terça-feira, maio 31, 2016

Notas soltas – maio/2016

Brasil – O Juiz Baltasar Garzón, que prendeu o ditador chileno Augusto Pinochet e cuja firmeza democrática é indubitável, acusou de golpe de Estado a destituição de Dilma. A votação parlamentar foi um deprimente espetáculo de agressão à democracia.

Espanha – A falta de entendimento entre os partidos de esquerda impôs a repetição das eleições, quando havia uma boa oportunidade para punir a teia de corrupção que enleou o PP. Frustrado, o eleitorado vai aumentar a abstenção e deslizar para a direita.

El País – Referência da imprensa escrita europeia, o melhor diário da Península Ibérica, celebrou no dia 4 o 40.º aniversário. Nasceu da transição política em Espanha, vitória da democracia sobre o fascismo, que o 25 de Abril português tornou inadiável.

EUA – O Partido Republicano nomeará, para disputar as eleições presidenciais, Donald Trump, após derrotar Ted Cruz, ainda pior do que ele. Teme-se a derrota de Hillary, um mal menor no país ameaçado do pior e que enjeita o melhor, Bernie Sanders.

Coreia do Norte – A última ditadura estalinista assumiu o carácter de uma monarquia exótica onde Kim Jong-un, Kim III, convocou o primeiro congresso do partido único, em 36 anos, destinado à sua coroação unânime.

Venezuela – O presidente, incapaz de fazer face aos problemas que a conjuntura agrava e os inimigos estimulam, responde com despotismo, próprio de ditadores. A sua queda é inevitável e devia ter percebido o fim do prazo de validade, antes do desastre.

Eutanásia – A decisão da AR tem de ser bem ponderada, tendo em conta a experiência e legislação de países que nos precederam. Os direitos individuais não são referendáveis e a CRP, que perfilha o direito inalienável à vida, não a impõe como condenação.

Ensino privado – Não se contesta o direito à sua existência, mas, onde existem escolas públicas, torna-se ilegal e imoral o pagamento pelo Estado, sendo suspeitas e impróprias as exigências dos colégios e obscena a chantagem com manipulação de crianças.

Filipinas – Rodrigo Duterte foi eleito Presidente por ampla maioria, num país católico, apesar de acusado de ter conduzido uma campanha de execuções extrajudiciais durante mais de 20 anos e de chamar filho da p… ao Papa. A extrema-direita chegou ao poder.

Paulo Portas – A vichyssoise serve-se fria. A contratação, como comentador, pela TVI, relança a sua carreira política, livre de figuras menores que a pertença partidária sempre colocou à sua frente. Oportunamente, acertará contas com os inimigos.

Londres – A eleição de Sadiq Kan para presidente da maior Câmara do Reino Unido, é a vitória de um islamita progressista e democrata contra o islão ignorante, reacionário e intolerante, a vitória do crente ilustrado que expurgou a fé da violência e obscurantismo.

Central Nuclear de Almaraz – A 100 km de Portugal, arrefecida por água do rio Tejo, já falhou e mostrou falhas nos testes de resistência e no mesmo tipo de válvulas que gerou o acidente em Fukushima. Continua em atividade. Até à catástrofe?

UE – Além do drama dos refugiados, terrorismo, desemprego e colapso financeiro, há três países que ameaçam a sua desintegração, o Reino Unido que quer sair, a Turquia que quer entrar e a Alemanha que quer que a Turquia entre e o Reino Unido não saia.

Turquia – Erdogan, alegado muçulmano moderado, reislamizou o país, condiciona as liberdades, subjuga os Tribunais e reprime a comunicação social. Chantageia, trafica os refugiados e exibe, perante a UE, a insolência do monstro que a Nato treinou e armou.

Bancos portugueses – A incapacidade de solução para os créditos malparados decorre da crise financeira internacional e não é culpa do anterior governo, mas a displicência com que o problema foi encarado e escondido, é a herança que deixou.

Refugiados – A UE, incapaz de encontrar soluções, por ausência de condições políticas e de recursos, com os europeus a temerem agressões à identidade cultural, abandonou os princípios e perdeu a oportunidade de uma política concertada.

Áustria – O ecologista, Alexander Van der Bellen, venceu a segunda volta das eleições presidenciais com 50,3%, só mais 0,6% do que o candidato da extrema-direita, Norbert Hofer (49,7%). Tal como na Hungria e Polónia, os velhos demónios despertaram.

Cavaco Silva – A primeira tentativa de reabilitação ocorreu no ISEG, onde se formou. A Associação dos Antigos Alunos, Alumni Económicas, atribuiu-lhe o prémio “Carreira Económica, Política e Social”. Fiel à sua natureza, destilou ressentimento político.

PR – A simpatia de Marcelo, que beneficia da comparação com o rancoroso antecessor, corre o risco de perder eficácia com a excessiva exposição e a precipitação de algumas declarações. É bom para ele, e do interesse do País, que se resguarde.

Argentina – Começou o julgamento de facínoras do Plano Condor, de quem perseguiu e matou concertadamente opositores de 7 ditaduras, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Perú e Uruguai, nas passadas décadas de 70 e 80. Nunca é tarde.

Tunísia – Apesar do receio de um partido confessional, que exclui ateus, consumidores de álcool e de drogas, o Ennahdha, ao adotar a separação entre o proselitismo religioso e a atividade política, pode difundir a democracia e salvar o islamismo.

Monte Atos – Há mil anos vieram os primeiros monges russos e criaram um dos locais mais santos da Igreja ortodoxa grega. Acesso, por mar; mosteiros – 20; monges - 1500. No Estado Monástico Autónomo da Montanha Sagrada só entram homens e animais do sexo masculino. A única teocracia monástica é exótica. 

Marginal e provocador


O cardeal arcebispo de Valência, Antonio Cañizares, (foto) pediu aos católicos que desobedeçam às leis que considera injustas baseadas na “ideologia mais insidiosa e destruidora da humanidade de toda a história, que é a ideologia de género”.

E ninguém o prende!

segunda-feira, maio 30, 2016

De amarelo trajando…

Ontem, o País teve oportunidade de assistir a uma manifestação pública de alunos e professores de colégios privados frente à Assembleia da República: Uma manif apoiada pela Conferência Episcopal Portuguesa, onde se integraram crianças e adolescentes, agitando palavras de ordem absolutamente inusitadas: “Não matem o interior”; “Os nossos impostos podem escolher?”; “onde não há escola, não há liberdade”; etc. link.

De ‘inovador’ a presença de cravos amarelos condicentes com a cor das T-shirts. 
A ‘onda amarela’ assume assim um inopinado significado. O “amarelecido” ar da turba está em consonância com o declínio da causa em que apostam… . 
Os cravos, bem, isso é outra coisa, será o desespero.

Existe um proverbio português que é muito insinuante acerca do colorido destas manifestações: “o que seria do amarelo, se não fosse o mau gosto?”!

As frases

«O cinismo com que PSD e CDS falam de despedimentos de professores nas escolas com contratos de associação fica bem patente na política de encerramentos e cortes e cortes de mais de três mil milhões de euros nos últimos quatro anos na educação e que teve, entre outras consequências, o despedimento de 28.000 professores.»

(Jerónimo de Sousa, líder do PCP, sobre luta dos colégios com contratos de associação)

***

«Não é evidente que uma escola que presta um bom serviço, que tem bons resultados, que é a preferida pelos pais e que não custa mais para o Estado, deva ser sacrificada só porque ao lado há uma escola pública estatal que deve ser sempre mantida.»

(Assunção Cristas, líder do CDS, sobre luta dos colégios com contratos de associação)

Fonte: DN, hoje

A peregrinação das esmolas

Ungidos pelos bispos, os apóstolos das escolas privadas pagas com dinheiros públicos, organizaram uma cruzada para conquistar Lisboa aos mouros. Nos púlpitos, pregadores incitaram os fiéis. Agitaram-se as mitras, ergueram-se anelões, brandiram-se os báculos, foram concedidas indulgências plenas aos peregrinos e lançada uma fatwa ao Governo.

Sem novenas, missas ou orações pias, mal confessados e pior comungados, fizeram-se à estrada os peregrinos, a exigir o dízimo aos excomungados. No bornal ia a rasteira que pregaram ao PR e a mentira engendrada do Tribunal de Contas. Como ensina a sharia romana, é lícito mentir em benefício de Deus; o ensino privado não é sacramento, por lapso, e os contratos de associação não são o 11.º mandamento, por não caberem no decálogo.

Os colégios, para cujo funcionamento os senhores bispos reclamam o dízimo, situam-se em zonas pobres, para filhos de operários e trabalhadores rurais. São colégios de Viana do Castelo (2) [Caminha-1 e Cerveira-1]; Braga (8) [Braga-3, Barcelos-2, Famalicão-2 e Vizela-1]; Porto (4) [Amarante-1, Gondomar-1, Santo Tirso-1 e Trofa-1]; Vila Real (1); Aveiro (4) [Aveiro-2, Feira-1 e Mogofores-1]; Viseu (1) [Lamego]; Guarda (2) [Seia-1 e Arrifana-1], Castelo Branco (3) [Covilhã-1, Sertã-1 e Proença a Nova-1], Coimbra (8) [Coimbra-7 e Figueira da Foz-1]; Leiria (3) [Leiria-1, Ansião-1 e Caldas da Rainha-1]; Lisboa (1).

