sexta-feira, março 31, 2017

Associação Ateísta Portuguesa (AAP)

Religião


Catarina Rodrigues e Fernando Antunes insurgiram-se contra ensaios de cânticos como “Perdão Senhor”

Pais contra missa pascal na escola em horário letivo

Os alunos de uma escola básica de Alfândega da Fé andaram a ensaiar cânticos católicos nas aulas de Educação Musical para uma missa pascal que deverá realizar-se na escola, segunda-feira, em pleno horário letivo.

O caso, que já mereceu críticas de pais, pode não ser único. O presidente da associação de diretores admite situações pontuais e à Associação Ateísta Portuguesa já chegaram queixas de vários encarregados de educação sobre a existência de práticas religiosas não autorizadas em escolas públicas.

A Inquisição em Portugal – 31-03-1821

Faz hoje 196 anos que foi abolida oficialmente a Inquisição Portuguesa e há menos de 60 que a liberdade religiosa foi acolhida por João XXIII, durante o Concílio Vaticano II, com o posterior ranger de dentes de João Paulo II e Bento XVI.

Não era só a apostasia, a que raros se atreviam, que era objeto da crueldade eclesiástica. Judeus, bruxas e todos os que descressem na única religião verdadeira – ICAR –, eram as vítimas que zelosos delatores levavam ao Santo ofício.

Entre 1536 e 1821, cerca de mil e quinhentas pessoas foram queimadas vivas e 25.000 condenadas a diversas penas. O apogeu da demência verificava-se nos julgamentos dos mortos que, depois de exumados, eram queimados em autos-de fé, um número indeterminado bem como o dos que morreram nos cárceres da sinistra instituição.

Foi depois do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Francesa (1821) que findou o êxtase pio da violência clerical e o divertimento da corte a assistir aos autos-de-fé.

A violência é uma tara sedutora que se transmite geneticamente e através das sacristias e madraças, incubadoras onde germinam devotos e prosélitos de verdades únicas.

Perante novas inquisições de desvairados credos, que não desistem de nos impor as suas verdades únicas, urge defender, de forma intransigente, os valores republicanos, laicos e democráticos.

quinta-feira, março 30, 2017

O Fernando Nobre do Porto, veio a Coimbra

Os portugueses esquecem depressa os oportunistas e videirinhos da política. Já poucos recordam um oportunista político que foi candidato a PR, deputado do PSD, e que só se manteria na AR se fosse o seu Presidente, desígnio do iluminado Passos Coelho.

Eclipsou-se, claro, como vitalício presidente de uma poderosa multinacional filantrópica e familiar – a AMI –, que move muitos milhões de euros ao serviço do bem comum.

Fernando Nobre foi congressista do PSD e apoiante de Durão Barroso, mas nas eleições autárquicas foi apoiante de António Costa, PS, em Lisboa, Capucho, PSD, em Cascais, Fernando Seara (CDS?), em Sintra, mandatário do BE, alistado da Causa Monárquica, primeiro, e apenas simpatizante, na candidatura ‘independente’ a PR que preparou como filantropo profissional e com apoios de ingénuos e de desempregados políticos.

*
Agora apareceu no Porto, como recandidato autárquico, Rui Moreira, próximo do CDS e revoltado com o PSD de Passos Coelho, que nas últimas eleições autárquicas preferiu Luís Filipe Meneses, e agora tem o apoio do PS e do irrelevante CDS.

Na ambição de atravessar o rio Douro, surgiu em Coimbra a apoiar outro independente, um prestigiado médico e ex-bastonário da Ordem dos Médicos. que trocou o PSD pela liderança dos Cidadão por Coimbra, pseudónimo local autárquico do BE e que, despedido pelo BE, acabou a criar um grupelho denominado «Somos Coimbra».

Podia pensar-se que eram amigos de longa data. Nada disso, Rui Moreira conheceu José Manuel Silva na sua vinda a Coimbra, para o apoiar, por ter acompanhado e admirado o seu percurso. Ignorando que o percurso de médico, docente e ex-bastonário da OM seja do interesse de Rui Moreira e que em política apenas seja referido como ex-militante do PSD, e ora candidato ‘independente’, é de crer que Rui Moreira já pense noutros cargos sob a capa de independente.

Fernando Nobre já tem substituto na ambição disfarçada no embuste da independência partidária. Chama-se Rui Moreira e estagiará para mais altos voos no segundo mandato como presidente da Câmara do Porto.

