quarta-feira, agosto 31, 2016

No 80.º aniversário de um herói de Abri


Parabéns ao comandante militar e estratega do 25 de Abril, que na mais bela de todas as Revoluções restituiu a Portugal a liberdade e aos portugueses a dignidade.

Pode ter sido sinuoso o percurso da sua vida, mas há momentos que valem várias vidas, dias que marcam a História e madrugadas que valem séculos.

Obrigado, Otelo.

Notas soltas – agosto/2016

Moniz Pereira – O grande artífice do atletismo português não foi só o criador de atletas de alta competição, de mérito inexcedível, foi atleta multifacetado, professor notável e destacado homem de cultura e das artes. Morreu aos 95 anos esta personalidade ímpar.

Brexit – O apoio dos governos da Polónia e Hungria ao oportunismo de Cameron, com que cessou o prazo de validade, devia fazer refletir a UE. Urge recordar Michel Rocard, adversário da guerra da Argélia e federalista, nos antípodas do liberalismo do PPE.

UE – O medo e a animosidade ao aprofundamento da integração europeia escancararam as portas à economia global, que se prepara para nos asfixiar, e aos populistas europeus, que usam a demagogia e provocam o pânico para condicionarem o eleitorado.

Texas – Entrou em vigor, aprovada pelo Governador e a maioria republicana, a lei que democratiza o uso de armas nas universidades. Os alunos podem usá-las nos campus, salas de aulas e dormitórios. É o nono Estado americano a conceder tal direito.

Filipinas – O novo presidente, Rodrigo Duterte, tomou posse em 30 de junho e apelou à execução popular de narcotraficantes e consumidores, tendo sido mortos 600 suspeitos no primeiro mês, e a sua taxa de popularidade disparou para mais de 90%.

Incêndios – A incúria, o fim da agricultura tradicional, o desordenamento do território, os negócios obscuros, incluindo o dos incêndios, e mãos criminosas, tudo se conjuga na monótona repetição de um país a arder em cada novo estio.

Maria Luís Albuquerque – Quem deixou a CGD, o Banif e o Novo Banco em estado calamitoso, por pudor, devia calar as suas opiniões. A contratação por um fundo-abutre não certifica a sua competência, apenas troca informações por um salário.

Slobodan Milošević – O presidente da Sérvia, após bombardeamentos cruéis da Nato e amputação do Kosovo, foi preso e morreu difamado numa masmorra do TPI. Dez anos depois, o TPI declara inocente o patriota que quis evitar ódios étnicos. A sua inocência foi totalmente ignorada pela comunicação social que, antes, o acusou e condenou.

Timor – O Conselho de Ministros, liderado pelo primeiro-ministro Rui Maria Araújo, aprovou a doação de dois milhões de euros para ajudar no combate aos fogos e no apoio às vítimas portuguesas. É comovente ver os pobres a dar. Os ricos tiram.

Jogos Olímpicos – Com a democracia usurpada por juízes, segurança precária e futuro incerto, o Brasil conseguiu levar a cabo a realização dos Jogos de 2016. Portugal é que não conseguiu uma participação que fugisse à mediocridade e desilusão.

Turquia – A tentativa de golpe militar permitiu a Erdogan decapitar a magistratura, as Forças Armadas, a função pública e tudo o que se lhe opunha. Lembra algo de parecido com o “Incêndio do Reichstag”, em fevereiro de 1933, que levou Hitler ao poder.

PR – As constantes aparições na comunicação social e declarações sobre temas que não são da sua competência vão prejudicá-lo a prazo, mas o seu sentido de Estado tem sido visível na defesa dos interesses de Portugal e na estabilidade das instituições.

Islamismo – O burkíni cobre todo o corpo da mulher e está a ser interdito nas praias e piscinas públicas francesas. O espanto pela proibição de tão pudico adereço não previa que fosse um símbolo do extremismo Wahhabista a desafiar a democracia.

Alemanha – O ministério do Interior acusa a Turquia de ajudar os Irmãos Muçulmanos do Egito, Hamas e grupos islamitas armados, na Síria. A difusão do documento secreto, pela televisão pública, criou um incidente diplomático, mas desmascarou Erdogan.

CDS – A proximidade com o MPLA, afirmada pelo deputado Daniel Amaral, reforçada pela presença de Paulo Portas, no congresso de Luanda, surpreendeu quem sabia o CDS cúmplice da UNITA, partido racista e tribal. Quanto terá custado a transferência?

Aquecimento global – 2015 foi o ano mais quente desde que há registos [1880]. Em 2012 a NASA anunciou um degelo na Gronelândia sem precedentes nos últimos 150 anos. O nível do mar sobe. E ainda há quem despreze a sobrevivência do Planeta.

Nigéria – A negritude e o facto de ser em África explicam a escassa atenção à crueldade do grupo muçulmano Boko Haram, que rapta, assassina e reduz à fome o Nordeste da Nigeria, onde 4,5 milhões de pessoas estão em risco de morrer. É uma tragédia fatal.

CGD – Por maiores erros que venham a ser cometidos, não se comparam à incúria com que o único banco do Estado foi tratado pelo Governo anterior, desejoso de o privatizar. A manutenção na esfera pública e a recapitalização eram um imperativo patriótico.

Colômbia – “Um Acordo Final, integral e definitivo” entre o Governo e as FARC sobre o fim da guerra civil, que em 52 anos provocou 260 mil mortos, 45 mil desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados, é uma notícia auspiciosa. Falta resolver a ‘questão agrária’.

Papéis do Panamá – Depois do ruidoso anúncio da colossal informação sobre fugas ao fisco e do atual silêncio sepulcral sobre o espólio, é altura de perguntar quem está a ser protegido e se o material está confiscado pelo Expresso e TVI.

II Guerra Mundial – Foram conhecidos este mês mais documentos que comprovam a cumplicidade de Salazar com Hitler. Em Aljezur, os ingleses abateram, em 9-7-1943, o avião nazi, com 7 tripulantes, que pretendia atacar um comboio de navios ingleses.


Pedro Passos Coelho – Mentiu, ao dizer que o País é dirigido pelo PCP e BE, e, ao usar a linguagem salazarista contra os comunistas, revelou uma débil formação democrática, e acordou medos que quatro décadas de democracia tinham adormecido. 

terça-feira, agosto 30, 2016

A Igreja católica e os nossos impostos

No caso dos colégios, os clérigos querem que a caixa das esmolas regresse com o óbolo dos impostos de todos os portugueses, independentemente do credo ou ausência dele de cada contribuinte.

No caso do IMI, não se contentam com a isenção dos templos, sacristias e terrenos pios (os santuários), querem que os edifícios onde moram, os colégios onde ensinam e todos os outros em que exercem atividades lucrativas fiquem isentos.

No fundo, não se consideram cidadãos portugueses, julgam-se súbditos do Vaticano e esperam pagar com indulgências e ave-marias o que a concorrência paga em euros.

Os privilégios concedidos por um Estado débil, a pensar nos votos dos devotos, não são perpétuos, embora o direito canónico os equipare a sacramentos, sobretudo quando não distinguem entre as isenções que, bem ou mal, foram concedidas e as que pretendem acrescentar.

A gula só é um pecado para o mundo profano.

segunda-feira, agosto 29, 2016

A frase de Passos Coelho

“Quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas?” [sic]

Ontem, ouvi a frase em epígrafe a quem, por ironia da História e cumplicidades que um dia se conhecerão melhor, chegou a primeiro-ministro de Portugal, sem antes ter gerido mais do que a Tecnoforma. Sabe-se que se esquecia de pagar à Segurança Social e não se esquecia de exigir o vencimento de deputado em exclusividade de funções, como se fosse essa a sua situação.

Ontem, ao ouvir aquela linguagem, recuei 50 anos e senti um calafrio. Julguei assistir ao regresso da União Nacional e da Pide, da censura e das prisões arbitrárias, da difamação e tortura dos adversários, e de assassinatos de comunistas e sociais-democratas, na via pública e nos presídios, por combaterem o partido único.
Saberá o medíocre cidadão e execrável político que Sá Carneiro e Magalhães Mota (terá ouvido falar do primeiro), os dois primeiros nomes da fundação do seu partido foram ministros de governos patrióticos com Álvaro Cunhal e Mário Soares?

Um discípulo de Salazar, por ignorância e boçalidade, bolçou insultos que eram comuns na ditadura. E foi aplaudido. O país ensandeceu. O fascismo regressa. A ignorância está a comandar o regresso. A grosseria circula como argumento e a mentira como arma.

O medo é o instrumento da castração de um povo e até um idiota o pode instigar.
 
Passos Coelho é indigno do País que lhe permitiu ser PM e a cobardia e o ressentimento são a herança que a formação salazarista lhe transmitiu.

