sábado, dezembro 31, 2016

UE/Modávia: A Leste nada de novo….

2016 foi um ano negro para a UE. Passando ao lado da crise dos refugiados que é uma catástrofe importada da situação que se vive no Médio Oriente e no Norte de África (onde o Ocidente não consegue sacudir as culpas no cartório), sobressai o Brexit como o grande abalo na coesão europeia.
As pretensões de extensão da UE, nomeadamente a adesão de novos países a Leste, política que foi iniciada durante o mandato de Durão Barroso como presidente da Comissão Europeia, estão a revelar-se absolutamente desastrosas. O que está de acordo com a distorcida e vesga visão política do atual diretor (presidente) do banco Goldman Sachs.

Num claro assédio à Rússia, na realidade, o pivot dessa área geográfica (Leste europeu) a Comissão Europeia apostou na ‘desrussificação’ do regime ucraniano, apoiando os protestos contra o ex-presidente Yanukóvytch. A sua destituição teve várias consequências a primeira das quais a anexação da Crimeia e a perda de controlo do Leste do País, mas a médio prazo a aproximação no novo poder instalado em Kiev à União Europeia, passados os primeiros fogachos, revela-se bastante problemática. Pelo meio as sanções da UE contra Moscovo (ainda em vigor) revelaram-se com consequências políticas e económicas importantes e difíceis de reverter e cujo saldo - em relação à Europa - não é fácil de apurar.

Ao problema da Ucrânia junta-se agora o da Moldávia. Em 2014 o Governo de Quichinau assinou um Tratado de Associação com a UE. Segundo o método habitual, isto é, sem uma consulta popular. O novo presidente da Moldávia, Igor Dodón, o primeiro eleito por voto popular direto (depois da dissolução da URSS), quer reverter a estratégia adotada desde há 3 anos link .
Para além desta situação política externa a Moldávia está confrontada com problemas internos, nomeadamente na região do Dniester, onde existem movimentos cívicos favoráveis à integração (total ou parcial) na Roménia.

Dodón faz, liminarmente, um balanço negativo da adesão à UE, nomeadamente, em termos de trocas comerciais. Reafirma que o parceiro comercial por excelência da Moldávia é a Rússia. Pretende realizar um referendo para definir a situação que é muito instável nomeadamente na região da Transnístria muito ligada a Moscovo.

Na verdade, após uma queda nas exportações da ordem dos 50%, decorrente da associação à UE, por força das restrições impostas por Moscovo em resposta às sanções de Bruxelas, a crise económica está a instalar-se sub-repticiamente (num dos países mais pobres da Europa). Quando a baixa de exportações tiver reflexos orçamentais nítidos, Igor Dodón, um socialista oriundo das hostes comunistas, conhece bem a receita europeia para estas situações: Austeridade.

Não vai, portanto, para a UE, ocorrer nada de novo (nem de bom) na frente Leste. E se acontecer o previsível será o pródigo regresso da Moldávia aos braços de Moscovo.
Mas só será assim se os ‘unionistas’ (favoráveis a uma integração com a Roménia) não desencadearem um conflito interno… Daí a uma situação semelhante à Ucrânia vai um pequeno passo.

Resumindo: Esta é a herança de Barroso que sempre se mostrou muito ‘apressado’ (interessado) em alargar a UE para Leste. O cerco montado a Putin começa a desfazer-se em concomitância com o desabar das políticas emanadas de Bruxelas.

Central Nuclear de Almaraz

(…)
É a central nuclear mais antiga e obsoleta de Espanha, no Alto Tejo. A ocorrência de um acidente será trágica para a Península Ibérica e devastadora para a cidade de Portalegre.
(…) (Ponte Europa – 18-05-2016)

A 100 km de Portugal, arrefecida por água do rio Tejo, já falhou e mostrou falhas nos testes de resistência e no mesmo tipo de válvulas que gerou o acidente em Fukushima. Continua em atividade. Até à catástrofe? (Ponte Europa 31-05-2016 – Notas Soltas de maio).

***
Desde 18 de maio que tenho feito eco das minhas preocupações que há muito deviam ser de todos os portugueses. O atual Governo português, ao contrário do anterior, cedo revelou opor-se à perpetuação de uma central nuclear obsoleta junto à fronteira portuguesa, mas se a via diplomática é imprescindível na defesa dos portugueses, não podemos deixar de criar uma opinião pública exigente que impeça o Governo espanhol de desafiar uma tragédia ibérica.

Agora, em vez de desistir da energia nuclear e, sobretudo, de encerrar a central nuclear fora de prazo, o governo espanhol autorizou a construção de um armazém de resíduos nucleares no local, junto à fronteira.

Portugueses e espanhóis não podem aceitar o risco de um novo Chernobil.

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Boko Haram

Meninas raptadas pelo Boko Haran
É mais fácil saber o nome dos presidentes dos clubes de futebol do que saber o que é o Boko Haram.

Aliás, tudo o que diz respeito a África e à negritude é habitualmente ignorado, como se ainda se discutisse se os negros têm alma ou não, o que permitiu a escravatura, com boa consciência cristã. A fome, a doença e o sofrimento são ignorados pelo ramo caucasiano que muito provavelmente descende dos negros.

Pois bem, na zona do Sahel trava-se uma batalha feroz entre o islamismo retrógrado e o protestantismo evangélico, respetivamente financiados pela Arábia Saudita e evangélicos norte-americanos.

O Boko Haram é um grupo terrorista que jurou fidelidade ao Estado Islâmico e anseia criar o califado na Nigéria. A sharia tornou-se lei no Norte, com maioria muçulmana, enquanto o Sul, com maioria cristã, a repudia. O crescimento da população muçulmana, é uma ameaça para os cristãos. Além de raptos e torturas, calcula-se em15 mil mortos e mais de 2 milhões de deslocados a tragédia provocada pelo bando sinistro que estendeu a jihad ao Níger, Camarões e Chade.

No Níger, depois de várias vitórias sobre o sinistro grupo que sequestrava meninas para começam uma vida nova como servas, está a desagregar-se com múltiplas deserções de combatentes da fé.

Considero esta notícia bem melhor e mais importante do que o resultado das eleições no Sporting.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Netanyahu, Kerry, os colonatos, o antissemitismo e o Grande Israel…

Finalmente, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse alguma coisa de novo (de diferente) sobre as relações com Israel.
Não tudo o que poderia ser dito (ou pensado), como exigem os protocolos diplomáticos.

Para além de sublinhar as ajudas dos EUA a Israel, nomeadamente em armamento, teve necessidade de sublinhar que, na ONU, durante os 2 mandatos de Obama, os Estados Unidos votaram sempre alinhados com os interesses de Israel. Revelou, no entanto, que a questão dos colonatos se tornou uma ‘linha vermelha’ nas relações entre os dois países link. Seria bom que esta dedução linear de John Kerry não fosse tomada como uma atitude a roçar o antissemitismo.
 
Na conferência proferida por John Kerry este reconheceu que: “The status quo is leading toward one state and perpetual occupationlink.
O problema é exatamente esse. Trata-se do 'não-reconhecimento' da efetiva coexistência de 2 Estados, decisão da ONU, que foi ratificada em diversos acordos entretanto assinados entre Israel e a Autoridade Palestina, e que o atual Governo israelita – por pressão da extrema-direita religiosa aí representada - não quer admitir.
 
Na verdade, a solução dos dois Estados tem sido a base de todas as negociações sobre o conflito israelo-palestino. É pelo facto que o atual governo israelita estar no terreno a torpedear este consenso (internacional) que as absurdas reações à recente resolução do CS da ONU vêm ao de cima com uma violência verbal inaudita. Por mais dissimulações que se façam há sempre uma altura em que o verniz estala.
 
Será importante repor as coisas no seu lugar. O que Netanyahu pretende levar a cabo é esvaziar a Palestina de território com a promoção desenfreada de novos colonatos e depois concluir que sem espaço territorial não há razão para admitir a existência de um Estado.
Este é o resultado de uma coligação do Likud (direita conservadora) com o partido ultranacionalista Bayit Yehudi (religioso). A coligação aposta no (bíblico?) "Grande Israel", onde os palestinos viveriam numa Palestina transformada em ghetto, como súbitos.
 
Esta solução gizada por Netanyahu para a Palestina, embora não se revista da crueldade e nem do profundo carácter anti-humanitário que fustigou no passado os judeus (Holocausto) apresenta contornos que se assemelham a um outro tipo de 'solução final' (para os palestinos). 
 
Por último, seria de esperar que o início do mandato de António Guterres, como Secretário-Geral da ONU, pudesse dispensar mais este imbróglio. Mas como diz o próprio "é a vida"!

Espanha

Apesar das gordas quantias que a ICAR recebe do Estado espanhol, 25,8% dos espanhóis, declaram-se não crentes.

E nenhum Governo, de direita ou de esquerda, tem coragem para pôr termo ao abuso eclesiástico que defrauda o erário público!

