sexta-feira, março 24, 2017

As religiões e o terrorismo

“Ó Profeta! Combate os descrentes e os hipócritas! Sê implacável com eles. E a sua morada é o Inferno – e que péssimo destino!” (Alcorão 9:73)

Há entre as crenças, religiosas, políticas e outras, uma ligação direta com a ação, e não se percebe a complacência de que gozam as crenças religiosas relativamente às outras. Não vejo que o nazismo, por exemplo, goze de igual benevolência.

Não é perigoso que se acredite que “Maomé ascendeu ao Céu num cavalo alado” ou que Cristo se tivesse adiantado, de forma incógnita, para o local geograficamente indefinido, mas foi catastrófico para os índios da América que os cristãos se sentissem obrigados a evangelizá-los, como é hoje, para europeus, a exigência islâmica da conversão universal ao profeta amoral e analfabeto com que os intoxicaram.

Ontem, no primeiro aniversário dos atentados que levaram o terror a Bruxelas, mais um atentado em Londres se juntou aos de 7 de julho de 2004, nos transportes, 30 de junho de 2007, com um jipe carregado de bilhas de gás em Glasgow (Escócia) e ao assassinato de um soldado por dois terroristas islâmicos, em 22 de maio de 2013.

Hoje, um homem foi detido na Bélgica ao tentar atropelar a multidão que percorria uma rua de lojas e empresas frequentada por milhares de pessoas em Antuérpia.

Paris parece hoje uma cidade em estado de sítio como, aliás, outras cidades europeias, e nos aeroportos sentimo-nos suspeitos ao sermos devassados, por precaução, depondo a liberdade no altar do medo.

Não podemos ser metódica e regularmente submetidos ao terror, vítimas da insegurança continuada e progressiva.

Os camicases japoneses acabaram depois de secarem as fontes de financiamento e de o deus por quem morriam (imperador) ter sido obrigado a negar a divindade própria, pelo general MacArthur. Mas era, e é, um deus real, talvez algo surreal.

É difícil obrigar um deus, de paradeiro ignorado, a negar-se, mas é urgente combater os seus desejos perversos e, sobretudo, secar as fontes de financiamento dos seus sequazes e reprimir os seus pregadores.

Bastava a crença no versículo supracitado para levar os crentes aos maiores desatinos. E permite-se aos pregadores continuarem a recitar centenas de versículos de igual jaez!

Até quando?

quinta-feira, março 23, 2017

Afinal, há milagres!

Francisco e Jacinta não aprenderam a ler em vida, mas aprenderam a obrar milagres em defunção.

Já é o segundo milagre que obram em “joint venture”, situação rara, que os vai conduzir à santidade, em apoteose pia, no próximo dia 13 de maio, no 1.º centenário da estreia do mariódromo, no cocuruto de uma azinheira.

Jeroen Di[j]sse…

As declarações do inefável ministro das Finanças holandês e ainda presidente do Eurogrupo, o Sr. Jeroen Dijsselbloem, geraram múltiplas reações de repúdio.
Todavia, elas ultrapassam o ‘incómodo imediato’ e vão pôr à prova a solidariedade europeia, num momento em que a crise internacional tem amplos reflexos internos (na UE).
 
Na verdade, as descabeladas declarações de Dijsselbloem são uma edição tardia, requentada, deslocada e anedótica da ‘narrativa oficial’ de alguns centros de decisão europeus sobre uma eventual vivência de alguns países ‘acima das suas possibilidades’, teoria elaborada pelos laboratórios ideológicos neoliberais, para justificar ‘experimentalismos’ e impiedosos ‘ajustamentos’ que se abateram sobre milhões de cidadãos europeus.
Julgávamos que essa ‘narrativa’ tinha sido definitivamente enterrada pelos factos e pelas evidências que foram surgindo ao longo da crise. Atribuir as causas da crise aos povos e/ou a circunstâncias de governação nacionais é ‘tomar a árvore pela floresta’ ou, se quisermos ser mais clássicos, a ‘nuvem por Juno’.
Na realidade, a crise começa nos mercados financeiros e desenvolve-se no sector financeiro à sombra de desenfreadas especulações e de um vasto conjunto de impunidades, imparidades e inconformidades (ditados pela ausência de regulação).
A tirada ‘xenófoba e sexista’ do ministro holandês é muito do estilo da boçalidade portuguesa para caracterizar individualmente vidas (nunca grupos ou países) mais boémias, devassas e libertinas oralmente traduzidas pelo popular e boçal jargão: “putas & vinho verde”. Bem sei que não foi exatamente isto que disse mas andou lá perto (salvo a devida distância que vai entre mulheres e a prostituição).
 
As declarações do Dijsselbloem ao jornal alemão Frankfurter Allgemein Zeitung são politicamente um haraquíri.
Não há outra leitura, excepto, para o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schauble link.
 
A sua inevitável demissão levanta uma outra questão (prévia): como foi possível uma mente mesquinha, intelectualmente tão débil e politicamente desastrada manter-se tanto tempo na presidência do Eurogrupo.
O que há de errado nas instituições europeias que permitem alarvidades desta natureza?
 
Quando a poeira assentar, isto é, quando o Eurogrupo voltar a reunir, os europeus – todos e não somente os dos países do Sul – tirarão naturalmente as suas conclusões. Se Dijsselbloem permanecer no cargo, à custa do suporte de Berlim, espero que os neoliberais radicais não venham com a velha história dos preconceitos anti-germânicos. Mas, uma coisa é certa, a sua 'não-demissão' empestará, irremediavelmente, o ambiente europeu.
 
Para já parece necessária e imperiosa uma tomada de posição de força. Os países do Sul, vilipendiados pelo assumido capataz de Schauble, deveriam condicionar a sua presença na Reunião de Roma, que decorrerá no próximo dia 25 para a comemoração dos 60 anos dos Tratados Europeus, à prévia demissão de Dijsselbloem das funções que exerce nas Instituições europeias.
O ‘espírito de Roma’ assim o impõe.

De Cavaco e Barroso a Donald Trump

A mentira tem a perna curta, mas os mentirosos têm muitas pernas. Parecem centopeias.

O FBI investiga suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, o que, a ser verdade, é um grave risco para a segurança dos EUA, mas Trump, talvez para desviar atenções, acusou Obama de o espiar durante a campanha eleitoral, recorrendo à mentira como tática e à calúnia como estratégia.

É irrelevante que o Departamento de Justiça e o FBI não tenham quaisquer indícios de que Trump tenha sido escutado e espiado a mando do ex-Presidente Barack Obama, o que interessa é o ruído necessário e suficiente para desviar as atenções.

A pós-verdade prenuncia a pós-liberdade, a tragédia que parece corroer as mais sólidas democracias mundiais. O perigo não é a mentira, é a indiferença dos cidadãos à mentira mais torpe e à mais aleivosa das acusações. A anestesia cívica produz gera impunidade e insensibilidade ao embuste.

Trump não é pioneiro, Hitler usou a estratégia com êxito. Aliás, a mentira ganha sempre as primeiras batalhas, apesar da tendência para acabar derrotada.

O PR americano faz a síntese de dois políticos portugueses, agora ávidos de recuperar a confiança dos portugueses, Cavaco Silva e Durão Barroso.

Cavaco, que exige que se nasça duas vezes para ser mais sério do que ele, foi percursor das escutas falsas para prejudicar um partido de que não gosta. Atribuiu à máquina do PS a paternidade da mentira cujo mérito enjeitou.
Barroso, entusiasta da cimeira que definiu aos portugueses como a última oportunidade para a paz, sabia decidida a guerra e falso o pretexto, mas, anos mais tarde, insinuou que o PR, Jorge Sampaio, apoiou a invasão, para depois esclarecer que só concordou com a reunião (a política externa é da exclusiva competência do Governo) e acabar a garantir que foi a primeira pessoa a quem informou da criminosa reunião.

Ainda ressoam os insultos a Sampaio, que ninguém lhe ligava e que a invasão do Iraque era a porta aberta à prosperidade de Portugal na viagem conjunta com os EUA, o Reino Unido e a Espanha, quer ele quisesse ou não. Não pôde empenhar as Forças Armadas do ministro Portas, mandou a GNR, do M.A.I.

Cavaco e Barroso são versões paroquiais, percursores de Trump à escala global.

Ponte Europa /Sorumbático

quarta-feira, março 22, 2017

A frase

“Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda.”

(Jeroen Dijsselbloem, presidente do Conselho Europeu, ministro das Finanças do maior offshore da União Europeia (Holanda), paquete do Sr. Wolfgang Schäuble, numa alusão aos países do sul da Europa).

Nota: Até na tradução de ‘vinho verde’ por ‘aguardente’ adulterou uma frase boçal portuguesa.

Nós e o ex-jovem turco António Barreto

Não tenho por António Barreto, o sociólogo a quem Mário Soares entregou o ministério da Agricultura e fez dele, por más razões, figura mediática, qualquer ódio de estimação, mas não desprezo o missionário da direita civilizada com aura de independente.

É a faceta civilizada e a bem cuidada aparência de equidistância que mais me enfastiam no seu ódio de estimação à esquerda, a qualquer esquerda à esquerda da pior direita, no jeito de quem transitou pela esquerda, saindo do PCP pela esquerda, e apanhou a boleia do PS a caminho da direita pura, dura, sem concessões, em solavancos renovadores.

