quarta-feira, novembro 30, 2016

Ponte Europa


Já chegou também a Coimbra. Encontra-se nas várias livrarias Almedina, Bertrand e pode ser pedido à https://www.wook.pt/ com desconto e portes pagos.

terça-feira, novembro 29, 2016

A Caixa Geral de Depósitos e a direita

A simpatia que o atual governo merece e, sobretudo, os interesses nacionais, levou-me a manter silêncio perante a campanha orquestrada pela direita, que persiste na política de terra queimada.

Depois da notável vitória, para obter o aval do BCE para a recapitalização da CGD, que a direita dizia impossível, tudo o que podia correr mal, correu ainda pior. À intenção do governo de despartidarizar o banco do Estado, com alteração do seu estatuto, respondeu a direita apontando a exorbitância dos vencimentos, primeiro, e a obrigação de todos os administradores entregarem a sua relação de bens, depois.

O Governo terá prometido o que não lhe deixaram cumprir, e a direita rejubilou, porque sabia que administradores estrangeiros e alguns portugueses não tolerariam a devassa às suas fortunas pela comunicação social, ávida de explorar a ódio luso contra a riqueza.

A direita, que contratou um funcionário público, o diretor-geral de Finanças, a ganhar o triplo da ministra da tutela (23.480 € mensais), e que o conseguiu com o vencimento de ministro para titular da Saúde (Paulo Macedo), tornou-se defensora de um vencimento máximo para a instituição que tem de competir no mercado bancário.

A direita que fez do BPN um caso de polícia, onde se enlamearam nomes sonantes do cavaquismo, já mostrou, do BES ao Banif, que a banca só lhe interessa para colocar os seus ex-governantes e que o pudor não faz parte da matriz dos que agora a dirigem.

Depois de um longo consulado de Faria de Oliveira, cujo escrutínio será evitado, a CGD não pode ficar dependente de gestores incompatíveis com o carácter republicano, laico e democrático, metidos à sorrelfa por uma direita que deseja privatizá-la.

Para os distraídos deixo aqui três nomes: Rumasa, Matesa e Banco Ambrosiano.

segunda-feira, novembro 28, 2016

BRASIL: Impeachment II ?

O impeachment de Dilma foi a caricatura democrática que tentou encobrir um golpe constitucional que acabaria por guindar o vice-presidente Michel Temer ao palácio do Planalto.

Passados poucos meses surge novo pedido de ‘impeachment’ agora solicitado pelo PSOL link. Desta vez trata-se de traficância interna intergovernamental onde vários membros do Governo (incluindo o presidente) se reúnem (variadas vezes) para promover a aprovação um empreendimento imobiliário, ao que suposto ilegal e assim favorecer Geddel Vieira Lima, ministro de Temer. Este teria adquirido um andar no referido prédio que não foi autorizado a construir. link.

O problema é que o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, tutor do Instituto Nacional do Património Histórico que embargou a construção, terá gravado as conversações entre os pares e o próprio presidente e entregou-as à Polícia Federal.

Agora, o que resta para investigar é como o ministro da Cultura cessante teve o desplante de gravar as conversas. O resto está tudo legal. E na maior…

XXI Governo Constitucional

Iniciou-se o segundo ano do primeiro governo do PS com apoio parlamentar do BE, PCP e PEV, a inédita solução que acabou com a chantagem da direita mais reacionária e criou um novo arco da governação, com inclusão dos partidos que a direita considerava impróprios para viabilizarem um governo.

Sem se diluírem no OE-2017, viabilizaram-no, num louvável esforço de convergência patriótica e democrática, permitindo o orçamento possível para honrar os compromissos externos e travar a deriva ultraliberal do anterior Governo para desmantelar o Estado.

O patético desespero de Cavaco Silva a evitar a posse, as ameaças salazarentas e os esforços do PSD/CDS a intrigarem instituições internacionais, foram insuficientes para traírem a CRP e o único órgão com legitimidade para a formação de governos – a AR.

Depois da experiência bem-sucedida, que fatores externos podem comprometer, não há partidos a precisar da unção da direita para serem Governo nem partidos de direita que careçam de atestado democrático passado por partidos de esquerda.

Acabou a chantagem da direita e a alegada superioridade moral da esquerda numa nova arquitetura que a todos obriga na defesa do interesse nacional através dos partidos que o definem.

É legítimo destacar a capacidade política de António Costa, arquiteto da nova geometria partidária, e a diferença abissal do atual PR cuja inteligência, cultura e sentido de Estado o distinguem do antecessor.

Perante a imprevisibilidade internacional, os portugueses sentem alguma tranquilidade por saberem os mais altos cargos do Estado, que refletem a diversidade ideológica dos portugueses, sem radicalismos e ressentimentos que ameaçam vários países europeus.

Momento de poesia


Para Fidel Castro…

As árvores ficaram despidas e nuas
quando a tua voz se calou na sombra da noite
e os astros incandescentes se apagaram
ouviram-se os pássaros pendurados nos alpendres
e um relâmpago riscou o céu
da Serra Maestra até Havana
a iluminar o caminho da glória
da tua marcha heróica e triunfal…

Agora, junto a tua voz à minha memória
e à memória da voz do companheiro Che Guevara,
o outro astro incandescente da nova aurora
o outro herói da gesta revolucionária
que acendeu em nós a chama da liberdade
e que morreu lutando pelo sonho que sonhou…
Hasta siempre, comandante Fidel Castro…

Alexandre de Castro

Lisboa, Novembro de 2016

domingo, novembro 27, 2016

Fidel de Castro (1926 – 2016).


Morreu o ‘comandante’ da revolução cubana. Castro foi um gigantesco e incontornável protagonista histórico que se tornou um dos mais emblemáticos e consequentes desafiadores do poderio yankee no século XX, nomeadamente depois da II Guerra Mundial.
Mas mais do que isso foi um intrépido e valente lutador pela emancipação política, económica e social do povo cubano, lutando - contra todos os 'bloqueios' - pela implantação de um modelo socialista que impressionou o Mundo.

A revolução cubana teve um nome: Fidel de Castro. Mas mais do que um nome teve na imagem do comandante um exemplo ‘revolucionário’ que galvanizou muitos cubanos e, em todo o Mundo, influenciou a juventude ‘progressista’ da metade do século XX.

Fidel cometeu erros e, hoje mesmo, a Direita sem escrúpulos, sem ter a noção de luto e desprovida de qualquer sensibilidade para uma análise histórica positiva vai vir a terreiro denegri-lo. O gesto fica com quem o promove.

É pessoal, afetivo e convicto mas, neste momento, muito triste para esmagadora maioria do povo cubano, não tenho qualquer rebuço, nem pudor, em confessar que esse Homem (e outros dos seus companheiros como, p. exº., Che Guevara) foi um dos meus heróis de juventude.

Hasta siempre!

Apostila: Hoje, esta triste efeméride faz–me recordar um escrito de Bob Dylan (agora tão celebrizado pela atribuição do Nobel da Literatura):
“ Eu acho que um herói é alguém que entende o grau de responsabilidade que vem com a sua liberdade”.

A frase

«Os portugueses são muito sabedores, já perceberam que [a Caixa Geral de Depósitos] é uma instituição fundamental para a economia do país e uma instituição forte que pode ficar mais forte, o que importa não são os pequenos pormenores do dia-a-dia, o que importa é a linha do futuro.»

(Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República)