O antissemitismo e o sionismo

O antissemitismo e o sionismo

O sionismo político, nascido em 1897, e a Declaração de Balfour de 2 de novembro de 1917, que referia a intenção do governo britânico de facilitar o estabelecimento do “Lar Nacional Judeu” na Palestina, concretizaram-se em novembro de 1947, com a ONU a recomendar a divisão da Palestina com o Estado judeu, ficando sob a sua administração direta a cidade de Jerusalém, eterna referência dos 3 monoteísmos.

O plano foi aceite pelos líderes sionistas e rejeitado pelos árabes, e não mais houve paz na região. Israel declarou a independência em 14 de maio de 1948, quando as memórias do antissemitismo e da crueldade nazi, que exterminara 6 milhões de judeus, eram ainda demasiado vivas.

Cabe aqui referir que a perversidade nazi foi um fenómeno puramente secular, mas não lhe foi alheio o antissemitismo do Novo Testamento, que uniu os cristãos (protestantes e católicos) no ódio aos judeus e na colaboração com nazismo, fornecendo-lhe os bispos a relação dos batismos para mais facilmente identificar os judeus.

A história está escrita, mas o que assusta é o livro em branco do futuro. Israel, que deve a sua fundação à ONU, desrespeita hoje as suas resoluções. As vítimas de ontem são os carrascos de hoje, na Palestina. Israel persiste na ilegal e provocatória intenção de criar novos colonatos no território palestiniano. Reivindica os direitos do Antigo Testamento, onde a hipotética Conservatória do Registo Predial Divino lhe confere a propriedade da Palestina.

O ‘tweet’, ontem referido no El País, onde o PR eleito dos EUA, Donald Trump escreveu «Continua forte Israel, o 20 de janeiro aproxima-se rapidamente» (tradução minha), contraria a posição política do ainda presidente Obama e torna-se aterradora para o mundo a transferência do poder, de um político para um empreiteiro.

Donald J. Trump ✔ @realDonaldTrump
Doing my best to disregard the many inflammatory President O statements and roadblocks.Thought it was going to be a smooth transition - NOT! (Tweet citado).

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 28, 2016

Apelos ao racismo e à xenofobia

As minhas contradições

Quem, como eu, defende a liberdade de expressão, sem outros limites que não sejam os que as leis democráticas consagram, incluindo o direito ao insulto e, sobretudo, à tolice, desde que a violência física esteja ausente, vê-se confrontado com as suas contradições. A crítica, por mais vigorosa que seja, é um fator de vigilância que obriga à reflexão.

Não sendo masoquista, evito locais onde sei que são soezes os insultos e inquietantes as ameaças, jornais que me agridem ou artigos de escribas com posições, insuportáveis. No entanto, do mesmo modo que zurzo a direita que confiscou o PSD e o CDS, aceito igual tratamento pelos devotos capazes de ver em Cavaco um cidadão recomendável ou em Passos Coelho mais do que um medíocre patriota de lapela.

Como não sou masoquista, afasto-me dos canais televisivos que me parecem canos de esgoto a céu aberto, com tias cortadas às rodelas e acidentados a escorrer sangue. Devo a estes cuidados o resto de sanidade que me resta.

Antes do jantar, incrédulo com o que ouvia, estupefacto com a manipulação de imagens, em estado de estupor, assisti ao tempo de antena do autodesignado partido PNR, com ideologia nazi, em apelos racistas e xenófobos, na RTP-1.

Eram 20H00. Desisti do telejornal.

terça-feira, dezembro 27, 2016

Telavive anuncia o Ano Novo com um ”madeiro” a arder na Palestina…

A reacção do governo de direita (extrema-direita?) israelita à resolução do CS da ONU sobre os colonatos em territórios palestinos traduz claramente o regime e Telavive e denuncia as suas secretas intenções link
O que hoje aparece à flor da pele com a declaração (intenção) de Netanyahu em não acatar a resolução é o assumir, na prática, daquilo que vem fazendo desde a guerra de 67 sob pretexto de garantir a segurança do seu território.

A ofensiva diplomática que o Governo francês prepara para o início do ano novo (15 de Janeiro) pode vir a complicar ainda mais a posição israelita que cada vez mais adquire contornos de indefensável.

A expansão territorial de Israel a partir de um território que lhe foi concedido em 1947 através de uma resolução (181) da AG da ONU tem sido cuidadosamente planeada e executada. 
A teoria da segurança e do velho 'espaço vital' foi, como todos sabemos, o argumento de Hitler para anexar o corredor de Dantzig e outros territórios a Leste da Alemanha.

Com que autoridade o Governo de Israel assume a petulância de recursar-se a aplicar uma resolução oriunda do mesmo órgão que criou o Estado Israel?

Existirão acordos secretos com Donald Trump e o indigitado embaixador para Israel David Friedman cuja primeira manifestação é o desejo de se instalar em Jerusalém link?

Ou, pretende Trump, de parceria com Netanyahu, acrescentar mais problemas a uma região já em polvorosa?

Será altura para atear em terras do Médio Oriente o tradicional “madeiro” que, nesta quadra, costuma arder lentamente nos adros e nas praças públicas do interior rural português?

segunda-feira, dezembro 26, 2016

2016 e o indecifrado enigma do muro de Berlim…

Os últimos acontecimentos que ocupam os noticiários, traduzem profundas perturbações no espaço europeu em termos de segurança e merecem uma reflexão.

O acto terrorista de Berlim acrescido do permanente abortar de ameaças terroristas em incubação em diversas cidades da Europa, mostram que o prolongamento da guerra no Médio Oriente transformou-se num pesadelo para todos aqueles que querem viver em liberdade.

A actual situação política regional e o contexto económico derivado da defesa de posições geoestratégicas e militares (e no domínio energético) por parte das potências ‘mundiais’, com as consequências bélicas que conhecemos todos os dias, é uma das principais alavancas do terrorismo com base no Médio Oriente – isto parece ser uma opinião consensual - mas não estará, propriamente, na sua génese. Esta é diversificada e, por outro lado, muito mais remota.

Basta olhar para a última delimitação de territórios e o desenho de Estados e fronteiras em vigor que confinam (acomodam ou ignoram) os povos, decorrente da conferência de Yalta onde foram acordadas, para o Mundo, áreas de influência decorrentes da última grande guerra, para compreender que esse acordo, obtido entre os vencedores, não responde às actuais circunstâncias. Particularmente no que diz respeito ao Médio Oriente.

Todos (re)conhecemos que o longo percurso do conflito israelo-palestino será o elemento desestabilizador major da região. Isto é, uma decisão do pós-guerra que evoluiu para a causa remota de um insanável diferendo entre o dito Ocidente e uma multiplicidade de países islâmicos.

Se exceptuarmos a Arabia Saudita e no seguimento, à boleia, algumas monarquias sunitas do Golfo, a família Saud negociou directamente (e à margem de Yalta) com os EUA (Fevereiro 1945 entre Abdul Ibn Saud e Truman a bordo do cruzador Quincy), sentados em cima de um explosivo barril de petróleo, condições específicas e leoninas no pós-guerra, alianças cegas de protecção e delimitação de influências, estaremos próximos das causas recentes da conflitualidade exponencial nesta região do mundo.
A segurança da monarquia saudita selada nesse encontro em mar alto viria a condicionar a evolução dos acontecimentos no Mundo, porque inteiramente dependente da repartição e captura de fontes energéticas derivadas dos hidrocarbonetos, condicionantes primárias do desenvolvimento global encarado lato sensu.

A aceitação da coexistência de 2 blocos político-militares (também consequência das condições acordadas no pós-guerrra) tendo como separador uma ‘cortina de ferro’ (para usar a expressão atribuída a Churchill) entre os dois blocos viria durante o século XX a condicionar outras circunstâncias envolventes cujo reflexo na actualidade é bem evidente.
Ora, o acordo de Yalta foi um pacto entre as 3 potências vencedoras (EUA, URSS e GB) perfeitamente datado. O seu fim formal ocorre no início dos anos 90 após a implosão do regime soviético. Nasce dos escombros deste desabamento a globalização sob a batuta do neoliberalismo que está longe de transportar no seu ventre a Paz.

O terrorismo fundamentalista é um produto indirecto e tardio – uma consequência oculta - das estratégias de desmantelamento da URSS que foi avaliada sumariamente como uma vitória do Ocidente, sem outras consequências, quando foi uma profunda convulsão história, esta sim, com reflexos globais.

A primeira alteração nos equilíbrios pós-guerra foi – hoje é fácil entendê-lo – a aproximação, nos anos 70, dos Estados Unidos à China, sob a batuta de Henry Kissinger. Aproveitando as desavenças ideológicas sino-soviéticas, os EEUU, descartam Taiwan (seu tradicional aliado) e introduzem, por conveniência táctica, o ‘gigante asiático’ no concerto Mundial. Mais uma vez jogaram aqui os interesses imediatos – desvalorizando a concepção de Xiaoping ‘um país, dois sistemas’ -  na convicção de que esta mudança, por si só, enfraqueceria a URSS.
Ignoraram que estavam a mexer no arranjo de situações político e económicas capazes de influenciar globalmente o Mundo e a criar novos equilíbrios.