Assim se compreende a vinda a Coimbra, em benefício próprio.

Corrupção e silêncio partidário

A corrupção não é exclusiva de partidos políticos nem estes são responsáveis pelos atos indignos dos seus militantes, mas devem ser eleitoralmente punidos se permitirem a sua manutenção em funções sem lhes retirarem publicamente a confiança política.

Em Coimbra, em junho de 2007, com Paulo Portas a atestar a honradez da líder distrital do CDS, esta foi condenada a 2 anos e meio de prisão por peculato e outros delitos, tendo ficado provado que se apropriou de 15 mil euros dos transportes dos alunos da Lousã e de géneros alimentícios da cantina. Era um crime da D. Sónia se o CDS, após a condenação, a tivesse afastado do cargo, mas, um ano depois, continuava líder distrital e esgotou o mandato. A manutenção em funções, no mais alto cargo político distrital, com a cumplicidade partidária, foi uma baixeza do CDS e da Comissão Política Nacional.

***

O ex-administrador delegado dos Serviços Municipalizados dos Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC), Manuel de Oliveira, foi condenado, em 22 do corrente mês, a uma pena de prisão de três anos e meio, mas suspensa, por crime de corrupção passiva para ato ilícito.

O acórdão deu como provado que o arguido recebeu 20 mil euros, em 10 de abril de 2008, para dar preferência aos autocarros da empresa MAN nos processos de renovação da frota dos SMTUC.

O acórdão, por motivo de recurso para a Relação, não transitou ainda em julgado, mas surpreende que o PSD não lhe retire a confiança. Se não exercesse funções partidárias, seria apenas um caso, lamentável, é certo, de um militante partidário venal.

Mas acontece que o militante do PSD, que recusou receber o suborno em cheque e que foi a Braga onde esperou que fossem levantados em vários bancos, e em dinheiro vivo, 20 mil euros, é o presidente da Junta dos Olivais, uma das maiores freguesias do País.

Apesar de o crime ter sido dado como provado, o PSD aos costumes disse nada e o Sr. Manuel continua a ser o presidente da maior Junta de Freguesia de Coimbra e uma das maiores do País, com cerca de 39 mil habitantes, com o PSD e os partidos satélites em silenciosa meditação até à próxima e renovada coligação para outra vitória autárquica.

A cumplicidade partidária com autarcas corruptos envenena a democracia.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 29, 2017

Fazer humor com um morto

A Audiência Nacional de Espanha (Tribunal Supremo) acaba de sacrificar a liberdade de expressão ao respeito por um ditador fascista.

Fazer humor com um morto é uma questão de gosto, mas condenar quem o faz é um ato de censura e, quiçá, uma homenagem à ditadura que assassinou centenas de milhares de espanhóis.

A Espanha democrática rejubilou no dia em que o sinistro PM fascista, Carrero Blanco, foi liquidado graças à persistência e coragem da ETA, quando esta era uma organização antifascista, antes de se converter num bando terrorista.

Foi nesse dia que nasceu o grito estrangulado pela ditadura na garganta dos democratas: «Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!».

Hoje, mais de 40 anos após o dia em que a morte do substituto de Franco foi a metáfora da morte do fascismo, Cassandra Vera, estudante de História, de 21 anos, ficou a saber que a memória do ignóbil ditador que morreu confessado, comungado e fascista, ainda tem quem a zele.
 
Foi condenada a 1 ano de prisão por humilhação das vítimas do terrorismo, neste caso, de um cúmplice do terrorismo de Estado.

Não te cales, Cassandra. Um beijo.

Consumatum est

Pior, aconteceu em Ponta Delgada.


Apostila - Em Ponta Delgada mudaram o nome para João Paulo II.

terça-feira, março 28, 2017

Portugal e o Serviço Militar Obrigatório (SMO)

Noruega
Quando a Suécia regressou ao SMO e a França fez dele tema de campanha eleitoral, em Portugal, quer os políticos, quer as Forças Armadas (FA), enjeitam a discussão.

Em 1999, com o país ferido pela guerra colonial injusta, inútil e perdida, e as juventudes partidárias a fazerem enorme pressão, os partidos representados na AR, com exceção do PCP, votaram a extinção do SMO, quando o deviam ter tornado universal, alargado a ambos os sexos.

