segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Notas soltas – fevereiro/2016

Paulo Portas – Foi o primeiro a tirar ilações da eleição de Marcelo, tirando o boné e as galochas, à espera de outras feiras para as suas ambições. Passos Coelho não percebeu e pretende manter-se líder do PSD agora rendido à social-democracia que rejeitava.

Zica – O vírus, que existe há várias décadas em África, abala agora a América do Sul e Central, mas só a chegada à Europa e EUA lançou o pânico e o tornou uma emergência médica a nível mundial.

OE-2016 – Há críticas fundadas e luta política legítima, mas o alemão Manfred Weber, presidente do PPE, apoiado por Paulo Rangel, ao acusar o Governo português de ser um bando de extremistas antieuropeus, no Parlamento Europeu, parecia um nazi. E mentiu.

Passos Coelho – O mais extremista dos liberais e o mais impreparado líder do PSD, que os ciclos políticos e os acasos da sorte fizeram PM, quer agora transformar o partido em social-democrata, como se um animal felino pudesse tornar-se vegetariano.

Coreia do Norte – Pior do que testar tecnologia de mísseis balísticos intercontinentais, a obscura ditadura hereditária, de um país famélico, disfarça a miséria com a tecnologia bélica e provoca o mundo com a demência e imprevisibilidade do seu líder.

Desemprego – A quarta revolução industrial, com nanotecnologias, drones, inteligência artificial e impressoras 3D, tem efeito demolidor. Esta revolução, a primeira que destrói mais postos de trabalho do que os que cria, é o veículo de uma Revolução devastadora.

Marcelo Rebelo de Sousa – A posse do novo PR gerou grande expetativa e um enorme alívio, não tanto por quem chegou, mas, sobretudo, por quem partiu. Marcelo carrega a esperança de reconduzir o cargo à dignidade que merece.

Aquecimento global – O plano de Obama para reduzir as emissões poluentes sofreu um grave revés no Supremo Tribunal dos EUA, que prorrogou a sua legalidade e protela a substituição de combustíveis fósseis por energias alternativas. Uma decisão deplorável.

Europa – A obrigação humanitária de acolher multidões de refugiados, confirmou a sua incapacidade financeira, económica e social para os integrar. A hipótese de destruírem a UE, já ameaçada com outros problemas, não para de aumentar.

Deutsch Bank – A exposição no mercado de derivados equivale ao quíntuplo do PIB da zona euro. Wolfgang Schäuble, ministro alemão das Finanças, avisa Portugal do perigo que corre e desvia as atenções da catástrofe europeia que nos espera, vinda de Berlim.

Ondas gravitacionais – Previstas por Einstein há 100 anos, eram a última previsão não confirmada da Teoria da Relatividade Geral. A confirmação abre nova era à Astronomia e a Kip Thorne, o maior especialista em buracos negros, o caminho do Nobel da Física.

Síria – Após quatro anos de guerra civil, com quase meio milhão de mortos, incontáveis refugiados e o país destruído, os interesses geoestratégicos divergem sobre os bons e os maus terroristas na guerra que ameaça envolver o mundo.

Turquia – Erdogan, muçulmano moderado, prefere atacar os curdos ao Estado Islâmico que eles combatem com eficácia. Em vez de procurar o colapso do Daesh, assegura-lhe a sobrevivência, provoca a Rússia e pede a Alá um conflito entre os EUA e a Rússia.

Estado Islâmico – Seja qual for o heterónimo, Estado Islâmico, ISIS, ISI, ISIL, Daesh, é um bando de muçulmanos tribais com armas sofisticadas que põem em risco o mundo. O respeito civilizacional é o mínimo que, na Europa, se deve exigir a qualquer religião.

Sousa Lara – Cavaco Silva, na sua despedida de Belém, condecorou com a Ordem do Infante D. Henrique, o seu ex-ajudante de ministro que vetou “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, notável romance de José Saramago, que concorria a um prémio europeu.

Umberto Eco – Morreu aos 84 anos o escritor italiano, filósofo, romancista, ensaísta e um dos mais influentes pensadores europeus dos últimos cinquenta anos. Não lhe foi atribuído o Nobel, mas continuará a ser um dos mais estimulantes escritores mundiais.

Reino Unido – As cedências uniram a UE que o RU desunirá e o recuo europeu tornará céticos os europeístas. A UE, receosa da desintegração, cedeu à chantagem de Cameron, depois de arrogantemente hostilizar os pequenos países.

Vaticano – A condenação da pena de morte, sem reservas e contra o catecismo romano, que a admite, é uma denúncia corajosa da tradição violenta que alguns países civilizados mantêm. Francisco, incapaz de modificar a Cúria, procura, – e bem –, mudar o Mundo.

Donald Trump – O insuportável candidato republicano dos EUA é cada vez mais a voz do que de pior tem a nação mais poderosa. Deixou de ser um exclusivo risco americano, passou a ser um perigo para a Humanidade.

Irão – Na manutenção da fatwa e elevação do prémio, 3,6 milhões de euros, para matar Salman Rushdie, autor do livro “Versículos Satânicos”, não é o fascismo islâmico que ainda espanta, é o silêncio das outras religiões que já não se tolera.

Assunção Cristas – O buraco que deixou no ministério da Agricultura (340 milhões de euros) e o facto de ter excedido em 2015, ano eleitoral, verbas da UE para 5 anos, não a recomendariam para líder, mas o CDS pode ter procurado uma comissão liquidatária.


Hillary Clinton – A fulgurante vitória na Carolina do Sul é um bom prognóstico para o triunfo no campo democrático e uma excelente oportunidade para derrotar o republicano Donald Trump, excêntrico milionário, demagogo, provocador e perigoso. 

domingo, fevereiro 28, 2016

Uma obsessiva reprise…

Em tempos de desalento, de desorientação e de deambulação pelo País a tendência para as reprises é avassaladora. Em 3 de Junho de 2011, Passos Coelho declarou-se “preparado para governarlink.

Foi o que se viu, se sentiu na pele e acabou dispensado de tal ‘encargo’ nas eleições legislativas seguintes.

Passados quase 6 anos, a 28 de Fevereiro 2016, depois de uma volta de traineira pelos mares de Viana do Castelo, provavelmente um pouco mareado pela ondulação, brindou os portugueses com uma novidade: “O PSD está preparado para governar”… link.

Uma obsessão pouco inovadora mas que define efectivamente o que anda por aí a fazer batendo com a mão no peito de que não deseja uma crise política.

Na ressaca das ‘Primaveras Árabes’…

O grande erro das denominadas 'Primaveras Árabes' é reconhecível à vista desarmada e reside um ponto essencial: o fim de regime autoritários no Médio-Oriente parecia, à primeira vista, o arranque de um processo de democratização dessa região.

O que começou na Tunísia com a deposição de Ben Ali, logo seguido no Egipto com a queda de Mubarak, na Líbia com Kaddafi, no Iémen com Saleh e agora na Síria com Al Assad teve efeitos devastadores na configuração política e institucional destes países. 

Estas alterações de personagens (e não de regimes) foram abusivamente conotadas como movimentos sociais espontâneos, oriundas de uma sociedade civil anacrónica nadando na miséria, que tinha encontrado novos meios de mobilização (Internet, redes sociais, etc.) e acção política fora dos habituais e patriarcais 'tutores' (religiosos ou tribais). Menosprezou-se o facto de todos estes países terem como denominador comum um forte substrato religioso, o islamismo, altamente condicionalmente do comportamento social e político.

E antes de tudo esta aragem primaveril existe a questão do Iraque que levou ao derrube pela força militar de Sadam Hussein e cujas origens próximas remontam na resposta bélica (ocidental) ao massacre do 11 de Setembro num géneros de 'retaliação imperial'.

Difundiu-se a ideia de que os movimentos sociais nestas regiões tinham por objectivo conduzir a mudanças políticas profundas levianamente confundidas como esforços de democratização em curso. 

Alguns comentadores sublinham uma histórica similitude entre a chamada ‘Primavera Árabe’ com o que sucedeu, na Europa nas revoluções ocorridas em 1848. A então designada ‘Primavera dos Povos’ eclodiu por toda a Europa (França, Alemanha, Polónia, Itália e Áustria,…) e tinha bases políticas, sociais e económicas em tudo semelhantes à situação do Norte de Africa e Médio Oriente de hoje. 
Os povos que então sustentaram essas revoluções foram, a breve trecho, dominados por uma burguesia nascente e poderosa saldando-se as conquistas no fim do absolutismo régio e conquistas políticas e sociais como o direito de voto (sufrágio universal) e ténues alterações do campo social e laboral (de acordo com a era industrial que se aproximava) e viriam a condicionar a política social europeia para futuro. 

Mas será também desta 'primavera europeia' que nascerá uma importante definição de trincheiras (separação de águas) nos campos sociais e políticos e que vai, dai aí para frente, opor os interesses da burguesia e do proletariado. 
Os movimentos político-sociais na Europa vão beber neste contexto revolucionário e é aqui que nasce uma trilogia que chegou aos tempos contemporâneos: o liberalismo, o nacionalismo e o socialismo. 

A história da Europa moderna, rica, conturbada, diversificada e progressiva ('civilizada') vai ser determinada durante o século XIX e XX por estes sobressaltos revolucionários. Mas esta viagem comparativa é sempre recheada de armadilhas interpretativas e não deverá ser a única chave para a compreensão das `Primaveras Árabes’ do século XXI.