Quando no final da década de 70 e 80 Moscovo (1979-89) se envolveu num conflito no Afeganistão, os EUA, vêem uma nova oportunidade de cercar o regime soviético e, com a colaboração do Paquistão, criaram, apoiaram, treinaram e equiparam os talibãs.
Em muito pouco tempo perderam o controlo sobre estes fundamentalistas donde viria a nascer a Al Qaeda que, rapidamente, se tornou num quebra-cabeças de todo o Ocidente e em particular para os EUA. Mesmo assim, os americanos continuaram a apoiar os interesses sunitas (nomeadamente com guerra Iraque-Irão) até que o 11 de Setembro de 2001 lhe mostrou, portas adentro, a verdadeira dimensão da monstruosidade de uma ‘criação’ absurda.

Apesar destes resultados deram outro passo em frente (rumo ao precipício) e arrancam para uma invasão do Iraque cujas nefastas consequências ainda têm rebates diários, em toda a região, nos tempos actuais.

Longe de resolver as questões que iam surgindo em cascata avançam para um novo campo minado: as ‘primaveras árabes’. Ninguém quer fazer balanços desta ‘rua árabe’ que foi, entretanto, varrida por um vendaval incontrolável, onde se soltaram, na rua, as mais bárbaras acções e se ‘entregou’ o poder a facções políticas controladas por fundamentalistas bastando, para ilustrar esta imagem, dar uma olhadela ao estado actual da Líbia.

Quando as convulsões que foram percorrendo o Norte de África chegam à Síria sucede o imprevisto. Bashar Al Assad não abandona o poder – consegue capitalizar o apoio da Rússia e complacência da China - e lança a maior confusão no Médio Oriente onde sunitas, xiitas, curdos e outros grupos étnico-religiosos minoritários se envolvem combatendo o poder instalado em Damasco mas simultaneamente guerreando-se entre si. A leitura dos fundamentos religiosos para interpretar tamanha violência é difícil de conseguir. Todavia, as religiões (todas) não podem lavar as mãos da génese destes conflitos já que a regra, ao longo de séculos, foi conspurcá-las com sangue.

Esta barafunda é o ninho de procriação de um califado e o berço do incontrolável Estado Islâmico. O Daesh é a evolução ‘natural’ do Al Qaeda num terreno político armadilhado e demarcado por uma facção religiosa (islamita) e foi ‘condicionada’ por opções ocidentais que estimularam a transformação de uma rede-base (‘al qaeda’ em árabe) terrorista num pretenso ‘Estado’ do mesmo calibre recheado com nefastas e alargadas ambições.
Para os fundamentalistas trata-se da ‘restauração’ do império otomano e este facto tornou extremamente sensível e delicado o relacionamento político e militar do Ocidente com a Turquia (sede do último califado).

Em linhas muito sintéticas o estado actual da política global encaixa-se nestes parâmetros. Não se considerou a deslocação dos centros de poder (político, económico e financeiro) para o Oriente que sendo importante ainda não condiciona de modo determinante a evolução da situação no Médio Oriente. Mas este é também um estadio ou mais uma etapa do mundo após o fim da guerra fria, em que as mudanças ocorrem vertiginosamente e frequentemente os intervenientes políticos perdem o rumo.

A evolução política global não se apresenta como sendo portadora de um futuro esclarecido, nem risonho. A eleição de Trump como presidente dos EUA acarretará necessariamente novas (outras) modificações nos equilíbrios existentes. Trará para a cena política a Rússia de Putin, diminuirá o peso da Europa (encarcerando a sua capacidade de influenciar políticas globais, remetendo-a a pelejas nacionalistas e populistas) e, finalmente, prepara-se para afrontar – numa lógica comercial e financeira - o poderio asiático, genericamente, representado pela China. Coincidência: Trump e Putin, há poucos dias, anunciaram quase simultaneamente o reforço do arsenal nuclear perante o sepulcral silêncio do Oriente.

De fora fica a evolução da situação militar e as consequentes relações de força, nomeadamente, quando avaliada no contexto do armamento nuclear. É aqui que começa um outro pesadelo, não só para os diferentes intervenientes de peso na cena mundial, mas para a Humanidade.

E o mais grave é a convicção generalizada (inclusive no interior dos EUA) de que um ‘pato bravo’ que, pela via populista, ascende ao poder em Washington será manifestamente incapaz de gerir a difícil situação que se adivinha e avizinha.

A História já nos demonstrou recentemente o custo das derivas populistas, i. e., no século passado o mundo pagou em vidas e destruição um preço elevadíssimo.

Algo está de novo a desabar diante nós perante uma terrível impotência de intervenção e uma manifesta incapacidade de mudar o rumo e travar a deriva.

O muro de Berlim e o significado da sua queda, será, no momento, e cada vez mais, um facto histórico transcendental e um remoto epicentro de uma tempestade política que grande parte da Humanidade não conseguiu (ainda) abarcar e decifrar.
Todavia, paira no ar a sensação que na sequência do muro derrubado persiste um imenso vazio de futuro, enquanto se prepara, por todo o lado, a construção de novos muros.
E o temor reside no facto de, passados 25 anos de sucessivos rearranjos, que foram ocorrendo depois da queda do muro de Berlim, ninguém (nenhum dirigente ou movimento político/partidário de peso na cena internacional) parece disposto (determinado) a amurar as liberdades fundamentais tornando-as uma fortificação inexpugnável aos populismos, autoritarismos, nacionalismos serôdios e fundamentalismos (de toda a espécie).
 

Homenagem à música

Quando as palavras se tornam supérfluas e a boçalidade campeia, quando o mundo perde uma referência herdeira dos Coros da Armada Soviética, olho os discos de trinta e três rotações com a nostalgia de quem os guarda sem poder ouvi-los, por não ter já onde os fazer vibrar.

Quando um avião obsoleto, que transportava militares e membros do Alexandrov Ensemble, mergulhou no Mar Negro, o grupo musical oficial do exército russo, que se deslocava à Síria para participar nas celebrações de Ano Novo numa base militar, calaram-se as vozes e os instrumentos.

Quando o maniqueísmo e a incultura veem nos bemóis e sustenidos a foice e o martelo, e em estado de demência enchem as redes sociais com insultos aos mortos ou a comunicação social apenas vê no trágico acidente a perda de 92 pessoas, oiçamos uma vez mais a



domingo, dezembro 25, 2016

A felicidade de Marcelo


Marcelo vive obsessivamente o mito cristão

A única explicação para estar feliz entre Passos Coelho e Marco António.

O PR e a religião num Estado laico

Marcelo é um católico fervoroso. É um direito e um dever para quem acredita e pratica uma religião. Não deixa de ser, por isso, um PR com notável sentido de Estado, nem o cidadão culto e inteligente que transmite felicidade com a simpatia que irradia.

Depois de um presidente detestável, inculto e rancoroso, mais empenhado nos interesses da família do que no interesse dos portugueses, Marcelo é uma lufada de ar fresco. Não seria a prática religiosa que me impediria de votar nele se, acaso, as opções ideológicas coincidissem.

O que o cidadão Marcelo não pode fazer, como Presidente da República, é praticar atos de subserviência perante os dignitários do clero romano. Se na intimidade da sacristia oscula partes de um clérigo, é uma manifestação pia que só ao próprio diz respeito, mas se, perante as câmaras, no espaço público e em exibição pia, vai ao beija-mão ao papa e ao cardeal, é a dignidade da República que fica ferida.

A República Portuguesa, onde ele simbolicamente é o representante máximo, não é uma sucursal do Vaticano nem o Palácio de Belém uma sacristia.

O beija-mão ao cardeal dos colégios amarelos é um ato indigno do mais alto dignitário da República e o simbolismo da espinha que se curva e do ósculo que depõe no anel do purpurado é uma humilhação para quem deve viver de pé para ser respeitado por todos, crentes e não crentes.

Na República não é o PR que vai ao Paço episcopal, em desatino místico, lamber o dedo ao cardeal, é o bispo que deve obediência ao Presidente de todos os portugueses.

E, perante o Papa, são dois iguais na chefia do Estado.

Há tradições que o decoro e a democracia não podem manter.

sábado, dezembro 24, 2016

Festividades


Desejo a todos os leitores, crentes em deuses nascidos a 25 de dezembro, uma feliz festa da família e da fraternidade universal.

Aos outros, desejo igualmente uma festa de família feliz, com saudações republicanas, laicas e democráticas, neste solstício de inverno que no dia de hoje dá lugar a vitualhas suplementares e copiosos néctares.

sexta-feira, dezembro 23, 2016

Resposta infantil capaz de provocar um sorriso. Bem precisamos.


Bagão Félix – Ex-ministro que gosta de se intitular das Finanças

Bagão Félix, adido de Portas e do CDS, secretário de Estado da Segurança Social do VI, VII e VIII governos constitucionais e ministro da Segurança Social e do Trabalho no XV, com Durão Barroso, gosta de se apresentar como ex-ministro das Finanças, funções que exerceu no XVI Governo, de Santana Lopes.

Da passagem pela pasta, apenas 5 meses em efetividade e 3 com o governo em funções, guarda o epíteto de ex-ministro das Finanças. O País recorda a nacionalização do fundo de pensões da CGD para cumprir as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que limitavam o défice orçamental a 3% (2005), sem a crise mundial das dívidas soberanas.