sábado, novembro 26, 2016

A ameaça de Erdogan à espera de uma resposta …

A ameaça de Erdogan à UE é gravíssima. A hipótese avançada ontem  pelo 'sultão' -  em resposta a uma recente recomendação do Parlamento Europeu - ameaçando com a abertura das fronteiras turcas aos povos em debandada de grande parte do Médio Oriente, nomeadamente da Síria, lançará milhões de refugiados no espaço europeu tem, como é previsível, consequências brutais link .
Não o move qualquer estratégia humanitária nem de desanuviamento do clima bélico da região mas o ‘califa de Istambul’ sabe que esse acto lançará a Europa no caos.
A ameaça de ‘rasgar’ o acordo de contenção dos fluxos migratórios oriundos do Médio Oriente obtido como contrapartida para agilizar o avanço do processo de integração da Turquia na UE, que decorre desde 2005, conheceu diversos sobressaltos.
Ankara sempre foi a guarda avançada do Ocidente em relação ao regime soviético. Quando Washington protestava contra a instalação de mísseis em Cuba estava a fazer o mesmo na Turquia. Como a implosão da ex-URSS o regime turco continuou a desempenhar em papel de pivot a Leste e para essa zona foram transferidos importantes dispositivos militares estratégicos.
A situação no Médio Oriente caiu sob a alçada e do controlo do Estado Islâmico embora matizado por facções da Al Qaeda ou da ‘Irmandade Muçulmana’, na sequência do progressão das ‘primaveras árabes’ mas, acima de tudo, como parte integrante de uma estratégia hegemónica sunita, onde a Arábia Saudita, com a cobertura norte-americana, tem desenvolvido no terreno barbaras confrontações com vista a um domínio territorial e a uma expansão político-religiosa.
Na bordadura deste território tumultuoso e instável existem países como o Iémen, a Turquia, o Irão, o Líbano, Israel e a Palestina que, tendo sido artificialmente marginalizados do presente conflito, são o foco incendiário remoto de todas as tensões locais.
A mortífera ‘guerra civil síria’ e a anarquia reinante no Iraque, ambas subprodutos diretos da intervenção americana, são os dois grandes motores de toda a onda migratória mas compreendem diversas nuances.
O Ocidente criou e alimenta uma oposição ao regime de Bashar Al Assad aparentemente democrática e laica, ignorando, ou passando por cima, de interesses regionais geoestratégicos, nomeadamente, a Rússia e alterando os equilíbrios no Mediterrâneo Oriental, importante fórum na definição de todas as políticas energéticas, que começou no pós-guerra e se acentuou no presente.
Esta guerra em múltiplas frentes tem-se revelado extremamente complexa, dura, bárbara e destruidora em quase todas as frentes e levou a diversos êxodos regionais nomeadamente  os yazidis, shabaks, etc., e as minorias cristãs mas também, e fundamentalmente, minorias islâmicas como o xiitas, os curdos e turcomanos, arménios.
Existem alianças para todos os gostos e feitios e no meio desta balbúrdia os Estados Unidos a jogar cartadas pontuais de acordo com interesses específicos onde se salienta a indústria petrolífera. Não pode ser esquecida, neste contexto, a fratricida guerra Irão-Iraque, alimentada pela família Bush.
É interessante observar que os períodos de paz e progresso nesta região coincidem com tumultuoso desenvolvimento da doutrina Baas. Na verdade. o movimento Baas (o ‘Baathismo’) nasce na Síria no final da II Guerra Mundial estende-se rapidamente ao Iraque e assenta em 3 pilares com profundas influências regionais: nacionalismo, socialismo (de contornos especificamente árabes) e pan-arabismo. Este movimento teve forte influência política na Síria, Iraque, no Egipto (nasserismo) e inclusive na Líbia. Aliás, o pai do atual presidente sírio -  Haffez al Assad - é um dos destacados membros desse movimento.
Muitos destes movimentos cultivaram uma aproximação política com a ex-URSS que lhe permitiu cultivar a tríade funcional (Unidade política + Economia indivisível + Nacionalismo laico pan-arábico).
O desmoronamento do regime soviético rompeu definitivamente todos os equilíbrios estabelecidos e abriu um amplo espaço que, ao longo dos anos, foi sendo corroído e ocupado por derivas religiosas muçulmanas do tipo fundamentalista, de predomínio sunita, tendo como braço armado o jihadismo.
Ergodan não pode colocar-se de fora deste ambiente. A sua (da Turquia) posição de tampão do período da guerra fria acabou.
Hoje, com as conhecidas ligações à Irmandade Muçulmana o presidente turco é um ator ativo deste conflito. Deve ser tratado como tal embora queira desempenhar o papel de árbitro. O progressivo e contínuo afastamento do 'Kemalismo' (com algumas afinidades com o movimento Baath), intensificado com o fracassado golpe militar de Julho, colocou Ergodan sob os holofotes na melindrosa questão do Médio Oriente.
Erdogan é parte do problema e nunca será solução. Embora seja um esteio da NATO (e ocupe por decisão americana um papel preponderante em efetivos e um armazém de armas tácticas) nunca lhe poderá ser permitido ameaçar a Europa. Muito menos com uma invasão de refugiados que, como o próprio supõe, a lançaria no caos.
Hoje, Erdogan é um declarado inimigo da Europa tal como ela (ainda) existe. E deve ser tratado como tal.
Face a esta jactante arrogância de abrir as fonteiras turcas aos refugiados as instituições europeias deveriam ad limine declarar o incondicional apoio à causa da independência curda.
E, mais importante do que isso, concertar uma solução política para os múltiplos conflitos que varrem o Médio Oriente, ao arrepio de Ankara e dos obscuros sonhos (pesadelos) da reconstrução do califado otomano.
É imperioso isolar a víbora!

Sondagens


As sondagens são cada vez menos fiáveis, como demonstraram os resultados do Reino Unido, dos EUA e das primárias da direita francesa.

De qualquer modo, é sobre elas que analistas e estados-maiores partidários se baseiam.

Desta sondagem, ontem conhecida, ressalta um facto surpreendente, a revelar o grau de masoquismo dos eleitores.

Como é possível que Passos Coelho e Assunção Cristas, ainda obtenham 30% e 6%, respetivamente, num total que ultrapassa um terço do eleitorado?

Lembra o adágio, “quanto mais me bates,…”

sexta-feira, novembro 25, 2016

FIRED !

Se os cidadãos tivessem dúvidas sobre a deriva neoliberal do atual dirigente do PSD, que o amarra ao desastroso passado, as declarações de ontem sobre a integração dos trabalhadores precários na função pública foi um exemplo acabado dessa teimosia suicida link.
 
Passos Coelho, sempre de soslaio para o futuro e de Excel na cabeça acabou por não ser capaz de integrar a precariedade laboral nas suas travestidas ‘reformas estruturais’. Uma das razões invocadas para não apoiar essa integração é que ‘não sabe quem são’…
 
O contorcionismo alucinogénio do ‘Menos Estado, melhor Estado’, já está mais pessoalizado. Provavelmente, na cabeça do atual dirigente os ‘integráveis’ deveriam ser os ('seus') boys. Esta coisa de tratar os cidadãos pela mesma bitola devem ser um‘esquerdismo radical’…
 
Entretanto, assume a façanha de, a mando da Troika, ter ‘posto fora’ 80.000 dos 100.000 funcionários que já tinham sido anteriormente integrados. Um palmarés que o seu ‘orgulho de despedida’ o faz exibir. 
 
O problema é que a sua política de subserviência já foi ultrapassada pela deriva ‘populista’ e um qualquer medíocre Trump lusitano (que não tardará a surgir) aparecerá nas redes sociais (Twitter) a anunciar a (re)precarização de tudo o que seja público com a assassina frase dos reality shows do Donald: You are fired!.

Livro «Ponte Europa»


Para além da amizade, devo a Fernando Paulouro a dedicada atenção e generosa disponibilidade do meu antigo diretor no Jornal do Fundão, quando ali fui colaborador, convidado pelo saudoso Oscar Mascarenhas.

Esta referência elogiosa, de quem tem um nome ilustra a defender, como jornalista e escritor, não pode deixar de me sensibilizar.

quinta-feira, novembro 24, 2016

PSD e o que parece não é.mas é...

As afirmações do líder do grupo parlamentar do PSD, Luís Montenegro, ao jornal digital Observador no sentido em que não está aberto um processo de sucessão na liderança do partido são significativas pelo que foi dito e pelo ocultado.
link .
 
Montenegro considera essas conjeturas uma ‘espuma mediática’ e decididamente envolve-se nessa espuma esbracejando, para manter-se à tona, mas acabando por afogar-se nela inundados de contradições.
Por outro lado, pretende esconder ‘movimentações internas’ que são referenciadas diariamente como se fossem expressões argumentativas já que não tem coragem de lhes chamar ‘delitos de opinião’. O facto de o PSD ter colocado o processo eleitoral autárquico em 'banho-maria' faz parte de uma estratégia suicida de ‘acalmar’ a tempestade que de anuncia.
 
Montenegro deve conhecer a expressão de que não há fumo sem fogo e a sua ‘espumosa conceção’ sobre o assunto ou é derivada de correnteza das águas ou já há alguém no meio da agitação a abrir garrafas de champanhe.
 
O salvo-conduto da atual direção Passos Coelho passava pela rápida implosão do Governo PS enredado em contradições, exigências e traições com as posições conjuntas subscritas por toda a Esquerda. Embora na governação nem tudo esteja bem, nem tudo tenha corrido bem, nem tudo tenho chegado aonde deveria, há uma lição que este PSD teima em ignorar. A Esquerda não está disposta em oferecer de bandeja o poder à Direita como de certa maneira ingénua e maniqueísta o proporcionou em 2011.
Nem que venha o diabo. É esse desejo redentor que leva o atual dirigente a anunciar amiudadas vezes o mafarrico como tábua de salvação.
 
Desde há duas semanas que o avanço de Rui Rio para a liderança do PSD é notícia no Observador link, no Jornal de Notícias link, no Expresso link, etc.
Estamos portanto sentados em cima de uma máxima que tem sido usada por muitos políticos de variados quadrantes, desde o velho ditador Salazar, que sugere: ‘em política o que parece é’.
 
Resta saber o que será em termos políticos, para o País, uma nova liderança do PSD e esse é o novo desenvolvimento em suspenso porque de resto estamos confrontados com uma defenestração, em marcha. E sabemos que a História não se repete. Não será fácil ao PSD depois de uma profunda deriva neoliberal regressar a padrões centristas e é praticamente impossível abraçar matizes (mesmo que discretas) 'sociais-democratas'. Há viagens sem regresso. O caminho mais fácil é a nova 'via populista'. A vida, para quem a ideologia é um artefacto, tem tentações irresistíveis. Vamos ver.
 
