quinta-feira, março 31, 2016

Notas soltas – março/2016

EUA – Donald Trump, o Le Pen americano, é misógino e racista. Defende a tortura e o assassinato das famílias dos terroristas como profilaxia e terapêutica do terrorismo. É o imbecil, demente e perigoso, que atrai eleitores embrutecidos e medrosos. Trágico!

Coreia do Norte – No país, onde a exótica monarquia dirige a mais obscura ditadura do Globo, Kim Jong-un responde com a ameaça nuclear às sanções da ONU. Não podemos continuar reféns da esquizofrenia de um líder insano e imprevisível.

Maria Luís Albuquerque –A ministra deixou pesada herança. A mestra em Economia Monetária e Financeira não foi apenas imprevidente e calamitosa no Governo, revelou total ausência de princípios éticos nas funções, públicas e privadas, antes e depois.

Eslováquia – A chegada do partido neonazi ao Parlamento, com 14 deputados e 8% dos votos, segue a tendência europeia, ampliada pelo medo dos refugiados que procuram a Europa, a lembrar o ambiente que levou Hitler ao poder e precedeu a II Grande Guerra.

PR – O discurso de posse, excelente na forma e na substância, foi um bom augúrio. Ter, de novo, um PR culto, inteligente e civilizado agrada a um país carecido de autoestima. Sendo a Constituição que jurou o seu programa, é o PR de todos os portugueses.

Arábia Saudita – Não se compreende que possa ser considerada aliada do ‘Ocidente’ a teocracia que financia o fascismo islâmico e o treino terrorista a nível global, do Médio Oriente à Europa e de África aos EUA. Não se podem trocar princípios por petróleo.

Cavaco Silva – Na despedida podia ter-lhe sido atribuída outra condecoração, a ele que foi pródigo com os amigos, mas o Grande Colar da Ordem da Liberdade a quem nunca, antes ou depois do 25 de Abril, se bateu por ela, teve um toque de amarga ironia.

Paulo Portas – Retirou ilações da vitória do PR que o ignorou, a ele e a Passos Coelho. Nuno Melo percebeu que o partido não se dirige de Bruxelas e Assunção Cristas tornou-se líder do CDS, partido que dificilmente deixará de ser moleta do PSD.

Alemanha – O revés de Angela Merkel nas eleições regionais, vítima do humanismo e sentido de Estado, em relação aos refugiados, venceu a UE. A direita radical já é poder na Polónia e Hungria e alastra, mas a sua firmeza confirmou uma grande estadista.

Brasil – É difícil condenar juízes no combate à corrupção, sob pena de conivência com a imensa teia que enlameia os políticos, mas é ingenuidade apoiar manifestações que os denigrem, orquestradas para preparar um golpe de Estado contra o governo eleito.

França – Mohammed ben Nayef, extremista islâmico e eventual sucessor da monarquia saudita, foi agraciado pelo PR com a Legião de Honra, perante o silêncio dos partidos tradicionais. Só a extrema-direita protestou. Uma vergonha para os democratas.

Donald Trump – O declínio ético do partido de Abrão Lincoln permitiu ao demagogo, apoiado por David Duke, ex-líder do Ku Klux Klan, disputar a presidência. A grotesca síntese de Berlusconi e Le Pen ameaça tornar-se o mais poderoso líder mundial.

Carlos Cruz – O apresentador de televisão, condenado por pedofilia, cumpriu o tempo de prisão que admite liberdade condicional. Não se contesta a pena, repugna a negação de um direito por não admitir o crime que sempre negou. É a lei. É chantagem.

Marcelo Rebelo de Sousa – Na primeira visita ao Vaticano, o crente esqueceu o PR, no beija-mão ao Papa. O respeito, pelo Estado laico e pela separação do Estado e da Igreja, foi comprometido por um ato pio de bajulação gratuita.

Lula da Silva – Os seus governos tornaram-se referência mundial no combate à fome, o que não o iliba da suspeita de corrupção, mas esta não se combate com a subversão de um juiz marginal que escuta conversas com o seu advogado e com a PR, e as divulga.

União Europeia – Ao negociar com Erdogan a criação de uma espécie de campo de concentração turco, para refugiados, negou os seus valores e fracassou na resolução do problema, tal como falhou o aprofundamento da sua própria integração.

Turquia – A sucessão de ataques aos direitos humanos, à liberdade de informação e aos princípios democráticos fundamentais, denuncia o ‘muçulmano moderado’ Erdogan. As poderosas Forças Armadas, integradas na Nato, são uma ameaça adicional à Europa.

Fascismo – Setenta anos após a guerra que ensanguentou o Mundo, Hungria, Polónia e Eslováquia estão de novo a abraçar o fascismo, usando o medo do terrorismo islâmico que, de Madrid, Londres e Paris já chegou a Bruxelas, no coração da UE.

Terrorismo – A Europa confundiu cosmopolitismo com multiculturalismo, desistiu de submeter as Igrejas ao respeito pela laicidade, deixou criar guetos e permitiu o regresso de guerras religiosas, findas com a Paz de Vestefália, em 1648.

Barack Obama – A História julgá-lo-á. Falhou promessas, mas não reincidiu nos erros de Bush. Era difícil a um PR, nos EUA, fazer mais ou ser melhor. Face a Trump e Ted Cruz, é preferível Hillary Clinton, se repudiar o apoio que deu à invasão do Iraque.

PPE – O maior partido de âmbito europeu, o grupo democrata-cristão/conservador no Parlamento Europeu, intromete-se nas eleições nacionais, impõe-lhes as suas conceções políticas, ameaça e chantageia eleitorados. Exige-se-lhe algum pudor democrático.

Europa – A indulgência com as graves violações do Estado de direito, na Hungria e na Polónia, o negócio dos refugiados com Erdogan, que submete os Tribunais e amordaça a imprensa turca, e o regresso das botas e do arame farpado, confrontam a democracia. 

O combate da civilização contra a barbárie

Massacres em Istambul, Damasco ou Bagdad não aterrorizaram os europeus, apesar de a primeira cidade se encontrar no seu continente, e ainda menos os da estância de Bassam ou de Ouagadougou, porque a Costa do Marfim ou o Burkina Faso são países arredados da geografia das preocupações europeias. O ataque suicida, em Lahore, contra a minoria cristã, no domingo de Páscoa, fez mais de 70 mortos e 280 feridos, num parque infantil, mas o Paquistão fica longe e as notícias foram parcas e efémeras!

Nova Iorque comoveu o mundo civilizado, esquecido dos seus erros e crimes e da troca de princípios por interesses. As Torres Gémeas sepultaram milhares de inocentes e houve um clamor internacional, mas quando se esperaria a severa punição da Arábia Saudita, cuja origem e financiamento do ataque esteve na base dessa tragédia, quatro ‘Cruzados’ atacaram… o Iraque, liderados por Bush, aconselhado por Deus –, disse ele.

Agora, depois de Madrid, em 2004, Londres, em 2005, Paris (janeiro e novembro), em 2015 e Bruxelas, em 2016, a Europa hesita entre a cedência dos valores e a resposta aos ataques que levam o medo e a desconfiança, que promovem a xenofobia e o racismo.

Os europeus estão cansados de ouvir dizer que o Islão é pacífico, como, aliás, todas as religiões. Não há a mais leve suspeita ou o menor indício de que isso seja verdade, nem a História o confirma. A civilização, de que nos reclamamos, permite combater todas as ideologias políticas, da social-democracia ao fascismo, do liberalismo ao comunismo, mas inibe o combate às religiões, por mais insanos que sejam os princípios e obsoletos os seus livros sagrados. A blasfémia ainda é crime em várias democracias!

Os partidos políticos combatem opções de partidos rivais, sem bombas, mas as religiões são livres de apelar à violência em nome do seu deus e de organizarem o proselitismo, exortando à violência nos templos e fanatizando crianças nas escolas.

O problema europeu não é com muçulmanos nem com o radicalismo islâmico, é mesmo com o Islão, um problema sério e insanável que, à semelhança do que sucedeu já com o cristianismo, se resolve com a repressão política ao seu clero.

Não é com diálogo entre as religiões que se combate o terrorismo, é com a exigência do respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos a todas as religiões e a todos os indivíduos, crentes e não crentes, autóctones, imigrantes e refugiados.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 30, 2016

Cama, comida e roupa

No Japão, aumenta de forma preocupante o número de idosos que praticam roubos, não pela vontade de se apropriarem do alheio, mas pelo desejo de serem presos.

O que pode levar pessoas, ainda na posse de faculdades intelectuais, a trocarem um bem que se convencionou ser dos maiores, pela obsessão da prisão?

Afinal, a explicação é simples. As magras reformas não permitem o sustento enquanto a prisão garante cama, comida e roupa, certamente na companhia de outras pessoas, o que a perda de mobilidade exonerou das suas vidas.
Já não basta a solidão que deprime os velhos, as carências de toda a ordem podem levar à troca da liberdade por sopa e agasalhos, mesmo em economias desenvolvidas.

E vem-me à memória aquele texto escolar da minha infância, de um país imaginário em que era costume os filhos levarem os velhos pais a um monte, com uma manta para se agasalharem, até que a morte os levasse. Foi numa dessas viagens que um pai pediu ao filho para regressar com metade da manta, para que a ela se aconchegasse quando, um dia, também ele, fosse transportado em idêntica viagem.

Definitivamente, os benefícios do progresso, partilhados por tão poucos, empurram cada vez mais gente para as margens de um caminho sem horizontes. Não só os velhos!

Frases históricas - Courrier Internacional. Abril 2016. Página 18




terça-feira, março 29, 2016

O PR e aprovação do OE-2016

O PR, promulgou ontem o OE-2016, cujo adiamento se deveu à mesquinha embirração do seu predecessor que protelou a posse do governo legítimo, com graves prejuízos para o País.