Com o País a digerir o trágico Governo de Passos Coelho/Paulo Portas, onde Maria Luís chegou a titular das Finanças, urge recordar como foram trágicos os governos do PSD / CDS, de Durão Barroso, Santana Lopes e Passos Coelho.

Curiosamente, em 2004 (a memória dos portugueses é curta), Manuela Ferreira Leite nacionalizara o fundo de pensões dos CTT, conseguindo dessa forma limpar 0,7 pontos ao défice, parte substancial de 2.000 milhões de €€ de receitas extraordinárias, de que o País precisava para cumprir as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento.
O Governo de Passos Coelho, o menos preparado PM desta segunda República, até nos fez esquecer a desgraça dos governos de Durão Barroso e Santana Lopes.

Agora, que Passos Coelho é o homem a abater dentro do PSD, em risco de ver o CDS a aproximar-se eleitoralmente, é altura de recordar a alegada boa gestão da direita, de que Passos Coelho, graças à amnésia coletiva, seria apenas uma trágica exceção.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

O terrorismo já condiciona as eleições em toda a Europa

O racismo e a xenofobia, defeitos genéticos que a civilização quase erradicara, voltam à Europa, à espera de nova catástrofe, com desfecho imprevisível, sete décadas após o fim da guerra de 1939/45.

Depois de Paris, Londres, Madrid ou Nice, só nesta semana, o terror regressou a Berlim e a Zurique, com o assassinato adicional do embaixador russo, em Ancara, no país onde o presidente abandonou a defesa da Europa para se transformar numa das suas maiores ameaças.

No último domingo, atentados contra forças policiais, em três localidades da Jordânia, só podem significar que a guerra mundial, localizada na Síria, vai alargar-se e, com ela, o número de refugiados que chegam à Europa, com terroristas misturados.

Paradoxalmente, agora que a Europa é governada quase exclusivamente por partidos de direita ou de extrema-direita, é esta última que ganha terreno com o medo instalado e a renúncia dos cidadãos às liberdades a troco da segurança que vislumbra no despotismo.

A democracia, já de si débil, apenas com a superioridade moral em relação às ditaduras, encontra-se à mercê do populismo que o terrorismo, metódica e eficazmente alimenta.

É nesta atmosfera de medo, com o descontentamento generalizado das populações, que a União Europeia, sem liderança nem força anímica, corre o risco de se desintegrar e deixar os países que a integram abandonados, falidos e à espera dos míticos salvadores.

Se as forças democráticas não conseguirem manter unida e reforçar o que resta da UE é a civilização que fica em risco e as fronteiras que dos países que se fragilizam.

Ponte Europa / Sorumbático 

quarta-feira, dezembro 21, 2016

A Igreja católica, o Estado e a Concordata_3

«Bem... não sou especialista em direito canónico. Contudo algumas questões são do âmbito do direito internacional. Em primeiro lugar a questão que se deve colocar é: por que razão se aplica o direito de um Estado terceiro a actos praticados em território nacional, entre cidadãos nacionais?

A regra, não fora a concordata, sempre seria que a factos ou actos praticados em território nacional sempre se aplicaria a Lei nacional. O Estado Português, p. ex., arroga-se a aplicação do direito nacional a factos praticados, ainda que no estrangeiro, entre cidadãos nacionais, desde que os mesmos sejam encontrados em território nacional. Da mesma forma que se arroga a aplicação do direito pátrio entre cidadãos estrangeiros, a factos praticados em Portugal, desde que, naturalmente sejam encontrados em Portugal.

O que surge como uma antinomia, ou melhor, um desvio da regra, é que actos jurídicos celebrados entre cidadãos nacionais, em território nacional, possam estar sujeitos, por convenção entre Estados, a jurisdição de um Estado diverso daquele em que foram celebrados. O reconhecimento civil do casamento católico assenta desde logo nessa premissa, e que não pode deixar de se considerar como uma alienação de soberania.

Na economia da Concordata, creio, não faria sentido, isto é, não seria lógico que reconhecendo de forma automática a validade civil de um casamento católico, se subtraísse ao Estado contratante, neste caso o Vaticano, o "ius imperium" de declarar nulidades ou anulabilidades (diferentes, é certo, mas que ao caso são irrelevantes), que apenas existem à luz do seu Direito.

Em termos simples, quem pode o mais, pode o menos. Diferente é, sem dúvida, o elenco das nulidades e anulabilidades civis que o Estado Português consagra no seu Direito. Essa é a contrapartida do outro contraente: O Vaticano reconhece, sob o ponto de vista estritamente civil, a dissolução do matrimónio, embora não lhe atribuindo efeitos canónicos idênticos. É certo que o reconhecimento de sentença proferida por Tribunal estrangeiro se revela necessário, isto é, para efeitos meramente civis, mostra-se necessário que o Estado Português, através dos Tribunais, reconheça a validade de uma decisão proferida por uma jurisdição estrangeira. O mesmo se passaria em relação a casamentos civis, celebrados em Estados estrangeiros - o averbamento da dissolução do matrimónio teria de ser requerido, pelo mesmo processo, em Portugal.

A diferença reside no facto de se reconhecerem nulidades e anulabilidades que são exclusivamente católicos. Para além disso facto, como bem salienta Aurora Madaleno, trata-se apenas de uma mera formalidade: os Tribunais da Relação não fiscalizam a substância da decisão (isso seria, ao contrário, uma violação da soberania do outro Estado contraente).

Os casos em que efectivamente há uma fiscalização da substância da decisão são excepcionais: quando, p. ex., nas sentenças penais, os factos não constituem crime à luz da Lei portuguesa.


A Igreja católica, o Estado e a Concordata_2

- O «Estado da Santa Sé», conhecido por Vaticano, foi criado pelo Tratado de Latrão, assinado por Mussolini, como chefe do Governo de Itália, e o cardeal Pietro Gasparri, secretário de Estado do Vaticano, em 11-02-1029. Não me pronuncio sobre o ilustre purpurado, que ignoro, nem sobre Mussolini, demasiado e tragicamente conhecido.

- O Vaticano é um bairro de 44 hectares, com pouco mais de 800 habitantes, o único que sem maternidade e que, na Europa, não admite o divórcio. Defende a laicidade nos países onde os católicos são minoritários e procura celebrar «Concordatas» onde julga maioritários os católicos, sob o argumento de que não se pode tratar de forma igual o que é diferente, isto é, procura privilégios que repugnam e estabelece uma inaceitável desigualdade entre as religiões que disputam o mercado da fé.

- Considero a Concordata uma cedência lamentável de um Estado laico. Foi assinada em 18 de maio de 2004 pelo PM Durão Barroso e pelo Cardeal Angelo Sodano.

Para não prejudicar a amável contribuição que se junta à dos juristas que fizeram comentários no texto referido, publico-a no post seguinte. Os §§ são da minha responsabilidade, para mais fácil leitura.

terça-feira, dezembro 20, 2016

A Igreja católica, o Estado e a Concordata


É-me indiferente o que cada religião decide com os seus crentes, mas não posso deixar de me interessar pelos reflexos decorrentes na estrutura legal do meu país.

Ao ver hoje a notícia de 1.ª Página do JN, interrogo-me sobre as consequências civis da anulação de casamento pela Igreja católica. Posso estar enganado e, por isso, apelo aos juristas que visitam este blogue para que nos esclareçam sobre as consequências de uma anulação do casamento canónico.

Quanto às consequências nefastas da Concordata para a igualdade religiosa não existem dúvidas. Quanto às da anulação do casamento por um Estado estrangeiro (o Vaticano), penso que a razão que leva o Registo Civil a aceitar a validade do casamento canónico o obriga a registar a anulação que os tribunais portugueses serão obrigados a confirmar.

A dissolução do casamento pelo Vaticano obrigará o Estado português a aceitar uma decisão que os tribunais nacionais só têm de corroborar, tornando um Estado soberano num protetorado de uma teocracia.

A ser assim, o vexame do Estado deve envergonhar todos os portugueses e levá-los a pedir a revogação de um tratado que nunca devia ter sido celebrado.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Terrorismo sénior com vítima júnior

Sei, por formação académica e experiência própria como as crianças são sugestionáveis e como é possível fanatizá-las.

Lembro-me bem da forma como as doces catequistas da minha infância me levaram a odiar judeus, hereges, maçons, comunistas, apóstatas e todos aqueles que não seguissem a única religião verdadeira, a da Senhora Ricardina e da sua sobrinha, Menina Aurora, inefáveis catequistas da minha infância.

Era um tempo em que a comunhão solene era feita aos 10 anos com meninos e meninas vestidos de Cruzados, como se o exemplo desses bárbaros toscos fosse recomendável.

Hoje, mais de seis décadas depois, não deixo de me horrorizar com os meninos soldados e as crianças-mártires em nome do Deus que inventaram para os fanatizar.

A menina, de 7 ou 9 anos, que entrou numa esquadra de Damasco, carregando um cinto de explosivos e se imolou, é a mais eloquente metáfora do que é capaz a demência da fé e a maldade dos prosélitos.