As ‘Primaveras Árabes’ ao fim e ao cabo vieram reforçar o poder a e a influência de algumas (e o algumas é fundamental) monarquias absolutistas e de oligarquias financeiras que dominam alguns países da região. Depois, os EUA, o grande protagonista mundial (estamos na era global) não logrou reforçar a sua posição dominante nesta área - tanto política como económica - sendo perceptíveis os desgastes e perda de influência pelos conflitos locais e regionais que não foi capaz de administrar e resolver. Em contrapartida propocionou a introdução e, pior, a exaltação de uma componente religiosa entre islamitas lançando a facção sunita contra a xiita transferindo o protagonismo a dois países da região: Arábia Saudita e Irão.

Neste momento as grandes potências mundiais (e não só os EUA) estão empenhadas em redesenhar o velho e  planificado ‘mapa mundi’, saído da II Guerra Mundial, onde plantaram países como a Síria, Iraque, Israel, Turquia, etc. num acordo que a Primavera Árabe inevitavelmente pretendeu revogar. Claro que estes reequilíbrios geopolíticos e estratégicos têm fortíssimas motivações económicas por detrás em que as questões energéticas, nomeadamente o petróleo, jogam um papel crucial.

Resta saber, finalmente, em que medida uma outra ruptura ocorrida nos final do século XX – o desmembramento da União Soviética – influenciou as actuais posições estratégicas e o despoletar das ‘Primaveras Árabes’. 

Esta poderá ser causa próxima do estado confusional (e não só confessional) que, a par da disseminação do terrorismo (as revoluções têm sempre um período de Terror mais ou menos de índole robesperriana), está num turbulento desenvolvimento e ameaça continuar a perturbar a Pax Mundi (porque sobre a Pax Americana já demos).

sábado, fevereiro 27, 2016

O cartaz que fere o bom senso político (e só isso…)



O cartaz publicado pelo Bloco de Esquerda relativo à discriminação da adopção é lamentavelmente infeliz. Não está em causa a liberdade de expressão e de pensamento. Existe, de facto, liberdade para o BE fazer o que fez. 

O que foi deturpada foi a capacidade política de comunicar com a população. E a falta de argúcia para fundamentar a comunicação por imagens no contexto real. Não vale a pena discutir nem conduz a bons resultados misturar pressupostos contextos biológicos e fisiológicos e convicções sobrenaturais. 
É uma argolada confundir – ou meter no mesmo saco - questões sociais reais e prementes, envolvidas em especulações biológicas e reprodutivas com mitologias divinas, apostólicas e/ou esotéricas.

A adopção da personagem Jesus, que é um dos pilares religiosos para os católicos embora não tenha um percurso histórico claro e credível, não informa qualquer conteúdo legislativo e não consegue influenciar os fundamentos da sociedade moderna (malgré os esforços do papa Francisco). 
A crença no livro (Bíblia) é baseada em ‘verdades de fé’ e diz respeito a questões místicas e sobrenaturais. 
Nada tem a ver com problemas reais que fustigam a sociedade como são os problemas de direitos e deveres de parentalidade, de discriminação e de adopção.

Não se percebe, portanto, a correlação que o despropositado cartaz pretendeu fazer. Na verdade, tem de existir num País laico um amplo campo de liberdade religiosa onde todos têm lugar desde os praticantes religiosos, aos agnósticos terminando nos ateus. Quando se decide imiscuir símbolos religiosos na comunicação política é necessário ser prudente, revelar bom senso e razoável. Se assim não for poderemos estar a fazer um péssimo uso da liberdade religiosa, um inestimável bem que deve ser preservado a todo o custo. 

Muitos dos problemas que fustigam hoje o Mundo passam pela marginalização ou derrogação dessa liberdade. Mais uma razão para que o BE tivesse adoptado uma atitude comunicativa mais pensada, estratégica e esclarecida (diferente de censura).

O  bom senso é um bem escasso que temos muitas vezes necessidade mas que não se vende na Farmácia, nem se consegue incutir nas Escolas, Institutos ou Faculdades ou em mesas redondas, convénios, simpósios, etc.

Síria: o ‘improvável’ cessar-fogo…

O cessar-fogo anunciado para  o dramático conflito que se desenvolve na Síria é uma medida muito limitada embora seja de saudar.
Mais do que ser um caminho para a resolução do conflito será uma pausa para respirarem link. Quer as exaustas máquinas bélicas e diplomáticas, quer para dar tempo a acções humanitárias inadiáveis.

A exclusão do âmbito deste tímido acordo do Daesh e da Frente al Nusra torna muito complicada a sua efectivação. Na verdade, o conflito sírio que terá começado por uma contestação interna ao regime de Bachar Al Assad rapidamente transformou-se numa encruzilhada internacional que envolve múltiplos parceiros (EUA, Arabia Saudita, Turquia, Rússia, Curdos, etc.).
A declaração de cessar-fogo é muito restrita e envolve quando muito a Rússia e EUA que necessitam de tempo para fazer balanços provisórios.

O problema é que embora existam inúmeras organizações de nominalmente se identificam com esta trégua a confusão reina no terreno já que distinguir o que é o Exercito Livre da Síria (grupo militarmente discreta apoiado pelos EUA) da Frente al Nusra (facção jahadista sunita cujas ligações com a Al Qaeda e a Arabia Saudita são notórias) e os curdos sírios (únicos combatentes no terreno do Daesh mas também o alvo preferencial e de estimação dos turcos) mostra que, no teatro de operações, tudo é confuso, indefinido e volátil.
 
Esta trégua mais parece um compasso de espera no momento em que as forças leais a al Assad com um forte apoio da Rússia, Irão e das milícias Hezbollah recuperam posições no território. Será uma pausa - provavelmente muito curta - que a diplomacia sob a batuta da ONU tem obrigação de aproveitar.
Mas sendo certo que o conflito sírio deixou de ter uma solução militar a verdade é que se transformou num puzzle muito complexo onde a componente política se deixou inquinar com questões religiosas, de disputa pela hegemonia regional e, como seria de esperar no Médio Oriente, com questões energéticas (petróleo) pelo meio.
Este emaranhado de conflitos, interesses e de manobras não cabe dentro do frágil guarda-chuva aberto pelo acordo de cessar-fogo anunciado pelos EUA/Rússia.

Este acordo abre um exigente caminho à diplomacia política onde John Kerry, mais do que a Putin (que de certo modo controla politicamente o regime de Damasco), tem para satisfazer os seus 'aliados' no terreno. Kerry tem de ‘agradar’ a Riad,  a Telaviv, a Ankara,  garantir os compromissos assumidos com os curdos o que pode ser uma tarefa impossível. Só muito lateralmente mexe como o principal problema da região: o Daesh.
 
Estamos, portanto, a viver entre o improvável, o impossível e o imponderável. A saída deste sangrento conflito remonta - é cada vez mais notório - a correção dos tremendos erros cometidos na chamada 'Primavera Árabe'.

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

FIFA

O Futebol mundial elegeu ontem o dirigente da FIFA. Trata-se do suíço-italiano Gianni Infantino.
Não foi uma normal rotação de presidentes. Por regra este é uma alto cargo do futebol que é ocupado pela mesma pessoa durante largos períodos de tempo. Os seus dois últimos detentores do cargo o brasileiro João Havelange e o suíco Joseph Blatter estiveram respectivamente 24 e 17 anos à frente deste organismo. É possível reconhecer que permanecer tanto tempo neste cargo cria problemas a que não são estranhos esquemas compradrios, de abusos, de enviesamentos, de favorecimentos  e até de corrupção (situação em investigação relativamente ao consulado de Blatter).

Dando por adquirido a necessidade de um organismo coordenador mundial do futebol a questão que se coloca , no imediato,  é:

- Não seria prudente limitar estatutariamente o nº de mandatos do presidente?

- Dois mandatos de 4 anos cada não seriam suficientes?

A posse de Marcelo e a primeira-dama

Nos onze dias que ainda faltam para a tomada de posse do Presidente da República, uma eternidade para quem espera, há dez anos, o retorno do cargo à sua dignidade, há já uma excelente notícia. Não haverá primeira-dama, o resquício monárquico que as Repúblicas alimentam, como as teocracias islâmicas o harém do califa.

Para quem luta pela igualdade de género e anseia por uma mulher na P.R., é deprimente assistir à deslocação do inquilino de Belém, constantemente acompanhado pela prótese, dando a ideia de que, sem ela, se sente como um idoso que esqueceu os óculos e recebe, para ler, o discurso impresso.

O protocolo vai ser modificado e consta que a mulher de Ferro Rodrigues, que tem vida própria e não usa o pseudónimo de segunda-dama, tem a gentileza de estar presente para escoltar a D. Maria Cavaco, para que esta se mantenha no horizonte visual do marido a servir de benzodiazepina que o conforte na ação de despejo do Palácio de Belém.

Feito o corte com a subalternidade da mulher, no mais elevado cargo da República, a nível simbólico, está aberto o espaço para uma mulher o ocupar. E não faltam mulheres com inteligência, cultura e preparação para exercerem as funções, com a dignidade que lhes tem faltado e sem necessidade de um primeiro-cavalheiro.

Viva a República!

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

OE-2016, PSD e CDS – curiosidades

Durante a discussão do OE- 2016, Passos Coelho, inchado, subiu à tribuna para afirmar, em síntese, que ia ali, apenas, para dizer que não contassem com ele. Lembrou o sujeito que foi a uma entrevista de emprego e a quem o entrevistador, na falta de habilitações exigidas, perguntou o que fora ali fazer, ao que o fulano respondeu, ‘só vim dizer que escusam de contar comigo’.

PSD e CDS, ainda mal refeitos da desunião de facto, o que acontece sempre que o poder lhes foge, só se distinguiram pela postura corporal a tão insólita e ressabiada declaração. Enquanto os deputados do PSD aplaudiram de pé, os do CDS aplaudiram sentados.