Finalmente, o facto de Luís Montenegro ter abordado o assunto é um iniludível sintoma de que o processo de substituição já começou. E neste caso substituição significa refundação o que não é uma tarefa fácil, nem célere, nem obra para carreiristas.
Os apressados e  atabalhoados desmentidos políticos sempre funcionaram deste modo neste País.

O perigo vem do Oeste

Em 20 de janeiro de 1981, Ronald Reagan, ao tomar posse como presidente dos EUA, afirmou que “a solução dos nossos problemas não está no Governo, o Governo é o problema”. O ex-ator secundário de Hollywood juntava-se nesse dia à sua alma gémea inglesa, Margaret Thatcher, eleita sete meses antes, e ao papa João Paulo II que, desde outubro de 1978, dirigia o Vaticano e seria um dos seus indefetíveis sequazes. 

A contrarrevolução, conservadora nos costumes e ultraliberal na economia, falhou nos costumes, mas desregulou a economia, precarizou o trabalho e deixou o destino social, económico e político dos povos ao setor financeiro, num frenético avanço do poder do capital sobre o trabalho, à escala global. A via democrática, quando falhou, foi trocada por ditaduras sangrentas que impuseram os objetivos ultraliberais.

Hoje, mais de oito anos depois da falência do banco Lehman Brothers e da tragédia que adveio da desregulação dos mercados, não se repensou o capitalismo nem a manutenção de um módico de justiça social e de manutenção das liberdades. Face o abismo, deu-se um passo em frente. Nos escombros dessa política, os países mais pobres, arruinados e endividados, veem o garrote dos juros a estrangular a economia, depois de alienarem os seus setores-chave. 

Multiplicam-se guerras regionais, explode a bomba demográfica, exacerbam-se pulsões xenófobas, criam-se jihadistas e impede-se a sobrevivência a cada vez maior número de pessoas, perante o aquecimento global e a incapacidade de regeneração do Planeta.

Vinte e cinco anos depois de Reagan, vai tomar posse Donald Trump. Desenha-se uma aliança protofascista de geometria e consequências imprevisíveis. O Reino Unido e os EUA, que há 71 anos foram indispensáveis para a derrota do nazi-fascismo e promoção da paz e prosperidade da Europa Ocidental, são hoje as suas maiores ameaças.

Em 1945 tivemos a grandeza épica de Franklin Roosevelt e Winston Churchill; em 1980 o poder financeiro desregulou os mercados com Ronald Reagan, Margaret Thatcher e o seu aliado útil, no Vaticano; 2017 começará com a insânia de Donald Trump e Theresa May (RU), agora com a hostilidade do papa, e numerosos protofascistas que a memória curta dos povos levou ao poder, e de outros que esperam o ressentimento dos eleitores.

Pelo meio, ficou a ‘apagada e vil tristeza’ de George W Bush e Tony Blair e o mal que fizeram. Agora, a esquizofrenia atingiu o paroxismo. E o terror vem do Oeste.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, novembro 23, 2016

Trump perdeu em votos mas ganhou as eleições

Imagem de El País

Mais de dois milhões de americanos preferiam o mal menor.

COIMBRA - Para a História


terça-feira, novembro 22, 2016

A gralha do DN

Eu vi a gralha sobre o frade que, por falta de préstimo para funções internacionais, recolheu ao Convento para escrever o último roteiro.

 Quanto ao frade, que enjoa a andar a pé, razão por que o motorista o recolhe e devolve todos os dias à Travessa do Possolo, a cerca de 1 km do convento, pernoita ali, na sua toca com duas marquises.

Deve andar em meditação profunda, a tentar descobrir porque foi o único PR que conseguiu sair do cargo perante o alívio geral. Ainda espera que, após o esquecimento das malfeitorias que o levaram a reincidir, contra a AR, no Governo de Coelho & Portas, que o País lhe perdoe.

A memória é curta, mas o monge de agora era rancoroso e reacionário. E não mudará.

Curiosidades - Opus Dei


segunda-feira, novembro 21, 2016

O princípio do fim da ditadura

Salazar – 29 de julho de 1970

O País não era apenas o offshore da sanidade mental, como ora se diria em português, era a apoteose do ridículo ao nível do aparelho de Estado.

Portugal suportou a mais longa ditadura europeia, a mais inútil e injusta guerra colonial, a maior fuga em massa à miséria, para a Europa, enquanto o ditador e os seus cúmplices usavam a censura implacável, prisões sem culpa formada, tortura de presos, julgamentos nos Tribunais Plenários e todas as velhacarias em que as ditaduras são férteis.

Julgou-se que o caruncho, no seu incansável labor, tendo corroído uma cadeira, acabaria com décadas de ignorância, fome, atraso civilizacional, analfabetismo, decadência ética, guerra e marginalização internacional, provocando a queda do ditador e da ditadura. Puro engano! Marcelo foi apenas o seguidor que ensaiou a continuação da ditadura com rosto humano, até se desmascarar e precisar do MFA para acabar com os desmandos.

O fim da ditadura e o heroísmo dos Militares de Abril, por mais azia e ranger de dentes que ainda despertem em meios reacionários, aconteceram. E, disso, todos sabem.

Mas é o ridículo, que dificilmente algo sublinharia melhor do que a foto que encontrei hoje na NET, e aqui deixo, que me levou a escrever este texto para gáudio dos leitores. Não se pode ficar indiferente à foto. Documenta o velório de Salazar, abrilhantado por Gabriel Monjane, o Gigante de Manjacaze, um negro moçambicano cuja desregulação hormonal o fizera crescer até aos 2,45 metros, com os horríveis padecimentos do gigantismo, e o anão de Arcozelo, seu companheiro num circo que os explorava como «o homem mais alto do mundo e o mais baixo».

Quem terá requisitado ao circo os dois infelizes para as cerimónias fúnebres de Salazar?

O SNI, a União Nacional, a Legião, a Pide, o ministro do Interior? Ignoro a origem da adjudicação que transformou a cerimónia fúnebre num espetáculo de circo. O ditador que iniciava a defunção bem merecia uma gargalhada de alívio. Mas a Pide também lá estava, a guardar o morto que não fugia.

domingo, novembro 20, 2016

Ponte Europa - 19.11.2016


O lançamento do livro ‘Ponte Europa’, da autoria de Carlos Esperança, ocorrido, ontem, numa escola primária – hoje sede uma das Juntas de Freguesia de Coimbra – transportou-nos a um mundo ‘irreal’.
Desde a vetusta escola encimada por campanários e rigorosamente dividida, quanto a género, por muretes divisórios (os muros não são uma criação do presente), onde as crianças viviam um ambiente escolar de semi-clausura, muito ao estilo do estertor da monarquia, onde o arquitecto Adães Bermudes pontificou, foi possível aconchegar um conjunto humano de cidadãos que se dedicaram ao doloroso exercício de reavivar memórias.

Este Portugal feito de memórias, de modestos desígnios e muitas ambiguidades mas avesso a tirar lições encontrou aí espaço para celebrar, ontem, uma afetiva e carinhosa cerimónia. Foi possível ‘encontrarmo-nos’ fisicamente e passar a enfatizar uns pitorescos acontecimentos (não obrigatoriamente todos literários), amiudadas vezes pícaros, revisitando um mundo rural, cheio de histórias, de relevâncias, curiosidades e acima de tudo cumplicidades, sem referir explicitamente que estávamos perante o seu velório (da sociedade rural).

Desde a sub-humana vida dos campos, onde tudo faltava mas onde tudo era exigido em termos de sobrevivência, passando pela picardia da prostituta Libânia que esbanjava afetos em estreitos tálamos e tratava o senhor presidente do Conselho por ‘meu filho’, pelas diatribes dos diretores administrativos escolares e finanças, funcionários e párocos que pontificavam no meio de um mar encapelado pelo medo, analfabetismo e incultura, tornados serventuários de um regime ditatorial, clerical e anquilosado, foi possível em pequenos episódios passar em revista uma época extremamente importante para a compreensão do Portugal de hoje. Estas memórias são gratificantes para quem viveu essa época, enchem vazios que a idade vai criando (até pelo embotamento da memória que a idade acarreta) mas não podemos esquecer que são a chave para a compreensão do presente e quiçá um dos alicerces para a construção do futuro.

Hoje, quando enfrentamos um drama emigratório de consequências devastadoras que perturba o Mundo e recai com inaudita violência sobre a Europa, parece-nos pequena e insignificante a migração ocorrida dos campos para as cidades e do Interior para o Litoral. Todavia, esta última marcou-nos e no íntimo continuamos a sentirmo-nos ‘provincianos’, embora exista uma profunda dificuldade em reconhecer os cosmopolitismos das grandes urbes.

Nunca seremos capazes de nos libertarmos da canga que foi a ruína da ‘lavoura’ que trouxe consequências em catadupa e não entendemos a demonstrada incapacidade em usar os instrumentos da revolução industrial em benefício da agricultura, tornando um polo aglutinador de desenvolvimento do Interior. Esvaziamos o futuro e deste modo o território. Um outro fator de desestruturação da sociedade rural que se enxertou nesta debandada foi a guerra colonial que mobilizou muita gente que no fim da comissão de serviço ‘imposta’, adquiriu ‘mobilidade’ e emigrou.