Marcelo fez o que devia, sob pena de ter de o promulgar, exatamente igual, depois de a AR o confirmar, sem as humilhações reincidentes do antecessor, quiçá por masoquismo, em vários diplomas.

A inovação desta promulgação residiu na inédita e simpática explicação ao país, durante uma conversa em família, à hora do chá. Fê-lo com a mestria de excelente comunicador, deixando a impressão de que podia fazer diferente e, com os exemplos herdados, lhe era permitida uma birra numa matéria que não é da sua competência e em que não lhe cabe a mínima responsabilidade.

Entre lugares-comuns, instou o Governo e a administração pública a serem rigorosos na execução, sob pena de voltarmos a ter um OE Retificativo “como a nossa prática dos últimos anos já demonstrou”, numa estridente censura ao anterior Governo que nem um só OE apresentou, sem necessidade de outro OE Retificativo.

Passada a certidão de óbito a Passos Coelho, depois de Paulo Portas, mais inteligente e bem preparado, ter entrado em recolhimento, o PR continua mestre na encenação e nos acertos de contas.

Só falta agora que Passos Coelho faça a Cavaco Silva a homenagem que pondera, e lhe deve, no Congresso do PSD, para apagar definitivamente a memória da pior direita que fustigou Portugal.

Curiosamente, é um PR conservador, civilizado e culto que preside às exéquias fúnebres dessa direita de má memória. Ironias da História!

segunda-feira, março 28, 2016

Bruxelas, no rescaldo da barbárie…

As manifestações promovidas pela extrema-direita na praça de Bolsa de Valores em Bruxelas que degeneraram em violência revelam algo que se mantinha larvar. 
Os manifestantes que se auto-denominavam ‘Belgian Hooligans’ parecem ter sido recrutados nas claques de clubes de futebol que mantêm um nível elevado de organização e de mobilidade link.

Manifestando o ensejo de protestar contra a barbárie dos atentados terroristas que ocorreram em Bruxelas a concentração extremista não se eximiu a exibir para além de violência que caracteriza o hooliganismo, cartazes fascistóides e  a gritar palavras de ordem xenófobas e de incitamento à expulsão dos emigrantes.

Compreende-se a indignação popular. Mas não se pode aceitar o incitamento e a deriva populista. Não é tolerável que os mesmos que idolatram os ídolos da bola importados do estrangeiro para integrar os seus clubes apareçam na rua a exigir a expulsão de 'outros' que, pelas vicissitudes da vida ou pela crueza da guerra, desejem trabalhar e viver na Bélgica.
É tempo de repudiar os extremistas acéfalos disponíveis para ser arrebanhados para vandalismos avulsos.
O mais correcto é ter uma atitude reflectida, determinada, mas de base política. Dar lugar ao civismo.

Existem muitas coisas a lamentar à volta do bárbaro atentado de Bruxelas e muito que discutir e questionar sobre os seus antecedentes.

De igual modo continuarão a existir ensinamentos a tirar em relação aos atentados de Paris, Londres, Madrid, etc.
A começar pela vigilância ao cerceamento das liberdades públicas e individuais que têm sido a ‘resposta’ fácil e repetitiva para problemas difíceis e novos.

Há muitas coisas a lamentar e mais ainda a reprovar. A primeira das quais este esquema político que nos governa e pretende ocultar desígnios nacionais, europeus e internacionais que se podem traduzir numa máxima clássica: “As vossas guerras e os nossos mortos”!.

Mas no meio da balbúrdia e da dor há muitas coisas a preservar como o reconquistar da rua enquanto via de comunicação normal tranquila entre cidadãos, entre localidades, que nos possibilitam encontros e a socialização, i. e., a assistir a eventos sociais, desportivos e culturais.

Enfim, que nos permitam deslocar de Bruxelas a Bruges para apoiar o Anderlecht ou o Cercle Brugge sem levar com uma matraca na cabeça ou um cocktail Molotov nos pés.

Isto é, viver em PAZ!

Não há talibãs só no Islão

Não há só talibãs no Islão

Ontem, domingo da Páscoa dos cristãos, encontrei uma católica, apostólica romana, talvez debilitada pela longa Quaresma em que os quarenta dias de jejum, orações e penitências lhe devem ter atenuado o entendimento, apesar da licenciatura em Humanidades numa Universidade autóctone.

Disse-me que ‘os ateus deviam ser mortos’. Compreendi a sua dor perante o martírio do seu Deus, morto na sexta-feira da Paixão e ressuscitado no sábado de Aleluia, um tempo de ansiedade que lhe pareceram três dias, e não lhe atribuí um intuito que me visasse.

Não estranhei a falta de alegria, que atribuí não à Ressurreição deste ano da Graça, mas à morte anunciada para o próximo, numa sequência mórbida que se prolongará pela vida da devota. Admirou-me o pio desabafo ‘os ateus deviam ser mortos’, numa pessoa cuja ilustração lhe permite distinguir o significado do verbo ‘ser’ do do verbo ‘estar’.
Se tivesse dito ‘os ateus deviam estar mortos’, em vez de ‘…ser mortos’, significaria que lhes desejava uma ‘morte morrida’ em vez da ‘morte matada’, expressões com que a sabedoria popular faz a distinção semântica entre a defunção natural e a provocada.

Pode ter sido fundamentalismo, mas a lua cheia, que serve para a determinação da data da efeméride, pode ter tido uma influência insuspeitada para quem pauta os seus valores à margem da astrologia e da fé!


domingo, março 27, 2016

Alguns episódios invernosos que precederam as ‘primaveras’….

O curso e as circunstâncias – essencialmente as políticas - das ‘primaveras árabes’ tem de ser estudadas, pensadas e divulgadas. 
Meio mundo [ainda] não percebeu o que se passou.
 
Desde a justificação simplista de que uma multidão de descontentes e marginalizados desceu à rua (árabe, também) levantando uma onda de protestos para reivindicar melhores condições de vida (sociais e laborais) e tais massivas manifestações levaram à queda de regimes ditatoriais até à realidade de hoje vai uma distância enorme. 

Na verdade, passados 5 anos desde o início da rebelião tunisina que levou à queda de Ben Ali e da sua quadrilha familiar que vampirizava o País e a posterior instauração de um novo regime de periclitante de participação democrática sob a permanente pressão de instalação de um ‘contra-golpe islamizante’, em todos os outros lados, Líbia, Egipto, Síria, Iemen, Barhein, o saldo é simplesmente catastrófico.

Na verdade, esta movimentação pretensamente florescente (primaveril) começou no Iraque muito tempo antes. Parafraseando o ex-ditador Hussein no Iraque travou-se a ‘mãe de todas as batalhas’. 
E a grande peleja é pela hegemonia regional que é disputada entre a medieva monarquia saudita e o regime teocrático de Teerão. 
Ambos com importantes aliados regionais e internacionais e ambos interessados em degladiar as duas mais importantes correntes do Islão: sunitas e xiitas. Pormenor, o Iraque embora maioritariamente xiita era dominado pela minoria sunita que governou praticamente até ao derrube de Sadam Hussein (2003).

O prelúdio das chamadas ‘primaveras árabes’ foi a guerra Irão-Iraque dos anos 80. Poderemos chamar-lhe o ‘arrufo persa-árabe’. 
Aparentemente, tendo começado por disputas territoriais fronteiriças tornou-se uma ‘guerra de encomenda’ onde o jogo do desempenho do papel hegemónico na região esteve sempre presente. Quer a Arábia Saudita, quer os EUA, intrometeram-se politicamente até à medula neste conflito bélico embora por motivações díspares, mas não tão diferentes. 

De salientar a contradição de na época e decorrente da doutrina Baas o exército iraquiano estava equipado com armamento originário da ex-URSS, enquanto o regime de Teerão possuída reminiscências de equipamento militar americano resíduos da colaboração entre Washington e o deposto Xá. Pelo meio existe o escandaloso negócio de armas que ficou conhecido por “Irangate”.De um lado, os sauditas para afirmarem a sua posição ‘árabe’ e, maioritariamente, sunita (wahabita) perante ao crescente poderio regional ‘persa’ e xiita, do outro lado, os americanos em socorro dos seus velhos aliados do Golfo, mas ambos empenhados no controlo dos principais campos de produção petrolífera. 

A paz foi difícil e morosa, só sendo atingida em 1988, e necessitou de porfiados esforços da ONU (nomeadamente de Perez de Cuéllar), mas revelou-se muito instável. 
No ano seguinte morre o líder da revolução persa (aiatola Khomeini) e mesmo após uma guerra sangrenta e suja (com recurso a armas químicas) cuja poeira ainda não tinha assentado, decorridos 8 terríveis anos que devastaram os 2 países, Sadam Hussein resolve de imediato invadir o Kuwait (seu antigo aliado na guerra contra o Irão) e apoderar-se dos seus vastos campos petrolíferos. Provavelmente, o ex-dirigente iraquiano precisava de uma ‘compensação’ para reforçar o seu poder no País já que na sequência das conferências de paz teve de aceitar as fronteiras definidas no acordo de Argel (1975). Este reconhecimento mostrou a ligeireza e a inutilidade de uma guerra tão devastadora.

A invasão do Kuwait surge nesta sequência da humilhação induzida pelo status quo (regional), da enorme dívida acumulada durante o decorrer do conflito e provavelmente de um erro de cálculo em relação à atitude dos EUA que o tinham apoiado (através da Arábia Saudita) na guerra com o Irão.

Outro erro foi tentar anexar um emirato de maioria sunita o que levou Riad a pressionar a Administração de G Bush I no sentido de partir a toque de caixa para o Golfo em socorro da Kuwait. Tratou-se de uma ‘guerra-relâmpago ‘ e de uma nova derrota do regime de Bagdad. 
Embora, as ‘forças aliadas’ tenham penetrado no sul do Iraque, Washington decide poupar Bagdad e permite a Hussein sobreviver politicamente (por pouco tempo). 

