais assombrosa ilustração do Princípio de Peter, anda pela Europa, onde chegou a ser o mais alemão dos portugueses e o mais americano dos europeus, a intrigar contra 60% dos eleitores portugueses.

Esqueceu os negócios privados, o inepto governo donde fugiu para receber na Comissão Europeia os trinta dinheiros da mentira sobre as armas químicas de Saddam Hussein; esqueceu as provas que jurou ter visto em Londres, onde se deslocou para ver o que não existiu; esqueceu o crime de que foi cúmplice, ao enviar a GNR para o Iraque; esqueceu o pouco edificante servilismo a Bush, Blair e Aznar, companhia pouco recomendável, e usou o pesado cadastro como virtuoso currículo.

Agora, perante o nojo que causa e a indignação que provoca, presta-se a ser o subalterno de Relvas e Marco António ao serviço da pior direita e do pior PR. De ex-mordomo das Lages passou a caixeiro-viajante da central de intoxicação da direita e ausentou-se para a Europa a zurrar que um governo de esquerda, em Portugal, “é brincar com o fogo”.

Nem percebe que, de Mao a pior, se tornou o homúnculo incapaz de ver o dilúvio a que este governo sujeitou Portugal guardando para amigos a Arca de Noé que o cantor lírico designou por ‘pote’.    

quinta-feira, outubro 22, 2015

Tempo de antena do PSD

O monólogo do velho e ressentido salazarista não passou de chantagem partidária com a dissimulada ameaça da impensável intervenção da Nato e o desesperado apelo às instituições da União Europeia para destruírem o que o seu partido não conseguiu.

Coimbra - Cenas do quotidiano

Reprodução de uma foto desconhecida em que uma virgem se encontrou com outra.

Cavaco Silva e a democracia

Quando Cavaco Silva encarregou o ainda primeiro-ministro a “iniciar diligências para procurar uma solução governativa”, antes de ouvir os outros partidos políticos, não se deu conta de que à Constituição sobrepôs os interesses partidários, ao País os seus e à democracia a sua formação política.

Depois de três democratas sólidos que o precederam foi penoso assistir a uma década em que o Palácio de Belém se transformou no secretariado da Propaganda da Direita.

Não se lhe exigia cultura, rasgo ou sensibilidade, apenas um módico de isenção que tivesse poupado Portugal à deprimente intriga com as escutas inexistentes, que fizeram de Fernando Lima estafeta e de José Manuel Fernandes serventuário, para desacreditar o PM, à descontrolada explosão de cólera contra a A.R., após a aprovação do Estatuto dos Açores, ou ao rancoroso discurso de vitória da sua reeleição.

O País esqueceria a vivenda do condomínio do BPN na praia da Coelha, o negócio das ações da SLN, o sorriso das vacas açorianas e outras tropelias ou irrisões.

Bastava um módico de isenção partidária.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 21, 2015

Carta do Marcelinho a Salazar


Cavaco Silva

Ao ter assumido a agenda do PSD como sua e dilatado a legislatura até ao máximo legal, tornou-se o único responsável pela ausência, em tempo oportuno, de um Orçamento de Estado para o País e para enviar a Bruxelas.

A Frase

«Julgamos que estão criadas as condições para que o PS possa formar um governo que disponha de um apoio maioritário na Assembleia da República e que assegure condições de estabilidade no país».

(António Costa)

terça-feira, outubro 20, 2015

Blá… blá… blá…

“Nem precisamos de inimigos. Sempre nos bastámos a nós mesmos para nos derrotarmos”. (Mia Couto, in “a confissão da leoa”, pág. 52)

Todos os votos valem. Os homens nascem iguais. Sem partidos não há democracia. O povo não votou nos partidos, votou na Nato. Não está na Constituição, mas devia. O voto é livre mas seria inconcebível que partidos não entusiastas da Nato contassem. A velhinha diz, quem me tira a Nato tira-me tudo. O invasor do Iraque é que diz o que é bem para o país, no Iraque enganou-se nas armas químicas, em Portugal no povo. Na noite em que marcou as eleições, o feliz proprietário da vivenda Gaivota Azul ameaçou não dar posse a um governo minoritário. As vuvuzelas exigem que se forme maioria de um só lado. O transacionador das ações da SLN, entre o que jurou e o que pretende não hesitará. Quem mais jura mais mente. Nós sabemos disso.

Blá.. blá… blá…

Inqualificáveis



segunda-feira, outubro 19, 2015

Passos Coelho e o convite a António Costa

Com a colossal chantagem da comunicação social, de todos os avençados e de todas as armas ao serviço da direita e dos seus interesses, Passos Coelho convida António Costa para o Governo. Não se disponibiliza a ser ministro dele, quere-o para seu ministro. Oferece lugares sem abdicar do poder. Resta saber se, convicto do direito ao cargo para que lhe mingua capacidade, estaria disposto a dar a vice-presidência do ministério a Costa e remeteria o seu ornamento Portas para ministro da Agricultura.

Entretanto, nas televisões têm lugar todos os que ajudem a perpetuação do poder onde Relvas, Marco António e Paulo Júlio colocaram o mais bem apessoado e pior preparado PM do período democrático.

As redes sociais estão cheias de especialistas a sabotarem a discussão política honesta, de forma truculenta ou sem os primarismos de Marco António, Cavaco e Passos Coelho.

Nas televisões de sinal aberto pontificam ministros em campanha eleitoral, no intervalo das colocações dos amigos, ou depositários do poder, de forma sofisticada com alguns intelectuais ou com caceteiros da estirpe de Nuno Melo, a usar a palavra com a mesma força com que o falecido tio, cónego em Braga, usava meios musculados no MDLP ou ELP.

Esta direita é a fachada do salazarismo que regressa através da via democrática.

Resolução do imbróglio pós eleitoral: um prato de lentilhas…

Quando a Esquerda quer sair da tribuna opinativa ou abandonar o reduto do protesto está o caldo entornado. Esta a grande lição que os resultados eleitorais de 4 de Outubro nos dão.

Enquanto opinativa a Esquerda é tida como respeitável, considerando-se que, nessa remansa pacatez, faz o jogo da democracia. A Esquerda, mais à esquerda, ficando remetida ao seu papel de protesto é tolerada se comportar bem e não cometer excessos. E os excessos são sempre apresentados como perturbadores (dos interesses) assumindo uma conotação de radicalismo e mistificados como boicotes, alijando pela borda fora a inicial caracterização potestativa. 

Quando incomodam os negócios (nomeadamente as negociatas privadas à sombra de cargos públicos)  são primariamente rotulados de ‘irrealistas’ e rotulados de 'radicais'. 
 Em desespero de causa até podem merecer a classificação de antidemocráticos ou de ‘alta traição’.

Todas as facetas que a Esquerda possa apresentar, directamente dependentes de concepções ideológicas legítimas, e que lhe determinam comportamentos políticos, são apresentadas como portadoras de um enviesamento ou uma usurpação, exactamente porque a Direita julga que possui o ‘direito divino’ de governar.
Essa a mensagem subliminar que as forças conservadoras se empenham em passar aos eleitores. Socorre-se para isso de visões catastrofistas do tipo ‘levar o país à falência’, ‘aumentar o défice e a dívida’, ‘esbanjamento de recursos no campo social’, etc.