Não é um cidadão respeitável, é um homúnculo despeitado. E mente.

Apostila – Quem me conhece sabe que sou um social-democrata, sem ligações partidárias, mas não esqueço quem encontrei na luta contra o fascismo e, sobretudo, quem teve o maior quinhão de sofrimento. Por isso, ainda não perdi a capacidade de me indignar.

TTIP: pompas fúnebres? …


Na ‘silly season’ nem tudo entra de férias e não acontecem só superficialidades enfatizadas pela imprensa cor-de-rosa ou terríveis desgraças transferidas para esta época para passar ao lado do crivo da cidadania. Há de tudo um pouco.
 
A começar pelo discurso catastrofista de Passos Coelho na Festa de Quarteira, mas apelidada do Pontal, passando pelas peripécias do BCE acerca da CGD e os erros governamentais à volta das nomeações para o Conselho de Administração e a terminar na notícia sobre um eventual falhanço das negociações para o TTIP (tratado de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), anunciada pelo ministro da Economia alemão Sigmar Gabriel link, estamos perante um rodopio de assuntos capazes de perturbar a esperada languidez da época estival.
 
Fiquemos pelo TTIP. Raramente um projecto de negociação levantou tantas suspeitas aos europeus. Da parte americana existe uma relativa absorção pelos problemas internos e o referido Tratado tem ficado à margem das discussões eleitorais para a presidência dos EUA link. Aliás, era intenção do actual presidente Obama deixar este assunto encerrado ao seu sucessor, o que estará cada vez mais longe de acontecer. 
 
O Tratado que tem evoluído num clima do maior secretismo - nunca foi pensado para beneficiar cidadãos incidindo fundamentalmente sobre os interesses das grandes empresas – sempre suscitou dúvidas, mesmo nos círculos mais liberais.
Várias questões gravitam à volta desta parceria euro-americana. Desde a capacidade dos investidores processarem os Estados (europeus, entenda-se), à intromissão das corporações empresariais na elaboração das futuras legislações comerciais, até a uma profunda subtracção de direitos aos trabalhadores (os EUA só reconhecem 2 das 8 normas consideradas fundamentais pela OIT) e um intolerável incremento do desemprego da ordem de mais de meio milhão de trabalhadores (previsto e quantificado pela Universidade de Tufts, em Boston link), conferem a estas negociações um carácter verdadeiramente assustador.
 
Para além das acusações genéricas de que este tratado seria uma submissão às exigências norte-americanas, julgo que a Europa pode agradecer este falhanço ao Brexit.
O povo costuma dizer que há males que vêm por bem. Assim seja e que descanse em Paz!
 

domingo, agosto 28, 2016

BRASIL: O Senado Federal e as vicissitudes de um fórum político judicializado…

O ‘julgamento’ de Dilma Roussef continua a decorrer nas instâncias políticas brasileiras, de acordo com o estabelecido constitucionalmente e, neste momento, aproxima-se da recta final com a sessão - em curso - no Senado Federal.
As circunstâncias intrínsecas (objectivas) de como está a decorrer este ‘julgamento’ são extremamente reveladoras da imensa carga política que lhe está inerente, o que tem sido denodadamente ocultado.
 
Os ‘julgamentos políticos’ sempre mereceram a suspeição dos cidadãos, conduzem inevitavelmente a ‘sentenças políticas’ e eventualmente a ‘encarceramentos políticos’, sejam demissões, deportações e exclusões e acabam, sempre, por funcionar como um boomerang vindo, tarde ou cedo, a atingir os seus autores, fautores e apoiantes.
 
Estes comportamentos equívocos e nada transparentes são mais frequentes em ditadura mas não deve ser afastada a possibilidade de ocorrerem num regime democrático (se a ausência de ética e a momentânea correlação de forças o permitir). O que parece ser o caso do 'impeachment' de Dilma. Para quem manifeste dúvidas é só rever o turbulento e vergonhoso processo ocorrido na Câmara de Deputados federal link.
 
O ‘travestismo’ dos políticos em juízes é, em si mesmo, uma aberração. Os políticos em democracia são eleitos mas não adquirem qualquer direito ou preponderância sobre os eleitores. Aliás, depois de eleitos, tornam-se os representantes democráticos desses eleitores, mas não vivem por conta própria e não podem dispensar ou prescindir de motu próprio dos escrutínios populares futuros (a última instância decisória) que não deixarão de julgar o passado.
 
Aliás, para assumirem a condição de julgadores, desde logo, pecam por lhes faltar as condições básicas para tal exercício, como seja, a independência (correm por programas partidários e alinham-se por questões várias desde as ideológicas aos interesses mais ocultos e dispares) e a irresponsabilidade das suas decisões (Dilma Roussef é acusada de ‘crime de responsabilidade’) são perfeitamente ‘revogáveis’ e ‘penalizáveis’ em futuros actos eleitorais. Por outro lado, como decorre das regras democráticas, os senadores (exceptuando a bizarra figura dos ‘vitalícios’) não são inamovíveis, bem pelo contrário.
 
Na verdade, qualquer processo judicial tem, em Democracia, regras. Quando, no início da sessão que está a decorrer no Senado brasileiro, Aécio Neves, líder do PSDB e candidato derrotado por Dilma Roussef nas últimas eleições presidenciais, aparece a revelar que a ‘base governista’ não vai fazer perguntas às testemunhas de defesa indicadas pela presidente suspensa link, está quase tudo dito sobre as motivações e a isenção deste órgão político em funções judiciosas (de cassação de mandatos).
 
O 'quase' surge porque nem tudo foi dito e a procissão ainda vai no adro, apesar dos acordos prévios de bom comportamento e evicção dos insultos. Tudo é (ainda) possível, mas o lapsus linguae do senador Aécio que - mais uma vez -  equivocou-se e, no caso vertente, é nítida a confusão entre uma ‘base golpista’ (real) e uma eventual ‘base governista’ (abstrata e 'fabricada')…

Burkíni – uma lamentável coincidência

Um mês depois do massacre de Nice, perpetrado por um demente fascista islâmico, foi uma infeliz coincidência que as mulheres islâmicas, sedentas de sol e água, procurassem as praias locais para estrear fatos de banho adequados às normas do Corão.

E houve quem, malevolamente, visse na pudica manifestação lúdica de fé uma provocação e não uma coincidência.

Há quem veja política em tudo e confunda a piedade com a provocação, quando as vítimas já levam 1 mês de defunção. Podiam lá lembrar-se as muçulmanas de uma tragédia tão antiga!

sábado, agosto 27, 2016

COLÔMBIA: entre a ancestral luta pela posse da terra até à insurgência das FARC…


O acordo de paz assinado pelo presidente da Colômbia e o representante das FARC, no passado dia 25 de Agosto  link, em Havana, carrega às suas costas uma larga carga política, uma longa luta armada e muita violência.
 
Para entendermos a génese de um movimento guerrilheiro que alimentou uma luta durante 50 anos (para alguns países – EUA, EU – apelidado de ‘terrorista’) será necessário recorrer à inventariação de alguns factos históricos (muitos ficam de fora desta resumida súmula) sempre ligados à ‘questão agrária’ que persistindo, no tempo e no terreno, contaminaram e fizeram arrastar um conflito e provocaram tantas mortes.
 
A Colômbia viveu no final do seculo XIX até os anos 30-40 - início da II Guerra Mundial - um próspero ‘período cafezeiro’ que, sendo a principal exportação da Colômbia, valorizou a terra (propriedade rústica), exacerbou os apetites pela sua posse, promovendo a concentração fundiária (latifúndios) e foi a mola propulsora para criar uma insanável ‘questão agrária’ que, não encontrando resolução, nem no diálogo político-partidário, nem num projecto de desenvolvimento nacional que integrasse o meio rural e fosse capaz de redistribuir a riqueza, acabou por envolver o País num processo de profunda crispação política e social e abriu uma longa caminhada para a violência envolvendo tudo e todos: Governo(s), militares, partidos, sindicatos, grupos para militares, organizações civis e, finalmente, uma insurgência nacional que alimentou uma longa e dramática ‘luta de guerrilha’.
 
Será simplificar – mas de qualquer maneira importante para permitir alguma compreensão do problema – reportar o início das lutas internas na Colômbia ao status quo que vigorou alimentado pelos dois partidos tradicionais o Liberal e o Conservador (que se alternaram no poder durante mais de 1 século) mas, fundamentalmente, a uma insolúvel ‘questão agrária’ que, desde Bolivar (um dos ‘inspiradores’ do partido Conservador colombiano), passa pela posse da terra e a redistribuição da riqueza.
 
