terça-feira, janeiro 31, 2017

Benoit Hamon et ‘la gauche de la gauche’…

As eleições primárias para o candidato do PSF à presidência da República Francesa têm um enorme significado político.
 
Benoit Hamon venceu as eleições com uma margem confortável de votos sobre Manuel Valls link.
Não se tratou de uma disputa qualquer. Foi um confronto entre a Esquerda liberal e a social. Venceu esta última.
 
Este foi mais um momento em que a Esquerda, num País europeu, se esforça por clarificar a sua posição política. Não se trata simplesmente da ‘Esquerda da Esquerdalink, mas antes a Esquerda política, económica e social assumindo as matrizes ideológicas do socialismo.
A Esquerda não deve lamentar o ocorrido baseando-se em cálculos contabilísticos (de putativos votos) mas antes devia envergonhar-se de, ao longo das últimas décadas, ter ‘oferecido’ aos eleitores um modelo de gestão da trama capitalista, adocicando-o. Para usar uma expressão popular ‘ de ter vendido a alma ao diabo’.
 
Provavelmente, Benoit Hamon, não vai ter um bom resultado eleitoral. Mas a relevância da sua candidatura e do seu combate será a capacidade (e a oportunidade) gerada para proceder a uma clarificação da postura socialista que esteja em consonância com a História e a Doutrina.
Desde os malabarismos ‘sócio liberais’ da 3ª. via, encenados por Tony Blair e seguidos por outros dirigentes europeus que habitavam (ou ainda habitam) o campo socialista, que a Esquerda descaracterizou-se profundamente e tem perdido sucessivamente capacidade de intervir no campo político e social, com evidentes custos eleitorais.
 
É significativo que este sobressalto tenha acontecido, agora, em França. Há poucos meses atrás sucedeu algo de semelhante no Partido Trabalhista britânico quando ‘blairistas’ tentaram escorraçar Jeremy Corbyn por este estar a combater a deriva sócio liberal do Labour (em curso desde Blair).
 
O facto de dois dos grandes países europeus (França e Grã-Bretanha) estarem a retificar o percurso partidário das últimas décadas no âmbito da social-democracia e do socialismo, não trará resultados imediatos, mas é uma lufada de ar fresco que, a médio prazo e a longo prazo, oxigenará a Esquerda fazendo-lhe bater o coração e capacitando-a para eliminar os resquícios neoliberais que ainda perduram e, finalmente, combater eficazmente o populismo emergente.

Foi há 126 anos

Recordando um ato heróico que foi fermento do 5 de Outubro de 1910

31 de Janeiro de 1891 (Porto)

O 'ajustamento' democrático (em curso) …

Mais cedo do que se julgava veio à tona a verdadeira razão pela qual o PSD denodadamente se bateu contra a ‘TSU dos patrões’ link
Queria matar 2 coelhos com a mesma cajadada: fazer chicana ao Governo PS e (também) ‘encanzinar’ o aumento do salário mínimo nacional.
 
A posição do BE e PCP contra as alterações na TSU era desde há muito conhecida e revelou-se uma opção extremamente realista. Estes partidos não aceitam que o aumento do salário mínimo nacional possa estar (ficar) ligado a benefícios patronais quanto mais não seja porque a programação escalonada desse aumento até 2019, como está no programa de Governo, colocaria o Executivo de joelhos perante as corporações patronais.
 
Agora, em Arouca, em plena campanha autárquica, o dirigente do PSD revela explicitamente a posição do seu partido. Está contra o aumento do salário mínimo, isto é, pretende condicionar a devolução de rendimentos aos trabalhadores à evolução do crescimento da economia e à competitividade.
Finalmente, pôs o seu discurso em consonância com os interesses que a Direita que representa, isto é, à apropriação intensiva das mais-valias do trabalho pelo capital.
O mecanismo é conhecido. A evolução dos salários sofreu desde 2009 tratos de polé que englobam congelamentos, destruição de carreiras e alterações da lei laboral (fim das negociações coletivas, aumento do horário de trabalho semanal, diminuição dos dias de férias anuais, extinção de feriados, etc.).
A Direita considera estes mecanismos uma ‘conquista’ que, pela calada pretende irreversível, embora continue a vociferar em público (para incautos) que é contra uma economia tributário de baixos salários.
 
A devolução dos rendimentos às forças de trabalho que sofreram na pele as consequências mais duras da crise financeira – bandeira do atual governo e que congrega toda a Esquerda – incomoda seriamente a Direita. Pretende, para já, condicioná-la ao crescimento económico e a ganhos na competitividade, enquanto sonha, nos ‘seus’ planos futuros, a sua reversão.
 
A evolução da economia depende de múltiplos fatores desde o celebre ‘empreendedorismo’, aos custos do financiamento (sempre o sector financeiro na berlinda), à evolução do crescimento global, à carga fiscal, à celeridade da justiça, etc.. Um conjunto de situações, muitas delas exógenas ao ‘mundo do trabalho’, e que escapam ao seu controlo e, portanto, à responsabilidade das forças do trabalho, e estão dependentes da ideológica relação capital/trabalho ao que, neste momento, devemos acrescentar a componente tecnológica.
Embora uma enorme parte desses fatores sejam ‘importados’ (exógenos) a Direita acha que, de qualquer maneira, os trabalhadores devem continuar a ser penalizados.
 
Por outro lado, a competitividade (empresarial entenda-se), é uma autêntica torre de Babel. Serve para ‘justificar’ tudo. Os fatores de competitividade são, como sabemos, múltiplos, entre os quais emerge a necessidade de um mercado concorrencial, necessariamente regulado, para não ‘descambar’. Este pormenor da regulação faz a diferença entre uma economia saudável, com justiça distributiva, e a selva que o neoliberalismo adotou e quer impor.
 
A competitividade é sempre a premissa prévia das famosas ‘reestruturações’ empresariais que contemplam sistematicamente impiedosos despedimentos em massa e redução de salários.
Passos Coelho não compreende que as reivindicações dos trabalhadores sejam satisfeitas porque, de facto, ‘acredita’ que a economia renasce do empobrecimento das pessoas através da desvalorização dos salários e na introdução de ritmos infernais de trabalho. Essa foi a sua estratégia durante o seu mandato.
 
Os múltiplos fatores de competitividade englobam também a relação preço/qualidade da mão-de-obra mas a Direita tende a agigantar os custos do fator trabalho (imputando-lhe um peso excessivo) para manter os exorbitantes custos de contexto (energia, transportes, administrativos, etc.), isto é, protegendo as rendas e transformando os trabalhadores num ‘bombo da festa’.
 
O líder do PSD alimenta, para consumo dos seus correligionários, neste terreno do SMN, uma gigantesca fraude. Pretende fazer um reset aos 7 longos anos de ‘sacrifícios’ (só em 2009 se verificou um aumento real), que mais não foram que uma avultada perda de capacidade financeira (poder de compra) das pessoas e das famílias.
 
E intencionalmente confunde a restituição de rendimentos que foram espoliados ao longo da última crise como uma outra que será a evolução futura dos salários.
 
Hoje, com a volatilidade dos ditos ‘mercados’ é difícil indexar o ajustamento de salários a outras variáveis como seja, por exemplo, a taxa de inflação. Sem soberania monetária (delegada ao BCE) todos estes ajustes são muito mais complexos porque um dos primordiais fatores de compensação (a valorização ou desvalorização da moeda) escapa-nos.
 
Finalmente, fora destas considerações, resta afirmar que é uma pretensão justa dos trabalhadores a melhoria dos salários. Há que perder a vergonha de afirmar isso. A cantilena do País 'pobrezinho', mal amanhado e vítima das dificuldades ancestrais, é uma visão parcial e disforme da realidade e não deve tolher a reivindicação de uma vida melhor.
 