António Barreto (AB), falhada a carreira política de quem se julgava ungido para líder e ideólogo, dedicou-se à análise política nos órgãos de comunicação social, com especial relevo e proveito na televisão.
No DN tem uma coluna semanal onde faz política e publica fotografias, onde se revela bom fotógrafo, sofrível analista e obsessivo adversário da esquerda. «Sem Emenda» é o nome da coluna que, na última semana, intitulou «Nós e os Turcos».

AB não aceitou que dois ministros turcos fossem impedidos de entrar na Alemanha e na Holanda a apelar ao voto dos emigrantes no referendo que confere a Erdogan poderes totalitários, e explica a ‘estranha’ falta de protestos europeus, de esquerda ou de direita:

(…) «A complexidade do problema explica o silêncio. A esquerda calou-se, envergonhada, porque simpatiza com os muçulmanos e com os imigrantes, porque lhe custa defender a ideia de que os estrangeiros “de direita” possam fazer reuniões políticas no estrangeiro, porque não gosta de Erdogan e (…)».

Onde descobriria o ex-comunista a simpatia da esquerda por muçulmanos xenófobos, misóginos e comunitaristas? Afastou-se tanto da esquerda que confunde a solidariedade com os refugiados e a cumplicidade com o fascismo islâmico.

Há entre nós e o ex-jovem turco um abismo que nos separa, mas não devemos deixar à solta, impune, no espaço mediático, o trânsfuga AB.

terça-feira, março 21, 2017

A Europa e os “se’s” da candidatura Schulz…

A crise da União Monetária tem ingredientes capazes de reativar a esquerda europeia. Na fase aguda da crise muitos partidos sociais-democratas entraram em ‘pasokitização’, por uma razão muito simples: apoiaram direta ou indiretamente a austeridade e tudo aquilo que lhe está inerente e a envolve.

A ‘tentação pelo abismo’ (capitalista) existiu e conduziu a social-democracia para o desastre. Em muitos países surgiram ‘Esquerdas’ alternativas, multifacetadas, muito indignadas que percorrem um amplo leque de opções: desde os populismos esquerdistas (contestatários) até à reedição das velhas conceções trotskistas. Do outro lado, isto é, na Direita, o terreno tornou-se fértil para o crescimento de movimentos populistas e nacionalistas.
Este, na sua essência, o figurino europeu que vai dominar a Europa este ano.

Para trás ficaram já 2 momentos essenciais. O 'Brexit' e as eleições Holandesas. Pela frente a proximidade do ato eleitoral presidencial em França e, finalmente, as eleições alemãs. Na realidade, a Europa está pendurada nos resultados das eleições germânicas que ocorrerão lá para o Outono. Estas não oferecem tantos riscos democráticos como as francesas mas têm um elevado significado. Não está em causa a possibilidade da extrema-direita alemã influenciar o novo governo mas sim o resultado de uma cíclica disputa entre o SPD e a CDU (Merkel e Schulz).
Não é muito auspicioso este embate porque não aporta nada de novo quer em estratégia, quer em doutrina.

Todavia, o ‘ano eleitoral europeu’ que está a decorrer poderá ser a última oportunidade para analisar (sem dogmas neoliberais) e tentar reverter (sem descontrolos orçamentais) os efeitos das medidas de austeridade impostas pelos conservadores a toda a Europa que 'destroçou', de alto a baixo, o 'projeto europeu'.

Não é nítido (nem adquirido) que a candidatura de Martin Schulz a chanceler venha a condicionar uma mudança da social-democracia alemã que (ainda) vive à sombra da ‘viragem liberalizante’ de Gerhard Schrōder, desencadeada no final do século XX e início do XXI, com a célebre “Agenda 2010”. O SPD saiu dessa ‘agenda’ ensanduichado entre o Die Linke e os Verdes e, em consequência, perdeu quase toda a força e influência política.
Até ao Outono Martin Schulz terá oportunidade de ponderar as causas (remotas) do ‘tombo’ da social-democracia alemã, do pós-Schrōder, e mais tem condições objetivas para recolocar o SPD no seu lugar histórico. Se o conseguir fazer, ultrapassando as barreiras internas presentes e se, apesar disso, lograr uma vitória, será uma grande momento para a Esquerda Europeia.

Reconheçamos, contudo, que pelo meio deste atribulado processo existem muitos… ‘se(s)’.

Ponte Europa (2.ª Edição) - Apresentação na Guarda

Amável deferência de Joaquim Igreja sobre o lançamento da 2.ª Edição do livro «Ponte Europa» na Guarda.

Carlos Barroco Esperança, ex-aluno do Liceu Nac. da Guarda, autor de PEDRAS SOLTAS, acaba de lançar a 2ª edição de PO...
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segunda-feira, março 20, 2017

PàF – Réquiem de um pesadelo

As declarações de Assunção Cristas na entrevista ao Público não podem ser vistas como falta de experiência de uma ministra que caiu no ministério da Agricultura como Pilatos no Credo Romano.

Quem participa em reuniões virtuais do Conselho de Ministros e subscreve uma decisão política por email não ganha credibilidade política, sobretudo com a anuência implorada pela colega das Finanças, sem ponderação, numa matéria tão relevante como a decisão sobre o futuro do grupo GES/BES, e sem consciência de que as decisões coletivas do Conselho de Ministros comprometem individualmente todos os seus membros.

Assunção Cristas disse que “O Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca”, atribuindo a responsabilidade do colapso do BES a Passos Coelho, e, de uma só vez, mostrou a leviandade de todos os ministros do PSD e do CDS. Com a entrevista, ficámos a conhecer melhor a qualidade dos agentes políticos que durante mais de quatro anos procuraram desmantelar o Estado social movidos por radicalismo ideológico.

A líder do CDS, ao denunciar publicamente o que se passava no Executivo, colocou-se à altura de Cavaco Silva, quando revelou as reuniões institucionais, sigilosas, entre o PR e o PM. A decadência ética da atual direita não é presunção, é uma evidência.

Há várias conclusões a tirar da entrevista de Assunção Cristas, mas a mais importante é a da decomposição da coligação com que Cavaco queria continuar a fustigar o País que o elegeu.  Os líderes provisórios do PSD e do CDS não requereram o divórcio litigioso, mas anunciaram já a separação de pessoas, apesar da comunhão de interesses.

Finalmente, estão a servir o País.

sábado, março 18, 2017

Crónica de Fim de Semana

A Escola do Magistério Primário da Guarda (EMPG) e o corpo docente

Quando em 1959 entrei naquele estabelecimento de ensino médio, logo consagrado com o epíteto de aluno-mestre, dei-me conta do regime concentracionário daquele antro onde a moral e os bons costumes eram defendidos da forma que seria designada por bullying, décadas depois. Em breve, o liceu pareceria um espaço de liberdade.

A docência e a decência eram ali inconciliáveis. O edifício ficava em frente da antiga prisão, poucos anos antes mudada para um imóvel na periferia da cidade. Eu recordava ainda os sacos de pano suspensos de um cordel, que ondulavam sobre o passeio, onde alguns transeuntes introduziam cigarros ou moedas que os presos recolhiam na cela.

Não sei se houve algum mimetismo a contaminar a EMPG e o seu diretor. Notavam-se algumas diferenças, desde o formato das grades ao aspeto dos carcereiros, talvez por mero acaso, mas respirava-se o medo e sentíamo-nos igualmente espiados.

Na indigência do corpo docente havia exceções. O professor de Higiene era um médico de rara delicadeza e simpatia, excelente comunicador e culto. A deficiência física, com anomalias graves do esqueleto que o obrigavam a conduzir um carro adaptado, não lhe contaminou o cérebro. Parecia deslocado, tal como a idónea professora de Desenho, calma e humana, ostracizada pelos colegas. Só mais tarde soube que a D. Fernanda era divorciada, nódoa indelével na EMPG, que fazia a síntese entre o cárcere e a sacristia.

Armando Saraiva de Melo era bom docente de Psicologia infantil, comparável aos já referidos, mas medíocre diretor e execrável cidadão, reacionário e déspota. Presidente da União Nacional no distrito da Guarda, imprimia um cunho ideológico à instituição e tornou-a um veículo de propaganda do regime.

Os outros professores, recrutados por convite, caíram no corpo docente como Pilatos no credo romano. Não eram recomendáveis. A Pedagogia fora entregue ao prof. Lourenço, um bom homem, temente a Deus e ao diretor, afeito à submissão do seminário e incapaz de ir além do compêndio. O ensino primário perdeu o bom professor e a EMPG ganhou um medíocre. Em Didática e Legislação Escolar o professor Vasco debitava os livros oficiais, desenvolto da parte da manhã, e titubeante depois do almoço. O de Educação Física, Crespo de Carvalho, usava as aulas para propaganda monárquica e salazarista e, se acaso sabia preparar professores para a educação física das crianças, não o chegámos a saber.

O padre Melo, que depois do 25 de Abril deixaria o múnus, lecionava a disciplina de Música e divertia-se a gozar os desafinados. O padre Queijo Cabral era o professor de Religião católica, disciplina obrigatória no currículo académico e na prática individual, cuja prova escrita tinha como pergunta sacramental: «as provas da existência de Deus», onde levei longe a dissimulação e o brilhantismo referindo-lhe as provas de Tomás de Aquino, um santo doutor da sua Igreja, estudado no 7.ºano do liceu na disciplina de Filosofia, cadeira que preparei, à margem do curso, para o exame liceal. Era obrigatória a cadeira de Religião Católica e não havia aulas de Português.