A criação, a partir de 1931, de inúmeras ‘Ligas Agrárias’ introduziu um novo campo de disputas na Esquerda colombiana onde o partido Comunista (PCC) e a União de Esquerda Revolucionária (UNIR) dissidência do partido Liberal, tiveram uma acção relevante e mobilizadora do campesinato.
 
Efectivamente, tudo se exacerbou quando o Partido Conservador colombiano tentou resolver a disputa pela posse da terra pelo confisco as terras aos camponeses, levantando uma ‘Questão Agrária’, o verdeiro motor da revolta.
 
O assassinato, em 1948, do candidato à presidência da Colômbia, o advogado, político liberal progressista (dirigente da UNIR), Jorge E. Gaitán,  veio colocar a capital Bogotá em pulverosa sob uma onda de destruição e protestos (o ‘Bogotazo’) e as movimentações populares posteriormente estenderam-se a quase todo o País, dando origem a um período conhecido por ‘La Violencia’, altamente conturbado, mortífero e destruidor, que se estendeu por uma década (1948 a 58).
 
Durante este período e com a cumplicidade de multinacionais norte-americanas, nomeadamente a United Fruit Company, os EUA impuseram uma ditadura militar chefiada pelo general Rojas Pinilla que - como é da praxe - governou conluiada com os referidos terra-tenentes, grupos armados paramilitares, o apoio financeiro de multinacionais do café, bananas (Chiquita Brands), cana-de-açúcar, óleo de palma, etc. e, instrumentalmente, utilizou - para a concretização das políticas sobre a terra e de combate a revolta dos camponeses - uma feroz repressão que se traduziu em milhares de mortos.
 
Gabriel Garcia Marquez, dá no seu extraordinário livro ‘Cem Anos de Solidão’ um expressivo retrato literário destas lutas.
 
Em 1961, na sequência das amplas movimentações campesinas e, também, de alterações das políticas do capitalismo americano para a América Latina ( a famosa ‘Aliança para o Progresso’), mudança que ocorre a reboque do êxito e consolidação da ‘revolução cubana’, surge uma nova ‘reforma agrária’.
 
Na sequência desta reforma foi criado o Instituto Colombiano da Reforma Agrária (ICORA) um pouco à revelia dos partidos institucionais, todavia, a ‘Reforma Agrária de 1961’, pouco de inovador comporta e não ataca frontalmente os problemas da vida rural e campesina, sendo uma tímida tentativa dar corpo à incipiente ‘reforma de 1936’ que, logo seguida, foi objecto de uma ‘contra-reforma’ (Lei 100 de 1944). Esta lei (re)introduziu uma actualização da transformação capitalista do sector agrário, configurando um modelo de produção extensiva (de escala), sem mexer no regime latifundiário.
Logo, a oportunidade de enfrentar a questão agrária gorou-se porque o âmbito dessa (pseudo)Reforma pouco mais além ia do que regulamentar a titularidade da terra, não alterando as estruturas e condições da vida rural manteve o ciclo de empobrecimento endémico e progressivo dos camponeses e pequenos proprietários.
 
Na realidade, a reforma agrária de 1961, para além de acertos pontuais na estrutura fundiária para ocultar injustiças gritantes, mais não pretendia do que facilitar a modernização das produções detidas pelos grandes proprietários agrícolas. Este contornar da resolução dos problemas agrários (que sucessivas tentativas de reformas não resolveram) viriam a agudizar a situação política e social interna e demonstravam a absoluta incapacidade de mudar a situação pela vias institucionais.
 
A 'reforma agrária de 1961' viria a ter como consequência também uma outra perversão e foi a porta de entrada, escancarada, para a deriva produtiva dos campos na senda da rentabilidade a qualquer preço, isto é, a narco-produção (cocaína). O ‘cultivo da coca’, uma cultura tradicional colombiana (pré-colonial), cresceu exponencialmente a partir da década de 60, foi uma oportunidade de subsistência para os pobres camponeses mas, rapidamente, transformou-se num negócio cartelizado, baseado em organizações criminosas, que acrescentaram ainda mais violência à sociedade e, a partir da década de 80, constituiu também uma importante fonte de financiamento da guerrilha, ideologicamente muito difícil de explicar e um insuportável desvio ético.
 
As FARC nasceriam alguns anos depois do logro da 'reforma agrária de 1961', formalmente em 1964, sob o signo da recorrente e insolúvel ‘Questão Agrária’ mas, na prática, só começou a operar depois da 2ª. ‘Conferência do Bloco Sul’ (1966), realizada na inóspita região de El Pato, onde são eleitas as chefias militares e organizados 6 destacamentos guerrilheiros.
 
Depois foram 50 anos de luta mas, por questões de espaço, fiquemos por aqui.
 
À laia de conclusão resta afirmar que o acordo alcançado em Havana há poucos dias, tem necessariamente de resolver, para além da integração política, económica e social dos guerrilheiros, o problema central, isto é, a ‘questão agrária’. Uma tarefa para os tempos contemporâneos, onde se imiscuem problemas de competitividade e de rendimentos dos camponeses, numa América Latina instável e face às dificuldades de um mundo varrido pela onda globalizante. Será necessário um esforço hercúleo.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Jacobinismo, democracia e adereços pios

Apesar da sanha contra o jacobinismo, injustamente recordado pela violência, gratuita e intolerável, deve-se-lhe a genuína defesa da democracia, razão do ódio dos que têm uma herança menos recomendável na defesa das liberdades e mais pesado na crueldade.

O jacobino, exatamente por amor à liberdade, não aceita que a limitem os que a odeiam, a desafiem os que a pretendem destruir, e a minem os que impõem verdades únicas.

As religiões, sobretudo as que não sentiram a repressão do seu clero, obrigado a aceitar o laicismo, são hoje um fator de instabilidade e de terror, imposto pela fúria demente de um proselitismo incansável e inadmissível.
Como as leis dos países civilizados e democratas são obrigatoriamente abstratas, gerais e imperativas, não se deve, por exemplo, interditar o burkíni, quando a burka já cai sob a alçada da proibição, por razões de segurança, de ocultar o rosto.

Sendo a discriminação inaceitável e impune o desafio não violento à democracia, não há forma de evitar as provocações do Islão político, sem impedir a apropriação do espaço público pelas religiões.

Proibir, no espaço público e organismos oficiais, as indumentárias que manifestem uma pertença religiosa pode tornar-se necessário para garantir a tranquilidade, evitar insultos e defender todos os cidadãos da discriminação e animosidade das religiões concorrentes.

É intolerável que as ruas sejam ocupadas por crentes que aí procuram rezar (provocar) e promover a fé, impedindo o trânsito. A lei terá de proibir, fora dos locais de culto, as vestes clericais e adereços litúrgicos, mitras, tonsuras, batinas, burcas, kipás ou hijabs, bem como todas as vestes que os clérigos e crentes de qualquer religião exibem.

Urge impedir o retorno das rivalidades pias e da guerra de religiões que já está em curso no espaço europeu. Não podemos ignorar a atmosfera de medo que limita a liberdade, o terrorismo que ameaça a democracia e a demência religiosa que destrói a civilização.

A herança renascentista e iluminista da Revolução Francesa, civilização que nos coube, não pode ficar à mercê de quem troca os Direitos Humanos pela ilusão do Paraíso.

A proibição exclusiva do burkíni, condenada por quem não quer perceber o contexto, e ontem expressamente apoiada pelo PR francês, beneficia os cúmplices do terrorismo e tem o apoio dos inocentes úteis.

quinta-feira, agosto 25, 2016

CGD: os pontos nos iis…

A hipocrisia de Passos Coelho continua a revelar-se no problema da Caixa Geral de Depósitos (CGD).
 
Quem vivesse noutro planeta e estivesse completamente divorciado  do contexto nacional poderia ser induzido a julgar que esta instituição bancária teria sido criada pela denominada ‘geringonça’.
Quando pede explicações sobre os ‘custos da recapitalização’ e adianta a mórbida curiosidade em conhecer "quantos trabalhadores serão despedidos" e "quantos balcões encerrados"[ link ] está pura e simplesmente a revelar como seria ‘sua recapitalização’.
 
A verdade é que os problemas da CGD foram-se acumulando nos últimos 4 anos e sistematicamente ocultados pelo governo Passos Coelho/Paulo Portas/Maria Luís Albuquerque. Todos sabemos que a situação da CGD não nasceu ontem.
 
As rábulas à volta desta recapitalização, encenadas pelo PSD e CDS, mais não têm feito do que prejudicar o sistema financeiro nacional.
 
