sexta-feira, novembro 11, 2016

A Igreja católica e os funerais

Deixem que um ateu defenda a Igreja católica, frequentemente poupada quando merecia ser criticada e, não poucas vezes, injustamente censurada.

É vulgar criticar-se um padre por recusar os sacramentos a quem em vida os considerou placebos, maltratar um ministro do culto por faltar com as rezas e as cantorias a um ateu ou crente de uma religião concorrente, como se um médico fosse obrigado a receitar ave-marias para uma pneumonia ou um ateu condenado a missa de corpo presente.

Ver a bandeira do PCP aspergida com água benta não lembra ao Diabo cuja existência é tão improvável como a diferença da água benta da outra.

O facto de o velório se ter realizado na igreja de A-dos-Loucos e de a defunta se chamar Maria de Fátima não era motivo para obrigar o padre a aceitar a bandeira do PCP sobre o caixão. Mandou retirá-la e fez bem. Não é preciso ser muito letrado para perceber que o comunismo e a religião são incompatíveis.

Desmiolada foi a família a querer impor ao padre a bandeira do PCP no templo de uma religião que excomungou o comunismo. Certamente que a Maria de Fátima, incapaz de se pronunciar, como soe acontecer aos defuntos, se fosse comunista seria a primeira a enjeitar os pios ofícios fúnebres.

Não se pode deixar de louvar a coerência do padre que a família do defunto afrontou confundindo o martelo com a cruz romana.

1 Comments:

At sábado nov 12, 10:25:00 da manhã, Blogger e-pá! said...

Continua a ser premente a criação de espaços municipais próprios para serem usados por qualquer cidadão, que manifeste esse desejo, a fim de levar acabo exéquias fúnebres.

Grande número de portugueses e portuguesas apesar do seu agnosticismo, ou do ateísmo, que foi uma opção em vida são, a quando do seu terminus de vida, expostos em capelas, ditas mortuárias.
Os familiares e os amigos do defunto devem disfrutar do direito e da liberdade de evocar, homenagear ou até em casos extremos ignorar o falecido, naquilo q que se convencionou chamar o velório.

Há, contudo, uma coisa que deve permanecer inviolável: o direito do individuo - quer em vida, quer no momento da sua morte - disfrutar de um ambiente de dignidade em consonância com as suas opções de vida (onde cabem todas as 'bandeiras' que abraçou em vida).
Ora, grande parte dos rituais fúnebres que ocorrem neste País baseiam-se num paradoxal conceito da negação da morte contrapondo-lhe a ideia transcendental de eternidade. Uma colonização religiosa da vida - com múltiplas finalidades - que terá começado no judaísmo e que rapidamente foi assimilada pelo cristianismo que persiste na sua perpetuação e disseminação a (para) todos.
Julgo, ser mais realista aceitar o conceito de finito e acrescentar-lhe outras expressões bem mais humanas e afectivas. Em vez de clamar pela eternidade devemos expressar (reclamar) a saudade (mais ou menos 'eterna' conforme o lastro de memória que nos fica).

 

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