Quando nos reunimos por acidente de percurso e por amizade – como é o caso de um livro de contos - existem histórias bizarras, temos coleções de vivências a compartilhar, guardamos memórias, mas estamos deslocados no tempo e estranhamos o espaço que só em parte reconhecemos.

Ontem, foi bem visível este desfasamento que é muito diferente da frustração. Foi antes de tudo uma comemoração de diversas identidades como o denominador da interioridade. Almejamos construir pontes do passado para a futuro – daí a ‘Ponte Europa’ - mas não sabemos como. Não queremos perder o comboio da história mas o apeadeiro já não existe. Possivelmente foi transformado numa startup!

Finalmente, uma das indignações que nos assolou nos últimos anos foi a mudança toponímica de Ponte Europa para Ponte Rainha Santa Isabel. Talvez, esteja aí o decifrar dos equívocos. Em vez de caminharmos para a Europa uma das mais importantes apostas de futuro da nova geração de portugueses, Coimbra resolveu encetar o regresso aos tempos medievos onde, em pleno séc. XIII, uma infanta aragonesa reinou por cá, enquanto à sua volta, pelo Reino, grassava a fome, marca indelével da pobreza.

Portanto, Carlos Esperança, entre a medieva Isabel de Aragão e a Europa em franca convulsão de hoje há muitas pontes a erguer e muitos contos por escrever.

Franco, franquismo e impunidade

Faz hoje 41 anos que faleceu, excelentemente confessado, comungado e sacramentado, o maior genocida ibérico da História sem que lhe fizessem a justiça que coube a Luis Carrero Blanco.

A guerra civil espanhola (1936/39) foi tempo de horrores, dos dois lados da barricada, mas foi um golpe de Estado que derrubou o governo eleito, e o general cuja sedição foi designada ‘cruzada’, pelo papa de turno, que iniciou a feroz ditadura fascista que Hitler, Mussolini e Salazar apoiaram.

Não bastou a carnificina da guerra. Os fuzilamentos prosseguiram durante vários anos, nas praças de touros e nas ruas onde os falangistas abatiam republicanos suspeitos. Os próprios Tribunais, às ordens do ditador, condenavam à morte e mandavam garrotar.

Em Madrid, o delinquente Francisco Franco, que servira às ordens do general mutilado, Millán Astray, autor do grito ‘Viva la muerte!’, continuou a matar adversários através de milícias fascistas que os esperavam. O seu diretor espiritual, Escrivà de Balager, que fundou o Opus Dei, estagiou nessa função para a canonização.

Os crimes contra a Humanidade não prescrevem, mas em Espanha, com a cumplicidade do atual PP, a amnistia permitiu que nunca fossem julgados e, ainda hoje, se opõe às investigações das valas comuns para onde foram atirados os republicanos assassinados.

Franco foi um tenebroso ditador durante mais de trinta e cinco anos e ainda se permitiu impor a Espanha o regime futuro, a monarquia, a que escolheu o rei, depois de o educar no fascismo e de o ter obrigado a jurar fidelidade à falange.

Um ano depois do 40.º aniversário da morte do carrasco nazi, continua válido o cartaz então publicado no sítio http://www.ecorepublicano.es/, aqui reproduzido. Basta substituir o 0 pelo 1.

Hoje, pode ler-se aí que foi Adolfo Suárez que afirmou que não submeteu a referendo a monarquia porque as sondagens indicavam que perderia.

O dia de ontem - 19-11-2016

Para mim foi o encontro com velhos amigos no lançamento de um livro, pretexto para abraços e desfile de memórias, num dia carregado de ameaças a nível global.

- O Diário de Notícias deixou o edifício que tem o seu nome, depois de 76 anos a repetir outros 76 anos da rua que tem, há muito, o seu nome. Os jornalistas são despejáveis, e havemos de chorá-los agora, quando a especulação imobiliária os aloja em casa, frente a um computador, sem alma, sem gente e sem liberdade. Guardo do DN o artigo pungente e corajoso, de ontem, de Fernanda Câncio, e o do último cronista do DN, Ferreira Fernandes, de hoje.

- O dia de ontem, há 41 anos, foi a véspera da morte do genocida Francisco Franco. Escreverei sobre ele, durante a tarde de hoje. Os jornais espanhóis podem esquecer-se e a memória é um exercício doloroso para que vai faltando coragem. Que não me falte.

- Conheceram-se os principais colaboradores do protofascista Donald Trump. O homem não desiludiu. A tragédia vem a caminho. Cito a partir do DN de hoje: - O novo procurador-geral apoiou a deportação de milhões de imigrantes ilegais e impôs uma moratória à entrada de muçulmanos nos EUA; o novo diretor da CIA foi o primeiro congressista do Tea Party; o novo conselheiro de segurança nacional é um general conhecido pelas suas posições xenófobas; o principal conselheiro da Casa Branca é o responsável por um sítio de extrema-direita, na NET, “nacionalista, nativista e defensor da supremacia branca”.

Não é o primeiro a ser eleito democraticamente, mas é o mais poderoso e perigoso de sempre, quando o mundo já não tem força anímica, nem pode, na época de globalismo, transformar a saudação mexicana, que a imagem documenta, num grito universal.

sábado, novembro 19, 2016

Comandos: “Mama Sume”, não basta…

Os dramáticos acidentes que ocorreram no último curso de Comandos e envolveram múltiplos instruendos (2 deles mortais) está a sofrer o desenvolvimento judicial dentro das normas processuais e envolto em inúmeras promessas a mais importante delas será que o assunto será investigado até às últimas consequências.
 
Apesar do esforço que tem sido despendido pela Procuradoria-Geral da República, em colaboração com a Polícia Judiciária Militar, persistem densas perplexidades.
O caso avança com alguma lentidão e as detenções desta semana parecem extemporâneas link.
 
Desde o princípio havia a noção que um curso destas características (para tropas especiais) teria de ter um comando de forte e uma instrução planeada até ao ínfimo pormenor, bem como apoios logísticos, médicos e operacionais muito estruturados e sensíveis. É um pouco incompreensível como só agora se questiona a cadeia de comando. Ao fim e ao cabo a responsável última de tudo o que possa acontecer num tão exigente tipo de instrução.
 
A investigação de assuntos militares ou pior de ‘acidentes operacionais’ é sempre melindrosa porque envolvem características muito específicas. Por outro lado, os envolvidos não são cidadãos comuns. Carregam sobre os seus ombros a ‘condição militar’. Mas a progressiva democratização do País é cada vez menos tolerante com espaços penumbra e os estatutos especiais, ou específicos, cada vez menos aceites.
Um conceito que cada vez mais se encaixou no arsenal democrático – a transparência – acaba por mudar os paradigmas da análise social e dos comportamentos. Deixou de ser compreensível a existência lado a lado de uma justiça militar e outra para a sociedade civil, para usar um termo em voga mas que no caso vertente significa para todos, sem exceção.
 
Não é fácil lidar politicamente com estas situações. A existência de forças militares especiais – cuja necessidade em termos de defesa e Segurança parece consensual - sempre padeceu de um equívoco. Uma coisa são esses tipos de forças destinadas a missões especiais, difíceis e seletivas que exigem uma preparação técnica e humana minuciosa e os chamados ‘corpos de elite’. Aliás, o conceito de elite vem de muito longe, desde os ‘mosqueteiros’, das ‘guardas pretorianas’, ou mais recentemente, dos ‘totons macoutes’, etc. e é suficientemente arrogante, quando não discriminativo, para ser atualmente usado.
 
O problema recai primariamente nos processos de selecção destas forças especiais e secundariamente na motivação (objectivos operacionais) e só muito no fim terá em conta a 'realização pessoal'.
Para além de exigentes testes físicos PFT (Personal Fitness Test) existem outras vertentes complementares que devem ser ponderadas como por exemplo CFT (Combat Fitness Test), Long Drag, Fan Dance, etc.. Todavia, no cerne da questão estará a (qualidade) avaliação psicológica e psicotécnica quer dos instruendos, quer dos instrutores e a clarividência das chefias.
Um dos vectores mais utilizados para a 'seleção' são os testes de sobrevivência em condições adversas e a capacidade individual de resistência à claustrofobia. Não bastam!
Todos nós conhecemos o que se passou com as ‘acções psicológicas’ durante a guerra colonial. Se existia uma dose infindável de amadorismo foi neste campo psicológico e hoje é possível questionar os resultados obtidos, nomeadamente, os protagonizados pelo general Spínola na Guiné que foram amplamente propagandeados pela comunicação social.
 
Em resumo, os lamentáveis acidentes ocorridos durante o último curso de Comandos, para além do apurar de responsabilidades individuais e institucionais, devem imperiosamente  de levar à reformulação (reforma) de todo o quadro institucional e operacional das chamadas ‘forças especiais’, nomeadamente, quanto a questões de formação (competência, aptidões e motivações dos instrutores), bem como os critérios de recrutamento e, finalmente, dos meios técnicos e humanos disponíveis.
 