Esse será o passo seguinte que deverá começar quando se apagarem as iniquidades do ‘período excepcional’ (designação da Direita para a intervenção externa). Efectuadas as reposições (processo ainda em curso) deverá haver tempo e espaço político para aumentar os rendimentos dos trabalhadores.
Este o novo ‘ajustamento’, eminentemente democrático que, Passos Coelho e a camarilha da Direita, não querem ouvir falar.

segunda-feira, janeiro 30, 2017

Hitler subiu ao poder há 84 anos

A TrumPutinização da Europa

O pangermanismo, antissemitismo e anticomunismo fizeram do Partido Nazi alemão o mais votado. Em 1933, tornou-se o maior partido eleito no Reichstag, e seu líder, Adolf Hitler, foi nomeado Chanceler da Alemanha no dia 30 de janeiro desse ano. Há 84 anos, começou a maior tragédia da História.

Os EUA primeiro, o racismo, a xenofobia e o populismo deram ao Partido Republicano americano a maioria absoluta nos vários centros do poder. O protestantismo evangélico chegou ao poder.

Há quem não queira ver semelhanças no moralismo religioso e imoralismo económico que, de forma boçal, se desenha, quiçá com o mais improvável dos aliados, Putin. A Sr.ª May, com menos álcool, é a nova Thatcher. A União Europeia e o euro estão á beira do desastre esmagados por Trump, May e Putin, com a Turquia a pensar no califado.

Estamos Trumputinizados.

O obscurantismo e a fraude ao serviço da fé


«Após mais um ano de tratamentos de fertilidade, uma jovem mulher, de Lisboa, ouviu da médica a certeza de que nunca poderia ter filhos. No dia do funeral da vidente de Fátima, 15 de fevereiro de 2005, rezou e pediu-lhe fervorosamente ajuda. Em maio, três meses depois, soube que estava grávida.»

domingo, janeiro 29, 2017

E não param as conversões...


sábado, janeiro 28, 2017

Europa: Mais uma ‘cimeira do Sul’…

A reunião que está a decorrer em Lisboa e que reúne representantes dos governos de Portugal, Malta, França, Espanha, Itália, Grécia e Chipre (o 'grupo EUmed') tem uma agenda vasta. A reunião de dirigentes destes países vai debruçar-se sobre problemas de emigração e segurança. Por detrás do pano e não menos importante (pelo contrário!) estão questões basilares como a Defesa e a União económica e monetária link.
 
Estes dois últimos temas adquiriram especial relevância nos últimos tempos.
 
A Defesa com a eleição de Donald Trump foi empurrada para a situação de necessitar de reavaliar as funções e o âmbito da NATO. O que foi colocado em questão por Trump ultrapassa o mero empenhamento financeiro na organização. Na realidade, os EUA estão a revelar o intuito de querer adotar a 'via mercenária' para qualquer tipo de intervenção no exterior e assim dar satisfação às exigências do complexo industrial de armamento americano. A política externa norte-americana reserva-se o direito de provocar o número de guerras (regionais ou locais) que lhe convier e depois vende a ‘pax americana’ ao preço de mercado, isto é, de acordo com mecanismos especulativos. Só que para futuro as guerras, desenhadas em Washington, deverão ser pagas pelos outros (membros da NATO). Está aqui subjacente a mesma filosofia expressa relativamente ao muro do México (os EUA impõem-no e o México paga).
 
A União económica e monetária, é outro assunto candente. O Brexit tornou-se num problema agudo na agenda política europeia e veio desencadear diversas reações. Mas o Brexit poderá funcionar como [mais] uma arma de arremesso contra a Europa, quando a Srª. May aliar-se ao presidente Donald Trump (como se viu na primeira visita da primeira-ministra a Washington) para transformar a saída inglesa ‘num êxito!’.
 
Por outro lado o processo de construção do euro é, neste momento, contestado a diversos níveis. Mas mais do que contestado é equacionada a seguinte questão: a quem serve?.
Os europeus na sua maioria (há exceções) têm consciência das fragilidades existentes à volta da moeda única, das políticas orçamentais e do sistema financeiro, nomeadamente, acerca do papel do BCE.
 
E o grande sobressalto é exatamente em que medida a União económica e monetária tem contribuído para a coesão europeia. A resposta é simples e curta: nada!
 
Na UE acerca de tudo e de nada fala-se de reformas estruturais. Ora, se há um campo em que essas reformas têm absoluto cabimento é precisamente no terreno da União Económica e Monetária, nomeadamente, na consolidação e unificação do sistema bancário, reformulação e redimensionamento das políticas orçamentais comunitárias, regulação e tributação do sistema financeiro, uniformização fiscal, entre outras.
 
Esta cimeira do Sul retoma uma atitude diferente. Os dirigentes desses países reúnem-se à luz do dia sem recearem as diatribes do senhor Wolfgang Schauble...

Lisboa - Convite


sexta-feira, janeiro 27, 2017

Opinião

«O cristianismo e o liberalismo económico são compatíveis? Claro que sim, por muito que digam o contrário os padres que você tem de suportar quando se aproxima da missa e até o próprio Papa Francisco, com quem, verdade seja dita, tivemos muita pouca sorte.»

(Miguel Ángel Belloso, diretor da revista Actualidad Económica, hoje, no DN, pág. 48, no seu artigo semanal de página inteira)

Trump soma e segue

Não se espera de um mestre-de-obras que poupe terrenos de vocação agrícola à fúria do betão, nem de um agiota que se comova com os juros das penhoras. Trump foi péssimo nas promessas da campanha eleitoral, e é ainda pior no cumprimento em que insiste.

Ele não é um nacionalista que alguns ingenuamente imaginaram, é o imperialista que se disfarçou de anti globalista para impor a ‘sua’ globalização à força. Não gosta dos EUA, gosta dos países dos outros, a quem pretende assustar e explorar. No próprio país, não se importa de penalizar as energias renováveis a favor dos combustíveis fósseis. Não lhe interessa o futuro dos netos, vive a orgia do curto prazo. Ele próprio é um fóssil.

O muro da vergonha, a cortina de betão com que quer separar o México dos EUA, já foi anunciado para os próximos meses. Tudo o que der um lucro imediato, será indiferente à sobrevivência do Planeta.

A defesa da tortura é a inclusão dos métodos do Estado Islâmico na Nova Ordem da era Trump. Faz a síntese entre um taxista do aeroporto Humberto Delgado e um empreiteiro do século passado, na Reboleira, mas à escala planetária. E tem o mundo refém.

O Reino Unido vai negociar a saída da UE com a senhora May ao colo de Trump, aliado de toda a extrema-direita. Não partirá para uma negociação, vai chantagear uma Europa incapaz de se unir, de seduzir os seus países e de usar o PIB e a população na defesa da civilização a que o empreiteiro americano é alheio.

Se houvesse racionalidade, Trump podia ser o cimento do aprofundamento da UE que, sem ele, foi inexequível. Assim, a Europa fará haraquíri, e o Mundo caminhará para um qualquer holocausto.

quinta-feira, janeiro 26, 2017

A lição de ontem…

Ontem, no Parlamento, ocorreu uma lamentável, mas significativa, cena de oportunismo partidário, protagonizada pelo PSD com a rejeição da 'TSU dos patrões’.
Trata-se de um grave travestismo posicional, ao arrepio de qualquer tipo doutrinário e da coerência política que, desta vez, e por mero acaso, não trará consequências para o País. Mas a vida continua e deverão tirar-se ilações do acontecido.

O PS não pode, enquanto governo, balancear-se entre a posição conjunta de Esquerda e os oportunismos da Direita.

Ficou notório que a Direita ainda não digeriu o seu afastamento da governação. Nenhuma posição futura é previsível já que o cimento do seu comportamento parlamentar é a miragem de um regresso rápido ao poder, não hesitando até lá no dificultar da resolução dos problemas nacionais, isto é, cavalgando o ‘diabo’.

Tal comportamento introduz novas variáveis na política nacional. Acabaram-se os tempos do ziguezague tão frequentes no terreno político nacional. Poucas alternativas restam quanto a uma política governativa. O natural será um aprofundamento da conexão da Esquerda, conjugar melhor as posições e retirar espaço de manobra à Direita.

