quinta-feira, dezembro 01, 2016

Notas Soltas – novembro/2016

Brasil – Após o golpe constitucional que destituiu Dilma, Temer destrói o estado social herdado de Lula, Marcelo Crivella, bispo da IURD, torna-se prefeito do Rio de Janeiro, e o País fica refém de grupos económicos aliados a Igrejas evangélicas.

FBI – A insólita atitude do diretor, James Comey, de reabrir a investigação aos emails de Hillary Clinton, a poucos dias das eleições, foi a aliança do FBI, Putin e J. Assange (fundador do wikileaks) com Trump, sendo irrelevante o posterior recuo. 

Espanha – A ETA desempenhou um papel importante na luta contra a ditadura, mas foi incapaz de se adaptar à democracia e usar as tréguas para depor as armas. A captura do último líder, em França, é mais um golpe a abreviar o seu sombrio ocaso.

Síria – A destruição do país está consumada sem que o Daesh, com ou sem Estado, seja erradicado. A fuga do seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, de Mossul, foi um insucesso das poderosas forças que o combatem.

Aquecimento global – Os últimos cinco anos foram os mais quentes de que há registo e 2016 ameaça superar todos os anteriores. O acordo de Paris, com dúvidas quanto ao seu cumprimento, é essencial para se continuar a respirar no futuro, tórrido e sufocante.

EUA – Perante o júbilo dos protestantes evangélicos americanos, de Putin e de Marine Le Pen, o mundo verá partir Obama com saudade e prepara-se para digerir a chegada de Donald Trump, o novo Comandante Chefe das Forças Armadas da maior potência.

Bulgária – Aliada dos nazis na guerra de 1939/45, esteve sob o domínio da URSS até à sua implosão. Integra a Nato (2004) e a UE (2007). Rumen Radev, venceu as eleições apoiado pelos ex-comunistas e defende a integração da Crimeia na Rússia.

UE – A vitória populista, xenófoba, racista e misógina, nos EUA, instabiliza a Europa. À crise financeira, imigração e Brexit, junta-se a deriva ditatorial e expansionista turca e a debilidade da defesa militar. As contradições internas ameaçam desintegrá-la.
 
Donald Trump – Durante a campanha eleitoral, muitos se assustaram com o que dizia, sem acreditarem que fosse o que parecia. Agora, estão alarmados porque, de facto, é o que parecia.

Miguel Veiga – Morreu aos 80 anos um dos fundadores do PSD e um antifascista.  Foi incómodo para Cavaco, Barroso e Passos Coelho, e ameaçado de expulsão. Democrata de longa data, foi coerente com o espírito do partido que ajudou a fundar.

Colômbia – O novo acordo de paz firmado entre o Governo colombiano e a guerrilha das FARC, em Havana, é uma nova oportunidade à paz, que o referendo perturbou. A paz é mais difícil do que a guerra, e vale sempre a pena procurá-la.

Turquia – O golpe de Estado falhado parece a armadilha de que o autocrata se serviu para, através de sucessivas purgas, estabelecer um poder despótico, abolir a laicidade e promover o expansionismo turco à custa dos curdos e da Síria, a caminho do califado.

Alemanha – A senhora Merkel, a única grande estadista dos maiores países europeus, anunciou a candidatura a um novo mandato quando a extrema-direita reaparece no seu país e irrompe em apoteose dos dois lados do Atlântico. É sombrio o futuro europeu.

França – François Fillon foi o surpreendente e mais imprevisível vencedor das eleições primárias do centro-direita na corrida ao Eliseu. As sondagens já não são o que eram!

Salazar – Que o sobrinho-neto reclame, em tribunal, o espólio do ditador, não perturba o País, mas os herdeiros ideológicos que insistem na defesa da sua memória infamante, são um perigo ameaçador.

 Hillary Clinton – Obteve mais dois milhões de votos do que o futuro presidente, mas o sistema eleitoral dos EUA deu a vitória a Trump, com sérias suspeitas de ter havido um ciberataque nos estados de Wisconsin, Michigan e Pensilvânia destinado a prejudicá-la.

António Guterres – O futuro S-G da ONU proferiu, na Gulbenkian, um discurso com uma frase aterradora: “Nunca vi barões do tráfico de pessoas serem detidos, mas já vi barões do tráfico de droga serem-no”. O tráfico de pessoas e órgãos existe! E arrepia.

CGD – Após a enorme vitória diplomática para recapitalizar o único banco público, há quem, por radicalismo ideológico, se tenha obstinado a destabilizar o banco do Estado. Ignoram que a desregulação financeira provocou o caos que sufoca o País e o mundo.

XXI Governo Constitucional – Iniciou o segundo ano com a aprovação do OE-2017 e o apoio do BE, PCP e PEV. O PS e os outros partidos de esquerda, que convergiram na solução patriótica, estão de parabéns pela inédita solução arquitetada por António Costa.