Toda esta reforma parte do princípio que o Estado Português deve possuir forças desse tipo face às ameaças internas e externas, nomeadamente conflitos não-convencionais, defesa interna no estrangeiro, reconhecimentos especiais, ação direta, operações de resgate (internas e externas) e, a luta anti-terrorista.
A amplitude destas funções não se compadece com improvisações. O grito “Mama Sume” hoje não passa de uma disponibilidade 'mental' (genérica e estridente) a que terá de ser acrescentada qualificação técnico profissional, avaliações psicotécnicas rigorosas e permanentes e, finalmente, da disponibilidade de meios apropriados (nomeadamente os tecnológicos).

COIMBRA - Convite

Car@s leitor@s

O livro «Ponte Europa», cuja apresentação será hoje feita pelo escritor e jornalista Fernando Paulouro das Neves, está disponível durante o lançamento.

Encontrar-se-á nas diversas livrarias da FNAC, Almedina, Bertrand e Leya, a partir do dia 25 (data provável), segundo me informou o diretor da Âncora editora, António Baptista Lopes, que estará hoje em Coimbra.

Qualquer livraria ou leitor o pode pedir à Editora.

Respondo deste modo a numerosos pedidos de informação que me têm chegado.

Apostila – Não fiz convites pessoais para não constranger os amigos que não queiram ou não possam estar presentes. De qualquer modo, todos serão bem-vindos.  

sexta-feira, novembro 18, 2016

O PSD no ocaso de Passos Coelho

Com Cavaco a bicarbonato para a azia causada pelo sucessor e Passos Coelho como a borboleta ofuscada pela luz, tonta e efémera, o PSD mergulhou no medo ao CDS e no rancor ao Governo, em especial aos partidos que o sustentam.

Quando, por essa Europa, a direita radical e ainda mais inculta do que a protagonizada pela dupla Cavaco/Passos Coelho ganha eleições, agitam-se as sucursais do partido e os avençados da comunicação social que apostaram na punição do país, por ter respeitado a composição da Assembleia da República e ter aí construído um Governo democrático.

Os democratas convertidos e os videirinhos já buscam nas alfurjas do cavaquismo quem pareça minimamente decente para substituir o incómodo ex-PM. A ausência de qualquer passado que o recomendasse ou o passado que não o recomendava, não o impediram de ser PM durante quatro anos, dilatados por um PR em estado terminal, apoiado num PSD que perdera a capacidade de reflexão.

Quando um dia se fizer a História e se compreender como foi possível a Relvas e Marco António fazerem de Passos Coelho PM e de Cavaco o seu dedicado protetor, saberemos como foi possível protelar as eleições legislativas e adiar a posse do atual governo, com prejuízos graves para o país.

Quanto maior for a longevidade do XXI Governo Constitucional maior será a aceitação popular de que o arco do poder não seja um modelo de que a direita tenha o alvará, nem a definição de partidos democráticos um monopólio da esquerda.

quinta-feira, novembro 17, 2016

Tesourinho deprimente

Pobre coluna

Suspeitas sobre o Sr. Manuel Clemente, cardeal de Lisboa

Clique na imagem para ampliar

Não acredito que o cardeal dos colégios soubesse!

A Bulgária e as eleições presidenciais

Para a História, ficaram rivalidades contra o império otomano e, depois, contra a Sérvia, Grécia e Roménia, sucessivamente. Foi e deixou de ser Estado independente em épocas diferentes. No século passado as suas fronteiras sofreram de geometria variável e a sua população de alterações étnicas, ao sabor da força das armas e da geoestratégia mundial.

A Bulgária foi um país aliado do nazismo durante a guerra de 1939/45. Esteve depois sob o domínio da URSS até à implosão desta. Em 2004 passou a integrar a NATO e, em 2007, a União Europeia.

No último domingo, o candidato da oposição socialista ao Governo, Rumen Radev, um general pró-russo apoiado por ex-comunistas, venceu as eleições presidenciais contra a rival apoiada pelo primeiro-ministro conservador, Boiko Borisov.

Não se trata de mera alternância do poder. O candidato socialista, ao vencer as eleições presidenciais, provocou a demissão, já anunciada, do PM conservador e as divergências atingem o consenso precipitado da União Europeia em relação à integração da Crimeia na Rússia.
 
Rumen Radev, vencedor das eleições, defende essa integração que a UE contestava num alinhamento com a política da NATO cujo futuro fica agora dependente do imprevisível e pouco recomendável presidente Trump.

A localização da Bulgária na instável região balcânica, a sua tradição beligerante com os países vizinhos e a crescente deriva autoritária do Irmão Muçulmano turco, Erdogan, aliada à manifestada intenção de alargamento territorial, no rescaldo da destruição síria, são ingredientes bastantes para tudo o que possa correr mal à Europa, corra ainda pior.

A Moldávia elegeu também um Presidente pró-russo, Igor Dodon, que já prometeu um referendo à UE.

Pior e mais inquietante cenário do que o que ora se desenha, é impossível.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, novembro 16, 2016

A Religião Verdadeira e a verdade das religiões

O governo alemão proibiu ontem, dia 15, o grupo islamista Die Wahre Religion ("A Religião Verdadeira"), por pregar o ódio religioso e manter contactos com crentes que saíram para a Síria e Paquistão a fim de participarem na jihad.

Não há uma só religião que não se considere a única verdadeira, tal como o seu Deus, e falsas todas as outras e o deus de cada uma delas. Essa situação faz de todos os crentes ateus. Estes só consideram falsa mais uma religião e um deus mais. No fundo, somos todos ateus em relação aos deuses da mitologia, e os vindouros estudarão na mitologia os atuais.

O problema não está na falsidade das religiões, mas na sua nocividade, sempre que os crentes, convictos da vontade de um ser imaginário, são capazes das maiores crueldades para lhe agradarem. E nem a mentira mais tosca ou a mais primária superstição os inibe de as usarem como armas.

Em Itália, um padre católico, que deixou o papa Francisco com os cabelos eriçados, não se coibiu de atribuir os terramotos que têm fustigado a Itália, a castigo de Deus. Só não explicou se o alvará de padre lhe permite interpretar a vontade do deus dele e ir além da transformação da água vulgar em benta e de realizar o complexo processo alquímico da transubstanciação. Na sua demente superstição, ou maldade, deixou Deus mal colocado.

No estado em que o Islão se encontra, perante o fracasso da civilização que aniquilou as energias criativas, os facínoras de Deus usam a crença para todas as tropelias. Querem o Paraíso para todos os outros nem que, para isso, tenham de os matar. A bomba pode ser um método obsoleto, mas é eficaz na redução de infiéis.

Quando as religiões ultrapassam a pacífica transmissão das crenças e a prática litúrgica, deixam de ser um veículo para o Paraíso e tornam-se um perigo para a paz. Deixam de ser fé e passam a fezes que, por razões sanitárias, devem ser erradicadas.

terça-feira, novembro 15, 2016

Europeísta sofre...

Enquanto muitos, por boas ou péssimas razões, apostam na implosão da UE, certamente com imensas probabilidades de terem uma efémera alegria, há boas razões para temer a tempestade perfeita que se aproxima.

Os nacionalismos fervilham, os empregos escasseiam, a xenofobia medra, as diferenças sociais acentuam-se, o crescimento económico estagnou e a crise bancária acompanha a dos valores morais que são a matriz da civilização europeia (com interrupções cíclicas).

A autoexclusão do Reino Unido da União Europeia é o exemplo para a debandada de vários países que não têm as tradições democráticas dos ingleses. A eleição de Trump é a panela de pressão que rompe o civismo a que os políticos europeus se obrigavam.

As ambições territoriais e a desregulação dos equilíbrios que, diga-se, não foram felizes nem justos, são o fermento de uma época de incerteza e de violência sem antídoto.

Há países fragilizados a fecharem-se nas suas fronteiras, outros a ameaçarem dividir-se e, alguns, apostados, como no passado, a reconstituir impérios ou califados, enquanto a multidão de desesperados procura a Europa, com terroristas infiltrados.

A estadista que resta é a Senhora Merkel cada vez mais ameaçada pela extrema direita, que ressuscita; a comissão Europeia não teve, depois de Jacques Delors, um sucessor à altura das funções; a moeda única, agora ameaçada, é o que resta do sonho europeu. Os países vão sucessivamente deslizando para extremismos numa febre de mudança sem se interrogarem quanto ao rumo.

Estamos à mercê da chantagem, do medo e da irresponsabilidade dos que foram eleitos pelo único método que defendo.

Não sou um europeísta desencantado, sou um europeu cético quanto ao futuro da Humanidade.

Os tribunais portugueses e a independência dos juízes_2


Este texto foi também publicado na minha página do Faceboock onde mereceu vários comentários discordantes, o que vejo sempre com agrado, e raramente comento.

Desta vez, houve um comentário que, tendo a minha discordância, não seria motivo para o comentar, se a sua natureza, não exigisse uma aclaração do que considero um perigoso preconceito.

Do comentário, reproduzo a parte que importa: “se acreditam, devem estar a sonhar. Por[que] não perguntam a um juiz, que seja do Opus Dei ou Maçom? Acreditam que eles alguma vez fariam mal a um "irmão". Desiludam-se amigos e para os menos atentos aconselho-os a ler os "princípios" nos quais se fundamentam os membros dessas duas "seitas".