Nestas localidades, onde não chegou o ensino oficial, o direito de escolha é a exigência que o episcopado reclama e a caridade exige.

Nota: A lista que publico, de boa fé, dos colégios que perderam contratos de associação, é a que me chegou. Agradeço a vigilância dos leitores. O parasitismo não se combate com mentiras. Não podemos usar os mesmos métodos.

domingo, maio 29, 2016

Argentina – Julgamento da ditadura militar

Começou na passada quarta-feira o julgamento de criminosos do Plano Condor que, de forma concertada, perseguiram e eliminaram opositores de 7 ditaduras sul-americanas, com os ditadores conluiados.

Pinochet foi o paradigma da crueldade. Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Perú e Uruguai são países que choram mortos e desaparecidos, na orgia de sangue e violência ordenada por ditadores que, nas décadas de 70 e 80 do Século XX, assaltaram o poder.

Muitos assassinos e mandantes morreram impunes, mas nunca é tarde para julgar crimes e devolver a reparação possível às famílias das vítimas. Para muitas é a resposta tardia ao destino que coube aos entes queridos. Jorge Videla (1976-1981) e Reynaldo Bignone (1982-1983), ditadores argentinos ainda terão o julgamento justo que negaram aos que fizeram desaparecer e mandaram assassinar sumariamente.

À medida que os EUA forem desclassificando documentos, permitindo acesso público, será feito o inventário do período tenebroso em que os ditadores combinaram eliminar os adversários. O julgamento em curso inclui o conjunto dos delinquentes das ditaduras dos sete países, também eles associados para a execução dos crimes de Estado.

As Mães da Praça de Maio, angustiadas, sofridas e revoltadas, que se reuniam na Praça de Maio, em Buenos Aires, a exigir notícias de filhos desaparecidos durante a ditadura militar, as que ainda restam, acharão algum lenitivo para a aflição que as foi devorando.

O pior que podia acontecer era o esquecimento, como sucedeu em Portugal e Espanha, no último caso com a suspensão do juiz Baltasar Garzon, o Juiz Central de Instrução do tribunal penal da Audiência Nacional, a última instância na Espanha. Conseguiram os franquistas que os crimes do maior genocida ibérico, de todos os tempos, ficassem por investigar e os cadáveres por exumar.

Os povos que esquecem a História ficam mais vulneráveis à repetição das tragédias.

sábado, maio 28, 2016

América do Sul: Os macabros voos do condor….

Afinal, após a desclassificação de documentos, verifica-se que a chamada ‘Operação Condor’ não foi uma invenção da Esquerda para ‘alimentar’ a subversão na América do Sul.

A Argentina de posse de novas provas documentais, nomeadamente a acta subscrita pelos 6 ditadores no poder em Santiago do Chile a 28.12.1975, sob os auspícios de Pinochet, onde (con)firmam um sinistro pacto entre as ditaduras sul-americanas (Brasil, Chile, Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai) acabou por condenar alguns dos carrascos do seu povo que permanecem ainda vivos, ao contrário dos opositores sistematicamente eliminados por combaterem pela Liberdade link.

Trata-se de um levantar do véu sobre a ignominiosa política de assassinatos políticos que infectou as relações internacionais neste Continente nas décadas de 70 e 80. Na realidade, trata-se de uma memória histórica que deve ser esclarecidamente investigada e desvendada aos vindouros.
Existe, uma outra razão: como alguns (os mais idosos) se devem lembrar os expurgos letais de opositores à ditadura de Pinochet no Chile foram condição sine qua non para os ‘meninos de Chicago’, discípulos de M. Friedman, procederem, no terreno, a uma ‘experiência’ prática das doutrinas económicas neoliberais.

Hoje, o massacre autoritarista conduzido pela manu militar é dispensável. Os carrascos foram substituídos pelos indecifráveis mercados que dificilmente poderão ser indiciados como autores de crimes contra a Humanidade.

Pensando em meu pensamento


Os que amanhã, apoiados pelos bispos, vão vociferar contra os cortes nos contratos com os colégios, junto à AR, são os que se manifestariam a favor dos cortes no Colégio Moderno, v.g., da família Soares, se porventura gozasse de tão obsceno privilégio a instituição criada pelo grande pedagogo, Dr. João Soares.

Eis uma possibilidade de me encontrar em tão má companhia.

28 de maio

Há 90 anos, a República vergou-se à sedição militar, nacionalista e antiparlamentar que lhe pôs termo. O que poderia ser mais um golpe de Estado, transformou-se na ditadura que as forças reacionárias já haviam tentado com Pimenta de Castro e Sidónio Pais.

As sequelas da Primeira Guerra Mundial, nas finanças e na política, a instabilidade, o mal-estar generalizado, a convergência de monárquicos, clérigos e outros fascistas que germinavam no CADC, criaram as condições para a ditadura a que poucos se opuseram na presunção do seu carácter benigno e passageiro. Em comum, todos nutriam um ódio fanático ao parlamentarismo.

De Coimbra, Cerejeira e Salazar seriam os artífices de uma aliança que não restaurou o trono, mas uniu o fascismo português e a Igreja católica, seguindo a Itália de Mussolini como, mais tarde, a Espanha do genocida Franco e vários países europeus. Em Portugal, a reflexão política foi medíocre e, longe de se afirmar numa ideologia clara, aproveitou as rivalidades entre republicanos, o ódio recalcado à República e a inspiração italiana.

Um seminarista que abandonou o seminário e o outro que chegou cedo a cardeal e seria, durante décadas, a figura preponderante da Igreja católica, foram os esteios da ditadura.

Impôs-se o partido único, fortaleceu-se a polícia política e estabeleceu-se a censura. Nos púlpitos e nas escolas a apologia da ditadura e o culto da personalidade do ditador foram uma constante do regime que a cumplicidade externa e o terror interno eternizaram.

Salazar tornou-se o ditador mais longevo do século XX e Portugal o país mais atrasado da Europa.

Hoje, ao assinalar-se o 90.º aniversário do 28 de maio, devemos refletir na precariedade da democracia e ter consciência de que não há liberdades vitalícias. Sirva um dia negro da História para refletir nos perigos que nos espreitam. Durante 48 anos não existiu uma República ou uma Monarquia, houve uma monocracia cujos saudosistas, por ignorância ou vingança, não desistem de ver restaurada com um novo ditador, se possível, eleito.

A União Europeia é um guarda-chuva que ameaça desconjuntar-se com o vendaval que varre a Europa e, em Portugal, os salazaristas não serão sempre tão néscios como os últimos que a democracia alcandorou ao poder.

sexta-feira, maio 27, 2016

O estado a que a direita portuguesa chegou

A direita portuguesa atual, esta direita incubada nas madraças juvenis, geneticamente salazarista e fertilizada pelo ressentimento à descolonização e ao 25 de Abril, tomou o poder, nos partidos que Sá Carneiro e Freitas do Amaral fundaram, e pôs em marcha a contrarrevolução cultural.

Esta direita, pouco instruída, exonerou a ética da práxis política e vive de cumplicidades avulsas e da proteção de interesses instalados. O Partido Popular Europeu (PPE) é cada vez mais sectário e as suas metástases, em Bruxelas, alinham o discurso com esta direita que instala o medo e faz chantagem enquanto se afasta da herança que deixou.

Não surpreende que os altos funcionários europeus se submetam aos amos, espanta-nos que os partidos portugueses possam ser os agentes entusiastas de interesses alheios, sem disfarce nem civilidade.

Hoje, na AR, a deputada Assunção Cristas, uma estudiosa do método de locomoção das vacas, acusou o grupo parlamentar do PS de ser «uma excrescência do Governo», o que pressupõe não saber o significado da palavra ou aceitar-se como tumor da democracia.

A madraça da JSD produziu um cartaz que transforma no genocida Estaline o presidente do sindicato dos professores, Mário Nogueira. Este, pouco cauto, em vez de lhe lembrar quem produziu Passos Coelho, resolveu queixar-se à Justiça.

Na véspera do 90.º aniversário do 28 de maio, Passos Coelho e Assunção Cristas estão para a democracia como os cadetes da trágica data.

Ainda sobre as ‘vacas voadoras’…


Assunção Cristas, a recém-empossada líder do CDS mais parece uma daquelas virginais vestais romanas que se dedicavam a manter sempre vivo o fogo ‘sagrado’. Viviam afastadas do Mundo para mais facilmente manterem as suas castas virtudes. Libertavam-se da autoridade paterna (terá sido esse o caso?) e entravam para o efémero limbo das pré-divindades. 
Neste momento, com mais de 41 anos, Cristas veio a terreiro confessar que só entre 2011 e 2015 (não precisou o ano da revelação) teve a vaga noção que de as vacas não voam link.

Depreende-se que no resto da vida (infância, adolescência e adultícia) andou distante do Mundo animal e não conhecia o gado vacum a não ser através dos bifes que frequentemente voam para cima dos grelhadores.