Os custos desta inadiável recapitalização terão directa ou indirectamente um rebate orçamental. Mas não é isso que preocupa Passos Coelho.
O que verdadeiramente incomoda o ex-governante é que uma recapitalização bem-sucedida tem como consequência gorar os seus secretos desejos (e projectos) de privatização deste banco público. E esta situação não é de somenos importância. A CGD é um dos poucos sobreviventes da ‘saga privatizadora’ do Governo PSD/CDS que, ao longo de 4 anos e meio, alienou tudo o que fosse - ou ‘cheirasse’ a - público.
 
O processo de recapitalização da CGD não está isento de incidentes como tem sido referidos na imprensa que passam pela atitude ‘paternalista’ do Banco Central Europeu e com as atribulações do processo de nomeação da nova administração .
Mas para além dos tropeções circunstanciais o substancial é o Estado continuar a manter na esfera pública o maior banco português e dar-lhe a pujança necessária para poder cumprir um novo papel no desenvolvimento económico.
 
Os contribuintes portugueses que tanto dinheiro tem despejado na banca privada saberão distinguir o que é um financiamento público de um banco público das nacionalizações e ‘resoluções’ públicas de bancos privados para o enriquecimento de alguns. Passos Coelho espera que os portugueses não tenham esse discernimento.
 
Todavia, 4 anos e meio de várias extorsões foram abrindo os olhos aos cidadãos.

Portugal, a Concordata e o fisco

As igrejas não pagam IMI nem vão passar a pagar, por serem locais de culto, mas, por exemplo, as instalações destinadas a fins educativos passarão a pagar. E basta o facto de a lei passar a ser cumprida para agitar as mitras, brandir os báculos e azedar as homilias.

Os tratados entre Estados não são referendáveis (CRP), mas são passíveis de ‘denúncia’, ou seja, assiste a cada uma das partes o direito unilateral de lhes pôr termo.

A Concordata é um tratado assinado entre o Estado do Vaticano e países católicos, uma obsessão que conduziu a funestas alianças com países fascistas. O Vaticano resultou dos Acordos de Latrão, a Concordata com Mussolini (‘o envido da Providência’, segundo o Papa de turno), que lhe concedeu largas somas de dinheiro e comprometeu a Itália com o ensino obrigatório da religião católica em escolas públicas, direito que perdurou várias décadas depois da derrota do fascismo.

A Concordata é um instrumento de inaceitáveis privilégios da Igreja católica em países que o Vaticano considera católicos (como se os países laicos pudessem ser definidos de forma confessional) e que serve de chantagem sobre os governos que recusam que o seu País se torne um protetorado pio.

A guerra dos colégios e a luta contra o IMI são a face visível da guerrilha que nasce nas sacristias e ameaça as ruas portuguesas.

Espera-se que as mitras não façam perder a cabeça aos clérigos e se conformem com um Estado laico onde os privilégios a uma religião escancaram as portas a outras.

Depois do 25 de Abril a liberdade religiosa é um direito adquirido e inquestionável em Portugal, não se justificando a manutenção da Concordata ou de qualquer tratado com as diversas religiões que devem ser consideradas e respeitas como meras associações de crentes.

Perante exigências inadmissíveis, uma gula feroz e tiques medievais, urge resistir-lhes.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 24, 2016

Era assim na ditadura

  
A moral e a ditadura

Há entre a pulsão repressiva das ditaduras e o respeito pelos direitos individuais, próprio das democracias, um abismo.

Será certamente perigoso atribuir à moral um desígnio que ultrapasse a simples ciência dos costumes, mas é de uma enorme ingenuidade ignorar as provocações que se fazem à liberdade em nome da tradição e dos ‘bons costumes’.

Há uma memória, sinistra e longeva, eivada de misoginia, que o algoz de Santa Comba Dão se esforçou por preservar. Só depois dele a carmelita Lúcia sentiu a necessidade de pedir a Marcelo Caetano que não autorizasse vestidos curtos e sem mangas. A santidade exige vigilância nos costumes, vigilância que não passa despercebida dentro das grades do Carmelo nem dos próceres das ditaduras.

O salazarismo zelava pela moral e pelos bons costumes.

Foi há 444 anos - Aniversário do massacre de S. Bartolomeu


Dois anos depois do tratado de paz em que Catarina de Médicis tinha oferecido tréguas aos protestantes, estes foram vítimas do mais hediondo massacre católico na noite de 24 de agosto de 1572.

Foi o massacre mais cruel do século XVI contra protestantes. No dia de S. Bartolomeu, dezenas de líderes huguenotes foram assassinados em Paris, numa série coordenada de ataques planeados pela família real.

O crime valeu a Carlos IX, rei de França, a mais alta condecoração papal – a Rosa de Ouro – que o Papa Gregório XIII lhe enviou, apesar da diminuta responsabilidade do jovem rei, ainda dominado pela mãe.

A encomenda de um Te Deum, pelo Papa, para ser cantado em ação de graças, e de uma medalha cunhada com a frase Ugonottorum strages 1572 com um anjo a empunhar uma cruz e uma espada perto dos protestantes mortos, deixou nos protestantes a convicção de que o catolicismo era uma religião sanguinária e traiçoeira.

As guerras religiosas são uma trágica herança europeia onde os novos ódios religiosos despontam.

Fonte principal: Wikipédia.

terça-feira, agosto 23, 2016

Já não há milagres como antigamente_2


Do meu amigo e familiar Carlos Ferreira, que alia a enorme cultura a um refinado gosto estético, publico a mensagem e a sua excelente foto.

«Há mais por cá, Carlos (a wikipédia regista 16 casos em França). Aqui tens, na foto que tirei da imagem existente na abadia cisterciense de Chambon-sur-Voueize (Creuse), Santa Valéria de Limoges. A cefalófora (que palavras aprendemos com estas histórias da religião!!!) seria filha do governador de Limoges e prometida a um alto funcionário romano pagão, com quem terá recusado casar.

O noivo, despeitado, mandou-a decapitar, mas morre, ele próprio, vítima da cólera divina, no momento da execução.

A santa, decapitada, recolheu a própria cabeça e durante três dias, carregando-a nas mãos, caminhou até ao monte de Saint-Étienne onde S.Marcial celebrava missa e a absolveu, permitindo-lhe morrer em paz (não sei se então terá deixado cair a cabeça, a lenda nada diz sobre tal, nem sei se no céu é permitido entrar com ela nas mãos).»

Já não há milagres como antigamente


segunda-feira, agosto 22, 2016

Silly season – Os tomates e a cruz romana


Dizem-me que o fruto começa a ser alvo da repugnância islâmica, não pela cor, sabor ou aplicações culinárias, mas pela configuração que o corte exibe.

O aparecimento da cruz, ao corte, produz o mesmo incómodo que a cabeça de porco. Os muçulmanos já se lhe referem como ‘frutos cristãos’ e veem, na abundância e na dimensão, um perigo para a fé e uma ofensa ao Profeta.

Mal sabem eles que os portugueses os reduzem a polpa à semelhança do que acontece a certos crentes quando detonam um cinto de explosivos.

domingo, agosto 21, 2016

SÍRIA: tentando decifrar enigmas…

A opacidade da interminável guerra do Médio Oriente – de que a Síria é um dos expoentes mas não o único – adensa-se, diariamente.
 
Numa observação esquemática todos afirmam - não será bem assim - estar contra Daesh, Rússia e Irão a favor de regime de Damasco, EUA e Arábia saudita contra Bashar Al Assad. Uma autêntica ‘salada russa’.
 
Todas estas intervenções no enigmático teatro de operações regional, estão envoltas em disfarces e mentiras. De pouco vale protestar contra a transformação de povos – como é o caso dos sírios e dos curdos – em ‘carne para canhão’.
 
Raqqa, sede oficiosa do Estado islâmico, está sob fogo e, perscrutando as evoluções estratégicas para essa região, deverá cair, simultaneamente, com Alepo. Esta simultaneidade parece ser parte integrante dos jogos de força e diplomáticos.
 
A presença de forças militares norte-americanas (e britânicas) junto a Raqqa é conhecida desde Maio link  e só espanta os inocentes. Bem como o envolvimento do exército persa no assalto a Alepo link .
 
Quer em Alepo link, quer em Raqqa link estão os curdos, não necessariamente do mesmo lado da barricada, mas são provavelmente um dos os únicos intervenientes que lutam por uma causa justa: o seu reconhecimento como povo e a necessidade de (re)fundar um Estado.
 
E no meio disto tudo – uma interminável guerra civil – qual as posições (e interesses) da Arábia Saudita e da Rússia?
 
Provavelmente terão um maior protagonismo (não menos violento) depois das ocupações de Raqqa e Alepo (batalhas ainda em curso).
 