A Direita trata a Esquerda, como desde há séculos, vem tratando os ‘pobrezinhos’. Considera-os pouco inteligentes, preguiçosos e perdulários. Referindo-se à Esquerda resolveu tolerá-la para evitar males maiores mas com a condição de esta se manter dentro do redil (ou fora do tal ‘arco’). Quando existe a mínima perturbação deste falso equilíbrio, quando a artificial cercadura começa de cair, lá vêm as 'modernas' questões da ‘confiança dos mercados’, o cego ‘respeito pelas regras’ (que foram elaborando), a aceitação acrítica dos tratados (mesmo se já caducos), etc.
Resumindo, a Esquerda está autorizada a existir desde que se transforme num folclórico enfeite para adornar o exercício do poder pela Direita.

Este é o ‘golpe’ há largos anos em curso. Por isso, independentemente da capacidade de a Esquerda ser capaz de gizar uma plataforma comum para governar, a maioria dos comentadores ‘orgânicos’ e os habituais peões partidários (no estilo ‘his master voice’) incomodam-nos diariamente com repetitivos apelos à estabilidade, à responsabilidade, à moderação, ao conformismo, ao consenso, etc.

Quando nada disto parece resultar surge a técnica do ‘prato de lentilhas’. Oferece-se, como um bodo (aos vencidos), um ‘tachinho’ no novo Governo desde que não perturbem a continuidade política que a Coligação espera prosseguir (à revelia dos resultados eleitorais considerados globalmente). 
Foi isto que fez ontem o primeiro-ministro em funções link, ao que parece, imbuído de uma enorme condescendência pragmática e numa alta pose altruísta. Bruxelas deverá, muito brevemente, aplaudir.

Culminam a sua argumentação afirmando que se existe uma legitimidade constitucional (decorrente da necessidade do governo ter um suporte parlamentar maioritário) em contraponto, no seu juízo e interesse, haverá uma ‘ilegitimidade política’. Como se os Países devam ser governados por um ‘códice político’, implícito, não escrito e, supostamente, autónomo do que define preto no branco (e não apenas sugere) a Lei Fundamental.
Se a batota não está aqui, por onde anda?

É preciso topete

A nomeação de Marco António Costa, vice-presidente do PSD, para porta-voz da coligação de direita, revela, tal como o elogio a Dias Loureiro, como empreendedor, o nível de exigência ética do atual líder da coligação de direita.

Nem precisam de que lhes averiguem o passado.

domingo, outubro 18, 2015

Maria Luís Albuquerque: a última chicana...

Perante as acusações de António Costa de que o Governo ‘está a esconder dados sobre a situação real do País’ link, foram solicitados ao Governo dados da execução orçamental e da evolução macroeconómica.
Respondeu Maria Luís Albuquerque, ao que é suposto ainda ministra das Finanças em funções que, invocando a qualidade de militante do PSD e deputada eleita por Setúbal, negou qualquer ocultação e fez uma veemente profissão de fé na transparência das finanças públicas link.

Qualquer português percebeu que começam a assaltar os espíritos sérias dúvidas de que a situação no sistema financeiro nacional poderá não ser tão estável e consolidada como a anunciada repetidamente aos portugueses na sequência do chamado resgate e do louvaminhado ‘fim do protectorado’. Continuamos a viver à sombra e na dependência de favores do BCE mas esta circunstância é, também, para esconder.

Aliás, sabendo que a parte substancial dos problemas financeiros ligados à crise da dívida soberana é subsidiária do próprio sistema procura-se dados de transparência, quando durante o longo decorrer da crise, não foi possível ao poder político em exercício cá, e por essa Europa fora (na verdade concertados), tomar medidas concretas que colocassem os bancos sob uma rigorosa regulação do poder político (democraticamente legitimado). Este o problema fundamental e o resto não sendo diálogo ou negociação, não passa de uma conversa de surdos.

O travestismo de personalidade e de funções (transtorno dissociativo) assumido por Maria Luís Albuquerque à volta da inquirição do PS mostra que prefere refugiar-se na vala comum da chicana política sendo, por outro lado, um claro indício que existirá alguma coisa para resguardar (ocultar). É a atitude do 'não me comprometam'.

Quando for ‘chamada à pedra’ dirá que, na condição de deputada recém eleita por Setúbal ou de mera militante do PSD, não sabia de nada…
Espertezas saloias, sem tirar nem pôr!

sábado, outubro 17, 2015

A realidade passível de uma ocultação sistemática e impune...?

Passos Coelho está a esconder dados sobre a situação real do País”. link.

A acusação de António Costa não é propriamente uma surpresa.

Existiam todos os indícios que ‘isso’ poderia estar a acontecer.
Quem segue, no abstracto, por exemplo, a evolução em Portugal das taxas de desemprego nos últimos 2 anos e o crescimento do PIB por igual período verifica que os dados publicitados desafiam frontalmente a chamada Lei de Okun que, não sendo um ‘decreto divino’ (infalível), é uma das constatações mais confiáveis da macroeconomia link . Assim, e tendo em consideração o teorizado na referida lei, para fazer descer em 1% na taxa de desemprego precisaríamos de verificar um crescimento do produto acima dos 2% (isto aplica-se tanto a países desenvolvidos como aos periféricos).
Precisamos, portanto, de informação mais detalhada de como se passou da taxa 17,8%, em Maio de 2013, para uma taxa abaixo dos 13,0% em de 2015 link, a par de um crescimento do PIB relativamente anémico, para compreendermos e acreditarmos nos números que nos têm sido debitados, comentados, elogiados e propagandeados.

O que António Costa revelou é grave porque a ocultação da verdade, ao que se supõe prosseguida de modo intencional e continuado, é em muitos países da UE motivo para um governo ser obrigado a cessar funções. Enganar o Parlamento – órgão fiscalizador da actividade governativa – não pode deixar de ser considerado um insuportável enviesamento democrático.

Depois de levantar esta ‘lebre’ não resta outra opção a António Costa do que a explicação cabal, aos portugueses, do que está efectivamente a acontecer.

Os limites entre ‘surpresas desagradáveis’ e a ‘ocultação sistemática da realidade’ não podem ficar pelo mero esgrimir de razões na comunicação social.

É exactamente aqui que a transparência deve, impiedosamente, relevar-se para a defesa do regime democrático.

sexta-feira, outubro 16, 2015

O desabar de um arco que parecia assegurar ad eternum o triunfo…

Depois das eleições de 4 de Outubro, a Direita mostra-se inquieta. Pode estar prestes a cair um dos mitos que lhe assegurou, durante quase 40 anos, isto é, desde a instauração do regime da III República, nascido com o 25 de Abril, uma regular permanência no poder. 
O mito teve por base a fantasmagórica criação de um ‘arco’ partidário que foi apelidado como sendo o da ‘governação’, ou se quisermos, ‘do poder’. 
Deste modo, e paulatinamente, excluiu-se do processo democrático representativo um largo contingente de eleitores (nas últimas eleições cerca de 1 milhão) criando um 'instrumento político' capaz de garantir uma permanente rotatividade confinada ao Centro, sem comtemplar ou permitir veleidades de outras 'alternativas'.
 