Não são as ideias que os distinguem, são as articulações.

Portugal e as Forças Armadas (FA)

Os militares, após a Revolução de Abril, começaram cedo a ser ostracizados. Portugal, incapaz de fazer a catarse da guerra colonial, tão injusta quanto inútil e criminosa, viu depressa insurretos, nos libertadores, e patriotas, nos algozes da ditadura.

Só um país rico se podia ter dado ao luxo de esbanjar a formação e experiência técnica, administrativa e de liderança de oficiais e sargentos dos três ramos das Forças Armadas. Podia ter aproveitado, depois de afastados os próceres da ditadura, a honradez castrense que rivalizava com a dos melhores quadros que os partidos atraíram.

Os partidos preteriram sempre os militares, especialmente os que nos libertaram da mais longeva ditadura europeia, quando precisaram de autarcas e quadros da Função Pública. Afastaram os que, em comissão de serviço, integravam a PSP; até da GNR afastaram os oficiais da Academia Militar numa progressiva desvalorização das Forças Armadas e do carácter simbólico da unidade nacional que representam.

O fim do Serviço Militar Obrigatório (SMO) ‘exigido’ pelas juventudes partidárias do CDS, PSD e, até, do PS, com honrosa exceção da Juventude Comunista, impediu que as FA refletissem a diversidade do País, incorporando jovens de ambos os sexos, durante 1 ano, que seria de serviço cívico para os excedentes das necessidades militares.

Assim, transformam-se as FA de um País na guarda pretoriana de um qualquer regime. Quando os símbolos da unidade nacional rareiam ou se diluem é o SMO que aglutina o que resta da identidade nacional num mundo globalizado.
O direito à deserção ou o dever de sublevação contra uma ditadura transforma-se, numa democracia, na obrigação de obediência a decisões legítimas, onde um ano de vida seria uma necessidade para o País e a experiência enriquecedora para os jovens.

Além do recrutamento que as FA permitiriam, para as polícias, havia a renovação anual de efetivos, onde os soldados são velhos aos 30 anos e os oficiais são novos aos 50, sem os custos incomportáveis de FA em regime de voluntariado, como ora sucede.

Os responsáveis pelo fim do SMO lesaram a autonomia e identidade do País. Quando já nenhum país tinha colónias, a ditadura, de tão retrógrada, foi a última na descolonização e preferiu a derrota que inviabilizou uma negociação que evitasse a tragédia.

Com a cultura democrática que o 25 de Abril legou, as FA podiam ser o povo fardado em vez de correrem o risco de se tornarem na guarda pretoriana de um novo polvo civil.

Há erros irreversíveis e cedências que se tornam crimes.


Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

Navegar à vista…



Ontem, durante a discussão do OE no Parlamento, António Costa voltou a afirmar que a actual Oposição (CDS/PSD) teria desenvolvido diligências junto a Bruxelas com vista ao seu chumbo link . Costa chamou-lhe um 'momento triste'. Será mais do que isso, isto é, um momento idiota e hipócrita.

Em plena campanha eleitoral para as Legislativas Passos Coelho fez um alarido monumental quando António Costa afirmou que chumbaria um orçamento de um Governo PSD/CDS.

 Nessa altura o ainda primeiro-ministro achou que o prometido chumbo seria “procurar dividir os portugueses, ameaçar os eleitores e prometer conflitualidade e instabilidade" e acrescentou: "Não é uma maneira madura de tratar civicamente uma democracia que nestes 41 anos merecia mais nestas eleições de Outubro" link .

Em Fevereiro de 2016 votou contra o OE, na generalidade, ao que ‘justificou’ em nome do realismo. E invocando esta razão abstêm-se de participar na discussão na especialidade.

Após a rejeição da sua proposta de Governo, Passos Coelho decidiu esquecer a sua virtual postura de Estado e passou a açoitar a democracia, que invocou pela sua maturidade, a tractos de polé. 

É o que se pode aduzir destas contradições. É um nunca mais acabar de travestismo político  tentando navegar à vista.

Reflexão

Em Portugal, a comunicação social é acusada de estar sempre ao lado do poder. É uma afirmação profundamente injusta.

Se é verdade que tal aconteceu durante o governo de Passos Coelho e Paulo Portas, hoje é rotundamente falso,

Nunca, como agora, no governo de António Costa a rádio, a televisão e os jornais foram tão independentes do poder e tão acirradamente oposicionistas.

O Papa e a abolição da pena de morte


A pena de morte, execrável e irreversível crueldade, que subsiste, mesmo em países ditos civilizados, é uma ofensa à civilização e ao humanismo que é seu apanágio.

Parece que o número expressivo de inocentes, não faz tremer a mão de quem condena e de quem assina a autorização das execuções. Há tradições que se perdem no tempo e se conservam com sádica vigilância dos povos que não renunciam à violência.

A tradição permanece em vários países e a humanização das penas continua à espera de legisladores corajosos e da educação cívica para erradicar a crueldade.

A pulsão assassina está inscrita no código genético das populações tribais e no desejo de vingança que habita populações que não evoluem. As religiões são, aliás, um veículo da violência através do culto dos valores tribais em que nasceram.

É por isso que o pedido de abolição da pena de morte pelo Papa Francisco, ao arrepio da sua própria Igreja, assume particular relevância e deve ser saudada.

É um ato corajoso que rompe com a tradição e redime valores bárbaros que as religiões perpetuam. Sendo uma voz com influência nos crentes do seu Deus é de crer que países como o EUA possam romper com tão bárbara tradição de que raros dos seus Estados se emanciparam.

É pena que os dignitários islâmicos, os bispos do protestantismo evangélico e os rabinos dos judeus das trancinhas não sigam o exemplo do Papa católico, mas todas as grandes caminhadas começam com pequenos passos.

terça-feira, fevereiro 23, 2016

23 de Fevereiro de 1981


Enquanto Espanha permanece mergulhada numa profunda crise política, decorrente dos resultados das eleições de 20 de Dezembro 2015, não é despiciente relembrar o que sucedeu há 35 anos, nas Cortes de Madrid, onde se viveu este escabroso momento fascistóide (na foto) sob a batuta do serventuário Tejero de Molina às ordens do general Milans del Bosch.

Marx escreveu (18 de Brumário de Luís Bonaparte): A história repete-se a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.
Estaremos 35 anos depois a viver a farsa?

Igrejas – ciência, saúde e moral

Nos EUA, alguns Estados conseguiram a proibição do ensino da teoria da evolução se, em simultâneo, não fosse ensinado o criacionismo bíblico.

O movimento criacionista alastra como mancha de óleo a conspurcar o tecido científico de um país cuja constituição é laica. Nas escolas do Estado do Kansas já desapareceram todas as referências às teorias de Darwin e do Big Bang.

O obscurantismo já atravessou o Atlântico e contaminou a Europa. Há poucos anos, a ministra da Educação da Sérvia decidiu que o ensino da teoria da evolução só pode ser abordado se também for descrita a história da vida, segundo a Bíblia. Se essa orientação vier a ser alargada à geografia só acolherá o movimento de rotação da Terra se, ao mesmo tempo, for considerada a deslocação do Sol à volta da Terra.

Alguém vê um bispo a condenar a ignóbil decisão desses beatos analfabetos, o Papa a execrar tal cabotinismo, a Cúria romana a manifestar-se contra a infâmia?

Os milagres certificados no Vaticano são pueris. Constituem um ultraje à inteligência, o recurso à superstição, uma vergonha para a humanidade e o ridículo para a fé. Já algum dignitário se mostrou desgostoso, algum clérigo reclamou ou um só crente se atreveu a acusar a fraude? A única posição, ora previsível, seria contra as ondas gravitacionais, negando a única confirmação que faltava à previsão de Einstein e, quiçá, atribuindo-a a uma obscura conspiração judaico-maçónica.

A fé continua inconciliável com a ciência, mas escusava de ser tão nefasta para a saúde.

Já se obram milagres pela televisão, tal como se transmitem bênçãos apostólicas e se apela ao óbolo que alimenta a indústria da fé, a troco de bem-aventuranças eternas que se afiançam pela mesma via. Lenta e seguramente resvala-se para o obscurantismo mais indecoroso conduzidos pelo clero mais ignaro e o beatério mais lorpa, através dos mais avançados meios de comunicação.

Não é o novo Renascimento que chega, é a Idade Média que regressa. Sob os escombros do Vaticano II a ICAR trouxe de volta o concílio de Trento. O obscurantismo deixou de ser monopólio do Islão e do judaísmo ortodoxo e voltou a ser a marca dos monoteísmos.

e estudos mitológicos e de adorações residuais, eis que reaparece. Da lixeira da história, dos resíduos tóxicos, foi exumado por sicários para ser exibido nas escolas, mostrado nas universidades e ameaçar à ciência.
Deus nunca foi o farol que iluminasse o progresso, mas hoje é o fogo-fátuo de um corpo putrefacto enquanto o mundo gira e avança indiferente ao odor.

E não é o Papa Francisco que consegue, se é que pode ou quer, arejar as alfurjas da fé.
Perante a tragédia do Zika, o papa admitiu a utilização de anticoncecionais às mulheres infetadas, mas considerou o aborto [de fetos com malformações, microcefalia] ‘demónio absoluto’. Decididamente, a moral, à semelhança da ciência, é incompatível com a fé.

Como se Deus rejubilasse com o nascimento de crianças microcéfalas e uma multidão de deficientes encorajasse sinfonias celestiais interpretadas por anjos!