A Arábia Saudita – com o apoio dos EUA e da Turquia (um outro oculto interveniente) – tem vorazes apetites políticos (satélites) que giram à volta de uma preponderância sunita na região em relação à Síria link.
O seu envolvimento contra o regime de Damasco não exclui uma invasão formal do território sírio para o que contaria com o apoio indirecto da NATO, através de um dos seus maiores e operacionais contingente de forças, terrestres, aéreas e navais – a Turquia.
 
A Rússia, para além dos interesses geoestratégicos no Mediterrâneo Oriental (base naval de Tartus e a base aérea de Hmeymin) que seriam seriamente afectados com a queda de Bashar Al Assad, os seus interesses são mais vastos e Moscovo não abdicará de jogar um papel decisivo nos equilíbrios políticos (e militares) no Médio Oriente link.
Para além disso, no campo económico, a Síria, dada a sua localização jogará necessariamente um papel importante no domínio energético, nomeadamente no traçado de ‘gasoductos’ link.
 
Seria oportuno dissecar as complexas relações inter-parceiros de todos os lados desta guerra civil, do papel de alvo principal que representa o Daesh e ao mesmo tempo um alibi intervencionista, bem como das ‘acções telecomandadas’, das organizações religiosas ou mercenárias, no terreno. Não há espaço num post para isso.
 
Por agora interessa compreender o que se passa – em termos genéricos – com os actores principais. E esta compreensão é tanto mais necessária quanto será verdade que dentro de algum tempo os portugueses (e outros ‘aliados’ da NATO) serão chamados a colaborar na prestação de ajuda humanitária a um país devastado.
 
E para isso – ou para julgar a justeza dessa presumível intervenção - existem conhecimentos mínimos que devem ser adquiridos, desde já.

Bancos e MBA(s): negócios, vícios ou feitios?


O Banco Central Europeu mandou 3 administradores (João Tudela Martins, Paulo Rodrigues da Silva e Pedro Leitão), nomeados para o conselho de administração da CGD, estudarem.

Não em qualquer ‘escola’ para preparação de executivos bancários. Mas teve a ousadia de sugerir para o efeito o INSEAD (Institut European d’Administration des Affaires)  link.

Sem querer beliscar ou retirar nível acerca da qualidade do mencionado Instituto a indicação não pode deixar de ser interpretada como uma prepotência (embora tente atenuar o ditakt com ‘uma escola de igual nível’).

Todavia, sendo o BCE o banco emissor e regulador europeu, estando a CGD à espera do agrément europeu para injectar capital, é certo e sabido que a sua sugestão é uma ordem. Não uma ordem qualquer. Melhor será considerá-la uma ‘advertência vexatória’.

Na sequência destas diatribes que as instituições europeias teimam em levar a efeito, com especial incidência depois de Dezembro de 2015 (coincidências?), seria importante que o Estado Português, proprietário da CGD, questionasse o Banco Central sob 2 aspectos:

1º.) O documento, assinado pelo próprio Mário Draghi, teve com certeza muitos relatores e seria interessante conhecer a declaração de interesses dos mesmos, concisa e transparente, onde conste o local de formação, quem a pagou, ligações com o INSEAD, etc.;

2º) Menos burocrática e com obtuso conteúdo político, perguntar se o BCE (que integrou a Troika) algum dia sugeriu (ou ordenou) ao anterior Governo que o ex-ministro Miguel Relvas (enquanto ministro também gestor do ‘resgate financeiro’) voltasse à Escola (pelas razões que todos conhecemos).

Só depois destes prévios esclarecimentos do BCE o Estado português e/ou a CGD deveriam mostrar-se disponíveis para estudar a perversa e acintosa ‘sugestão’ do BCE.


Diferenças e semelhanças



sábado, agosto 20, 2016

Donald Trump e simplórias razões (óbvias)…

O apelo de Donald Trump aos eleitores afro-americanos é uma verdadeira elegia à política do superficialismo, do engano e mistificação.

O candidato presidencial norte-americano perguntou aos eleitores afro-americanos:
O que tem a perder em tentar algo novo link?

A resposta deve ser dada dentro do mesmo espírito da política naïf e não pode deixar de ser:
- Tudo e mais alguma coisa!

A razão é também corriqueira. Porque alinhar nessa tentativa seria um salto no escuro.

E quando aterrassem (acordassem) desse salto poderiam estar a arder – por 4 anos - numa fogueira ateada e alimentada pelo seu apoiante de campanha David Duke (ex- chefe do KKK) link .

Paulo Portas: das polémicas, das relações, dos conflitos e dos interesses…

Sobre a polémica interna suscitada pela presença de uma delegação do CDS/PP no Congresso do MPLA, onde além de dirigentes desse partido foi convidado também o ex-presidente Paulo Portas, de cuja boca ouvimos este relambório:

"Nunca dei troco a polémicas de natureza interna, muito menos a pessoas que até já fizeram partidos contra o CDS ou saíram até do CDS (referindo-se a Ribeiro e Castro e Manuel Monteiro, ex-líderes do partido). Sendo muito breve, o meu plano é sempre o das relações do Estado português" link.

Acerca das polémicas internas do CDS estamos conversados e já sabemos que o assunto é para minimizar devendo ser endossado aos seus dirigentes e militantes e se possível para as calendas gregas.

Há, contudo, nas declarações do ex-dirigente centrista um pequeno lapso. Provavelmente - e fiquemos por aí - o seu plano já terá sido o das relações do Estado português. Pelo menos oficial e formalmente. Isto, enquanto integrou como MNE ou, posteriormente, como vice-Primeiro-Ministro o XIX Governo Constitucional. Em ambos os desempenhos políticos foi, cumulativamente, ‘ministro de Estado’.  Hoje, o único 'estado' que desfruta é o de 'alma'.

No final de 2015 anuncia que deixará a direcção do CDS e em 2016 renunciou às funções de deputado para logo de imediato (junho 2016) assumir a direcção do Colégio Internacional da Mota-Engil (empresa com largos e estratégicos interesses na construção civil em Angola).
Seria, portanto, mais apropriado, verídico e acima de tudo verosímil se em vez de invocar ‘as relações do Estado português’ desse o real enfase aos interesses negociais da Mota-Engil de que é agora um promotor encartado e itinerante. Em Lisboa, Luanda, México e pelo Mundo...

Confundir negócios e interesses empresariais com relações de Estado nem parece vindo de um político com tanta experiência. Ou, então, a sua deriva para o mundo dos negócios privados (é neste terreno onde passou a movimentar-se) está a retirar-lhe qualidades. 
Em breve saberemos…


França – O burkini e a contestação da democracia

À primeira vista, a proibição do burkini parece a limitação administrativa da liberdade da mulher quanto à escolha do vestuário, tanto mais surpreendente por se tratar de uma sociedade que aceita pacificamente o topless, o nudismo e a diversidade cultural.

Quando 12 municípios franceses tomam uma medida repressiva, aparentemente contra a pudicícia, não é um apelo ao naturismo, é uma medida contra o desafio à democracia e à discriminação de género que o Wahhabismo florescente estimula.

O burkini está para a hidrosfera como a burka para a litosfera, na esfera islâmica radical.

O burkini não é uma nova linha estilística de fatos de banho femininos, é a aplicação de uma medida de confronto com a sociedade francesa, laica e secularizada. Não é um ato de rebeldia feminina, é uma provocação para obrigar à repressão, para manter a mulher submissa em relação ao homem e a Alá, e a obediência cega ao clero sunita que vocifera nas madraças e mesquitas contra os infiéis. Não marca o início de uma linha islâmica de fatos de banho, é a continuação de uma agenda política de confronto civilizacional.

Paradoxalmente, os ideólogos (os, não as) do burkini já ganharam a primeira batalha, a da proibição que os vitimiza, o da publicidade que empolga outros radicais para a causa islâmica, a do ódio ao outro, que estimula a reciprocidade.

O burkini não é o adereço têxtil para ‘banhos de mar’, é um instrumento de ação política para ‘banhos de sangue’.

sexta-feira, agosto 19, 2016

IMI: Igrejas, Estado, Sociedade e iniquidades várias …

O IMI não pode continuar a sofrer da confrangedora dualidade de ser um imposto secular e simultaneamente um privilégio religioso link. .
É conhecido que esta discrepância decorre dos termos da Concordata link. De facto o Artº. 26 do Tratado entre o Estado português e o Vaticano, define um vasto regime de isenções fiscais mas o item 5. (do referido artigo) deixa em aberto espaço para múltiplas interpretações quando estabelece: “As pessoas jurídicas canónicas, referidas nos números anteriores, quando também desenvolvam actividades com fins diversos dos religiosos, assim considerados pelo direito português, como, entre outros, os de solidariedade social, de educação e cultura, além dos comerciais e lucrativos, ficam sujeitas ao regime fiscal aplicável à respectiva actividade”.