A injustiça e inutilidade da guerra colonial não tornou o SMO censurável. Indesculpável foi o destino que a ditadura fascista lhe traçou, mas acabou por ser a heterogeneidade da sua composição que contribuiu para o derrube da ditadura. Aliás, foi já com voluntários da GNR que Portugal participou no crime vergonhoso da invasão do Iraque.

Ninguém duvida de que as FA são apanágio da soberania e têm um alto valor simbólico cuja transferência para forças policiais diminui o significado e a dignidade democrática.

Hoje temos um arremedo de FA, com escassez de voluntários e incapacidade financeira de as suportar, com tendência para o poder ser transferido para uma força policial capaz de ser convertida em guarda pretoriana de uma futura ditadura.

Quando os valores da coesão pátria se diluem perante a inexorável globalização, quando o hino e a bandeira vão deixando de ser reverenciados, como deviam, quando a religião é cada vez mais – e bem –, assunto do foro privado, resta-nos a língua comum. E fazem-nos falta FA universais que ponham em contacto jovens do Minho, da ilha do Corvo, da Madeira e do Algarve, integrados numa vivência comum que argamasse a identidade do País que somos.

segunda-feira, março 27, 2017

Mudança horária


A inteligência desaproveitada

“Em 1989, quando era ministro das Finanças o Dr. Miguel Cadilhe e primeiro-ministro Cavaco Silva, o défice público português também foi de 2,1%. Não se trata, portanto, do valor mais baixo da democracia”, disse Passos Coelho aos jornalistas, no Luxemburgo.

O valor mais baixo do défice não foi 2,1%, foi 2,1%. Com tamanha sabedoria, chegou a PM!

Pensar que 2,1 é inferior a 2,1 explica a sedução de Cavaco por Passos Coelho


domingo, março 26, 2017

Em maré de canonizações...

Três defuntos políticos

Preconceitos elitistas e boçais

Eis como os europeus do "Norte" descobriram o significado da sigla “CGD”

Contrataram um técnico dos europeus do "Sul", no Algarve e eis o resultado:


sábado, março 25, 2017

COIMBRA: Elucubrações sobre independentes e eleições autárquicas…

Não há fome de não dê em fartura’ diz o ditado. Este aforismo popular – que a presente crise financeira vem desmentindo - pode aplicar-se às próximas eleições autárquicas em Coimbra.
Ontem, o jornal Público anunciava a hipótese de poderem existir três candidaturas independentes  nas próximas eleições municipais em Coimbra link.
 
Colocando de fora da apreciação político-partidária sobre o ‘perfil matricial independente’ destas candidaturas (quase sempre regidos pela análise burocrática de ficheiros) a questão premente que se coloca aos eleitores será a seguinte: Nos últimos tempos a cidade foi tão discutida publicamente na sociedade civil para surgirem no terreno da disputa eleitoral uma tal variedade de opções?
 
Ou seja, existem tantos e tão distintos projetos discutidos, pensados ou delineados para o concelho que sejam capazes de motivar os eleitores e ter credibilidade (‘pernas para andar’)?
 
Ou, pior, vamos ficar pelos habituais chavões de que Coimbra está numa espiral de perda de espaço, protagonismo, voz e ‘capacidades’, sem explicar com que planos e meios se pode inverter esta dramática situação?
 
Onde se tem discutido o crónico atavismo da cidade que se instalou à sombra de uma velha Universidade, também em perda no contexto nacional?
 
Coimbra não tem, propriamente, uma ‘sociedade civil’, no sentido 'gramsciano' do conceito. Terá, quando muito, uma sociedade ‘escolástica’, fechada, obtusa, ainda arreigada ao sentido medievo do termo em que misturam posturas científico-filosóficas (académicas) com poses piedoso-religiosas (judaico-cristãs).
Não vemos, pela urbe, uma sociedade civil de pé. Muito do que é visível está sentado, isto é, 'colado à cátedra'.
 
A emergência de candidaturas independentes, oriundas destes labirínticos meios só acidentalmente poderá ser abrangente. Na maioria dos casos não ultrapassará a confraria, a seita, o club, o grupo, isto é, o sectorial. Ninguém representa o que em Coimbra se designa como a 'cidade futrica' (expurgada do sentido pejorativo do termo).
A tentativa de mimetismo do ‘caso Rui Moreira’, vitorioso no Porto, não cola na Lusa Atenas. Nenhum candidato do grupo dos independentes tem um perfil ligado à cidade, ninguém ‘frequentou’ ou ‘batalhou’ no associativismo industrial, comercial, nos movimentos associativos ou sindicais, na reabilitação urbana ou, mais concretamente, na resolução dos problemas da ‘Linha da Lousã’.
Os exemplos sobre estas ‘notórias ausências’ são múltiplos e o denominador comum é que essas candidaturas estão impregnadas de um tosco ‘pára-quedismo’.
 