António Costa deveria saber que o humor e a ironia são refúgios do pensamento imperceptíveis para alguns. Muitos(as) não conseguem descobrir qualquer sentido quando ouvem uma fala metafórica.

Cristas deveria conhecer um dos pensamentos de Florbela Espanca: “A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento”…
E deixar as ‘vacadas’ em paz…

quinta-feira, maio 26, 2016

Milagres em segunda mão

Fica provado que não foi apenas o milagre das rosas que a Rainha Isabel de Aragão copiou da tia-avó, homónima, que já o havia feito na Hungria. Era certamente um truque de família.

Também na Bíblia.


Passos Coelho: “espelho meu…”

Ver-se ao espelho e congeminar aquela postura ‘conheces alguém mais virtuoso do que eu?’ é um exercício de narcisismo que muitos praticam pela calada, no recôndito da sua privacidade, mas trata-se de uma atitude que, quando trazida para o domínio público, cai mal.
Foi exactamente esta a mais recente prestação do ex-primeiro-ministro, Passos Coelho, quando se apressou a avaliar 6 meses de Governo (e 3 de vigência do OE 2016!) invocando, interpretando e adulterando os últimos dados do INE sobre a execução orçamental. Mais uma vez tomou a nuvem por Juno e debitou toda a sua bílis sobre a actual governação.
Grave e estapafúrdia foi a tirada demagógica, populista e perversamente fantasiosa de que “o País está a ser levado para o declínio social, económico e político”. link.

Depois de 4 anos e meio de empobrecimento forçado e, diga-se, da subserviência que, sob a liderança desta avantesma, submeteu o País aos caprichos e experimentações de uma troika, completamente ignorante acerca da realidade nacional, como é possível falar assim?

Se fosse politicamente honesto e tivesse em casa um modesto espelho capaz de reflectir a realidade que o cerca veria que o chamado ‘resgate’ e o pretendido ‘ajustamento’ atiraram (fizeram recuar) o País para níveis económicos similares ao dealbar deste século.

Por outro lado, no campo social, toda a acção dos últimos anos de governação teve como efeito a deterioração da coesão social, através de medidas que levaram à ruptura do ‘contrato social’, com espezinhamento dos direitos sociais e laborais, conduzindo ao agravamento de desigualdades e a uma vergonhosa expansão da pobreza.

No terreno da política, poucos se recordam de uma governação mais prepotente do que a do último governo, onde se contam pelos dedos de uma mão os consensos, ditos, nacionais, onde se transformou a governação no permanente ajoelhar perante inominados e seráficos ‘credores’, em busca de ‘credibilidades’  fantasiosas e, finalmente, onde se violou com reiterado ímpeto normas constitucionais e a crispação (política e social) foi uma permanente e indigente ‘normalidade’.

Quando Passos Coelho invoca o declínio político, social e económico do País provavelmente revela o que silenciosamente deseja e está à espera. Anseia é pela deterioração do regime democrático, por uma nova intervenção externa, pelo (re)assumir de funções de ‘capataz dos mercados’, através de um ‘golpe mágico’ que lhe permitisse prosseguir a mesma política dos últimos 4 anos, muito embora não tenha logrado obter a maioria dos votos dos portugueses.

Aliás, a postura evidenciada pelo actual ‘chefe’ da Oposição é a de ‘espera’, emboscada nas suas visões e confusões neoliberais, não sendo capaz de entender que a mudança ciclo político tem (está a ter) necessárias e óbvias consequências.
E dentro das inevitáveis consequências encontra-se o seu inexorável declínio, enquanto político. A tentativa de confusão entre o seu evidente declínio e o do País é uma manifestação patológica de transferência identitária.

Poderíamos sugerir uma terapia: escrever um opusculo sob o tema - “Ascensão e queda de um jotinha”. Aí poderia 'espelhar' todas as suas declinantes angústias metafísicas...

A deriva nacionalista e ultraliberal da União Europeia (EU)

Milton Friedman foi provavelmente o economista mais influente da segunda metade do século XX e a influência deletéria, que o brilhante académico e excecional comunicador exerceu, subsiste. A sua teoria é hoje o catecismo capitalista que excluiu os mais fracos e acumulou 50% da riqueza mundial nas mãos de 62 pessoas.

Beneficiário do New Deal, de Franklin D. Roosevelt, que permitiu a sua sobrevivência e a de jovens economistas, tornou-se o principal teólogo de uma nova religião. Líder do grupo ultraliberal, ‘bando de Chicago’, foi consultor do Partido Republicano dos EUA e moldou o capitalismo, convertido à vulgata ultraliberal, cruel e amoral, de que Ronald Reagan, Margaret Thatcher e João Paulo II foram as referências políticas.

A URSS, em fase de implosão, facilitou o uso da democracia política como argumento estimulante, para acelerar a queda do comunismo, e acabou por ser mero pretexto para a imposição de uma ditadura do capital financeiro. O Chile foi o laboratório da primeira experiência, que só resultou graças à repressão violenta e assassínios seletivos.

O ultraliberalismo está para o capitalismo como o Antigo Testamento para as religiões monoteístas, irrevogável e totalitário. Não será uma maldição vitalícia, mas deixará um rasto calamitoso, com o poder económico a comandar a política e o capital financeiro a determinar a ideologia.

A UE, refém do modelo único imposto pelo FMI, BCE, CE, agências de rating, PPE e outros agentes do terrorismo financeiro, vai deslizando para modelos fascizantes de que o último susto foi a eleição presidencial austríaca onde toda a esquerda, aliada a toda a direita de rosto humano, venceu a extrema direita por escassos 0,6% dos votos, precária vitória que prenuncia o triunfo extremista nas próximas eleições legislativas.

Na segunda-feira foi o Partido da Liberdade da Áustria que esteve à beira da vitória, um partido que há década e meia a UE não tolerava. Em breve poderá ser poder, depois das próximas eleições legislativas. A Polónia e a Hungria já se renderam à extrema-direita. Frente Nacional (França), Partido Nacional Democrático (Alemanha), Aurora Dourada (Grécia), Partido dos Finlandeses, Partido do Povo Dinamarquês, Partido da Liberdade (Holanda) e Liga Norte (Itália) são monstros que, como a Hidra de Lerna, matam com o seu hálito.

O Partido Popular Europeu (PPE), hegemónico, cada vez pior frequentado, anda muito preocupado com o eleitorado ibérico, enquanto adapta a pituitária ao hálito que exalam os partidos, atrás referidos, que caminham para o poder.

Conheço da História uma conjuntura semelhante. Nasci durante a guerra que ateou.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 25, 2016

As mudanças de Governo e a dança de cadeiras

Salvo os cargos políticos, todos os lugares da Função Pública deviam ser de carreira, sujeitos a concursos e de provimento definitivo, incluindo diretores-gerais.

A Função Pública, passada a instabilidade política decorrente da Revolução, tinha todas as condições para se transformar numa estrutura técnica leal a qualquer governo que se formasse pela via democrática.

Os mais esquecidos não se lembram do consulado cavaquista onde a confiança política foi de tal modo obsessiva que até médicos do CDS foram impedidas de ocupar lugares tão naturais como o de diretor de um Centro de Saúde. A colonização da função pública pelo partido do poder atingiu aí a forma mais despudorada e pertinaz e os altos quadros passaram a ser comissários políticos do partido de turno, com mais ou menos fervor, e uma fonte de emprego para fidelizar ou aliciar clientelas.

Nas autarquias, cujo número e dimensão interessam a todos os partidos, é um regabofe que nenhum partido tem condições de resolver, nem o País de remunerar. De supérfluos assessores até ao pessoal de limpeza, tanto mais acentuadamente quando mais pequena for a autarquia, tudo gira em torno do partido que aí se perpetua no poder.

Este pântano tem dado origem à progressiva substituição do espírito de serviço público pela fidelidade partidária agravada pela redução dramática do emprego. E não há um só partido que a nível nacional, regional ou autárquico se possa considerar isento.

A mais obscena e radical limpeza étnica foi levada a cabo, em 2002, por um ministro do CDS, Bagão Félix, que na devoção dos neófitos, mal chegado a ministro da Segurança Social, substituiu, por fax, 18 diretores distritais da Segurança Social e igual número de diretores-adjuntos. Na pressa, certamente por engano, foram alguns do PSD que tinham resistido a seis anos de Guterres.

terça-feira, maio 24, 2016

A notícia

Um espião português foi ontem preso em Roma a tentar passar segredos ultrassecretos aos serviços de informação russa.

Desde a Irmã Lúcia que não há notícia de algum português ter aí passado, com êxito, algum segredo. A falta de mistério e da intermediação do Vaticano foram-lhe fatais.

Afirmações de um humanista informado

«O mundo está a assistir a uma multiplicação de situações humanitárias dramáticas, quer por causa dos conflitos quer em consequência de catástrofes naturais. Por estas razões, é essencial que haja um despertar de consciências e que os diferentes Estados possam fazer ofertas firmes de diversos tipos de ajudas, designadamente ajudas financeiras às vítimas e aos países que as apoiam na linha da frente, caso dos vizinhos da Síria e da Somália.»