Entretanto, os EUA perdem o controlo político da região quer no decurso do desenvolvimento destes conflitos regionais quer ainda pela sua posição negativa perante a disputa israelo-palestina (que não deve ser arredada deste contexto).

Quando ocorrem, em Nova Iorque, os trágicos acontecimentos de 11 de  Setembro de 2001, que só podem ser atribuídos a fundamentalistas sunitas, os EUA não tocam na Arábia Saudita (seu berço ‘natural’) e lançam-se – à revelia do Mundo - na 2º. invasão do Iraque, procedendo à sua ocupação militar  e consequentemente à destituição e morte do ditador Saddam.

O ano de 2004, com um Iraque sem rei nem roque, representa, após o rebentar de uma caótica 'insurgência' comandada pelos fundamentalistas sunitas (Al Qaeda), o berço de todas as violentas transformações (perturbações) no Médio Oriente e, provavelmente, a ‘natividade’ de todas as primaveras condenadas a murchar antes de florir. 
As primaveras posteriores (que 'parecem' ter começado espontaneamente na Tunísia) não são frutos de transformações políticas ou sociais mas antes despojos (e dos ajustes de contas) de convulsões anteriores que pretendiam (re)equilibrar ou, talvez, (re)desenhar a região, demasiado preciosa (estrategicamente) para seguir um livre curso.

O processo histórico é longo e muito complexo, difícil de resumir num post, mas é importante começar (a discutir) por algum lado para perceber o que vai surgindo no dia-a-dia e o que ainda está para vir.

sábado, março 26, 2016

O Mediterrâneo, sob um feroz e incansável ‘mistral’…

O chefe do Igreja católica constatou, ontem, junto ao Coliseu de Roma, nas cerimónias pascais, que o Mediterrâneo “é um cemitério insaciável…” e “a Europa insensível…” link.

É, de facto, a constatação de uma evidência. Um relato mais apropriado a um observador distante do que um pensamento adequado a quem deseja ser um protagonista da História.

O Mediterrâneo com um infindável percurso histórico foi o berço das grandes civilizações europeias tem uma ancestral carga política, económica, financeira e cultural. A revolução industrial marginalizou este Mar interior, deslocando a centralidade do desenvolvimento económico e financeiro para o centro e Norte da Europa e deixando o Mare Nostrum entregue às sobras - ao pequeno comércio de cabotagem e ao cultivo das oliveiras.

Mas regressemos ao tempo presente, à contemporaneidade. O problema tornou-se extremamente grave e difícil de ocultar e na Cimeira de Paris (2008) link sob o pomposo objectivo “União para o Mediterrâneo” e foi – politicamente – necessário fazer alguma coisa que salvasse os povos do Sul da Europa e do Norte de África (bordaduras naturais do Mediterrâneo) de um fatídico destino de miséria e subdesenvolvimento. 
Estiveram representados 43 Países (27 membros da UE e 16 do sul e Leste do Mediterrâneo). Daí saíram algumas ‘iniciativas’ como: a descontaminação ambiental, a criação de ‘auto-estradas’ terrestres e marítimas, o reforço da protecção civil, a promoção da educação superior e da investigação, o apoio às PME e o desenvolvimento de energias alternativas.
Nada que se possa constatar como sendo modesto. Foram lançados os pilares para a cooperação euro-mediterrânica e uma certa coesão regional.

Passados 8 anos desta célebre cimeira de Paris o que verificámos?.
O tal cemitério insaciável de refugiados cansados de esperar por condições dignas de vida e fartos de 'promessas'.  Mas uma tragédia nunca vem só. A migração ‘urgente e imperiosa’ é também motivada por sanguinárias e bárbaras guerras (sejam civis, sejam de índole religiosa).

Do decidido em Paris no ano 2008 (por sinal nos primórdios da crise financeira europeia e mundial) o que foi feito?
Nada!. Pior, foi lançada a tão propagandeada ‘Primavera Árabe’  que tanto políticos como analistas históricos receiam vasculhar e denunciar os princípios, meios e fins.

A homilia sacra do chefe dos católicos segue o mesmo caminho. Vê o acumular de cadáveres (o tal ‘insaciável cemitério’) como se os homens, as mulheres e as crianças fossem caçadas por um similar do conde de Drácula que levantando-se do túmulo vagueava pela terras e mares a alimentar-se do sangue dos vivos e assim ganhar forças.

A gravidade da situação não se compadece com histórias da carochinha, com lendas ou omissões.
Existe já uma abundante retórica política predominantemente preocupada em desvirtuar e ocultar os trágicos acontecimentos. Não precisamos de uma outra retórica (religiosa) que evite chamar os bois pelos nomes.

Foi isso que aconteceu, ontem, no Coliseu de Roma. De resto a denominada ‘via sacra’ também significa a longa caminhada de sofrimento. O que estamos a presenciar no Mediterrâneo.

TPI - Justiça e poder

Quando a justiça tem dois braços desiguais não é dos juízes que devemos queixar-nos, é da balança. Os homens são todos iguais, mas o seu poder é diferente, tal como o destino que lhes é reservado, segundo a nacionalidade e as vicissitudes das guerras.

O ex-dirigente político dos sérvios da Bósnia, Rodvan Karadzic, responsabilizado pelo genocídio de Srebrenica, foi condenado – e bem –, pelo TPI, a 40 anos de prisão.

«O acusado era o único na República Srpska com o poder para impedir a morte dos bósnios muçulmanos», disse O-Gon Kwok, juiz-presidente do TPI para a ex-Jugoslávia.

Ban Ki-Moon, secretário-geral da ONU, afirmou: «É um sinal forte a todos em posições de responsabilidade, indicando que serão pedidas contas pelos seus atos».

Zeid Ra’ad Al Hussein, alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, declarou: «A mensagem deste processo é de que ninguém está acima da lei, este veredicto deve constituir uma viragem».

Vão para o raio que os parta!

Tive uma sensação de náusea e não quis ler mais declarações. Lembrei-me do santo e do eminente político que destruíram a Jugoslávia ao reconhecerem, primeiro a Eslovénia e, depois, a Croácia, dando início à tragédia da desintegração do país, com o apoio da UE.

Lembrei-me da invasão do Afeganistão pela URSS, primeiro, e, depois, pelos EUA, e, na sofrida memória, não pude deixar de evocar o bando dos quatro biltres, impunes, que mentiram para invadir o Iraque.  Andam por aí, com o peito coberto de condecorações a tratar da vida e a fingir de pessoas de bem.

Que raio de Justiça!

sexta-feira, março 25, 2016

Conferência Genebra (II): a marcha lenta e vários engulhos…


Enquanto Obama acompanhado da sua família faz um périplo pela América Latina continuam as conversações em Genebra sobre a guerra civil Síria, que afecta todo o Médio Oriente.

O cessar fogo dura há cerca de 1 mês e muito embora não tenha trazido grande espaço para negociações diplomáticas tem permitido, em certa medida, incrementar a ajuda humanitária o que , no contexto regional, é bastante positivo.

De acordo com declarações do Secretário de Estado John Kerry e do ministro dos Negócios Estrangeiros russo Serguei Lavrov continuam as divergências sobre o futuro do País nomeadamente quando ao papel a desempenhar por Bashar al Assad.
Kerry exige o seu afastamento imediato mas Moscovo considera que a sua permanência no poder é uma condição de estabilidade link. Aparentemente, sobre esta questão existe o consenso de deixar correr o tempo. Se em Genebra se tentar ignorar ou passar ao lado da 'lição líbia', então, as conversações são uma pura perda de tempo, um terrível desperdício.

No entanto, as conversações de Genebra dão a sensação (ao Mundo) de continuar a marcar passo. O que face aos últimos acontecimentos de Bruxelas não será tolerado por muito mais tempo. A Síria devido à presença e implantação do Daesh no território está no 'olho do furacão'. 
A Europa continua a analisar a situação do terrorismo alimentado pelo Estado Islâmico propondo melhores e mais intensas medidas de cooperação na segurança. Mas a UE sabe que essas medidas não chegam. A resolução da guerra síria passa pelo enfrentamento dos diferentes grupos que aí actuam ou se foram implantando no terreno. Estamos muito longe disso. 
Quer o problema do terrorismo, quer o dos refugiados em massa, têm um denominador como: a situação no Médio Oriente.

Lamentável é que perante uma evidente morosidade e inércia que todos os dias colecciona mais mortes Kerry - e os EUA -  tentem trazer para a mesa das negociações de Genebra os acordos de Minsk e o problema ucraniano. 
Existe a vaga sensação que se está a misturar alhos com bugalhos. Aceitável e talvez produtivo seria enquadrar nestas negociações a questão curda ou, indo mais à profundidade da situação, o remanescente e recorrente conflito israelo-palestino. 
Sabemos, no entanto, que as conversações de Genebra são as possíveis e não as necessárias. Turquia e Israel nunca permitiriam esta ‘mistura’ e Kerry sabe-o bem. Por isso, e para encanar a pena à rã, clama por Kiev.

Se não for essa a ideia resta então a certeza de que Washington ganhou plena consciência que Moscovo assume, neste contexto do Médio-Oriente, um relevante papel na resolução dos conflitos regionais.

Se assim for e em prol da transparência negocial deve dizê-lo publicamente e fazer terminar as ridículas medidas de embargo à Rússia que encarregou a UE de aplicar. Caso contrário permanece a impressão de que estamos apostados a ‘tapar o sol com uma peneira’.

Terrorismo, morte e propaganda

A morte ao serviço da manipulação das emoções e do fanatismo é recorrente na política e explorado de forma obscena pelas religiões.

As monarquias, sempre ligadas a uma Igreja, fazem da morte de um príncipe ou de um rei um espetáculo, com cenas de histeria coletiva e mórbida comoção. A comunicação social torna-se cúmplice, como se viu, até à náusea, na morte da princesa Diana.