Na realidade, os receios políticos (e não obrigatoriamente partidários) devem ser outros e mais vastos. A dificuldade dos partidos em congregar os cidadãos em torno de projetos de desenvolvimento local que hoje é pública e notória o que, na prática, têm desinteressado os munícipes das políticas autárquicas, não pode (nem deve) ser substituída pelo renascimento de míticas e obscuras “forças vivas”, surgidas a eito e a preceito.
Sabemos como, no passado salazarista, esse ‘caminho’ foi capaz de arrebanhar gente para projetos à volta de espúrios modelos de ‘Nação’. Não devemos (re)incidir no mesmo engano (‘corporativo’) cujas consequências conhecemos e conduziu sequencialmente ao exorcismo dos partidos políticos e à liquidação da Democracia.
 
O que realmente ‘faz falta’ a esta cidade, como de resto a muitas outras, é criar e alimentar ‘movimentos cívicos’ (económicos, sociais e culturais) capazes de pensar, discutir, construir e propor soluções para as múltiplas questões de proximidade.
Assim, ou a atividade cívica era publicamente reconhecida e capaz de influenciar as estruturas concelhias partidárias colocando o acento na defesa do progresso, dos interesses populares e da qualidade de vida dos conimbricenses ou, em contrapartida, candidatos independentes (‘naturais’) nasceriam deste limbo participativo e caldeados pelas agruras e andanças associativas (consideradas num sentido lato). Andar com o carro à frente dos bois é que não!
 
Em resumo, a assunção de uma plena da cidadania conduz necessariamente à rejeição de continuar a representar – por esse País fora - o papel de ‘indígenas da província’. E isto é tão verdade para os candidatos partidários, como para os ‘independentes’.

Candidaturas independentes, partidos e democracia

Que os eleitores estejam descontentes com os partidos, compreende-se. Que têm dado motivos de desconfiança, pelo tráfico de influências e proteção aos seus fiéis, não será mera suposição. Que a democracia precisa de permanente escrutínio e de participação ativa, é um truísmo, mas é uma exigência cívica a que quase todos se furtam.

Pensar, todavia, que as candidaturas independentes sejam a solução ou sequer mezinha para corrigir os defeitos partidários, é ingenuidade, hipocrisia ou crença malsã.

O país não consegue fazer a reforma administrativa, com redução drástica de concelhos e freguesias, porque a contabilidade partidária e os empregos dependem largamente do poder local. A separação de Guimarães e Vizela ou de Loures e Odivelas, por exemplo, não passaram de novos troféus para a contabilidade partidária, satisfazendo rivalidades locais. Fátima e Canas de Senhorim só não entraram na atomização autárquica porque o bom senso de Jorge Sampaio contrariou a demagogia de Durão Barroso e as ambições dos caciques autóctones.

O que é uma candidatura independente? A de um desempregado político com relações e influência local, a de um preterido pelo seu partido ou a de um regressado de doze anos de edil, interrompidos durante quatro, por imposição legal?

O independente mais conhecido é o presidente da Câmara do Porto. É independente de que partido? É um monárquico próximo do CDS, que o PSD recusou, e que o PS e o irrelevante CDS não têm coragem de enfrentar. Vai ser eleito com os votos do PS, CDS, PPM, Rui Rio e uma autoconvencida aristocracia local.

Se vivesse no Porto e não houvesse candidaturas à sua esquerda, eu votaria no PSD.

sexta-feira, março 24, 2017

As religiões e o terrorismo

“Ó Profeta! Combate os descrentes e os hipócritas! Sê implacável com eles. E a sua morada é o Inferno – e que péssimo destino!” (Alcorão 9:73)

Há entre as crenças, religiosas, políticas e outras, uma ligação direta com a ação, e não se percebe a complacência de que gozam as crenças religiosas relativamente às outras. Não vejo que o nazismo, por exemplo, goze de igual benevolência.

Não é perigoso que se acredite que “Maomé ascendeu ao Céu num cavalo alado” ou que Cristo se tivesse adiantado, de forma incógnita, para o local geograficamente indefinido, mas foi catastrófico para os índios da América que os cristãos se sentissem obrigados a evangelizá-los, como é hoje, para europeus, a exigência islâmica da conversão universal ao profeta amoral e analfabeto com que os intoxicaram.