Quem se afastasse desse ‘Centrão’ oculto, e aparentemente ‘tutelar’ da nossa democracia, ficava automaticamente excluído de participar na governação. É verdade que este iníquo processo foi ‘vendido’ como contendo no seu seio uma aparente ‘virtude’ e um ‘efeito indirecto’: seria a vacina contra extremismos (sejam reformistas, revolucionários, conservadores ou ditatoriais). Mas os resultados 'imunitários', por essa Europa fora, mostram que esta vacinação não se revela muito eficaz.

O ‘Centrão’ conquistou, então, aquilo a que se convencionou chamar a ‘classe média’ a verdadeira e decisória charneira dos resultados eleitorais que actuando pragmaticamente, isto é, perante as oscilações da qualidade da governação para defender interesses imediatos, foi permitindo uma ‘tranquila’ rotatividade até aos tempos mais recentes, onde a desilusão campeia. 
Só que a par desta evolução paroquial as condições materiais e objectivas sofreram profundas alterações (qualitativas) para os partidos colocados à Esquerda modificando relações de forças de origem centenária e, por exemplo, para a Esquerda hoje classificada sumariamente como de radical, o suporte humano remoto que condicionou a sua implantação e vitalidade, isto é, a grande massa de assalariados que vendem a sua força de trabalho, apresenta, hoje, condições laborais, de vida (sociais) e culturais muito diferentes das do início da era industrial. É preciso saber reconhecer e interpretar este trânsito histórico e adequar respostas.
 
O problema agravou-se com a crescente globalização económica (decorrente da queda do muro de Berlim) e criou focos de instabilidade no sistema. 
O controlo da economia pelo sector financeiro mundial veio aprofundar as contradições. Não existe, na prática, uma globalização latu sensu, subsidiária do conceito de ‘aldeia global’ dos anos 60 definida por McLuhan, mas o Mundo por todo o lado tem assistido a um assalto que alia os interesses financeiros e a vertiginosa evolução tecnológica para uma ‘globalização neoliberal’ que comanda transferências de recursos financeiros e tecnológicos, isto é, mexeu nos mecanismos de distribuição da riqueza, destruindo os equilíbrios que duravam desde a recessão americana no início do século XX. 
Esta alteração qualitativa ameaça frontalmente a dita ‘classe média’ criada à sombra dos ‘gloriosos 30 anos’ de expansão económica e de uma sociedade de ‘bem-estar’ social, decorrentes do fim da II Guerra Mundial. 

O assalto promovido pelo modelo neoliberal a partir dos anos 80 com a ‘reaganização’ e ‘tathcherização’ da política ocidental, promovendo a ‘financeirização’ da política, a cavalo de um suporte sem rosto, sem regulação e sem ética (os ditos ‘mercados’) atingiu profundamente a dita ‘classe média’ de tal modo que ameaça a sua existência.

A Esquerda não pode continuar a ficar acantonada nos seus velhos bastiões e, sem retomar a velha concepção de uma progressiva proletarização dessa classe, tentar conquistar terreno no campo das relações de trabalho em permanente mutação e volatilização de consciência (de classe). 
Uma justa redistribuição da riqueza e a defesa do Estado Social, bandeiras tradicionais da Esquerda, têm sido, paulatinamente, colonizadas e adulteradas pela Direita que com as suas ‘crises cíclicas’ (aparentemente rectificadoras e redentoras do capitalismo) e, ainda, com pregões sócio moralistas sobre comportamentos e estilos de vida (‘viver acima das possibilidades’, etc.) pretendendo passar incólume pelos pingos da chuva.  

Criou-se, portanto, um jogo viciado e vicioso. Até porque as duas forças de Direita diluíram artificialmente (e oportunisticamente) as suas divergências políticas e ideológicas e, daqui para a frente, aparecerão sempre coligadas porque, neste esquema táctico, beneficiam do sistema eleitoral vigente (método de Hondt). Esta uma falácia que se continuar a ser alimentada acabará por afastar (excluir) toda a Esquerda (incluindo o PS) do ‘arco da governação’, passando a ‘alternância’ a ser um mero (e)feito retórico.

Esta grosseira viciação da representatividade teria de acabar um dia. As conversações em curso entre os partidos de Esquerda só surpreenderam a Direita porque esta tem por hábito considerar os outros como uns estúpidos cultivadores de atávicos facciosismos. A Esquerda não pode aceitar este estatuto de menoridade cívica e as conversações são a 'resposta natural’ para quem pretende adequar as convicções ideológicas (sem abdicar das diferenças) ao momento político actual, mostrando-se disponível e capaz de influir na governação do País, dando sentido prático e funcional à representatividade que lhe foi delegada pelos eleitores. Fazer o necessário caminho partindo da doutrina (que é fundamental), passando pela permanente adaptação ideológica (às realidades dos momentos), dirimindo contradições (internas) e chegando à praxis. Esta contempla uma variedade de passos (uns à frente e outros atrás) para chegar a um racional escalonamento de objectivos e prioridades. A vitalidade (e a criatividade) da Esquerda passa por aí.
Existe, contudo, uma barreira que tem sido uma das bandeiras e um eficaz instrumento do neoliberalismo: manter intocável o status quo.
Essa barreira contaminou transversalmente a classe média (ainda fiel a chavões vagos como 'segurança' e 'estabilidade') e, hoje, condiciona qualquer tipo mudança quer para a Direita e nos sectores mais à direita do PS (área fronteira deste espectro). E perante o apelo ao imobilismo, à imutabilidade dos compromissos, devemos tentar compreender que por alguma razão a Direita é eminentemente conservadora.

É esta a transformação histórica que estamos a viver e que foi detonada pelos resultados eleitorais mas que está latente desde o advento do neoliberalismo (com especial incidência desde o início da década de 80). 

Quem não percebe esta mutação em curso e dedica o seu tempo a anunciar golpes palacianos, perversões democráticas e catástrofes iminentes perdeu o sentido evolutivo (progressista) da História. E as consequências dessa perda – essas sim – serão ‘naturalmente’ catastróficas.

A FRASE


«Fechar a porta a quem finalmente dá sinais de a querer abrir consistiria num erro histórico».

( Carta aberta de Jorge Lacão a Francisco Assis»

quinta-feira, outubro 15, 2015

O senhor Silva e o próximo governo

Cavaco Silva (CS) diz que transmitirá diretamente aos portugueses as decisões que vier a tomar mas já terá dito ao presidente do seu partido que o vai indigitar, ao contrário do que tinha prometido para chantagear o eleitorado.