A missa da consagração do curso era obrigatória. Levei tão longe a dissimulação que, na missa, depois de o Ricardo ter avançado para segunda hóstia, o diretor não o tinha visto na primeira, acabei com o Tamagnini a estender a língua à rodela de pão ázimo que o padre distribuía a todos os finalistas.

A Escola do Magistério não era uma instituição estimável, já o disse e devo repeti-lo. O Diretor era, por inerência, chefe da secretaria e o 3.º oficial, Sr. Preto, de baixa estatura física e ética, era arrogante, grosseiro e vingativo. Julgava-se dono da loja e humilhava os alunos. Levei escondido um rolo de papel higiénico para pegar no diploma de curso que aguardei em longa fila, para lhe dizer que não queria sujar as mãos onde estiveram as dele, deixando-o aos gritos, dentro do balcão, enquanto virei costas ao antro.

Até os contínuos eram do piorio. Um era fortemente suspeito de ser informador da Pide e a D. Sofia a megera que palpava as pernas às alunas para apurar se levavam meias. As de vidro eram transparentes e obedeciam à pudicícia imposta, mas após o conhecimento de que uma aluna escarnecera as normas, imitando a costura, com um risco a lápis nas pernas desnudas, a D. Sofia encarregou-se de apalpar as pernas num espetáculo obsceno de humilhação e impudor, à entrada na Escola.

Foram dois anos penosos que terminaram com a fotografia de curso tirada no seminário, na companhia insólita do bispo, o reacionário Policarpo da Costa Vaz, e com a missa de consagração na igreja da Misericórdia, sempre sob a vigilância policial do diretor Melo.

A Escola era a caricatura do salazarismo. Dela, da indigência pedagógica e da repressão, ficaram os afetos entre colegas, sólidos e imperecíveis, de um tempo e lugar onde os afetos públicos eram vigiados e a aproximação do automóvel do diretor (EA-29-82) causava calafrios.

sexta-feira, março 17, 2017

As eleições holandesas

As eleições holandesas não podem ser reduzidas a exercícios contabilísticos, à contagem de cadeiras no Parlamento, aos avanços e recuos eleitorais e a especulações sobre prováveis coligações governativas. Na realidade, existiu algo para além disso.

O que aconteceu na Holanda foi mais uma oscilação do eleitorado que se revelou extremamente crítico para com o sistema político-partidário vigente e simultaneamente uma profunda fragmentação do eleitorado.
Numa leitura desapaixonada dos resultados dificilmente se conclui que o ‘perigo populista’ foi contido. Na verdade, o partido do fascista e racista Geert Wilders resistiu aos mecanismos de exclusão que se desenharam no leque partidário holandês. À partida os populistas não tinham qualquer hipótese de vir a integrar um futuro governo o que é um handicap eleitoral, nomeadamente para a Direita, que não aprecia os protestos platónicos e muito menos afirmações de princípio ideológicas (que de facto o populismo não alberga).

Numa análise preliminar dos resultados eleitorais holandeses não deve ser excluído o receio de que o partido de Geert Wilders (Partido para a Liberdade – PVV) tenha conseguido caminhar no sentido de uma consolidação do seu eleitorado (subiu 3% em relação às eleições de 2012). Facto que não pode ser considerado como sendo um bom auspício.

Por outro lado, não basta verificar que os partidos tradicionais perderam influência eleitoral havendo inclusive casos de ‘pasokização’ (Partido do Trabalho - PvdA). A grande mudança verificada foi uma profunda fragmentação do espectro político – uma autêntica ‘pulverização’ – (concorreram às eleições 28 partidos) em que à margem de conceitos e construções ideológicos capazes de efeitos agregadores emergiram por todo o lado múltiplas formações de bases locais, sectoriais e até de sectores religiosos (p. exº. União Cristã – CU cujo fundamento ideológico é a Bíblia!).
Foi uma espécie de 'festival de lobbys' que desceu ao terreno para se afirmar e influenciar a política.

O partido vencedor (Partido Popular para a Liberdade e Democracia – VVD), dirigido por Mark Rutte, representa cerca de 1/3 dos eleitores e não tem uma tarefa fácil pela frente. Qualquer coligação que venha a ser formada, dado o espectro partidário existente, será pouco coesa. O VVD é um partido liberal do Centro-Direita e a atual situação pós-eleitoral mostra que poderá ser muito complicado dispensar parte da esquerda (latu sensu), onde se inclui o D66 (radical, progressista e social-liberal), pelo que as negociações, para formar um novo Governo, deverão arrastar-se. Não vai ser fácil arranjar parceiros para prosseguir uma política de austeridade. Todavia, não deve ser esquecido que há 7 anos (2010) Rutte formou um governo que beneficiou do apoio parlamentar de Geert Wilders.

Um dos partidos que mais subiu nestas eleições (6,6%) foi a Esquerda Verde (EV), facto que significa a transferência de votos da social-democracia liberalizante, muito ao estilo Blair, que estava sediada no Partido do Trabalho, para o Centro (VVP) e para a Esquerda (EV).
Todavia, é previsível que dado os seus antecedentes históricos e nomeadamente as suas conceções económicas e de redistribuição da riqueza este agrupamento não venha a integrar uma futura coligação governamental liderada pela Direita.

Finalmente, o mais importante é ter a noção do que está a acontecer em alguns países da Europa: uma penosa e galopante bipolarização. Os populistas (e nacionalistas) contra uma amálgama de ‘outros’ que vão desde os eurocéticos, aos sociais/liberais, aos radicais, aos anticapitalistas passando pelos que pretendem regulamentar da imigração sem a ‘excomungar’, i. e., absorvendo as notórias tensões sociais.

Na realidade, neste momento, na Europa, a ‘iniciativa política’ está do lado dos populistas de Direita estimulados pela eleição de Trump.  As eleições holandesas representam um suspiro de alívio mas não permitem tirar ilações para futuro. A bipolarização vai continuar a pairar sobre os europeus. Enterrar a cabeça na areia e esperar que nada aconteça é a pior atitude que poderemos adotar.

Sócrates e a Justiça

Quando em 1960 fiz exame de «Organização Política e Administrativa da Nação», (7.º ano liceal) aprendi que os juízes eram independentes, irresponsáveis e inamovíveis, atributos que não eram privilégio dos julgadores, mas a garantia da defesa dos cidadãos.

Apesar de a ditadura fascista ter aviltado a Justiça com Tribunais Plenários e de ter visto no juiz Morgado Florindo uma caricatura perversa, não duvidei de que os Tribunais são o último reduto da democracia.

Por estranho que pareça, continuo a pensar assim e, por isso, não me tenho pronunciado sobre o caso mediático do julgamento de um antigo primeiro-ministro.

Não me pronunciei quanto às constantes violações do segredo de justiça, permaneci em silêncio quando o julgamento foi feito na praça pública, respeitei a ética republicana de considerar que o Estado de Direito reside na separação dos poderes.

Com o processo a caminho de 4 anos, depois de sucessivos adiamentos dos prazos para deduzir acusação, o último adiamento deixa-me perplexo. Não me constrange a ideia de que quem é contra o poder arbitrário é cúmplice dos corruptos. Há aqui poder arbitrário.

Há um tempo para deixar à Justiça o que é da Justiça. Chegou o tempo de pedir contas dos abusos quanto aos prazos e do medo que infunde o poder discricionário. Depois do novo adiamento e de se afirmar na comunicação social que a prisão preventiva terá sido ilegal, a decisão dos juízes corre o risco de ser vista como politizada, como se os crimes tivessem partido ou os juízes se subordinassem aos interesses eleitorais.

Li ‘O Processo’ de Franz Kafka e partilhei a angústia do seu personagem Josef K.. Não quero que façam do antigo PM um Josef SóK. português, porque é a Justiça que agora vai ser julgada com a convicção de que os prazos judiciais são meros conselhos.

As prorrogações, tal como as medidas de segurança, podem ser indeterminadas para ele e para qualquer de nós. São uma prorrogativa da PGR.

Basta!

Holanda - O pior não aconteceu


quinta-feira, março 16, 2017

Cimeira das Lajes – Ilha Terceira, 16 de março de 2003

Na tarde de hoje, há 14 anos, na base das Lajes, teve lugar a cimeira da guerra onde, em macabra encenação, foi anunciada a invasão do Iraque.

George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar foram recebidos pelo mordomo luso, que fora a Londres ver as provas das armas químicas de Saddam Hussein, mentira que serviu de pretexto à agressão. Os sinistros cruzados já antes tinham decidido a invasão que ali fingiram acordar. Isso mesmo veio a ser confirmado num relatório parlamentar britânico.

Na Assembleia da República, em Portugal, o PSD e o CDS, então maioritários, votaram a participação no crime. Só não seguiu uma força militar, com desgosto de Paulo Portas, então ministro da Defesa, por oposição do honrado PR, Jorge Sampaio, invocando a sua qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas. A direita parlamentar e o seu governo avançaram então com um contingente da GNR.

Barroso, esse gigante da ética, videirinho e vil, havia de dizer, muito depois, que teve o apoio do PR, reincidindo em mais uma mentira que apenas reforçou a pusilanimidade do cúmplice.

Hoje, volvidos 14 anos, centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, são as vítimas desse crime cujos autores ficarão impunes.

A luta contra o esquecimento exige que se recordem os autores amorais da invasão que destruiu um país, destabilizou o Médio Oriente e perturba o Mundo.

Não podemos esquecer.