Claro que votar ao 'ostracismo' a Direita poderá ter consequências. A primeira será estimular uma deriva populista neste sector (como se verifica em alguns nações europeias) e uma outra será os danos que essa Direita pode provocar ao País através das ligações políticas e orgânicas que cultiva com o PPE.  Conhecer as capacidades de evolução e influência de uma Direita despeitada será importante para a definição das políticas futuras mas não deve tolher a convergência da Esquerda.

Todavia, a realidade e o êxito da governação socialista está intrinsecamente ligada a maior entendimento entre toda a Esquerda. É por esta razão que os consensos nacionais estão cada vez mais distantes. A Direita não está interessada no País mas sim no 'assalto' ao poder.
 
Bastaria e já seria bom que se obtivesse uma maior concertação política à Esquerda que seja capaz de (suficiente para) ultrapassar os problemas críticos (económicos e financeiros) que se avizinham. E são notórias as lentas e morosas convergências em assuntos cruciais, nomeadamente, em relação à renegociação da dívida e à revisão do Pacto de Estabilidade.

Esta a ilação necessária dos acontecimentos, de ontem, no Parlamento.

Donald Trump e o Partido Republicano

O Partido Republicano, fundado por abolicionistas, partido cujo primeiro presidente foi Abraham Lincoln, dificilmente se reconheceria no trajeto iniciado há trinta anos, sob a influência da Direita Religiosa, radicalizado pela chegada do Tea Party e bem-sucedido com o extremista Donald Trump, com o apoio não repudiado da Ku Klux Klan. Aliás, Trump faz a síntese da pior herança das últimas três décadas e acrescenta o exuberante apoio ao sionismo judaico.

Trump não é um risco, que as promessas feitas na campanha presidencial prenunciavam, é uma ameaça trágica pela obstinação em cumpri-las.

Racista, misógino e exibicionista, falta-lhe preparação, sensatez e equilíbrio para dirigir o mais poderoso país. Com a sua vitória eleitoral tornou-se o homem mais perigoso do mundo. Com maioria republicana no Congresso (Câmara dos Deputados + Senado) e no Supremo Tribunal (Suprema Corte), cujos juízes são nomeados pelo PR e confirmados pelo Senado), Trump é o mais poderoso dos Presidentes dos EUA e do Mundo.

Ao fazer da China, o seu maior credor, o inimigo principal, da Palestina um quintal de Israel e do Mundo um espaço de negócios, Trump pode fazer com que a crise de 2008 pareça um incidente perante a previsível catástrofe.
O direito internacional, como sucede com os aprendizes de ditador, é apenas um ligeiro obstáculo à vontade de um narcisista sem ética, cultura e formação política, indiferente ao aquecimento global, ao drama dos refugiados, à pobreza e à saúde dos desvalidos.

Os 8 homens mais ricos do mundo, 6 americanos, 1 espanhol e 1 mexicano, detêm mais riqueza do que a metade mais pobre da Humanidade. Com Trump, tendem a reduzir-se.

Por trás de Trump há uma redefinição geoestratégica. A sua retórica podem ser a cortina de fumo para a real política externa dos falcões que o apoiam e de interesses sectoriais americanos, mas as circunstâncias e o homem não podem ser ignorados.

A União Europeia, avessa à integração económica, social e política, conseguiu tornar-se anã no xadrez mundial, apesar de ter maior PIB e mais população do que os EUA. Está abandonada à desintegração e redefinição de fronteiras.

O ar que se respira lembra o dos ventos que sopraram antes da II Guerra Mundial.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 25, 2017

Liberdade de expressão


terça-feira, janeiro 24, 2017

O 1.º ano de Marcelo Rebelo de Sousa - o PR

Nunca pensei que, um ano volvido após a eleição do novo inquilino de Belém, lhe prestasse homenagem. Votei em Sampaio da Nóvoa e, ainda hoje, voltaria a fazê-lo, pela maior proximidade ideológica e pela minha arreigada conceção laica da República.

Dito isto, depois dos dois penosos mandatos de Cavaco Silva, onde não se vislumbrou um rasgo de virtude cívica ou de pedagogia democrática, a chegada de Marcelo, liberto de prótese conjugal (resquício monárquico que a República conserva), sem a mancha de negociatas, passado sombrio ou rancores partidários, foi uma lufada de ar fresco.

A cultura, inteligência e sentido de Estado fizeram do PR um referencial de estabilidade e patriotismo, apreciado pela grande maioria dos portugueses. Penso mesmo que um PR conservador foi mais benéfico para a estabilidade política do que o PR que eu preferiria.

A preparação para o cargo é indiscutível. A sua pedagogia cívica, sem jamais manchar as funções ou envergonhar os portugueses, é um serviço que lhe devemos.

As acusações de vocação peronista são infundadas. Pelo contrário, devolveu à AR a sua centralidade na política portuguesa, como demonstrado no caso recente da TSU.

Há quem digira mal as derrotas, quem procure ver fantasmas onde não existem, quem já não saiba viver sem azedume. Esses, encontrarão em quem gostariam de ver formatado à sua semelhança um eterno inimigo.

Não me tornei correligionário deste PR, não votarei nele em eventuais futuras eleições, mas respeito-o na legitimidade e dignidade com que tem exercido as funções. Não conquistou um adepto, mas ganhou o meu respeito.

Parabéns, Marcelo.

A frase

«O perigo é que em tempos de crise procuremos um salvador»

(Francisco, Papa católico, por coincidência, promotor vitalício de outro salvador)

Nota - Contrariamente a Pio XII, em relação a Hitler e ao nazismo, não se pode dizer que o papa Francisco ficou em silêncio perante Trump. É justo referir a coragem e a dignidade do atual líder da Igreja católica.

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Passos Coelho (PPC) no seu labirinto

Os avençados do costume repetem até à náusea, nas redes sociais, o que pensa o líder do PSD, insistindo, à semelhança do iluminado Cavaco Silva, em fazer crer que o Governo é ilegal. Teimam que António Costa não foi eleito PM, como se houvesse eleições para PM em vez de eleições legislativas.
 
PPC só consegue fazer mal ao Governo, fazendo pior ao seu partido. A descida da TSU não devia, de facto, servir de contrapartida para elevar o salário mínimo, num país onde este é tão baixo. Nisso, embora em contradição consigo próprio e com o partido, é uma votação tática.

Na TSU, tal como nas insensatas picardias contra a CGD, há um mero ressentimento de quem, à falta de estratégia partidária, se esgota em expedientes táticos. Não é por acaso que PPC é abandonado pelos melhores quadros, que se fingem mortos ou se encontram indisponíveis, quer seja para a Câmara de Lisboa ou para adorno nas suas deslocações.

Com Miguel Relvas recolhido nos negócios, o génio que levou PPC a PM, a imagem do PSD, depois de terem parado as investigações à Câmara de Gaia, confunde-se com a de Marco António.

Os intelectuais do PSD raramente ultrapassam a craveira de PPC e Cavaco Silva. Não admira, pois, a imensa preocupação do PSD contra a elevação do salário e, tal como os outros partidos, não pense que é obscena a inexistência de um salário máximo.

Post scriptum – O uso de um qualquer fraternal ressentimento de Ricardo Costa contra o PM levou-o ontem a confundir o PR com um candidato ao cargo e a deixar o PSD com menos argumentos.

COIMBRA - Jantar republicano do 31 de Janeiro

MR5O – Núcleo de COIMBRA
Jantar republicano evocativo dos 126 anos da revolta do 31 de Janeiro de 1891



O Movimento Republicano 5 de Outubro (Núcleo de Coimbra), mais uma vez, irá comemorar a data emblemática da Revolta de 31 de Janeiro de 1891, como momento crucial do percurso do Portugal Republicano.

Assim sendo, exortam-se os Republicanas/os para um jantar a realizar, no próximo dia 31 de janeiro, terça-feira, a partir das 19h30, no Restaurante A Brasileira, localizado na rua Ferreira Borges, em Coimbra.

As inscrições podem ser feitas até ao dia 28 de janeiro, para anabela8@hotmail.com 
Ou para Carlos Esperança aesperancaenator@gmail.com ou TM. 917322645.

