domingo, julho 31, 2016

Aeroporto de Lisboa: a segurança a ‘voar’…

Poucas horas antes da ainda não esclarecida ‘invasão’ da pista do aeroporto de Lisboa por 4 passageiros link tive oportunidade de chegar a estas instalações procedente de um voo doméstico (Lajes-Lisboa). 
Não é preciso ser um expert em aeroportos para ter a noção de que algo vai mal nestas paragens. A confusão é tremenda. 
Os trajectos internos são um autêntico labirinto. Existem coisas que são verdadeiramente incompreensíveis e outras que são intoleráveis.

Quando chegamos ao aeroporto de Lisboa para embarcar, depois de efectuado o check in e despachadas as bagagens, o sinuoso trajecto interno é verdadeiramente impressionante e esclarecedor. Serpenteia ao longo das instalações do edifício aeroportuário segundo um critério especioso. 
O percurso foi deliberadamente escolhido segundo os interesses comerciais (as ditas lojas de ‘duty free’). Os passageiros são obrigados a deambular – em algumas circunstâncias a ‘atravessar’ - por estas lojinhas, boutiques e quiosques. 

À chegada a situação é semelhante. O desembarque da aeronave e depois o percurso de autocarro para as instalações de terra leva que sejam endossados a uma ‘porta’ longe da recolha de bagagens ou da saída para o exterior para serem ‘obrigados’ a percorrerem, em sentido inverso, o mesmo sinuoso percurso. Os interesses de marketing do comércio e saga das vendas impuseram-se à funcionalidade das instalações e à comodidade dos passageiros.

Outra constatação é a ausência de pessoal de apoio e de postos de informação espalhados pelas instalações, acrescidas de uma sinalética confusa. Provavelmente por estritos critérios de gestão (redução) dos recursos humanos existem avulsas e pouco esclarecedoras informações de acessos interditos, ou condicionados, sem qualquer tipo de vigilância presencial (pelo menos visível). 
Não é raro observarem-se situações de desorientação e confusão especialmente protagonizadas por cidadãos idosos. 
Por outro lado, será legítimo questionar se estes tipo de procedimentos (redutores) estão em consonância com as apertadas medidas de segurança que cercam os aeroportos na actual conjectura internacional.

Em primeiro lugar, parece existir uma situação que poderá ser imputada à apressada privatização da ANA. Esta empresa pública que não se revelava financeiramente deficitária (registava indicadores económicos positivos) foi objecto de uma ‘forçada’ privatização, em parceria com a TAP, e a consequência imediata foi o ‘desinvestimento’ na modernização da funcionalidade dessas infra-estruturas aeroportuárias.

Por outro lado, as cascatas de aumentos das taxas aeroportuárias (7 vezes em 3 anos link) mostram perfeitamente a ‘lógica’ e as virtudes desta privatização bem como o reflexo que esta medida, imposta pela Troika e diligentemente adoptada pelo Governo PSD/CDS, teve para os utilizadores de transportes aéreos.

Os 4 passageiros oriundos da Argélia que ‘invadiram’ as pistas do aeroporto de Lisboa – e cujas motivações ainda não estão apuradas - não fizeram outra coisa do que ‘aproveitar’ a oportunidade de passar pelos buracos que a actual exploração das estruturas aeroportuárias parece ter proporcionado. 

Se a exploração fosse pública teríamos a habitual ‘berraria’ sobre a incompetência e disfuncionalidade desse tipo de administrações. Como é privada estas inconformidades serão naturalmente endossadas ao acaso ou a circunstâncias fortuitas.

Todavia, o mínimo exigível perante o sucedido é que se proceda a um rigoroso inquérito sobre as condições de segurança e os níveis de operacionalidade do aeroporto Humberto Delgado (Lisboa).

Notas soltas – julho/2016

Filipinas – O insólito acentua-se e nem a democracia o impede. Rodrigo Duterte, novo presidente das Filipinas, tomou posse do cargo e, numa das primeiras declarações, incita o povo a matar os toxicodependentes. A sanidade mental do PR passou a ser facultativa.

Estado islâmico – Ver na rede terrorista espalhada pelo mundo o mero epifenómeno de crentes exaltados, é desconhecer o anacronismo do Islão e a maldade intrínseca de uma ideologia política que precisa de ser combatida.

Brexit – A demagogia e irreflexão dos líderes do Reino Unido e a ausência de dimensão ética e política dos dirigentes da UE, provocaram o caos e insegurança nos dois lados do Canal da Mancha, com consequências perigosas e imprevisíveis.

Tony Blair – «Sinto mais pena, arrependimento e culpa do que poderão alguma vez saber ou acreditar», declarou, após a investigação à invasão do Iraque, não pela morte e sofrimento de milhões de invadidos, mas pela de centenas de invasores britânicos.

Durão Barroso – O mordomo da Cimeira das Açores, sem remorsos pelas vítimas, pôs um filho no Banco de Portugal, sem concurso, e passou a chairman do grupo Goldman Sachs. Não é um político, é um oportunista venal e concupiscente.

Nuno Crato – O ex-ministro da Educação, também ex-maoísta, é testemunha de defesa dos interesses de colégios privados contra o ministério onde devia ter servido o interesse público. É a eloquente metáfora do governo que quis desmantelar o Estado.

Turquia – A UE confia a solução dos refugiados ao presidente Erdogan, cujo projeto é a destruição da laicidade e a aniquilação dos curdos, e adiciona um novo problema com quem tem uma visão musculada do Islão, ainda sem sharia, mas a caminho.

EUA – O assassinato recíproco de negros e polícias são as duas faces do racismo, nunca resolvido, com dois séculos de enfrentamentos. O tiroteio de Dalas foi uma reincidência habitual a ressuscitar o eterno fantasma da fratura social.

Bernie Sanders – Seria certamente o melhor presidente que os EUA e o mundo podiam esperar, mas, à falta de apoios suficientes, decidiu apoiar Hillary Clinton, a descolorida esperança que resta para travar Donald Trump e não acontecer o pior.

Conselho de Estado – É irrelevante se Cavaco Silva defende ou não sanções contra o País, por défice excessivo de 2015 (+0,2%), pelo incumprimento das metas por Passos Coelho. Grave foi protelar eleições, para um OE atempado, e a posse do atual governo.

Nice – A chacina do terrorista islâmico, no dia nacional da França, cumpre a agenda da jihad: a globalização do terror, a perturbação democrática e o incitamento à retaliação indiscriminada a todos os muçulmanos, para os conquistar para a guerra das religiões.

Turquia_2 – O frustrado golpe de Estado não terá sido inspirado por Erdogan, mas não o impediu. Carecia dele para alterar a Constituição, abolir a laicidade, purgar os juízes, reprimir curdos e arménios, e sujeitar o país à agenda islâmica onde germina um califa!
  
Globalização – O Acordo de Parceria Transatlântico de Comércio e Investimento, entre a UE e os EUA, negociado à sorrelfa, seria uma excelente notícia para os mercados, mas um duvidoso benefício para Portugal. Nesto momento, penso que está morto.

Abolição da pena de morte – Faz parte da matriz civilizacional europeia, mas existe o risco de retrocesso. Repugnante, inútil na dissuasão de crimes e cruel na aplicação, é a pena que inviabiliza a reparação de inocentes condenados por erros judiciais.

Aquecimento global – Os 10 meses mais quentes, desde que há registos, ocorreram em 2015 e 2016. Junho marcou 14 meses consecutivos de calor recorde em cada um deles. A temperatura média da superfície do mar também foi recorde. Teremos futuro?

Reino Unido – Quando a imigração se tornou inassimilável, o terrorismo imparável, as dívidas soberanas impagáveis e a Europa abúlica, a Inglaterra separou-se, ameaçando a sua unidade e a da UE. A Turquia era a farsa que faltava para um futuro assustador.

Jogos Olímpicos – A rivalidade política é o veneno, e o doping a lepra que os corrói. O mais belo espetáculo desportivo, destinado a unir os povos, transformou-se numa arena mundial onde a beleza, o carácter lúdico e os atletas se destroem.

Nato – Uma das suas maiores bases é Incirlink, onde armazena mais de 25% do arsenal nuclear (meia centena de bombas de hidrogénio). Esta base situa-se no território turco, preocupação acrescida para quem já teme o belicismo da organização militar.

Terrorismo – A macabra obstinação com que espalha o medo e condiciona a liberdade, nos países democráticos, teve no esfaqueamento mortal de um padre que dizia missa, a repugnante metáfora da crueldade e demência que o Corão induz.

Angela Merkel – A promessa de manutenção da sua política de asilo, perante a vaga de atentados, mostrou uma vez mais a dimensão da estadista, tão rara nos tempos atuais, a desafiar a chantagem dos terroristas e a assumir os riscos eleitorais.


Sanções – O cancelamento deve-se à firmeza do Governo português e ao bom senso dos comissários europeus. Combater a estagnação económica e a perpetuação da austeridade exige investimentos contracíclicos adicionais, da UE, aos escassos fundos estruturais.

sexta-feira, julho 29, 2016

Desaparecidos em combate?

Onde param Passos Coelho, Maria Luís e Assunção Cristas?

Depois do cancelamento das sanções, graças à firmeza do Governo português e ao bom-senso dos comissários europeus, as personalidades referidas interromperam a obsessiva presença nos órgãos de comunicação social.

É conveniente lembrar que o Comissário europeu para a Economia Digital, o alemão Günther Oettinger, destruiu a narrativa que o PSD tentou impor. Portugal e Espanha “não conseguiram cumprir os compromissos em 2015” e foi essa a justificação que o alemão apresentou para defender as sanções.