Há na perversidade de quem, à distância, acionou o detonador, tal insensibilidade, tanta perversidade e tão elevado nível de amoralidade que minguam as palavras para exprimir a raiva, a frustração e o nojo, perante os destroços humanos de uma menina impedida de ser mulher.

domingo, dezembro 18, 2016

PSD: a passadeira deserta da refundação sucessória e sucessiva…

O PSD, sob a liderança de Passos Coelho, nunca aceitou o resultado das eleições de 2015. Surpreendido com o entendimento ocorrido entre as forças de Esquerda que permitiu ao PS governar, apostou a partir daí na precariedade dessa solução política e dedicou-se a torpedeá-la. A chicana política que está a alimentar à volta da CGD é um caricato exemplo desta situação de deambulação permanente mas, infelizmente, capaz de acarretar avultados prejuízos para o País.
 
Passos Coelho enredou-se de tal maneira nessas manobras de diversão política que se esqueceu das eleições autárquicas. A menos de um ano da sua realização a única situação visível é a recandidatura dos autarcas que foram eleitos há 4 anos (e estão em condições de se reapresentar).
 
As notícias de hoje sobre a candidatura à Câmara de Lisboa confirmam todo este desenvolvimento tático. Conversações sobre o apoio à candidatura de Assunção Cristas link, prontamente desmentidas link, só vêm confirmar o que está na forja.
Mais, poderão fazer parte de uma congeminação do partido de Passos Coelho para uma repartição de poder futura que não se vislumbra. Mais uma vez o atual líder do PSD mostra continuar agarrado ao seu estado de negação face à atual situação governativa.
 
Anúncios sucessivos tendo por base um calendário, sem nada de concreto na vertente política, mas prenhe de evocações litúrgicas, como foi o último dos reis magos, logo a seguir à vinda do diabo, revelam o caminho para uma infantil e incrível crença no Pai Natal e uma angustiante espera que alguém lhe coloque uma prenda no sapatinho.
 
Foi no que deu ter como objetivo prioritário ser um ‘bom aluno’ quando a UE sofreu uma dramática deriva neoliberal. Hipotecou todo o capital político de um partido liberal que foi sendo construído desde Sá Carneiro. Dedicou-se de alma e coração (para continua na terminologia piedosa) a uma opção ultraconservadora (o neoliberalismo assenta aí) acabando por esfrangalhar o partido político que tem vindo a dirigir.
 
A situação atual do PSD é muito clara. O problema da sucessão de Passos Coelho começa a ficar ultrapassado. O mais verosímil – a manter-se este escorregar pelo ‘passismo’ – é o partido, que ao pretender ocupar algum (parte) espaço no Centro político nacional, está já a pensar na ‘refundação’. Aliás, as 'refundações' são uma arma e um terreno predileto da Direita, como as 'reconstruções' são para o Esquerdismo.
Portanto, a busca (que tudo indica já estará em curso) não deverá ser de sucessores mas sim de ‘refundadores’.
E o círculo de gente com virtudes suficientes para tal tarefa começa a estreitar-se.
 
Foi a esta situação que a actual direcção do PSD conduziu o partido…

sábado, dezembro 17, 2016

Era assim, no fascismo...


sexta-feira, dezembro 16, 2016

CORNUCÓPIA: A morte anunciada…


O Grupo de Teatro ‘A Cornucópia’ nasceu na agonia do fascismo (1973) lado a lado e incorporando um conjunto de grupos de intervenção cultural e artística que foi apelidado de Teatro Independente. O recente anúncio do encerramento do grupo link deve originar uma breve reflexão e no mínimo questionar o rumo das políticas culturais do presente.
 
No final dos anos 60 e início dos 70 o teatro português foi dominado pelas comédias de Vasco Morgado, por algumas companhias de teatro de revista, por um vasto teatro amador (recreativo e de coletividades) mas de âmbito e qualidade incipiente e pelo Teatro Universitário cheio de entusiasmo e valores mas muito condicionado na capacidade de intervenção (com um público muito reduzido).
 
O teatro independente é, acima de tudo, um conceito cultural novo e de rutura. Uma vivência concreta sem espartilhos estéticos. Em choque com dogmas passadistas. Comprometido com as pessoas que no dia-a-dia (presente) se cruzam carregadas de problemas, medos, interrogações mas também de vontades, ambições e esperanças. É uma produção dramática e artística assente e gravitando à volta de contrastes (algumas vezes cruentos), representando jogos (muitos imprevisíveis) onde não cabem os classicismos (tragédias, comédias, etc.).
 
A Comuna e Cornucópia anteriores ao 25 de Abril bem como outros que nascem decorrentes da viragem política ocorrida desde então – Bando, Casa da Comédia, Barraca, Teatro da Graça, Seiva Trupe, Teatro de Campolide, etc. - foram os artífices da identidade do teatro português moderno. Que abrangem um vasto leque de opções e performances desde as clássicas e tradicionais representações de Rey-Colaço, às maestras e rigorosas encenações de Fernando Gusmão (Grupo 4), aos modelos brechtianos de Mário Barradas (Centro Cultural de Évora) até às radicais e vanguardistas inovações de Victor Garcia no Teatro Universitário (CITAC).
 
Luís Miguel Cintra (fundador da Cornucópia) está no meio deste turbilhão de mudança e afirmação. Teve aí um papel activo, esclarecido, formativo e inovador. O trabalho desenvolvido por L M Cintra foi enorme mas mais do que isso foi uma participação respeitada pelos colegas e pelo público. O seu instrumento funcional é (foi) o Teatro da Cornucópia.
 
O anúncio do fim desta companhia teatral é, com certeza, uma tragédia (não para o Teatro que já viveu e representou muitas) mas para o património cultural nacional.

Lido hoje, no DN, pág. 2, sobre o «Relatório da OIT»

«O estudo [da Organização Internacional de Trabalho] revela também que Portugal foi dos países onde, entre 2010 e 2015, as empresas mais cortaram na parte do rendimento destinada aos salários. A quebra foi superior a 5%, sendo a sétima mais elevada entre os 91 países onde esta tendência de decréscimo foi observada.»

Comentário – bastaria este dado para manter a hostilidade contra o neoliberalismo que me há de sobreviver e, quiçá, fortalecer-se. É a nossa indiferença coletiva que arrasta o mundo para o agravamento das desigualdades, um terreno de injustiça onde germinam ódios e fermentam as revoluções.

José Saramago e a Igreja católica (ICAR)


L'Osservatore Romano, órgão oficial da Cúria Romana, o Pravda* da ICAR, mostrou o seu ressentimento com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 1998: “Saramago é, ideologicamente, um comunista inveterado”.

Em Portugal, o padre José Tolentino Mendonça, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, acusou-o de fazer uma leitura "ingénua, ideológica e manipuladora" da Bíblia.

No mesmo registo, a fazer currículo para cardeal, o bispo do Porto, Manuel Clemente, disse que José Saramago "revela uma ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas" e, “como exigência intelectual, deveria informar-se antes de escrever”, certo de que a informação correta só podia ser a dele.

O diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa, Peter Stilwell, considerava que “seria espantoso” que José Saramago encontrasse algo divino na Bíblia e salientou que o escritor escolheu o fratricida Caim e não Abel, a vítima, pensando que a Bíblia é um manual científico e as parábolas axiomas.

Após a morte do genial ficcionista, ódio velho não cansa, L'Osservatore Romano veio de novo expelir bílis. Acoimou-o de "populista extremista" e "ideólogo antirreligioso".

O eurodeputado do PSD, Mário David, nascido em Angola, disse ter vergonha de ser compatriota do escritor e que Saramago devia renunciar à nacionalidade portuguesa. “Se a outorga do Prémio Nobel o deslumbrou, não lhe confere a autoridade para vilipendiar povos e confissões religiosas, valores que certamente desconhece, mas que definem as pessoas de bom carácter” – disse –, quiçá a refletir valores tribais da sua Lunda natal. O paquete de Durão Barroso fez-se notar recentemente como patrocinador da candidatura de Kristalina Georgieva a secretária-geral da ONU, contra Guterres.

Falta referir o inefável Sousa Lara, piedoso subsecretário de Estado da Cultura, que, em sintonia com o governo de Cavaco, vetou ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’ de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu, em 1991, sugerindo que ele deveria receber uma “punição” (não apenas divina) pelo que foi escrito em Caim, declarando o seguinte:

“Este senhor atingiu, não se percebe muito bem porquê, um patamar de impunidade que a humanidade concede, tipo Berlusconi. Há umas pessoas que podem dizer tudo, que podem fazer as coisas mais absurdas e as pessoas habituam-se a isso e não levam a mal. Só tenho pena que não enxovalhe, da mesma forma que enxovalha o património católico, por exemplo os muçulmanos, porque esses não perdoam e vergam-lhes pela pele. Aí é mais difícil insistir muito numa gracinha reiterada contra a religião muçulmana. Calculo que depois não lhe corra bem o futuro”.

(A longa transcrição do bem-aventurado, que mandou erigir no seu monte alentejano a ‘Cruz do Amor’, vale a pena, para estudo da diversidade dos primatas).

Fonte: Wikipédia. * Pravda (russo) = Verdade (Port.)

quinta-feira, dezembro 15, 2016

Terrorismo e religião

Pode dizer-se que sob a capa das religiões se abrigam interesses económicos e políticos, mas isso não absolve os crimes que praticam. Aliás, a separação das Igrejas do Estado nunca foi vontade das religiões, mas imposta pelos Estados através da repressão política do seu clero.