Não esquecer no ato de inscrição referir a preferência por peixe ou carne, bem como se deseja sopa.

Ementa:
Entradas variadas; Sopa de alho francês (só para quem o indicar); bacalhau à casa ou, lombinho de porco gratinado com rolinhos de bacon; bolo de limão e coco, fruta laminada (laranja/ maçã) e café. Bebidas: vinho; água e sumos.   


Preço € 15,00 (Pagamento no local)


domingo, janeiro 22, 2017

TSU (Tudo Serve para Uivar) …

Estando, ainda, em pleno desenvolvimento a chicana sobre a CGD o PSD lança-se em nova aventura, agora sobre a TSU e o salário mínimo.

Existe, nesta nova polémica, vários ambientes políticos. O primeiro gravita em volta de uma mentira repetidamente dita. Os políticos de direita – mais acentuadamente os gestores e economistas – proclamam aos quatro ventos que o desenvolvimento não deve ser feito à custa de baixos salários. Na prática esmagam as remunerações, e isso é tão visível desde a crise financeira que dispensa números. O pretexto é sempre o mesmo: competitividade e as cíclicas reestruturações. Podemos esperar sentados pelo dia em que uma reestruturação carregue no bojo a criação de novos empregos e conduza a um aumento dos salários.

Assim, quando o movimento social e sindical consegue pressionar a introdução de alterações nas remunerações – a começar pelo salário mínimo – os empresários, cheio de espírito empreendedor, logo exigem ‘compensações’.
Seria bom manter a memória viva e atualizada. Quando no Governo PSD/CDS se alterou, para alguns trabalhadores, o horário de trabalho semanal de 35 para 42 horas, ninguém ouviu falar em compensações, pela simples razão de que estas só podiam ser retribuições.

O alinhamento do salário mínimo por níveis de dignidade e de justiça social não é uma invenção deste Governo.
Esta alteração consta de diferentes programas partidários que, em devido tempo, foram submetidos a escrutínio popular. Embora existam algumas nuances para a obtenção, aplicação e calendarização destas medidas de justiça social (a justa retribuição do trabalho) o facto é que uma larga maioria de cidadãos subscreveu, pelo voto, esta mudança.

A púdica rejeição das confederações empresariais – e a consequente recusa – significam que pretendem transformar a concertação social num fórum de revisão e ‘afinação’ do sistema democrático. A questão salarial está votada e decida em sede própria (nas urnas de voto) é para cumprir. As medidas ‘compensatórias’, tem a ver com a economia e não podem ser endossadas ao erário público.

A concertação social deverá existir com duas grandes finalidades. Primeiro, para colaborar na definição de uma estratégia harmónica de desenvolvimento; depois, para promover mecanismos para uma justa redistribuição da riqueza. É na conjugação destes dois vetores que se encaixa a questão do salário mínimo.

Na realidade, a nossa situação económica é precária e o crescimento anémico. Qualquer português gostaria que a ultrapassagem destes problemas incidisse, por exemplo, pela diminuição dos custos de contexto (energia, combustíveis, transportes, etc.) e deixasse em paz a contribuição pública. Entretanto, existem nestas nebulosas situações, questões político-partidárias por resolver.
 
O oportunismo do PSD que anteviu nesta questão uma oportunidade para desgastar o Governo, e não mais do que isso, e a insídia da direita do PS, capitaneada por Francisco Assis link, que se colou à chicana ‘passos-coelhista’ e se apressou a pedir eleições antecipadas, mostram como é necessário reafirmar, internamente, a atual solução de governo, apesar de todas as identidades politicas e partidárias a salvaguardar, dando provas de determinação e eficiência.
 
Já todos percebemos que a questão da descida da TSU (em algumas situações) está irremediavelmente condenada, mas o País precisa de consolidar a devolução de rendimentos às forças do trabalho e, ao mesmo tempo, desenvolver a economia. Esta dupla condição é o caminho que, quer PS, quer as forças de Esquerda que subscreveram a ‘posição conjunta’, precisam de trilhar. Difícil trânsito quando se alienou para o sector privado, e ao desbaratado, empresas com carácter estratégico para a economia e se deixou de controlar os chamados custos de contexto.
 
Ficam, no entanto, por esclarecer se as intenções do PSD se confinam à questão da TSU ou se, na realidade, o atual dirigente do PSD, Passos Coelho, não se conforma com o aumento do salário mínimo. O tempo esclarecerá. Aproxima-se em passos agitados outra das grandes grilhetas da nossa economia. Isto é. a questão da divida pública e o seu ‘impossível’ serviço.  E aí os jogos de cintura serão muito mais difíceis.
 
Uma coisa é certa os cães ladram enquanto a caravana passa…
Outros, como Assis, uivam.

sábado, janeiro 21, 2017

António Costa e a imparcialidade do Expresso

A diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, felicitou o PM António Costa, pelo trabalho e resultados obtidos pelo Governo português, como já é do domínio público.

Elogiou “um resultado surpreendente para aquilo que eram as previsões iniciais do FMI” e o trabalho do Governo “não só para a consolidação orçamental, mas também para a criação de emprego, para o crescimento económico e para a estabilização do sistema financeiro”.

O Expresso, num gesto de grande felicidade e rara neutralidade titulou a notícia:

«António Costa diz que FMI felicitou Governo pelos resultados alcançados»



Trump tomou posse


sexta-feira, janeiro 20, 2017

À margem da tomada de posse de Donald Trump…

A tomada de posse de Donald Trump para além dos sustos e incertezas inerentes à ascensão de uma via populista marca prioritariamente o fim da atual ‘ordem mundial’. Existem descritos vários cenários arquitetados por eminentes pensadores mas a verdade é que ninguém conhece ou é capaz de discernir os caminhos do futuro.

O discurso de Xi Jinping em Davos deverá ser encarado como a primeira abordagem política do futuro. Recheado de insinuações, pleno de ‘supostas’ omissões e repleto de veladas orientações, vale tanto pelo que foi explicitamente dito como pelo que fica subentendido.
É uma realista análise da evolução do mundo pós queda do muro de Berlim que, uma vez assentada a poeira do fim da bipolarização corporizada pela ‘guerra fria’, caminha para uma ‘natural’ globalização, onde a 'pole position' deixou de estar assegurada e nem todos os países marcharão lado a lado. O presidente chinês, em Davos, considerou a globalização como inelutável e o “ resultado ‘natural’ da evolução científica”.

Mas hoje é bastante evidente que a queda do muro não marca exclusivamente a atual inquietação em relação ao futuro, nem carrega todas as consequências presentes. Na verdade, de arrasto, estão a desabar muito mais coisas. O declínio do império americano é uma delas.
Tal como o fim da I Guerra encerrou o ciclo do Império Britânico que durou quase um século (desde as guerras napoleónicas), cem anos depois a América assiste ao estertor da sua vocação imperial, na sequência da desagregação progressiva dos acordos de 1945 (Yalta), que a queda do muro (1989) inexoravelmente revogou, procedendo a uma nova repartição do Mundo, sob o manto de uma diáfana 'globalização', emergente na última conferência de Davos.

É esta conceção (ameaça) subconsciente que está consubstanciada na frase ‘América, novamente grande!’ e em grande medida ‘justifica’ (por desespero de causa) a eleição de Trump.

Finalmente, a Europa colocou-se à margem das decisões do futuro da política mundial. Condicionada por um Pacto de Estabilidade que não a deixa crescer, a braços com a incapacidade de gerir o problema dos refugiados causado pela intervenção ‘ocidental’ no Médio-Oriente, vítima predileta do fundamentalismo religioso, submersa na insegurança causada por uma onda de atos terroristas e a braços com o espectro de desagregação (Brexit), praticamente não se fez ouvir em Davos. Nos tempos mais próximos vai estar envolvida em questões internas e tentada a enveredar (em múltiplos atos eleitorais) pela via do populismo, correndo o risco de tornar-se um apêndice das políticas da nova administração Trump.