(António Guterres, ex-Comissário da ONU para os Refugiados)

Fonte: DN, hoje

Quando o fascismo regressa à Europa...


Os fascistas andam aí...

Os fascistas andam aí e escrevem. Aliás, são os preferidos dos órgãos de comunicação social.

A prosa de um execrável fascista, em um único parágrafo, no dia em que o Prémio de Consagração de Carreira – momento alto das comemorações do Dia do Autor Português – , foi entregue ao escritor e político Manuel Alegre numa cerimónia presidida pelo PR.

Para o homúnculo, Manuel Alegre é «Uma nulidade reformada». Eis um parágrafo do repulsivo texto:

«Zeitgeist

Um ministro é acusado de fraude em redor de uma bolsa de estudo? Caso fosse de "direita", seria um trafulha sem princípios, alvo da fúria do Facebook e de rábulas de comediantes - demissão já! Como é de esquerda, foi obviamente vítima de uma conspiração sórdida e de péssimo jornalismo. Um autarca decide escorraçar munícipes e espatifar milhões de euros na construção de um templo religioso? Caso fosse de "direita", seria um inaceitável aviltamento do regime laico, uma prepotência atroz e uma despesa criminosa - demissão já! Como é de esquerda (e a religião é o islão), trata-se de um enorme passo ecuménico e um gesto de inegável coragem. Uma nulidade reformada põe um cidadão em tribunal e consegue uma condenação por delito de opinião? Caso fosse de "direita", seria um inimigo da liberdade de expressão e um rematado fascista - demissão já (ainda que o estatuto de reformado dificultasse a tarefa)! Como é de esquerda, é o proverbial filho da boa gente, que se sente tomado por justíssima indignação. Um primeiro-ministro ri-se imenso enquanto arrasta o país para o abismo e, mediante contas alucinadas, despesas típicas e fezadas primitivas, finge salvá-lo. Caso fosse de "direita", seria um cínico desavergonhado, um incompetente ao serviço de interesses obscuros, uma nódoa enfim - demissão já! Como é de esquerda, é exactamente o que se espera que a esquerda seja.»

Alberto Gonçalves, in Diário de Notícias, 22-05-2016

(alegado sociólogo, escreve todos os domingos)

segunda-feira, maio 23, 2016

UFF!: por uma nesga...

O que se passou nas ultimas eleições presidenciais austríacas deve ser debatido e ter consequências.
A vitória de Alexander Van Der Bellen no confronto com o populista e nacionalista de direita (extrema-direita?) Nobert Hofer não chega para sossegar os espíritos. 

Estamos a fazer o mesmo percurso que já vimos em França, em 2002, na disputa eleitoral entre Jean-Marie Le Pen e Jacques Chirac.

Na realidade, a Áustria tem pouco tempo para refazer o leque partidário, ou seja, um mandato presidencial. 

A ‘grande coligação’ (sociais-democratas e democratas-cristãos) que há largos anos governa os austríacos, um modelo semelhante ao que designamos cá por ‘centrão’, chegou ao fim. 

A candidatura de Hofer fez (re)nascer velhos espantalhos integradores da reconstituição do Sacro-Império.  Ficamos por aqui, para não falar do trágico Anschuluss onde as vacilações do então SDAPÖ (Partido Social-Democrata Operário) facilitaram a vida ao Reich.

Desta vez a Áustria (e por 'arrasto' a Europa) escapou por um triz. A Esquerda não deve (não pode) abusar da sorte, nem da clarividência dos eleitores.

Contratos de associação e parasitismo - 2

O comentário aqui deixado no meu texto anterior complementa-o e supera-o, pelo que o transcrevo na página principal.

Por

E -pá

Existe uma resposta que tarda a ser proferida. A Educação é um assunto demasiado sério e tremendamente importante para o futuro do País para ser entregue à iniciativa privada e circunscrita à 'livre escolha'. Trata-se de um bem (problema) estratégico e terá sempre de ser tratada como uma 'coisa pública' e a sua regulação não pode ser remetida ao 'funcionamento dos mercados'.

Este problema, para além das circunstâncias relativas a interesses sectoriais, mercantis ou de proselitismo religioso que se movimentam com alargados (e encapotados) apoios, tem uma outra origem. Parte do mito neoliberal de que tudo o que é público é mau e, pior, 'não requalificável' pelo que o procedimento adequado será privatizar. É, portanto, o debate (confronto) ideológico que se pretende escamotear. Nem será uma trincheira tão difícil de divisar nem tão sofisticada. A Escola Pública é uma questão de regime. Um emblema paradigmático do regime republicano. Neste campo não poderá haver cedências sob pena de estar em curso um regresso da Educação ao 'ancien regime' sistema que começou a ser desmontado com a reforma do Marquês de Pombal que, no séc. XVIII, denunciou os 'jesuíticos contratos' (então não de associação, mas de pura dominação) e que posteriormente a reforma de João de Barros, em 1911, viria a adaptar a escola ao regime republicano e consolidar a dimensão pública e universal.

Logo, a Escola Pública não se circunscreve a questões de famílias e meninos(as) mas é um factor de integração, renovação e progresso social, portanto, no cerne das opções políticas e ideológicas da governação.
Os manifestantes adeptos dos 'contratos de associação' já perceberam isso quando começam a gritar pela demissão do Governo.

Portanto, de uma natural e legítima contestação centrada na defesa de interesses particulares passamos para um patamar superior e, logo, as respostas institucionais terão de tomar isso em consideração.

Contratos de associação e parasitismo

O Estado é obrigado a facultar ensino público a todos os alunos e não o exonera o facto de, por motivo de urgência, ter assinado contratos de associação com colégios privados. O oportunismo e a má fé querem tornar definitivo o que, pela sua natureza, é transitório.

O alarido das instituições privadas, pias e profanas, reflete os interesses e influência dos donos nos órgãos de comunicação social, misturando a qualidade do ensino próprio com o de outras, que não têm subsídios, e como se fosse a qualidade e não a legitimidade do pagamento que estivesse em causa.

É obsceno ver colégios que disputam alunos ao ensino público na mesma área, a exigir a perpetuação de contratos cuja celebração, em alguns casos, devia ser investigada.

O amarelo é a cor de quem pretende que o Estado lhe pague a liberdade de escolha. É a mancha, quase inexistente no sul do País, que vai crescendo a caminho de Braga, quiçá pela Estrada de Santiago, como a dos peregrinos nas romagens medievais.

Há colégios que, após terem coagido os alunos a escrever cartas de protesto contra o fim de contratos, enviaram outras aos pais e às mães, escritas e dirigidas ao PR, PM e outras entidades, com envelopes endereçados e selados, para serem devolvidas assinadas. E organizam manifestações com alunos, professores, funcionários e famílias! É preciso topete!

Esses colégios têm intenção de avançar com as matrículas dos alunos, à revelia da lista que o Ministério da Educação divulgou na passada sexta-feira onde 40 vão perder os contratos de associação, no próximo ano, para abertura de turmas de início de ciclo (5.º, 7.º e 10.º ano) financiadas pelo Estado.

Têm o direito de o proceder às matrículas, mas não o de exigir que seja o Estado a pagar a decisão que tomam.
Urge acabar com os abusos do ensino privado e é altura de a Segurança Social fiscalizar as IPSSs. O catolicismo orgânico do país moldado pelo salazarismo não pode continuar a chantagear o Estado de Direito.

As escolas são obrigatórias, as madraças de livre escolha..

domingo, maio 22, 2016

Presidencias nos EUA: o ‘pesadelo’ Trump…

Uma pergunta oportuna e necessária é quem - para além do populismo infantil, demagógico e caricato (sexista, racista e boçal) - sustenta a candidatura de Donald Trump à Presidência dos EUA.

Até aqui não parece existir uma razão política que seja oriunda do Partido Republicano que tudo fez ao longo dos mandatos de Obama para colocar na Casa Branca um homem do ‘Tea Party’ e nunca um indisciplinado ‘franco atirador’.
Depois da Convenção do Partido Republicano, que se realizará em Julho (Cleveland, Ohio) esta realidade poderá alterar-se ao sabor de oportunismos e conveniências. Mas independentemente das decisões que serão tomadas na Convenção continuarão no ar dúvidas insanáveis ou, melhor, inquietações insolúveis e temerárias.

Vejamos alguns pormenores que foram revelados ao longo da campanha:

- Donald Trump não recusa o apoio do Klu-Klux-Klan ‘oferecido’ pelo seu líder histórico David Duke.
- Por outro lado, Rocky Suhayda, líder do Partido Nazi Norte-Americano, expressou o seu ‘encantamento’ pela candidatura do milionário nova-iorquino. link.
- Depois, conta com o apoio do NRA (lobby das armas) que continua a considerar os EUA como o País do Far West (só que os índios ‘viraram’ muçulmanos);
- Merece, ainda, o ‘aplauso’ do lobby israelita depois de num discurso perante o AIPAC (American Israel Public Affairs Committee) anunciar várias provocações contra os palestinos (p. exº deslocar a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém) link;
- Depois de uma birra ‘arregimentou’ Sheldon Adelson, o grande patrão do jogo de Las Vegas, para promover a sua campanha (com majoretes, supõe-se)  link.