O estabelecido na Concordata acaba por permitir uma geometria variável, ou seja, a nebulosa ambiguidade de fronteira entre a actividade religiosa e a de solidariedade social, não pode funcionar como uma esponja sobre os deveres de contribuição, alimentando, assim, mecanismos de iniquidade, que não podem, por Lei constitucional, infectar o domínio fiscal. 
Na verdade, a solidariedade é um mecanismo de relacionamento comunitário entre os seres humanos baseado na ajuda mútua e nada tem a ver crenças religiosas mas com posturas civilizacionais, educativas e éticas que cimentam e dão coesão à vida em sociedade.
No Estatuto de Benefícios Fiscais (EBF) artigo 44 alínea f) link as IPSS estão isentas de IMI no diz respeito aos imóveis directamente afectos à actividade de solidariedade social enquanto que as Misericórdias tem benefícios mais vastos abrangendo todo o seu património imobiliário. Claro que esta isenção transversal e abrangente para quaisquer tipo de culto privilegia a Igreja Católica única, no terreno, que possui Misericórdias.

Não se percebe esta destrinça e porque razão o templo existente numa determinada localidade ou bairro deve arrastar na 'peugada isentatória' a residência do funcionário oficiante, clérigo ou responsável. E indo mais além (para situações industriais ou de escala), por exemplo, em relação ao contexto de Fátima, não se entende como uma instituição hoteleira como a Casa das Irmãs Dominicanas, com 119 quartos e muitas mordomias, se enquadra numa actividade de índole religiosa ou de solidariedade social.

Todavia, entrando mais fundo na questão e questionando todo um sistema de captação de receitas fiscais, é difícil compreender alguns aspectos relativos ao IMI. 
As Autarquias não investem especificamente na edificação de construção ou aquisição de uma habitação própria e condigna, preceito que está inscrito na Constituição (artigo 65, nº. 1) link
As Câmaras exercem um papel regulador e fiscalizador, visando o cumprimento dos controversos Planos Directores Municipais, cobrando emolumentos por essas actividades e aplicando coimas (quando não embargos) pelas prevaricações detectadas.

Uma coisa é tributar o património material acumulado, outra será tributar o exercício material de um direito de qualquer cidadão. Um proprietário de um lote de múltiplos imóveis, será dono de um património imobiliário 'pesado' que deve ser tributado mas, mesmo nesta situação, deveria ficar isento da sua habitação declarada (e verificada) como sendo residência habitual e permanente.

Em resumo, a questão fulcral não pode ser as isenções em si mesmas, embora algumas das que verificamos no dia-a-dia sejam atentatórias dos princípios da igualdade e universalidade à custa de disposições emanadas da Concordata (um convénio datado e hoje manifestamente obsoleto). Se existir o desejo de contemplar o exercício de funções sociais, concebido em termos abrangentes, a isenção de IMI não pode ficar restrita aos locais de culto, às IPSS ou às Misericórdias. 
O lar – o doce lar - deverá ser identificado e tratado como sendo por excelência o lugar de culto da família, logo, com relevante impacto social.

Seria bom que as indignações das instituições religiosas face à cobrança do IMI fossem capazes de questionar genericamente a voracidade tributária. Não basta salvar a própria pele sendo preciso estender a justiça (social, tributária e outras) a todos.

Enquanto a sociedade não for capaz de enfrentar este problema o melhor seria não continuar a alimentar iniquidades. Rever (ou denunciar) a Concordata é um assunto que a cobrança de IMI deve colocar na ordem do dia da agenda política. A laicidade do Estado obriga a isso.

CDS e MPLA


Nunca duvidei da proximidade do CDS ao MPLA, só não sei quanto custa a Angola.

A presença de Paulo Portas não fica barata aos angolanos.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Guerra Civil de Espanha – Há 80 anos calaram o poeta.

(Tinha 38 anos quando os fascistas o assassinaram
(18 de agosto de 1936)







 ROMANCE SONÁMBULO

A Gloria Giner y a Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas le están mirando
y ella no puede mirarlas.

              *

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.

              *

Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los montes de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
dejadme subir, dejadme,
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.

              *

Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.

              *

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!

              *

Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

Federico Garcia Lorca

Laicidade – O que esconde o Burkini? _ 2

Refletindo sobre perigos religiosos, convém referir que o Wahhabismo é um movimento muçulmano ortodoxo e ultraconservador, referido como ‘seita’ do islamismo sunita.

Ligado à formação da Arábia Saudita, está na vanguarda do fundamentalismo islâmico e é a raiz ideológica do Estado Islâmico, que pratica uma interpretação literal do Corão.

Aliás, a Arábia Saudita, é o berço e o patrocinador do terrorismo islâmico a nível global, e o exportador do Wahhabismo. As suas enormes reservas de petróleo e baixo custo de exploração sustentam uma família real corrupta e corruptora e a uma teocracia cruel que financia, com biliões de petrodólares, partidos políticos nos EUA e na Europa, enquanto submete as mulheres a condições impiedosas, mesmo para padrões islâmicos.

Um dia saber-se-á por que motivo os quatro execráveis Cruzados (Bush, Blair, Aznar e Barroso), face ao crime financiado, organizado e cometido por sauditas contra as Torres Gémeas de Nova Iorque, decidiram, perante o clamor público, retaliar contra o Iraque.

Ontem, no jornal Libération, o editor egípcio Aalam Wassef previne contra a influência do Wahhabismo, também conhecido por salafismo, hoje indiferenciável (embora tenha origem e passado diferente), cujo burkini é um dos símbolos femininos.

Wassef, num artigo bem documentado e ponderado, defende a interdição do burkini por autarcas da Córsega e de Cannes, afirmando que fizeram o que deviam. Denuncia, aliás, o ‘Coletivo Contra a Islamofobia em França’ (CCIF), que acusou os referidos autarcas de islamofobia, de ter o direito, por opção ou ignorância, de se associar ao Wahhabismo, e ao Estado francês o direito e dever de defender o conjunto dos seus cidadãos.

O Wahhabismo é uma seita que apela ao martírio, ao terrorismo cego e ao proselitismo demente, baseada no Corão e na Suna. Quer impor a sharia e submeter ou matar todos os que rejeitam a sua interpretação. Sendo o mais jovem e rico ramo do Islão, nascido na Arábia Saudita e com metástases no Qatar e no Kuwait, tem o poder e projeção para semear o terror a nível global.

Não podemos andar distraídos. O burkini esconde o Wahhabismo.

                                               Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, agosto 17, 2016

Laicidade – O que esconde o Burkini?

Em França, os autarcas estão a proibir progressivamente o ‘burkini’ em praias e piscinas públicas, em nome da segurança, depois de conflitos violentos entre islamitas e não islamitas.

A religião tem um potencial de detonação de violência e ódio que não pode surpreender-nos, e adiar decisões que minimizem os conflitos não é a melhor solução.

O burkini, feito do mesmo tecido do biquíni, não pode ser proibido em nome da higiene, e o respeito pelas liberdades individuais devia admiti-lo pois, ao contrário da burka e do capacete das motos, não ocultam a identificação que as razões de segurança impõem.

A questão reside no confronto que o Islão procura e a extrema-direita europeia aplaude, uma exibição da pertença religiosa que faz parte do proselitismo e que o comunitarismo estimula para fazer prova de força e provocar o martírio que atrai indecisos para a jihad.

A Europa, que amoleceu a defesa da laicidade, encontra-se sem armas e sem razão para proibir no espaço público, que deixou confiscar por outras religiões, adornos que visam o confronto, e é obrigada, em nome da democracia, a defender os provocadores.

Todas as religiões têm uma agenda política, e os monoteísmos prosélitos não descuram o seu cumprimento. O cristianismo não deixa de impor nomes de santos a cidades, vilas, aldeias, bairros, ruas e aeroportos, e tenta colocar a parafernália pia, crucifixos, imagens de santos e da Senhora de Fátima, nos corredores das enfermarias dos hospitais públicos e nas paredes dos edifícios do Estado e das autarquias, em Portugal.

Quando tal acontece com o cristianismo, cuja repressão sobre o clero, levou à aceitação da laicidade, sabe-se o que acontece com o mais implacável dos monoteísmos, na fase atual, em obediência ao guerreiro a quem atribuem a cópia grosseira do judaísmo e do cristianismo, sem Renascimento, Reforma, Iluminismo e Revolução Francesa!

Não é por mera devoção que, aos fins de semana, hordas de muçulmanos de várias localidades invadem Paris e fecham ruas ao trânsito para rezarem virados para Meca.

As religiões são associações de crentes, que devem ser respeitadas e submetidas a todas as obrigações legais de qualquer outro tipo de associação. Sem imposição do laicismo, sem efetiva separação das Igrejas e do Estado, as medidas avulsas estão condenadas ao fracasso.

