sexta-feira, maio 12, 2017

Associação Ateísta Portuguesa (AAP) - Comunicado

Fátima: o centenário de um embuste

Quando a Igreja católica distribui veneras a título póstumo, à semelhança dos Estados, é uma decisão que não merece reparo e apenas diz respeito aos crentes, mas quando o pretexto insiste no desafio à inteligência e ao bom senso, é uma boa razão para o combate ao obscurantismo e à superstição, implícitos nos milagres.

No início do século XX houve várias tentativas para encenar um espetáculo, copiado de Lourdes, contra a República. Em 1917, numa zona rural recôndita, foi possível fanatizar três crianças analfabetas com o catecismo terrorista da época e usá-las na raiva contra o Registo Civil obrigatório, o divórcio e a lei da Separação da Igreja e do Estado.

Em 13 de maio de 1917 foi ensaiado o circo contra a República, usando como fetiche o número 13 e o rosário como amuleto. Em cada dia 13 repetiu-se o teatrinho até ao mês de outubro. Bailou o Sol, saltitou nas azinheiras a Senhora de Fátima, o avatar lusófono da de Lourdes, poisou na Cova da Iria o Anjo de Portugal e as crianças foram repetindo o que o padre doutrinava, enquanto a Igreja comprava os terrenos para o negócio pio.

Em 1930, quando a ditadura clerical-fascista estava em marcha e a Lúcia levava quase uma década de cativeiro, com a Jacinta e o Francisco mortos, a ‘mensagem’ de Fátima virou-se contra o comunismo e para a conversão da Rússia (URSS?). Os ‘segredos’ que alimentaram o medo das populações, embrutecidas pelo primarismo da fé, acabaram de forma pífia com o último a ser apropriado por João Paulo II, convencido de que era, ele próprio, o protagonista, e de que a Senhora de Fátima, em vez de o ter poupado ao tiro de pistola, lhe havia guiado a bala no trajeto através do corpo perfurado.

Implodido o comunismo, Fátima virou-se contra o ateísmo e em 2008 o cardeal Saraiva Martins, vindo do Vaticano, presidiu à peregrinação do 13 de maio, sob o lema “contra o ateísmo”. Foi o ano da criação da Associação Ateísta Portuguesa (AAP).

Depois do milagre da D. Emília dos Santos, agora em nova joint venture, já com a ajuda da defunta Lúcia, os pastorinhos obraram outro milagre: curaram uma criança brasileira com “perda de material cerebral” que, depois de transportada “ao hospital, em coma, foi operada” e os médicos disseram que, “caso sobrevivesse, viveria em estado vegetativo ou, no máximo, com graves deficiências cognitivas”.

Bastou o pai pedir a cura à Senhora de Fátima e aos pastorinhos para ficar sem sequelas, em três dias, e recuperada para vir a Fátima como troféu dos defuntos, que necessitavam do milagre para a santidade programada.

Em Portugal, vítima da superstição e da ignorância, a conferência de Antero de Quental sobre as ‘Causas da Decadência dos Povos Peninsulares’ precisa de ser divulgada.

A Associação Ateísta Portuguesa reprova a cumplicidade dos mais altos representantes da República, a tolerância de ponto aos funcionários públicos e a presença de cadetes fardados no transporte do andor da Senhora de Fátima, na procissão das velas.

A laicidade, imolada no altar da superstição pia, caricatura o Estado laico e desprestigia as instituições.

Odivelas, 12 de maio de 2017.

2 Comments:

At sábado mai 13, 10:00:00 da manhã, Blogger Monteiro said...

Foram criadas todas as condições psicológicas para que Fátima acontecesse. No início do século XX houve várias tentativas para encenar um espectáculo, copiado de Lourdes, contra a República e no Diário de Notícias do dia 10 de Março de 1917 na página 4, na 9ª coluna, encontrava-se um anúncio pago tão inesperado como estranho e que anunciava acontecimentos fantásticos para 13 de Maio de 1917. Por outro lado havia milhares de Portugueses na Guerra e as famílias suspiravam pelo seu bem estar tendo em 9 de Abril de 1918 morrido cerca de 15.000 soldados na Batalha de La lys Depois a senhora de Fátima mandava rezar pela conversão da Rússia e a Pneumónica que se espalhou por toda a parte também chegou a Portugal matando os próprios pastorinhos que nem a Senhora de Fátima os salvou. Houve uma enorme purga na Igreja porque havia Bispos que não aceitavam esta enorme encenação.Ao país inteiro parecia que a hora do apocalipse tinha chegado
seis bispos foram expulsos das suas dioceses só em 1917
em Fevereiro, os bispos de Portalegre e Bragança; em Julho, o do Porto; em Agosto, o cardeal-patriarca de Lisboa; em Dezembro, os arcebispos de Braga e de Évora. Sem a revolução de Sidónio Paes, todos os bispos haveriam sido eventualmente desterrados, porque a representação que dera origem ao desterro dos dois últimos, os de Braga e Évora, estava assinada por todos mas a fama de aparições sempre houve e já 100 anos antes em 1822 a Virgem aparecera em Carnaxide que sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, onde Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes

 
At segunda mai 15, 11:33:00 da tarde, Blogger Carlos Esperança said...

Caro Monteiro:

Excelente comentário. Obrigado.

 

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