É no centro destas convulsões que Trump vai, hoje, encenar em Washington um simulacro de entronização imperial.
Donald, o último?

Passos Coelho e a Assembleia da República

Quem diria que um político medíocre, de débil formação democrática, prestaria ao País e à democracia um tão elevado serviço.

Ao votar contra descida da TSU acaba por reconhecer que as maiorias se formam na AR e que um governo do PSD, com apoio do BE, PCP e PEV, seria tão legítimo como é o atual.

Obrigado, Passos Coelho.

quinta-feira, janeiro 19, 2017

Donald Trump toma posse amanhã.


A liberdade de expressão e a pulsão censória

Que a liberdade de expressão tenha limites, que o apelo ao crime e à violência, a calúnia e a difamação sejam criminalizadas, é hoje consensual em países democráticos, mas considerar como apelo à violência abrenunciar um morto, ou um vivo, sem o mais leve intuito de incentivar agressões, que só o vivo sofreria, é censura.

Recordemos os facínoras que mataram os cartunistas do Charlie Hebdo. Estes tinham o direito e a coragem de publicar o que publicaram. Responsabilizar os jornalistas é punir as vítimas e desculpar os algozes. Só compra e lê o Charlie quem quer.

Há na autocensura ou na limitação tolerada, à margem da lei, a interiorização dos tiques que a ditadura inseriu, à guisa de genes, até em democratas. Que fará nos que desprezam a liberdade e defendem que o respeitinho é muito bonito!?

Pode dizer-se mal de Mário Soares? – Claro que pode. E de Moisés, Cristo, Maomé ou Buda? – Porque não? E de Mandela, Gandhi ou Luther King? – Claro que sim.

Dizer que o Antigo Testamento é um manual terrorista ofende milhões de crentes, mas aceitar a sua xenofobia, o racismo, o esclavagismo, a misoginia, o incesto e outras crueldades, é defender a moral das tribos patriarcais da Idade do Bronze. Os cristãos ou não leram o A. T. ou afirmam que o que lá está escrito não significa o que escrito está.

Há criminosos mortos, que nunca deviam ter nascido: Hitler, Estaline, Franco, Salazar, Pinochet, Mao, Pol Pot, Videla, Somoza, Tiso, Enver Hoxha e outros. Sou insensível às suscetibilidades de descendentes e sequazes órfãos. Ou execramos os pulhas ou alguém fará deles modelos. Só faltava haver punição por desrespeito a tão ruins defuntos!

A moral, contrariamente ao que muitos pensam, não é universal e os deuses enganam-se mais do que os homens. Já se engordaram mulheres, em gaiolas, para consumo humano. Há quem abomine a música, a carne de porco, a nudez, a autodeterminação individual e o livre-pensamento. Há 152 anos, Pio IX publicou a ignóbil encíclica Quanta Cura (8/12/1864), acompanhada do famoso Syllabus errorum, o que não lhe tolheu a carreira da santidade ou impediu os seus sucessores de herdarem a infalibilidade papal e o mito da virgindade de Maria, dois dogmas tão desprezíveis como o seu antissemitismo.

Urbano II, Estaline, Pio IX, Mao, Calvino, talibãs e cruzados não se podem comparar a democratas e humanistas.
E Deus, pode ser ofendido? Bem, se fizer prova da sua existência, o juiz deve relevar a importância do cargo, mas não deverá aceitar a queixa de um clérigo, por não ser parte nem exibir procuração.

E se os que me leem me insultarem? Têm esse direito. O insulto não ofende o alvo, mas quem o profere. E a liberdade de expressão dos homens é superior à alegada vontade de qualquer deus.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Assunção Cristas e a AR


Assunção Cristas acumula a docência universitária e a indecência parlamentar, a raiva da opositora e as maneiras da Praça da Figueira, o interesse pelo direito e a avidez pela liderança da direita.

Ao chamar mentiroso, com esta mesma palavra, na AR, ao primeiro-ministro, acabando por ser desmentida pela UGT, não foi a docente de direito, foi uma indecente da direita, mas é como rata de sacristia que se destaca, na hipocrisia judaico-cristã e na desfaçatez com que humilha o líder do PSD, enquanto Nuno Melo, ainda pior, a não humilhar a ela.

Nas eleições para a câmara de Lisboa deixou Passos Coelho hesitante entre a rendição e o salto no abismo, mas foi na TSU que cristãmente (Cristas mente), em um dos números de mais refinada hipocrisia, proclamou à comunicação social a abstenção do CDS, para “proteger acordo de concertação social”.

E não se riu. É preciso topete!

António Barreto e as magistraturas

António Barreto (AB), o sociólogo, é um dos mais influentes intelectuais da direita portuguesa, apesar da ingratidão desta. Limita-se naturalmente a exercer o inalienável direito de cidadania a que todos temos direito, mas sem merecer os encómios que lhe prodigalizam.

A violência com que ataca a esquerda, sem cair na boçalidade da direita que ora dirige o PSD e o CDS, faz dele uma referência política credível, ampliada pela alegada isenção partidária, uma confusão entre a ausência de inscrição partidária e o ressentimento político.

AB foi militante do PCP, de onde saiu pela esquerda, por considerá-lo pouco revolucionário, e fazer, depois do 25 de Abril, a viagem pelo bloco central, como deputado e ministro do PS, até se passar definitivamente para a direita, desiludido com um partido que julgava poder liderar.

Em 1979, AB juntou-se ao [PPD/PSD + CDS + PPM] no Movimento dos Reformadores, com José Medeiros Ferreira e Francisco Sousa Tavares, tendo a glória de ter participado na AD (Aliança Democrática), na primeira vitória da direita depois do 25 de Abril.

Está, pois, justificada a acidez do trânsfuga contra a esquerda, onde via amanhãs que cantam, para acabar clamando ao serviço de quem chora o ontem, incluindo um merceeiro holandês.

Nos domingos debita uma homilia escrita na página 2, do DN. Só o hábito de ler o jornal diário, hábito adquirido aos dez anos, com o meu pai, me impele a comprar o exemplar de domingo e a acabar por ler AB, para saber o que pensa a direita culta e civilizada, embora nem sempre a verdade acompanhe a qualidade do fotógrafo e do prosador.

No domingo, depois de divagações várias, escreveu: «Já o PCP tem indiscutível influência nos sindicatos e nas instituições públicas como os serviços de saúde e de educação, os funcionários, as magistraturas ou as polícias.» (sic).

Não me surpreende a acusação gratuita, só estranho o silêncio do sindicato dos magistrados do Ministério Público e, sobretudo, do dos juízes, sob o pseudónimo de Associação Sindical.

Já alguém pensou no alarido que teriam feito se a acusação de sinal contrário fosse feita por uma personalidade de esquerda?

Declaração de interesse: tenho discordado repetidamente da existência de sindicatos de magistrados, especialmente de juízes, por pertencerem a um órgão da soberania.

terça-feira, janeiro 17, 2017

A "DIREITA JAQUINZINHO"

Noticiaram ontem vários jornais que oito "tubarões" acumulam uma riqueza igual à de metade da Humanidade. Pois ainda há membros desta metade que os defendem! Na esteira do Dr. Cavaco, dizem que esses vampiros, cuja existência só é possível graças a um sistema social e económico fundado na injustiça e na desigualdade, são "empresários de sucesso"!

    Alguns desses indivíduos, ganhando 600 euros por mês mas vivendo num bairro em que a maioria das pessoas está desempregada ou ganha o salário mínimo, julgam-se ricos, pensam que fazem parte do "clube" dos tais vampiros e votam como eles!

    Outros, vivendo numa aldeola onde a maior parte dos habitantes estão no limiar da miséria, porque têm um bocadito de terra de onde tiram umas batatitas e umas cebolas, julgam que fazem parte da mesma classe a que pertencem os latifundiários alentejanos, e votam no CDS!


Outros ainda, pequenos e médios intelectuais que vivem das migalhas que caem da mesa dos ricos ou dos ossos que estes lhes atiram, inventam teorias falaciosas para justificar a opulência dos ricaços que parasitam.