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Passos Coelho, o Homo erectus

Não há dúvida de que Passos Coelho se julga um Homo erectus, talvez por ter evoluído em África, mas desconhecendo que esse exemplar se extinguiu há cerca de meio milhão de anos.

Mantendo ainda algumas características distintivas do Homo habilis há de julgar que o Homo erectus, com o cérebro aumentado, a presença dos cumes da testa, rosto encurtado e uma abertura nasal em potência, corresponde ao fenótipo impecável que partilha, não apenas com Miguel Relvas e Marco António, mas com todos nós.

Não tendo sido o “menino de Turkana”, esse viveu há cerca de 1,6 milhões de anos, foi o menino promissor do canto lírico que a madraça partidária converteu em líder quando se distraíram os concorrentes e se juntaram os cúmplices, há menos de uma década.

Hoje, o antigo gestor da Tecnoforma, pensa que a ética é a postura corporal que define o Homo erectus, que julga existir ainda e de quem pensa ser um exemplar de referência, porque, ao empertigar-se, fica ereto.

Aturdido com a demora que os seus amigos do PPE levam a destruir o atual governo, à míngua de argumentos, foi ele que teve a ideia de observar que o PS se ajoelha perante a Europa, uma Europa de que os seus correligionários abdicam servis perante a Inglaterra e autoritários face a Portugal, Grécia ou Irlanda.

Quando a inteligência, a cultura e a capacidade técnica minguam, nada melhor do que acusar os outros do que vê quando se olha ao espelho.

Já nem falo do que foram as posturas de Vítor Gaspar ou de Maria Luís perante o Sr. Schäuble, basta observar como o próprio se comporta diante de um rei que o genocida Franco legou a Espanha.

domingo, fevereiro 21, 2016

BREXIT – 3 (…e último)

A última reunião do Conselho Europeu em que se decidiu conceder um ‘estatuto especial’ à Grã-Bretanha não pode deixar de levantar interrogações, derrubar certezas e questionar o futuro (da UE) link.

Não é possível fazer coexistir a Europa (Mercado Comum) criada pelos ideários partilhados por R. Schuman, P.-H. Spaak, K. Adenauer, A. Gasperi, j. Monnet, entre outros, e as actuais exigências de David Cameron que mais facilmente se reportam à atitude manifestamente euro-céptica do período tatcheriano, como sabemos, mais virada para a EFTA do que para a uma CEE mais abrangente e com exigências democráticas.

O Reino Unido, desde há muito que desfruta de muitas prerrogativas no seio da comunidade de países europeus.
A começar pela imposição da língua a despeito da decadência económica da 'Ilha saxónica', ditada pelo fim do Império e o progressivo enfraquecimento da 'Commonwealth'.
Disfruta, igualmente, de um quadro de desregulação financeira muito 'conveniente' et pour cause de interesses inerentes à sua City. 
Os direitos laborais perdem projecção ou atenção, desde o ‘blairismo’ - com muito de liberal e pouco de social - sendo diluídos pela discussão de questões marginais e fracturantes mais do agrado dos 'mercados de trabalho'.
Nos anos recentes, na sequência de queda do muro de Berlim, promoveu-se – e isso foi apoiado por Londres – o alargamento da União a Leste desde que o modelo integrador fosse anglo-americano. E assim tem sido. 
Na verdade, os países de Leste constituem a 5º. Coluna europeia, por exemplo, no gravíssimo problema dos refugiados. A mediação europeia dos interesses americanos é também bem visível no dormente conflito ucraniano onde a UE assumiu dar o corpo ao manifesto no sub-reptício diferendo EUA-Rússia.

Em relação à Comissão Europeia, Londres, desde o ‘susto’ que apanhou com Jacques Delors que recusou-se a desempenhar o apagado papel de ser um (alto) funcionário, a partir daí tem interferido directamente na escolha do seu presidente. Basta recordar as ameaças que proferiram em relação J C Juncker por o considerarem ‘demasiado federalista’. Tanto erodiu o papel da Comissão que hoje o seu presidente – mesmo não o apoiando – tornou-se naquilo que sempre desejaram: uma figura burocrática, fraca e desprestigiada.

E, deixando de parte qualquer tipo de parcimónia, uma qualidade tipicamente britânica, aproveitaram o ensejo para exigirem mudanças com capacidades intrínsecas altamente desagregadoras como sendo uma ‘reforma’ que nenhum dos presentes no último Conselho Europeu tem legitimidade democrática para o fazer.

Portanto, nada haverá a comemorar porque, mais uma vez, em Bruxelas se procedeu a um ‘arranjo’ (à margem das competências dos dirigentes nacionais presentes) de qualidade medíocre e alcance mais do que duvidoso (para não dizer pernicioso).

De facto, no Conselho Europeu de 19 de Fevereiro último, ‘assassinou-se’ a UE para impor o regresso do velho Continente aos tempos da EFTA.

‘Petite mémoire’ acerca de genuflexões…


Toda a gente tem a noção de que Bruxelas está apostada em dificultar a acção do actual Governo. Estar no poder, neste momento, sob o signo da anti-austeridade, não pode agradar às personagens que se instalaram nas instituições comunitárias. O artigo que escreve hoje Pacheco Pereira sobre a existência de um terreno armadilhado para este Governo diz quase tudo link.

E o ‘quase’ advém do facto de ter surgido uma inesperada acusação. Passos Coelho insinuou num Congresso Autárquico nas Caldas de Rainha que o Governo está ‘ajoelhado’ perante Bruxelas link
Nem o mais esclarecido analista político poderia antecipar tamanha aleivosia. Mas esta nova inflexão do ex-primeiro-ministro na campanha de denegrir António Costa traz ‘água no bico’. 
Trata-se de uma afirmação feita por um homem que durante 4 anos caminhou regularmente para Bruxelas. Ele lá sabe como o fez. Se foi de pé, de joelhos ou a rastejar. 
Uma coisa os portugueses devem recordar-se. Da postura de um influente membro do seu Governo (até à sua demissão) em relação ao máximo expoente político e incondicional fã das políticas de austeridade (Wolfgang Schäuble).
É só olhar para a foto e reconhecer o, na altura, nº. 2 do seu Governo - Vítor Gaspar.
Como está?
- De joelhos, de cócoras ou reverencialmente atento e obrigado como se fosse um seu criado?

Foi balançando entre estas posições que o XIX Governo Constitucional conviveu, durante uma legislatura, com as instituições europeias e com os representantes dos sacrossantos mercados.

Resultado: o actual desvario! Andar com a moleirinha baixa tanto tempo perturba a capacidade de discernimento e, se calhar, causa ‘visões’.

O estertor de um presidente pio

O estertor de um presidente

Na última quinta-feira, dia 18 de fevereiro do Ano da Graça de 2016, estava o pio Aníbal Cavaco Silva, bem confessado, comungado e penitenciado dos seus pecados quando lhe surgiu o mimoso cachaço de Sousa Lara, convocado para a venera que purgava as mãos de quem a concedia e o passado de quem a recebeu.

O Infante D. Henrique só deu o nome à medalha para cuja imposição o homenageante tinha o alvará a 19 dias do trespasse. Foi assim que do professor catedrático António Costa de Albuquerque de Sousa Lara, um sólido pilar da civilização cristã e ocidental e especialista em árvores genealógicas, que os menos eruditos hão de julgar um ramo da Botânica, fez Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Decerto, amigos do peito e da hóstia, Cavaco Silva e Sousa Lara, têm em comum o ódio de estimação por José Saramago, o Nobel do nosso contentamento, que os precedeu na defunção. O primeiro não tinha ainda, publicamente, agradecido ao segundo o pio ato de censura a “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, e minguava-lhe o tempo para o fazer.

Estando praticamente todos os agentes da Pide em adiantado estado de defunção, para poder ainda distinguir mais alguns “por serviços excecionais e relevantes”, restava-lhe o bem-aventurado ex-docente da extinta Universidade Moderna, para a honraria que o ex-presidente da Comissão de Honra para a Canonização de Nun´Álvares Pereira devia ao beato censor de Saramago.

No dia seguinte, cabia ao devoto Aníbal, maldita seja a Constituição, que foi obrigado a jurar para ter direito ao alvará das condecorações, a promulgação das leis da adoção gay e do aborto, no último dia do prazo constitucional.

O Deus do Professor Aníbal, na sua infinita misericórdia, há de absolvê-lo do pecado da promulgação de tão desvairadas leis e premiá-lo com a bem-aventurança eterna. Há de ter em conta o martírio do devoto até ao próximo dia 9 de março, a partir do qual poderá entrar em perpétuo retiro espiritual antes de o chamar à sua divina presença.

Como foi breve o Carnaval e é tão longa a Quaresma! Não merecia tão rude provação o temente a Deus.    

sábado, fevereiro 20, 2016

Obituário

Umberto Eco
Morreu ontem, aos 84 anos, o escritor italiano, filósofo, romancista, ensaísta e um dos mais influentes pensadores europeus dos últimos cinquenta anos. Não lhe foi atribuído o Nobel, mas continuará a ser um dos mais estimulantes escritores mundiais.

Brexit ou Br-êxito?

O primeiro-ministro britânico anunciou hoje, em Londres, a data do referendo (23.06.2016) que decidirá sobre o Brexit (isto é, uma eventual saída/permanência da Grã-Bretanha da UE).

Para os que acalentam dúvidas sobre a postura do político que negociou este fim-de-semana a permanência de Inglaterra na UE com as instituições europeias nas suas declarações de hoje existe um evidente ‘mensagem’:
- “Não amo Bruxelas, amo o Reino Unido” … link.

Não é necessário especular. Basta entender a linguagem política.