François Fillon – A vitória na segunda volta das primárias da direita francesa garantiu praticamente o duelo presidencial entre o candidato mais à direita da direita democrática e a extrema-direita, numa luta política de onde a esquerda ficará pelo caminho.

Turquia – Recep Erdoğan, Irmão Muçulmano considerado democrata pela UE e EUA, depois de destruir a laicidade e os direitos humanos, tornou-se um pesadelo da Europa, um risco para a NATO e o terror dos curdos, com ambições expansionistas.


Afeganistão – Paradigma do fracasso do combate ao terrorismo, à medida que as tropas ocidentais vão retirando, quinze anos depois, os talibãs recuperam as posições perdidas e impõem o regresso à sociedade tribal e patriarcal que o islamismo preconiza.

Ponte Europa / Sorumbático

6 Comments:

At quinta dez 01, 10:20:00 da manhã, Blogger Manuel Rocha said...

Comento sobre as suas reflexões no tópico "Aquecimento Global".

Verificou se os dados obtidos nos últimos anos que refere comparam directamente com os métodos, os locais e os equipamentos usados nas medições anteriores , e em particular com os do "periodo de referência"?

MRocha

 
At quinta dez 01, 01:40:00 da tarde, Blogger Carlos Esperança said...

Manuel Rocha:

Não tenho outra informação para além da que tem vindo na Comunicação Social, de forma reiterada, e na qual, à falta de conhecimentos para a contrariar, acredito.

 
At quinta dez 01, 02:56:00 da tarde, Blogger Manuel Rocha said...

Carlos Esperança,

Duas das razões que me fazem passar por aqui são o "espírito laico" e o sentido critico do v espaço. Não esperava vê-lo invocar razões de "fé". O que não falta por aí é contraditório para o tema.

Aposto que se v encontrasse nos jornais uma comparação "directa" entre as perfomances do Jesse Owens em 1936 e as do Usain Bolt em 2017 , v diria que não podia ser. Os sapatos, a pista, os blocos de partida, os métodos e os equipamentos de cronometragem, tudo diferenças que desaconselham uma comparação directa. O mesmo se passa com as medições de temperaturas. Por que será que neste caso a tendência é considerar irrelevante o que não é?!

 
At quinta dez 01, 05:33:00 da tarde, Blogger Carlos Esperança said...

Manuel Rocha, não vejo a contradição que me aponta (a 'crença' na ciência e a fé). Daí que mudo, sempre que a ciência (de acordo com os conhecimentos atuais) prova o contrário do que penso.

Agradeço-lhe, aliás, que me informe sobre fontes 'credíveis' que contrariem o aquecimento global que se verifica (segundo julgo). Estarei disponível para me retratar.

 
At sexta dez 02, 10:36:00 da manhã, Blogger Manuel Rocha said...



Carlos Esperança,

Não lhe ponto "contradições". Ironizo, apenas isso.

No mais, penso que estamos de acordo em que o "motor"" da ciência é a capacidade que revele para se questionar permanentemente a si própria. A ciência não se realiza decretando sucessivamente o "fim da história", ou a descoberta da "VERDADE", como parece ser estratégia de muitos os que se envolvem nesta polémica quando falam em consensos, como se o consenso fosse uma medida padrão de verdade cientifica.

Não cabe numa caixa de comentários elaborar muito mais. Apenas acrescento que quem pretende discutir seriamente esta questão não o faz por acreditar que o clima não muda ou por defender que a acção humana não tem influencia no clima. Há por todo o lado evidências históricas de alterações climáticas importantes. E pelo menos a nivel micro-climático também há evidencias de interferência humana na dinâmica do clima. Não é essa pois a questão.

A questão central é sobre o valor da informação disponível como "evidência" de uma dinâmica climática. Desde logo porque os "períodos de referência" foram escolhidos ad-hoc. E depois porque a informação de base utilizada não é directamente comparável, por inúmeras razões, que vão desde alterações do contexto de recolha de dados a mudanças nos equipamentos e metodologias usadas .

Até aos anos 90 a maioria das estações meteorológicas era analógica. A temperatura média obtinha-se por (Tmax+Tmin)/2 . Hoje são digitais e a média obtém-se de ( T1+T2+...T24 ) / 24, sendo que T já é a média das temperaturas registadas na hora 1....24. Acha mesmo que se trata de informação directamente comparável ?!

Outra questão é a da causalidade gases estufa =» aumento temperaturas: a correlação existe; mas a causalidade não está demonstrada.

Claro que nada disto justifica que se menospreze a pertinência das chamadas medidas de mitigação das alterações climáticas, até porque para cada uma delas existem boas razões que nada têm a ver com o clima. O que não se pode é transformar este debate num falso maniqueísmo, género: quem defende o Estado de Direito é um "socrático" fanático.

Deixo link para mais divagações.

https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_scientists_opposing_the_mainstream_scientific_assessment_of_global_warming

 
At sexta dez 02, 05:32:00 da tarde, Blogger Carlos Esperança said...

Obrigado pelo link e pela bem elaborada análise, Manuel Rocha.

 

Enviar um comentário

<< Home