E acusam os que, apesar de não viverem na miséria, são contra a injustiça e a desigualdade, de serem a "esquerda caviar"!


Eles é que são a "direita jaquinzinho"!

segunda-feira, janeiro 16, 2017

A direita e os militares da ONU

O PSD e o CDS apoiam a ida da força militar portuguesa, sob bandeira da ONU, na sua missão de um ano, para a República Centro-Africana (RCA), ‘mas´ dizem que os riscos são maiores do que os admitidos pelo Governo.

Nesta preocupação pelos militares, em missão de paz, há a profunda hipocrisia de quem espera dizer «eu bem avisei», tiveram bom mestre, para colherem os frutos eleitorais da comoção que a morte eventual de compatriotas sempre acarreta.

Os que hoje se preocupam com os perigos dos soldados da paz, são filhos dos que não se afligiram com os mortos e estropiados da guerra colonial, e são ainda os mesmos que apoiaram a agressão ao Iraque onde não foram militares, por se ter oposto o PR, Jorge Sampaio, Comandante Supremo das F.A., mas quiseram participar em um crime contra a Humanidade enviando a GNR.

Na agressão não tiveram preocupações, com os soldados da paz, encontram um ‘mas’.

domingo, janeiro 15, 2017

Nas vésperas da tomada de posse de Donald Trump…

Nas vésperas da tomada de posse do presidente eleito norte-americano Donald Trump o Mundo conhece dias de agitação, confusão e intensa perigosidade.
Desde o aviso da China sobre a conceção da “China única”, às relações entre os EUA e a Rússia passando pela transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém para acabar no acordo UE/Turquia tudo estremece.

As declarações de Pequim (advertências) sobre as intenções reveladas pela nova administração americana são extremamente duras, claras e incisivas. O princípio da ‘China única’ não é um assunto que Pequim aceite como negociável e as sinuosas e levianas posturas de Trump em relação a Taiwan, constituem um tremendo risco politico e militar.

O relacionamento entre os EUA (entenda-se o ‘Ocidente’) e a Rússia foi abordado de forma obscura e enigmática por Trump na sua primeira conferência de imprensa pós-eleição. O problema ucraniano – em que a Europa sob o servilismo de Barroso serviu de ‘ponta de lança’ da NATO – estará em vias de fazer parte de qualquer negócio. Apesar dos desmentidos do futuro Secretário de Estado dos EUA, perante o Congresso, algo deverá estar em marcha. Resta, depois, apurar a quem serviram as ‘sanções’ que se estabeleceram, já que ninguém acredita em medidas com efeitos económicos ‘neutros’.

A ‘questão Palestina’, sob uma enorme tensão desde a aprovação de uma resolução pelo CS da ONU exigindo o fim da implantação de colonatos conhece uma nova escalada. A anunciada transferência da embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém deverá originar uma nova escalada de violência na região.
Nesta mesma região, a ‘situação síria’ conhece um período de alguma acalmia mas grande parte desse ilusório ‘sossego’ passa pelo afastamento dos EUA do centro do conflito e de acordos marginais estabelecidos entre a Rússia e a Turquia. 

A acordo UE/Turquia quanto aos refugiados, bem como as recentes manobras da NATO na Polónia, serão por assim dizer os problemas mais próximos para os portugueses (enquanto europeus).

O problema dos refugiados cavou profundas fissuras nos membros da UE e a solução de colocar (a troco de milhões de euros e promessas de adesão) o Governo de Erdogan a servir de ‘tampão’ não se revelou eficaz. Tornou-se num objeto de permanente chantagem de Ankara sobre Bruxelas (e Berlim) e falta conhecer quais serão as decisões dos Tribunais Europeus sobre os recursos em apreciação.

Finalmente, o reforço da presença da NATO na Polónia, isto é, às portas da fronteira geográfica entre a Rússia e a UE, dificilmente escapará ao estatuto de uma dupla provocação. Primeiro, às linhas vermelhas de segurança defendidas por Moscovo, depois, não deixa de ser um último gesto da administração Obama para ‘envenenar’ as futuras relações Washington-Moscovo.

Na realidade, o acender de fogos por todo o lado leva-me a especular se o processo de nomeação de António Guterres para Secretário-Geral da ONU não foi um ‘presente envenenado’. Pouco mais de uma dezena de anos depois de se afastar do pântano está ameaçado atolar-se num insondável e profundo lamaçal.

O arcebispo de Barcelona e o aborto

O bispo de Barcelona, Joan Josep Omella, condenou o aborto “incluindo o que resulta de uma violação”, e comparou-o ao genocídio.

É desta têmpera que se fazem os talibãs, desta mentalidade que resultaram as fogueiras do Santo Ofício, deste clericalismo troglodita que nasce o anticlericalismo e o desprezo pelo magistério religioso.

O arcebispo de Barcelona cultiva o pensamento pio de que a violência sobre a mulher, a violação incluída, é uma ninharia comparada com a interrupção da gravidez por risco de vida da mãe, malformação do feto, violação ou qualquer outra razão legal. Há de julgar, na sua obtusa formação, que a masturbação é um genocídio e que a sexualidade só é legítima para a prossecução da espécie.

Há dignitários católicos fossilizados, incapazes de compreender os dramas humanos e de perceberem que um feto anencéfalo é incompatível com a vida e não pode, sequer, chegar a bispo.

A misoginia do pétreo celibatário impede-o de compreender a violência, humilhação e sofrimento da mulher vítima de violação.

Se a gravidez fosse masculina, o aborto, em vez de pecado, seria um sacramento.

sábado, janeiro 14, 2017

Mário Soares, o CDS e a descolonização

Ninguém é obrigado a gostar de um morto, por muito excecional que tenha sido, nem a alterar os sentimentos que por ele nutria em vida. Se não houvesse fascistas, teriam sido dispensáveis os antifascistas e a Revolução de Abril.

O que é intolerável é a ignorância de um deputado em relação à História, numa atitude a recordar calúnias da Pide e dos fascistas, a polícia a publicá-las nos jornais portugueses, e os outros, depois de Abril, nos jornais brasileiros, para as transcreverem ao abrigo da liberdade oferecida.

Nuno Magalhães [CDS] elogiou Soares, mas não esqueceu “processo de descolonização apressado”.

Nesta declaração, tão leviana e ressabiada, fez a síntese entre a síndrome portuguesa de “Pieds-Noirs” e a síndrome de Estocolmo de antigos combatentes, estes a esquecerem os algozes, e a julgarem-se heróis, no sofrimento que lhes foi imposto.

A descolonização portuguesa principiou em Dadrá e Nagar-Aveli (1954), Ajudá, cujo forte ardeu por ordem do ditador Salazar (2/8/61), e Goa, Damão e Diu (dez. 1961). O princípio do fim começou em 15/03/1961 com o selvático ato de terrorismo da UPA (depois designada FNLA), em Angola, onde assassinou barbaramente quase um milhar de colonos brancos e milhares de trabalhadores negros, e na vindicta do exército, onde o sádico alferes Robles foi símbolo do horror. A descolonizou continuou em três frentes, com Wiriamu, em Moçambique (16/12/1972), 7481 mortos, 1852 amputados (soldados portugueses), até à derrota portuguesa que conduziu ao 25 de Abril.

Quem não percebe que Portugal foi derrotado, como todos os países colonialistas, e que a descolonização durou 13 anos, aliás 20, já sem alternativa, não entenderá a eficiência das Forças Armadas Portuguesas a retirarem de três teatros de guerra (96.392 homens sem uma só baixa), caso único no mundo, e, muito menos, o que foi a descolonização.

Não vale a pena explicar a Nuno Magalhães que Mário Soares foi grande pelo que diz o fundador do seu partido, Freitas do Amaral, na carta de homenagem que enviou ao DN, considerando-o “o maior político português do século XX”.

Mário Soares teve um papel modesto na descolonização, quando comparado ao de Melo Antunes e dos altos comissários da Guiné, Angola e Moçambique, ou seja, ao do MFA, sob cuja égide se lavraram as escrituras de independência das colónias.