A injustiça de abrir o precedente das sanções contra Portugal e Espanha nunca seria combatida com vigor por quem se prestou à maior subserviência para ser poder.

Falta agora à UE combater a estagnação económica e a perpetuação da austeridade com investimentos contracíclicos, para os quais são escassos os fundos estruturais planeados, e resolver de vez o problema do sistema financeiro dos diversos países para que a asfixia orçamental não mate, de vez, a economia dos países mais débeis.

Não há comunidade que resista à competição de interesses dentro do seu seio e a União Europeia só existirá se aprofundar a integração económica, social, política e militar.

Para este objetivo precisa de conquistar os povos que tem desiludido.

quinta-feira, julho 28, 2016

Cavaco Silva tem muito que contar – (subsídios para a biografia não autorizada)

No almoço de homenagem do último sábado, no ensaio para a reabilitação do pior PR da democracia, Cavaco Silva garantiu que saiu de Belém de consciência tranquila e que há muito por revelar sobre os seus mandatos como Presidente da República.

Ninguém questiona de que há coisas verdadeiras e importantes a revelar, mas o passado faz temer que as verdadeiras não sejam as importantes e estas não sejam verdadeiras.

Prescritas no tempo e nas cumplicidades estão as suas relações com o BPN; a troca, sem tornas e impostos, da vivenda Mariani, por um terreno cuja escritura omitiu a existência da luxuosa vivenda Gaivota Azul; as ausências às aulas na Universidade Nova, para dar aulas na Católica, obrigando o reitor, Prof. Alfredo de Sousa, a instaurar-lhe o processo disciplinar conducente ao despedimento, por excesso de faltas injustificadas, de que o salvaria o ministro da Educação, João de Deus Pinheiro; as explicações cabais sobre a ficha da Pide, com um erro de ortografia e suspeições sobre a mulher do sogro; os atos preparatórios da candidatura a PR, na vivenda de Ricardo Salgado, e outras coisas mais.

Embora duvide que considere importantes questões que os portugueses gostariam de ver respondidas, eis algumas merecedoras de explicação no roteiro que familiares e amigos irão ler, sendo eventualmente os últimos em menor número:

1 – A organização, na Presidência da República, de dossiers secretos sobre cidadãos, como foi referido na comunicação social;

2 – A afirmação de um assessor que disse estar diretamente autorizado pelo Presidente a tornar públicas as suspeitas sobre as misteriosas escutas do PM, José Sócrates (falsas), enquanto apoiantes seus falavam de “asfixia democrática”, em aparente conspiração;

3 – O que o levou a não ‘avisar’ que o chumbo do PEC-IV, na AR, seria dramático para o País;

4 – A displicência com que consentiu, ele o economista de alto gabarito, a contabilidade de merceeiro que parece ter pautado os ajustes diretos e as transações do Museu, na PR;

5 – A dilatação da legislatura e as manobras para impedir a posse do atual governo, com graves reflexos do atraso do OE-2016 para a economia e para o sector financeiro.

Falta a Cavaco provar o merecimento que o atual PR viu, na pressa de lhe atribuir o Grande Colar da Ordem do Infante D. Henrique.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 27, 2016

Esta direita, os bancos e o País

Onde andava esta direita quando o mais ruinoso negócio da CGD foi levado a efeito por gente sua, na megalómana aventura em Espanha, por Carlos Costa e Fernando Faria de Oliveira, que são ainda o governador do BP e o presidente da Associação Portuguesa de Bancos? Foi um rombo de mil milhões de euros, dessa vez, sem intenção fraudulenta.

Agora não se cansa de expor as vulnerabilidades que deixou, mas quem falhou sempre os compromissos que assumiu nos quatro OEs e que quatro vezes teve de retificar?

O que fez quando soube da dívida oculta da Madeira “para prejudicar o PS”, como disse o inefável Alberto João Jardim, referindo-se a mais de 4 mil milhões de euros?

Para quem as responsabilidades são apenas do passado ou do futuro, relativamente ao governo de Passos Coelho e Paulo Portas, quem serão os responsáveis pela situação em que ficou o Banif e pela decisão relativa ao GES/BES?
Quem procurou partidarizar um processo de pedofilia para se ressarcir do caso Moderna e atingir o PS, esqueceu quem se enlameou e nos desgraçou no BPN? E já começaram a desaparecer alguns dos suspeitos mais brilhantes da galáxia cavaquista!

Esta direita nunca admitiu que os governos de Durão Barroso e Santana Lopes correram mal. Terá moral para julgar o governo a quem deixou uma situação trágica e que, numa manobra tosca, se esforça por negar, e em abjeção ética, deseja que corra pior?

Esta direita busca regressar ao poder através da chantagem exercida pelo PPE, hoje nas mãos de uma direita que esqueceu as suas raízes na luta contra o nazismo. Nada a detém na obsessão de ser ela a aplicar as sanções exclusivas para os dois únicos países que têm um eleitorado maioritariamente de esquerda. Valeu o bom senso da decisão da ‘sanção zero’.

Émulos de Erdogan, veem a democracia como mero caminho para a tomada do poder.

A frase

Terrorismo islâmico - A luz ao fundo do túnel

«Cabe-nos, muçulmanos, cumprir as nossas responsabilidades. É necessário fazermos a limpeza porque o que se passa faz-se em nome do islão e dos muçulmanos.»

(Kamel Kabten, reitor da mesquita de Paris, ontem)

terça-feira, julho 26, 2016

O terrorismo, o medo e as liberdades

É impossível viver em permanente sobressalto, fugir dos espaços públicos e condicionar a autonomia, numa espiral de medo, que deixa vazias as cidades e restringe a liberdade.

A monótona, e cada vez menos espaçada repetição de atos terroristas, provoca o pânico coletivo e amolece a exigência de respeito pelos direitos individuais.

Progressivamente vamos pactuando com a vigilância generalizada no que devia ser a reserva de intimidade, a troco de precária segurança. O ambiente propício à xenofobia e ao racismo está criado, e a democracia não resiste a estados de sítio ou de exceção, que se tornam regra, nem à vigilância musculada de toda uma sociedade.

Sendo notória a origem do terrorismo urge responsabilizar as comunidades onde nasce e obrigá-las a aceitar os costumes e a cultura que as acolhe.

Não podemos ceder a iniciativa à extrema-direita, religiosa ou laica, e à demagogia do populismo. As democracias têm legitimidade para exercer particular vigilância sobre as comunidades de risco e responsabilizá-las pelas suas cumplicidades. É preciso impedir o perigo de quem é fanatizado desde a infância e constrangido nos guetos que habita.

O nacionalismo e a religião não podem justificar os crimes e atenuar as penas. Tal como sucedeu com o álcool e outras drogas, devem deixar de ser atenuantes e passarem a ser motivo de agravamento das penas, por incitamento à violência e aos crimes sectários.

Não gosto de ver degolar padres católicos, a dizer missa, e abomino os repetidos ataques a quem ouve música, passeia ou vai para o trabalho, na demente espiral de violência por um Deus tão estúpido como os seus crentes.

Sérgio Figueiredo, diretor de informação da TVI, hoje, no DN

(...)

«Sem ambiguidades, nem meias palavras, as três tragédias recentes têm três responsáveis bem identificados: o PSD (que tem a responsabilidade ativa); a sua ministra das Finanças (que personifica a arrogância ignorante, ou a ignorância arrogante, tanto faz...); e o CDS (em cumplicidade silenciosa, porque antes coligado do que morto).

Culpar a geringonça por um buraco de três mil milhões no Banif, por outro tanto na CGD e pelo imbróglio do Novo Banco é ofender a inteligência dos portugueses. Pior: justificar este terramoto na banca nacional com os últimos seis meses é impedir que um dia se esclareça o que quer que seja. Não houve um terramoto financeiro em Portugal, simplesmente o sistema está a ruir por dentro.»
(...)

segunda-feira, julho 25, 2016

A direita urbana e a outra

«[UE aplicar sanções] é contra o governo de Passos Coelho, por causa de 0,2% muito discutíveis, quando há diferenças muito maiores […] noutras economias que nunca foram punidas, ou é contra o de António Costa, por causa da gestão do Orçamento deste ano [cujos] resultados até junho mostram que não há uma derrapagem orçamental.»

(Marcelo Rebelo de Sousa, PR)

***

«[Admitem-se sanções a Portugal] porque muitos dos governos da Europa, hoje, têm dúvidas sobre aquilo que se está a passar em Portugal, sobre as reformas importantes que estão a ser revertidas, sobre a maneira como estamos a andar para trás em vez de andar para a frente.»

(Pedro Passos Coelho, líder do PSD, na festa do PSD/Madeira, em Chão da Lagoa)

Fonte: DN, hoje, pág.8, in Frases do Dia.

O inglês é o idioma dominante. Chega onde era impensável!


domingo, julho 24, 2016

A Madeira, o sentido das proporções e o défice cultural

Quando se perde o sentido das proporções, se ignora a história e se renega a cultura de um povo, fica-se à mercê do regresso de Fátima, Futebol e Fado.

Portugal assistiu, nas últimas décadas, ao aparecimento de uma plêiade de jornalistas, escritores, cientistas, artistas plásticos e desportistas que honram o País e o estimulam.

Julgávamos longe o tempo em que a cultura era considerada subversiva e perigoso o gosto do conhecimento, mas a decadência da classe dirigente prefere o populismo, o arraial e a procissão, num eterno retorno aos valores salazaristas.

A bizarra ideia de dar o nome do mais dotado jogador de futebol da última geração, e o mais admirado, a um aeroporto pode ter a vantagem de retirar a santidade ao nome de uma Catarina qualquer, mas é uma ofensa à inteligência e um ultraje à pedagogia cívica.