Em Portugal, a encenação da morte de Salazar foi a tentativa de oxigenar o regime que não demoraria a segui-lo no funeral que provocou alívio e explosões de alegria. Em Espanha, o cadáver de Franco serviu para reunir turbas fascistas e dignitários clericais, na esperança de que o regime se eternizasse e os crimes do genocida ficassem impunes.

Já em democracia, a morte de Sá Carneiro foi instrumentalizada para alterar o sentido de voto nas eleições presidenciais que decorriam em Portugal.

Nada disto é novo. A morte é uma arma carregada de emoções. No comunismo, Engels apelou à luta junto ao túmulo de Marx, Lenine junto ao de Lafarge e Estaline procedeu a uma colossal manipulação de massas no enterro de Lenine. Em França, o PCF fez da morte de Maurice Thorez uma gigantesca manifestação. O mesmo aconteceu em Itália com Palmiro Togliatti ou, em Portugal, com Álvaro Cunhal.

Há muitos exemplos, mas as religiões são exímias. A morte do ayatola khomeini reuniu multidões de fanáticos que carpiram histericamente o sinistro dignitário islâmico. A de Maomé é anualmente celebrada, em Meca, com fanatismo e gigantescas peregrinações.

No cristianismo, o nascimento e morte do fundador são festejados todos os anos, apesar incertas as datas, falso o local de nascimento e ignorada a sorte do cadáver. A ICAR, na idolatria papal, faz da morte de cada Pontífice uma encenação mórbida de propaganda.

A agonia de JP2 foi passada nas televisões, minuto a minuto, até à apoteose da morte. A exploração do sofrimento recorda os oportunistas que alugam deficientes para dilatarem a piedade e o óbolo dos transeuntes que dobram as esquinas de uma cidade de pedintes.

O Vaticano falhou a morte em direto, o cadáver a sair do avião, o estertor perante as câmaras, mas não renunciou às multidões, em Roma, nem ao espetáculo montado para garantir a emoção e a propaganda para telespectadores do Planeta. JP2 foi o primeiro cadáver exibido e explorado, à escala planetária, como gadget promocional.

A ICAR ganhou a batalha da globalização com a sua morte. B16, menos supersticioso e narcisista, mais calculista, dirigiu sub-repticiamente a campanha de proselitismo através dos bispos, padres e beatos cujo fanatismo rivalizou com o dos talibãs.

O laicismo está em perigo. A liberdade religiosa corre perigo. A religião pode tornar-se inevitável, como o óleo de fígado de bacalhau nas escolas de há meio século. As Igrejas, no seu proselitismo, tudo farão para se imporem, não olhando a meios.

O que não se previa em sociedades civilizadas, era a morte indiscriminada de cidadãos, com inexcedível crueldade, usada por terroristas, na propaganda do fascismo islâmico e, com imenso êxito, a seduzirem jovens de todas as etnias e estratos sociais.

Depois de Nova Yorque, Madrid, Londres, Paris e Bruxelas,

É urgente pará-los.

quinta-feira, março 24, 2016

O Ocidente de novo em apuros…

A educação, doutrinação e eventual radicalização dos muçulmanos funcionou durante séculos nas madraças adstritas às mesquitas através de escritos (arabescos) e da leitura e interpretação do Corão feita por muftis. 

Há cerca de uma dezena de anos ainda funcionava deste modo. Os esparsos incidentes que aconteceram foram sempre desvalorizados como sendo obra de fanáticos e marginais debaixo da afirmação de que o Islão era outra coisa. Isto é, uma religião de paz e misericórdia. 

Entretanto, se passarmos ao lado da grande escola de difusão do fundamentalismo que é a Arábia saudita e olharmos para a sua doutrina wahabita (sunita), com quem o Ocidente aceitou contemporizar em troca dos dinheiros do petróleo, verificamos que sempre existiram diversos (graves) incidentes internacionais, entre eles, as 'guerras israelo-palestinas' (hoje 'esquecidas').

Os mais recentes e gravíssimos incidentes acirraram toda esta cascata de doutrinação islamita. Primeiro, o Afeganistão e as sucessivas intervenções da ex-URSS e depois dos EUA/NATO, que fizeram o mundo despertar para um novo grupo: os talibãs. Estes não são os adolescentes pouco cultos, semialfabetizados nos caracteres árabes, aprendizes acríticos dos versículos corânicos para poderem frequentar as mesquitas e aí orar, mas uma nova estirpe - os ‘estudantes’ (da teologia) do Islão  - que rapidamente se transformaram em jihadistas e passam a adoptar a violência, a cultivar as guerras santas, a lançar fatwas, numa incessante e fratricida luta pela supremacia entre os ramos do islamismo (sunitas e xiitas). 

Depois, nomeadamente com a globalização decorrente da queda do muro de Berlim, foram aparecendo em catadupa (para consolidação da prédica salafista) múltiplos pretextos capazes (e eficazes) de expandir o jihadismo. Nomeadamente, dois grandes acontecimentos geo-políticos recentes: a invasão do Iraque e as chamadas ‘primaveras árabes’. 

A invasão do Iraque, pela maneira como foi conduzida e pela arrogância bélica induzida e subjacente, baseada em falsas premissas (armas de destruição massiva) e espúrios conceitos (instaurar a democracia) criou um novo ‘estilo’ de (re)acção – o jihadismo anti-ocidental. Um novo tipo de jihadismo que continua a beber na doutrina islâmica mas tem outro posicionamento estratégico já que não se confina às ‘Arábias’: nasce e vive (segregado) em território ocidental (europeu), substituiu as madraças pelas redes sociais, as adagas por Kalashnikovs e os camelos por jipes todo o terreno com metralhadoras na caixa.

O segundo grande golpe foram as chamadas ‘Primaveras Árabes’ que alimentam e fomentam hostilidades internas baseadas em nobres conceitos democráticos e anti-ditatoriais, derrubam tiranos mas são incapazes de conter o surgimento de uma nova vaga de países islâmicos dominados pelo fundamentalismo ou, ainda pior, como o que se verifica na Líbia, podem destruir um País e entregá-lo a sanguinários 'senhores da guerra'. 

Tendo varrido quase todo o Norte de África islâmico, passando ao lado do Egipto onde só conseguiram substituir a velha ditadura militar por outra mais jovem, chegam à Síria, onde semeavam ventos e tempestades. Na Síria o jihadismo verificou estar entalado entre as velhas ambições otomanas, a força persa e os problemas curdos e jogou forte e feio no dilema interno: sunitas contra xiitas. O Ocidente resolveu permanecer calado e quedo, manietado pela pressão sunita oriunda do reino saudita e apostou na queda rápida do alauita (xiita) Bashar al Assad. Nem tudo correu bem – nomeadamente após a intervenção da Rússia - e a tempestade com o epicentro no Médio Oriente foi ganhando força regional e ‘continental’. 
Hoje os ventos desta vaga de ‘jihadismo anti-ocidental’, cada vez mais informe, oculta e poderosa (bem financiada), varrem toda a Europa. Chegam a Bruxelas, como já chegaram a Londres, Madrid, Copenhaga, Paris, etc. 

Quando se reflecte sobre este sucinto e esquemático transito político, histórico e regional temos a noção de que o problema é muito maior (difícil) mas por outro lado cresce todos os dias a convicção de que a solução ‘global’ não é implementando medidas securitárias que ponham a Europa – e os seus cidadãos - a ferro e fogo. 
E o problema grave (humanitário) é que não havendo capacidade política - nem lideres capazes - de encontrar soluções globais (económicas, financeiras, sociais e até religiosas) possivelmente surgirão ‘soluções finais’ (de horrorosa memória) que já se desenham nos movimentos da ultra-direita nacionalista europeia, em franco crescimento e ebulição e têm eco na burlesca campanha que Donald Trump desenvolve nos EUA. Este o drama do Ocidente.

Carlos Cruz e a Justiça

Carlos Cruz, foi um dos mais populares apresentadores da televisão portuguesa. Coautor do zip-zip, figura central de numerosos programas, diretor de informação, diretor de programas e diretor-coordenador da RTP1, foi o excecional comunicador que criou com os telespetadores uma notável empatia.

Foi julgado pelo crime de pedofilia. Públicas virtudes, vícios privados. Foi com mágoa que vi condenado o homem por quem nutria simpatia, mas jamais duvidei da prova e da justeza da condenação. Teve bons advogados e todos os meios legais para se defender. Arruinou a imagem, a honra e a carreira. Foi preso.

Repito, jamais duvidei da culpabilidade, apesar dos protestos reiterados de inocência. A justiça pode cometer erros – e comete –, mas é mais provável a negação do crime pelo arguido do que o erro judicial. A dúvida, para além do razoável, conduz à impunidade.

Carlos Cruz já cumpriu o tempo de prisão suficiente para que lhe possa ser concedida a liberdade condicional. O juiz recusa-a porque ele insiste em negar a culpa, como sempre o fez. E continuará preso.
A negação do crime aconteceu sempre e, decerto, foi levada em conta na graduação da pena, não devendo servir agora de justificação para considerar o preso não recuperado, sob pena de parecer chantagem para a confissão do crime por quem sempre o negou.

Não duvidei da adequação da pena, mas indigna-me o pretexto usado que lhe recusa a liberdade condicional. A opinião pública, que sempre se entusiasma para influenciar os julgamentos, raramente se interessa pela defesa da liberdade.

Que raio de país!

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 23, 2016

Terrorismo - França e Bélgica

Mohammed ben Nayef, extremista islâmico e eventual sucessor da monarquia saudita, foi agraciado pelo presidente francês com a Legião de Honra, perante o silêncio dos partidos tradicionais. Só a extrema-direita protestou. Uma vergonha para os democratas.

Era importante saber se o biltre saudita já manifestou o seu pesar pela carnificina de Bruxelas bem como os líderes das teocracias do Médio Oriente.