O deputado do CDS, por ressentimento, seu ou da líder do seu partido, típica Pied-Noir, nunca entenderá o que devemos a Melo Antunes e Aniceto Afonso, evitando o massacre de militares portugueses em Moçambique, por culpa das obscuras manobras de Spínola, nem a grandeza do país que acolheu, como devia, e mereciam centenas de milhares de refugiados.

Nota – O signatário cumpriu quatro anos e quatro dias de SMO, 26 meses dos quais em zona de guerra, em Moçambique.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

As autarquias, as eleições e a lacidade

Compreende-se que, em anos eleitorais, os autarcas preparem a reeleição e a vitória partidária. Apesar do excesso de autarquias, a exigir a eternamente adiada reforma administrativa, não falta dinheiro para passear idosos e oferecer-lhes lembranças, com o pretexto de apoiar os velhos, agora designados seniores.

A desejável disputa partidária não pode confundir-se com o suborno do eleitorado, nem pôr em causa os princípios da laicidade e da ética republicana.

Já começaram as excursões a Fátima, no ano em que se conjugam o centenário das alegadas visões dos pastorinhos, a suposta crença dos idosos e as eleições autárquicas. Os autarcas oferecem a viagem, o seguro e o almocinho, não tanto por acreditarem em milagres, mas porque sabem que quem dá aos velhos recebe em votos.

A comunicação social já transformou as alegadas visões, de há um século, em aparições, sem aspas, o baile do sol em milagre e as visões da D. Lúcia, revistas e aumentadas, em profecias. A vinda do papa, aliás pessoa de bem, é o golpe de marketing combinado.

Num país em que a superstição e o atraso da ditadura ainda se fazem sentir não é crime pactuar com a encenação pia, mas não é bonita ação e, muito menos, que seja praticada com o dinheiro público, à revelia do espírito da Constituição e da decência.

É o contubérnio entre a administração pública e o clero católico que vai esmorecendo a vigilância cívica às novas religiões, que disputam o mercado da fé de forma agressiva, ou a uma antiga que a procura impor à bomba.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

Espanha ainda é franquista?


Uma jovem, que não conheceu o genocida Franco nem o seu primeiro-ministro Carrero Blanco redigiu uma piada no Twitter, com a imagem do atentado que vitimou o fascista. Gracejar com a morte, mesmo de um almirante torcionário, é mau gosto, mas o risco de prisão é censura e intimidação aos familiares das vítimas do franquismo.

Em 20 de dezembro de 1973, o almirante que se preparava para suceder a Franco, de quem era um indefetível admirador e cúmplice, à saía da missa, bem comungado e benzido, entrou no carro oficial. Projetado por uma potente bomba colocada num túnel laboriosamente construído, caiu morto à altura de um 5.º andar no terraço dos jesuítas a cuja capela ia diariamente assistir à missa e comungar.

Foi a resposta possível à ditadura, à pena de morte por garrote e a centenas de milhares de vítimas. A ocorrência popularizou em Espanha e Portugal o slogan “Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco”.

Num país onde não é ainda possível dar enterramento aos milhares de assassinados que jazem em valas comuns, só falta prender uma jovem por questão de gosto.

A Índia, o hinduísmo e a laicidade

Trindade de Brahma, Vishnu e Shiva
criador, preservador e destruidor
As religiões só aceitam a laicidade quando minoritárias. Quando se tornam hegemónicas logo recorrem ao lugar-comum revelador de hipocrisia e desfaçatez: “Não se pode tratar de modo igual o que é diferente”.

Hoje, a separação das Igrejas e do Estado faz parte do ethos civilizacional do Ocidente e é a conquista ameaçada na dramática hipótese da extinção das democracias, receio que se sublinha. A vigilância cívica é uma exigência ética e condição de sobrevivência. Não há democracias perpétuas. Nada é eterno.

Volto à laicidade, a forma que os Estados têm de garantir a neutralidade e de julgarem a demência prosélita de diversas religiões, insânia exacerbada com a globalização. Várias religiões receiam que outra – e única –, se imponha a nível planetário, ou que o ateísmo, o racionalismo, o ceticismo e o agnosticismo as releguem para o baú da mitologia.

Os Estados democráticos, que devem defender igualmente os crentes e não crentes, com a obrigação de serem neutrais e se declararem incompetentes em matérias de fé, têm vindo a afrouxar, por razões eleitorais, a defesa da laicidade, e a cumpliciarem-se com a Igreja dominante, com trágicas consequências para os crentes das religiões minoritárias.

É por isso que a jurisprudência da Índia é uma janela de esperança que se abre no maior país hindu, onde o sistema de castas, a discriminação insana das viúvas, e a violência do nacionalismo hinduísta representam um atentado aos direitos humanos. Em 2 de janeiro, deste ano, o Supremo Tribunal da Índia proibiu “qualquer campanha política baseada na religião, raça, idioma ou casta”. “A religião não pode ter nenhum papel no processo eleitoral porque os comícios são um exercício secular, assinalou o coletivo de juízes na sentença”, aprovada por 4 dos 7 membros.

Esta vitória da laicidade foi o triunfo secular sobre a fé, a supremacia da razão sobre as vacas sagradas e da democracia sobre as crenças. E não se diga que a religião é ferida com a exemplar jurisprudência indiana.

Fonte: LAICISMO.ORG · FUENTE: PRENSA LATINA · 2 ENERO, 2017

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Espanha - País em rápida secularização


Os casamentos católicos atingiram no primeiro semestre de 2016 22%, o seu mínimo histórico.

Em 2000, 75% dos matrimónios eram celebrados pela Igreja católica.”

No entanto, para obterem privilégios fiscais e comparticipações financeiras do Estado, os bispos continuam a apregoar que a Espanha é um país católico.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Exemplo cívico de um funeral civil

Mário Soares, republicano, laico e democrata, vai hoje a enterrar.




Apostila - O Partido Socialista Português (1875 — 1933) foi um partido político português fundado em 10 de Janeiro de 1875, na sequência do Congresso de Haia[1] da Associação Internacional dos Trabalhadores, o qual votara a criação de partidos socialistas nacionais. Da sua primeira comissão directiva fizeram parte José Fontana, Azedo Gneco, José Correia Nobre França e José Tedeschi. (Wikipédia). 

Assinalo a coincidência de datas entre o funeral do maior vulto da II República e do nascimento do I Partido Socialista Português, a 142 anos de distância.

A vergonha do poder autárquico

No âmbito das iniciativas dirigidas à comunidade sénior, a Junta de Freguesia de Avenidas Novas promove mais uma vez um Passeio Social Sénior, desta vez a Fátima, no dia 21 de janeiro.
Todos os interessados deverão inscrever-se nas Delegações da Junta de Freguesia de Avenidas Novas, até dia 16 de janeiro.

O passeio é gratuito e inclui transporte em autocarro, seguro e almoço.

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Reflexão

Interrogo-me sobre o que levará tantos voluntários a morrer e a matar para agradarem a um deus que desconhecem sendo incapazes de um pequeno sacrifício pelas pessoas que sofrem à sua volta.

Parece que o medo do Inferno e a sedução do Paraíso exercem influência maléfica em quem prefere sacrificar-se por uma ilusão a evitar o sofrimento humano.


domingo, janeiro 08, 2017

Colômbia: Discorrendo entre a velhacaria e a ‘libertinagem’ de dançar…

Foto desfocada da 'dança' que 'invadiu' as redes sociais

Ontem, foi noticiado que um militar português, integrado nas forças da ONU, em missão de paz, na Columbia, dançou durante as comemorações do fim-de-ano, com uma guerrilheira das FARC link.
 
Ao que parece a caserna não gostou da convivialidade dançante e vai daí decidiu repatriar o militar. O chefe da missão da ONU em Bogotá, declarou que “este comportamento é inadequado e não reflete os valores de profissionalismo e de imparcialidade das Nações Unidas”.
 