A laicidade ainda hoje é acolhida com azedume pelas religiões obrigadas a aceitá-la, e é um conceito alheio ao Islão, dificilmente assimilável pelo cristianismo ortodoxo e cada vez mais desprezado pelas Igrejas evangélicas.
A globalização trouxe às crenças, há séculos delimitadas geograficamente, o desafio de se tornarem globais (totalitárias) e o medo de se diluírem ou, mesmo, de desaparecerem.

O proselitismo de que algumas se encontram imbuídas transmite aos crentes a ânsia do apostolado, com a febre do martírio a corroê-los e a violência a empolgá-los.

A falência da civilização árabe, a que não é alheia a islamização, leva ao desespero dos muçulmanos, que veem no Paraíso a única oportunidade coletiva de fruírem ‘rios de mel doce’, prados verdejantes, sombras e virgens em abundância para crentes a quem tudo é interdito pela versão mais implacável dos monoteísmos, ainda que tenham de assassinar todos os crentes da concorrência e, sobretudo, os não crentes.

O fundamentalismo que caracteriza importantes comunidades islamitas não é exclusivo do Islão nem este a primeira religião contaminada. Aliás, a palavra ‘fundamentalismo’, surgiu no início do século XX para designar o protestantismo evangélico que não parou de o fortalecer.

A falta de etapas que moldaram o cristianismo, o Renascimento, a Reforma protestante, o Iluminismo e a Revolução francesa, deixaram o islamismo a perpetuar as sociedades tribais e patriarcais, onde nasceram os monoteísmos, tornando-se um fascismo religioso onde a laicidade é inaceitável e a emancipação da mulher ainda mais intolerável.

Os constrangimentos sociais em sociedades tribais e/ou tribalizadas tornam improvável a mínima evolução pacífica. As retumbantes vitórias do despotismo sobre a democracia, em eleições democráticas, explicam o paradoxo de serem as ditaduras laicas a garantir o pluralismo religioso e alguns direitos cívicos, e os governos eleitos democraticamente a consolidarem o totalitarismo religioso.

Os acontecimentos do dia 11 deste mês, no Egito, longe de serem dos mais graves, são a ilustração daquilo em que se converteu o Islão, o sistema totalitário onde a conversão ou a morte são as alternativas. O atentado à bomba contra a catedral São Marco, no Cairo, com pelo menos 25 mortes e meia centena de feridos, de cristãos coptas (10% da população do país). é uma metáfora da alegada misericórdia do Profeta cuja inspiração vai erradicando qualquer ‘heresia’ dos países onde não se concebe um Estado que não se funde na religião e não se confunda com ela.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 14, 2016

Espanha - Privilégios da ICAR

O ministério das Finanças espanhol arrecadou 2.500 milhões de euros para os bispos desde 2007.

O montante de que beneficiou a Igreja católica é um privilegio cada vez mais obsceno, não apenas porque são obrigados a contribuir todos os crentes, mesmo os que não desejam, mas os crentes da concorrência, ateus, céticos, agnósticos e racionalistas.

Acresce que, enquanto o contributo tributário para a ICAR tem permanecido praticamente estável durante a crise, as despesas públicas foram alvo de severos cortes.

Leia no jornal Público espanhol a notícia que, relativamente a Portugal, muitos portugueses esperam.


terça-feira, dezembro 13, 2016

Até o Correio da Manhã já o abandonou

(CM, ontem - 1.ª página)

Goldman Sachs, EUA e Trump

Donald Trump escolheu o número dois de Goldman Sachs para dirigir o seu conselho económico. Depois de Steven Mnuchin et Stephen Bannon, Trump decidiu rodear-se de um terceiro homem vindo do Goldman Sachs: Gary Cohn.

A notícia é uma eloquente metáfora do que pode fazer um homem de negócios à frente do mais poderoso país do mundo. O banco abutre fica com o número um e dispensa o número dois ao presidente, para influenciar a política mundial.

A política ao serviço do capital financeiro não é uma surpresa, só a promiscuidade sem pudor é novidade. À Trump!

O futuro presidente dos EUA vai buscar aos bancos e aos petróleos os seus principais colaboradores, numa viagem para a Casa Branca onde os combustíveis fósseis terão os seus principais defensores. Hoje, confirmou-se a escolha de Rex Tillerson, patrão da petrolífera Exxon Mobil, para secretário de Estado, responsável pela diplomacia. Aliás, o novo elenco dirigente é uma montra de fósseis, nas ideias e nos preconceitos.

Na natureza os fósseis têm milhões de anos, na política surgem por geração espontânea.

segunda-feira, dezembro 12, 2016

António Guterres – de Donas para o Mundo

Quem bem estaria o Planeta se a energia, o humanismo, a competência e a determinação de António Guterres o contagiassem!

Nunca um português atingira tão altas funções e responsabilidades como as que assume hoje o melhor de todos, o mais bem preparado e o mais abnegado, que sempre fez da sua vida uma dádiva constante ao bem comum.

É na generosidade e capacidade do secretário-geral da ONU, que ora toma posse, que nos próximos cinco anos estão postas as esperanças do mundo. O entendimento mínimo entre 193 Estados-membros que integram a complexa organização é a árdua tarefa que o espera, com líderes nacionais tão imprevisíveis e assustadores como os que já aí estão e os que acabarão por chegar.

Ninguém pode exigir-lhe o que não depende dele, mas sem Guterres, sem a sua enorme capacidade de negociador, o aquecimento global, o número de refugiados e a guerra não deixarão de conduzir o Planeta para o caos e extinção.

É em clima de tragédia global que o primeiro secretário-geral, eleito com transparência inédita, por unanimidade e aclamação do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral das Nações Unidas, suscita a esperança angustiada de milhões de deserdados de todo o mundo.

É com enorme esperança e júbilo que assisto à chegada de António Guterres ao cume da Organização que procura o concerto das nações para que o conserto do mundo seja ainda possível.

domingo, dezembro 11, 2016

Uma inexplicável estratégia à volta de Palmira

Palmira (Síria) - Arco de Triumfo

O Daesh ‘revisitou’, há 2 dias, Palmira link por obscuros motivos estratégicos. Ontem, pela madrugada, voltou a retirar antes que fosse um alvo fácil para as tropas de Assad e a aviação russa link .
 
Ora, estes novos desenvolvimentos do Daesh não são passeatas pelo deserto, nem meras manobras de diversão. Na realidade, e apesar da grande ofensiva internacional (multilateral, entenda-se) contra o Estado Islâmico, organização fundamentalista que perde terreno todos os dias, os jihadistas querem acentuar e demonstrar a extrema volatilidade da situação síria.
 
Em primeiro lugar, o impacto histórico de Palmira. Trata-se de um mais orientais marcos civilizacionais do Ocidente no Médio Oriente, uma importantíssima (no passado) encruzilhada comercial entre o Oriente e Roma e, finalmente, um repositório arqueológico que agrupou (muitas terão sido barbaramente destruídas durante a recente ocupação do Daesh) marcas monumentais desde o neolítico, passando pela época mesopotâmica e prolongando-se pelas civilizações helenísticas, romana, bizantina e islâmica. Não é um sítio qualquer.
 
Por outro lado, trata-se de uma localidade quase às portas de Damasco (± 250 Km). A ocupação de Palmira só por si coloca o regime de Assad a ferro e fogo. Daí a volatilidade da situação síria não propriamente no terreno militar mas mais concretamente em relação ao controlo do País e à preservação das acuais fronteiras.
 
Depois, o aspeto de investimento geoestratégico. O brilhante passado de entreposto comercial poderá transformar-se numa fulcral encruzilhada petrolífera se começarmos a olhar para a rede de gasodutos que estará a ser desenhada para essa região.
 
A acção de reocupação de Palmira é, sob o ponto de vista militar, um tanto, ou quanto, suicida, já que a progressão de forças armadas através do deserto, sem cobertura área, está condenada ao fracasso.
Todavia, esta acção não deixa de ser um aviso sobre as pretensões regionais em confronto que visarão o ‘esquartejamento’ da velha Síria.
 
Os tempos que vêm aí esclarecerão as intenções políticas e desmontarão até que ponto as estratégias do Daesh se encaixam noutros interesses que sub-repticiamente se jogam no Médio Oriente.

O fim da picada…!

A reação de Maria Luís Albuquerque ao relatório do Tribunal de Contas sobre a CGD é o exemplo acabado de como é impossível ocultar para sempre a verdade. E a verdade era bem mesquinha. Uma ‘privatização de facto’ da CGD tecida à volta de números e circunstâncias fabricados para o efeito.

Ao não exercer um rigoroso escrutínio sobre as empresas públicas, entre elas, a CGD, o Governo em que Maria Luís Albuquerque exerceu funções de responsabilidade nesta área ‘delegou’ a fiscalização a auditorias encomendadas link e a partir daí lavar as mãos...
É o transcendental ‘outsourcing’ dos neoliberais, resultante do axioma de que tudo o que é privado é bom e o público mau ou pelo menos dispensável.
 