Não sei se os estádios de futebol passarão a designar-se pelo nome de aviadores ilustres, mas os aeroportos serem crismados por jogadores de futebol é uma concessão parola ao mais primário dos gostos e à mais arrojada das imbecilidades.

Talvez custe a muitos, por motivos partidários, ouvir o nome do aviador que, sozinho, tomou o aeroporto de Lisboa, fechou o espaço aéreo e o controlou no dia 25 de Abril de 1974. Seria ministro do Trabalho, indicado pelo PCP, e devemos-lhe a determinação, coragem e competência técnica com que participou na única Revolução sem sangue, na mais gloriosa das madrugadas. Chamou-se José Inácio da Costa Martins, e podia dar o nome ao aeroporto do Funchal.

A ignorância ou antipatia partidária podem alucinar e o futebol monopolizar os afetos de quem foi líder da JSD na Madeira e é hoje o governador, por eleições livres que os militares do MFA, como Costa Martins, tornaram possível. Mas podia ter homenageado os pioneiros da aviação, Gago Coutinho, Sacadura Cabral ou Sarmento Beires. Preferiu o jogador de futebol madeirense.

Se era questão de bairrismo, tinha o madeirense Herberto Helder, talvez o maior poeta português da segunda metade do século XX.

Depois do longo período de défice democrático, com Jardim, a Madeira está ameaçada de défice cultural, com Miguel Albuquerque, o primeiro formatado no salazarismo e o segundo na JSD.

sábado, julho 23, 2016

Marcelo e os tratados europeus

Os leitores não esperam de mim que escreva o que gostariam de ler. Aliás, seria difícil satisfazê-los a todos, tão variados nas suas convicções e diversos nas suas idiossincrasias. Terão de tolerar o que penso ou, como fizeram alguns amigos pessoais, abandonar o meu mural para não saírem feridos com a forma e a substância dos meus textos.

Quanto a Marcelo, é o PR que derrotou nas urnas o meu candidato e com quem estou de acordo ou discordo, conforme os casos, como sucederia com qualquer outro. No caso do referendo que anda aí a ser pedido, concordo com o PR.
Os referendos sobre os tratados, só por ignorância ou demagogia os defenderia porque a Constituição não o permite. Não se pode defender a CRP e, ao mesmo tempo, ignorá-la por conveniências partidárias ou emoções ocasionais.

De resto, a experiência de referendos, em Portugal, é desoladora. Nunca obtiveram o mínimo de participação eleitoral que os tornasse vinculativos, e serviram, várias vezes, para bloquear soluções úteis ou adiar a resolução de problemas.

Não se argumente que, assim, os tratados se tornam irreversíveis. Os governos, e espero que os governos continuem a depender da A.R., podem sempre denunciá-los. Quanto eu gostaria de ver denunciada a Concordata que Durão Barroso assinou com o Vaticano!

Finalmente, sou também contra a democracia referendária porque defendo a democracia representativa, com a vantagem de poder punir nas urnas as decisões ou a ausência delas pelos partidos que forem governo.

E, mais uma vez, lembro o referendo que aboliu os partidos, legitimando a Constituição Política de 1933!

Manobras de diversão

“A banca europeia, em particular a italiana e a portuguesa, representa um risco global para a economia.»  (Relatório do FMI)



sexta-feira, julho 22, 2016

O aeroporto Cristiano Ronaldo

Em frágeis caravelas, enfrentando os perigos do mar, Tristão Vaz Teixeira, Bartolomeu Perestrelo e João Gonçalves Zarco, foram pioneiros da gloriosa aventura que colocou Portugal na vanguarda da ciência e da arte de navegar.

Foram os primeiros portugueses a ver o aeroporto Cristiano Ronaldo, em 1419. Apenas ignoravam que faltariam três séculos para que a passarola, de Bartolomeu de Gusmão, se tornasse lenda e o primeiro balão dos Irmãos Montgolfier, em escala real e tripulado, se elevasse no ar em 1783. E só quatro séculos depois os primeiros aviões voaram.

Ignoro o que pensaram os audazes navegadores, à vista do aeroporto Cristiano Ronaldo, ou a desolação que sentiram perante a aridez do solo.

A única certeza é a sensatez dos navegantes portugueses do século XV, a contrastar com o delírio do timoneiro insular do século XXI.

Lisboa tem o aeroporto Humberto Delgado e o Funchal terá o de Cristiano Ronaldo. É a diferença que separa António Costa do sátrapa insular.

Apostila – Ou fui vítima de uma ilusão auditiva ou ouvi, há pouco, que o governador da Madeira iria dar ao aeroporto o nome do jogador de futebol.

FMI, Lagarde e maus agoiros…



Quando lemos relatórios do FMI há uma coisa de devemos ter como certa. Existirá - ou está na calha - qualquer problema (crise) no seio europeu e os seus relatórios aparecem a antecipar análises, caminhos e resoluções.

Não se trata de um organismo financeiro com características eminentemente técnicas que, como afirmam os seus estatutos, tem como finalidade dedicar-se a estabilizar o sistema monetário internacional e que viria, mais tarde, a alargar a sua acção (interferência) no sentido de, através de empréstimos, ajudar a equilibrar a balança de pagamentos de países em dificuldades. A sua transformação no braço armado das políticas liberais do pós-guerra e actualmente do neoliberalismo é uma longa história de usurpação de actividades e poderes que contou com a complacência de muitos e não cabe neste comentário.

Tudo isto a propósito do último relatório do FMI sobre a “Estabilidade Financeira Gobal” particularmente centrado sobre ‘turbulência do sistema financeiro europeu’ e onde se aponta Portugal e a Itália como ‘problemas’ específicos link putativamente agravados pelo Brexit (situação que aparentemente não interfere directamente com a moeda única europeia).

Subjacentes a estes ‘palpites’ escondem-se sempre outras coisas e não vou escrever sobre os problemas da banca alemã, a começar pelo Deutsche Bank, mas tão-somente de uma outra questão – o crescimento económico. É sabido que nenhuma medida tomada a ‘favor dos cidadãos' favorece o crescimento económico por perturbar sacrossantos mecanismos de competitividade. É este o princípio sempre invocado para despedir, cortar salários e 'flexibilizar' (descaracterizar) a legislação laboral. Não há outra 'receita'. E todos os relatórios do FMI encalham aí.
 
Por outro lado, o alargamento endémico da pobreza parece ser um 'efeito sobrenatural', ou um azar, que deve ser desligado das políticas que esse Fundo impõe.
No caso português, o FMI integrou uma Troika que ‘governou’ com a complacência e a servil obediência de Passos Coelho e ‘ajudantes’ (para usar a linguagem 'cavaquista') durante 3 longos anos e ainda anda por aí (embora sem o impacto de outrora). E, no pensar dos especialistas do FMI, o actual e dramático empobrecimento deve ser exclusivamente endossado aos erros do passado, nada tendo a ver com o malfadado 'resgate'.

Na realidade, a multiplicidade (e gravidade) de situações financeiras e económicas com que este País está confrontado são consequência de ditatks do FMI e associados. Estamos, em termos de fraco crescimento e na debilidade do sector bancário, a colher os frutos dos ‘prestimosos’ serviços de uma ‘notável’ intervenção externa em que o FMI foi o pivot. Não há volta a dar-lhe. E se agora o FMI volta à carga – em relação a Portugal – só pode ser para dar continuidade ao bitate do Sr. Schauble sobre um novo ‘resgate’.

A actual situação política - especialmente a solução governativa - não agrada aos peritos sediados em Washington e todos os futuros esforços (de que o relatório é apenas uma peça instrumental) vão no sentido de voltar a intervir para 'domesticar'.

Esperemos algumas tréguas já que Christine Lagarde, envolvida no ‘caso Tapie’, vai a julgamento acusada de negligência e essa circunstância poderá ser suficiente importante para interromper a sua permanência como directora-geral do FMI. link.
O facto de estar indiciada pode moderar ímpetos. Esperemos, contudo, que a presumível negligência não tenha contaminado o organismo que dirige. 
Porque ser admoestado e ‘apontado’ por um bando de especialistas, negligentemente orientados e motivados, é verdadeiramente insuportável.

A Turquia e o califa Erdogan

Erdogan já provou que a democracia era, para ele, um mero caminho para conquistar o poder. O fascismo islâmico irrompeu na máxima apoteose após o golpe de Estado cuja preparação, desencadeamento e contenção acompanhou, através da rede islâmica que organizou.

Perante o aplauso dos adeptos e o terror coletivo dos adversários e simples apoiantes da democracia, exerce o poder discricionário. Humilha o poder judicial, reprime os curdos, demite professores, fecha jornais, prende jornalistas, persegue juízes e desmantela todos os poderes que lhe podem cercear a ambição.

Da União Europeia chegam tímidos apelos para respeitar o Estado de Direito, como se fosse sua intenção mantê-lo quando a Nato e as UE o apresentavam como muçulmano moderado. Erdogan é um produto do atual momento histórico que o Islão atravessa, na sequência do fracasso da civilização árabe e do ressentimento por invasões ‘cristãs’, em busca do domínio do petróleo.

Os métodos do Estado Islâmico são a prática interna do ditador que sonha agora com o califado, e não hesita em desafiar os aliados. Ele nunca esteve na Europa das liberdades, esteve sempre com um olho em Meca e outro nas suas ambições.

A Europa tem mais um trágico problema à sua porta.