Ora bem, muitos portugueses encaram estas missões de paz como ações de aproximação e convívio com as populações. Nesse caso, bailar, é um dos exemplos físicos de proximidade que é usual praticar-se para distender tensões, como foram, em 1971, os jogos de pingue-pongue, na aproximação dos EUA com a China. Dançar seria, neste contexto gradativo, a antecâmara da confiança da ‘quebra do gelo’ que poderá ensombrar, durante largo tempo, a integração e reconciliação.
 
O contexto em que este facto ocorreu enquadra-se num cerimonial festivo do fim-de-ano, revestido da exuberância natural de uma recôndita aldeia da Columbia, onde pouco ou nada de entretinimento sucede, e os passos de dança ocorreram, segundo se depreende dos relatos mediáticos, a solicitação da população local.
A distinção entre a população local (os habitantes da localidade) e os ex-combatentes (do passado, podemos dizer) é acima de tudo um preconceito por parte daqueles que não aceitam um processo de pacificação da sociedade colombiana depois de mais de 50 anos de luta.
De facto, na Colômbia existem resistências internas ao processo de pacificação em curso. Uribe e a sua clique conservadora não se cansa de tentar criar incidentes e alimentar desconfiança.
 
A mulher em questão que lhe apeteceu dançar está legalmente integrada e é, em primeiro lugar, vitima de uma discriminação artificial e abusiva. Hoje (e daqui para a frente) todos são colombianos. Embora os Parlamento colombiano tenha decretado a 30.11.2016 um vasto acordo de Paz link, foram estabelecidos passos efetivos que compreendem um processo de integração, com ‘zonas de transição’ para entrega das armas, como prevê o acordo. Duas palavras definem o medo que se apossou dos eleitores no referendo: Terra e Narcotráfico.
Todavia, a solução de este histórico diferendo é iminentemente política e social e não está ao alcance das forças de Paz da ONU.
 
Esta não é a primeira trégua estabelecida entre as FARC e o Governo da Colômbia. Em 1984 foi estabelecido um acordo de Paz com o então presidente Belisario Bitancourt. As FARC transformaram-se no partido União Patriótica (UP) e concorreram às eleições legislativas. Elegeram 14 deputados e resolvem apresentar um candidato presidencial (Jaime Pardo). Este é assassinado pela extrema-direita e, de seguida, começou a extermínio dos dirigentes da UP. Foi um verdadeiro massacre a somar a tantos outros (oriundos todos os lados e facões da luta armada) que perturbaram (traumatizaram) a sociedade colombiana.
 
O militar português nas festividades de Ano Novo não dançou com uma Kalashnikov, nem rodopiou abraçado a uma bazuca.
Para sermos concisos e rigorosos seria melhor dizer que um militar português, durante as festividades do Ano Novo, aceitou dançar com uma colombiana. Que, segundo tudo indica, terá passado grande parte da vida privada do ocioso divertimento de ‘bailar’.
 
O excesso de zelo do comando das forças de Paz da ONU na Colômbia, em manifesto contraste com outros procedimentos protagonizados por missões onde violações ficaram encobertas ou relativamente impunes por detrás de inacabados inquéritos (Gabão e Burundi, por exemplo) mostram que estaremos muito perto de um púdica velhacaria. O chefe da missão da ONU, Jean Arnault, é um homem experiente em missões internacionais, tendo inclusive sido chefe da delegação do ONU no Burundi (2000-2001).
O que espanta é sendo J. Arnault um filósofo de formação (e não propriamente um produto da caserna) tenha a cabeça povoada de tantos pudores e muitos fantasmas.
 
O militar português foi o dançarino visível e animado mas falta identificar o velhaco que na sombra lhe vigiava os passos e quis entender que o luso bailarino tinha perdido a verticalidade.
Para ilustrar a minha indignação transcrevo uma excelente poesia sobre ‘O Baile’ da autoria de Natércia Freire, poetisa que, depois do 25 de abril, foi ostracizada e que David Mourão Ferreira revelou aos portugueses.

O Baile

Névoa em surdina
A sombra que acompanha
As finas pernas a dançar na tarde.
Jogo de jovens corpos.
Música de montanha,
Num tempo teu e meu
De eternidade.
E eu, as duas estranhas.
….

sábado, janeiro 07, 2017

Mário Soares – vida cumprida

As circunstâncias fazem mais pelos homens do que estes fazem por elas, mas são os homens (homens e mulheres) de exceção que moldam o futuro e marcam a História.

Há 43 anos eram de exceção os Capitães de Abril, e de exceção foram quatro líderes civis que emergiram da Revolução que os militares fizeram. E moldaram o regime.

Raramente um único país consegue ter, em simultâneo, homens da dimensão de Álvaro Cunhal, Mário Soares, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, na diversidade das suas opções políticas, dos interesses de classe que representaram e dos projetos que serviram. Todos são dignos de admiração, para lá do julgamento pessoal das opções políticas de cada um.

Com a morte de Mário Soares, só resta Freitas do Amaral, homem sábio que os ignaros acusam de inconstante, quando foi a sua coerência a afastar dele o partido que fundou.

As circunstâncias e o homem fizeram de Soares o principal obreiro civil da democracia. Foi o mais pragmático na interpretação da vontade dos portugueses quanto ao modelo de regime que quiseram e, nisso, pôs a sua determinação, coragem física e intelectual, numa entrega que prolongou até ao fim, tal como o havia feito na resistência à ditadura.

Recorde-se que foi preso 13 vezes pela PIDE, deportado para São Tomé, por ordem de Salazar e, depois, exilado por ordem de Marcelo Caetano.

O desaparecimento de Mário Soares deixa o sabor amargo de um antifascista que parte, do lutador que nunca desistiu, de um vulto de rara dimensão cultural, cívica e política.

Deixa, como legado, o exemplo de cidadania e a grandeza de preferir a derrota à fuga ao combate, certo de que os vencedores e os vencidos têm em comum a coragem de lutar.

Tombou um gigante e o patriota de quem tantas vezes discordei, quase sempre do lado errado.

Obrigado, Mário Soares.

Requiescat in pace.

Apostila - Este texto, publicado na minha página do Faceboock mereceu a atenção da comunicação social.

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Cavaco Silva e o livro de memórias

O DN de hoje avisa que Cavaco Silva, que o país julgava em defunção, vai publicar, em fevereiro, um livro de memórias, definido pelo jornal como uma “espécie de regresso à vida política”.

Sendo assim, sem antecipar o período a que as memórias se referem, não se trata de um evento literário anunciado, mas de uma ameaça concretizada através da Porto Editora.

Certamente que não vai desvendar o pensamento político anterior ao 25 de Abril nem as circunstâncias em que preencheu uma ficha na Pide, com erros de ortografia e a suspeita alusão à madrasta da amantíssima esposa.

Também não é de crer que as memórias superem a piedosa autobiografia ou a tentativa de branqueamento dos numerosos atos que o tornaram o único PR que, depois do 25 de Abril, deixou funções sem deixar saudades.

O prejuízo causado ao país na dilatação do prazo de validade do governo do PSD/CDS e a obstinação em reconduzi-lo à margem da vontade da AR, único local onde o Governo se legitima, não vai certamente ser objeto de arrependimento.

A insistência na rejeição da obrigação constitucional de dar posse ao atual governo, as advertências para acirrar os mercados contra ele e as ameaças explícitas ao apoio do BE, PCP e PEV ao governo do PS, não lhe merecerão um ato de contrição. Acabou a dar-lhe posse com azedume, esquecido de que presidira um dia a uma cerimónia de posse para o governo inexistente, de que o CDS se demitira.

Pode ser que, após exame de consciência, receoso do Inferno, faça uma confissão bem-feita sobre a compra e venda das ações da SLN e a aquisição da vivenda Gaivota Azul ou de como um alferes, ainda sem licenciatura, conseguiu ser colocado nos serviços de administração militar no quartel-general, na capital da colónia.

Vamos aguardar pelo papel impresso onde pode repetir ‘não fiz, não faço nem façarei’ o que quer que seja parecido com literatura. Nunca será um livro, apenas um rol de contabilista.