A República, o Sr. Duarte Pio, as figuras e os figurões de Estado

O estranho tropismo do PR para os dedos anelares do clero compromete o carácter laico e republicano do cargo, apesar da isenção e sentido de Estado com que o tem exercido. É, aliás, o único reparo que posso e devo fazer a quem, sendo de uma família política diferente, não tenho o direito de exigir que partilhe os meus pontos de vista.

Surpreendente é a posição dos cidadãos, ou melhor, vassalos, que ocupam ou ocuparam altos cargos da República. Refiro-me a uma petição para que fui alertado por um sólido Historiador e estimado amigo, Amadeu Carvalho Homem.
“Petição quer incluir o duque de Bragança no protocolo de Estado”. Eu julgava extintos os títulos nobiliárquicos desde a implantação da República e o Sr. Duarte Pio um mero ornamento das revistas do coração, sem prejuízo do humor que o ridículo produz.

Acontece que pessoas tidas por normais, algumas com farta erudição e aparentemente saudáveis, são subscritoras de tão idiota petição num regime cuja irreversibilidade é exigência da Constituição que alguns deles juraram.
Não me interessa a progenitura do Sr. Duarte Pio, improvável Bragança, e desculpo-o do orgulho que exibe na ascendência miguelista de má memória.

O que não desculpo é a afronta da introdução na hierarquia do Estado de um furúnculo legado por via uterina e o demente desejo de alterar o protocolo de Estado com adereços vitalícios e sem legitimidade democrática. Querem alterar a legislação de 2006 porque há algumas dificuldades protocolares quando o sr. Duarte Pio é convidado para eventos. Então por que motivo e a que título o convidam?

Que o presidente da Câmara do Porto espere que o façam visconde é uma inanidade que se respeita; que um fascista, Jaime Nogueira Pinto, queira a monarquia é um direito; que Paulo Azevedo, rei dos supermercados queira ser marquês, tem dinheiro para comprar o título; que Carmona Rodrigues, Diogo Feio, Nuno Melo, Telmo Correia, Mota Soares e outra tralha do CDS desprezem a República é uma honra para a República, mas que um conselheiro de Estado, Lobo Xavier, por menos recomendável que seja, e é, ou Adelino Maltez, pertencente a uma instituição respeitável, o GOL, juntem as suas assinaturas a tão más companhias só há três explicações possíveis: estão onde não devem, são miguelistas (extrema direita) ou ensandeceram.

Ou acumulam.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 15, 2017

O Tribunal Europeu de Justiça (TEJ) e a exibição de símbolos religiosos

Conciliar a liberdade e o proselitismo religioso é tarefa difícil, na Europa, onde alguns imigrantes desprezam a cultura autóctone e fazem provocações. É neste contexto que o TEJ concedeu ontem às empresas europeias o direito de proibirem aos trabalhadores o uso de símbolos religiosos visíveis nos seus locais de trabalho.
Não é o uso que se proíbe, é a exibição, e conhecemos a vocação religiosa para afrontar a laicidade, que faz parte do ethos civilizacional que urge defender, e está a ser atacada.

Esta jurisprudência tem contra ela prosélitos de várias religiões, intelectuais de vários matizes e sobretudo a cobardia do politicamente correto.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que insiste em ornamentar as cerimónias profanas com as vestes talares dos seus dignitários e acolher os governantes sob o pálio, já contestou a decisão e avisou que pode estender-se a todos os sinais religiosos. Claro que pode (aos ostensivos) e, na minha opinião, deve. Um padre, pode ser médico, e não deve dar consultas de batina e colar romano num hospital público. Um bispo também, mas não lhe deve ser permitido levar a mitra e usar o báculo para apontar a anatomia do corpo humano. E isto é válido para um rabino, um mulá, uma devota do véu romano e frades e freiras de qualquer religião.

Paulo Mendes Pinto, fundador da Academia Europeia das Religiões, um académico que estimo, afirmou que, na véspera das legislativas na Holanda, “o timing desta decisão não podia ser pior”. Conheço este diretor da Licenciatura e do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, onde também dirige o Instituto Al-Muhaidib de Estudos Islâmicos. Habitualmente estamos de acordo, agora não.

A comunicação social dá relevo a todas vozes contra a decisão do TEJ sendo omissa em relação às favoráveis. Aqui fica o meu aplauso. De pé.

Quanto à proibição do véu islâmico por uma empresa, que agora viu reconhecido o seu direito, em nome da neutralidade religiosa que exige no local de trabalho, levantam-se vozes a dizer que muitas mulheres vão ser excluídas do emprego.

Lembro-me do Sr. Lopes, padeiro e alcoólico, perplexo perante o anúncio televisivo da lei que limitou o consumo de álcool aos condutores. Ele, que não tinha carro nem carta, exclamou: «Então, a partir de agora, não se pode conduzir».

Talvez possamos compreender a posição de José Rentes de Carvalho, democrata que teve de exilar-se durante a ditadura fascista e hoje um conhecido escritor luso-holandês: “O problema é que ele (Wilders) não pode realizar o que promete, pelo que votar nele é uma forma de protesto. Por isso vou dar o meu voto a Wilders (líder da extrema direita).

Não podemos continuar a ignorar as agressões do fascismo islâmico à cultura europeia.

terça-feira, março 14, 2017

Guarda - Hoje


Será verdade?


segunda-feira, março 13, 2017

Assunção na ‘crista’ da onda….

Assunção Cristas a nova dirigente do CDS/PP gosta de alardear e indignar-se com aquilo a que chama as mentiras (dos outros).
 
De quando em vez, na tempestade demagógica que vem alimentando, escorrega e estampa-se.
Quando afirma na entrevista ao Publico que em relação ao Governo a que pertenceu “Nem BES, nem BANIF, nem CGD: O Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da Bancalink está a tentar dourar a pílula (já chega de epítetos à volta de 'mentiras').
 
Na memória de todos está a famosa “resolução do BES” em Agosto de 2014, link, decidida pelo Governo de então, em inusitada votação ‘eletrónica’. Ora, este passo tratou-se de um indesmentível envolvimento nas questões da Banca e dada a celeridade com que se ‘fabricou’ a resolução faz todo o sentido entender que o assunto já tinha sido discutido em reuniões ministeriais anteriores ou, então, concluir que se tratou de uma decisão leviana. A escolha é difícil.
 
Para continuar a dourar a pílula Cristas afirma que deu o seu Ok (eletrónico) ao diploma governamental para resolução do BES, 'no escuro’, isto é, sem o conhecer, sem o ler, sem o discutir link.
Tudo isto em nome de uma suposta solidariedade, cega, surda e muda. Só que, para memória futura, fica a notória irresponsabilidade que esta anuência encerra.
 
Todos sabemos que o Governo de Passos Coelho pouco ou nada fez pela banca, mas ‘não havia necessidade’ de uma tão orgulhosa partenaire de Passos Coelho e Portas vir a terreiro lavar as mãos com areia que depois tenta atirar-nos para os olhos. 
 
O CDS e o PSD fazem que velam pela Banca quando estão na Oposição  e dia sim/não salta mais uma comissão parlamentar de inquérito. Quando estão no Governo o assunto é marginal ou, então, um 'não-assunto'.
Devemos tomar nota desta ‘inconformidade’ governativa e bancária… e registar a ‘chicana’.

A eleição do Papa católico Francisco – 4.º aniversário

Há 4 anos, num consistório, quiçá com a ausência do Espírito Santo (não, não é esse em casa de quem foi engendrada a candidatura de Cavaco Silva a PR, é o da Trindade, a quem se atribuía a obrigação de iluminar os cardeais e hoje reduzido à toponímia ou encontrado na reserva ecológica dos Açores ou no Brasil), foi eleito Papa o cardeal Jorge Bergoglio.

Bergoglio ganhou aí o direito de mudar de nome e um cargo vitalício cuja longevidade dependia da prudência e dos cuidados. Durou já muito mais do que os mais otimistas vaticinavam.

É verdade que continua a conformar-se com os milagres dos defuntos, a criar santos e a participar no “road show” publicitário aos santuários que atraem mais turismo pio, mas o que pode fazer o CEO de uma multinacional da fé onde escasseiam novos produtos e sobram velhas superstições?

Relevante é o que é capaz de fazer pela paz e pela justiça social. E nisso, Francisco, sem provocar o êxtase de Zita Seabra, Aura Miguel ou João César das Neves, mais devotos de João Paulo II e da sua cumplicidade com Reagan e Thatcher, tem sido o intérprete de muitos homens e mulheres de “boa vontade”, para usar a expressão com que João XXIII enciclicou pela primeira vez os nãos crentes.

Pelo que se adivinha da sua coragem e determinação para ser agente da transformação do mundo, onde a riqueza de oito homens é igual à de 3 mil e quinhentos milhões dos habitantes mais pobres do Planeta; pela defesa da paz e da luta contra a pedofilia no seio da sua Igreja; pela ousadia em enfrentar a Cúria e denunciar os interesses que dilaceram a Humanidade, merece que um ateu manifeste solidariedade ao Homem.

Aqui fica este registo.

As convulsões turcas numa Europa sitiada e assediada …


O governo turco desdobra-se pela Europa fora com o intuito de angariar apoios para o ‘golpe Erdogan’ que passa pela concentração e alargamento de poderes do Presidente da República.