A Europa terá de escolher entre um patriotismo balofo e o culto de um odiento nacionalismo. Mas, estas declarações revelam acima de tudo a inutilidade do último Conselho Europeu e o desespero que assaltou uma Europa em desagregação.
Tudo indica que os súbditos britânicos já terão escolhido. Aliás, a Europa não comporta súbitos mas, unicamente, cidadãos.

sexta-feira, fevereiro 19, 2016

Em vez do ‘Brexit’, o caos adiado …


A reunião de hoje do Conselho Europeu para tratar do chamado ‘Brexit’ pode não passar do toque a finados para a Europa link.

Para além de medidas na área social com um intenso odor discriminatório que representam um enorme recuo no conceito da Europa social,  outras medidas na área financeira, nomeadamente em relação à City londrina, podem significar que o Conselho de hoje terá consolidado o estatuto oficioso de offshore a este importante centro financeiro no contexto europeu.

Uma outra prerrogativa em discussão diz respeito à pretensão da Inglaterra de tutelar decisões oriundas do Eurogrupo, mantendo-se fora da moeda única. Se esta condição foi reconhecida lançou-se o fermento para a fragmentação da Europa, rasgaram-se os Tratados europeus e será hipócrita continuar a invocar (no terreno fiscal e orçamental) de "regras europeias" (só para alguns).
 
E, finalmente, muitos acreditam que esta cascata de cedências não garante que o projectado referendo possa correr bem (do ponto de vista da 'União').

Neste momento seria bom recordar aquela que foi uma figura influente na Europa pós-guerra – o General Charles De Gaulle – e que, em 1963, advertiu: “a natureza, a estrutura, a conjuntura, que são próprias da Inglaterra, diferem dos países continentais…link.

E por último, resta a esperança de que estas negociações não tenham passado por compromissos assumidos, à revelia dos cidadãos europeus, em relação ao chamado ‘Tratado Transatlântico’ (TTIP). Se este passo foi dado significa pura e simplesmente que a UE capitula em toda a linha na definição e execução de uma política externa comum, autónoma e independente.
O Reino Unido sempre foi, na Europa, a ponta de lança dos EUA e, claro está, o dilecto defensor dos seus interesses. Abdicar de instrumentos capazes de afirmar a Europa no Mundo é, nitidamente, suicidário.
 
Adiou-se o caos mas a ameaça permanece incólume...

Cavaco Silva condecora Sousa Lara

Naquele tempo andava em alta a fé e pouco estimada a cultura. Sobraçava a pasta, nesse remoto Ano da Graça de 1992, um simples “ajudante de ministro” Pedro Santana Lopes, acolitado por dois subajudantes, Maria José Nogueira Pinto e António Sousa Lara.

Coube a este último pronunciar-se sobre o livro “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, do «inveterado ateu» José Saramago, que concorria a um prémio literário. Disse o pio, que Deus abandonaria nas trapalhadas da Universidade Moderna, que «A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os» e, com tão clemente argumentação, vetou o livro que concorria a um prémio europeu, em nome do Governo presidido pelo devoto Aníbal Cavaco Silva.

Quando Lara vetou “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, o piedoso censor de Saramago não tinha lido uma só obra do escritor e, na Cultura, tinha apenas, como currículo, uma cruz de 70 metros, Cruz do Amor, erguida numa herdade alentejana, cruz luminosa, em plástico, um amuleto promovido pelo Opus Dei.

Cavaco nunca mais esqueceu a devoção do seu ex-ajudante de ministro e certamente foi sensível à carreira do filho deste, um promissor gestor a quem o pai ofereceu o lugar de administrador de uma empresa pública, há empregos que alguns pais podem oferecer, e preferiu tornar-se padre do Opus Dei e especialista em exorcismos.
Foi este sólido talento, chamuscado na Universidade Moderna, censor Sousa Lara, que Cavaco Silva condecorou esta quinta-feira com a Ordem do Infante D. Henrique.

Não se sabe se foi o ódio a Saramago ou o amor ao Opus Dei que levou a venera a tal peito, por tais mãos.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

A União Europeia (UE) a caminho do fim?

O projeto mais mobilizador do pós-guerra foi a utopia de uma comunidade económica, social, política e financeira, que despertou a esperança dos povos para uma democracia europeia onde a solidariedade e o desenvolvimento tivessem lugar.

Criou-se a moeda única, que exigia a federação dos Estados, e surgiram nacionalismos que dissolveram o sonho comum. Uma moeda não sobrevive sem Estado e a UE foi definhando com divergências geoestratégicas, competição fiscal e falta de integração, abrigada no guarda-chuva da Nato, com uma política externa errática. As contradições internas e a ausência de estratégia comum acabaram por transferir o poder das nações para burocratas sem legitimidade democrática nem sensibilidade política.

«Temos de criar um género de Estados Unidos da Europa», disse Churchill, em 19 de setembro de 1946, respondendo a uma pergunta na sequência da sua conferência, na Universidade de Zurique, quando já não era primeiro-ministro. Essa criação devia ter tido lugar, porventura de geometria alargada à Rússia e com objetivos diferentes, mas a União Europeia foi mais célere no apoio ao cerco à Rússia, com bases da Nato, do que na defesa dos seus países, agora asfixiados pelas dívidas soberanas.

A UE delinquiu na invasão do Iraque, sem que os autores sejam julgados pelo TPI, e foi cúmplice da destruição da Jugoslávia, do massacre da Sérvia, da deriva nacionalista da Hungria, Polónia e do que mais virá. O Reino Unido, perdido o império, hesitou sempre entre integrar a UE e acabar como 51.º estado dos EUA, arriscando-se, após secessão da Escócia e unificação da Irlanda, pelos republicanos do Sinn Féin, a ver ainda Edimburgo e Belfast a juntarem-se a Dublin, na União Europeia, antes do estertor desta.

A UE é complacente com a deriva autoritária e reislamização da Turquia, consentindo o massacre dos curdos e a disfarçada proteção ao Daesh, e hipoteca a civilização, tolhida pela súbita alteração étnica e cultural com que multidões de refugiados a atemorizam.

A Alemanha que procurou europeizar-se acabou a germanizar a Europa com os países a oscilarem entre direita e extrema-direita, sem alternativa e, em breve, sem alternância, à procura de modelos securitários, antes da desintegração, de novas ditaduras e, talvez, da loucura total de uma nova e derradeira guerra.

Não há pachorra para a arrogância de um ministro teutónico das Finanças a dizer como devem votar os países da União onde todos merecem ser iguais, pelo menos, no respeito mútuo e recíproco.

A UE ou se federaliza, e duvido da vontade dos seus povos, ou desaparecerá. O fim será cataclísmico.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

TAP: as chinesices da privatização e as ‘barracas’ que se adivinham…


A TAP é com os últimos desenvolvimentos mais um foco de problemas e um imenso pântano de obscuridade bem revelador das ‘negociatas’ do Governo Passos Coelho.
A sua ‘privatização’ tão propagandeada pelo anterior governo como resolutiva dos problemas financeiros e da subsistência da transportadora aérea nacional como companhia de bandeira para além de esconder-se atrás da estratégia privada da companhia Azul de David Neeleman, cuja identificação com o interesse nacional nunca foi demonstrada, favorece - em primeira mão - interesses e ocultos desígnios de apropriação das carreiras existentes entre a Europa, o Brasil e Angola.

Esta semana tornou-se público que poderá ser o veículo para entrada ou consolidação da companhia chinesa Hainan Airlines na Europa link.

Mais não será necessário para (re)colocar em cima da mesa a transparência do negócio mas para além disso o problema político e económico - durante a última legislatura 'sistémico' - da venda a retalho e a pataco do património nacional e identidade em sucessivas tranches.
Esta foi a política de insaciável alienação patrimonial do governo anterior e, de facto, a venda da TAP num atribulado e apressado ‘processo de saldo’, operada em favor de uma companhia descapitalizada ou, se calhar, tecnicamente falida, revela-se escandalosa.  
A estranha cooperação do anterior Governo com a estratégia empresarial privada (da Azul), que pretende beneficiar dos privilégios de 'companhia de bandeira' e assim condicionar mercados aeronáuticos a seu favor (p.exº.: o do Brasil), sem retribuir o que quer que seja, não se enquadra no ambiente concorrencial tão profusamente propalado, nos conturbados tempos de 'entrega' (aos mercados).  O caso da supressão de voos a partir do aeroporto do Porto revela de forma exemplar o curso destas manigâncias.

Torna-se cada vez mais evidente o papel decorativo do Sr. Humberto Pedrosa que emprestou o seu nome e do seu Grupo para uso da União Europeia e validação do negócio. Hoje, constatamos que a estrutura societária da TAP poderá ser substancialmente diferente daquela que foi publicamente divulgada. Isto é, a TAP poderá estar metida numa grande ‘barraca”.

A pergunta que se coloca é a seguinte:
Não deverá (quererá) a União Europeia reanalisar a conformidade desta venda com as famosas ‘regras europeias’?

A Alemanha assusta a Europa

Não admira que António Costa e Mário Centeno estejam apreensivos com o Governo alemão e a inépcia do Sr. Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças, para tranquilizar os mercados.

O que António Costa e Mário Centeno não dizem, por respeito pelo voto dos alemães, é o que o ministro da Sr.ª Merkel disse do Governo português. É esta a diferença entre estadistas e um biltre.

A situação do Deutsch Bank, como refere hoje El País, é motivo de justificado alarme.

Faltam 20 dias

Cavaco Silva tem andado numa frenética atribuição de veneras a lembrar Passos Coelho e Portas a fazerem nomeações já depois de a Assembleia da República os ter despedido.