Ontem, no primeiro aniversário dos atentados que levaram o terror a Bruxelas, mais um atentado em Londres se juntou aos de 7 de julho de 2004, nos transportes, 30 de junho de 2007, com um jipe carregado de bilhas de gás em Glasgow (Escócia) e ao assassinato de um soldado por dois terroristas islâmicos, em 22 de maio de 2013.

Hoje, um homem foi detido na Bélgica ao tentar atropelar a multidão que percorria uma rua de lojas e empresas frequentada por milhares de pessoas em Antuérpia.

Paris parece hoje uma cidade em estado de sítio como, aliás, outras cidades europeias, e nos aeroportos sentimo-nos suspeitos ao sermos devassados, por precaução, depondo a liberdade no altar do medo.

Não podemos ser metódica e regularmente submetidos ao terror, vítimas da insegurança continuada e progressiva.

Os camicases japoneses acabaram depois de secarem as fontes de financiamento e de o deus por quem morriam (imperador) ter sido obrigado a negar a divindade própria, pelo general MacArthur. Mas era, e é, um deus real, talvez algo surreal.

É difícil obrigar um deus, de paradeiro ignorado, a negar-se, mas é urgente combater os seus desejos perversos e, sobretudo, secar as fontes de financiamento dos seus sequazes e reprimir os seus pregadores.

Bastava a crença no versículo supracitado para levar os crentes aos maiores desatinos. E permite-se aos pregadores continuarem a recitar centenas de versículos de igual jaez!

Até quando?

quinta-feira, março 23, 2017

Afinal, há milagres!

Francisco e Jacinta não aprenderam a ler em vida, mas aprenderam a obrar milagres em defunção.

Já é o segundo milagre que obram em “joint venture”, situação rara, que os vai conduzir à santidade, em apoteose pia, no próximo dia 13 de maio, no 1.º centenário da estreia do mariódromo, no cocuruto de uma azinheira.

Jeroen Di[j]sse…

As declarações do inefável ministro das Finanças holandês e ainda presidente do Eurogrupo, o Sr. Jeroen Dijsselbloem, geraram múltiplas reações de repúdio.
Todavia, elas ultrapassam o ‘incómodo imediato’ e vão pôr à prova a solidariedade europeia, num momento em que a crise internacional tem amplos reflexos internos (na UE).
 
Na verdade, as descabeladas declarações de Dijsselbloem são uma edição tardia, requentada, deslocada e anedótica da ‘narrativa oficial’ de alguns centros de decisão europeus sobre uma eventual vivência de alguns países ‘acima das suas possibilidades’, teoria elaborada pelos laboratórios ideológicos neoliberais, para justificar ‘experimentalismos’ e impiedosos ‘ajustamentos’ que se abateram sobre milhões de cidadãos europeus.
Julgávamos que essa ‘narrativa’ tinha sido definitivamente enterrada pelos factos e pelas evidências que foram surgindo ao longo da crise. Atribuir as causas da crise aos povos e/ou a circunstâncias de governação nacionais é ‘tomar a árvore pela floresta’ ou, se quisermos ser mais clássicos, a ‘nuvem por Juno’.
Na realidade, a crise começa nos mercados financeiros e desenvolve-se no sector financeiro à sombra de desenfreadas especulações e de um vasto conjunto de impunidades, imparidades e inconformidades (ditados pela ausência de regulação).
A tirada ‘xenófoba e sexista’ do ministro holandês é muito do estilo da boçalidade portuguesa para caracterizar individualmente vidas (nunca grupos ou países) mais boémias, devassas e libertinas oralmente traduzidas pelo popular e boçal jargão: “putas & vinho verde”. Bem sei que não foi exatamente isto que disse mas andou lá perto (salvo a devida distância que vai entre mulheres e a prostituição).
 
As declarações do Dijsselbloem ao jornal alemão Frankfurter Allgemein Zeitung são politicamente um haraquíri.
Não há outra leitura, excepto, para o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schauble link.
 
A sua inevitável demissão levanta uma outra questão (prévia): como foi possível uma mente mesquinha, intelectualmente tão débil e politicamente desastrada manter-se tanto tempo na presidência do Eurogrupo.
O que há de errado nas instituições europeias que permitem alarvidades desta natureza?
 