Quando se ouve falar em muçulmanos extremistas é obrigação da comunicação social falar dos outros.

A encruzilhada do terrorismo …


Começa a ser recorrente que, depois dos ataques terroristas, os jihadistas apresentem uma curta ou longa carreira ‘curricular’ de passagem pela Turquia link, onde – acabamos por ser informados à posteriori - foram julgados, deportados, expulsos, absolvidos, ignorados, etc. 

Ergodan é um pouco como o ex-presidente Cavaco. Depois de as tragédias acontecerem vem sistematicamente com o paleio de ...“eu bem vos avisei”. 
Entretanto, preferem ficar a ver passar os comboios.

Sem querer adiantar mais presunções perante uma situação tão grave e confusa como a que se vive no Médio Oriente torna-se absolutamente estranho que a Europa pague a Ankara para dar guarida aos migrantes aos quais não seja aplicável o estatuto de refugiado.

Não estaremos a alimentar uma placa giratória do terrorismo?

Laicismo e laicidade – Recordar hoje, com o medo vindo de Bruxelas

«O Estado também não pode ser ateu, deísta, livre-pensador; e não pode ser, pelo mesmo motivo porque não tem o direito de ser católico, protestante, budista. O Estado tem de ser cético, ou melhor dizendo indiferentista» Sampaio Bruno, in «A Questão religiosa» (1907).
«O Estado nada tem com o que cada um pensa acerca da religião. O Estado não pode ofender a liberdade de cada qual, violentando-o a pensar desta ou daquela maneira em matéria religiosa». Afonso Costa, in «A Igreja e a Questão Social» (1895) [R & L]

Laicismo é o nome de uma doutrina do séc. XVI que pretende para os leigos o direito de governar a Igreja, mas hoje diz-se da doutrina que tende a emancipar as instituições do seu carácter religioso.

O Laicismo defende a exclusão da influência da religião no estado, na cultura e na educação e tende a emancipar as instituições estatais do carácter religioso. Expandiu-se na Revolução Francesa e conduziu à separação entre a Igreja e o Estado. O laicismo facilita a irreligiosidade e, mesmo, a anti religiosidade, mas não é causa nem impede às religiões os direitos de ensino e organização que confere às outras associações.

Os religionários dizem defender a laicidade e não o laicismo, expediente semântico para a defesa de privilégios, “não pode ser tratado de forma igual o que é diferente”, i.e., a religião, quando maioritária, atitude diversa da assumida em países onde é minoritária.

A laicidade é tão só o modo concreto da tradução e aplicação prática do laicismo. Este é a doutrina e a laicidade o modo de a levar à prática.

A laicidade remete o livre exercício das várias opções religiosas ou filosóficas para a esfera privada. Exige, pois, uma neutralidade confessional absoluta e a separação radical entre a esfera pública, orientada por valores cívicos e políticos consensuais, e a privada que, essa sim, deve ser um espaço de liberdade individual.
A Igreja católica crê que a obsessiva presença de imagens pias nos hospitais, escolas e edifícios públicos, propagam a fé. Apenas abrem caminho para que outras crenças, num país pluriétnico, façam exigências que colidem com a cultura e a civilização.

O proselitismo está na matriz genética dos dois maiores monoteísmos, o cristianismo e o islamismo, que se digladiam, um à bomba, outro à sorrelfa. Enquanto não sujeitarmos as religiões ao respeito pela laicidade, a arena onde se digladiam será a sociedade onde as bombas falam dramaticamente, como ontem, em Bruxelas.


terça-feira, março 22, 2016

O golpe de Bruxelas…

O golpe do Daesh no centro nevrálgico do poder da Europa deverá ter, no mínimo, consequências políticas. 
Em França, Espanha e Reino Unido os anteriores e bárbaros atentados visram amedrontar e ameaçar instituições cívicas da sociedade europeia e seus valores essenciais que se podem traduzir numa palavra: Liberdade. Foram, por assim dizer, crimes contra a Humanidade.

Hoje, em Bruxelas, o Daesh deu um passo em frente na escalada terrorista. A estação de metro de Maelbeeck está praticamente encostada às instituições europeias. 
Ninguém está a imaginar as comissões europeias e outras instituições comunitárias a trabalhar por detrás de valas e trincheiras e rodeadas de forças de segurança num verdadeiro ambiente de guerra.

Quando se decide atacar o ‘coração’ de um conglomerado de edifícios onde assentam os instrumentos da democracia europeia (por pior desempenho que tenham) ultrapassou-se tudo e todos. Acabou-se a paciência, faliu a persuasão e o tempo para a diplomacia esgotou-se.

Só não se percebe como ainda não começou um Conselho Europeu de emergência… 

O beijo na mão e o beija-mão

Não, não sou contra o beijo, essa revelação de afeto que pode começar na mão e acabar onde a geografia do corpo e o entusiasmo dos sentidos possa levar, num percurso a que as hormonas e o consentimento mútuo marcam a duração, intensidade e reciprocidade, numa explosão de prazer e satisfação mútua.

Desprezo o beija-mão, uma tradição de reverência que na minha juventude se praticava em relação aos pais, padrinhos e párocos, de que os hábitos familiares me exoneraram. As origens medievais, na cultura lusófona, fizeram dele o costume monárquico, herdado depois pela corte imperial brasileira, em que o vassalo mostrava reverência ao monarca, em cerimónia pública ou, antes de solicitar alguma mercê, em privado.

Há sociedades onde o beija-mão permanece, não como mera tradição, mas com carácter obrigatório, nas religiões e na máfia, duas instituições onde os graus hierárquicos são de respeito imperioso e, na última, condição de sobrevivência.

Permanece em algumas religiões o hábito do beijo recíproco na face, entre iguais, (são sempre homens os clérigos) e o beija-mão do inferior ao superior e do crente ao clérigo.

Em sociedades democráticas, laicas e secularizadas, subsiste nas cerimónias privadas, pias e discretas, sem que os chefes de Estado humilhem os países que representam em atos públicos de obsoleta reverência.
É inaceitável que, sendo católicos, o presidente da Junta de Freguesia, oscule a mão do pároco, o presidente da Câmara a do arcipreste ou a do bispo, quando autarca na sede de distrito, o edil de Lisboa a do cardeal-patriarca e o PR a do Papa de Roma.

O poder civil, democraticamente sufragado, não pode, por respeito ao carácter laico da Constituição, e por decência, dobrar-se servilmente, genufletir-se ou atirar-se ao anelão de um bispo com a sofreguidão com que S. Tiago se atirava aos mouros.

segunda-feira, março 21, 2016

A PERVERSA INFUÊNCIA DOS PASQUINS

Quase todos conhecerão o processo de Ana Saltão, inspetora da PJ que está acusada de ter assassinado a avó do marido, sendo defendida pela ilustre advogada Mónica Quintela.

 O Tribunal de 1ª instância absolveu-a por não se ter provado que foi ela que cometeu o crime. Porém, tendo o M.P. recorrido, o Tribunal da Relação de Coimbra entendeu que havia prova suficiente e condenou-a a 17 anos de prisão. Recorreu então a defesa, e o Supremo Tribunal de Justiça, entendendo que havia deficiências no acórdão da Relação, devolveu o processo a este Tribunal para novo julgamento. Isto é : o processo está a correr os seus termos normalmente.

 Hoje vem no diário coimbrão "As Beiras" uma pequena nota dizendo: "Supremo reenvia processo Ana Saltão para a Relação de Coimbra". Tal nota mereceu dois comentários de leitores, do seguinte teor:

 1º comentário: "Neste país, mais vale ser assassino que ladrão".

 2º comentário: "Que vergonha".

 Quer dizer: estes dois cidadãos, substituindo-se aos juízes e aos três tribunais coletivos que apreciaram o processo, já "condenaram" a arguida sem apelo nem agravo, considerando-a assassina. Tudo indica que estes cidadãos só conhecem do processo o que tem vindo nos jornais. Ora parte destes, designadamente o Correio da Manha e outros do mesmo jaez sensacionalista, "noticiam" os factos de maneira tendenciosa, envenenando a opinião pública e provocando na populaça ignara que lhes dá crédito a convicção preconceituosa de que os arguidos são culpados.

Carta-resposta a um pároco

Senhor padre Renato Poças

Agradeço a carta que enviou à Associação Ateísta Portuguesa (AAP) e que me mereceu a melhor atenção. Procurarei responder-lhe às perguntas que faz.

Pergunta o Sr. Padre em que é que o ato do PR (beija-mão ao Papa) nos [a nós, ateus] pode ter ofendido. A ofensa não foi feita aos ateus, mas ao carácter laico do Estado que representa e à separação da Igreja e do Estado que a Constituição da República exige.

- Se o Sr. Prof. Marcelo Rebelo de Sousa fizesse uma viagem privada, à sua custa, e não em representação do Estado, onde é o PR dos crentes, descrentes e indiferentes, tinha o direito de se prostrar perante quem considera o representante do deus do Sr. Padre e dele, não o de se colocar numa posição de inferioridade perante outro chefe de Estado, como se Portugal fosse um protetorado do Vaticano. (O beija-mão é um ato medieval de reverência do inferior para com o superior).

Pergunta a seguir: «… é possível um cidadão NEUTRALIZAR a sua identidade religiosa, sexual, cultural, politica, ideológica simplesmente porque assumiu uma função representativa de um povo?»
- Não se trata de neutralizar, trata-se de ser neutral, por obrigação constitucional e por respeito aos cidadãos que têm um deus diferente ou nenhum.

Diz que «Não pode ser exigido a um cidadão que a partir da tomada de posse como presidente passe a ser assexuado, a-religioso, apolítico, apartidário, etc.

- Quanto à sexualidade e à religião, são assuntos do foro íntimo do PR, não tendo de responder ou perguntar sobre os hábitos, frequência ou gostos. Já quanto ao carácter apartidário é desejável que o mantenha e, quanto à posição política, é obrigado a pautá-lo pela CRP.

