quinta-feira, abril 20, 2017

O proto-califa MaomÉrdogan e a democracia

O desejo do Presidente turco era mudar a Constituição e sepultar a herança de Atatürk. A seis anos do centenário da República laica, o Irmão Muçulmano a quem a UE e EUA outorgaram sucessivamente o epíteto de democrata muçulmano, acabou de transformar a natureza do regime.

No domingo, com o referendo duvidosamente democrático, em estado de emergência e com fortes suspeitas de irregularidades, Erdogan chamou a si os poderes do PM, cargo ora extinto, e iniciou a caminhada para se manter no poder até 2029.

O partido islamita (AKP) confundia-se com o Governo e o Estado. Erdogan usou-o para asfixiar as liberdades, perseguir opositores e abolir a laicidade. Agora, com os Tribunais subjugados, o Parlamento diminuído nas funções, as Forças Armadas expurgadas e o poder executivo concentrado nas suas mãos, a democracia é uma farsa à espera das leis corânicas.

A República constitucional democrática, secular e unitária foi derrotada no domingo e a herança de Atatürk, que reprimiu os xeques e libertou as instituições turcas de Maomé, o ‘beduíno analfabeto e amoral’, terminou.
 
Não mais se ouvirão as palavras do fundador da Turquia moderna: “São os professores, somente eles, quem libertam os povos e transformam as coletividades em verdadeiras nações”. Erdogan pretende restabelecer a pena de norte e virar-se para Meca. A paz na Síria fica mais difícil, os curdos mais ameaçados e a Europa apavorada, sob chantagem, com 4 milhões de refugiados na Turquia.

A ditadura islâmica está em marcha. Sob o poder de Erdogan os cinco pilares do Islão sustentam o regresso ao califado. MaomÉrdogan é o paradigma de uma ambição que o Ocidente amamentou num país que tem o maior exército da Nato fora dos EUA e o seu maior arsenal nuclear estacionado na Turquia.

Ponte Europa / Sorumbático

5 Comments:

At quinta abr 20, 10:51:00 da manhã, Blogger Jaime Santos said...

A ideia de que a República Laica da Turquia era uma democracia constitucional não encontra suporte na História. Erdogan pode ser um autocrata muçulmano, mas o que o afasta da tradição kemalista é a piedade e não o desrespeito pelo Primado da Lei. Nisso, insere-se infelizmente na tradição 'republicana' turca...

 
At quinta abr 20, 04:00:00 da tarde, Blogger Carlos Esperança said...

Jaime Santos:

O seu comentário é rigoroso e irrespondível.

§

O meu post reflete a convicção, cada vez mais forte, de que o Islão é incompatível com a democracia, à semelhança das outras religiões e dos monoteísmos, em particular. Sem repressão política sobre o clero nunca foi possível uma democracia constitucional que, como já deve ter visto, é o paradigma que defendo.

 
At quinta abr 20, 07:27:00 da tarde, Blogger Manuel Galvão said...

Os EUA sempre quiseram que a UE aceitasse a adesão da Turquia. Porque será?
A partir de hoje é surrealista que seja em território da Turquia que existe o maior contingentes de de armas da Aliança Atlântica. Vamos esperar que essas armas não transitem para mãos jiadistas sunitas... A Aliança Atlântica está obsoleta... disse ele.

 
At sexta abr 21, 11:34:00 da tarde, Blogger Jaime Santos said...

Carlos, eu quase que lhe daria razão não fosse pelo caso da Tunísia. Não existe dentro do Islão uma tradição de separação entre o Estado e a Religião, nem sequer uma tradição digamos informal, como aquela que vigora nas Monarquias Protestantes do Norte da Europa. Na Turquia, a separação estrita que existia foi conseguida por Ataturk e aqueles que lhe seguiram à custa de repressão. Tivesse a Turquia desenvolvido uma tradição secular democrática sã e poderiam vir todos os islamistas que não adiantaria muito. Agora, continuo a discordar da sua ideia de que a repressão do clero é uma necessidade para garantir a ordem democrática. Alguns dos países mais democráticos do mundo são monarquias confessionais (Noruega, Suécia e Dinamarca) e uma das razões para o colapso da nossa I República foi justamente essa repressão (independentemente de eu achar, com Afonso Costa e o Papa Francisco, que a separação estrita entre o Estado e a Religião garante não apenas a Autonomia do Estado, como a Liberdade das Confissões Religiosas).

 
At sábado abr 22, 12:14:00 da manhã, Blogger Carlos Esperança said...

Jaime Santos,

Mais uma vez penso estar em sintonia consigo, salvo no que diz respeito à necessidade de repressão política (o adjetivo é aqui imprescindível) sobre o clero. Nenhuma religião aceitou a laicidade sem essa imposição política.

 

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