Quando a poeira assentar, isto é, quando o Eurogrupo voltar a reunir, os europeus – todos e não somente os dos países do Sul – tirarão naturalmente as suas conclusões. Se Dijsselbloem permanecer no cargo, à custa do suporte de Berlim, espero que os neoliberais radicais não venham com a velha história dos preconceitos anti-germânicos. Mas, uma coisa é certa, a sua 'não-demissão' empestará, irremediavelmente, o ambiente europeu.
 
Para já parece necessária e imperiosa uma tomada de posição de força. Os países do Sul, vilipendiados pelo assumido capataz de Schauble, deveriam condicionar a sua presença na Reunião de Roma, que decorrerá no próximo dia 25 para a comemoração dos 60 anos dos Tratados Europeus, à prévia demissão de Dijsselbloem das funções que exerce nas Instituições europeias.
O ‘espírito de Roma’ assim o impõe.

De Cavaco e Barroso a Donald Trump

A mentira tem a perna curta, mas os mentirosos têm muitas pernas. Parecem centopeias.

O FBI investiga suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, o que, a ser verdade, é um grave risco para a segurança dos EUA, mas Trump, talvez para desviar atenções, acusou Obama de o espiar durante a campanha eleitoral, recorrendo à mentira como tática e à calúnia como estratégia.

É irrelevante que o Departamento de Justiça e o FBI não tenham quaisquer indícios de que Trump tenha sido escutado e espiado a mando do ex-Presidente Barack Obama, o que interessa é o ruído necessário e suficiente para desviar as atenções.

A pós-verdade prenuncia a pós-liberdade, a tragédia que parece corroer as mais sólidas democracias mundiais. O perigo não é a mentira, é a indiferença dos cidadãos à mentira mais torpe e à mais aleivosa das acusações. A anestesia cívica produz gera impunidade e insensibilidade ao embuste.

Trump não é pioneiro, Hitler usou a estratégia com êxito. Aliás, a mentira ganha sempre as primeiras batalhas, apesar da tendência para acabar derrotada.

O PR americano faz a síntese de dois políticos portugueses, agora ávidos de recuperar a confiança dos portugueses, Cavaco Silva e Durão Barroso.

Cavaco, que exige que se nasça duas vezes para ser mais sério do que ele, foi percursor das escutas falsas para prejudicar um partido de que não gosta. Atribuiu à máquina do PS a paternidade da mentira cujo mérito enjeitou.
Barroso, entusiasta da cimeira que definiu aos portugueses como a última oportunidade para a paz, sabia decidida a guerra e falso o pretexto, mas, anos mais tarde, insinuou que o PR, Jorge Sampaio, apoiou a invasão, para depois esclarecer que só concordou com a reunião (a política externa é da exclusiva competência do Governo) e acabar a garantir que foi a primeira pessoa a quem informou da criminosa reunião.

Ainda ressoam os insultos a Sampaio, que ninguém lhe ligava e que a invasão do Iraque era a porta aberta à prosperidade de Portugal na viagem conjunta com os EUA, o Reino Unido e a Espanha, quer ele quisesse ou não. Não pôde empenhar as Forças Armadas do ministro Portas, mandou a GNR, do M.A.I.

Cavaco e Barroso são versões paroquiais, percursores de Trump à escala global.

Ponte Europa /Sorumbático

quarta-feira, março 22, 2017

A frase

“Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda.”

(Jeroen Dijsselbloem, presidente do Conselho Europeu, ministro das Finanças do maior offshore da União Europeia (Holanda), paquete do Sr. Wolfgang Schäuble, numa alusão aos países do sul da Europa).

Nota: Até na tradução de ‘vinho verde’ por ‘aguardente’ adulterou uma frase boçal portuguesa.

Nós e o ex-jovem turco António Barreto

Não tenho por António Barreto, o sociólogo a quem Mário Soares entregou o ministério da Agricultura e fez dele, por más razões, figura mediática, qualquer ódio de estimação, mas não desprezo o missionário da direita civilizada com aura de independente.

É a faceta civilizada e a bem cuidada aparência de equidistância que mais me enfastiam no seu ódio de estimação à esquerda, a qualquer esquerda à esquerda da pior direita, no jeito de quem transitou pela esquerda, saindo do PCP pela esquerda, e apanhou a boleia do PS a caminho da direita pura, dura, sem concessões, em solavancos renovadores.