O inquilino de Belém lá vai enfeitando peitos onde sobra espaço para vaidades enquanto Marcelo R. Sousa assumiu a Presidência da República antes da posse.

As insólitas reuniões com o PM e outros membros do Governo tornaram-se habituais, depois das birras de quem trocou a casa da Travessa do Possolo, com duas marquises, por uma década no Palácio de Belém.

Estranha-se que este PR seja humilhado nos últimos dias da permanência em funções, mas Marcelo e António Costa não fazem mais do que interpretar o sentimento do País e sabem que a natureza tem horror ao vazio.

Ainda faltam 20 dias e algumas horas!

terça-feira, fevereiro 16, 2016

A Frase

«É uma afirmação no mínimo irresponsável, tentando esconder o que não pode ser escondido que é o prejuízo terrível ao país que foi feito pela forma como PSD-CDS lidaram com o sistema bancário, todas as facilidades que deram ao sistema financeiro e a pouca exigência que tiveram para com o erário público».

(Catarina Martins, líder do BE, sobre o Banif, banco de que o governante e académico, Passos Coelho, disse: «Deixei-o a dar lucro».)

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Cumplicidade de Erdogan

«Se em vez de travar uma guerra  contra os curdos, a Turquia tivesse realmente combatido o Daesh, teria apressado o colapso deste, em vez de o ter ajudado a sobreviver.»

(Jornal THE GUARDIAN, Londres - In Courrier Internacional, fevereiro 2016)

Quem eram os agentes da PIDE em 25 de Abril de 1974?


Eram estes que aqui se publicam.

Para não esquecer os que traíram o povo português.

domingo, fevereiro 14, 2016

Passos Coelho: a social-democracia ou o conto do vigário?


Passos Coelho - e a Direita que lhe está associada - continuam a martelar numa despropositada falácia. O OE será na mente destes dirigentes partidáruios um documento exclusivamente técnico (contabilístico) onde só contam duas variáveis essenciais: o deve e o haver. 
Isto é, como já estamos cansados de ouvir, o OE é - para estes senhores - o mero encontro de medidas pelo lado receita e da despesa. Um trabalho para uma profissão já desaparecida: a de 'guarda-livros'.

Em Castelo Branco, Passos em plena campanha com vista á   reeleição para a presidência do PSD, disse link
A primeira versão do OE cedeu à realidade. E, depois de poderem proclamar que iam cumprir todas as promessas milagrosas, de restituir os rendimentos sem que isso pusesse em causa o equilíbrio do OE, a redução da dívida e as regras europeias, passamos para a terceira versão em que se descobre que afinal o OE, não só não é expansionista mas é contracionista."

O equilíbrio orçamental tornou-se de súbito a arma política da actual Oposição dando mostra de uma virginal, púdica, mas fingida, indignação. 
Em quatro anos e meio de Governo não foi esse o caminho. Os orçamentos rectificativos foram um recurso constante ao longo da anterior legislatura. Mas para além dos números que inquinaram os sucessivos OE o mais importante – politicamente - será o método usado. E o que restou foi que o Governo PSD/CDS tentou sempre ultrapassá-los com medidas inconstitucionais. Não houve orçamento, ou emenda (solução rectificativa), que escapasse a este desaforo democrático. 

Depois, o candidato solitário à liderança do PSD levanta a questão da redução da dívida. É um despudorado argumento para quem durante uma legislatura nada mais fez do que aumentá-la. Entre 31 de Maio de 2011 e 31 de Maio de 2015 a dívida pública aumentou de 163.348 para 224.155 mil milhões de euros link. Existirão razões conjunturais internas e internacionais que associados a erros e abusos cometidos durante a intervenção externa (troika) no nosso País justificam esta marcha em direcção ao abismo. Todavia é imperioso que quando se fala neste problema se revele e integre todo o contexto – político, económico e financeiro - envolvente. E será importante referir que sempre que este problema foi levantado (tendo como alternativa a reestruturação ou a negociação da dívida) os proponentes de uma ampla discussão foram publicamente maltratados, sendo-lhes colada a imagem de ‘caloteiros’. Agora, quando a Oposição aparece a terreiro e ‘exige’ a redução imediata da dívida, não consegue libertar-se da pérfida imagem de ser ‘moço de recados’ dos mercados financeiros. Ou será que - adotando uma atitude 'social-democrata' de pacotilha - vai propor uma 'renegociação'?

Um outro engulho na peroração de Passos Coelho é a reposição de rendimentos. Fica inteligível que, segundo a visão oposicionista da direita, essa medida parece contrariar as regras de Bruxelas. Ora tal só seria verossímil se os cortes efectuados (e que tiveram a contemporização datada do Tribunal Constitucional) tivessem uma bivalência. Isto é, cá dentro foram apresentados como temporários mas em Bruxelas como definitivos. A Direita que esteve no poder quase cinco anos nega esse facto mas a realidade mostra o contrário. Na verdade, falta à Direita defender às escancaras que o brutal empobrecimento a que sujeitaram o País é um facto virtuoso e irreversível.

Finalmente, Passos Coelho na sua itinerância pelo País para ‘afirmar’, ou como pretendeu vender ‘reafirmar’, a sua mais recente descoberta de estar possuído de uma empedernida vocação ‘social-democrata’. Todavia, em cada palestra que debita, é sistematicamente traído pelo fantasma liberal e radical que entranha o seu pensamento político. 
Na sessão partidária acima citada afirmou: “normalmente, os socialistas têm uma grande habilidade para redistribuir a riqueza gerada, mas têm sempre imensa dificuldade em encontrar mecanismos de geração de riqueza”…

Ora, este é um trocadilho com muito pouca (ou nenhuma) base social-democrata. O esquema é este: vamos supor que há investimento suficiente (supondo!) e dinamismo económico para começar a produzir a todo o vapor, mantendo as vexatórias condições laborais (a ditas ‘reformas estruturais’ de baixos salários, aumento das horas de trabalho, esmagamento de direitos sociais,etc. ) e começa o ciclo de acumulação de capital. A acumulação primitiva de capital não é como as crises capitalistas têm demonstrado uma extravagância conceptiva e doutrinária de Karl Marx.
Bem, o que propõe Passos Coelho, em nome do PSD, é que uma vez acumuladas as mais-valias seria suposto chegar a hora da sua redistribuição. Chegado a esse momento, o País constata(rá) que o capital acumulado foi distribuído pelos bancos, empresários e ‘investidores’ mas, de facto, não existe (não sobra) qualquer montante para redistribuir. Concluirá que foi transferido, no todo ou em grande parte, para os offshores ou ‘comido’ pela especulação financeira, bolsista e corrupção. Este o modelo ‘social-democrata à Passos Coelho’.
Enquanto não existir uma regulação dos ditos mercados a redistribuição não pode ser postergada. E o mais natural seria a sua antecipação, já que não existem oportunidades de ser partilhada em tempo real.

O que se pretende de facto é adiar a redistribuição para as calendas gregas, ou só fazê-lo à laia de 'bodo', quando a tensão social for insuportável (ou perigosa para o sistema) . O capital gerado pela pelo processo produtivo resultante das mais-valias originárias da venda da força de trabalho terá, na óptica do (neo)social-democrata Passos Coelho, de fazer um prévio, manhoso e aberrante circuito financeiro (sem qualquer controlo ou regulamentação) e se algo sobrar (o que nunca é certo) poderá, então, ser redistribuído em suaves prestações anuais (reposições percentuais). Era este o 'programa da coligação PaF'.
Trata-se de uma situação muito próxima do conto do vigário.

Mário Centeno lamenta a situação na Alemanha

Mário Centeno, "sabe que Alemanha tem de fazer tudo ao seu alcance para contrariar as inseguranças nos mercados financeiros". A Alemanha “deve estar ciente de que pode perturbar os mercados se der a impressão de que está a insistir no caminho percorrido, o que será muito delicado para a Europa”.

O Deutsch Bank tem uma exposição no mercado de derivados equivalente ao quíntuplo do PIB da zona euro e mantém 20% do valor em bolsa, quando da falência do Lehman Brothers. Wolfgang Schäuble precisa de fazer mais do que garantir a solidez do banco.

A queda das bolsas mundiais, na sequência de rumores sobre a insolvência do Deutsch Bank é má para a Alemanha e para a Europa. Os mercados estão agitados e isso não é bom para a estabilidade financeira mundial.
A Alemanha devia voltar ao caminho percorrido pelo governo do chanceler Schröder, esquecido o mau exemplo da sua saída da chancelaria para os negócios.

Mário Centeno pensa que se deve continuar a encorajar firmemente o colega alemão a não se desviar do caminho da ética política e financeira, mas, para não ser acusado de ingerência nos assuntos internos da Alemanha e para não prejudicar a imagem de um país da União Europeia, respeita o voto dos alemães e remete-se ao silêncio.
Apesar de solicitado evita fazer qualquer declaração que agite os mercados e prejudique os interesses alemães ou alimente a germanofobia.

A contensão e sentido de Estado do ministro das Finanças português é um exemplo para todos os democratas e europeístas.

sábado, fevereiro 13, 2016

Humberto Delgado, assassinado pela PIDE há 51 anos


O Sr. Schäuble, a ofensiva de direita e Portugal


Quando assisto à caricatura do ministro das Finanças alemão, vítima de um homem com problemas mentais que baleou Schäuble durante uma reunião de campanha eleitoral, em 1990, sinto solidariedade, mas quando vislumbro a arrogância teutónica e o despudor do político, seja em relação à Grécia, a Chipre ou a Portugal, sinto raiva.