Finalmente, apesar de respondidas as dúvidas que levanta, permita-me que lhe recorde a tragédia que tem sido para ateus, agnósticos, crentes de outras religiões e hereges a inexistência de laicidade nos países islâmicos, onde a supremacia da crença autóctone legitima a perseguição e o assassínio de todos os outros, tendo os cristãos sido vítimas, atitude que a Associação Ateísta Portuguesa (AAP) tem defendido por pensar que a liberdade religiosa é tão legítima como a do ateísmo e que um Estado confessional é tão perverso quanto um Estado ateu.

Dado que a Igreja católica demorou dois milénios a reconhecer a liberdade religiosa (admitida pelo Concílio Vaticano II, pela primeira vez, no início da década de sessenta do século passado), é legítimo que, para defesa comum, se junte agora aos ateus para reivindicar o carácter laico do Estado e exigir aos seus representantes o respeito pela separação da Igreja e do Estado.

Apresento-lhe, senhor padre, os meus cumprimentos republicanos, laicos e democráticos.
Carlos Esperança

Apostila: A carta do pároco está publicada em comentário as este post.

domingo, março 20, 2016

Pontos de vista

«Devem ouvir-se igualmente ambas as partes.»
(Demóstenes, séc. IV a. C.)

Um prévio e sucinto alerta…

Todos os dias a evolução política europeia traz surpresas. Assentemos arraiais sobre a câmara de Roma link

Nas eleições municipais de Junho próximo concorrem 4 candidatos que se reclamam da herança política de Mussolini.  
São eles: Georgia Meloni, Francesco Storace, Simone Di Stefano e Alfredo Lorio. Alguns deles directamente ligados ao MSI (Movimento Social Italiano) de inspiração mussoliniana, outros passaram pelas sórdidas governações de Berlusconi e de Fini e finalmente quase todos mergulhados em organizações secretas e ultra-nacionalistas. Um 'caldo' perfeito.

Di Stefano, p. exº, nasce das profundezas da extrema-direita como é a ‘casa Pound’ (neo-fascista) e Lorio que se acoita na “Trifoglio-Popolo della vita” (Movimento do Trevo) até pretendeu vestir as roupagens de 'okupa'. Vale tudo!

Esta a nóvel expressão política europeia de proximidade (autárquica). Baseia-se em questões sociais candentes e fraturantes como a habitação, a família, o casamento homossexual, o aborto, etc.

Não é difícil detectar por detrás de toda esta movimentação o dedo da Igreja. Quando olhamos para estas novas expressões surge-nos a ideia que a Democracia Cristã está a tentar ressuscitar do limbo para aonde se remeteu absorvida pela Direita tout court (e para onde foi empurrada por infindáveis escândalos, pela corrupção e ligações à Cosa Nostra).
 
A extrema direita italiana (neofascista) tenta reviver através de organizações fragmentárias, esparsas, de novo look e deambulantes fugidias pelas doutrinas da extrema-direita fascista que bem no fundo cultivam a ideologia de Mussolini e mostram em público a face humana de democracia-cristã cultivada no pós-guerra pelo filósofo Emmanuel Mounier (que influenciou ideologicamente Rolão Preto) e outros.

Esta a “cama” que Assunção Cristas está a fazer para o CDS/PP se deitar. Aqui nesta praia à beira mar plantada.

Quo vadis Europa?

sábado, março 19, 2016

340.000 euros ‘caídos’ em saco roto…

Prisioneiros republicanos construindo o Vale dos Caídos

Os falangistas tudo fizeram para manterem aceso o facho no Vale de los Caídos. Franco contratualizou um ‘corpo’ residente de 20 monges beneditinos pela módica quantia de 340.000 anuais link. Ao que supomos para ‘encomendar’ a ‘alma’ do ditador. Tal verba perfaz uma mensalidade de cerca de 1.400 € per capita (o dobro do salário mínimo espanhol). Trata-se de um monumento polémico que serve de sepultura às vitimas de uma parte dos mortos da guerra civil espanhola. Outras vítimas - da facção contrária (republicanos) - são aqui e acolá exumadas de valas comuns ao sabor de achados de investigações históricas.

Mas uma verdadeira caricatura histórica é a sepultura do caudilho ter sido ‘imposta’ junto ao altar da ‘basílica’ do Vale dos Caídos. Trata-se de um homem que morreu, na cama de um hospital de Madrid, de complicações sistémicas da doença de Parkinson e da sua proveta idade.

Grave, em termos públicos, é que a organização que ostenta o pomposo nome de Fundação de Santa Cruz do Vale dos Caídos não apresentar ao Tribunal de Contas qualquer justificativo do uso deste dinheiro. Trata-se de uma instituição que se colocou acima das regras que contas gerais do Estado devem submeter tudo e todos. 
Ninguém sabe se esta verba oriunda do Ministério da Presidência é utilizada para cumprir as suas funções: “las cargas espirituales impuesta por el fundador y atender a la finalidad social…. “, ou para quaisquer outros fins não explicitados [manter viva ('arriba') a 'fé' no franquismo].

Neste tempo de exaltação da economia do 3º. sector é melhor os portugueses andarem prevenidos quando à hipótese do piedoso Presidente da República poder vir a pugnar pela atribuição do um óbolo idêntico à confraria da irmã Lúcia, não para rezar pela alma dos combatentes da República que as aparições tentaram exorcizar das suas convicções laicas e alguns laivos anti-clericais, mas pelos relevantes serviços prestados durante decénios à saga anti-comunista através de uma anunciada 'conversão' de países eslavos…a um pasto povoado por azinheiras e pastoreado por criancinhas.

AAP _ DN + JN

Declarações do presidente da AG da AAP ao DN e, sobretudo do presidente da Associação República e Laicidade, Ricardo Alves



Sondagem

Imagem merecida

sexta-feira, março 18, 2016

ASSOCIAÇÃO ATEÍSTA PORTUGUESA (AAP)

Comunicado

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP) ficou perplexa com a foto de Sua Excelência, o Presidente da República Portuguesa a beijar a mão do Papa romano, na visita de Estado.

O cidadão Marcelo Rebelo de Sousa pode manifestar perante o Papa a reverência que achar adequada à sua fé pessoal. Mas o Presidente da República, em representação oficial de todos os cidadãos de Portugal, de todos os credos e de nenhum, não se pode inclinar subservientemente e deixar-se fotografar num ato humilhante de vassalagem a um líder religioso.

Portugal não é protetorado do Vaticano e o PR sacristão. Ao bajular o Papa não cumpriu uma visita de Estado, levou a cabo uma promessa pia, denegriu a imagem de Portugal e traiu a laicidade.

A AAP lamenta que o presidente de todos os portugueses se pretenda reduzir a um mero presidente dos católicos portugueses, excluindo os que, mesmo sendo católicos, honram o carácter laico da Constituição.

a) Direção

Marcelo e o Papa


O católico Marcelo pode oscular o anelão de um bispo, ajeitar-lhe a sotaina, polir-lhe o báculo ou ajoelhar-se-lhe aos pés. O devoto, para salvar a alma, pode dobrar a espinha dorsal, salivar de volúpia nos pés de um ícone do seu deus, empanturrar-se em hóstias e demorar-se a rezar o terço enquanto nada no mar ou aguarda o sono.

O que o Presidente da República não pode fazer é lamber a mão de um clérigo, inclinar-se subservientemente, deixar-se fotografar num ato humilhante para a República laica que representa e portar-se como se a CRP, que jurou, permitisse o aviltamento do seu guardião.

Portugal não é protetorado do Vaticano e o PR sacristão. Ao bajular o Papa não cumpriu uma visita de Estado, levou a cabo uma promessa pia e denegriu a imagem do País.

Este foi o mau começo da primeira saída do país, o fim do respeito que merecia a todos, e passou a ser o presidente dos católicos portugueses.

quinta-feira, março 17, 2016

Brasil, meu amor!

Os níveis de corrupção no Brasil são de tal modo elevados que podem atingir todos os escalões do Estado, salvo, eventualmente, o impoluto juiz Sérgio Moro.

Não serei eu que louvarei a atitude de Lula da Silva, que há muito resistia à solução que lhe evita a prisão imediata, certamente perante as câmaras de televisão, com excelentes planos adrede estudados.

Mas, quando o Juiz Sérgio Moro, segundo acabo de ler no DN, sem recriminação do jornal, divulga, à cadeia Globonews, conversas gravadas entre Lula e Dilma, fico com a impressão de que a chefe de Estado pode ser escutada por um juiz, e enxovalhada, como represália.

Quando a chefe de Estado está sujeita a escutas e represálias do juiz, não é a corrupção que se investiga, é o Estado de direito que fica refém e a democracia sequestrada.

A frase

«A esperança que eu tenho é que o PSD vença o rancor e o azedume, consiga chegar ao tempo presente, tem muito tempo à sua frente, e se liberte desta prisão do passado em que se deixou fechar.»

(António Costa, primeiro-ministro de Portugal)


Brasil - Lula e os Tribunais

Pior do que a judicialização da Política é a politização da Justiça.


Depois de manifestações orquestradas, onde só havia brancos, torna-se mais difícil formar uma opinião sobre a honestidade dos políticos visados.

A (des)coligação de direita e o Banco de Portugal

A autonomia do Banco de Portugal (BP) levou os governos a acertarem a nomeação dos governadores com o maior partido da oposição. O atual, Carlos Costa, foi nomeado pelo PS, consultando o PSD. Na recondução, Maria Luís e Passos Coelho decidiram ignorar o PS, como se o anterior mandato não devesse ser escrutinado, depois da tragédia BPN.