Parece um filme de terror… mas as últimas sondagens revelam que a ameaça é séria link!
Na verdade, trata-se de um ilusionista que está a conseguir transformar o ‘American Dream’ num horrível pesadelo, com uma espantosa aquiescência do mundo civilizado.

O Papa Francisco e a laicidade


Em entrevista ao diário católico francês, La Croix, de 17 de maio, o Papa Francisco acusou a França «de exagerar a laicidade».

Na mesma entrevista, defendeu que um Estado não deve ser confessional, reconhecendo a laicidade, mas afirmando que «há um conflito radical entre as sociedades governadas pela lei de Deus e as que se organizam pela lei dos homens».

Pese embora o carácter dialogante do atual pontífice, que tem a santidade por profissão e estado civil, revela uma animosidade mal disfarçada, a assimilação genética do poder temporal que confunde com uma sociedade organizada pela lei de Deus, lei que, por ser divina, é irrevogável e alheia ao sufrágio. No fundo, a lei divina é a mais totalitária das leis. Nem o próprio Deus a pode revogar nem os que lhe são sujeitos a podem contestar.

Em primeiro lugar, o Papa disfarçou mal a azia que a laicidade lhe provoca, ao defini-la exagerada, como se a neutralidade pudesse ter graus, como se pudesse haver abstenções violentas e abstenções suaves.

A laicidade nunca foi obtida sem a repressão política do clero das diversas religiões e, sem ela, não há democracias, há teocracias, as formas mais violentas de ditaduras que ficam à mercê dos funcionários de Deus.

É evidente a existência de «conflito entre as sociedades governadas pela lei de Deus e as que se organizam pela lei dos homens». Basta comparar a Arábia Saudita com a França ou o Vaticano com a Itália. Deus, criado por homens e explorado por profissionais da fé, jamais fez prova de vida, mas pretende que o poder dos homens, não o das mulheres, seja vitalício e, se possível, hereditário.

É, alias, para submeter sociedades secularizadas à vontade de Deus que a Jihad islâmica sacrifica jovens assassinos, que são premiados com uma assoalhada no Paraíso e à razão de 72 virgens per capita.

Sem laicidade, voltaríamos à origem divina do poder e às monarquias absolutas. O Papa católico tem o dever de recordar o passado da sua Igreja e, se não quiser ver a sua, basta olhar para as outras que dominam os aparelhos de Estado e se confundem com eles.

A laicidade não consente adjetivos e jamais será excessiva ou escassa, é neutra. Sem ela não é possível que os Estados democráticos respeitem todos os crentes, descrentes e anti crentes, com absoluta indiferença sobre o que cada um pensa em matéria religiosa.

Felizmente, vivemos numa sociedade organizada pela lei dos homens e é fácil imaginar o pesadelo de uma outra «governada pela lei de Deus», de que há sinistros exemplos.

sábado, maio 21, 2016

A frase


«Como não há livros que gostaria de ler, escrevo-os eu»

(José Rodrigues dos Santos, jornalista e escritor, ao Jornal I)

A União Europeia e o Partido Popular Europeu (PPE)

Para quem sonha com um governo mundial, o maior pesadelo é pensar que ele já existe, na clandestinidade de poderes ocultos, nas decisões inapeláveis que fogem ao escrutínio dos povos e à ética, ao serviço dos poderosos contra os mais fracos.

Não sei se o Conselho Europeu é a sucursal europeia desse Governo invisível, executor de uma instância cuja sede, composição e objetivos os povos europeus ignoram.

Conhecemos melhor a Comissão Europeia (CE) e o Parlamento Europeu (PE), este com poderes tão limitados que deixam ao arbítrio ou, como n’Os Pássaros, de Hitchcock, ao imprevisível, os ataques às economias dos países mais pobres.

Portugal, Espanha, e, sobretudo, a Grécia foram usados como cobaias do neoliberalismo e continuam provetas das experiências da CE que o Partido Popular Europeu (PPE) quer testar antes de as aplicar em Itália e França, no dealbar da desintegração e do caos.

Ontem, Aznar, aríete do capitalismo selvagem, ligado ao Opus Dei, reclamava a Rajoy, seu sucessor no PP, “disciplina” e mais cortes no OE, antecipando-se à chantagem que a CE adiou e prepara contra os países do Sul, depois das eleições em Espanha.

A CE não atua sem o aval do PPE de que se transformou no seu braço armado. Pacheco Pereira, que frequentou reuniões do PPE, já desmascarou o ‘pedido’ hipócrita, feito por Passos Coelho para consumo interno, para não sancionarem, ainda, Portugal pelo défice que deixou. A CE ficou-se pelas ameaças e deixou clara a chantagem, fixando prazo.

A UE tem três países que a minam, o Reino Unido que quer sair, a Turquia que quer entrar e a Alemanha, que não quer deixar sair o RU e pretende que a Turquia entre.

Ameaçada pelo terrorismo islâmico e desintegração não tem uma política de inclusão e solidariedade para os países que progressivamente distancia. O superavit alemão é mais perigoso para a UE e o euro do que os défices dos países periféricos.

Os países pobres, sujeitos ao terrorismo das agências de rating e do Sr. Manfred Weber, tendo como algoz o Comissário Pierre Moscovici, alegadamente social-democrata, não aguentam as ameaças da CE, as dívidas impagáveis e a estagnação económica.

A tragédia dos países periféricos arrastará a UE e, com ela, é a paz que soçobra.

sexta-feira, maio 20, 2016

Aznar: previsões, maldições, suposições…

"Hay que volver a tomar en serio la disciplina y las reformas", insistió el expresidente. "La presunta incompatibilidad entre disciplina y crecimiento económico es un debate ideológico, no económico, y avivado por las posiciones de alguna izquierda europea empeñada en hacer de quienes defienden los compromisos adquiridos algo así como criminales sociales". link.

José Maria Aznar foi um protagonista da cimeira das Lajes. Gosta de guerras e aparece agora – num evento da CaixaForum - a comprar nova contenda com os espanhóis.

Na altura (das Lajes) não teve qualquer rebuço em violar compromissos internacionais. Subscreveu (apoiou) uma guerra ao arrepio da comunidade internacional (ONU) e dos compromissos de paz subjacentes. Tratava-se de política externa e aí a flexibilidade é tamanha que até deu para ver imagens de ‘armas de destruição massiva’.

Nas questões fiscais e financeiras não pode – na sua douta opinião - haver derivas. É tudo para correr com disciplina e reformas. Sabemos o que são estas duas variáveis. Disciplina é na boca destes títeres um sinónimo de agravamento da austeridade e reformas significam mais despedimentos, mais recessão e cortes a eito (pensões, vencimentos na função pública e esmagamento de direitos laborais).

É duvidoso aceitar se tais posições públicas agradem a Mariano Rajoy o velho e desgastado líder do PP para as novas eleições legislativas ou a expressão de Aznar foi antecipada e precipitada, melhor dizendo, inoportuna.
Todavia, não parece que os pensamentos deste ex- presidente do Governo espanhol tenham grande penetração na opinião pública do País vizinho.

Na verdade, o que se percebe é que Aznar não gosta de brincar com questões financeiras. Tem razões para tal. Para além dos 80.000 €/ano que recebe como ex-presidente tem-se movido pelos atalhos tentaculares do mundo económico, financeiro e empresarial. Assim, além de conselheiro (pago) da empresa Barrick Gold, acumula funções remuneradas na Endesa (200.000 euros anuais), membro do Conselho de Administração da News Corporation (pertencente ao Império Murdoch) com a retribuição de 170.000 €/ano,  assessor da Doheny Global Group (com interesses na energia nuclear), etc.  link.
Com este currículo é exactamente a pessoa indicada para perorar nos fóruns aos espanhóis sobre a necessidade de agravamento dos sacrifícios (eufemismo de reformas).

Os espanhóis  - como de resto muitos dos cidadãos europeus - estão fartos destes clowns da política.

Ou será que estas boutades intimidatórias de Aznar significam que o PP estará em ‘maus lençóis’ nas projecções pré-eleitorais?

O que revelam as ameaças de sanções?

As ameaçadoras sanções a Portugal e Espanha sobre questões do défice orçamental não passam de mais uma chantagem da Comissão Europeia (CE) sobre os Países do Sul.

Bem, custa a acreditar que a ameaça de sanções seja uma iniciativa da UE (enquanto 'União') e mais parece uma subserviência política da CE ao Partido Popular Europeu (PPE) ou mesmo um favor para aplacar os maus humores do Sr.  Schauble.
A carta do Sr. Manfred Weber (líder parlamentar do PPE) à Comissão Europeia link não é concebível que tenha sido redigida e decidida sem o conhecimento dos partidos integrantes deste lobby político, entre eles o PSD (de Passos Coelho) que ocupa uma das vice-presidências do grupo parlamentar conservador.
Na realidade, trata-se de condenar antecipadamente o novo Governo Português censurando-o antes que tenha resultados. Uma condenação apriorística baseada em preconceitos políticos e sustentada por (falíveis) projeções construídas à revelia de uma Europa em nítido definhamento económico e financeiro.