CS prometeu não dar posse a um Governo sem maioria estável mas, atendendo aos interesses do PSD, o PR far-se-á esquecido, como sucedeu com a aquisição da vivenda Gaivota Azul ou o modo de pagamento das ações da SLN. Prefere um governo instável do seu partido a um governo estável do PS com apoio parlamentar do BE e PCP.

A divisão do PS, no que foi ajudado por alguns militantes, é o seu objetivo, desejoso de o tornar um mero ornamento do PSD igual ao CDS.

É preciso dividir a esquerda para que a direita se perpetue no poder.

A dignidade que as funções exigem é irrelevante para quem nunca as devia ter exercido.

A sociedade e o trabalho

No mesmo dia em que o Tribunal Constitucional chumbou o aumento da carga horária que o Governo queria impor aos funcionários autárquicos, a Suécia reduziu a jornada de trabalho de 8 para 6 horas, para tornar os trabalhadores mais felizes e mais concentrados durante a atividade e aumentar os índices de produtividade.

Foi uma notícia excelente que devia servir já de exemplo. Importa mais a distribuição do trabalho e dos lucros do que a produtividade quando novas tecnologias, ao contrário das de épocas anteriores, destroem pela primeira vez mais postos de trabalho do que os criados. Os proventos devem ser também repartidos, o que não pode continuar é a chaga do desemprego.

Parece haver na decisão sueca uma mudança de paradigma em relação aos anseios de justiça que, no passado, o socialismo demandou, tantas vezes de forma trágica e com sacrifício das liberdades.

O trabalho é um bem cada vez mais escasso e, por isso, urge democratizar o acesso. Não se pode conviver com legiões de excluídos, privados de cidadania, sem que se sinta um sobressalto cívico e na certeza ainda de que nenhuma sociedade pode sobreviver com as contradições da atual. Não há pensamento único, por mais poderosos que sejam os seus interesses, que sobreviva à tomada de consciência coletiva dos espoliados.

A crença no crescimento perpétuo da economia e na infinita capacidade do Planeta para suportar qualquer excesso demográfico esvaziou-se.

O mar perdeu 60% do peixe no último meio século; o solo arável diminui todos os anos; o aquecimento global é a evidência que já não se discute; a poluição aumenta; torna-se irrespirável o ar e a própria água é cada vez mais escassa. Com os recursos exauridos, o futuro apresenta-se progressivamente mais sombrio.

O modelo capitalista, que assegurou desenvolvimento e bem-estar, sem procurar conter  o agravamento das desigualdades, está esgotado. Há quem procure prolongar a agonia do sistema, na esperança de que o dilúvio apareça depois, enquanto outros hesitam entre sistemas que fracassaram e a procura de novos equilíbrios.

Não é preciso ser profeta para prever uma catástrofe. As revoluções acontecem com a tomada de consciência das injustiças e a revolta das vítimas. São os que mais as temem os que mais as fomentam.

É preciso evitar o abismo à beira do qual nos colocámos.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, outubro 14, 2015

O regresso manso do salazarismo

A colossal chantagem da comunicação social sobre António Costa, com os donos a comandarem a agenda, das confederações patronais e da própria Igreja católica onde o bispo António Marto, vidente de Fátima, por apelido e consanguinidade, revela o pavor da democracia quando os resultados não favorecem os interesses da pior direita, do pior PR e do pior governo do regime democrático.

Os humores e rumores dos manipuladores da Bolsa de Valores, dos terroristas das agências de ‘rating’ e dos oportunistas de todas as ocasiões, revelam também o pavor da perda do poder.

Hoje já não precisam de assassinar o líder da oposição, como Salazar fez a Humberto Delgado, basta-lhes dar voz aos que não a teriam, se não se passassem para o seu lado, e mobilizarem a sua máquina de terror.

No PSD de hoje não caberiam os antigos presidentes, Sá Carneiro, Emídio Guerreiro ou Nuno Rodrigues dos Santos, como já não cabem Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou António Capucho, tal como não cabe no CDS Freitas do Amaral, o fundador que foi expulso pelo bando de Paulo Portas.

Em Belém encontra-se ainda um salazarista reciclado, em fase terminal de mandato, e em S. Bento, ansioso e apavorado com a Justiça, um retornado ressentido.

Só falta mesmo organizarem uma manifestação espontânea de «ativo repúdio a António Costa» com um grupo de bandeiras à frente e de bandalhos atrás, com o público à força no meio e a força pública à  volta, a uivar com toda a força «não queremos comunistas, não queremos comunistas, não…».

O parágrafo (2)

«O poder político continua a envergonhar-se de Fátima. O Santuário cresceu com ofertas dos peregrinos e não com apoios do governo e, nesse sentido, manteve sempre uma distância e uma independência em relação ao poder político».

(Carlos Cabecinhas, CEO da maior área comercial coberta da fé católica, em Portugal, com o pseudónimo de ‘Reitor do Santuário de Fátima’)

O parágrafo

«Há uma coisa que sei: os eleitores socialistas não votaram no PS para um governo com o PCP e o BE. Toda a gente sabe que não foi esse o sentido de voto dos eleitores socialistas».

(Durão Barroso, cúmplice da invasão do Iraque, depois de ter visto as provas das armas químicas de Saddam Hussein, e improvável eleitor de António Costa)

terça-feira, outubro 13, 2015

Se Cavaco Silva (CS) fosse Presidente de todos os portugueses…

…não acabaria presidente de 38%.

CS, ao assumir como sua a agenda do seu partido e ao transformar a lealdade que devia aos portugueses em submissão aos interesses do PSD, colocou-se à margem da CRP e perdeu a confiança e o respeito que lhe era devido pelas funções para que foi eleito.

Depois da intolerável interferência no processo eleitoral, apresentou-se como o homem que sabia “muito bem aquilo que vai fazer” quando, como se vê, sabia tanto como sobre a solidez do BES ou as escutas que o anterior Governo (não) lhe fazia.

A azia causada por 1 milhão de eleitores, que tinha condenado ao limbo e que António Costa resgatou para o confronto democrático na AR, serve aos derrotados dentro do PS para um ajuste de contas mas não serve o país nem a democracia.

A inépcia na previsão da legitimidade democrática de vários cenários tornou-o o único culpado pela dilatação da legislatura, até ao limite, e pela inexistência de um orçamento atempado para o País e para ser apresentado a Bruxelas.

António Costa devolveu ao PS a centralidade da vida política portuguesa. Um PR que não suporta um simples entendimento parlamentar do PS à a sua esquerda já devia estar a exortar os seus para um apoio sem condições.

O PS, independentemente do futuro político do seu atual secretário-geral, só será fiel da balança partidária se não capitular perante a pior direita e o pior PR deste regime.


A democracia faz-se com democratas. 

O Islão e os Direitos do Homem

* Brito é o português que é considerado um dos maiores desenhadores franceses.

segunda-feira, outubro 12, 2015

António Costa e a reação


Cada um faz dos resultados eleitorais a leitura que lhe convém mas excluir alguém, eleito democraticamente, da participação política revela a pulsão antidemocrática que domina este governo, esta direita e este PR.