É óbvio que todas as questões relativas ao banco público devem ser transparentes. A recente insistência da Direita sobre esta inevitabilidade só mostra as culpas no cartório. A transparência deve estar presente em tudo, fundamentalmente, na gestão de dinheiros públicos. Todavia, existe hoje a clara noção de que não foi assim.
 
Um dos problemas que pode estar acoplado a esta criminosa displicência sobre as contas do exercício da CGD entre 2013 e 15 pode ser a manipulação sobre uma tal ‘saída limpa’ do famigerado programa de 'resgate' que motivou abundantes festejos da anterior coligação governamental.
Espero que um dia os portugueses não sejam acusados de terem ‘trabalhado’ as contas do apelidado 'resgate' e debaixo do tapete não se venha a encontrar o habitual lixo com a marca Goldman Sachs.
 
Como, por outro lado, seria bom que os problemas de insolvência do BANIF e as imparidades da CGD não venham ser ‘trabalhados’ pela Arrow Global que a ex-ministra das Finanças é uma das administradoras não-executivas.
 
Porque, então, podemos ser tentados a usar uma conhecida expressão bélica: é o fim da picada!

sábado, dezembro 10, 2016

Passos encerrado no seu labirinto e abandonado

O BCE e o Banco de Portugal aprovam recapitalização da CGD, o FMI confirma que as exigentes metas do Governo português são atingíveis e o Tribunal de Contas suspeita da competência do Governo de Passos Coelho e Maria Luís, nos anos de 2014 e 2015.

O PSD e o CDS disputam o eleitorado da direita e apenas se unem na política de terra queimada para disfarçarem a sua péssima gestão, agravada quando Maria Luís chegou a ministra tendo no currículo umas aulas a Passos Coelho.

A displicência ética de ex-governantes do PSD e CDS a entrarem em negócios privados, de conflitualidade flagrante com os cargos ocupados no aparelho de Estado, não sendo exclusivo da direita, parece uma praga que nos persegue. Até o malcheiroso negócio dos lixos italianos importados passa pela insensível pituitária da direita.

Não é por acaso que a oposição ao atual governo foi deixada aos avençados do costume, comentadores e ‘jornalistas’, enquanto as tropas de Relvas e Marco António continuam a atacar nas redes sociais.

Na Rua de S. Caetano lavra o desânimo e os barões envergonhados, pela perda do poder e pela navegação à vista dos arrivistas do partido, procuram novo líder para o regresso ao poder.

O Governo do PS, com o apoio parlamentar do BE e do PCP, tornou-se um referencial de estabilidade numa Europa em convulsão.

Só Passos Coelho não percebeu ainda que excedeu o prazo de validade para as funções que os ciclos eleitorais e os acasos da sorte lhe reservaram.

sexta-feira, dezembro 09, 2016

O PSD e a Câmara Municipal de Lisboa


Não se pode dizer que este PSD não seja útil. O seu radicalismo aglutina a esquerda, a sua desorientação facilita a vida ao Governo e o seu ressentimento põe de sobreaviso o eleitorado.

A D. Laurinda Alves e o José Eduardo Moniz, mais missa menos missa, são as melhores apostas para fugir à vergonha de tornar o PSD subalterno do CDS e a eloquente prova de que o partido capturado por Relvas e Marco António para Passos Coelho não hesita em ser cada vez mais de direita e abertamente reacionário.

A obstinação de Passos Coelho pela liderança do partido, que tem a sorte de não ser liderado por Marcelo, é um generoso haraquíri em benefício de um Governo patriótico que prestigia o país e o procura resgatar da herança ruinosa que deixou, ao serviço de uma agenda ultraliberal.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

A implosão da URSS – 8 de dezembro de 1991

Há 25 anos, numa luxuosa ‘datcha’ para dirigentes, o russo Boris Yeltsin, o bielorrusso Stanislav Shushkevich e o ucraniano Leonid Kravchuk deram o golpe de misericórdia à URSS.

Surpreende que uma data que mudou o mundo não conste dos noticiários, não preencha a imprensa escrita, não seja objeto de análise dos comentadores avençados. Surpreende a unanimidade no esquecimento, dos indefetíveis nostálgicos e dos anticomunistas mais primários, no 25.º aniversário da implosão soviética.

E surpreende duplamente, porque a luta de classes não para nem a vitória ultraliberalista trouxe justiça social; porque falhou o regime que caiu e piorou o que venceu; porque os muros que caíram estão a ser substituídos por outros e a democracia política, vencedora, está em vias de se perder.

A única notícia que li, em português, sobre a Rússia, o país herdeiro de grande parte do que foi a antiga URSS, foi a de que “Portugal ultrapassa Rússia no ranking da UEFA”, como se o futebol fosse a solução para o destino comum da Humanidade.

Quando mais preciso se torna encontrar um novo paradigma que concilie as liberdades individuais e a justiça social, esquece-se a História e disfarça-se o incómodo da reflexão e da autocrítica.

As guerras, as desigualdades económicas e sociais, a fome e a falta de esperança, estão a gerar uma onda de revolta e o retrocesso civilizacional. É trágico repetir erros e insistir em modelos que julgávamos erradicados desde 1945.

As gerações atuais parecem esquecidas do passado e indiferentes ao futuro.

Burqa e nicab

Depois de a França ter proibido, em abril de 2011, o uso do véu integral em espaços públicos, decisão aceite pelo Tribunal dos Direitos Humanos, em 2014, mais três países se juntaram, com justificações diversas, ao clube dos países proibicionistas.

No mesmo ano, em junho, a Bélgica proibiu que se aparecesse «com a face coberta ou escondida, em parte ou na totalidade, de forma a tornar impossível a identificação», em locais acessíveis ao público.
Em setembro deste ano, a Bulgária aprovou a lei que proíbe usar em público roupas que cobrem parcial ou totalmente o rosto, salvo por motivos profissionais ou de saúde.

Na última semana, o Parlamento holandês aprovou a proposta que proíbe burqa, niqab, capacetes e passa-montanhas, nos transportes e edifícios públicos, e Geert Wilders, do partido da extrema-direita, defende a interdição total e lidera as sondagens eleitorais.

Na Itália, Suíça, Alemanha e Reino Unido discute-se o problema e nos dois últimos já se ensaiaram as primeiras restrições.

A ingenuidade de quem vê na proibição um atentado à liberdade religiosa, que é preciso defender, talvez não seja alheia à onda de racismo e xenofobia que varre a Europa com reflexos eleitorais catastróficos a ajudarem partidos de direita extrema ou abertamente fascistas.

Não terão os imigrantes o dever de respeitar o “ethos” cívico e democrático europeu, à semelhança do que os europeus fazem quando emigram para países muçulmanos ou de hegemonia budista?

Deixar à extrema-direita a defesa de valores civilizacionais consolidados é comprometer a alternância democrática e, em última análise, renunciar à democracia.

Fonte informativa: DN, 1-12-2016, pág. 28.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 07, 2016

Mário Soares – 92.º aniversário

No dia do seu aniversário, é de elementar justiça prestar-lhe homenagem e recordar a dimensão intelectual, política e cívica de quem moldou de forma indelével esta segunda República.

Nunca outrem interpretou melhor, nos seus defeitos e virtudes, a forma de ser português e de condicionar o devir histórico.

Homem de coragem, física e intelectual, teve contra si, em vários momentos históricos, umas vezes, a animosidade e outras, o afeto, de todos os portugueses.

Sendo o maior português vivo, é uma das raras personalidades que não deixou ninguém indiferente, que continua a suscitar sentimentos antagónicos, e a quem Portugal deve a longa vida de luta pela liberdade.

Parabéns, Mário Soares.

Alemanha


 Merkel é reeleita presidente da CDU e quer proibir o uso de véu islâmico.

terça-feira, dezembro 06, 2016

Efemérides – Dia 6 de Dezembro

1865 - A décima terceira Emenda à Constituição norte-americana encerra formalmente a escravatura no país. Foi apenas há 1 século e meio (151 anos) que a escravatura foi aí ilegalizada. Novas formas permanecem e mesmo essa escravatura que desonra o passado de portugueses, que dela fizeram negócio de África para a América, existe ainda em vários locais do globo, mantendo seres humanos como animais domésticos. Que raio de mundo!

1905 – A separação da Igreja e do Estado foi aprovada pelo senado francês em resposta às críticas do Papa Pio X. Este avanço civilizacional, que as próprias religiões defendem (quando minoritárias) e condenam com o argumento de que não se pode tratar de forma igual o que é diferente (quando maioritárias), corre o risco de ser posto em causa depois de 111 anos de excelentes provas dadas. As próximas eleições francesas realizam-se sob o medo, prevendo-se um duelo entre a pior direita e a extrema-direita.

1978 - A Espanha aprovou a constituição que estabeleceu a monarquia constitucional e o parlamentarismo como forma de governo. A ditadura terminou, mas a herança e a vontade do ditador prevaleceram. A monarquia não foi escrutinada porque as sondagens lhe eram desfavoráveis. Passou de contrabando com a Constituição que punha termo à ditadura. Aliás, se os espanhóis preferissem a monarquia ela passaria a ilegal quando as novas gerações tivessem de a aceitar como facto consumado e definitivo. Não se aceita que as monarquias tenham de acabar de forma musculada.