A aliança norte-atlântica desnorteada ou desfeiteada…


Tudo indica que não será a Esquerda a enterrar a NATO. O fermento para o seu desmembramento tem um nome (Trump) e os motivos são aparentemente financeiros (‘não cumprimento das obrigações de financiamento’) link ;  link.

Questões como o ‘atlantismo’ e doutrinas associadas, a solidariedade ocidental, a herança civilizacional, ou quejandos, não são invocadas na retórica de Donald Trump, muito directa e inequivocamente monetarista.

Na realidade a NATO foi um grande exército (exército é usado no texto como um sinónimo de forças armadas) criado, no contexto pós-II Guerra para enfrentar o comunismo, mais especificamente, a ex-URSS. 
Com a queda do muro de Berlim perdeu todo o sentido mas mesmo assim tentou transformar-se numa ‘guarda pretoriana mundial’ que tem defendido com pertinácia e alguma sobranceria os interesses americanos pelo Mundo. As pretensões de fugir do Atlântico Norte e alcançar uma dimensão planetária são hoje o penoso balancear entre a leviandade e a quimera.

No Oriente existem forças militares muito numerosas e bem equipadas, poderosíssimas. A maior força militar permanente do Mundo é, de facto, a República Popular da China, cujos efectivos ascendem a mais de 2.200 milhões de homens e mulheres a que falta acrescer forças estratégicas que dispõem de armamento nuclear. O desenvolvimento de um poderoso Exército a partir de um voluntarioso Exército de Salvação Popular há quase 90 anos (1927), veio a criar importantes desequilíbrios nas pretensões de 'détente militar' a nível global.

Mas um outro tipo de problema está sediado no continente europeu e chama-se Rússia que, após o desmembramento do Pacto de Varsóvia, mantém um Exército com mais de 900 000 efectivos, quase o dobro das 2 maiores forcas da UE (França e Grã-Bretanha) o que mostra as incongruências dos planos de intervenção no espaço europeu. 
Um exemplo acabado destas incongruências são, visto nesta perspectiva, as recentes intervenções, primeiro na Líbia e depois na Ucrânia. E os exemplos sucedem-se.

Cá por casa é interessante recordar a posição do ex-Presidente da República, Aníbal de sua graça, que pretendeu condicionar a pertença ou interferência nos governos do país, por forças político-partidárias nacionais legítimas e eleitas para o Parlamento, alegando que esta participação estaria condicionada a declarações ou por posições de fidelidade à NATO link.

A História da NATO a ser reorientada (reescrita) pelo candidato republicano à Presidência dos EUA tem uma abordagem contabilística e utilitarista, como é timbre dos ultra-conservadores, e  desmente categoricamente os fundamentalismos ideológicos residuais, oriundos do tempo da ‘guerra fria’, que ainda têm fiéis adeptos domésticos.

Há sempre um plano B



Recebido de Alfredo Barroso, cuja memória é um incentivo à vigilância cívica, aqui fica, para memória futura, uma galeria de notáveis que contribuíram modestamente para esta crise, que vai acabar mal. Para nós, os que nada fizemos para merecê-la.

quinta-feira, julho 21, 2016

AR: a pantanosa sessão de ontem…


Ontem, no Parlamento, viveu-se um dia de violenta catarse do ‘centrão político’. O PSD tratou de consolidar a sua posição no Tribunal Constitucional para o que contou com o apoio do PS e, por outro lado, ou simultaneamente, na questão da presidência do Conselho Económico e Social link, que fazia parte do mesmo acordo, alguém roeu a corda e tenta fugir às responsabilidades.

Não está em causa a escolha do Prof. Correia de Campos para o cargo que o PS - por sua conta e risco - achou por bem propor e a direcção do grupo parlamentar do PSD aceitou, mas sim o embuste tecido à volta da aplicação de prévios acordos parlamentares. Isto vindo de uma Direita que andou meses a questionar a solidez e a 'naturalidade' do entendimento entre a Esquerda parlamentar para suportar o Governo PS, seria caricato, se não fosse gravíssimo.
Há algum tempo que a Direita tenta explorar eventuais desconformidades, dúvidas, incongruências ou instigar rebeldias na senda de promover ou criar maiorias instáveis e voláteis, ‘fracturáveis’, nas decisões em plenário da Assembleia de República e deste modo tentar ‘levar a água ao seu moinho’. O explorar de pequenos incidentes, contradições e omissões, isto é, o deslize para a ‘pequena política’ é um modo de suavizar o afastamento do poder, ditado por escrutínio popular.  

Tem sido este o sub-reptício comportamento da Direita face à maioria parlamentar de Esquerda constituída após as últimas eleições legislativas e que suporta politicamente o actual Governo. Foi isso que tentou – sem resultados – primeiro com o Programa de Governo e depois com o Plano de Estabilidade e Crescimento 2016-2020 que, forçou contra a norma e os habituais procedimentos regimentais, uma ida a votos, para testar compromissos e detectar fissuras.
 Estas sinuosas manobras de andar a pescar em águas turvas já tinham, portanto, dado mostras da sua existência e deviam acautelar os acordos. Deviam, pelo menos, determinar um escalonamento temporal das votações para que ‘in loco’ se pudesse verificar se os pressupostos assumidos em prévios acordos seriam viáveis e cumpridos. Se acaso se tivesse adoptado esta atitude prudencial, que a prática parece aconselhar, teria sido possível fazer abortar esta miserável chicana política.

Após a notória quebra de compromissos e uma incontornável mostra de indisciplina há um apressado lavar de mãos do PSD afirmando que é impossível culpabilizar esta bancada porque o voto foi secreto. Esconde-se a mão que efectivamente apedrejou o descuidado transeunte baseando-se que, estando emboscado no arbusto (do secretismo da voto), nunca será identificável enquanto agressor.

A argumentação retorcida, titubeante e manifestamente falsa do PSD só serve para entreter incautos. Ninguém acredita que o candidato do PS tenha sido 'chumbado' pelo próprio PS (quando dispôs da liberdade e possibilidade de o escolher e propor).
Na realidade, este ziguezaguear pelas fronteiras do disfarce e da ignomínia é uma prática da Direita e basta recordarmos do que Paulo Portas fez a Manuel Monteiro numa eleição para a liderança parlamentar do CDS. Ou, então, das promessas de Passos Coelho durante a campanha eleitoral de 2011 sobre os cortes de pensões, salários, subsídios, etc., e o que sucedeu na prática durante 2011, 12, 13, 14 e 15.

De qualquer modo, esta ‘manobra’, vil e traiçoeira, caiu como uma pestilenta gelatina putrescível sobre o Parlamento e terá, obviamente, sérias consequências no relacionamento institucional entre o Governo e a Oposição.

A aldrabice tornou-se endémica para estes ‘sociais democratas’, de “sempre”. Nada, daqui para a frente, voltará a ser confiável. Encerrou-se assim a etapa de putativos consensos reclamados por muitos dos intervenientes políticos (que na realidade não terá chegado a dar os primeiros passos). A presente legislatura tem, pelo menos, o mérito de revelar que a Direita, remetida para a Oposição, não é democraticamente credível, nem honesta. 'Acordos de regime' não são possíveis quando o se torpedeia é o próprio regime.

Quando a Direita faz, publicamente, vibrantes apelos à estabilidade e falaciosos louvores ao pragmatismo é noutra coisa que, secretamente, está a pensar, isto é, na ‘sacanice’ e no golpe.
Este é o mesmo tipo de ética que provoca a invisibilidade, ou a despudorada negação, dos ‘conflitos de interesses’ nas sequenciais nomeações de Durão Barroso (para a Comissão Europeia, para a Goldman Sachs, etc.).

Não bastava o distanciamento entre os políticos e os cidadãos que as chicanas políticas têm favorecido. A Direita julgou necessário descredibilizar as instituições democráticas pensando que poderá aproveitar-se, no imediato, do pântano político que está a tentar criar. Inevitavelmente, a lama atingirá todos e arrastará para o abismo, não pessoalmente os desacreditados intervenientes, mas o regime democrático.

As sibilinas e mal-arranjadas desculpas do PSD atingem, em primeiro lugar, a confiança nas instituições, chapinham de lama os autores de tais dislates e enfraquecem irremediavelmente a vertente parlamentar, um dos pilares do nosso regime. Tudo o resto, são ‘desculpas de mau pagador’.

O Conselho de Estado, Portugal e a União Europeia

Não interessa saber se Cavaco foi ou não favorável a sanções da UE contra Portugal, na reunião do órgão consultivo do PR. É irrelevante o que pensa Cavaco Silva. A política não é um ramo da espeleologia e os fósseis não são o seu objeto de estudo.

Grave é o acolhimento da comunicação social à reiterada e patética negação dos factos, por Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque. As sanções com que é chantageado este governo referem-se ao falhanço do governo de Passos Coelho no cumprimento de metas de 2014 e 2015. Estes são os factos.

O que o país não pode esquecer é a dilatação da última legislatura, até ao prazo máximo legal, o que inviabilizava a apresentação oportuna do OE-2016, situação agravada pelas manobras dilatórias para investir o legítimo e atual governo. Não foi culpa exclusiva do notário de Belém, foi responsabilidade do PSD e do CDS, que o impeliram ao patético adiamento, de gravosas consequências para Portugal.

Quando é preciso desviar atenções da colossal crise financeira dos bancos de Itália (360 mil milhões de euros), da monstruosa dimensão dos problemas do Deutsche Bank e dos imprevisíveis efeitos do Brexit, Portugal e Espanha são, depois da Grécia, fundamentais para disfarçar a crise financeira da UE, em permanente adiamento.

Vale a pena lembrar uma resposta recente de Jean-Claude Juncker, quando confrontado com sanções à França: “Não há, já que se trata da França” (sic).