O apriorismo do raciocínio permite pensar que um juiz católico, muçulmano ou judeu não é capaz de condenar um ‘irmão da fé’ e, por analogia, só podemos confiar na justiça feita por ateus ou, melhor, por agnósticos. De igual modo, a pertença clubística seria determinante para o veredicto hostil ou favorável. É um mero preconceito que não tem acolhimento nos estudos feitos por Observatórios da Justiça, ou merecido qualquer referência (que eu conheça) do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa (OPJ).

Mas vamos às duas «seitas» referidas e que, da minha parte, têm apreciação antagónica. O Opus Dei teve no seu fundador um apoiante do genocida Franco e o silêncio cúmplice perante fuzilamentos sem julgamento e o garrote como pena ‘cristã’; a maçonaria esteve na revolução de 1820 e no 5 de Outubro, na independência dos EUA, do Brasil e Timor, isto é, no liberalismo, iluminismo, Revolução Francesa, República e democracia. Os 4 redatores da Constituição dos EUA eram maçons, Washington, Franklin, Randolph e John Adams, e não eram malfeitores. O general George Washington desfilou à frente do exército com as insígnias maçónicas que o a foto documenta.

E há um erro de raciocínio que, no meu ponto de vista, parece grave, a confusão entre a crença e os crentes. Alguém pensará que o Dr. Mota Amaral, conhecido membro do Opus Dei, seria capaz de absolver um criminoso da sua Ordem se, acaso, fosse juiz? Ou que António Arnaut, pai do SNS, referência ética, cívica e política dos portugueses, e ex-grão-mestre do GOL, seria capaz de uma iniquidade?


Deixo estas perguntas para reflexão de quem ignora que a Justiça portuguesa tem várias instâncias e excelentes magistrados, alguns injustamente tratados.

segunda-feira, novembro 14, 2016

Jorge Sampaio - 26628 carateres

Para memória futura, registo aqui este texto, longo e lúcido, de um excelente Presidente da República.

Na impossibilidade de acesso ao texto, passo a reproduzi-lo:

Jorge Sampaio
14/11/2016 - 06:45
Jorge Sampaio alerta para a "tendência global" dos movimentos populistas, a propósito também da eleição de Donald Trump. Neste ensaio para o PÚBLICO, o ex-Presidente da República afirma que o "Brexit" constitui um "ponto de não-retorno" e que a própria Europa tem de travar a "corrida para o abismo".

Ao optar por me debruçar aqui sobre a “questão europeia”, chamemos-lhe assim, o meu objectivo não é trazer à colação certezas e ideias feitas acerca da Europa, do seu passado e do futuro, mas antes tentar desbravar um caminho de interrogações e perplexidades, que são afinal as de um europeu convicto, que teima em continuar a sê-lo, mas que se confronta com um conjunto de contradições, dilemas e perguntas para as quais as respostas não parecem óbvias nos tempos que correm. Ou seja, e este é o meu ponto de partida, as convicções outrora firmes que me acostumara a assumir como premissas inabaláveis de um europeísmo esclarecido estão hoje, em 2016, algo toldadas pela acumulação de dúvidas nascidas da confrontação com a realidade — o tal reality check, como bem se diz em língua inglesa —, assim como pela acentuada e generalizada erosão da confiança na Europa, no seu funcionamento, na sua capacidade de cuidar dos bens públicos europeus e de responder às expectativas dos cidadãos.

Em suma, tentarei fazer nestas páginas um exercício de militantismo europeu, na certeza de que a dinâmica do capitalismo global, tal como se desenvolveu e se afirma no nosso tempo à escala planetária, exige da Europa e dos países europeus a determinação de se constituir como uma alternativa sólida, por um lado, à financeirização da economia e, por outro, ao capitalismo autoritário de “valores asiáticos”, por assim dizer. Se esta alternativa coincide com a União Europeia, tal como a conhecemos hoje, ou se exige uma outra Europa, é uma questão que está em aberto e cujos contornos aqui procurarei, precisamente, delinear.

À partida, direi, como posição de princípio, que é na fractura aberta pelas insuficiências da actual Europa que importa trabalhar, mesmo se para tal for necessário quebrar alguns tabus, colocar questões inconvenientes e formular “hipóteses fora da caixa”.

A eleição de Donald Trump para Presidente dos EUA traz consigo um lote acrescido de imprevisibilidade e de incertezas, sendo plausível um período mais ou menos longo de ajustamentos ou mesmo, digamos, de aprendizagem por ensaio e erro no plano da política externa da nova administração, com todos os riscos inerentes
União Europeia, 60 anos em 2017.

Está já anunciada, para o próximo ano, uma cimeira extraordinária para comemorar o 60.º aniversário dos Tratados de Roma, assinados a 25 de Março de 1957, os quais, como é bem sabido, deram origem à actual União Europeia. Celebrações do género têm povoado a vida europeia, sendo que, desta vez, as questões da participação ou não do Reino Unido e a proximidade das eleições presidenciais francesas — cuja 1.ª volta está prevista para 23 de Abril — poderão vir a dominar ou mesmo a ensombrar as referidas comemorações, para não referir sequer a incerteza que paira sobre o futuro político em Itália ou da própria Alemanha, onde haverá também eleições legislativas no Outono do próximo ano. De qualquer forma, para além da coreografia habitual que inclui discursos de ocasião e a tradicional fotografia de família, o facto mais relevante será o documento a apresentar sobre “o nosso futuro comum”, tal como foi decidido e anunciado no Conselho Europeu de Bratislava de Setembro último.

Mas a verdade é que sabemos, de resto bem de mais, o quanto o tema do “futuro da Europa” está hoje gasto e mais do que esgotado, uma vez que consta da agenda europeia desde a adopção do Tratado de Nice, tendo estado, de resto, no centro de vastos e múltiplos debates travados à escala europeia no âmbito da convenção lançada em Dezembro de 2001 e que se prolongou pelos anos seguintes. Não nos esqueçamos do desfecho de todo esse processo, que redundou no abandono do projecto da adopção de um tratado constitucional para a União Europeia, na sequência da sua rejeição por referendo em França e nos Países Baixos em 2005.

Lembro aqui este pedaço da nossa história comum porque, com o passar do tempo, apercebemo-nos melhor do quanto a crise que a Europa atravessa hoje, e que já ninguém nega, tem raízes bem mais profundas, emaranhando razões, falácias e demagogias, disfarçando disfuncionamentos e problemas que foram deixados para trás sem que tivesse havido tentativas sérias de os resolver, a não ser através da convocação de sucessivos grupos de sábios e da apresentação de relatórios sobre o futuro da Europa, depressa deixados de lado…

Por mim, considero que a consistente e reiterada manifestação de movimentos populistas, a que estamos a assistir, correspondem a uma nova e inquietante tendência global, que se expressou já no plano europeu nos referendos de 2005, que se consolidou no "Brexit" e que, no plano nacional, tem dado origem à criação de partidos nacionalistas e a vitória a figuras políticas improváveis.

Mas, fixando-nos, para já, no quadro europeu, olhando para a última década, não nos pode escapar o facto de a União Europeia enfrentar uma clara acumulação de dificuldades, problemas mal resolvidos e alguns estrondosos insucessos, o que faz com que seja hoje consensual o estado de crise crónica do projecto europeu, agravado, sem dúvida, a uma escala sem precedentes, com o resultado do referendo no Reino Unido que levará à sua auto-exclusão da União Europeia.

A saída anunciada do Reino Unido da União Europeia constituiu um ponto de não retorno no projecto europeu
As dificuldades e desafios são de vária ordem, mas aqui gostaria de começar por identificar duas grandes áreas: a económica, monetária e financeira, por um lado, e a da segurança, do controlo das fronteiras e das migrações, por outro. Em ambos os domínios produziu-se, a meu ver, um ponto de clivagem forte que assinala, porventura, um ponto de não-retorno, cujo desfecho está ainda por determinar.

Sejamos, pois, claros: a crise das dívidas soberanas não foi resolvida, mas basicamente está apenas suspensa devido à intervenção do Banco Central Europeu. Ou seja, os fundamentos da crise continuam presentes, a saber: o baixo crescimento, o alto desemprego e a elevada dívida pública e privada cuja implicação é, respectivamente, a contenção do Estado social e do investimento público e a retracção do investimento privado com recurso a capitais próprios das empresas. Face a esta situação, a verdade é que a resposta da União Europeu (quer da Comissão, quer do Conselho) tem sido claramente insatisfatória: por um lado, como a união bancária (nomeadamente com o mecanismo de garantia de depósitos) continua por completar, a eventualidade de uma nova crise torna-se maior, a qual obviamente atingiria os países mais vulneráveis, incluindo Portugal. Por outro lado, não havendo progressos na união orçamental e mantendo-se a situação actual, não há forma de o orçamento comunitário (ou da zona euro, aliás, inexistente) poder absorver os choques assimétricos que se fazem sentir em países particulares.
Acresce, ainda, que, não se tendo encontrado nenhuma solução global para o problema das dívidas excessivas, se mantém a vulnerabilidade, em particular dos países com maior endividamento, face ao agravamento das suas condições de financiamento.