Os problemas desta inflexão política, utilizando meios obscuros mas de alcance nítido, começaram no próprio País. Na verdade, o Presidente turco começou por não conseguir reunir eleitoralmente o quórum necessário para proceder a tais mudanças. No seguimento deste bloqueio constitucional realiza, oportunamente, novas eleições e consegue, para o seu partido (AKP), reconquistar uma nova maioria à custa de um elevado preço que esconde, na prática, a exclusão da oposição (Partido Republicano do Povo / CHP) e dos curdos (perseguidos quer no independentista PKK quer no ‘liberal’ HDP) de participarem na vida pública.
Depois, ocorre a tentativa de golpe de Estado, de contornos ainda pouco explícitos, que foi de imediato aproveitada para depurar profundamente as Forças Armadas e o Poder Judicial, baluartes do regime laico construído por Atatürk. Paralelamente, desenvolveu uma intensa atividade manipuladora dos sistemas de ensino que acusou de estar ao serviço do seu arqui-inimigo Fethullah Gülen e, finalmente, manietou a comunicação social, silenciando tudo o que lhe parecesse hostil à sua pessoa, ao seu partido e a senda islamizante.

A tentativa de concentrar poderes na Presidência da República terá de ser feita à custa de alterações constitucionais relevantes das quais avulta o fim da independência do poder judicial que o Governo de Ankara deseja ver ratificado em referendo.
Ora, estes ingredientes configuram o nascimento de um 'novo regime' na 'moderna' Turquia, sobrevivente dos escombros do Império Otomano, talhada a ferro e fogo por Kemal Ataturk. Um 'novo regime', de cariz  autoritário e matriz religiosa em que a concentração de poderes é o instrumento político para atuar no sentido da islamização cerceando as liberdades. É nesta mudança que começa a ‘construção’ de um novo califado.
Erdogan elegeu a separação de poderes, base de qualquer Estado de Direito, como sendo um obstáculo a contornar e a derrubar (está a fazê-lo vertiginosamente depois da tentativa de golpe militar) e defende como programa para o País um projeto culturalmente conservador, politicamente nacionalista e economicamente liberal, como fachada propagandística para uma deriva teocrática.

Na verdade, o programa é outro e Erdogan começou por acicatar uma luta de classes onde o alvo dos crentes é a burguesia elitista e laica nascida à sombra do ‘Kemalismo’. Enveredando por este caminho conseguiu minar uma das mais importantes bases de suporte da nova República Turca, nascida no final da I Guerra Mundial. Mas o mais relevante tem sido escondido, isto é, uma acelerada ‘islamização’ da Turquia sob o manto diáfano de uma falsa moderação.

A mudança de regime em curso (não se trata de uma simples reforma do sistema ou agilização da governação) terá graves consequências nos já frágeis equilíbrios geopolíticos existentes no Médio-Oriente.
Pondo a ferros o Exército (que por várias vezes derrubou Governos) e domesticando o Poder Judicial criou, para além (e à margem) dos jogos políticos tradicionais, uma ativa milícia económica de combate pelo seu programa ideológico – os chamados ‘tigres da Anatólia’ onde vigora o conceito de que “ trabalhar bem, é ser melhor crente” (uma espécie de ‘islamismo calvinista’).
E na Anatólia porquê? De facto, são historicamente terras do ‘Curdistão’.

A par destas mudanças de índole interna Erdogan mobilizou o seu Governo para o referendo que decidirá sobre as mudanças constitucionais já aprovadas no Parlamento. A Turquia tem um vasto contingente de emigrantes que vivem na Europa, nomeadamente na Alemanha (onde residirão cerca de 3 milhões de turcos) e na Holanda (400.000), que podem estar contaminados pela ‘vida ocidental’ e cujo arrebanhar para o voto referendário no ‘sim’ é importante para fazer vingar o projeto político de ‘islamização da Turquia’.

Os primeiros incidentes na Alemanha relativos à anulação de comícios de propaganda governamental turca pelo sim no referendo de Abril link  desencadearam uma reação turca verdadeiramente boçal,  caricata e nada diplomática (Erdogan acusou o Governo alemão de nazi), seguiram-se os graves confrontos (diplomáticos e cívicos), de ontem, na Holanda link levando Ankara a repetir as mesmas acusações.
 
A Europa submetida às exigências e chantagens turcas numa tentativa de ‘comprar’ a resolução da questão dos refugiados e (ainda) manietada por um projeto de adesão à UE de longa data e com imensas hesitações e que, a partir dos desenvolvimentos internos decorrentes da tentativa de golpe militar de Julho passado, perderam toda e qualquer viabilidade, não reagiu a esta provocação que envolve Estados membros da União.
 
Todas estas questões dos últimos dias que, à primeira vista, parecerem colidir com a (ocidental) liberdade de expressão e a capacidade de defender os seus pontos de vista sem barreiras ou limites, seriam relevantes se todos (a oposição republicana e os curdos, entre outros) tivessem as mesmas possibilidades e oportunidades de se exprimir, quer dentro da Turquia, quer no Exterior.
A realidade é bem diferente e as manobras do governo de Ankara não passam de toscas manifestações de puro proselitismo em prol de uma ditadura islâmica em que o próprio Erdogan seria o chefe civil e religioso, isto é, um novo califa. Gostaria de conhecer qual a reação de Erdogan se o Governo Holandês enviasse a Ankara, ou a Istambul, um ministro defender em comício público, por exemplo, as conceções sobre os valores da ‘cultura protestante ocidental’.
 
Faltará (muito) pouco para existir no Médio-Oriente mais um estado islâmico, regido pela ‘sharia’ e, convém anotarmos para melhor entendimento da gravidade da situação, detentor (por opção própria e delegação da NATO) de um impressionante poderio militar.
 
A contemporização europeia nesta situação é mais um erro histórico. O tempo a breve trecho o dirá.

domingo, março 12, 2017

Guarda - Convite

A 2.ª edição já está disponível

A Espanha e a Lei da Memória Histórica

O governo de Rodrigo Zapatero (PSOE) retirou 570 dos 705 símbolos catalogados, da ditadura. O Governo de Mariano Rajoy (PP), não retirou um único símbolo em 5 anos.

Em Alicante, o governo local foi obrigado a repor o nome de «Divião Azul» na Praça da Liberdade, uma decisão judicial a impedir a democratização e a restaurar a homenagem ao fascismo.

Franco continua sepultado no Vale dos Caídos, ofensa só comparável a uma impensável glorificação de Hitler na Alemanha ou de Mussolini em Itália.

O Supremo Tribunal, que suspendeu o impoluto juiz Baltasar Garzón, o mais destacado juiz na luta contra o terrorismo, narcotráfico, crimes contra a Humanidade e corrupção económica e política, parece manter-se como órgão franquista onde os juízes sentem a nostalgia do maior genocida ibérico de todos os tempos.

No país onde a monarquia é a herança imposta por Franco e o PP não se diferencia da Falange, a democracia está em permanente perigo e o regresso da ditadura à espera do colapso da UE.

Em valas comuns jazem por identificar, à espera de justiça, os corpos dos assassinados pela ditadura. Os fantasmas não atingem apenas o poder judicial, aparecem no Governo.

sábado, março 11, 2017

Conferência na FCSH da Universidade Nova: o novo, o velho e os embustes…

O cancelamento(?) /adiamento(?) / suspensão(?)   link da Conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH da UN de Lisboa foi uma ‘argolada’, assente sob justificações cautelares e está a ter os seus desenvolvimentos. Num ápice transformou-se uma atitude provocatória numa medida de 'cariz censório', dando lugar a uma inusitada cascata de propaganda política.
 
A realização da conferência seria mais uma inócua manifestação de propaganda ‘folclorista’ à moda antiga tecida em redor de um explosivo caldo de cultura que, no presente, está em franca fermentação, misturando (associando) nacionalismo e populismo. É de prever, à posteriori, que a efetivação da monocórdica conferência nada de importante viria ao Mundo e teria sido evitada uma tão persistente e maléfica maré propagandística.
 
A conferência não é, todavia, um simples exercício de liberdade de expressão. Existe um evidente contexto que lhe está inerente onde no seu seio pululam uma montanha de contradições.
Primeiro, interessa sublinhar que qualquer ‘ato de censura’ (vamos entrar neste caminho) é, em princípio, um ataque à liberdade de expressão. Esta deverá ser uma posição de princípio. No entanto, existem situações concretas inerentes que nos relatos do ‘incidente’ (esta é outra avaliação) não devem ser escamoteadas. Não podemos ser comidos por lorpas. 
 
Na memória dos portugueses, esse tipo de repressão da liberdade (censura /índex) não remonta à Inquisição, como historicamente se verifica, tendo sido um 'santo ofício' de combate a heresias, mas está, no inconsciente coletivo, intimamente ligada ao regime fascista, como arma de silenciamento da(s) Oposição(ões) política(s), da criatividade e do pensamento.
Ora, não é aceitável usar o 'espantalho da censura' como arma de arremesso contra as instituições do actual regime democrático e simultaneamente absolver o salazarismo dos restantes e reincidentes crimes (censórios e outros) como, por exemplo, a senda colonizadora em nome da ‘Fé e do Império’.
Vejamos porquê e quais as razões.
 