A chantagem feita durante a campanha eleitoral, e agora continuada na comunicação social, com a demonização do PCP e do BE, foi derrotada nas eleições.

Se o PR preza muito a governabilidade e a democracia deve convencer o PSD e o CDS a apoiarem o PS, sem exigências intoleráveis, como parece estar a acontecer com o PCP e o BE.

A coragem de António Costa, com passado impoluto de democrata e honrado cidadão, é um exemplo que, independentemente do seu futuro político, em risco, deve frutificar.

António Costa, ao ouvir todas as forças partidárias, o que cabia em primeiro lugar a um PR, mostrou que é antidemocrática a exclusão política do PCP e do BE, como a reação pretendia.

O PS fica com a liberdade futura de não se deixar aprisionar. Essa inestimável herança é um legado que o atual líder deixa ao seu partido.

domingo, outubro 11, 2015

Inquietações à volta do Médio-Oriente...

A situação criada pelo 'Estado Islâmico' no Médio Oriente está cada vez mais complexa e incontrolável.
 
A entrada da Rússia no cenário bélico que todos os dias se exacerba, nomeadamente na Síria, veio alterar substancialmente ocultos equilíbrios estabelecidos, pelo Ocidente, nesta região.
 
As soluções de ontem perdem pertinência e validade no dia seguinte. Há todavia a sensação que as forças de Putin lançaram, contra os jihadistas, uma 'guerra sem quartel' que não deixará de ter consequências no terreno.
 
Ninguém percebe onde começa e acaba o terrorismo neste País. Desde o terror das forças de Bashar Al-Assad, ao do Exército Livre da Síria, aos grupos ligados à Al-Qaeda e, por fim, ao Daesh, há facções (e fracções) para todos os gostos.
 
Moscovo pretende, para já, 'salvar' o regime de Damasco. É do seu interesse estratégico (militar) imediato para o Mediterrâneo oriental. E provavelmente pretende que continuem a existir instituições sírias, no pós-guerra, para que não se repita a tragédia da Líbia. Uma queda abrupta do regime de Damasco só poderia favorecer o 'Estado Islâmico', melhor armado, mais financiado e exibindo uma espantosa mobilidade. O Ocidente tardou a compreender isso.
 
Todas as previsões sobre o desfecho desta arrastada guerra regional, com cada vez maior rebate internacional, são, neste momento, prematuras.
 
Mas convinha começar a ponderar desde já qual o preço que o dito Ocidente terá de pagar se acaso as forças russas travarem o avanço dos jihadistas?

A guerra colonial e os afetos - BCAÇ. 1936

No dia de hoje, há 48 anos, da amurada do Vera Cruz, olhámos destroçados o cais de Alcântara onde acenavam lenços de familiares desfeitos na pungência da despedida por entre os quais circulavam gajas sorridentes do Movimento Nacional Feminino, bufos e outros biltres da ditadura.

Seguiram-se vinte e seis meses e seis dias de degredo pelo crime de sermos portugueses. O cativeiro, dentro e fora do arame farpado, partilhando medos e ansiedade, forjou laços que só pode compreender quem o sofreu.

Há quem sinta a nostalgia do império e pense poder ter ganhado a guerra que foi ganha pela Frelimo, quem baralhe os algozes e as vítimas; outros não calam a revolta contra a guerra de que ainda é cedo para falar e não há já tempo. Todos trazemos dentro de nós a guerra, com fraturas expostas e a sangrar por dentro.

São essas marcas que nos unem na intensa afetividade que marcam os encontros anuais. Ontem, com uma deslumbrante vista sobre o Douro, matámos saudades no restaurante Varanda da Régua, ansiosos por novo encontro, algures, no ano que virá.

Ontem ainda, depois da surpresa feliz de reencontrar pela primeira vez ex-militares de Massangulo, que chegaram depois e lá ficaram, depois de escarafunchar feridas e trocar mágoas, lá debitei a homilia que a liturgia pede e os organizadores exigem, cada vez mais hesitante, a titubear uma espécie de mantra que todos as anos repito com ligeiras alterações.

sábado, outubro 10, 2015

Será possível romper com o ‘status quo’ neoliberal?

António Costa, representando o PS, reuniu-se com a coligação de Direita, a solicitação desta anunciada na noite eleitoral, para trabalharem sobre a viabilização de um futuro Governo. O propósito da Direita viria a ser adoptado pelo Presidente da República na sua comunicação pós-eleitoral aos portugueses. Coincidências obvias e repetitivas.
Mas até aqui tudo bem. Trata-se de contactos normais e habituais entre partidos representados no Parlamento no período que antecede a formação de um novo Governo.  Resta saber quando essa coligação terá disponibilidade de encontrar-se com os restantes partidos. Ou se vai seguir a política de exclusão ‘decretada’ pelo actual Presidente da República.

Ontem, ao que se supõe, realizaram-se contactos exploratórios, norteados por um tremendo vazio e dá a sensação que a Coligação de Direita esperava conduzir o processo um pouco no estilo dos negócios berberes. Isto é, o PSD e o CDS/PP aguardava que o PS apresentasse uma listagem reivindicativa e depois oferecia metade ou um terço do proposto. Quem já esteve em Marrocos conhece o estilo.
Só que ao entrincheirar-se dentro da sua tenda, Passos Coelho e Portas, esqueceram-se que na mesma rua existem outros estabelecimentos a oferecer o mesmo tipo de mercadoria (uma maioria avulsa mas possível de ser concertada).
Não se prevê que a Coligação de Direita aceite governar com o programa eleitoral do PS. Nem que o PS tenha capacidade política de apoiar o ‘não-programa’ da extinta coligação ‘Portugal à Frente’ ou se fique pela promessa (não confundir como ‘compromisso’) de devolver mais rapidamente a sobretaxa de IRS e os cortes na função pública como se apressou a revelar Passos Coelho link.

A grande fractura política e social que bipolarizou as últimas eleições foi – entre outros assuntos - um conceito muito mais abrangente. Tratou-se de acabar com a incomensurável austeridade (gravosa economicamente e cega nos destinatários) que, segundo os cânones neoliberais, pode reduzir pontualmente e temporariamente o défice público e tem como contrapartida directa o brutal empobrecimento de milhões de portugueses, a estagnação da economia produtiva em benefício da proliferação da financeirização de casino, a manutenção de um elevado número de desempregados (‘instrumento regulador’ do mercado de trabalho), o consequente esmagamento dos salários e o progressivo desmantelamento do Estado Social, numa trajectória que se pretende que seja ‘insensível’ (martelada por (i)números manipulados). Existem, decorrentes da austeridade, profundas sequelas sociais que o festivo comemorar de melhorias orçamentais, económicas e financeiras, orquestrado ad nauseum pelo Governo PSD/CDS, não consegue minorar, nem apagar.

Assim, as perspectivas de resolução dos problemas criados por um longo período de austeridade desmedida e inaudita tornaram o momento político nacional pós-eleitoral muito complexo e delicado.