Hoje, percebe-se melhor a “demissão irreversível” de Paulo Portas quando da elevação a ministra de Maria Luís Albuquerque, com falta de currículo e de preparação, além do passado, que a desaconselhava. Portas não suporta a impreparação e as falhas éticas, nos outros partidos.

A recondução de Carlos Costa teve oposição declarada do PS, PCP e BE, e a silenciosa do CDS, o que não obstou a que, após 8 [oito] chumbos de Bruxelas a sucessivos planos de reestruturação do Banif, ocultados aos portugueses, Maria Luís imputasse ao BP a culpa própria, dizendo ser “claramente um problema de supervisão” o que ocorreu com o Banif e o Novo Banco, já esquecida do apoio de Cavaco Silva a Carlos Costa, contra a oposição (PS, BE e PCP), “aconselho a "estudar" quem questiona o Governador” [sic].

No sábado, quando Portas se despediu do CDS, iniciando o período de nojo para novas ambições, criticou o BP que “continua a falhar” [sic], tal como o fez a sua sucessora.

Os panegiristas da direita, desta direita extremista e ansiosa pelo regresso ao poder, não censuraram Maria Luís, Passos Coelho e Paulo Portas, que o reconduziram, e elogiaram o apoio de Cavaco, economista jubilado e cúmplice do trio, mas, quando António Costa se queixou do Governador, vieram, em coro, para a comunicação social, os avençados e ‘independentes’ do costume, a acusar o PM de “falta de sentido de Estado”.

A máquina trituradora da direita, nostálgica das colónias e da ditadura, já não disfarça as incoerências e a raiva. Urge impedir alternativas políticas e, se possível, a alternância. Maria Luís já está a ser reabilitada pelo Partido Popular Europeu para substituir Passos Coelho, certo de que a memória dos países é curta.

‘Reacionários de todo o mundo, uni-nos.’  


Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 16, 2016

Nicolau Bryner e o nicolauviuvismo

Nicolau Bryner foi o excelente ator e grande humorista a quem outros devem as suas carreiras. Aliou a enorme simpatia e imagem de pessoa bondosa à notoriedade que o cinema e, sobretudo, a televisão lhe deram. Eis a razão por que tantos se aproveitaram da sua morte, do PR ao edil de Serpa, dos transeuntes que a comunicação social achava aos numerosos amigos que procurou.

O País perdeu, com a sua morte, aos 75 anos, um ator de referência das telenovelas e do cinema, sem que se lhe conteste o talento e as virtudes ou recorde, sequer, o cidadão conservador que emprestou a notoriedade e simpatia ao CDS e à sua cisão reacionária, o PND.

Nicolau era o português suave, talentoso e simpático, que fez rir um país sorumbático. A sua memória permanecerá viva nos que o viram no palco e seguiram o seu percurso profissional de ator, realizador e humorista.
Só não se percebe como foi possível passar dois dias, de relevantes notícias de interesse nacional e mundial, em obsessiva e lúgubre evocação do falecido.

Os jornais fizeram primeiras páginas com o Nicolau. A RTP, a SIC e a TVI abriram os noticiários com a morte do Nicolau e dedicaram canais, em direto, a cobrir o funeral do Nicolau, onde não faltou a bandeira nacional sobre a urna. Na Antena 1 só se falava de Nicolau. Quem quisesse informar-se sobre a votação do OE-2016 e mudasse para a TSF apanhava com a morte do Nicolau. Portugal ficou viúvo. Nicolau esteve omnipresente.

Confesso que tive medo de abrir o frigorífico. Hoje não lanchei.

Revolta das Caldas - 16_março_1974

Os militares que, no dia 16 de março, arriscaram sair dos quartéis, para derrubar a mais longa ditadura europeia, falhando os objetivos, não falharam o cumprimento do dever.

Foram pioneiros do 25 de Abril. A derrota desse dia esteve na génese da vitória do mês seguinte. Alguns foram presos e outros, à espera da prisão, juntaram-se a todos os que fizeram dessa madrugada o dia de todos os sonhos e o fim de um longo pesadelo.

Aos militares do 16 de março, aqui fica um abraço de solidariedade pela esperança que devolveram, há 42 anos. O fim da ditadura era uma questão de tempo.

Faltavam 40 dias.


Brasil - Para reflexão


terça-feira, março 15, 2016

A última sondagem

O destaque vai para Boliqueime

A decisão

«Fundamentalmente, vou seguir o mesmo caminho que tenho seguido nos últimos meses. Esta é a atitude correta e não considero que tenha sido posta em causa.»

(Angela Merkel, após o mau resultado eleitoral)


Um pedido que é uma obrigação cívica

Olá, ajudem-nos a partilhar este negócio muito católico entre a Câmara de Braga e a Arquidiocese de Braga. São 768.000€ por 10 anos de renda quando o Estado tem um edifício muito melhor ao lado à venda por 900.000€…


Vereadores da oposição criticaram ontem o contrato da autarquia com a Diocese para a ocupação do Pé a Lado, futura sede da União de Freguesias de S. Lázaro e S. João de Souto.

Angela Merkel é uma grande estadista

Só por preconceito ou cobardia poderia calar o respeito e consideração que a chanceler alemã me merece.

A vitória eleitoral dos populistas de extrema direita, nas eleições regionais, não é apenas uma derrota para o governo alemão, é uma derrota para todos os democratas que veem na Sr.ª Merkel a estadista com um projeto político de apoio aos imigrantes.

O fascismo avança de forma perigosa e, enquanto alguma esquerda se cala, na procura de mais alguns votos, Merkel prossegue a sua política migratória e enfrenta o revés que a progressão eleitoral dos extremistas xenófobos infligiu aos democratas-cristãos e social-democratas no poder.

É na adversidade e na defesa de causas que se vê a fibra dos grandes estadistas, seja qual for o quadrante ideológico a que pertençam. Não é recuando que se vence o fascismo, é enfrentando-o.

segunda-feira, março 14, 2016

Rússia: uma retirada oportuna e não uma rendição estratégica…



A retirada das forças militares russas da Síria link acaba por introduzir uma nova dimensão no conflito no momento em que decorrem complexas negociações de Paz.

Considerando que a retirada russa se deve ao cumprimento dos objectivos político-militares essenciais, nomeadamente o bloqueio de Alepo, o cerco de Palmira e a retoma dos campos petrolíferos circundantes, esta posição russa, significa, em termos políticos, que a exigência da retirada imediata de Bashar al Assad caiu por terra.

Quando se olha os recentes mapas de influência no terreno (foto) vemos um Daesh ensanduichado entre as forças de Assad (no litoral e ao longo da fronteira com o Líbano) e as forças curdas (em quase toda a fronteira norte, junto à Turquia) que estão a desenhar uma forte tenaz. 
Os pequenos grupos armados são residuais (p. exº o grupo Al Nusra) e já perderam a oportunidade de desempenhar qualquer papel no futuro da  Síria  (que não será exactamente igual ao que foi antes da guerra civil).

As conversações que continuam em Genebra passarão por outros terrenos. Nomeadamente pelo cerco aos jihadistas do Daesh - representados por organizações sediadas em Riad - que nos últimos tempos não têm registado progressos no terreno. Porém, começa a ser notório que qualquer tipo de acordo não pode ignorar o futuro dos curdos, queira ou não queira a Turquia.

Uma terceira vertente deverá estar presente nestas tardias negociações. O assumir, por parte da Rússia, do estatuto de potência mundial e a  expectativa do fim do bloqueio decretado pela UE  à volta do ‘problema ucraniano’, que entrou em ‘banho-maria’.

Ao fim e ao cabo Putin mostra cada vez mais capacidade para influenciar uma solução do ‘problema sírio’. Solução que deverá ser substancialmente diferente da que John Kerry andou a vender e propagandear alguns meses atrás. 
Falta agora arranjar uma saída honrosa para o Ocidente depois de mais de 250.000 mortos.
Um trágico balanço que não findou porque, como é previsível e apanágio dos fanáticos, o Daesh não vai aceitar uma rendição incondicional.

Brasil, corrupção e manifestações

É difícil condenar juízes no combate à corrupção, sob pena de conivência com a imensa teia que enlameia políticos, mas é ingenuidade apoiar manifestações que os denigrem, orquestradas para preparar um golpe de Estado contra o governo eleito.

Dois milhões de brasileiros protestam na rua contra Dilma e pedem a prisão de Lula, um presidente que tirou da miséria milhões de pobres. Tenho medo das turbas ululantes que incensam um juiz e execram todos os políticos, do deslumbramento dos julgadores e da sede de linchamento de multidões famintas, açuladas por privilegiados.

Lembro-me da lufada de ar fresco que constituiu Jânio Quadros, obrigado a renunciar pelos ministros militares, de João Goulart, deposto por um golpe militar, do governador do Rio de Janeiro, Carlos Lacerda, ex-comunista que virou populista e reacionário, num país que acabaria por eleger Lula duas vezes e parecia ter abandonado as ditaduras dos coronéis e o subdesenvolvimento.

A memória recua meio século e repete-se a História onde espreitam coronéis, de braço dado com bispos evangélicos, donos de jornais e canais televisivos, e populistas, para quem a baixa dos preços do petróleo foi a ocasião para aventuras sombrias, capazes de sepultar os sonhos e utopias de um país onde se reproduziram e miscigenaram, de forma feliz, os portugueses.    

domingo, março 13, 2016

PSD: Uma hipócrita chicana que é um elogio à ‘geringonça’…

O PSD quando é obrigado a largar o Governo a primeira coisa que faz é a (orto)eutanásia sobre os seus anteriores líderes. Cavaco nada tinha a ver com Balsemão, Durão Barroso não ‘(re)conhecia’ Cavaco (que protegia Fernando Nogueira), Santana Lopes um eterno candidato à presidência do PSD fugia de todos porque muitos ansiavam por Ferreira Leite e, finalmente, Passos Coelho surge como um outsider perante as frustrantes apostas em Marques Mendes e Filipe Menezes. O único dirigente que ainda não eliminaram é Sá Carneiro por duas razões: porque precisam de um ídolo e porque está morto. Cavaco é também uma exceção mas como sabemos desde a última campanha presidencial suspeita-se que poderá ter nascido duas vezes...