Na realidade, a iniciativa de um movimento dissimulado e praticamente anónimo, tem por protagonista Jaime Nogueira Pinto, um conhecido homem da Direita ultraconservadora, que depois de um período rocambolesco em terras africanas, onde se misturaram conceitos colonialistas, garimpagens diamantíferas e, ainda ‘jogos bélicos’ com perfumes mercenários, no presente, tem-se dedicado à vida académica e literária como um divulgador (e simpatizante) da Direita saudosista, fascista e colonialista. Em apoio desta concepção salienta-se a publicação de vasta produção livresca laudatória do regime ditatorial (‘António de Oliveira Salazar, o outro retrato’, Ed. Esfera dos Livros, 2007) e incursões (exacerbações) nacionalistas (Nuno Álvares Pereira, Ed. Esfera dos Livros, 2009). Simultaneamente, têm-se dedicado à investigação dos instáveis equilíbrios internacionais (escreveu ‘O Islão e o Ocidente – A grande discórdia’  Ed. D. Quixote, 2015), revelando ser o ‘pivot ideológico’ de reminiscências passadistas e ultraconservadoras. Por esse facto, ou seja, pelo exercício deste ‘apostolado’, nunca foi ‘censurado’, tem publicado e participa com alguma regularidade em meios de comunicação social nacionais, com o estatuto de comentador. Tem ‘feito o seu trabalho’, sem resvalar para atitudes provocatórias e nunca foi ‘incomodado’ por isso.
 
Jaime Nogueira Pinto deveria discorrer, na adiada (suspensa?) sessão, sobre a dualidade de dois conceitos que têm estado na ordem do dia: “Populismo ou Democracia – Brexit, Trump e Le Pen em debate”. Não vamos armar-nos em inocentes. O tema é candente, diz respeito a um dos assuntos que ameaça o Mundo e que a Ultradireita nacional deseja pegar para tentar apanhar o comboio da história recente do Ocidente (Europa e EUA) onde florescem múltiplos exemplos desta nova onda (populista e nacionalista). Todavia, nem sempre a abordagem nacionalista é uma atitude platónica e pacífica e, neste momento, o populismo (que esquiva-se a censurar escondendo-se atrás de 'muros') não vive propriamente um estado de graça, inspirando sérias preocupações.
 
A adiada conferência (outra vertente dos acontecimentos) foi promovida por um novo ‘movimento’ denominado ‘Nova Portugalidade’. Que não é propriamente uma associação de escuteiros. Isto é, de ‘novo’ e de ‘nova’ nada há e o que se pretende camuflar é o ‘velho’.
O termo “Portugalidade” explica tudo e não é novo. Significa e foi usado como uma miscelânea de nacionalismo integralista, de fascismo serôdio, de salazarismo bafiento e até de nazismo envergonhado, que vigorou entre nós nos tempos de António Ferro e do ‘seu’ Secretariado Nacional de Propaganda. Atingiu o auge nas décadas de 50 e 60 do século passado, já sem o inestimável contributo de Ferro, quando o Estado Novo vivia tempos difíceis, depois do desfecho da II Guerra Mundial, e serviu para tentar ‘justificar’ e consolidar, à ultrance, a obsoleta política colonial portuguesa consubstanciada na grandeza ‘imperial’ do ‘do Minho a Timor’. Nos tempos actuais seria tornar: ‘Portugal Great, …Again'.
 
Mas regressando ao presente e tentando enquadrar a conferência nos seus remotos propósitos, o citado movimento propulsor apareceu à luz do dia para reivindicar, através de uma petição, a manutenção da configuração colonial da Praça do Império. Contestam qualquer alteração paisagística à velha simbologia das ditas ‘Províncias Ultramarinas’ pretendendo perpetuar na memória urbanística as marcas e referências do ‘Império Português’ através dos brasões coloniais. O ‘ferrete colonialista’ não abandona a causa e, como sempre, aparece eivado de perfumes sebastianistas tecidos à volta de saudosismos monárquicos.
 
Aliás, um dos activistas deste neófito movimento, Rafael Pinto Borges, em entrevista ao jornal i on line, entreabre pequenas janelas que revelam muito. Considera o dirigente do movimento nacionalista que a descolonização foi um “trágico equívoco” e, mais adiante, exibe uma veneranda e possessiva ‘paixão’ por Salazar (“uma referência em tudo”) link. Não se percebe como, partindo de um tão arcaico e tenebroso referencial, alimenta uma tão reivindicativa adesão às liberdades, quando sabemos que um hipotético exercício de poder por esta ‘gente’ e baseados nesses pressupostos ideológicos, conduzira - sempre - à supressão das liberdades.
 
A colagem do Partido Nacional Renovador aos arautos da ‘Nova Portugalidade’ diz muito (ou quase tudo) sobre o movimento nascente link.
 
Finalmente, ficará, na dúvida interpretativa e  naturalmente imersa na morosidade dos debates que caracterizam as discussões sobre jurisprudência e constitucionalidade se a situação que os promotores da adiada conferência configuram se integram nos conceitos constitucionais estabelecidos no Artº. 46, alínea 4, da CRP, onde está expresso que:
Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilem a ideologia fascista” (sublinhado nosso).
No passado, a verificação da constitucionalidade da existência de um dos agrupamentos percursores do PNR, o 'Movimento de Ação Nacional', esborrou-se através de uma ‘oportuna dissolução’, e o PNR, depois do ‘assalto’ ao PRD, por cá continua, com os seus apêndices de ‘portugalidade’, sem merecer o mínimo crédito junto dos portugueses.  
 
Como esta diligência jurídica não foi sequer iniciada ou gizada, a citada conferência realizar-se-á por questões de princípio e de legalidade democrática beneficiando abstratamente das liberdades conquistadas à revelia das remanescentes intenções fascistas. Porque, no concreto, subsistem as dúvidas inerentes à aplicabilidade do citado artigo 46 da CRP.
 
Mas o problema fulcral será outro: não conduz a nada combater o populismo e as exaltações nacionalistas com iniciativas individuais e desgarradas como a que foi tomada na assembleia de estudantes da FCSH da UNL e, depois, subscrita pela Direção da Instituição. 
É necessária e urgente uma estratégia política amplamente debatida, organizada e concertada que defenda intransigentemente o regime democrático o único capaz de salvaguardar a ‘liberdade de expressão e de associação’.
Caso contrário ficaremos em casa a observar ícones da ‘portugalidade’, como por exemplo, o inefável ‘Zé Povinho’, o 'casamenteiro' Santo António, o insubstituível bacalhau, a crista do galo de Barcelos, etc. ….
 
A propósito de ‘cristas’ seria bom interpretarmos a ‘agitação’ do CDS link, ontem, no Parlamento quando se discutiu este assunto.

A liberdade de expressão, a democracia e os democratas

Condeno a decisão da direção da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa de cancelar uma conferência do assumido fascista Jaime Nogueira Pinto sobre ‘o Brexit, Trump, Le Pen e o fenómeno do populismo’.

A conferência podia ser a provocação organizada pela Nova Portugalidade, movimento para quem Salazar é a referência e tem um currículo que desafia a CRP no que se refere a organizações fascistas, mas a liberdade de expressão é um direito que cabe ao Estado tutelar.

A pronta oferta da Associação 25 de Abril das suas instalações para a realização da dita conferência é um ato de coerência de quem restituiu a liberdade ao povo português e a continua a defender, não hesitando em defender a liberdade para os seus adversários.

O PR condenou a FCSH pelo cancelamento da conferência afirmando que é “o guardião dos direitos constitucionais, entre eles a liberdade de expressão, e, por isso, para mim é incompreensível uma decisão daquelas por parte de uma instituição pública”, frisando que espera “um esclarecimento” sobre a decisão “absurda”. Apoiado!

***

No início de novembro de 2014, a Faculdade de Direito de Coimbra proibiu o debate “A esquerda, a direita, o agora: haverá espaço para as ideologias no mundo atual?” com Rui Tavares e Pedro Mexia, por ser “Ideológico” e contra os valores de “isenção partidária”.

António Santos Justo, diretor daquela Faculdade, impediu que a sessão se realizasse por considerar que a instituição se deve guiar pela “isenção partidária” e não constituir “um palco para debates ideológicos”. Durante décadas não houve ali debates ideológicos, só o ensino do Direito Corporativo e da Constituição de 1933.

Quando o Prof. António, mais Santos do que Justo, impediu um debate a um democrata não se amofinou o CDS, não se ouviu o PR Cavaco a defender a liberdade de expressão, se acaso a defende, nem os órgãos da comunicação social entraram em frenesim.

Em 3/11/2014, a liberdade tinha em Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas os seus guardiões, e não se ouviu, da parte desse trio, uma palavra de solidariedade para com o historiador Rui Tavares, a mais leve censura à decisão do diretor da FDC, um módico de respeito pela vontade dos alunos de Coimbra que, contrariamente ao grupo fascista da FCSH, preferiam um debate com um democrata a um monólogo de um fascista.

Não pode haver dois pesos e duas medidas. A hegemonia da direita na comunicação social inquina de tal modo a opinião pública que a D. Cristas passa por democrata, o Professor Cavaco por intelectual e Passos Coelho por estadista.

Apostila - Num caso silenciou-se a censura a um debate sobre ideologias, no outro assistiu-se ao ruidoso protesto sobre o cancelamento da propagação de ideologias fascistas. E, perante a condenação parlamentar da invasão e tentativa de intimidação dos dirigentes da AE da FCSH por um grupo de extrema-direita, o PSD e o CDS… abstiveram-se. Ontem.

sexta-feira, março 10, 2017

Tomás da Fonseca – Missionário do Povo

Na passagem do 140.º aniversário do nascimento (10-03-1877) homenagear o escritor, pedagogo, ateu, maçon e combativo democrata, é um dever cívico. O mais anticlerical dos escritores portugueses combateu o obscurantismo religioso e as ditaduras, da de Sidónio Pais à de Salazar.