O burkini não esconde o corpo da mulher (direito que lhe assiste), exibe a submissão à religião e ao homem e indica a vontade de provocação a uma sociedade secularizada e cosmopolita que o Islão combate.

terça-feira, agosto 16, 2016

O País, casos ‘incendiários’ e o ‘incrível’…


O País está a braços com uma ‘maré incendiária’ que tem incinerado largas parcelas territoriais destruindo tudo à sua passagem.
Por outro lado, o País assistiu expectante à invasão do perímetro urbano pelo incêndio ocorrido no arredores do concelho do Funchal e ficou a saber que tudo foi devido a imponderáveis (mudanças súbitos de ventos, deficiências planeamento urbano, características específicas dos bairros históricos, etc.) que parecem encerrar liminarmente a questão.

Foram múltiplos os exemplos de fogos florestais declarados incontrolados (Águeda, Arouca, S. Pedro do Sul, etc.) e ‘sentiu-se’ um esgotamento da capacidade instalada de resposta pelas corporações de bombeiros o que levou à solicitação de ajuda externa, sem grande repercussão no combate aos fogos. Aparentemente, tudo o que podia correr mal acabou por correr pessimamente.

Na sequência destas catástrofes assistimos a chorrilho de opiniões veiculadas por comentadores, políticos, académicos, associações, organismos públicos, etc. .
Existem opiniões para todos os gostos a começar pelo Presidente da República e a acabar no mais isolado e recôndito pastor de uma qualquer serra do Interior. A prevenção que, ao contrário do sugerido pelo PR deve ser estudada e planeada ‘a frio’ link, não tem surtido efeito, não funcionou, por mais análises que se façam, estatísticas que se mostrem e justificações que se arranjem.

Como escrevia Henry Miller: “alguns pressentem a chuva; outros contentam-se em molhar-se”. Estamos um pouco neste estadio. Os conflitos de interesses que existem neste caso (como em outros, p. exº., na saúde) entre a prevenção e o tratamento das situações previsíveis são enormes, nem sempre facilmente detectáveis e a sua ultrapassagem exige conhecimento, discernimentio e capacidade de decisão. 

Os diagnósticos estão feitos, faltam, contudo, as soluções consensuais e viáveis, isto é, que respeitem a expectativa e a capacidade económica dos proprietários das florestas. 
Muitas das medidas a elencar e a promover estão para além das confederações profissionais, dos gabinetes ‘centrais’ e das estreitas análises locais, sendo desejável, desde logo, descortinar medidas políticas e administrativas, de âmbito nacional, entre elas a constitucionalmente prevista e sempre adiada - Regionalização.

Os sucessivos Planos Nacionais de Defesa da Floresta e Combate aos Incêndios podem estar bem 'construídos' mas são ignorados pelo grande ‘público’ por um inultrapassável distanciamento entre os seus autores (dos Planos) e as populações que habitam e trabalham nos locais críticos e múltiplos cidadãos vivem na doce ilusão – transmitida por políticos e governantes - de que está tudo preparado para combater os incêndios. 
Todavia, o comum continua a ser os incautos no inverno molharem-se e no estio arderem (ao sol ou no braseiro dos fogos).

A investigação ordenada pelo Ministério da Administração Interna às ocorrências verificadas em S. Pedro do Sul link (publicamente denunciadas pelo Presidente da Câmara) é bem-vinda (apesar de tudo o que mexe com bombeiros ser tabu) e poderá vir a esclarecer muito acerca do dispositivo disponível bem como de jactâncias de alguns políticos e ‘combatentes da paz’ sobre a situação real dos fogos (florestais e urbanos).

Por último, o incrível acontece e o País tomou conhecimento de uma outra situação que seria caricata se não fosse gravíssima. Num convívio festivo realizado em Câmara de Lobos (Madeira), de sábado para domingo último, onde compareceram bombeiros e agentes policiais  - e contrariando as disposições da Protecção Civil –  foi lançado, durante alguns minutos, fogo-de-artifício link
Nesta festa particular esteve presente para além de bombeiros, o comandante da Corporação local que, à posteriori, tentou justificar o ‘injustificável’. 
Mais uma situação de bradar aos céus a requerer um urgente inquérito.

Freud na Festa do Pontal


Passos Coelho, este PSD e o País

Miguel Relvas, Marco António e Paulo Júlio dirigiram a central de intoxicação que, das redes sociais da Internet foi alargada à comunicação social tradicional, e foi responsável pela ascensão de Passos Coelho, de líder precário do PSD a PM de vocação vitalícia.

Na política, após liderança da JSD, não tivera qualquer função executiva, e na atividade privada, além de homem de mão de Ângelo Correia, não ultrapassou a administração de uma empresa de aproveitamento de fundos europeus (Tecnoforma) para cursos exóticos, técnicos de aeródromos e heliportos da zona centro, de cuja falência se encarregou antes de o fazerem PM.

Depois de Cavaco Silva ter chegado a PR, o PSD, aturdido, foi incapaz de reagir, ainda a lamber feridas dos seus dois últimos primeiros-ministros, Durão Barroso, cúmplice da invasão do Iraque, e Santana Lopes.

Quando, pela primeira vez, a direita conseguiu um PR culto, inteligente e sem negócios nebulosos, continua prisioneira dos arrivistas que confiscaram os seus partidos, e Passos Coelho mantém-se o insubstituível barítono e intérprete da pauta musical da banda e do bando que vão à festa do Pontal.

O zeloso funcionário da Troika que na sua trágica experiência laboratorial, em Portugal, deixou o País arruinado, o Estado desintegrado, e a banca sem solução, chamou ‘troika’ à aliança de 4 partidos (PS + BE + PCP + PEV) que na AR viabilizaram o governo PS.
     
Foi um ato freudiano de quem conseguiu aplausos na Festa do Pontal ao dirigir diatribes à “troika [de quatro] da maioria”!

segunda-feira, agosto 15, 2016

Uma visão 'shakespeariana' da Festa do Pontal…

O líder do PSD aproveitou as festividades estivais do Pontal link para alimentar um novo 'bitaite'. 
Ao Governo do PS que conta com o apoio parlamentar do BE, do PCP e Partido os Verdes, a partir de uma posição conjunta assumida para uma solução governativa, resolveu baptizá-lo (os crentes não fazem a coisa por menos) de ‘Troika’. 

Primeiro, revelou estar mal de contas. Em aritmética PS + BE + PCP + Verdes perfazem um conjunto de quatro entidades. Quando muito, esta associação seria, se estivéssemos num circo romano (como desde Dezembro de 2015 foi desejado pela Direita), uma quadriga (mas não aquele símbolo prussiano que está implantado sobre a porta de Brandemburgo, em Berlim).
 Dirão alguns (novamente a Direita) que os Verdes, não contam, porque são um satélite do PCP. Em questões de ‘satélitose’ temos várias nuances e bastantes exemplos. Não será preciso recuar muito para discernir quem no anterior Governo era o apoderado e quem lhe servia de satélite. Ou, no plural, de satélites. Ficou sempre por esclarecer – no Pontal e nas recorrentes intervenções de Passos Coelho – quem, de facto, governou na anterior legislatura. Para muitos o cenário não andará distante de um governo efectivamente liderado pela Troika à volta do qual orbitavam os ‘satélites’ geoestacionários PSD e CDS (alinhados pelo paralelo de Berlim). 

Em segundo lugar, a lembrança de reintroduzir a ´Troika’ na presente legislatura tem motivações do domínio do inconsciente colectivo. Alguns desejaram (como sempre se soube) a governação da Troika porque se reviam programaticamente nas soluções da mesma, porque lhes servia de ‘bordão’ para impor medidas restritivas e confiscadoras e, essencialmente, porque lhes abria caminho para executar políticas que tentaram manter publicamente obscuras ou mesmo negar. 
O difícil para esses ‘prestigiadores de praia’ é revelar uma fantasia ‘social-democrata’ escondida dentro de uma persistente opção neoliberal. Esse dualismo acaba sempre por conflituar com a realidade. Na verdade, os portugueses - à custa de um saber de experiência feito - tem a clara noção que se, para sua desgraça, a Troika, ainda estivesse por cá, o PSD estaria, de certeza, no Governo.

A festa de Quarteira (o Pontal é mais o alimentar de uma figura mitológica) mostrou outra coisa: O PSD não está no Governo, nem na Oposição. Está entretido em re-encenar a conhecida comédia de Shakespeare ‘Sonhos de uma noite de Verão’ onde pululam duendes, fadas, elfos e outros seres encantados. 
Isto é, a partir de um passado ensombrado (por uma doentia austeridade) quer exibir aos portugueses a ilusão de um futuro radioso e feliz, tendo por base uma inovadora revelação: a associação de reformismo com inconformismo (como vincou na prelecção de ontem).