Desta vez não existiu uma derrota fulgurante e o líder do passado ainda tenta sobreviver. O PSD apesar de ter pedido a maioria para governar foi o partido mais votado. Aparentemente serve-lhe de pouco mas é possível – na Oposição que em certas circunstâncias aceita ser – pode fazer tropelias.
A primeira grande tropelia foi distanciar-se do País e negar qualquer tipo de colaboração como o Governo legitimamente constituído. Disse-o repetidas vezes que em qualquer circunstância não estava disponível para, segundo se pode inferir, intervir na governação do País. Fez uma birra. Está lá mas não conta. Não subscreve o OE-2016 o que é um seu direito, melhor, é uma tomada de posição de acordo com a opção ideológica da actual equipa dirigente. Não existe aqui nada de pragmático. Mas daí para a frente começa a birra. Nada tem a propor de emendas, de alternativas, de reparos.

O caricato é esta posição partir de quem andou quatro anos e meio a vociferar que as oposições (de então) não tinham alternativas. Se tivéssemos a pretensão de caracterizar, em política, o radicalismo este seria um exemplo paradigmático. O que o PSD acaba por (re)afirmar ao País foi: já que não é para prosseguir com a austeridade e o empobrecimento não estamos cá.
Mas ainda dentro da questão do OE existe um pormenor que pela sua ligeireza e contradição destrói toda a imagem de credibilidade partidária que, artificialmente, tentou criar.

A Assembleia da República – nos tempos de Passos Coelho - votou um auxílio financeiro à Grécia (106,9 M€), dentro de um quadro de solidariedade europeia, em que se endossou aos parceiros europeus a essa (parcial) responsabilidade contributiva link. Na altura, o PCP votou contra esta contribuição por diversas razões entre elas a de não estar disponível para financiar a aplicação de um programa de desumana austeridade para ser aplicado aos gregos (como se continua a verificar).

Um outro problema é a questão turca e como a UE está a lidar com ela. Acima de tudo sustenta uma posição oportunista e hipócrita. Trata-se de deitar dinheiro para cima do problema. Existe o problema dos refugiados que é o epifenómeno da guerra generalizada que grassa pelo Médio-Oriente. A UE dispõe-se a pagar apra que essas deslocados permaneçam acantonados na Turquia e para que a guerra continue. O BE não aceita esta solução e estes donativos (24,3 M€) integram o OE 2016.

E o que faz o PSD? Sem mais nem menos aquilo que o deputado Duarte Pacheco exprimiu: “Votamos contra. É a nossa posição de princípio: quem tem de assegurar a viabilidade é a maioria que suporta o governo e não a oposição. Nós agora somos oposição…”. O PSD entretém-se a colocar grãozinhos de areia na engrenagem orçamental como se isso fosse política.

Entretanto criou um (julgo que um pequeno) problema para a maioria que suporta o governo PS. Aos partidos da maioria parlamentar restam-lhe poucas hipóteses e uma delas será a maioria distinguir o principal do acessório e aprovar as medidas ditando para a acta da reunião uma violenta declaração de voto onde seja denunciada a camaleonice do PSD e as suas vergonhosas manobras obstrutivas.
E ao PSD resta-lhe oferecer ao País o triste espectáculo de mostrar ter 2 caras. E a repetição de situações como esta conduzirá inevitavelmente à constatação que não é confiável (dando continuidade a uma demonstração que dura desde 2011).

Finalmente, a sua atitude perante o OE 2016 colocou o PSD ‘fora do arco constitucional e democrático’ – para retomar a abjecta e falecida discriminação do ‘arco da governação’... Mas pior do que isso deslocou-se para fora do sistema.

As cerimónias de entronização de Marcelo … Rebelo de Sousa

A tomada de posse do novo PR demorou 3 dias. Foi a mais longa fora do continente africano [3 dias], uma cerimónia inédita na Europa.
Trouxe-me à memória um belo poema de Bertolt Brecht.

«Se este homem insubstituível franze o sobrolho
Dois reinos estremecem
Se este homem insubstituível morre
O mundo inteiro se aflige como a mãe sem leite para o filho
Se este homem insubstituível ressuscitasse ao oitavo dia
Não acharia em todo o império uma vaga de porteiro.»

sábado, março 12, 2016

O desejo, a necessidade e o cansativo….

Cavaco Silva anunciou que vai descansar link.

Sem pretender negar a qualquer português o direito ao descanso – mesmo para aqueles que alinharam na histeria dos feriados a mais e se apressaram a cortá-los – o homem tem razão.

Quantitativamente foram demasiados anos de exercício de funções públicas que lhe foram atribuídas pelo povo português através do voto. É necessário, porém, desfazer um mito. Ninguém o foi buscar a casa ou à Faculdade (onde não era muito assíduo) para o obrigar a tal esforço. Quando muito desviaram-no – de automóvel - para um jantar lá para os lados de Cascais, onde aceitou a ‘encomenda’. Sendo assim o natural cansaço daí advindo partilha com a expressão popular de que que quem corre por gosto não se cansa.

Ora o cansaço pode também advir de outras circunstâncias. Por exemplo de um hercúleo, pródigo e levado esforço qualitativo (mesmo que por reduzido tempo).
Os 10 anos de Cavaco não parecem terem sido muito exigentes em termos de esforço mental, imaginação ou inovação. Para além das esfarrapadas justificações sobre o SLN/BPN, sobre a sua mirabolante troca de residência algarvia, sobre as rocambolescas escutas, sobre os solilóquios vacuns açorianos ou sobre o canto das cagarras das Desertas pouco mais resta para memória futura.

A recordação mais visível do seu cansaço foi o inusitado 'desmaio' nas comemorações do 10 de Junho na Guarda.Todavia, nesse episódio o povo balanceou na dúvida se foi mesmo 'cansaço' ou aquilo que misteriosamente qualifica como 'esgotamento'.

Cavaco deve descansar se tiver desejos de o fazer e se a sua parca reforma o permitir (ultimamnte deixou de queixar-se).
 Mas para mim deveria ter partido em silêncio. Só o  anúncio de descansar donde vem é … cansativo!

A Babilónia do Médio-Oriente….

Ultimamente tem sido intensas as conversações entre a UE e a Turquia em grande parte por 3 motivos: o sanguinário conflito sírio; a vaga de refugiados e a adesão deste País à UE. Vamos ficar pelo primeiro.

Sobre o conflito sírio a atitude turca é por sistema dúplice (quando não tríplice). Sendo o Governo de Erdogan um histórico aliado da Irmandade Muçulmana, logo integrando a facção sunita, a sua postura nesta contenda nunca foi neutra. “A Primavera síria” cavalgou a ‘onda das primaveras árabes’ e pretendia substituir o regime de alauita de Al Assad (que segue a prática xiita) transformando-o num Estado Islâmico (sunita) dentro da órbita hegemónica regional da Arábia Saudita. Nunca esteve aqui em causa qualquer tipo de transformismo do tipo democrático.

Tudo correu mal por variadas razões: primeiro os combatentes sunitas ‘transformaram-se’ jihadista cruéis e fanáticos interessados num ‘Estado Islâmico’, com pretensões de construção de um novo califado, e em certa medida (e só parcialmente) fugiram do controlo saudita. 
Depois, verificou-se o ‘arrefecimento ‘do ímpeto primaveril árabe e o Ocidente aliado das pretensões sauditas esqueceu-se do Irão xiita, e pior, ignorou os interesses geo-estratégiccos da Rússia. 
A dita ‘solução ocidental’ foi correndo até ao momento que o Daesh tendo-se apoderado dos campos de petróleo da região arranjou capacidade financeira e de aquisição de equipamento militar para progredir da Síria até às portas de Bagdad. Paralelamente, o Daesh desenvolveu uma intensa actividade de captação de combatentes que usando as mais sofisticadas armas de propaganda desenvolveram atitudes de força brutal e métodos bárbaros de intimidação e destruição a par de genocídios (de base religiosa) intimidou todo o Médio Oriente e o Mundo.

O Ocidente traumatizado pela guerra do Iraque nega-se a colocar as botas no terreno. Resolve atacar o Daesh com a aviação e só os curdos dão o corpo ao manifesto combatendo o Daesh no território capturado. 
A situação entra num equilíbrio cada vez mais frágil e instável. Os curdos que encetaram um mecanismo de auto-defesa étnica mas também no reavivar de um sentimento de nacionalidade que tem por origem uma mescla que povos que se entroncam em vários países do chamado ‘Curdistão’, isto é, no Irão, Iraque, Síria, Turquia, Arménia, Geórgia, etc. Metade deles vivem na Turquia e esta é uma questão adicional no presente conflito já que é um problema que se arrasta desde a guerra da independência turca e esta é a oportunidade soberana de reunir os curdos numa nação.

Ao fim e ao cabo a Arábia Saudita pretendendo recolocar a sua hegemonia do Médio Oriente, de conluio com os EUA, veio (re)colocar na agenda política a partilha de mundo desde o fim do império otomano.
Esperemos que esta nova divisão do Médio Oriente (o rearranjo já em curso) não passe por uma nova guerra de dimensões catastróficas e alargadas mas hoje parece inevitável que a situação no Médio Oriente, não deixará (todos os indícios apontam nesse sentido) de desenhar um novo mapa para essa área. 
Daí o interesse das múltiplas nações envolvidas que somam às questões políticas e geo-estratégicas, condições energéticas fundamentais (petróleo) para as suas economias.
Daí também a razão do crescente envolvimento da Rússia neste conflito de tal maneira profundo que hoje é visível que qualquer ‘solução’ necessita de merecer o beneplácito de Moscovo.