António Barreto (AB), falhada a carreira política de quem se julgava ungido para líder e ideólogo, dedicou-se à análise política nos órgãos de comunicação social, com especial relevo e proveito na televisão.
No DN tem uma coluna semanal onde faz política e publica fotografias, onde se revela bom fotógrafo, sofrível analista e obsessivo adversário da esquerda. «Sem Emenda» é o nome da coluna que, na última semana, intitulou «Nós e os Turcos».

AB não aceitou que dois ministros turcos fossem impedidos de entrar na Alemanha e na Holanda a apelar ao voto dos emigrantes no referendo que confere a Erdogan poderes totalitários, e explica a ‘estranha’ falta de protestos europeus, de esquerda ou de direita:

(…) «A complexidade do problema explica o silêncio. A esquerda calou-se, envergonhada, porque simpatiza com os muçulmanos e com os imigrantes, porque lhe custa defender a ideia de que os estrangeiros “de direita” possam fazer reuniões políticas no estrangeiro, porque não gosta de Erdogan e (…)».

Onde descobriria o ex-comunista a simpatia da esquerda por muçulmanos xenófobos, misóginos e comunitaristas? Afastou-se tanto da esquerda que confunde a solidariedade com os refugiados e a cumplicidade com o fascismo islâmico.

Há entre nós e o ex-jovem turco um abismo que nos separa, mas não devemos deixar à solta, impune, no espaço mediático, o trânsfuga AB.

terça-feira, março 21, 2017

A Europa e os “se’s” da candidatura Schulz…

A crise da União Monetária tem ingredientes capazes de reativar a esquerda europeia. Na fase aguda da crise muitos partidos sociais-democratas entraram em ‘pasokitização’, por uma razão muito simples: apoiaram direta ou indiretamente a austeridade e tudo aquilo que lhe está inerente e a envolve.

A ‘tentação pelo abismo’ (capitalista) existiu e conduziu a social-democracia para o desastre. Em muitos países surgiram ‘Esquerdas’ alternativas, multifacetadas, muito indignadas que percorrem um amplo leque de opções: desde os populismos esquerdistas (contestatários) até à reedição das velhas conceções trotskistas. Do outro lado, isto é, na Direita, o terreno tornou-se fértil para o crescimento de movimentos populistas e nacionalistas.
Este, na sua essência, o figurino europeu que vai dominar a Europa este ano.

Para trás ficaram já 2 momentos essenciais. O 'Brexit' e as eleições Holandesas. Pela frente a proximidade do ato eleitoral presidencial em França e, finalmente, as eleições alemãs. Na realidade, a Europa está pendurada nos resultados das eleições germânicas que ocorrerão lá para o Outono. Estas não oferecem tantos riscos democráticos como as francesas mas têm um elevado significado. Não está em causa a possibilidade da extrema-direita alemã influenciar o novo governo mas sim o resultado de uma cíclica disputa entre o SPD e a CDU (Merkel e Schulz).
Não é muito auspicioso este embate porque não aporta nada de novo quer em estratégia, quer em doutrina.

Todavia, o ‘ano eleitoral europeu’ que está a decorrer poderá ser a última oportunidade para analisar (sem dogmas neoliberais) e tentar reverter (sem descontrolos orçamentais) os efeitos das medidas de austeridade impostas pelos conservadores a toda a Europa que 'destroçou', de alto a baixo, o 'projeto europeu'.

Não é nítido (nem adquirido) que a candidatura de Martin Schulz a chanceler venha a condicionar uma mudança da social-democracia alemã que (ainda) vive à sombra da ‘viragem liberalizante’ de Gerhard Schrōder, desencadeada no final do século XX e início do XXI, com a célebre “Agenda 2010”. O SPD saiu dessa ‘agenda’ ensanduichado entre o Die Linke e os Verdes e, em consequência, perdeu quase toda a força e influência política.
Até ao Outono Martin Schulz terá oportunidade de ponderar as causas (remotas) do ‘tombo’ da social-democracia alemã, do pós-Schrōder, e mais tem condições objetivas para recolocar o SPD no seu lugar histórico. Se o conseguir fazer, ultrapassando as barreiras internas presentes e se, apesar disso, lograr uma vitória, será uma grande momento para a Esquerda Europeia.

Reconheçamos, contudo, que pelo meio deste atribulado processo existem muitos… ‘se(s)’.

Ponte Europa (2.ª Edição) - Apresentação na Guarda

Amável deferência de Joaquim Igreja sobre o lançamento da 2.ª Edição do livro «Ponte Europa» na Guarda.