Neste momento, não existem dados – estatisticamente significativos - sobre a execução orçamental portuguesa de 2016 (os dados ainda provisórios referem-se ao 1º. trimestre) mas Bruxelas não se cala com o constante reclamar de ‘medidas estruturais’ e rectificações orçamentais. Isto é, a CE pretende a reintrodução de umas poucas medidas de austeridade que foram ‘aliviadas’.
Este será o tal ‘plano B’ que Bruxelas acena ciclicamente e que a Direita nacional apoia na penumbra das reuniões do PPE, em Bruxelas, e, por cá, reflecte-se numa oposição errática ao actual Governo. Situação de dualidade que hipocritamente evita assumir publicamente. Na verdade, é difícil vir a terreiro defender que o empobrecimento é um caminho virtuoso.

Todos evitam referir que a avaliação da CE é sobre o ano de 2015 onde a conclusão do apelidado 'programa de resgate' – no entender dos ‘credores’ e seus lacaios – foi apresentado como um ‘estrondoso’ êxito.
Pensar que isto é uma acidental chicana movida pela preocupação da CE em por na ‘ordem’ um País que ousou virar à Esquerda é avaliar numa dimensão muito pequenina. Na verdade, as medidas punitivas que Bruxelas agita visam ‘encurralar’ quer Portugal, quer a Espanha. A Grécia já o foi há 1 ano. O país que se segue deverá ser a Itália. Por fim, poderão ser postas em causa as "exceções gaulesas".
E o ‘carrasco de serviço’ é o Comissário Pierre Moscovici (um 'social-liberal' alcunhado de socialista) o mesmo personagem que, enquanto ministro das Finanças de Hollande, sempre arranjou justificações para o incumprimento das metas do défice (da França) e mostrou-se bastante permissivo em relação às suas responsabilidades anteriores link

O caminho que os europeus estão ser convidados a trilhar é o da fractura europeia (Norte e Centro versus Sul). Esta solução de continuidade funciona como a antecâmara da dissolução da UE.
A ‘rábula das sanções’ não passa de mais um momentum desta trágica e inexorável rota de implosão.

Manuel Alegre, um obscuro tenente-coronel e a liberdade de expressão

O fascismo português foi derrotado em 25 de Abril, mas não se submeteu à democracia. Não sendo a verdade a sua arma de eleição, a Pide acusou Mário Soares de ter pisado a bandeira nacional, quando Marcelo Caetano foi enxovalhado na sua visita a Londres. A direita, ainda hoje, depois da condenação simbólica de uma jovem, embrutecida em casa e perdoada por Soares, continua nas redes sociais a repetir a calúnia da polícia fascista.

Salazar acusou o PCP do assassinato de Humberto Delgado, numa comunicação ao país, na RTP. Mentiu, com ar beato, para encobrir o crime da polícia e seu.

A calúnia é uma arma a que a política recorre e, não sendo exclusiva da direita, é esta a que mais descarada e eficazmente a usa.

Há anos que um obscuro tenente-coronel, nas ‘cartas ao diretor’, dispara contra o 25 de Abril, a democracia e a descolonização. Através das redes sociais alimenta o ódio que o cega e a mentira que, reconhecida num recente acórdão da Relação, lhe custará 25 mil € por, entre outras coisas, ter chamado a Manuel Alegre ‘desertor e traidor da pátria’.

Manuel Alegre é um lutador antifascista e enorme escritor e o tenente-coronel Brandão Ferreira, o caluniador, um mero epifenómeno do fascismo orgânico português.

Sempre defendi que a liberdade de expressão só pode ter como limite o Código Penal, tal como aconteceu agora.
O apreço que Manuel Alegre me merece pelo seu percurso cívico e literário, equivale ao desprezo que nutro pelo fóssil que o difamou, mas preferia que tivesse sido absolvido.

Não é um fascista que conspurca a dignidade de um combatente da liberdade, por mais vezes que calunie, por mais torpes que sejam as mentiras, mas a liberdade de expressão pode perigar se a jurisprudência insistir em condenações. Não ficaria mal no acórdão:

«Apesar da indigna e reincidente conduta do arguido, vai absolvido porque a liberdade de expressão, que o autor ajudou a conquistar, é um bem tão precioso que não pode estar à mercê da boçalidade de um fascista.»

quinta-feira, maio 19, 2016

Cartunista atento


Laicidade, crenças e liberdades

Quando a jihad islâmica começou a ameaçar a Europa, depois de o Islão ter sido insignificante, várias vozes advogaram o diálogo entre civilizações, confundindo estas com as religiões, como se os valores civilizacionais pudessem incluir todos os preceitos e preconceitos das diversas crenças.

De algum modo, tentou fazer-se a síntese de preconceitos para criar um novo paradigma comum, esquecendo que a civilização europeia se tornou secular e laica e que, mesmo a contragosto do clero, já foi assimilada pelos cristãos.

O ecumenismo, a utópica busca unitária entre cristãos, passou a designar, na apressada aceitação da semiótica cultural, uma quimera, o fraterno e definitivo diálogo entre todas as religiões, de modo a banir a concorrência entre si e, quiçá, eliminar os não crentes.

Rejubilaram os clérigos no seu proselitismo, pensando na conjugação de esforços para a eliminação do ateísmo, agnosticismo, racionalismo e ceticismo, isto é, uma vitória sobre o livre-pensamento.

Esqueceram-se os almocreves da fé que a civilização originou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, nomeadamente a igualdade de género e respeito pela orientação sexual como direitos inalienáveis, sendo incompatíveis com os códigos morais da Idade do Bronze que os monoteísmos perpetuam sem condescendências.

O caminho da paz não está na renúncia à laicidade e ao secularismo perante as religiões, mas na submissão destas à civilização, que permitiu o direito à crença, descrença e anti crença, sendo o Estado o garante da neutralidade e defensor das liberdades individuais.

Ninguém ignora que o desemprego, a pobreza e a segregação exacerbam a frustração e a violência, que a crise económica, social e política que atingiu a Europa cria as condições para a explosão da fé e das bombas, mas é no respeito pela diversidade étnica e não pela sujeição às religiões que passa a vitória da civilização contra o retrocesso civilizacional.

A liberdade dos homens é demasiado preciosa para ser deixada ao arbítrio de Deus cuja interpretação da vontade é reclamada pelo clero, que se reclama detentor do alvará.

Apostila – A eleição de Sadiq Kan, para presidente da maior Câmara do Reino Unido, é a vitória de um islamita progressista e democrata contra o islão ignorante, reacionário e intolerante, a vitória do crente ilustrado que expurgou da fé a violência e o obscurantismo.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 18, 2016

Central Nuclear de Almaraz

A 100 km de Portugal, arrefecida por água do rio Tejo, já falhou os testes de resistência e mostrou a falha do mesmo tipo de válvulas que permitiu o acidente em Fukushima, no Japão.

É a central nuclear mais antiga e obsoleta de Espanha, no Alto Tejo. A ocorrência de um acidente será trágica para a Península Ibérica e devastadora para a cidade de Portalegre.

Os técnicos dizem que não dá garantias suficientes de que o sistema de refrigeração da central possa funcionar com normalidade, um eufemismo para aviso de perigo iminente, depois da repetição de avarias nas bombas de água, provando a existência de falhas do sistema de refrigeração.

Quem se recorda da inquietação com que foi acolhida a decisão do Governo espanhol de construir a central nuclear junto à fronteira portuguesa, quer da parte dos espanhóis quer dos portugueses, fica hoje perplexo perante a débil referência da comunicação social aos persistentes problemas da central nuclear e à efetiva possibilidade de uma tragédia nas margens do rio Tejo.

São raros e discretos os ecos do perigo, que exige a vigilância e mobilização de todos os cidadãos, mas, neste caso e no dos transvases entre rios, ambos crimes ecológicos, há uma abulia do país, que se fixa na espuma das ondas, alheio ao tsunami iminente.

Num caso e noutro, enquanto Cavaco, Passos Coelho e Portas urdiam a perpetuação da direita no poder, não se ouviram sobre estes problemas, que nos afligem.

O atual Governo já devia ter tomado uma atitude diferente e exigido a observância das normas internacionais, por Espanha. Até agora tem sido a Quercus a denunciar o perigo e ignoram-se os esforços governamentais para o seu encerramento urgente.

A central nuclear de Almaraz continua em atividade. Até quando? Até à catástrofe?

A fé e a descrença - alguns números

(…) «Javier Elzo dá exemplos de percentagens de pessoas que se dizem religiosas em diferentes países. Itália, 74%; Rússia, 70%; Portugal, 60%; Estados Unidos, 56%; França, 40%; Espanha, 37%; Alemanha, 34%; Israel, 30%; Reino Unido, 30% e Suécia, 19%. Percentagens de pessoas que se dizem “ateus convictos”: Espanha, 20%; França, 18%; Alemanha, 17%; Suécia, 17%; Reino Unido, 13%; Portugal, 9%; Israel, 8%; Itália, 6%; Rússia, 5% (“por alguma razão, os estudiosos do fenómeno religioso na Rússia falam da era pós-ateia”).