A interpretação dominante dos tratados, regulamentos e acordos produzidos pelas instituições europeias continua a ser, embora com algumas modulações, a de one size fits all. Ou seja, aquilo que é proposto e de certo modo exigido aos países e aos povos europeus dos países mais vulneráveis é que mantenham por períodos significativos (dez a 15 anos) políticas ou de austeridade ou de forte contenção orçamental e que registem significativos excedentes nas suas contas públicas (de resto, nunca alcançados no passado) dificilmente compagináveis com a manutenção dos seus estados de bem-estar.

Mas o pior é que, de facto, ninguém parece acreditar que Bruxelas (ou Berlim) tenha qualquer iniciativa nos próximos meses para responder à crise da eurozona, para alterar a ortodoxia financeira dos credores ou para criar as condições institucionais e orçamentais que tornem possíveis programas de reforma nas economias mais frágeis. Ora, acontece que também não existe nenhum indicador no sentido da inversão de tendência de crise nos países devedores: a Grécia pode requerer um novo resgate, a negociação sobre o sector bancário italiano não está fechada e, em Portugal, a crise que nunca acabou parece igualmente concentrada no sector bancário.
A confiança hoje está abalada de forma sistémica e sistemática — e, no fundo, a questão que se coloca é se esta desconfiança está já demasiado cimentada para ser reversível e evitar o alastramento dos populismos de toda a sorte.

Em suma, devemos reconhecer que a Europa tem um problema imediato para resolver, e que são as deficiências da moeda única. Há um conflito entre países em torno do cumprimento do Tratado Orçamental, do reforço da união bancária e da definição de elementos de união política.

Como resultado de todas estas questões mal resolvidas ou por resolver, a área dos problemas sociais adquire premência redobrada — como criar emprego, incentivar maior procura na zona euro e promover maior justiça social através da luta contra as desigualdades crescentes?

O conjunto destas dificuldades — monetárias, financeiras, económicas e sociais — tem constituído um ponto de clivagem forte no seio das opiniões públicas europeias, contribuindo para gerar o reforço, agora com fundamentação económica, dos argumentos daqueles que, radicalizados à esquerda ou à direita, apelam ao fim do projecto europeu e ao regresso do proteccionismo e dos nacionalismos.

Como acima já mencionei, deparamo-nos, a meu ver, com uma segunda grande área de problemas relacionados com a segurança: o controlo de fronteiras e as migrações. A forma desastrosa como a União Europeia tem gerido este conjunto de dossiers tem constituído um segundo pólo de fricções e de clivagem no seio das sociedades europeias, designadamente devido às migrações descontroladas do ano passado, à questão da repartição e integração dos refugiados, que continua por resolver.

Importa sublinhar que ligada a esta área de problemas está também a crise do modelo aberto, tolerante e inclusivo das nossas sociedades europeias, a braços com conflitos de ordem cultural e de valores. A dificuldade em lidar com o choque cultural que está a abrir brechas fundas nas nossas sociedades explica — juntamente com as dificuldades económicas e as desigualdades sociais — o esboroamento a olhos vistos da confiança na União Europeia, nas suas instituições e nos seus líderes, com todas as sondagens e estudos de opinião a ilustrarem esta tendência.

É impossível não olhar já para as eleições de 2017 em França e na Alemanha como próximas etapas prováveis desta corrida para o abismo.

Isto explica, creio, a criação de partidos políticos fora do mainstream, partidos de franjas e extremos, e de movimentos inorgânicos sui generis, bem como, por efeito de espelho, o reforço dos partidos antieuropeus e populistas que advogam o encerramento das fronteiras, o proteccionismo e o regresso dos nacionalismos, porque, aos olhos dos cidadãos, está em causa o fraco ou mau desempenho da governação europeia e a sua incapacidade em gerar emprego e prosperidade ou ainda em encontrar soluções para desafios globais, como sejam o terrorismo, a gestão das fronteiras ou a questão dos refugiados e das migrações.

A mim, parece-me que a confiança hoje está abalada de forma sistémica e sistemática — e, no fundo, a questão que se coloca é se esta desconfiança está já demasiado cimentada para ser reversível e evitar o alastramento dos populismos de toda a sorte.

A este respeito, a saída do Reino Unido da União Europeia é inquietante, a vários títulos, de que salientarei três: primeiro, porque inaugura uma nova etapa na história europeia, a da “desconstrução” da União Europeia, uma fórmula suave para não dizer “destruição”, após 60 anos dominados pela dupla dinâmica do “alargamento-aprofundamento” da UE. Em segundo lugar, porque é uma porta aberta para que outros Estados lhe sigam no encalce; em terceiro lugar, porque é uma fonte de inúmeras e pesadas incertezas que poderão acabar por precipitar um sem-número de problemas em cascata — na área das políticas comuns, mas também no plano da economia, da segurança, da política externa ou da defesa, bem como abalar de forma duradoura equilíbrios de poder já de si precários no seio da governação europeia.

Olhando para o resultado das eleições presidenciais americanas, creio que há razões tangíveis que reforçam inquietações e pessimismo, pois está claro que todas estas tendências vão no mesmo sentido, reforçando-se negativamente, sendo impossível não olhar já para as eleições de 2017 em França e na Alemanha como próximas etapas prováveis desta corrida para o abismo.

Por conseguinte, neste complexo contexto europeu e internacional em que nos encontramos, reconstruir a confiança constitui, a meu ver, um desafio grande, moroso, complexo, mas incontornável. Não há economia nem mercado nem política nem democracia sem esse cimento de base, a confiança. Não há paz duradoura se a desconfiança minar as relações entre comunidades, povos e nações, se o pacto social for rompido.

Não quero com isto vaticinar um destino trágico para a União Europeia — o que é dizer para todos nós —, mas sim, ao invés, lançar um apelo veemente para que se faça algo para inverter esta corrida para o abismo em que parecemos lançados.

Para restaurar a confiança, é preciso proceder à recapacitação das nossas democracias no plano nacional, ao nível central e local; mas esta passa também pelo resgate da democracia representativa na Europa, na fórmula sugestiva de Soromenho Marques, pelo aprofundamento de uma União Europeia que sirva os cidadãos e defenda o interesse geral europeu.

Tenho a convicção de que cabe à Europa contribuir para reinventar a democracia para a nossa era da globalização, até porque a Europa não é só parte dos problemas, mas é também solução, dando aos países mais controlo sobre políticas que se tornaram globais. Agora, tal não acontecerá se a Europa não contribuir para reforçar o poder de escolha dos cidadãos, revitalizando a ideia de que a democracia é o regime em que as alternativas políticas são possíveis. Mas, para isso, a União Europeia tem de reatar com o melhor da sua tradição, a que combina a liberdade que vem do liberalismo com a estabilidade, o bem-estar e a equidade social que vêm da social-democracia. Se Bruxelas e os Estados-membros da União Europeia não entenderem isto e nada fizerem para resgatar estes valores, as comemorações de Março do próximo ano do 60.º aniversário dos Tratados de Roma correm sério risco ou de não terem sequer lugar ou de se transformarem numa marcha fúnebre.

O novo contexto geopolítico
Incapaz de gerir bem a inédita complexidade da presente globalização, o século XXI começou mal, carregando já nestes seus primeiros anos um cortejo de indescritíveis violências, situações de terror múltiplo e geograficamente disperso, crises económicas e financeiras demolidoras de um desejável progresso social, com preocupantes efeitos numa generalizada descredibilização da acção política, quer seja no plano nacional, quer no da concertação internacional, que desacredita todo o sistema do multilateralismo.

Difícil, por tudo isto, ser optimista, quando a realidade nos interpela, revelando um tempo de conflito e de persistentes violações dos direitos humanos; de intoleráveis assimetrias na riqueza e no acesso aos bens públicos, que depois se projectam no desenho de uma penosa geografia mundial de doenças, epidemias e exclusões; ou na insistente existência de massacres sectários.

Assistimos hoje a perversas destruições de memórias históricas que constituíam até agora acervo intocável do património da humanidade; presenciamos o alastrar de perigosos fundamentalismos, que julgávamos já sepultados pelo progresso comum; e, neste milénio gerador de tantas expectativas, convivemos com a vergonhosa tragédia dos refugiados e migrantes que procuram na Europa uma alternativa à morte, à perseguição, à violência ou à fome, e encontram o Mediterrâneo como sepultura dos seus magros sonhos, reféns de redes de traficantes que continuam a operar com escandalosa impunidade.

A Grécia pode requerer um novo resgate, a negociação sobre o sector bancário italiano não está fechada e, em Portugal, a crise que nunca acabou parece igualmente concentrada no sector bancário.

Neste mundo preocupado por um diferente alinhamento de hierarquias de poder e da emergência de novas inseguranças, percebemos com desalento que mesmo a União Europeia — aonde antes íamos buscar conforto, porque depositária de muitas das nossas esperanças de progresso e de equilíbrios estratégicos — tem revelado nos últimos anos uma impotência decisória que parece ser a única marca da sua política externa.