Ao designá-lo ‘missionário do povo’, retirei o título da notável biografia do investigador Luís Filipe Torgal, “Tomás da Fonseca Missionário do Povo”, obra indispensável para o conhecimento do militante cívico, perseguido e preso pela ditadura, arauto da laicidade e denodado lutador contra os embustes do jurássico catolicismo luso.
Deixo ao referido historiador a biografia. Reservo-me um depoimento de leitor precoce do escritor a quem Guerra Junqueiro disse um dia: «Ó Tomás, um padre com a barriga cheia, tanto lhe dá que as pessoas da trindade sejam três como trezentas».

Teria 13 anos quando, depois de ler dois livros seus, lhe escrevi a pedir um outro, que me enviou. Devo ter escrito que era o n.º 5 (?) da turma D, do 3.º ano do Liceu Nacional da Guarda e que gostava de o ler. Troquei ainda várias cartas e enviou-me alguns livros, tudo desaparecido, até me enviar um folheto que referia os títulos, preços e quantidades que a Pide lhe apreendera, num total de 19 mil e tal escudos e alguns centavos. A troca epistolar terminou com um postal, que me dizia escrito por um neto, por já se encontrar muito doente.
Depois, em 1960, li «Na Cova dos Leões», emprestado pelo ten. Pedro Joaquim, oficial na I Grande Guerra, perseguido do regime, e amigo de meu pai. E continuei seu leitor.

Aprendi com ele a troçar dos milagres. Guardo na memória a história de S. Guinefort, cão e mártir, injustamente morto pelo dono, e que virou santo, até que um papa mandou arrasar o templo em sua honra; a de duas mulas, mortas de exaustão, que a má tradução do grego transformou em mártires; a de St. ª Verónica que, depois de conhecido o significado (verdadeira imagem), foi apeada. E a Igreja a perder a santa e a ganhar três toalhas, relíquias pias que embrulharam o corpo de Cristo!

Revelou o logro de Fátima, visões de uma criança analfabeta que ouvia e via o que uma imagem feminina lhe transmitia a saltitar numa azinheira, visão oficial da mãe de Jesus que, de vez em quando, se deslocava ao espaço da catolicidade.

Os primos, com menos acuidade visual e auditiva, faleceram crianças, e Lúcia, depois de cativa das Doroteias em 17 de junho de 1921, por ordem do bispo de Leiria, não mais foi livre, tornando-se a mais antiga prisioneira do mundo, quando morreu com odor a santidade, em 13 de fevereiro de 2005, aos 97 anos. Encarcerada durante quase 83 anos, pôde, em vida, ver o Inferno, o Anjo de Portugal e Jesus Cristo, e reescrever os pedidos da Sr.ª de Fátima que, por não ler jornais, a enganou a anunciar o fim da guerra.

Tomás da Fonseca, com sólida preparação em Teologia, a única ciência sem objeto nem método, zurziu o clero, lutou contra a superstição e a ignorância, defendeu a laicidade e combateu a ditadura clerical-fascista. Foi uma referência cívica contra a transformação dos portugueses em bandos de beatos e idiotas fabricados nas sacristias romanas.

Não impediu que alegadas visões volvessem aparições, que terrenos rústicos, adquiridos pela Igreja, passassem do setor primário ao terciário, e que uma encenação pia, nascida contra a República, se transformasse primeiro na luta contra o comunismo e, depois da implosão deste, na luta contra o ateísmo.

Do poeta, escritor, jornalista, professor e militante republicano, ateu e maçon, termino com uma citação do livre-pensador, em “Sermões da Montanha”:

«…o protestantismo é a religião católica reformada. Não quer isso dizer que seja boa, porque não pode haver religiões boas. Dizer-se que uma religião é boa, equivale a proclamar os benefícios do cancro, as vantagens da varíola ou os confortos da sífilis.»

quinta-feira, março 09, 2017

Há 55 anos – A Crise Académica de 1962, em Coimbra

Hoje, na Sala 17 de Abril, na Faculdade de Matemática, sob os auspícios da República dos Galifões, começaram as comemorações dos ‘55 anos da Crise Académica de 1962’, com depoimentos, que continuarão amanhã e depois, pelos principais protagonistas do movimento académico de então.

Hoje, poucos sabem que todos os membros da direção da Associação Académica foram expulsos, durante dois anos, de todas as universidades portuguesas; que 38 estudantes foram presos para Caxias; e 4 alunas, porque em Caxias não havia celas para mulheres, ficaram presas durante um mês, em Coimbra, nos calabouços da Pide. O ex-inspetor da Pide, Sachetti, sempre perfumado e elegantemente vestido, foi o anfitrião dessas jovens a quem entusiasticamente preparou enxovias.

As alunas só tinham direito de voto nas Associações Académicas desde Salgado Zenha. O seu voto era esmagadoramente conservador, quase sempre de acordo com a matriz da Universidade de Coimbra, um sustentáculo do regime fascista, e votavam, vindas dos lares, enquadradas por freiras.

Hoje fui ouvir o meu amigo Francisco Leal Paiva, um ilustre obstetra, diretor-geral da AAC em 1962, na lucidez e serenidade dos seus quase 80 anos.

No anfiteatro havia uma dúzia de estudantes e velhas figuras da luta contra o fascismo, apesar da publicidade nos jornais locais e do email para todos os estudantes.

À saída, centenas de estudantes trajados desfilavam pelas ruas e recriavam as praxes que em 1962 foram usadas para a contestação à ditadura, num regresso manso à alienação.

A História é feita de avanços e recuos.

Efeito Trump?

A pena de morte é a mais impiedosa herança que perdura em códigos penais de países designados como democráticos e civilizados. É injusta e intoleravelmente cruel.

É difícil imaginar que a mão não trema ao julgador que assina a sentença irreversível ou ao governador que a confirma, conhecidas as fartas provas de execuções devidas a erros judiciários e a sua ineficácia dissuasora.
Os EUA, onde a pena de morte é oficialmente permitida em 31 dos 50 Estados, é a nível mundial o segundo País com mais execuções, logo a seguir à China.

Demasiados inocentes foram já reabilitados a título póstumo e, no espaço de 40 anos (1975/2015), foram posteriormente ilibadas 151 pessoas condenada à pena capital. E, nem assim, tem sido possível abolir a pena, que desonra o País e o separa da Europa!

A obstinada persistência nessa punição anacrónica atingiu agora o auge da demência no Estado de Arkansas, onde serão executados 8 presos no espaço de dez dias, depois de 12 anos de interrupção, … para evitar que as injeções letais excedam o prazo de validade.

É a apoteose da insânia, quando o número de execuções estava em queda progressiva há quase duas décadas, a manifestação de zelo de Asa Hutchinson, governador republicano que usou a pena de morte como bandeira política eleitoral.

É a gestão do stock de injeções, uma decisão política em linha com a atual presidência dos EUA, a gestão da vida humana ao jeito da economia de custos na construção civil.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 08, 2017

Que dia é este?

Enquanto houver cavernícolas incapazes de dar e receber o carinho de filhas e netas, os mesmos homúnculos que não amaram as mães e as avós, perpetua-se a misoginia das tribos patriarcais da Idade do Bronze.

Reproduzem-se, mas nunca saberão o que é amar; mantêm a posse, e não sabem o que é ser livre; respiram, mas não vivem. Limitam-se a respeitar velhos códigos, a preservar preconceitos e a usar a violência, sem conhecerem o amor.

Não me peçam para respeitar crenças que discriminam e rebaixam a mulher, sociedades que lhes impedem a igualdade, hábitos cuja violência a atinge.

O combate a todas as formas de discriminação, públicas ou privadas, é uma batalha que cabe a todos, legisladores, políticos e professores, homens e mulheres, numa peleja sem descanso contra os interesses instalados e hábitos trogloditas.

Num ato de violência masculina não é apenas a mulher que é vítima, é a sociedade que permanece enferma.

terça-feira, março 07, 2017

A geringonça* e esta direita

Não sou dos otimistas que pensam que os governos de Durão Barroso, Santana Lopes e Passos Coelho imunizaram o país contra a direita, que não deixa de se radicalizar, ainda que a manutenção do último na liderança da oposição seja um seguro para o governo de António Costa.

Depois da patética conduta do anterior PR, que tudo fez para intimidar o país e obstar à posse do novo Governo, e mais faria se a inteligência e a Constituição lho permitissem, urge referir que, mesmo na gestão capitalista do Estado, onde as opções nacionais são estreitas, fez bem melhor o atual Executivo, sem descurar as preocupações sociais.

Seria ofensivo comparar a competência ou experiência política de António Costa com a de Passos Coelho, a base de apoio deste governo com a do anterior ou a preparação de Mário Centeno com a de Maria Luís, a opção desesperada depois do clamoroso falhanço de um reputado académico.

É, no entanto, na valorização da democracia que o atual governo é um caso de estudo e uma referência mundial. Pela primeira vez, em Portugal, foi exequível respeitar o voto dos portugueses, sem anátemas a qualquer partido ou chantagem de uma direita que nos últimos 80 anos só episodicamente foi democrática.

Coube-me viver esta experiência e defendê-la e, seja qual for a sua duração, a pedagogia democrática que encerra será sempre uma lição para a direita radical recordar com raiva e para a esquerda ponderar com pragmatismo na pluralidade das suas referências.