De concreto, o PSD, com a liderança de Passos Coelho, mostra-se prisioneiro de um terrível inconformismo. De facto, ainda não digeriu que os eleitores - maioritariamente - rejeitaram estas concepções em Outubro passado. 

O satélite do PSD e a memória


domingo, agosto 14, 2016

Há 80 anos – A Guerra Civil espanhola e o massacre de Badajoz (14-08-1936)

É dos horrores mais sinistros cometidos pelos homicidas de Franco no início da sublevação que derrubou a República espanhola.

O governo legal tinha contra si o fascismo, que se expandia na Europa, e a feroz hostilidade da Igreja católica. A sublevação, além de apoiada por Hitler e Salazar, foi abençoada pelo Vaticano que concedeu o carácter de Cruzada às forças rebeldes e jamais quebrou o silêncio perante as atrocidades dos seus.

Em Badajoz, após violentos combates, iniciados no dia 12, os resistentes renderam-se a 14. E foram prontamente fuzilados pelas tropas sublevadas, comandadas pelo general Juan Yagüe, que, após a guerra civil, viria a ser ministro da Força Aérea, de Franco. Ficou conhecido como ‘o carniceiro de Badajoz’.

Os historiadores admitem que possam ter chegado a 4.000 (10% da população da cidade) as vítimas do massacre, sumariamente fuziladas e cuja investigação foi [e é] impedida.

Como nota de nojo pelo regime salazarista, deve acrescentar-se que a GNR prendeu as vítimas que se refugiaram do lado de cá da fronteira e entregou-as para serem fuziladas, enquanto os sediciosos foram protegidos em solo português antes da rendição.

Faz hoje 80 anos e a Espanha ainda sangra.

CUBA: notas à margem das comemorações dos 90 anos de Fidel…

As imagens das comemorações públicas dos 90 anos de Fidel Castro circularam pelo Mundo. 
Poucos serão aqueles que duvidam sobre o lugar que Fidel ocupará no virtual panteão dos dirigentes revolucionários do século XX. Fidel não figurará aí com a aura afectiva e romântica do comandante Che Guevara mas como um dirigente latino-americano, revolucionário, popular, determinado e, ideologicamente, um intérprete de uma ‘praxis latina do marxismo’, onde a inspiração na luta independentista contra o colonialismo, travada pelo herói José Martí, foi um fortíssimo vector de agregação popular.

A revolução cubana, após a queda do muro de Berlim, viu-se confrontada com novos desafios, quer em termos económicos e de bem-estar social, quer em termos de solidariedade internacionalista. 
Fidel de Castro, a partir da década de 90, teve manifestas dificuldades em adaptar-se aos ‘novos tempos’ da globalização, não só pela sua ortodoxia doutrinária, mas também pelos efeitos desestabilizadores advindos de um implacável bloqueio, com a duração de 60 anos, liderado pelos EUA.

Ao completar 90 anos de vida, recheada de protagonismo(s), o dirigente cubano, retirado da frente política activa desde 2006, por motivos de saúde, continua a congregar à sua volta o entusiasmo popular essencialmente pelo papel de liderança que desempenhou na ‘revolução cubana’.

Quando se lê a mensagem de aniversário que publicou a 12.08.2016, no site Cubadebate link, verificamos que as ‘novas ideias’ remanescentes de um velho combatente estão condicionadas pelos ‘novos tempos’. Fidel põe enfase na educação (considera que a ‘falta de educação é o maior dano que se pode fazer a uma criança’), questiona a situação demográfica mundial e dirige os seus elogios para a Rússia e China. Recebeu, em troca, um especial elogio do líder do Partido Comunista da Federação Russa, Guennadi  Zuiganov, que o considerou ‘um dos génios políticos do século XXlink.

Finalmente, e à primeira vista contraditoriamente, distanciou-se dos ‘novos tempos’, relativos à ainda incipiente aproximação Cuba-EUA, aproveitando o emblemático tema da Paz para criticar Obama que - quando da sua recente visita a Hiroxima - foi [politicamente] incapaz de pedir desculpas públicas e formais pelo sucedido no final da II Guerra Mundial (escreveu que ‘lhe faltaram palavras para desculpar-se pela matança de centenas de milhares de pessoas’…).

Fidel usou, politicamente, o ensejo das comemorações do seu 90º. aniversário, para manter-se distante (e receoso) da recente aproximação Havana-Washington, situação que já tinha ocorrido quando criticou, no jornal oficial Granma (‘El Hermano Obama’) link o contexto da visita de Obama ao seu irmão Raúl (em Março de 2016).

Na incerteza do mundo actual, na possibilidade de a política americana sofrer novas ‘cambalhotas’ (Trump é o que é e Hillary não se absteve de criticar na presente campanha Fidel e Raúl link) o vetusto comandante da revolução cubana não prescindiu de afirmar-se como sendo o seu líder histórico ou, se quisermos, uma ‘lenda viva’.

Silly season

Passos Coelho

«Líder do PSD vai hoje à festa algarvia do seu partido dizer que está na altura de o governo do PS aceitar que tem de mudar de política.»

Comentário: no tempo em que fazia de primeiro-ministro, quando Relvas e Marco António mandavam, cabia-lhe lembrar-se das soluções para os problemas europeus nas reuniões internacionais. Agora está reduzido a dar palpites caseiros na festa privada do seu clube político.

Bancos nacionais: ‘o seu a seu dono’


As recentes prestações de contas dos bancos nacionais são absolutamente preocupantes sobre a solidez destas instituições financeiras portuguesas. Para além dos factos consumados do BPN, do BPP, do BES, do BANIF o ‘remanescente ‘ (bancário) mostra-se cada vez mais periclitante.

Apesar da taxas de juro absolutamente desfasadas com os referenciais do BCE, do corrupio das  comissões e a prevalencia dos esquemas de amiguismo, compradrio e favoritismo (quando não da imprudência e negligência) no lidar com os dinheiros de outrem que, em princípio lhes foi de boa fé confiado, o balanço do 1º semestre do exercício das principais instituições bancárias nacionais link revela um ‘oceano de dificuldades’ (serão ‘imparidades’?) que as ‘justificações pontuais’ não têm efeito tranquilizador.

Na realidade, a instabilidade das instituições financeiras dura há demasiado tempo e os cidadãos, chamados recorrentemente a socorrer o sistema, têm sido mantidos à margem das explicações que se devem a qualquer ‘bom pagador’ de promessas dos outros (uns poucos). O arrazoado de justificações e desculpas esfarrapadas vem sempre envolto numa linguagem técnica subsidiária da indecifrável ‘novilíngua’ económico-financeira.

Existe a clara percepção de que os diagnósticos da ‘crise financeira’ estão feitos e repisados. Por outro lado, também existe a convicção de que o sistema está blindado e imune a qualquer mudança. Esta blindagem está para durar até que surjam convulsões políticas e sociais que alterem radicalmente a actual correlação de forças.

Apesar das consequências que todos os cidadãos conhecem, e sofrem na pele e no bolso, continuam a proliferar os offshores, os hedges-funds, os short-shellings, os swaps, etc. que têm corroído a credibilidade do sistema bancário.

A maioria dos cidadãos está de fora destas ‘engenharias financeiras’ e há muito que clama pela separação das águas entre as bancas comerciais e de depósitos e as bancas ditas de ‘investimentos’, onde cada dia se acumulam riscos sobre riscos, operações a descoberto, ‘imparidades’, falências (sob a eufemística designação de ‘resolução’) e, na sociedade (nos lares, nas ruas) começam a criar uma legião de ‘lesados’. 

A crueza da vida e a verdade dos números tem demonstrado que a regulação (atribuída a autoridades bancárias centrais, de âmbito nacional, transnacionais ou federais), pura e simplesmente, não funciona. A alternativa – e convém recordar que há sempre alternativas – é derivar da perversão do actual sistema para a banca corporativa à volta de moedas complementares, a exemplo do Banco WIR (na ‘ortodoxa’ Suíça) link, que, apesar de um aparente primitivismo, conseguiu passar à ilharga das crises do sistema financeiro (desde 1929).

Em conclusão, resta cortar o mal pela raiz e à margem do sistema bancário tradicional deixar isolados, e por sua conta e risco, os ‘sistemas de casino’ que os ditos ‘investidores’ poderão frequentar livremente. Criar o ‘gueto dos especuladores’ e deixá-los entregues e confinados à sua ganância.
Isto é, devolver os ‘empreendedores financeiros’ a um ‘mercado livre’ que tanto incensam como motor obtuso de enriquecimento. Na gíria popular resume-se em: “dar o seu ao seu dono”.