Não me surpreenderia, perante a leveza ética dos atuais dirigentes europeus, executores da estratégia do Partido Popular Europeu, que, depois de terem obtido do PP espanhol um qualquer compromisso (impossível de cumprir, por falta de apoios parlamentares), usem Portugal, cujo governo incomoda, como único bode expiatório.

E não lhes faltam cúmplices autóctones.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 20, 2016

Mesmo na desgraça, faz-nos falta o Eça

Há uma página de Eça em que o romancista descreve uma reunião, num salão burguês. Anunciam-se tragédias naturais na Índia e na China, com muitos milhares de mortos, e pessoas, indiferentes, a jogar cartas. Entre as notícias, cada uma pior do que as outras, alguém informa que a D. Micas teve uma terrível enxaqueca.

Pararam de jogar e rostos ansiosos aguardavam pormenores. Há dois dias que a Micas (já não sei se era este o nome), sofria de uma violenta dor de cabeça. E o pasmo subia com minúcias sobre o início, a continuação e o fim da enxaqueca. Varreu-se a angústia, serenou a ansiedade e os parceiros recomeçaram os jogos, aliviados só quando todos se inteiraram de que a enxaqueca tinha, finalmente, sido vencida.

O critério da proximidade transformava em tragédia uma dor de cabeça e era indiferente aos milhares de mortos que aconteciam noutro continente.

Lembrei-me da difusa recordação de Eça, de que li quase tudo, com a afirmação inédita de um relatório internacional: “FMI diz que banca europeia, em particular a italiana e a portuguesa, representa um risco global”, para a economia.

O FMI esteve em Portugal em 2011 e 2015 e não produziu, por ignorância ou simpatia, esta afirmação catastrófica. Agora, esquece o Deutsche Bank e iclui a Itália e Portugal no risco global pelo “crédito malparado”.

Em Itália, o valor cifra-se em 360 mil milhões de euros em Portugal em 20 mil milhões (números do FMI). Há qualquer coisa que não entendo.

Quando eu era criança, morreu no rio Coa, afogado, um rapaz de 19 anos. Uma vizinha foi confortar a mãe e abraçando-a, para a consolar, foi-lhe dizendo “Tudo são desgraças, a si morreu-lhe um filho, a mim a cabra».

Um oportuno desenho de Onofre Varela


terça-feira, julho 19, 2016

O cardeal, a missa e o fiel defunto Francisco F.

Na última segunda-feira, dia 18 de julho do ano da graça de 2016, o cardeal Cañizares, que ainda não digeriu o regresso a Espanha, depois de ter sido Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em Roma, celebrou missa por alma de Francisco Franco, anunciado como Francisco F..

A missa é celebrada mensalmente, no dia 20, a rogo de um devoto, para evocar a morte do ditador, ocorrida em 20 de novembro de 1975. Esta, além de se destinar à expiação dos pecados do maior genocida espanhol de todos os tempos, assinalou o aniversário da sublevação militar de 1936 que deu início, há 80 anos, à Guerra Civil espanhola.

O cardeal Cañizares, arcebispo de Valência, depois de ter sido titular de Toledo, é um nostálgico do franquismo e incapaz de aceitar a democracia. Argumenta que as missas não se podem recusar a ninguém, mas os espanhóis sabem a devoção com que a celebra, com pompa e circunstância.

É delicioso ver que o número de padres que acolita o cardeal Antonio Cañizares é quase o mesmo que o dos crentes que acompanham o piedoso ato. (Ver link de El País).

Quem recorda a História, independentemente da crueldade verificada de ambos os lados da guerra civil, não esquece que o Papa de turno concedeu o carácter de Cruzada à luta das forças fascistas que derrubaram a República, legitimada pelo voto popular.

Um cardeal destes é uma bênção para a memória e a preciosa ajuda para a secularização do país que João Paulo II encheu de santos, remexendo nas cicatrizes que a democracia não conseguiu ainda sarar.

segunda-feira, julho 18, 2016

O golpe de Estado na Turquia

Não imagino o que pretendiam os militares amotinados, nem faço juízos de valor sobre o golpe de Estado num país cuja democracia serviu a Erdogan para tomar o poder e não mais o largar.

Ele tem o hábito de prender jornalistas e calar os órgãos de comunicação social que lhe fazem oposição. Militares e juízes eram guardiões da laicidade, os primeiros de forma democraticamente inaceitável, mas os segundos legitimados pela separação de poderes e pela Constituição.

Agora passará a ter um exército dócil. O afastamento de 2745 juízes, que dificilmente pode implicar no golpe, revela a determinação de remover todos os obstáculos ao poder absoluto.

O golpe não terá sido inspirado por Erdogan, mas parece. Foi a «dádiva de Deus», que referiu, e dificilmente teria sido organizado sem conhecimento da rede islâmica que o apoia. A cínica frieza com que o aguardou nunca será provada, mas os objetivos dos revoltosos passarão a ser os que ele entender. Os motivos dos amotinados serão os que o sultão quiser. A Turquia estava condenada a um regime autoritário, laico ou confessional.

As liberdades vinham a ser sucessivamente limitadas, com a perseguição de jornalistas e juízes, com a restrição das liberdades individuais e a progressiva reislamização.

A forma rápida e segura como o Sultão chegou ao aeroporto de Istambul revela que os mecanismos do poder estavam controlados.

A UE tem mais um problema. A Turquia é a jangada que se afasta dos valores europeus a caminho das mesquitas, com o poderoso exército da Nato atrás.

Erdogan, permitiu uma rota jihadista de voluntários e armas para a Síria e a organização de células do Estado Islâmico no País. Agora, quando o EI estava a virar-se contra ele, em vez de ser um alvo, pode disputar à Arábia Saudita a sua inspiração e controlo.

O Sultão neo-otomano, liquidado o legado de Atatürk, reforçou condições para reprimir os curdos e os arménios, abolir as liberdades individuais e tentar reinventar o Califado, mas o mais provável é fazer deslizar o País para o caos que devasta o Médio-Oriente.

Turquia – os insondáveis contornos do futuro …



Vive-se na Turquia um autêntico drama político na sequência do golpe de Estado falhado. A devastadora purga em curso está a atingir milhares de cidadãos a começar pelas Forças Armadas, passando pelo aparelho judicial e não tardará muito a chegar aos meios de comunicação social.
No rescaldo do putsch ninguém é capaz de garantir uma investigação justa, séria e independente e podemos esperar tudo do actual presidente Erdogan apresentado ao Mundo como um ‘islâmico moderado’ mas que o desenrolar dos acontecimentos (exercício do poder) vem sendo progressivamente conotando com a Irmandade Muçulmana link.

A este golpe de Estado militar deverá seguir-se um golpe constitucional levado a cabo pelo partido que detém, no presente, as rédeas do poder (AKP). O actual presidente deverá ser, ‘bizantinamente’, entronizado como califa e perpetuar-se no poder rodeado de fiéis mujahedins.

Os primeiros indícios ocorreram na noite do levantamento na ponte sobre o estreito de Bósforo. Um soldado, acabado de render-se, foi sumariamente decapitado  link.

Na ignorância de futuras evoluções da situação turca é de supor que o autonomeado ‘califa do Daesh’, Abu Bakr al-Baghdadi, se sinta ameaçado.
Não existe espaço político-religioso para, naquela região, coexistirem dois califas…

domingo, julho 17, 2016

Passos Coelho, o Estado e a (re)invenção da pólvora…

Passos Coelho, lídimo e esforçado dirigente do PSD esteve presente num “Fórum de Políticas Sociais: Educação; Saúde e Segurança Social” que o seu partido realizou no Porto este fim-de semana.
E aí botou faladura para apresentar-se, a si próprio e ao seu partido, como um arauto do combate às perversões nessas áreas, declarar o falhanço do Estado Social e mostrar-se aberto para “redesenhar as políticas sociais”. 

Prometeu, inclusive, uma “convenção alargada” para discutir tais assuntos depois de colher doutas opiniões (de académicos, conselheiros e burocratas, acrescento). link.

Há contudo uma coisa que o dirigente do PSD não consegue esconder mesmo emboscando-se atrás daquilo que para os eleitores jurou ter defendido durante a última legislatura. De facto, ao promover cortes cegos nas áreas sociais o ex-responsável pelo anterior Governo sempre afirmou que estaria a conferir sustentabilidade ao Estado Social. Inclusive, armou-se num seu mítico ‘salvador’ link. Ora um ‘salvador’ de causas perdidas ou falidas ou em que não se acredita, não sendo propriamente um deslize ou filantropia é, com certeza, mais uma mentira que o tempo está a revelar.

Na verdade, o actual dirigente partidário em fase de procura de assuntos candentes que projectem uma imagem promocional foi ao Porto debruçar-se sobre um velho problema político em que quis enxertar, à sorrelfa, aspectos de uma cândida novidade. Isto é, não é preciso ser mundividente, ter cultura cívica ou ser capaz de elaborar um raciocínio político premonitório para ter a certeza que Passos Coelho foi ao Fórum propor uma convenção que sancione uma sempre desejada mudança que tem procurado ocultar dos portugueses: Transitar do Estado Social para um Estado Liberal.

Não é, como sabemos da história das ideologias políticas, uma questão nova. A única surpresa poderia ser a sua concepção partir um partido que continua a reclamar-se da ‘social-democracia’ ('sempre' diz ele). Todavia, este é outro assunto que é sempre toldado pela vergonha (receio) de assumir publicamente a deriva neoliberal.