O PS não joga unicamente um papel charneira para a resolução dos problemas levantados pelos resultados das últimas eleições. É, para além disso, um partido ‘ensanduichado’ entre uma Direita ciosa de conservar-se na área do poder para manter encapotadamente as políticas que desenvolveu nos últimos 4 anos e um leque partidário à sua Esquerda, disperso e submerso em arrastadas quezílias ideológicas, mas desejoso de afrontar (derrotar) politicamente as políticas neoliberais dos últimos 4 anos, alterando-as no seus aspectos essenciais (combate à pobreza, à valorização do trabalho e a (re)instauração de modelo realista de justiça social).

O papel de 'equilibrista’ para onde o PS está a ser empurrado é provavelmente fracturante quando se observam as condicionantes internas partidárias, pelo que a decisão não é fácil. O fantasma da ‘pasokização’ paira sobre os dirigentes partidários socialistas e influenciará escolhas.

Retomando a visão alinhada do Presidente da República, hoje, em Portugal, assiste-se, em termos de desenvolvimento, ao digladiar entre a economia social de mercado (um dos pilares da construção da Europa) e o inventado e incontrolável ‘mercado livre’, produto do neoliberalismo reinante.
Assim simplificado o problema não parece muito complexo. Até porque o contornar dos problemas relativos ao desenvolvimento levantados pelo Pacto Orçamental imposto pelos Países europeus economicamente mais fortes, capitaneados pela Alemanha, aos outros países com dificuldades, só poderão ser ultrapassados pela entrada na cena política e na discussão pública de outras opções de modelo de desenvolvimento que o promovam de facto (e que desfaçam o mito da ‘não-alternativa’) e não pelo repetitivo e cansativo desempenho do papel de ‘bom aluno’.

Mas de fora ficam outros ‘fantasmas’, como por exemplo, a NATO, cuja ‘necessidade’ após o fim do Pacto de Varsóvia não é clara, a não ser que essa organização seja entendida como a 'guarda pretoriana' da globalização (neoliberal). Mas este é um assunto de âmbito internacional, na área da Segurança e Defesa, subsidiário das políticas globalizantes em curso, que continua(rá) em aberto, até que se percebam na sua completa dimensão os intuitos e as reais motivações de sucessivas intervenções pelo Mundo, com tão desastrosos resultados (ver Meio Oriente e 'Primavera' árabe). Este tema esteve ausente na recente campanha e nos programas eleitorais nacionais submetidos a escrutínio, logo, resta concluir que a sua evocação, neste crucial momento, não passa de uma manobra do tipo inquisitorial. 

Todavia, existe a clara consciência que o período imediato pós-eleitoral português não pode ser reduzido a uma questão de estabilidade governativa (como pretende a Direita).
É, na verdade, uma encruzilhada para o futuro. Onde se confrontam múltiplas opções: políticas, ideológicas, de modelos de desenvolvimento e, finalmente, questões relativas à solidariedade social.

Ninguém deverá esperar por soluções rápidas porque as questões políticas e ideológicas de fundo têm estado afastadas do domínio da sociedade civil (no seu ‘conceito gramsciano’) e mantiveram-se, desde os anos 80 (início da 'reforma neoliberal do capitalismo'), submersas (subjugadas) pela adopção (imposição) de resoluções ditas ‘pragmáticas’.
Só a Direita (apoiada pelos organismos europeus) deseja 'remendar', de imediato, a situação pós-eleitoral, prolongando um previsível ‘status quo’, pré-anunciado e colocou na forja, sob o ardil da segurança, uma ´saída' que nos poderá agrilhoar a liberdade e comprometer prolongadamente o futuro.
Portanto, o que está em discussão, neste particular momento político, não é rotineiro nem de somenos importância. Estão em cena todos os ingredientes para possibilitar uma (qualitativa) decisão histórica.

Terminado o período eleitoral ficamos imersos no terreno político o que pode ser clarificador. Aqui, e por agora, todas as saídas dentro do modelo constitucional terão de ser possíveis. Resta escolher, com critérios (políticos, ideológicos, etc.) e razão (razoabilidade inteligente), quais as desejáveis.
A especulação (política) entrou também na liça continuando a alimentar ancestrais medos que julgávamos desmontados (exorcizados) desde a década de 90 (queda do muro de Berlim).
Resta salientar que a especulação (latu sensu) é o campo de batalha favorito da Direita. Para muitos portugueses é evidente a sensação que nada deverá (poderá) ser resolvido atabalhoadamente. Falta ‘partir muita pedra’ para conseguir construir um edifício político e social estável (e não apenas um governo) mas, para além disso, justo, livre e igualitário.
 
Deixar, por ora, Passos Coelho sem capacidade de firmar compromissos políticos, em nome do País, não é per si uma atitude (política) despicienda.

Eleições presidenciais

Agora, que a formação do novo governo está em curso, sob a chantagem da formidável central de intoxicação da pior direita do regime democrático, depois de ter falhado o golpe constitucional do seu mandatário em Belém, é urgente preparar o fim do pesadelo Cavaco Silva / Passos Coelho / Portas.

Há uma certeza, o próximo presidente nunca será pior do que o atual, seja quem for que ganhe as eleições presidenciais.

O PCP tomou uma atitude correta e patriótica, escolhendo o seu candidato. É tempo de todos os que abominam este presidente, esta maioria e este governo em funções, lutarem para que o pesadelo se desanuvie.

Demonizar quem quer que seja à esquerda é beneficiar esta direita que não se confunde com a direita civilizada expulsa do CDS e a marginalizada no PSD por Relvas e Marco António que apostaram na cabeça leve e fotogénica de Passos Coelho, para perdição de um país que já tinha em Belém quem todos dolorosamente sabemos.

Sem dependência partidária, votarei Sampaio da Nóvoa à primeira volta e, se à segunda volta a decisão for entre Maria de Belém e qualquer candidato apoiado por esta direita, não perderei o entusiasmo para votar na antiga ministra da Saúde.

sexta-feira, outubro 09, 2015

Reflectindo sobre as eleições e a enviesada leitura vinda de Belém …

As eleições legislativas de 4.10.2015 vieram confirmar aquilo que a Esquerda mais temia. A social-democracia não consegue opor-se à cavalgada neoliberal que infesta a Europa, melhor dizendo, o Mundo. 

Tornou-se inadiável, em Portugal e no Mundo, repensar estratégias no campo da política e das respostas financeiras, económicas, sociais e culturais capazes de criar alternativas aos eleitores fazendo a diferença com o status quo que, penosamente, se arrasta desde os consulados de Thatcher e Reagan. Esta(s) situação(ções) abre(m) um terreno onde um alargado (e demorado) debate político e ideológico terá de ocorrer e obviamente não cabe(m) dentro do âmbito deste comentário.