Sempre foi assim, o respeitinho é muito bonito...

Há na herança salazarista algo de genético que assalta os mais improváveis cidadãos e os torna cúmplices da limitação à liberdade de expressão. A defesa das tradições pode não ser mais do que a tentativa de perpetuação de hábitos ancestrais que urge erradicar.

O alegado respeito pelas tradições é a atitude reacionária de quem teme o progresso. A pena de morte, o esclavagismo, a discriminação de género, a homofobia e muitas outras aberrações inscrevem-se nessa incapacidade de aceitar a evolução civilizacional.

Expressões como «entre marido e mulher não metas a colher» ou «o respeitinho é muito bonito», por exemplo, servem apenas para manter a impunidade da violência doméstica e a subserviência, respetivamente.

Não me imponham respeito pela xenofobia, racismo, excisão do clitóris, decapitação ou lapidação, por maior prazer que dê a um deus que se rebole de gozo com tais práticas.

Se não puder usar outros meios, terei sempre o sarcasmo para demolir os apóstolos da fé que condenam a ciência.
Se quero ser respeitado devo respeitar os outros? Ninguém garante que me respeitem ou que acertem no que me ofende. E se me ofenderem, que mal vem daí? Por que motivo hei de respeitar a crença de quem crê que o Padre Eterno fez o mundo em seis dias e descansou ao sétimo, ou outros que divirjam de mim, têm obrigação de me respeitar?

Há quem se ofenda com a música, a pintura, a carne de porco, o álcool ou o tornozelo desnudo de uma mulher e quem creia que a água vulgar, depois de sinais cabalísticos, passa a benta. Devo calar a surpresa ou suspender o riso para não os ofender?

As crenças são para combater e os crentes para tentar compreender. Só a violência é inaceitável.

segunda-feira, dezembro 05, 2016

ITÁLIA: o sepulcral silêncio prenunciador de tempestade…

Com a Itália à beira do colapso financeiro a Comissão Europeia assobia para o lado. Neste momento o BCE fala em resgates de bancos mas os burocratas aproveitam a oportunidade para reafirmarem os princípios europeus e a solidez da União link.

O rés-do-chão do edifício europeu ameaça ruina. Mas os mestre-de-obras atestam que as paredes do 1º. 2º, 3º, … até ao 27º. estão sólidas e recomendam-se!

Faz lembrar aquela do carioca desiludido com o Rio de Janeiro que olha para o aeroporto do Galeão e implora: o último que apague a luz!

Adenda: nos bastidores movem-se palhaços que riem da insensatez que semearam (já) às escuras. Ao longe os grilhos cantam...

191 – Memórias de um soldado em Angola (Ed. Verso da História)

Este fim de semana li o livro em epígrafe, amável oferta do autor, Onofre Varela, o ‘soldado condutor autorrodas 191’ [condutor, para quem ignore a qualificação militar] na guerra colonial em Angola, desde dezembro de 1965 a fevereiro de 1968.

Escrito sem azedume por quem lavou latrinas, serviu à mesa, foi agredido pelo sargento Ginja, e começou a tropa com vários dias de prisão e saiu louvado, um misto de ‘O bom soldado Shweik’, sem a negrura do seu humor, e do pacifista Mahatma Gandhi, sem ter libertado a pátria, conta de forma perspicaz o que na literatura de guerra era omisso.

Deve ter voltado no barco em que, logo a seguir, segui a caminho de Moçambique para a mesma guerra inútil, depois de ter percorrido os mesmos quartéis antes do embarque.

Onofre Varela, cartunista, escritor e jornalista, teve a arte de contar o que todos viram e só ele se lembrou de contar. E conta-o como se não tivesse sido vítima, como se o crime de ser português merecesse tão dura pena, com a mesma elegância com que respondia à agressão do sargento Ginja com um desenho e a cada humilhação como novo desenho.

É a excelente narrativa de um homem generoso, capaz de contar como quem conversa e de trazer a público factos que mais parecem de quem foi incumbido de fazer a ata e não de quem os viveu na base de uma irrefutável pirâmide hierárquica na mais negra história da vida da nossa geração.

É um excelente catártico, divertido na pungência das situações vividas, capaz de evitar os suicídios que ainda acontecem a quem viu morrer camaradas do lado errado e matar guerrilheiros do lado certo, certo de que vale a pena viver esta vida única e irrepetível.

Permito-me recomendar 286 páginas de um testemunho pessoal onde cada combatente encontra um retalho da sua odisseia do filme cujo guião foi escrito pelas circunstâncias.

Usos e costumes


Outros deuses, outros costumes.

domingo, dezembro 04, 2016

XX Congresso do PCP e as ilusões da Direita..


O último congresso do PCP é mais uma derrota para a Direita. Na suas catilinárias contra o atual Governo, a Direita ressabiada e catastrofista, sempre suspirou que a ‘posição conjunta’ assinada pelo PCP, BE e PEV com o PS para permitir a formação de um governo alternativo capaz do travar o assalto neoliberal, viesse a causar problemas no interior da formação partidária comunista.

A procissão ainda vai no adro mas todos os indícios apontam no sentido de que a militância comunista compreende e apoia a decisão da sua direção que resolveu tudo fazer para não dar mais hipóteses à Direita de Governar.

Repetidamente, foi afirmado no XX Congresso que este Governo, e mais especificamente, os dois Orçamentos aprovados, não são de Esquerda.
O que ficou por dizer e não é menos importante é que os orçamentos aprovados são substancialmente opostos aos que a Direita pretendia.
Não foi dito deste modo mas, quer dentro do Congresso, quer cá fora, toda a gente percebeu.

Aos que têm uma formação ideológica mais consolidada percebem que o PCP, não renegando as suas bases leninistas, as intervenções produzidas no Congresso podem rever-se num famoso livro “Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás”.
O livro trata, como todos nos recordamos, da resposta de Lenine a Rosa Luxemburgo sobre um debate surgido na II Internacional sobre a organização da social-democracia.

O XX Congresso do PCP respondeu (acentuando) às ansiedades da Direita, esclareceu a diferenças identitárias e ideológicas entre comunistas e sociais-democratas mas acima de tudo mostrou que um novo tipo de ‘compromisso histórico’ (muito diferente na conceção, circunstâncias e alcance do firmado por Enrico Berlinguer) tem muita mais estabilidade do que as tropeliais da Direita sonhavam e andaram por aí a divulgar aos incautos.
Se existe uma lição a tirar é que o XX congresso do PCP ratificou amplamente a estratégia seguida nas ‘posições conjuntas’ que expulsaram a Direita do poder e, mais significativo, em vez de a contestar, consolidaram a liderança.

Resumindo: Más notícias para a Direita.

Efeito Trump?

A Áustria pode tornar-se hoje o primeiro país europeu a eleger um chefe de Estado da extrema-direita desde a II Guerra Mundial.

Norbert Hofer, 45 anos, derrotado por apenas 30.863 votos (0,6 por cento) na segunda volta das presidenciais, a 22 de maio, será o provável vencedor.

Apostila - Felizmente, enganei-me. Sinto algum alívio. (17H00)

sábado, dezembro 03, 2016

CGD – a listagem que falta...

Não me parece curial voltar à CGD. Acabado este episódio que encerra com a nomeação de uma nova administração é tempo de os políticos deixarem os atuais responsáveis arrumar a casa.
Mas existem situações que incomodam e enfurecem os pacatos cidadãos. Tive muitas dúvidas se deveria voltar a este assunto. Mas viver corroído pela indignação mói e tira sentido à vida.
 
Prejuízos da ordem do 3 mil milhões de euros de crédito mal parado link, são insuportáveis. Quase um vigésimo da ajuda externa que o País foi forçado, pelos mercados financeiros, a solicitar como empréstimo para o tal ‘reajustamento’ (que afinal nem acabou, nem teve uma ‘saída limpa’).
De pouco vale chorar sobre o leite derramado. Todavia, a CGD, enquanto banco público, deve publicitar para todos – Bancos, instituições de crédito, seguradoras, empresas e cidadãos – a listagem dos prevaricadores (sejam singulares ou colectivos) com os valores dos seus compromissos não satisfeitos.
E, eventualmente, esses incumpridores sancionados com medidas similares aos promotores de conto do vigário, isto é, inibição de uso de cheques, de cartões de crédito e débito, etc. um rol que o Banco de Portugal tem em carteira para aplicar ao ‘peixe miúdo’.
 
Este é um processo administrativo, de regulação que não sendo, neste momento, prioritário é indispensável para repor a dignidade e credibilidade dos sistema bancário (e não só da CGD) que não me parece atentatório ao sigilo bancário.
Na realidade os devedores da CGD não contraíram um empréstimo qualquer. Tratou-se de um empréstimo público. Porque razão a existência dessas lista só diz respeito à Segurança Social ou à Autoridade Tributária?
 
Prioritário é recapitalizar a CGD para a manter como um banco público forte. Mas também é (simultaneamente) necessário não deixar que um bando de raposas à solta continue a rondar o galinheiro (reabilitado e reabastecido).