Em vez de andar a procurar em fóruns ou na praça pública - qual 'Diógenes pós-moderno’ - a verdade sobre a situação social bastaria colocar na sua bagagem (pessoal ou intelectual) e levar, este ano, para a sua vilegiatura na Manta Rota, uns livritos (básicos para qualquer pretendente a 'voos políticos') onde Marx, Owen, Proudhon, de um lado, e Simth, Hume, Stuart Mill, do outro, já escalpelizaram com profundidade as bases teóricas e filosóficas sobre a natureza e funções do Estado que tanto parece incomodar, agora, o neo-dirigente do PSD.

O que é verdadeiramente impressionante é a desfaçatez com que se sobe ao palanque para anunciar que em breve irá promover a (re)descoberta da pólvora…

Novas tendências


sábado, julho 16, 2016

Turquia: a segunda morte de Atatürk?

Por natureza cívica (civil) e por formação democrática (representativa) não nutro qualquer tipo de simpatia por golpes militares. 
A política – entendida com um civilizado terreno de luta doutrinária com vista ao bem comum - não pode ter as suas reservas morais sediadas em casernas ou paradas. Como não pode ficar contida nas paredes das igrejas ou mesquitas.

Contudo, estas proposições de princípio não podem inibir uma análise dos factos (sem atribuir-lhe um conteúdo meramente justificativo) e uma interpretação de todas as consequências (reais, possíveis e até especulativas).

A tentativa de golpe militar ocorrida ontem na Turquia tem uma elevada capacidade intrínseca para alterar frágeis equilíbrios no Médio-Oriente, já que este país, está colocado no epicentro de numerosos conflitos (guerra civil síria, colapso do Iraque, etc.) e altas tensões políticas (Irão) e sociais (migratórias).

No entanto, as grandes consequências serão internas, isto é, no regime. O 15 de Julho poderá ficar na história do Levante como o fim de uma já manietada democracia turca, onde a liberdade de expressão (fecho de órgãos de comunicação e prisão de jornalistas), a separação de poderes (depurações do aparelho judicial), a independência das forças militares (decapitação selectiva das cadeias de comando) e os direitos das minorias (genocídio arménio e repressão sobre curdos) são diariamente constatadas e violadas, com a olímpica complacência do Ocidente.

O golpe fracassado de ontem vai possibilitar o desmantelamento da República turca criada por Atatürk, em 1923, na sequência da derrocada do califado otomano. A Turquia vai encetar, a todo o gás, uma deriva para estabelecer um Estado Islâmico. A laicidade – a separação entre a política e a religião - que foi um apanágio da 'nova republica turca' vai dar lugar à sharia. Os primeiros indícios estão aí link.

Ficam no ar, para a posteridade, várias questões:

- A Turquia vai continuar a ter condições para ser o braço armado da NATO na região?
- A Turquia vai ressuscitar, sob a sombra tutelar de Erdogan, o velho califado e assimilar o Daesh?
- A Turquia e a UE vão continuar as conversações sobre uma eventual adesão ou associação?

Não deverá demorar muito até termos respostas para estas questões.
Entretanto, no rescaldo do golpe, devem celebrar-se as exéquias da República. Tudo indica que Atatürk foi vitimizado com uma segunda morte.

sexta-feira, julho 15, 2016

NICE – In memoriam das vítimas.




Nice - Promenade des Anglais (ao entardecer)
 
Nice foi a terra natal de Giuseppe Garibaldi. Um revolucionário que combateu pela França contra a Prússia, no Brasil e Uruguai em prol da República e pela libertação colonial e, destacadamente, foi um dos grandes obreiros  da reunificação italiana (il Risorgimento) contra as potências imperiais (Áustria).

Foi um grande lutador pelos ideais humanitários, internacionalistas e republicanos na Europa e na América do Sul. Foi por isso denominado ‘herói dos dois mundos’.

O bárbaro atentado de ontem em Nice esbarra com a histórica memória de um libertador e bom revolucionário.

Escabroso é constatar que os inflexíveis fiéis de um qualquer califado supostamente a edificar no Médio Oriente ousaram manchar esta linda cidade dos Alpes Marítimos (Côte d'Azur), com uma ‘carga mobile’ numa 'promenade assassina' em dia de Festa Nacional (Tomada da Bastilha).

Garibaldi, porquê?
De facto, os 'jihadistas' de hoje quando colocados lado a lado com os grandes lutadores de causas - infelizmente - ainda conseguem fazer uso de meios e estratagemas mortíferos mas, pura e simplesmente, como ‘combatentes’ a que aspiravam a ser, são de uma abjecta inexistência (ou uma intolerável excrescência). 

A história dos povos, dos lugares e das ideias um dia revelará este trágico engano.
Após quantas vidas ceifadas?

Um documento credível

De qualquer modo, não é aceitável que o Estado financie o ensino privado.

quinta-feira, julho 14, 2016

BREXIT: algumas inacreditáveis ressacas …


Começa a ser cansativo olhar para um país que põe os seus interesses à frente de tudo e todos.
O ‘Brexit’ foi uma escolha colectiva dos cidadãos britânicos e como todas as opções tem as suas consequências. Tudo começa pela declaração de Cameron, na saída imediata das eleições, que diferiu a sua incontornável demissão lá para o Outono, mantendo a consequências políticas do referendo em 'banho-maria'. 
Na verdade, o processo de saída da Grã-Bretanha da UE, ou seja, a evocação do badalado artº. 50º do Tratado de Lisboa, só no próximo Outono, tinha uma justificação plausível – embora interesseira e egoísta – já que o resultado referendário desencadeou naturalmente alterações partidárias internas, com inerentes reflexos governamentais. 
Era suposto que as mudanças internas se arrastassem até essa data (Outono) e, como é óbvio, interessava à UE ter, para iniciar a difícil separação de águas, um interlocutor válido.

Na realidade, o processo político doméstico alterou-se e, muito rapidamente, o Governo Cameron foi substituído por outro do mesmo partido que dispensou olimpicamente o sufrágio popular e é presidido pela ex-ministra do Interior Theresa May. Este pormenor, mostra como o processo referendário estava, ab initio, inquinado. 
Fosse qual fosse o resultado do referendo os conservadores tinham desde logo preparada uma rápida adaptação às novas condições daí decorrentes. 
O mesmo não sucedeu com um outro dos grandes partidos apoiantes da permanência na UE – o partido Trabalhista – que ‘ganhou’ uma profunda crise interna que continua em evolução.

Aliás, o cúmulo da ambiguidade reside no facto de a nova chefe do Executivo britânico ter apoiado (formalmente) David Cameron no 'remain' e ser, agora, referenciada como uma indefectível defensora do 'exit' link. Contradições que a política tece. Por cá chama-se a isto ‘política da rolha’
Por outro lado, é extremamente sugestivo o desenrolar dos acontecimentos que a vitória do Brexit provocou no seio da Partido Conservador britânico aquilo que na gíria política se designa como ‘noite das facas longas’. 
Se não vejamos a quantidade de ‘cadáveres’ que ficaram pelo caminho na turbulenta luta pela liderança: Boris Johnson, Michael Gove, Andrea Leadsom, Stephen Crabb, Liam Fox, etc.

É óbvio que as alterações do timing interno ocorridas em Londres não podem deixar de ter reflexos na data de início das negociações entre a Grã-Bretanha e a UE. 
Não se percebe que o seu começo continue a ser diferido para o Outono/Inverno quando a situação doméstica está aparentemente resolvida. Só se for a ‘silly season’. 
Estas hesitações, ou melhor, estes travestismos políticos que se instalaram na Dowing Street nº 10 estão muito de acordo com as circunstâncias de mudança do governo de Sua Majestade e a perene ‘capacidade de vencer’ quaisquer que fossem os resultados. A isto chama-se 'batota'.

Aliás, a perversão do processo já tinha começado com as negociações entre a Comissão Europeia e David Cameron no pré-Brexit link. As cedências feitas a Londres pela UE violaram regras europeias de uma maneira absolutamente escandalosa e na prática não serviram para nada. Nessa altura, Fevereiro de 2016, a Comissão Europeia abdicou alegremente das suas funções de indefectível guardiã dos Tratados e regras.

Mas poderá existir uma outra razão de peso. A Comissão Europeia poderá não estar disponível. Neste momento aparece muito atarefada com as iníquas sanções a Portugal e a Espanha.

Numa Europa onde existiram reiteradas prevaricações das regras internas (sejam Pactos Orçamentais, sejam Programas de Estabilidade e Crescimento) e onde, por exemplo, nenhum Estado (incluindo a Alemanha) cumpre as metas de endividamento externo a premência política dos burocratas recai sobre 0.2% de deficit apelidado de ‘excessivo’ quando os efeitos do Brexit, embora possam ser limitados (dependem da qualidade dos acordos negociais), devem ser consideráveis e estender-se no tempo.

Das notícias que vão sendo libertadas por Bruxelas ficamos a saber que os eurocratas pensam estar entretidos com sanções aos países membros até o Outono.
Inacreditável.

Tomada da Bastilha, 14 de Julho de 1789

Contra Luís XVI, contra a nobreza e contra o clero, o rei já tinha sido obrigado a admitir a autoridade da assembleia que viria a chamar-se Assembleia Nacional Constituinte. A invasão da Bastilha e a consequente Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão formaram o terceiro pilar da fase inicial da Revolução Francesa.

A Tomada da Bastilha, no dia de hoje, em1789, foi o ato simbólico de uma nova era, o princípio do fim de uma sociedade anacrónica e o rastilho que incendiou a Europa e deu origem às democracias modernas.