Nesses momentos vem-me à memória o ex-futuro chanceler alemão, ele próprio, o que negou o financiamento fraudulento do seu partido, primeiro, para ser obrigado a admiti-lo, depois, perdendo para Merkel o cargo que lhe estava reservado e ambicionava.

O Sr. Schäuble, do alto da sua inteligência e intransigência monetarista, é responsável pela desregulação dos mercados, a sinistra entidade de que é um alter ego. A Alemanha deve-lhe a reunificação e a Europa ficará a dever-lhe a desintegração.

A tentativa de obrigar depositantes cipriotas a pagar as falências bancárias, sem respeito pela legislação que acautela os primeiros 100 mil euros, revelaram um político desleal. As declarações insultuosas quanto às decisões eleitorais dos gregos mostraram a relação difícil do homem com a democracia. As recentes afirmações sobre a política portuguesa, apesar da pusilanimidade dos cúmplices autóctones, são uma intromissão grosseira que que atenta contra os interesses de Portugal e o respeito pela sua soberania.

Nenhuma economia aguenta o efeito perverso da conjugação de esforços dos mercados, da desregulação e especulação financeiras, das agências de rating e da solidariedade dos cúmplices do ultraliberalismo, mas nenhum povo se deixará humilhar até perder a honra e o direito à sobrevivência.

Aliás, a Alemanha é hoje uma ameaça europeia, também por culpa do Sr. Schäuble. O Deutsch Bank tem uma exposição no mercado de derivados equivalente ao quíntuplo do PIB da zona euro e mantém 20% do que valia em bolsa quando da falência do Lehman Brothers. Quando Wolfgang Schäuble, ministro alemão das Finanças, adverte Portugal para o perigo é um ruído para desviar atenções da catástrofe coletiva que nos espera.

A chuva que fustiga e gela Portugal, nestes dias de inverno, agrava-se com a corrente de ar frio que sopra de Berlim a favor de quem o Sr. Schäuble gostaria de ver no Governo.

sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Condecorações, romarias, carnavais e penitências quaresmais…

Para a maioria dos portugueses as condecorações que o Presidente da República distribui em esdrúxulas cerimónias que, de tempo a tempos, realiza em Belém pouco ou nada dizem.

Tudo isto a propósito da condecoração que Cavaco Silva resolveu atribuir a Vítor Gaspar ex-ministro das Finanças do Governo do Governo de Passos Coelho.

Hoje, o Presidente fez a ponte entre vários ministros das Finanças - todos relativamente efémeros - desde o Governo de Santana Lopes (Bagão Felix), o arranque do Governo Sócrates (Campos e Cunha) e a passagem também apressada de Vítor Gaspar pelo XIX GC link. Foi por assim dizer uma manifestação familiar que se enquadra no seu conceito de ‘despedida’.

Nada que se possa apontar como insólito ou estapafúrdio se acaso não existissem gritantes lapsos que a recente condecoração de António Guterres não apaga.

Mas dada a memória recente dos últimos anos é um pouco estranho e deslocado o destaque público do homem que foi o instrumento da aplicação de sacrifícios aos cidadãos (excessivos como avaliam alguns relatórios internacionais).
Convém recordar a carta de demissão de Vítor Gaspar onde se pode ler: “O incumprimento dos limites originais do programa para o défice e a dívida, em 2012 e 2013, foi determinado por uma queda muito substancial da procura interna e por uma alteração da sua composição que provocaram uma forte quebra nas receitas tributárias. A repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto o Ministro das Finançaslink
Na verdade perante uma auto-avaliação sobre a sua credibilidade política que rotulou de minada o mínimo que podemos achar é que a condecoração atribuída é (mais) uma diletante manifestação ‘cavaquista’.

Destas manifestações um pouco toscas e saudosistas só não se compreende as razões por que V. Gaspar não recebeu a condecoração conjuntamente com Alberto João Jardim (também recentemente agraciado).  Se assim fosse sempre dava um ar de romaria na despedida do Carnaval. 
Faltando menos de 1 mês para terminar o mandato (julgo que serão ainda 25 dias!) Cavaco Silva dá a sensação de ter condenado o País a uma quaresma saloia. 
Esperemos sentados. Melhor esperemos que a próxima leva não inclua o Miguel Relvas.

A frase encomendada e a chantagem


«Portugal deve estar ciente de que pode perturbar os mercados se der a impressão de que está a inverter o caminho percorrido, o que será muito delicado para Portugal.»

(Wolfgang Schäuble, ministro alemão das Finanças)

Cavaco Silva, entre a devoção e a Constituição

Cavaco, no seu pardacento ocaso, é um piedoso crente que busca a salvação da alma e para quem o jurado cumprimento da CRP pode ser quebrado por uma assoalhada no Paraíso.

Sabia, por experiência antiga, que as leis sobre a IVG e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, lhe seriam devolvidas, ‘ipsis verbis’, pelo Parlamento, depois do inútil veto, numa afronta que bem mereceu e a que devia furtar-se.

Não lhe permitiu o ressentimento conformar-se com a inutilidade do gesto e tem agora oito dias para a promulgação ou para se demitir. Não há bicarbonato que lhe mitigue a azia. Nenhum partido, dos que foi cúmplice, lhe deu o conforto da unanimidade. Até a pouco recomendável dupla, Pedro e Paulo, fugiu à votação.

O mais reacionário dos PRs deixa a sua assinatura em leis que abomina e, para quem se julgou líder da direita, acaba como menino do coro a estrebuchar sozinho.

Até Marcelo, ao convidar Eduardo Lourenço, António Guterres, Marques Mendes, Lobo Xavier e Leonor Beleza para conselheiros de Estado se distanciou da estreiteza do antecessor, tornando-se, antes da posse e parafraseando Ricardo Araújo Pereira, o melhor PR dos últimos 10 anos.

A auspiciosa chegada de Marcelo não se deve a quem vem, é merecimento de quem vai. De vez.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Bancos: o hipotecar da confiança...

Os portugueses não pretendem dissecar a situação do sector bancário. Não têm formação curricular de gestão, económica e financeira para analisar uma situação tão complexa e recheada de pormenores técnicos.

Embora as crises bancárias persigam, desde o início de crise, os contribuintes nacionais em catadupa estas deixam no ar imensas interrogações. Existe a genérica sensação de que os problemas mais graves residem nos chamados bancos de investimento. A partir desta evidência tudo é nebuloso.

É sabido, também, que nada foi feito de eficaz para supervisionar e regular a actividade bancária. Esta para além dos depósitos (de diversos tipos) e empréstimos (com ou sem garantias) que são as actividades tradicionais do sistema convive com problemas mais graves que resultarão da chamada 'carteira de investimentos' que não são reflectidas de modo inteligível nos tradicionais balanços apresentados publicamente. 
Isto é, situações como forwards, futuros, swaps, etc., não são perceptíveis para o comum dos mortais. Todavia, persiste a sensação que a actividade é uma situação de elevado risco. Aos riscos de mercado como, por exemplo, trading, bolsa e o imobiliário somam-se outros mais latos como sejam, liquidez, solvência, etc.. 

É de facto uma actividade muito complexa e tudo o que é incompreensível torna-se em princípio uma situação preocupante. Situações como a falência do Lehman Brothers (EUA - 2008) ou do Laiki Bank (Chipre- 2013) encheram as páginas dos jornais e os écrans televisivos. Mais pequenos e mais modestos os nossos casos do BPN, BPP, BES e BANIF não tiveram grande repercussão internacional mas doeram muito cá dentro quer para os depositantes quer para os contribuintes enquanto forçados ‘resgatadores’. 
Mas a este quadro já de si insuportável é necessário acrescentar outros factos que recentemente tivemos conhecimento. 
Trata-se de bancos que indirectamente estão ou estarão ligados ao nosso País. Estão sediados em Cabo Verde mas tem tentáculos que se estendem pelos PALOPs. Lisboa não fica imune a esta ameaça.
Em destaque está o Banco Efisa (ex-BPN) e o Banco Internacional de Cabo Verde (ex-BES/Novo Banco). Não se tratam, portanto, de procedimentos resolutivos aleatórios. O azar não é para aqui chamado. Existe, isso sim, um largo conluio que não sabemos onde começa e onde acaba(rá).
O Efisa conta como accionista Miguel Relvas e o Banco Internacional José Veiga um empresário do futebol com negócios em África e nos offshores e hoje em prisão preventiva…

Bem, continuamos a não perceber de bancos mas os mais recentes personagens envolvidos nestas actividades são uma ameaça devastadora. Não há credibilidade que resista a mais este episódio que se desenha…
A crença (confiança) lusitana no sistema é, pois, um terreno onde, financeira e eticamente, está tudo hipotecado.

A frase...

… de quem ficou mudo perante a abusiva e insólita privatização da TAP, feita por um Governo já derrubado na Assembleia da República.

«A estratégia da TAP é um insulto à cidade do Porto e uma tentativa de destruir o aeroporto para construir um novo aeroporto, uma nova ponte e uma nova Expo [em Lisboa].»

(Rui Moreira, presidente da Câmara do Porto)

Passos Coelho, o lobo-ibérico num país incauto


(Divagando entre a política lusa e a vida selvagem)

Passos Coelho é um exemplar da subespécie do lobo-cinzento, que já chegou ao poder na Hungria e na Polónia, ameaçando disseminar-se pela Europa.

É um pouco menor e mais esguio do que as outras subespécies do lobo-cinzento, talvez pelo reduzido habitat em que se move. Vive em alcateia e beneficia da forte organização hierárquica. O número de animais da alcateia varia entre os 3 a 10 indivíduos, o bastante para ordenar ataques a presas maiores. Foi assim que tomou o Congresso que o fez líder do PSD, os órgãos de comunicação e as redes sociais.