Agora a questão crucial é que a saída anunciada do Reino Unido da União Europeia constituiu um ponto de não-retorno no projecto europeu. A meu ver, ignorar que estamos perante uma situação em que nada será jamais como dantes e em que nada poderá continuar a ser business as usual levar-nos-á directamente ao precipício.

A história não se repete, mas há dinâmicas que parecem recorrentes, sufragadas por teorias várias, designadamente as que ao apogeu dos grandes projectos civilizacionais fazem seguir o declínio e a decadência como etapas previsíveis. Não quero com isto vaticinar um destino trágico para a União Europeia — o que é dizer para todos nós —, mas sim, ao invés, lançar um apelo veemente para que se faça algo para inverter esta corrida para o abismo em que parecemos lançados e de que, de resto, a emergência dos populismos como uma nova tendência global constitui um sério e preocupante aviso, reiterado com o resultado das eleições americanas.

Perante este quadro sombrio, importará, todavia, lembrar que, da História, e da sua lenta e pouco linear passada de anos e séculos, nos chega igualmente um sólido acervo de realizações que justificam que nos continuemos a bater por um futuro melhor e pela evolução positiva da sociedade em que vivemos, no plano nacional ou internacional.

O século XXI tem criado, à volta da Europa, um extenso arco de conflitos e situações de crise que lavram, vitimando sobretudo as populações civis e impelindo milhares a lançar-se em aventuras transcontinentais incertas e perigosas. A luta contra o terrorismo, se continua a mobilizar os esforços de um vasto leque de parceiros, deixa, no entanto, em aberto numerosas incógnitas, como sejam o futuro da Líbia, Síria, do Iraque, do Iémen e do Afeganistão, bem como a relação de forças entre, digamos, o eixo sunita/xiita. O relacionamento com os parceiros próximos da Europa — designadamente Turquia e Rússia — padecem de interlocução séria e de um agenda europeia própria, reféns de interesses mais vastos e contraditórios, ora focados na crise dos refugiados no que respeita à Turquia, ora na questão ucraniana no que toca à Rússia ou ainda na questão síria, que envolve ambos.

A crise das dívidas soberanas não foi resolvida, mas basicamente está apenas suspensa devido à intervenção do BCE
Por seu turno, o relacionamento transatlântico, tão essencial à própria dinâmica intra-europeia, está hoje suspenso por um pesado conjunto de incertezas, resultantes quer de todas as incógnitas e indefinições que rodeiam a próxima administração americana, quer, do lado europeu, das consequências do "Brexit" na redefinição dos equilíbrios intra-europeus e do seu impacto geral nas relações de cooperação, num vasto plano de matérias, incluindo a segurança e a defesa e nomeadamente com a NATO.

A eleição de Donald Trump para Presidente dos EUA traz consigo um lote acrescido de imprevisibilidade e de incertezas, sendo plausível um período mais ou menos longo de ajustamentos ou mesmo, digamos, de aprendizagem por ensaio e erro no plano da política externa da nova administração, com todos os riscos inerentes.

À Europa caberá a opção ou de se tornar irrelevante ou de se afirmar como um modelo civilizacional, económico e de sociedade com peso próprio, podendo afirmar-se como o fiel das múltiplas balanças que se poderão vir a desenhar no seio de uma ordem mundial multipolar, marcada por uma geometria de poderes variável.

Para mim, que, sobretudo nestes últimos anos, viajei intensamente pelo mundo inteiro, convivi de perto com povos de todos os continentes, discuti e vi realidades — culturais, sociais, políticas e societais — das mais variadas, há uma coisa que se tornou óbvia: é que, de onde quer que viesse (da Ásia, África, Américas ou do Extremo Oriente), a noção de se “chegar a casa” quando se aterra na Europa (seja em Paris, Londres, Luxemburgo, Tessalónica, Amesterdão, Barcelona, Riga ou em Cracóvia) é real, além de extremamente reconfortante…

E isto significa, afinal, que a Europa é a partilha de uma casa comum, de um património civilizacional e de valores, de um modelo de sociedade, e que é isto que nos faz sentir parte de uma mesma família, enfim, que nos faz sentir sermos todos cidadãos e membros de uma comunidade de destino. Para mim, é esta sensação ou sentido de filiação ou de cordão umbilical comum que dá sentido ao projecto político europeu. Ora, um dos grandes desafios que se coloca hoje é precisamente o de como reforçar este sentimento de pertença dos europeus, sejam urbanos ou de comunidade rurais, de gerações mais novas ou mais antigas; como fortalecer o sentido desta identidade partilhada; como revigorar o orgulho de ser europeu.
Dever-nos-íamos bater por que a Europa do euro — ?a dos 19 do euro — seja o verdadeiro núcleo duro de uma UE reformada.

Portugal, 30 anos depois
Ao completarem-se 30 anos da adesão de Portugal ao projecto de integração europeia, porventura a mais inovadora experiência política realizada desde a paz de Vestefália, este poderia ser o momento certo para fazermos um balanço rigoroso e exaustivo da nossa participação europeia na dupla vertente do que a Europa tem feito por nós e do que podemos fazer por ela.

Como a “questão do futuro da Europa” está de volta, importa, a meu ver, que Portugal inicie um processo de reflexão interno — dentro das mais variadas sedes e foros, designadamente no plano das instituições de segurança e defesa — sobre como assegurar uma participação de qualidade na União Europeia. Temos de ser contribuintes líquidos para o debate europeu que vai ocorrer na sequência do "Brexit", que se vai intensificar e em que não poderemos figurar como espectadores mais ou menos passivos. Temos de saber o que queremos, temos de levar ideias claras e propostas bem definidas, e, sempre que possível, contribuir para liderar o debate.

Sabemos já — de um saber feito de experiência e, por vezes, de dura experiência — que temos de ser mais rigorosos em relação à Europa que queremos. Já vimos que não é uma qualquer Europa que serve os nossos interesses. Creio que deveríamos identificar o núcleo duro de premissas por que nos deveríamos bater. Por exemplo, penso que deveríamos recusar todo o tipo de iniciativas restritivas que se baseiem em critérios passadistas e obsoletos, como sejam as que recorrem à figura dos “membros fundadores”. Ao invés, dever-nos-íamos bater por que a europa do euro — a dos 19 do euro — seja o verdadeiro núcleo duro de uma UE reformada. A meu ver, dever-se-ia começar por solidificar a União entre os 19 da zona euro por forma a relançar a construção europeia pela base — ou seja, através de um compromisso claramente político no sentido de reforçar os mecanismos económicos e financeiros da zona euro.

Um outro ponto muito importante é que a saída do Reino Unido da UE vai produzir mudanças fundas em termos dos equilíbrios de poder intra-europeus, sendo provável, a meu ver, a consolidação do “momento unipolar” alemão, incluindo o reconhecimento norte-americano da Alemanha como o principal parceiro europeu dos Estados Unidos. Essa evolução estava esboçada já antes do "Brexit", mas a sua confirmação marcará uma viragem que obrigará Portugal a concentrar-se sobre as suas relações com a Alemanha e com a Espanha, que é o principal parceiro de Berlim (e de Washington) na Península Ibérica.

Por certo, Portugal deve reconstituir, num quadro bilateral, a sua relação com o Reino Unido, como o exigem a história comum, os interesses económicos e a necessidade imperativa de proteger as comunidades emigrantes — devem estar mais de 300 mil portugueses no Reino Unido, o principal destino da última vaga de emigração. Mas essa relação deixa de ser directamente relevante na balança interna da União Europeia.

[Em Portugal] são cada vez mais fortes as posições nacionalistas contra a integração europeia, incluindo do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, na ausência de uma força populista de direita.

Esta alteração dos equilíbrios geopolítico-estratégicos exigirá reflexão aprofundada do nosso lado, realinhamentos e reposicionamentos diplomáticos e de política externa que convém prepararmos atempadamente.
Por último, penso que é também forçoso admitir que deixou de existir, agora no plano interno, um consenso nacional sobre a política externa, incluindo entre os dois principais partidos. Tornaram-se mais evidentes as clivagens que separam os partidários do reforço de uma aliança alemã dos outros que se lhe opõem, persistem as divisões que separam os europeístas e os atlantistas, são cada vez mais fortes as posições nacionalistas contra a integração europeia, incluindo o Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, na ausência de uma força populista de direita.

Neste contexto, há que nos interrogarmos sobre qual será a melhor estratégia e os vários níveis de interlocução — inclusive institucional — para inverter as divergências cavadas entre as elites políticas, que não parecem preparadas para responder à crise precipitada pelo "Brexit". Há também que reflectir seriamente sobre o impacto possível de novas opções de política externa e de defesa da futura administração americana para os nossos próprios interesses nacionais.

Em suma, atravessamos um momento especialmente crítico para o nosso futuro colectivo — no plano nacional, mas também europeu e até mundial. Mas, qualquer que seja o sentido futuro da integração europeia — e sabemos que há vários cenários —, o que me parece importante sublinhar aqui é a necessidade de se aprofundar a discussão sobre que Europa queremos, que modelo para a reformatação da zona euro e que actualizações pretendemos fazer dos nossos compromissos europeus.