O número de cidadãos que se dizem ateus é superior na República Checa, 30%; Japão, 31%; Hong Kong, 34% e China, com 61%. Excluindo a China e o Japão, é na Europa que se concentra a maior parte de ateus. Mas, como a BBC acaba de anunciar, a China, apesar do controlo governamental, pode tornar-se já em 2030 o país com maior número de cristãos do mundo.» (…)

Padre Anselmo Borges, anteontem, no DN.

terça-feira, maio 17, 2016

Óbvio ululante


A frase

«Antes de mais, [a ruidosa polémica] tem ocultado que entre nós a “liberdade de escolha” é maior do que em outros países europeus se a entendermos com base no peso da rede pública no total da oferta educativa (cerca de 80% enquanto na Finlândia é de quase 100%).»

(Paulo Guinote, Professor e historiador da Educação)

In «Interesses e ruído na educação», DN, hoje.

segunda-feira, maio 16, 2016

Aperegrinação de 13 de maio, em Fátima

‘Sua Eminência Reverendíssima Dom Manuel Cardeal Clemente’*, aproveitou o comício do dia 13 de maio, na Cova da Iria, para defender os interesses comerciais dos colégios.

É altura de acabar com os benefícios e isenções fiscais, que vão do IMI ao IVA e aos rendimentos do próprio Santuário.

Não consta que os grandes eventos recreativos estejam isentos nem se compreende que espetáculos pios gozem de discriminação.

* Tratamento canónico a que tem direito.

O PPE é uma central política europeia mal frequentada

Manfred Weber, líder parlamentar do PPE, enviou uma carta ao presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, onde aconselhou uma severa punição contra Portugal e Espanha, pelo não cumprimento das metas do défice: “Todos os instrumentos, incluindo os da vertente corretiva [do PEC], devem ser usados na sua força máxima” – escreveu.

Quando se esperava que os eurodeputados do PSD e o solitário representante do CDS se indignassem, reina silêncio da R. de S. Caetano, à Lapa, até ao Largo do Caldas.

Apenas surgiu na comunicação social o eco de um piedoso apelo para que Portugal não seja punido, em relação ao ano de 2015, alegadamente feito por Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, com odor a hipocrisia e sem o mínimo sinal de contrição pela culpa. Quanto ao ano de 2016, deduz-se da divulgação do eventual pedido, que o líder do PPE, onde se incluem o PSD e o CDS, os encantaria com a atitude persecutória.

É bom lembrar que Manfred Weber, o líder dos deputados do PSD e do CDS no PE, não se coibiu, em novembro do ano passado, quando da formação do governo português, de apoiar Cavaco, Passos Coelho e Portas, no ataque à democracia representativa, quando pretendiam impedir a formação de um governo democrático, em sede própria, na AR.

O PPE que Jean Seitlinger, Leo Tindemans e Wilfried Martens fundaram em 1976 e que criou um projeto europeu democrático, o PPE que expulsou o CDS, por ser reacionário, e o reintegrou a pedido de Durão Barroso, para que pudesse chegar a primeiro-ministro, pouco tem a ver o atual PPE, a afastar-se do centro político para uma direita cada vez mais extremada.

O PPE que, desde 1999, é o maior partido do Parlamento Europeu e detém a presidência da Comissão Europeia, degenerou. Ao tornar-se o centro de intriga e de combate contra posições progressistas, passou de criador da União Europeia a seu coveiro.

Não admira que caiba no PPE o amigo de Manfred Weber, Viktor Orban, PM húngaro, nacionalista e xenófobo. E no Parlamento Europeu não destoam os eurodeputados Paulo Rangel e Vítor Melo a comporem o bouquet.

domingo, maio 15, 2016

António Barreto, um político ressentido

Só António Barreto, o mais viajado político, cá dentro e lá fora, do PCP para a extrema-esquerda, desta para o PS, a quem deve a notoriedade, por mau desempenho ministerial, percorrendo a Aliança democrática com monárquicos, o eanismo com quem apareceu e, há anos, a destilar ódio ao PS, PCP e, agora ao BE, só António Barreto – dizia –, se deu conta de que António Costa convidou Sócrates para a inauguração do túnel do Marão que as vidas perdidas exigiram. O provinciano reacionário omitiu que convidou também Passos Coelho, isto é, os PMs cujos mandatos estiveram ligados à realização da obra.

Na sua homilia de domingo, no DN, o excelente fotógrafo, medíocre cidadão e político falhado, tem vindo a ser porta-voz do anticomunismo mais primário e dos ataques mais obsessivos contra o PS, rancor que cultiva desde que viaja no comboio da direita, desde que o PS o dispensou e Sá Carneiro o fez deputado.

Contra Guterres, Sócrates, António Costa e o próximo, cá estará o dissimulado pregador da direita a julgar o carácter de quem quer que se posicione à esquerda do PSD. Hoje, sob o título «Paralaxe», confundindo a credibilidade do invasor do Iraque com a de Jorge Sampaio, é a este que deixa sob suspeição, ao que não consentiu o envolvimento das Forças Armadas no crime do Iraque.

Apenas porque goza de larga audiência nos meios de comunicação social, merece que se não deixe passar impune.

O que sobre ele escrevi aqui, no Ponte Europa,  há 11 anos, mantém-se válido.

sábado, maio 14, 2016

O BRASIL DE TEMER


A trampa planetária, de Trump a Duterte, de Washington a Manila

A mera hipótese da eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, por mais remota que fosse, e cuja probabilidade é cada vez maior, já seria motivo de terror, mas o aparecimento de figuras grotescas que atingem o poder, pela via democrática, não para de nos surpreender e assustar.

Da Turquia à Polónia, do Brasil às Filipinas, cresce o pesadelo em todos os continentes e as pessoas, estupefactas, ficam abúlicas. Da Bulgária, Eslováquia e Roménia à França, Áustria e Alemanha, crescem na Europa a xenofobia, o populismo e o racismo e, com eles, os partidos de extrema-direita. Há partidos aterradores que medram a caminho do poder.

A República das Filipinas, um país com mais de 7 mil ilhas e 100 milhões de habitantes, cujos católicos (90%), conhecidos pelo primitivismo que os leva a comemorar a Páscoa com crucificações voluntárias de crentes que atraem o turismo mórbido e a devoção pia, acaba de eleger, por larga maioria, Rodrigo “Digong” Duterte.

O novo presidente é um déspota de 71 anos que fez campanha a prometer ser ‘ditador’ e ‘chacinar os maus’, se necessário com execuções sumárias e esquadrões da morte, além de ter chamado ao Papa atual, filho da p…, de que pretende pedir desculpa, no Vaticano.

Ainda jovem adulto, já manifestava o carácter violento, quiçá resultado da frequência de colégios católicos onde, além de uma formação requintada, acabou por ser abusado por um padre pedófilo americano. Acusado de ter conduzido, durante mais de 20 anos, uma campanha de execuções extrajudiciais, o ex-presidente da autarquia da cidade Davao, promete aplicar agora em Manila a sanguinária gestão autárquica. «As funerárias vão ficar repletas. Eu levo os cadáveres» – promete o implacável assassino.

Várias organizações de direitos humanos responsabilizam Duterte por mais de 1700 execuções sumárias, enquanto autarca. E só agora começa o mandato de seis anos numa república presidencialista.

Apostila – Os dados referidos neste texto, sobre Rodrigo Duterte, denominado “Donald Trump do Leste", encontram-se aí dispersos nos diversos órgãos de comunicação social.

sexta-feira, maio 13, 2016

A viragem...


O presidente do Brasil em exercício, M. Temer, após a suspensão de Dilma Roussef pelo Senado, tomou posse em Brasília e, no final da cerimónia, foi abençoado, pelo pastor evangélico Silas Malafaia link, conhecido e exaltado defensor de causas homofóbicas.

Um bom começo!
De facto, o Brasil está a ‘virar’…

Os contractos de associação, ‘associados’ ao 13 de Maio…

Nada como a Esquerda para ‘espevitar’ a Igreja Católica.

Do burburinho que se levantou com os contractos de associação dos colégios privados até Fátima há sempre um crucifixo ou uma genuflexão pelo meio. 
A ICAR que nunca aceita perder privilégios e tem demonstrado uma desmedida ambição de dominar o sector social trava mais uma 'cruzada' no que é (como de costume) apoiada pelos partidos políticos à Direita do espectro político. É enternecedor ver a Direita nacional vociferar contra a alteração destes contractos quando não teve qualquer rebuço em violar, nos últimos 4 anos de Governo, o contrato social vigente cortando nas pensões, reformas, ordenados subsídios , etc.

Por outro lado, a Igreja, nestas guerrilhas, nem sempre mostra a cara. Prefere as efabulações místicas já que deverá ter consciência de que desejar transformar uma questão marginal (3% da rede de ensino privado link) no questionar do sistema educativo é um grande e temerário passo.