*Geringonça - Epíteto desrespeitoso e antidemocrático transformado em designação carinhosa do atual governo, resultante da inédita negociação democrática na AR.

segunda-feira, março 06, 2017

Esta direita perdeu a vergonha

Não lhe basta o poder que o domínio dos órgãos de informação confere na seleção das notícias, precisa da mentira soez, das intimidações grotescas e da impunidade.

O que a SIC fez à CGD não é só um ato de vergonhosa mentira, é a manipulação dolosa e a ausência de um módico de dignidade.

A emissora, que não desmente uma mentira crapulosa, torna-se cúmplice de um crime e numa sarjeta a céu aberto, um rio de detritos ao serviço da ambicionada privatização do banco público, que esta direita quer dar a alguém ao preço da chuva.

José Gomes Ferreira e o Ricardo Costa (este caso é do domínio freudiano) têm deveres para com os portugueses que enganam. Permitir que se escondam na cobardia silenciosa da sua ignomínia é aceitar que o País possa ser manipulado impunemente.

Perante o desmentido da CGD a pequenez ética remete-se ao silêncio.

Teodora Cardoso e Passos Coelho: 'Les beaux esprits se rencontrent …'

A ‘indústria dos milagres’ caminha de vento em popa.
Este 'boom' é decisivamente subsidiário dos(as) videntes que campeiam pelo país e da nostalgia dos chamados ‘poderes ocultos’.
Desde Nostradamus que assim sucede embora grande número de videntes seja do género feminino. As razões para esta preferência são misteriosas como convém ao alienante ‘mundo das vidências’.
Teodora Cardoso, atual responsável pelo Conselho de Finanças Públicas (CFP), teima entrar neste mundo de obscuridades, exorcismos e ilusões.
Quando numa recente entrevista à Radio Renascença e ao Público declarou que, em relação aos valores do défice orçamental de 2016, “até certo ponto, houve um milagrelink , será legitimo augurar que está a iniciar, tardiamente, uma nova, auspiciosa e visionária carreira.
Já no início de Dezembro com todas as medidas suplementares postas no terreno (PERES e índices de investimento público contabilizáveis, p. exº.) e com o Governo repetidamente a anunciar que o défice em 2016 ficaria abaixo dos 2,5% do PIB, a venerável conselheira continuava a suspeitar esse cumprimento seria “uma questão de fé…link.
Estas ‘visões místicas’ na pele de uma responsável pelo acompanhamento da execução orçamental são deveras preocupantes já que consubstanciam quadros muito próximos do desvario delirante.
Em pleno 4º. trimestre  de 2016 (11.10.2016) link o CFP continuava a lançar ‘alertas’ de que o Governo iria falhar o défice acordado com Bruxelas (2,5%), criticando medidas programáticas do Governo, como sejam a descida do IVA na restauração e o impacto das 35 horas…
Aceitando que não existe má-fé da senhora, que Passos Coelho se apressou a sair em sua defesa, somos obrigados a considerar que a presidente do CFP se tem dedicado à adivinhação, cavalgando visões que não explicitam razões e que acabam por embater na realidade. 
Em 2014, nas Jornadas Parlamentares do PSD em Viseu, com o estatuto de convidada, apresentou a peregrina ideia de taxar os levantamentos (movimentos) das contas bancárias sugerindo um imposto adicional e cumulativo ao enorme aumento já determinado por Vítor Gaspar link.
Seria uma postura hilariante se não revelasse alinhamentos conspícuos com os celerados métodos de ‘ajustamento’ da Troika.
A sua equiparação a vidente não será, portanto, uma imagem forçada. As suas prestações durante o último ano têm pouca margem de manobra. Ou são profecias ditadas pelo Além ou são pura incompetência. Para continuar na senda da beatice apetece dizer: venha o diabo e escolha.
Adenda: Justiça seja feita - o ‘chamamento’ do diabo não é da lavra de Teodora Cardoso. Mas de um seu fiel e lídimo admirador link.

domingo, março 05, 2017

Homenagem ao 1.º Presidente da República Portuguesa

No 1.º centenário da sua morte

sábado, março 04, 2017

UE e a justificação do 'menu Juncker'


O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ao propor no Parlamento Europeu (PE) a abertura de um debate sobre o futuro da UE, transmitiu aos cidadãos europeus que o chamado ‘projecto europeu’ está colocado perante a mais importante encruzilhada desde o Tratado de Roma link.
 
A lista de 5 opções apresentadas não é, nem podia ser, exaustiva. Reflecte de modo indubitável, por um lado, que a Comissão Europeia não conseguiu chegar a um consenso interno e, por outro, que a situação na UE atingiu um momento crítico. Entre o regresso a uma CEE (comunidade económica) à ilusão de federalismo, tendo de permeio uma Europa a várias velocidades, há nuances para todos os gostos.
Todavia, do ‘cardápio’ apresentado há, pelo menos, uma 6ª. opção que foi escamoteada, isto é, o desmembramento persistente e continuado (até à implosão final), que pode camuflar-se por detrás de um espectro alargado de transições, que vão desde o paulatino apodrecimento de factores de coesão como serão políticas sociais (emprego, salários, etc.), ao fracasso das estratégias de desenvolvimento (nacionais, regionais e locais), a penosas fracturas  culturais (para não dizer civilizacionais).
 
A ‘convulsão das soberanias’ que alimentou o Brexit e está a ser chão para uma vaga populista (cada vez mais transeuropeia), passando pela ausência de uma política externa comum, as fragilidade e as dependências das políticas de Defesa e a incapacidade de enfrentar o surto migratório, acabando por desembocar em perigosas ‘harmonizações’ orçamentais e fiscais (Pacto de Estabilidade e Crescimento e a crise das dívidas soberanas) no seio de uma fragilizada União Económica e Monetária, onde a equidade decisória dos países membros da UE é espezinhada em cada Conselho Europeu. O destroçar de partilhas (de poder, de recursos e de decisões) é o mal maior que a Europa enfrenta e que nenhuma ‘listagem’ de hipotéticas ‘saídas’ consegue esconder.
 
Na realidade, existe na retórica dos atuais dirigentes europeus uma lacuna grave. Trata-se de passar ao lado das relações entre os diferentes Estados e a Rússia.
A animosidade contra Putin e a rejeição das políticas em desenvolvimento na Rússia não deve obstaculizar a visão de uma Europa do Atlântico aos Urais (para revisitar a uma ‘visão gaulista’ nascida do pós-guerra) que no presente momento ganha de novo actualidade.
Enquanto esta ‘questão euro-russa’ não for politicamente encarada, discutida e eventualmente ‘resolvida’ a Europa viverá sempre sobressaltada e ameaçada.
A ‘nova Europa’ parece querer regressar aos erros antigos e não terá viabilidade construtiva se for concebida em modelos imperiais do passado onde o Centro, o Sul e o Leste disputaram ingloriamente a conquista de frágeis e efémeras hegemonias. Não há espaço, com a atual correlação de forças mundial para a existência de várias Europas (a Ocidente, ao Centro e a Oriente). De facto, para muitos dos dirigentes europeus custa aceitar que a ‘Europa Imperial’ morreu com a II Guerra Mundial.
 
Embora as primeiras reações da UE ao ‘Brexit’ tenham carreado para a praça pública múltiplas e platónicas declarações de ‘mais Europa’ o Plano Juncker apresentado no PE não consegue disfarçar uma nova crise que vem a caminho e onde as sombras de uma fragmentação (europeia) ocupam um lugar de destaque. O 'status quo' que está subjacente e nas entrelinhas da 'listagem Juncker' significa exatamente isso!
 
A eleição de Donald Trump para presidente dos EUA veio precipitar e agudizar os problemas no seio da UE que se arrastam desde o início da crise financeira (2008). Na realidade, esta mutação da política americana, colocou a Europa à deriva e veio trazer para a agenda política novas questões. Se a UE caminhar para uma penosa e progressiva dissolução (como vem ameaçando) perde definitivamente a voz no concerto internacional onde se vão equacionar e definir novos contextos e estratégias.
 
O problema não é a globalização per si (uma consequência 'mecanicista' da queda do muro de Berlim) mas as insanáveis contradições que o capitalismo (nas suas variantes liberais, ultraconservadoras ou populistas) alimenta.
 
Depois da queda do muro de Berlim nunca existiu vontade (e oportunidade) para discutir o contexto global (logo anunciado) e onde o desmembramento de uma poderosa União de Repúblicas (URSS) teria de ser mais do que meras oportunidades de anexações em catadupa.
Alimentou-se (pre)conceitos e tácticas para potenciais e focais emergências (BRIC’s), ou expansionismos serôdios (UE), ao sabor de novos conteúdos de dominação sinuosos e circunstanciais que, no fundo, gravitam à volta de um Mundo unipolar (EUA), absolutamente fantasioso, mas que se revela capaz de alimentar, por todo o lado, ‘ondas populistas’.
Hoje, os povos, indiscriminadamente, sofrem as consequências dessa terrível falta de visão que, se vai arrastando desde 1991, estando a determinar a maioria dos conflitos do presente e a ensombrar todos os projectos de futuro.
 
É aqui que se amarra a incapacidade das estruturas europeias em, neste crucial momento, definir o futuro e a ‘justificação’ do extenso menu que Jean-Claude Juncker, penosamente, exibiu perante o Parlamento Europeu.
 
Não é possível encontrar uma boa saída para a Europa sem olhar para o Mundo e ter a percepção que a instalação de novos equilíbrios ou o refazer de velhos conceitos hegemónicos (como ‘America First’!) passa, também, pela dramática possibilidade de ‘rebentarem’ novos e arrasadores conflitos bélicos.