Bastaram Miguel Relvas, Marco António, Paulo Júlio e poucos mais para o conduzirem à liderança do PSD, primeiro, e do País, depois. Subjugaram bichos de maior porte, por métodos ainda mal-esclarecidos, depois de terem absorvido a voraz alcateia do CDS.

Recentemente, a alcateia alargada, após quatro anos de poder e robustas cumplicidades, estava convicta da sobrevivência. Não contou com o fojo de paredes convergentes, uma estrutura elaborada, desde tempos remotos, caída em desuso há mais de dois séculos.

O fojo é a armadilha para caçar lobos e a que usou António Costa, cuja estatura política, dimensão cultural e experiência administrativa era incomparavelmente superior, foi a de paredes convergentes, mais complexa do que a comum, usando, em vez de duas paredes tradicionais, quatro [PS+BE+PCP+PEV], até empurrar a alcateia para o fosso.

Agora, é do fosso que Passos Coelho uiva hossanas à social-democracia, depois de ter dito ao Expresso, em maio de 2011, que não passava de resquício histórico do PSD. Era então o lobo-ibérico famélico do ultraliberalismo que reuniria os cúmplices, de S. Bento a Belém e do Largo do Caldas à Rua de S. Caetano à Lapa.

Hoje, o líder da carnívora alcateia ultraliberal promete devolvê-la ao regime vegetariano da social-democracia. Há de uivar sozinho, porque podem ruir as frágeis paredes do fojo erguido por António Costa, mas já não será o PSD a querer tirá-lo do fosso.

O governo de Passos Coelho passou de agência de empregos a ativo tóxico do PSD.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

A eutanásia, o direito à vida e a Igreja católica

A eutanásia não é uma decisão que possa ou deva ser tomada de ânimo leve. A posição que defendo, engloba as minhas opções filosóficas e, sobretudo, lições da vida.

Em 2011, tive uma experiência pessoal que é motivo de reflexão e se mantém presente quando escrevo sobre a eutanásia.

Aos 68 anos era um doente sem currículo e, em dois meses, passei a ter largo cadastro. Fui operado à vesícula biliar, intervenção que previa 48 horas de internamento, e acabei no Serviço de Reanimação, 52 dias, em coma profundo induzido, com uma septicémia provocada por uma bactéria ‘pseudomona multirresistente’.

Podia juntar recordações da guerra colonial e dos seus mutilados, de viúvos e órfãos que acompanharam o sofrimento sem esperança de quem mais estimavam, para emitir a opinião que perfilho em defesa da morte assistida, desde que existam precauções e se verifiquem alguns presupostos:

1 – A doença tem de ser considerada incurável, segundo o estado da arte médica;
2 – O sofrimento tem de ser declarado clinicamente;
3 – A decisão tem de ser do próprio ou de quem, na impossibilidade de este manifestar a sua vontade, tenha legitimidade para o substituir.

Dito isto, só quem desconheça casos de profundo, inútil e indesejado sofrimento pode, por preconceitos religiosos, opor-se à vontade de quem decida antecipar a morte. Aliás, não reconheço legitimidade a quem se oponha a uma medida voluntária e exclusiva da liberdade individual.

Deus não tem voto parlamentar. A liberdade individual não é referendável e os crentes não têm o direito de impor o martírio que as convicções pias exigem a si próprios.

A vida é um direito inalienável, mas não pode transformar-se em condenação inexorável.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Carnaval - As temperaturas portuguesas são incompatíveis

A rainha de bateria da Beija-Flor, Raíssa Oliveira
 (Foto: Alexandre Durão)

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

TAP: Não tapar os olhos e pôr-se a dormir….

A situação da TAP depois do acordo deste Governo com o consórcio Atlantic Gateway deve merecer a maior atenção dos portugueses.

Existe um acordo em fase de ultimação que formalmente divide em partes iguais (50%) a propriedade da TAP condicionando (mas não revertendo) a privatização orquestrada pelo Governo de Passos Coelho e levada a efeito pelo boy Sérgio Monteiro.

O controlo da companhia aérea nacional pelo Estado é muito ténue e reside no voto de qualidade do presidente do Conselho de Administração (de composição paritária) e que será nomeado pelo Governo.

As opções estratégicas de fundo da transportadora aérea pressupõem uma maioria de 2/3 do CA o que poderá ser um obstáculo para o seu delinear. É aqui que reside a fragilidade do acordo já que as possibilidades de bloqueio são múltiplas e poderão desembocar em sucessivos impasses.
As questões estratégicas que poderão ser (corresponder) a mais lídima expressão dos interesses nacionais estão nas mãos de um grupo privado. Esta é a outra face desta moeda.

Mais do que a (re)nacionalização da TAP – ou a alteração da titularidade do capital social - este passo assemelha-se a um novo tipo de parceria público-privada. E aqui começam as preocupações de ‘gato escaldado’.
O abdicar, por parte do Estado, da participação na gestão operacional da companhia pode ser uma fonte de problemas. Até que ponto o CA - onde a participação pública estará representada - pode relegar para segundo plano o funcionamento e eficiência da gestão?

Os 6 membros do CA de administração nomeados pelo Estado não podem desfrutar de um estatuto ‘displicente’ de gestor público.
É necessário que respondam a par e passo perante a tutela (Ministro da Economia) e concertem ao pormenor as decisões estratégicas com o poder político.
E, finalmente, que o movimento cívico ‘Não TAP os Olhos’ não adormeça.

As 'meias vitórias' em política são muito susceptíveis de ser infectadas pelo vírus da transitoriedade.

Faltam 39 dias, 7 horas, 4 minutos e 0 segundos


Momento de poesia

O vidente que se enganou.
Poema de António Russo Dias



Faltam 30 dias, 0 minutos e o segundos para ir dar música aos netos

Parece uma eternidade


domingo, fevereiro 07, 2016

Pactos, convénios e a replicação das dominações …

O Pacto de Estabilidade e Crescimento é o instrumento político que a Comissão Europeia ‘agarrou’ para impor no velho Continente a ‘ideologia popular’ afecta ao PPE e fazer a vida negra aos seus parceiros do Sul. 

Quando se procura estimular o crescimento logo aparece a Comissão a dizer que se trata de uma visão idílica e irrealista. Quando se pretende aligeirar a pressão cega que o cumprimento de metas do défice pretende impor porque, para além do défice, existe ou se prevê uma ‘sustentada’ queda do investimento e a consequente ‘anemia’ do crescimento ou a prossecução de uma intolerável taxa de desemprego vem logo à baila a receita do costume: “é necessário aprofundar as reformas estruturais”. 
Quando se fala em questões fiscais o que se oferece dizer é apertar o cerco aos contribuintes em nome da eficiência da cobrança de receitas mas nada se faz em matéria de regulação dos offshores o maior e o mais opaco esquema de fugas nesta área. E assim por diante.

A última versão (actualização) desse Pacto, datada de há 1 ano (Janeiro 2015) foi apresentada com um subtítulo verdadeiramente fantasioso: “Making the best use of the flexibility within the existing rules of the Stability ang Growth Pact” (Optimizar o recurso à flexibilidade nas actuais regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento) link. A leitura deste texto de Janeiro 2015 produzido pela Comissão Europeia para o Parlamento Europeu é verdadeiramente reveladora e esclarecedora.

Todos sabemos que o défice excessivo é um problema para os Países porque conduz ao inevitável aprofundamento do endividamento e, portanto, a esquemas de servidão. Mas o estabelecimento de patamares de défice visando a recuperação de uma limitada (e condicionada pelos mecanismos comunitários) autonomia económica e financeira não pode ignorar outros parâmetros necessários, nomeadamente os sociais, para os equilíbrios das contas públicas. 
É difícil compreender um tecto para o défice quando nada se estabelece em relação à taxa de desemprego. Por exemplo, o défice de 3% só será exigido quando a taxa de desemprego for inferior a 6%. A não harmonização dos diferentes tectos só serve as estratégias de transferências de capitais a qualquer custo. E levará a um incontrolável empobrecimento. Resta saber a que nível e quando a fome torna-se o factor desencadeante de incontroláveis convulsões sociais e conduzem a alterações políticas qualitativas.

Esta ‘regra histórica’ a não ser ignorada, nem menosprezada (pelos nossos 'parceiros' internecionais), porque face a circunstâncias idênticas (apesar dos avanços tecnológicos) é de esperar respostas semelhantes.

Como no tempo da Liga Hanseática os mercados (p. exº: financeiros e de commodities) concentram-se no Norte e Centro da Europa (dominados pela economia alemã) e a partir daí constroem e impõem regras para replicar essa obtusa distribuição (concentração) e os povos do Sul não têm as ‘alternativas’ do século XVI e XVII, isto é, os Descobrimentos que, na altura, representou um virar de costas a uma Europa madrasta e, é bom sublinhar, dominadora, onde as oportunidades escasseavam, não existiam ou eram simplesmente adversas. 
A ‘deriva atlântica’ não é viável nos tempos atuais porque o cerco fechou-se e se a mesma chegar através do TTIP (como estamos ameaçados) não passa de uma transferência do eixo de dominação, sem outras alterações a não ser a dimensão e escala. 

A realidade é que só fomos 'grandes' (os portugueses e os espanhóis) quando face às dominações continentais viramos as costas à Europa e arrancamos para novos Mundos. Mas constatamos que hoje as ‘prisões de antanho' estão a ser reconstruídas nas nossas barbas e pagas pelas actuais e futuras vitimas... 
Inacreditável!