O cardeal de Lisboa transformou Fátima das aparições, revelações e ‘segredos’, criadas contra a I República, no veículo de contestação presente contra a escola pública, alienando o ‘fenómeno’ que ainda move muitos peregrinos de uma mítica crença, supostamente, ‘mariana’. Isto é, dito de rompante, verifica-se que Fátima serve para tudo.
Ao invocar que “só há solidariedade com subsidiaridade” link, embora usando a encriptada linguagem eclesiastica, entrega-se nos braços da ‘livre escolha’. Na verdade, a ‘livre escolha’ não é propriamente o apanágio de uma Igreja que, ao longo de uma milenar existência, se mostrou – urbi et orbi - tão afeita e circunscrita a dogmas.

Na verdade, o que está em causa não é a subsidiaridade, como sugere o patriarca, mas a transformação desta circunstância subsidiária num regime concorrencial, em clara violação do artº. 75 da CRP. O que está na mente desta alta hierarquia peregrina e contestatária é a criação de um ‘mercado educativo’ em contraposição com um sistema educativo em que o Estado, independentemente da cor dos governos, tem a estrita obrigação de promover uma rede pública universal (criar é o termo usado) de acordo com imperativos constitucionais.

Aliás, este simulacro de ‘livre escolha’ levado aos seus extremos poderia desencadear um processo caricato. Imaginemos que todos os pais residentes no concelho de Coimbra escolhiam o Colégio Rainha Santa (conhecido pela suas altas performances de resultados) para ser a escola dos seus filhos, o que sucederia?
Fechavam de uma assentada todas as escolas públicas e privadas do concelho?
Abria-se um interregno no normal ciclo educativo no ensino básico e secundário para dar tempo às freiras ampliarem as instalações?

O que se afirma como sendo uma ‘livre escolha’ não passa de respostas enviesadas à candente questão da universal acessibilidade ao ensino e mais não fazem do que sobressair o valor intrínseco da Escola Pública, aliás, um consagrado ideal republicano (regime por enquanto ainda vigora no País).

Todo o tempo que temos vindo a perder com a discussão dos contractos de associação seria muito melhor aproveitado se o utilizássemos para melhorar a Escola Pública. O resto são guerras do alecrim e da manjerona. 
Com incenso e mirra pelo meio.

O milagre eucarístico de Turim


quinta-feira, maio 12, 2016

A frase

«Pais de crianças do privado também financiam as escolas estatais»

(Sua Eminência Reverendíssima Dom Manuel Cardeal Clemente)*

*(Tratamento canónico a que tem direito)

Donald Trump e as eleições nos EUA

As eleições no país mais poderoso do mundo afetam e inquietam todos os países. É natural, e é pena que, influindo na vida de todos, só os americanos possam votar. O presidente eleito tem poder para fazer a guerra ou a paz e, mais moderadamente, para combater ou estimular a poluição, o aquecimento global e o terrorismo. É, aliás, o guardião do botão que pode detonar o arsenal nuclear capaz de destruir a vida na Terra, várias vezes, bastando uma.

O Partido Republicano, fundado por abolicionistas, teve em Abraham Lincoln (1861-1865) o primeiro e grande presidente, cuja administração bem-sucedida marcou o fim da escravatura, e em George W. Bush (2001-2009), deplorável invasor do Iraque, o último.

A decadência ética iniciou-se com Reagan, acentuou-se com George W. Bush e atingiu o auge com o atual vencedor da primeira volta das eleições presidenciais, Donald Trump, um político histriónico, execrável e boçal. O Partido Republicano é hoje dominado pela Direita Religiosa e os Conservadores sociais, marcadamente retrógrados, que neutralizaram progressivamente a influência dos Moderados (mais alheios às questões religiosas, defensores do fim da pena de morte, do fim do porte legal de armas, da legalização da marijuana, de pesquisas em células-tronco e de alguns programas sociais) e dos Liberais, cuja influência benéfica se verifica ainda, particularmente no estado de Nova York.

O Partido Republicano americano deixou de ser um partido conservador, fiel à sua matriz, para se tornar uma perigosa alternativa ao Partido Democrático que, pelos padrões europeus, é um mero partido conservador de rosto humano.

O Partido Republicano vai certamente nomear, para disputar as eleições, Donald Trump, que derrotou o evangélico ultraconservador, Ted Cruz, ainda mais assustador. Abre caminho para a vitória da Sr.ª Clinton, o mal menor no país ameaçado do pior. Mas não basta a vitória folgada da candidata do Partido Democrático, é preciso que seja devastadora para obrigar o partido de Trump, Cruz e Sr.ª Palin a refletir sobre o caminho assustador e suicida que tem prosseguido.

Os EUA e o Mundo precisam de um módico de tranquilidade quanto à personalidade que lhes pode caber em sorte. Bastam os interesses económicos e financeiros para transformarem os presidentes equilibrados em perigosos belicistas.

Cabe uma referência elogiosa ao velho democrata, Bernie Sanders, um surpreendente rival de Hillary Clinton, o social-democrata de esquerda que despertou a juventude americana e para o qual o aparelho partidário não está preparado. Infelizmente.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 11, 2016

Desabafo do Diácono João Roza


O episcopado e os colégios particulares

O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), padre Manuel Barbosa, mostrou-se ontem, terça-feira, "preocupado" com a revisão dos contratos de associação, incentivando a luta no terreno contra a medida.

A CEP "mostra preocupação e manifesta incentivo a todos aqueles que no terreno lutam para que estes princípios se realizem e sejam concretizados" – disse o presbítero.

É inquestionável a legitimidade da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) para incentivar a luta contra a medida do Governo, tal como a dos partidos da oposição para se colarem contra um governo cuja legitimidade é igual à do ressentimento que nutrem. O confronto de posições faz parte da dialética da democracia.

O que parece importante é discutir a legitimidade da decisão do Governo e das reivindicações clericais. Se é de legalidade que se trata, é assunto para os tribunais, se é de política, é matéria que cabe a todos e talvez os bispos venham em busca de lã e acabem tosquiados.

É difícil perceber que uma atividade privada seja subsidiada pelo Estado e não se compreende onde o ensino público, que cabe ao Estado assegurar, tem condições para absorver os alunos.

Ninguém reclama do Estado, em nome da liberdade de escolha, que conceda ao automóvel os subsídios que concede aos transportes públicos e, neste caso, são os impostos que recaem nos transportes privados que ajudam a manter os públicos, tal como os impostos sobre os colégios deviam ser dirigidos para o ensino público, em vez de ser este a ser canibalizado pelo privado.

Dado que já se agitam mitras, exibem báculos e nas homilias se defendem interesses terrenos, é tempo de os cidadãos discutirem os negócios profanos da ICAR e os benefícios fiscais de que gozam. É talvez chegada a altura de as Misericórdias passarem a ter inspeções fiscais tal como os outros negócios profanos.

E deixem Deus na sacristia.

A Frase

«Quando o crime organizado dá tiros em magistrados, a mensagem é que quem se mete no seu caminho morre, porque o Estado é frágil e os seus agentes estão vulneráveis».

(Carlos Mondlane, presidente da Associação Moçambicana de Juízes)

BISPOS LANÇAM CRUZADA PELO ENSINO PRIVADO

Notícia no "Público de hoje: O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), padre Manuel Barbosa, mostrou-se nesta terça-feira "preocupado" com a revisão dos contratos de associação, incentivando a luta no terreno contra a medida.

terça-feira, maio 10, 2016

Trump ou um tedioso nojo político …

As primárias para as presidenciais americanas têm sido uma autêntica caixa de pandora. Todo o tipo de argumentos têm sido usados pelos diferentes candidatos para levar a água ao seu moinho. Mas, apesar de tudo, no meio desta salgalhada é ainda possível separar o trigo do joio. Assistimos a tudo o que era previsível e, simultaneamente, ao inimaginável.

O candidato Donald Trump, em vésperas da sua nomeação pelo Partido Republicano, tem sido um exímio construtor de gafes,  insinuações e injúrias.

A última das invectivas de Trump atinge as raias do inacreditável. Aparece, agora, a acusar Hillary Clinton, eventual opositora eleitoral pelo Partido Democrático, de cúmplice das infidelidades conjugais do seu marido link
Transformar um(a) candidato(a) num ser devoto da automutilação não é luta política mas sim uma aberração que exala, em remoinho, de uma mente doente.

O ‘magnata candidato’ não tem sensatez nem escrúpulos. Tenta ultrapassar os seus pecadilhos – que os tem - apressando-se a acusar os outros de perversões imaginárias e absurdas, numa desvairada tentativa de manipular mediaticamente as suas próprias limitações. É uma espécie de exorcismo político das maldades para realçar veleidades.

Na verdade, Trump na sua grotesca ligeireza, fanfarronice e infantilidade assemelha-se ao símbolo do “ouroboros”, isto é, o réptil que morde a sua própria cauda, alimentando com as suas tiradas, redondas, grosseiras e provocatórias, o círculo vicioso do insulto, da mediocridade e da alienação porque, de facto, não tem outra coisa para oferecer aos americanos.

Existe um provérbio popular português que define este tipo de estratégia eleitoral: “ Quem não te conhecer que te compre”.
… Depois saberá a prenda que leva!