Ninguém ousaria prever que a invasão da grande prisão do Estado, por um jornalista, Camille Desmoulins, se transformaria na referência histórica e emblemática da vitória da burguesia sobre a nobreza, da legitimidade popular sobre o direito divino, e da República sobre a monarquia.

Hoje, dia nacional da França, 227 anos depois, evoco o dia e saúdo a Revolução Francesa.

Viva a República!

Dito

«O senhor Barroso fez a cama dos antieuropeus. Apelo, pois, solenemente a que abandone esse cargo.»

(Harlem Désir, secretário de Estado dos Assuntos Europeus francês)

Durão Barroso, o indivíduo videirinho

Surpreende a condenação unânime da comunicação social, europeia e americana, do ex-presidente da Comissão Europeia (CE), Durão Barroso, como se a reforma de 24.000 € mensais o obrigasse a renunciar ao que apenas a ética exige.

A nomeação do presidente não executivo da filial de Londres do banco Goldman Sachs foi transparente na atribuição de funções. Apenas exige um mero tráfico de influências, para acautelar os interesses do banco, na sequência do Brexit.

Durão Barroso é o mais alemão dos portugueses e o mais americano dos europeus. Está no lugar que o percurso justifica. Entrou na idade adulta a roubar mobílias da FDL para a sede do MRPP, sendo obrigado pelo ‘grande educador da classe operária’, Arnaldo de Matos, a devolvê-las, e acaba empregado do banco que usa processos ínvios e exonerou a ética no vampirismo com que parasita os países mais vulneráveis.

O genro de um almirante da ditadura, que passou diretamente do MRPP para o PSD, teve no compadre Martins da Cruz, embaixador bem relacionado nos serviços secretos europeus, apoio para se livrar do Governo, em decomposição, preparando a fuga para a presidência da CE, enquanto jurava defender a candidatura de António Vitorino. Depois do episódio da quinta da Falagueira, protagonizado em Portugal, como PM, as férias no iate de um magnata grego foram a confirmação do seu carácter venal.

A segurança pessoal, como presidente da CE, foi, por sua expressa vontade, assegurada por portugueses, um comissário, um subchefe e três agentes principais, o que transferiu para o governo português o pagamento dos encargos da Comissão Europeia.

Gorada a ambição de ser PR, como se estivesse esquecida a cumplicidade na invasão do Iraque, dedicou-se em exclusivo ao tráfico de influências. Não há, ao contrário do que é dito, qualquer conflito de interesses, pois nunca defendeu outros. Só surpreende que o Goldman Sachs o não tenha aproveitado para Pequim, dado o passado maoísta, mas não são de desprezar as antigas cumplicidades para futuras necessidades.

O único problema que subsiste é a função do filho, no Banco de Portugal, onde entrou sem concurso, e a possibilidade de ter aí uma antena contra os interesses do país de que se serviu e serve.

Durão Barroso é um filho cuja mãe é hábito insultar-se sem se conhecer.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 13, 2016

Hillary Clinton é a esperança que resta

«O futuro será mais influenciado pelo que acontecer no dia 8 de novembro do que por qualquer outro evento no mundo. Vim aqui para tornar o mais claro possível porque é que estou a apoiar Hillary Clinton e porque é que ela deve ser a nossa próxima presidente.»

(Bernie Sanders, pré-candidato democrata, nos EUA, anunciando apoio a Hillary Clinton)

O Conselho de Estado, de ontem



Depois do Brexit quererá ser consultar do Goldman Sachs em Portugal?

terça-feira, julho 12, 2016

Salgueiro Maia


Vale a pena conhecer um pouco melhor a vida deste inesquecível herói.

segunda-feira, julho 11, 2016

Fátima, Futebol e Fados



Não, não sou avesso ao futebol nem indiferente ao sucesso dos compatriotas. Senti que o dia de ontem como um suplemento de ânimo para o país que descrê de si próprio e é dado à depressão.

Quando, no mesmo dia, os jogadores da seleção nacional se consagram pela primeira vez campeões europeus, Sara Moreira campeã da Europa, em meia-maratona, Patrícia Mamona, em triplo salto, e Portugal se tornou campeão europeu, simultaneamente em meia-maratona e futebol, não é apenas uma grande alegria que se sente é uma enorme confiança que desperta no país que somos e nos compatriotas que temos.

Ontem o atletismo português conquistou três medalhas de ouro e duas de bronze, depois de ter conquistado uma de prata na véspera. Foi pena que os feitos do atletismo fossem ofuscados, na voragem do futebol e na agenda da comunicação social, pelas cerimónias exclusivas do futebol.

Temo que os sucessos de ontem nos distraiam da vigilância cívica que nos cabe e da atenção ao que se passa na Europa e no mundo com inevitáveis reflexos para Portugal.

Não gostaria de ver o meu País a regredir ao tempo dos três FFF. Ontem julguei ver no futebol uma espécie de diagnóstico diferencial entre Fátima e Lourdes, dois centros de turismo pio que originam mais desastres do que milagres.  

Silogismos neoliberais…

O líder do PSD ‘armou-se’ em juiz das causas dos seus companheiros emitindo sobre 'casos bicudos' , que saltam como coelhos de uma cartola, providências cautelares.

Em relação a Maria Luís Albuquerque e a Paulo Portas, veio a terreiro defender a ‘normalidade’ das nomeações para empresas privadas que se movimentam em áreas empresariais e negociais, onde os ex-ministros tiveram, até há pouco mais de 6 meses, responsabilidades políticas.

Paulo Portas, segundo a Direita deverá ser elogiado pela demonstração de uma grande elevação cívica em renunciar ao mandato de deputado e Maria Luís Albuquerque terá revelado um elevado sentido ético link persistindo nas funções parlamentares.
Nestas actividades 'colaboracionistas' tanto faz o ser ou não ser desde que os mercados o solicitem e o aprovem.

Bem, com Durão Barroso o redundante ‘opinion maker’ (é preciso dar ênfase à função), Passos Coelho, foi mais expansivo e para além de se ‘mostrar satisfeito’ apressou-se a afirmar peremptório que “não há conflito de interesseslink.
Na verdade até poderá ser isso mesmo. É difícil haver desses conflitos quando o nomeado passou anos e anos a gerir esses mesmos interesses. O ex-presidente da Comissão Europeia não é mais do que a personificação desses interesses.
Por outro lado, não consta - nos cardápios da fauna zoo marinha - que os chernes sejam autofágicos.

Logo, para a Direita, tudo bem…

domingo, julho 10, 2016

NATO: De Varsóvia a Colombey-les-Deux-Églises …


A NATO prepara-se para criar mais um problema (político) à Europa. Na reunião de 2016 em Varsóvia (é significativo que tenha escolhido esta cidade) pretende intensificar uma complexa e opaca ‘frente anti-Moscovo’. É, por assim dizer, a tentativa do prolongamento, no tempo, de uma ultrapassada ‘guerra fria’, esquecendo-se que já não existe URSS. 
Aliás, ao olhar para os novos membros que tem ‘cativado’ para consolidar a ‘Aliança’ encontram-se aí muitos dos que estiveram num outro pacto, exactamente nessa cidade de Varsóvia, decorria o ano de 1955.

A cimeira de Varsóvia terminou com a publicação de um extenso texto (com 139 itens)  link onde se podem detectar algumas lacunas e muitos enigmas. As principais motivações da cimeira foram as pretensas violações pela Rússia dos compromissos assumidos no ‘âmbito de uma cooperação euro-atlântica’, desígnio celebrado em 1997 e reafirmado na cimeira de Lisboa (2010).

No item 10 do relatório publicado Moscovo é acusado de todos os males que contaminam a segurança europeia: Anexação da Crimeia, intervenção na Ucrânia, provocações militares no mar Báltico, violações do espaço aéreo de ‘países aliados’, intervenção militar na Síria, concentração militar no Mar Negro, etc. Na conclusão deste arrazoado (item 14) afirma que a NATO não tem intenção de confrontar a Rússia e que a sua acção em defesa da ‘segurança euro-atlântica’ será “resoluta, previsível e transparente”. Isto é, fica aí bem expressa a ameaça velada que tenta escamotear.

Por outro lado, a decisão sobre o estacionamento de forças militares da NATO na Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia link deverá ser considerado (pela Rússia e pelo Mundo) como uma … ‘manifestação amistosa’. Na realidade, estes países há menos de 30 anos, integrando o bloco soviético, estavam noutro pacto (por sinal acordado em Varsóvia).

Os problemas ocultos (as lacunas que referimos no início do comentário) são as críticas de François Hollande ao confronto programado e exacerbado com a Rússia (de algum modo repete-se o embuste do Iraque que o relatório Chicot lapidarmente denuncia) tendo o Presidente francês afirmado que o papel da NATO não é “arranjar inimigos, ameaçar, mas procurar discutir assuntos numa reunião NATO-Rússia…”  link . Hollande não enfrenta sozinho a estratégia norte-americana. Não tem peso político nem força para tal.
De facto, dois dias antes do início da conferência surgiram notícias oriundas de veteranos dos serviços de inteligência americanos para Angela Merkel usar de “realismo e contenção” link nos enfrentamentos que se desenham com a Rússia  e integravam a agenda da cimeira de Varsóvia.

Na realidade, existe nesta confrontação com a Rússia um profundo conflito de interesses que condiciona diferentes visões sobre a segurança europeia. Significativamente, existirão fortes divergências entre os EUA e o ‘eixo franco-alemão’ que - com o Brexit - tornou-se mais relevante em termos de política de defesa europeia. A Grã-Bretanha embora integrando a NATO terá – em consequência de decisões políticas recentes – de assumir-se como um ‘player autónomo’ ou, se quisermos, de interface. Não parece que, depois da cimeira de Varsóvia, se possa falar de coesão da Aliança. Pelo contrário, qualquer observador atento detectará evidentes sinais de divergência.