A luta política não se pode circunscrever aos parâmetros e cânones de uma democracia formal (embora continue a passar por aí) onde aparelhos partidários assaltam o poder e controlam tudo e todos (números, estatísticas, órgãos de comunicação social e para além de tudo benesses e dinheiros). 
É muito bonito (politicamente correcto) (re)afirmar, nestas alturas, o rigoroso respeito pelos resultados eleitorais e elogiar a sabedoria popular. Mas existe o reverso desta medalha. Poucos são os questionam em que medida os usufruidores desses resultados respeitarão, depois da formalidade eleitoral, as promessas e os eleitores, isto é, as pessoas. As batalhas eleitorais transformaram-se num autêntico 'jogo da cabra-cega'. 

As eleições estão, secularmente, definidas, em democracia, como sendo o momento supremo em que a vontade popular impõe a sua força e delega o seu poder, por um período limitado de tempo. O que fica omisso é o controlo da sua execução dos programas eleitorais na prática entregue a mecanismos incertos, a conluios ocasionais e a uma imensa volatilidade fiscalizadora. 

Tudo isto – a soberania popular - poderia ser verosímil se, de facto, essa vontade exposta nas urnas fosse uma decisão, na prática política quotidiana, respeitada. Não o é, e o que de facto hoje se escrutina por essa Europa fora é a força (ou o nível de submissão) para resistir as imposições externas, directas ou indirectas, de forte índole ideológica, de que o Tratado Orçamental é um exemplo acabado, mas não o único. 
A força e a capacidade para definir alternativas ao que nos é (ou foi) imposto, dentro de um quadro de realismo de meios e disponibilidades (competitividade), não existe. 

Somos, nos tempos actuais, um povo em larga medida coarctado pelo medo, pelo dinheiro (ou a falta dele), ‘ocupado’ numa infindável luta pela sobrevivência e, portanto, civicamente manietado. Aquilo que o liberalismo historicamente mais defendeu – a Liberdade – claudicou perante os apetites do chamado ‘mercado’.
Os mercados nasceram e vivem desses medos e o romper deste círculo vicioso (mercantilista), instituído progressivamente pela ‘financeirização’ da política e da economia (desde os anos 80), acontecerá algum dia (provavelmente muito tardiamente) revelando, quando ocorrer a ruptura, todas as iniquidades do modelo capitalista. Até lá, provavelmente estaremos todos mortos!

Hoje, é cada vez mais evidente e notório que existe um processo de apropriação da força do trabalho, dos valores sociais (do bem-estar social) e da própria democracia, orquestrado pelo neoliberalismo galopante que muito  embora continue envergonhado e comedido na sua plena assunção pública, continua a contrapôr uma virtual 'liberdade de escolha' à justiça social.
Dessa captura resulta que as versões mais ou menos 'light' e/ou moderadas, no campo político situado à Esquerda de um largo espectro partidário que vai proliferando, não têm condições objetivas - enquanto permaneceram indefinições e meios termos - para promover uma inversão da trajectória imposta pelo neoliberalismo. 
A Esquerda não pode prosseguir na senda de uma ‘gestão honesta’ do capitalismo. Ao fazê-lo abdica de ser uma alternativa autêntica e torna-se numa mera adaptação, ou melhor, esgota-se na tentativa de adequação (correctiva) do modelo capitalista e sucumbe às iniquidades sociais e económicas que o próprio sistema (capitalista)  gera.

Por outro lado, o ‘centro’ político é uma ilusão para não dizer um pântano. Concentra o seu esforço na tentativa sobrenadar nessas águas turvas onde inevitavelmente acabará por afogar-se. 
A trajectória do tão procurado ‘centrão’, que afanosamente o actual Presidente da República procura, é uma auto-estrada para a acomodação e a resignação, potencializando a prossecução de todos os esquemas exploratórios dos medos e, finalmente, ladeando todas as leituras democráticas da vontade popular. 
Os resultados eleitorais de domingo estão a ser contaminados por esta enviesada visão.

Seria importante questionar como uma ‘solução política’ à volta desse “centrão”, aparentemente salvífica da (estabilidade) governação, leia-se sobrevivência do sistema neoliberalizante, pode lançar centenas de milhares de portugueses no descontentamento e na descrença do sistema partidário e, ao mesmo tempo, irá perpetuar um modelo de empobrecimento de largos sectores da sociedade. 
Ninguém tem a capacidade de, face aos resultados de domingo, poder ter a pretensão imediatista que consegue interpretar em profundidade e com exactidão o pulsar político e social, transformando-se, deste modo, em ‘dono de uma profética solução’. 
Na verdade, a realidade resume-se a esta dicotomia:
Uma maioria relativa de Direita previamente arquitectada conquista pouco mais de um terço dos assentos parlamentares versus uma Esquerda que agregou (sem se concertar previamente) uma larga maioria parlamentar (praticamente os 2/3 sobrantes).
 
O Presidente da República passou por cima destes resultados. E tentou impor regras fora do contexto constitucional a que continua, até ao fim do mandato, obrigado. Na verdade, não endossou a gestação do próximo governo (julgo que ainda continua a ser constitucional) aos partidos políticos, como afirmou na sua comunicação. Pretendeu instituir ‘ditakts presidenciais’ relativamente a futuros Governos balizando a sua aceitação, ou rejeição, no contexto democrático e constitucional a uma discutível perenidade de Tratados (políticos, militares, económicos e monetários) que, no seu entender, obrigariam ‘ad eternum’ o Estado Português e seriam um macabro factor de 'exclusão'. Para levar até ao fim este macabro raciocínio o PR deveria ter advertido, antecipadamente,e os portugueses que os votos em alguns dos partidos (legalmente) concorrentes às eleições seriam considerados, à posteriori, taxativamente 'inúteis'. Intolerável esta tentativa de segregação dos votos e dos cidadãos votantes (os que contam e os que não valem de nada).
A Esquerda – no entender do PR – poderá participar no processo de constituição do futuro Governo (uma ‘liberalidade’) desde que coloque de quarentena (marginalize) quase 1 milhão dos 'seus' eleitores. Isto é, a Esquerda deveria amputar-se dos seus apoiantes para continuar minoritária e assim dar ‘estabilidade’ (... e continuidade) à Direita.
Incrível!

Esta semana pós-eleitoral, como o dia de reflexão pré-eleitoral, deveria ser dedicada à leitura serena e objectiva dos resultados. E não à correria para dar continuidade à governação tentando desvalorizar (anular) as alterações que o escrutínio de domingo introduziu.
Todavia, quer em Belém, quer em S. Bento, não coabitam hábitos de leituras. É por isso que alguns cavalgam na direcção de aventar soluções que produziriam, à revelia do contexto democrático, resultados paroquiais, imediatos, de continuidade, 'estáveis' mas, decididamente, falseados.
Foi o que fez o actual Presidente da República que decidiu precipitar-se não ouvindo previamente os partidos com representação parlamentar, isto é, o verdadeiros actores do acto eleitoral e, na realidade, os depositários dos votos expressos nas urnas.
 
O PR apressou-se a lançar o País em direcção a uma ‘estabilidade’ forçada que não ultrapassará o vulgar aventureirismo político (para sermos comedidos na análise) e será o instrumento de deturpação do verdadeiro sentido do veredicto popular.
Cavaco Silva teria sido politicamente muito mais útil ao regime se, na última 2ª. feira, comparecesse-se nas comemorações da República (como era seu dever) e, simultaneamente, mantivesse uma prudencial reserva sobre as eleições acabadas de ocorrer. 
Fez tudo ao contrário! 

quinta-feira, outubro 08, 2015

Uma coisa em forma de assim

Peço emprestado ao grande poeta surrealista, Alexandre O'Neill, o título do livro que reúne a sua produção literária em prosa para classificar a insólita atitude de Cavaco Silva, ainda residente no Palácio de Belém, ao indigitar Passos Coelho para formar governo, sem ouvir os partidos, ao arrepio da Constituição da República Portuguesa.

Não é legítimo pensar que tenha obedecido ao seu partido, nesta decisão que se queria de Estado, à semelhança do que pareceu ser o anterior comportamento.

Sem risco de cair sob a alçada do Código Penal, só pode admitir-se que os seus assessores desconhecem a Constituição da República Portuguesa.

Desgraçadamente.

Os meninos do Ordonho

Mais de seis décadas passadas, não posso garantir que todos os anos entrasse na escola um novo irmão, a memória já não é o que foi, e foram vários os filhos dos caseiros da Quinta do Ordonho que diariamente percorreram cerca de três quilómetros até à escola de Vila Garcia, no concelho da Guarda, e igual distância para o regresso a casa.

A assiduidade era espantosa, só quebrada quando a ribeira do Noémi transbordava e, no caminho, submergia o pontão que ligava as duas margens.

Sapatos, onde os haveria, fosse verão ou inverno? A merenda, única refeição, se assim pode chamar-se ao que traziam os irmãos do Ordonho e as crianças do Carapito ou do Cairrão, as do Cume iam a casa enganar a fome, resumia-se a um naco de pão centeio, às vezes de cevada, com o parco peguilho que iam distanciando da boca para surdir até ao fim do pouco pão. Não eram diferentes de quase todos os alunos que, nas décadas de quarenta e cinquenta do século que foi, frequentavam a escola numa das mais pobres aldeias da Beira Alta.

Apreciavam os ovos de um ninho que achassem sem recear o texto do livro único, tirar um ninho é roubar a casa dos passarinhos, por mais verdade que essa fosse, por entre as mentiras do livro único, tornada hipócrita pela fome. A professora ficava muda a olhar a carita deles perante a censura de outras crianças que gostavam de ser acusa-cristos.

As rãs e, no verão, os lagartos e cobras esfolados e assados numa fogueira improvisada, ateada com os fósforos e lixa que se misturavam nos bolsos com a fisga, a navalha, o pião, a baraça, o sal e duas castanhas piladas, eram o manjar que se ofereciam apertados pela necessidade.

O outono era a época das castanhas, que alegria, tombavam sadias para os caminhos ou, dentro dos ouriços que facilmente eram britados pelos pés nus habituados à inclemência do tempo e à dureza das pedras que saíam da terra batida. Nem os que usavam tamancos podiam, para os abrir, mantê-los calçados.

O rebusco era também fonte de calorias, com as castanhas denunciadas na terra pelo despontar de um novo castanheiro e algum figo ou maçã abandonados nas poucas árvores de fruto que havia. Predominavam castanheiros, carvalhos e pinheiros, que não davam frutos, nas terras pobres da freguesia.

Na década de cinquenta, a Cáritas passou a enviar leite em pó, queijo e farinha de trigo de que o forno comunitário fazia pão, com a ajuda solidária de quem o amassava, levedava, tendia e cozia, com rezas para crescer, no forno aquecido com lenha que todos acarretavam. Foi assim que a escola passou a dar a única refeição de muitos, o naco de pão, o pedaço de queijo e o copo de leite. E os milagres que operou! Acabaram as barrigas saídas que denunciavam carências proteicas e as crianças aprendiam melhor os nomes dos rios e afluentes, os órgãos do corpo humano, as serras de Portugal dos quatro sistemas orográficos, as estações das linhas e ramais dos caminhos de ferro. Até os reis de Portugal e os seus cognomes, os filhos bastardos e as batalhas vencidas eram mais facilmente memorizados.

Quando a caridade internacional veio minorar a fome daquelas crianças, que à segunda-feira aguardavam ressarcir-se da ‘barrigada de fome’ do fim-de-semana, o rendimento escolar melhorou na escola onde a professora já antes conseguia um número assinalável de distinções na 4.ª classe.

As senhas de racionamento não interessavam a quem nem as diminutas quantidades de mercearia, azeite ou petróleo podia pagar. Os géneros iam certamente parar à candonga de outras localidades mais abastadas por agiotas que faziam pela vida.

Com o copo de leite, o pão e o queijo ficava menos soturno o ambiente da escola, onde chovia, com grades de fero nas janelas a que faltavam vidros, telhado há anos à espera de telhas, paredes com bolor e soalho apodrecido, com buracos de onde surgiam ratos e através dos quais se viam ossos de um antigo cemitério.

Da parede que separava a sala da professora da da regente escolar pendia um Cristo de bronze pregado na cruz entre as fotos de Carmona e Salazar, todos alheados da pobreza dos alunos e do estado do edifício que, na década de sessenta, ruiu durante as férias de Natal. Sob os escombros jazeram os mapas rasgados, o quadro preto, a caixa métrica e as velhas carteiras salpicadas de azul com pingas de água que acertavam nos tinteiros.

Correu na aldeia que fora milagre estarem de férias a professora, a regente e os cerca de sessenta meninos e meninas que usavam como casas de banho quintais diferentes mas, a avaliar pelo destino do crucifixo, o mais certo era o desmazelo que a escola merecia ao Estado Novo. Não faltaram ave-marias e padre-nossos a agradecer à Senhora de Fátima a benevolência de deixar sobreviver à derrocada quem resistia à fome. Até os invisíveis Anjos da Guarda, que as catequistas garantiam escoltar cada pessoa, e alguns meninos pensavam ingenuamente que residiam na cidade que distava duas léguas, até eles, foram implicados no alegado milagre.

Nos intervalos, que em lugares menos hostis eram destinados ao almoço, os meninos jogavam ao pião, à xona ou davam xutos numa bola de trapos e as meninas à macaca, ao pé coxinho, ou a pares, com as pedrinhas.

No verão, à tardinha, o horário escolar era largamente alongado, à saída da escola, mal a professora desaparecia, os garotos do Cume* perseguiam os de Cairrão à pedrada, nas rivalidades tribais autóctones que o medo da professora arrefecia.

Em mais de seis décadas varreram-se-me da memória os nomes e as caras dos meninos com quem brinquei. Mantêm-se no afeto que resistiu ao tempo e à desmemória. E que saudades!


Cume* = nome da aldeia que era a sede de freguesia a que pertenciam as localidades anexas de Cairrão, Carapito e as quintas do Ordonho e do Sr. Morgado.

Ponte Europa / Sorumbático

Apostila - Esta crónica também foi publicada pelo Jornal do Fundão, hoje.