A Rússia enquanto ‘herdeira’ de uma União de Repúblicas que, em 1991, implodiu, tem, certamente, ambições de geoestratégicas e, para além disso, é uma potência militar possuidora de um vasto arsenal nuclear. O seu alinhamento com a Europa Ocidental, como sucedeu no passado com a maioria dos povos eslavos, tem sido conflituoso. Todavia, a Rússia sabe que a Europa só será forte e influente quando um abrangente diálogo intereuropeu a incluir. Ora, os passos que a NATO pretende dar, vão no sentido contrário, pelo que será justo a UE interrogar-se sobre a pertinência dessa velha estratégia redefinida de novo em Varsóvia.

Na verdade, a Europa soma problemas atrás de problemas desde as dificuldades de resolução da crise económica e financeira (um crescimento anémico e uma alta taxa de desemprego), ao problema dos refugiados (que tem causado fracturas entre Leste e Oeste europeu que acrescem às tradicionais entre o Norte e o Sul) e mais recentemente não pode ignorar a convulsão política advinda do ‘Brexit’ (com implicações de toda a ordem), para se mostrar disponível no sentido de aprofundar o confronto com a Rússia. Já bastam os problemas criados com a intervenção do Iraque e ainda a desenvolver no terreno múltiplas consequências. Sejamos claros: quer os problemas do terrorismo, quer o dos refugiados, têm a sua génese em 2003 e, mais concretamente, na invasão do Iraque.

Na cimeira de Varsóvia 2016 adiou-se, mais uma vez, resoluções sobre os problemas cruciais que afectam o Médio Oriente, em que a NATO esteve envolvida, como foram (e ainda são) as ‘primaveras árabes’ e onde o caso mais paradigmático é o da Líbia. Também se contornou o problema do terrorismo, no presente alimentado pelo Daesh, deixando literalmente reduzida a futura intervenção a uma melhoria dos sistemas de troca de informações.

A sensação residual é que a cimeira de Varsóvia ‘passeou’ por um lago onde as águas turvas iludiram – para já – o pântano subjacente. É óbvio que os EUA continuam a ser a força militar hegemónica na Aliança Atlântica mas não deixa de ser verdade que, depois da queda do muro de Berlim, não existiram as necessárias inflexões estratégicas que fossem para além de um progressivo e calculista alargamento. 
A permanente consonância da Aliança com as estratégias globais da política externa americana, não favorece a criatividade (e as oportunidades) de elaboração de novas opções e atira irremediavelmente a Europa para uma medíocre subalternidade, comprometendo o seu papel no Mundo.

Quando se ouvem tonitruantes afirmações e declarações, oriundas da Administração norte-americana, acerca da existência (ou da necessidade) de uma Europa forte e coesa link e simultaneamente se registam as hesitações de Hollande e Merkel é difícil não recordar uma grande figura da história da Europa no pós-Guerra. 
Trata-se de Charles de Gaulle que defendeu convictamente uma Europa com uma vasto âmbito geopolítico ‘do Atlântico aos Urais’ e sempre questionou – até à retirada da França em 1966 - as opções estratégicas políticas e militares da NATO, desenhadas a regra e esquadro por Washington, porque as considerava como erróneas em termos conceptuais e, ainda, como tendo insuportáveis custos políticos para os reais interesses europeus.

Hoje, com a ‘nova ordem mundial’, surgida após a ‘guerra fria’, as elaboradas e convictas opções estratégicas do velho general, para a Europa (o Brexit é um exemplo acabado disso), necessitariam, obviamente, de actualizações e de adaptações mas, no essencial, assentam sob pressupostos ainda válidos.

De Gaulle durante a última semana deve ter dado voltas na tumba onde jaz, na pequena comuna das Ardenas, em Colombey-les-Deux -Églises.

Os desastres não são para todos


Durão Barroso está ao leme, não para salvar os passageiros, mas para recolher os despojos ao serviço do Goldman Sachs.

A frase

«O 'banco do mundo' para onde agora vai Durão Barroso, ou 'a firma' como também é desdenhosamente apelidado, tem, entre outras medalhas na lapela, a responsabilidade de ter ajudado a maquilhar, durante anos, as contas públicas da Grécia.»

(Fernando Ivo Carvalho, Jornal de Notícias)

sábado, julho 09, 2016

Violência: as lições de Dallas…

A sociedade americana alberga no seu seio vários focos de tensão. Dois deles tornaram-se bem visíveis nos últimos dias: A questão racial e o problema da compra e posse de armas.
Os incidentes de Dallas link são o derradeiro episódio de uma série de 'terror cívico', bastante longa e incompreensível, que obrigam a uma reflexão.

A questão racial nos EUA manteve-se em ‘banho-maria’ desde os grandes movimentos de massas pelos direitos cívicos, ocorridos nos anos 60, onde pontificaram figuras como Malcom X e Martin Luther King.
A Lei dos Direitos Civis, promulgada em 1964 na presidência de Lyndon B. Johnson, um ‘acidental’ sucessor do Presidente John Kennedy que já havia mostrado ter sensibilidade política para estes problemas enfrentando uma cerrada oposição do Congresso, é, acima de tudo, uma natural consequência de uma longa luta de resistência às iniquidades, de carácter predominantemente pacifista. 

O acto legislativo deu suporte legal ao fim de anacrónicas e abjectas discriminações mas, por si só, não foi capaz de incentivar uma cultura de abertura social, de tolerância cívica e de (com)vivência democrática.
Há alguns anos a esta parte que manifestações do tipo segregacionista reacenderam-se por toda a União traduzindo uma tensão latente que o tempo parece não ter resolvido, muito mais notória nos Estados do Sul. E o epifenómeno manifesta-se a partir de inexplicáveis episódios de violência policial. O número de afro-americanos e hispânicos mortos em resultado de confrontos policiais ou de actividades de rotina das forças de segurança pública nos EUA, durante o último ano (2015), é verdadeiramente impressionante (321 vítimas segundo a Mapping Police Violence link).

Interessa apurar se este crescendo tem alguma coisa a ver com indisfarçáveis laivos racistas residuais em sectores mais retrógrados do espectro político norte-americano, nomeadamente com um vasto e activo sector adstrito aos republicanos conhecido na gíria como ‘Tea Party’? 

Uma segunda pergunta que se coloca é indagar que tipo de treino e formação têm estes corpos policiais?

Por outro lado, o problema das armas é uma melindrosa questão, com rebate constitucional, que infecta a sociedade americana. 
Muitos americanos ainda vivem na senda onírica da ‘conquista do Oeste’ e nos tempos dos ‘cow-boys’, ignorando que as questões da segurança individual dos cidadãos, nos dias que correm, não dependem do rifle à cintura nem da agilidade de o sacar. A segunda emenda constitucional que estipula o direito do uso e porte de armas é um documento datado (ano de 1791) que está inserido na longínqua e gloriosa luta pela independência contra a dominação colonial mas que, no tempo presente, não tem qualquer adesão à realidade política e social dos States e do Mundo.

Hoje, a situação e a análise dos problemas da compra e porte de armas nos EUA está completamente pervertida e a NRA (National Rifle Association), fundada em 1871, nascida para associar praticantes de tiro e da caça, tornou-se num dos grandes lobbys políticos americanos, vivendo e influenciando a órbita mais conservadora (ultramontana) do Partido Republicano. 
A perversa justificação política usada para defender a venda livre e justificar o porte de armas é que o ‘povo armado’ (as ‘milícias’ de então) seria a garantia (em armas) contra qualquer forma de tirania oriunda de Washington. Esta foi desde sempre uma posição que o stablishmen político americano (republicano ou democrata) usou contra actos insurreccionais e/ou revolucionários, ocorridos pelo Mundo, pelo que não se compreende que o que é considerado mau lá fora e óptimo em casa.

Dito isto, nos tempos actuais, existem duas situações catalisadoras para o exacerbar de problemas que tem conduzido a repetidos massacres e 'execuções' sumárias na via pública.

Primeiro, o Partido Republicano utiliza a ‘questão das armas’ para combater a actual Presidência, ocupada por um democrata a que acresce possuir uma origem étnica e social afro-americana e tem sistematicamente obstaculizado todo e qualquer controlo ou regulamentação federal sobre esta questão. 
O ‘perigo’ para os Republicanos é uma eventual tirania oriunda do exercício do poder pelo Partido Democrático e esta corrente política pretende ter à disposição meios violentos capazes de reagir ou de, pelo menos, perturbar a ‘ordem pública’. Nos tempos que correm esta é uma atitude com reminiscências históricas e de peso meramente simbólico – as questões de poder definem-se e dirimem-se noutros âmbitos - mas que, por fidelização a ideais (ultra)conservadores, convém preservar. Durante muito tempo o ‘Mundo Ocidental’, com os EUA à cabeça, utilizou este argumento para hostilizar e combater forças políticas e sociais de Esquerda, denominando estas 'atitudes' como sendo de – ‘subversão’.

Segundo, em certa medida, a sociedade americana está a pagar o preço por tolerar (e em parte apoiar) uma inqualificável campanha protagonizada, no momento, por Donald Trump, onde a segregação rácica (não só em relação aos afro-hispano-americanos), a discriminação social com base em diferenças religiosas e uma oculta megalomania engrandecedora da América visando a enfatização de um imperial ‘poderio yankee’, só podem conduzir ao desastre.

Estas são lições (não as únicas) a tirar sobre os graves incidentes da última semana em Dallas.