Carlos Barroco Esperança, ex-aluno do Liceu Nac. da Guarda, autor de PEDRAS SOLTAS, acaba de lançar a 2ª edição de PO...
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segunda-feira, março 20, 2017

PàF – Réquiem de um pesadelo

As declarações de Assunção Cristas na entrevista ao Público não podem ser vistas como falta de experiência de uma ministra que caiu no ministério da Agricultura como Pilatos no Credo Romano.

Quem participa em reuniões virtuais do Conselho de Ministros e subscreve uma decisão política por email não ganha credibilidade política, sobretudo com a anuência implorada pela colega das Finanças, sem ponderação, numa matéria tão relevante como a decisão sobre o futuro do grupo GES/BES, e sem consciência de que as decisões coletivas do Conselho de Ministros comprometem individualmente todos os seus membros.

Assunção Cristas disse que “O Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca”, atribuindo a responsabilidade do colapso do BES a Passos Coelho, e, de uma só vez, mostrou a leviandade de todos os ministros do PSD e do CDS. Com a entrevista, ficámos a conhecer melhor a qualidade dos agentes políticos que durante mais de quatro anos procuraram desmantelar o Estado social movidos por radicalismo ideológico.

A líder do CDS, ao denunciar publicamente o que se passava no Executivo, colocou-se à altura de Cavaco Silva, quando revelou as reuniões institucionais, sigilosas, entre o PR e o PM. A decadência ética da atual direita não é presunção, é uma evidência.

Há várias conclusões a tirar da entrevista de Assunção Cristas, mas a mais importante é a da decomposição da coligação com que Cavaco queria continuar a fustigar o País que o elegeu.  Os líderes provisórios do PSD e do CDS não requereram o divórcio litigioso, mas anunciaram já a separação de pessoas, apesar da comunhão de interesses.

Finalmente, estão a servir o País.

sábado, março 18, 2017

Crónica de Fim de Semana

A Escola do Magistério Primário da Guarda (EMPG) e o corpo docente

Quando em 1959 entrei naquele estabelecimento de ensino médio, logo consagrado com o epíteto de aluno-mestre, dei-me conta do regime concentracionário daquele antro onde a moral e os bons costumes eram defendidos da forma que seria designada por bullying, décadas depois. Em breve, o liceu pareceria um espaço de liberdade.

A docência e a decência eram ali inconciliáveis. O edifício ficava em frente da antiga prisão, poucos anos antes mudada para um imóvel na periferia da cidade. Eu recordava ainda os sacos de pano suspensos de um cordel, que ondulavam sobre o passeio, onde alguns transeuntes introduziam cigarros ou moedas que os presos recolhiam na cela.

Não sei se houve algum mimetismo a contaminar a EMPG e o seu diretor. Notavam-se algumas diferenças, desde o formato das grades ao aspeto dos carcereiros, talvez por mero acaso, mas respirava-se o medo e sentíamo-nos igualmente espiados.

Na indigência do corpo docente havia exceções. O professor de Higiene era um médico de rara delicadeza e simpatia, excelente comunicador e culto. A deficiência física, com anomalias graves do esqueleto que o obrigavam a conduzir um carro adaptado, não lhe contaminou o cérebro. Parecia deslocado, tal como a idónea professora de Desenho, calma e humana, ostracizada pelos colegas. Só mais tarde soube que a D. Fernanda era divorciada, nódoa indelével na EMPG, que fazia a síntese entre o cárcere e a sacristia.

Armando Saraiva de Melo era bom docente de Psicologia infantil, comparável aos já referidos, mas medíocre diretor e execrável cidadão, reacionário e déspota. Presidente da União Nacional no distrito da Guarda, imprimia um cunho ideológico à instituição e tornou-a um veículo de propaganda do regime.

Os outros professores, recrutados por convite, caíram no corpo docente como Pilatos no credo romano. Não eram recomendáveis. A Pedagogia fora entregue ao prof. Lourenço, um bom homem, temente a Deus e ao diretor, afeito à submissão do seminário e incapaz de ir além do compêndio. O ensino primário perdeu o bom professor e a EMPG ganhou um medíocre. Em Didática e Legislação Escolar o professor Vasco debitava os livros oficiais, desenvolto da parte da manhã, e titubeante depois do almoço. O de Educação Física, Crespo de Carvalho, usava as aulas para propaganda monárquica e salazarista e, se acaso sabia preparar professores para a educação física das crianças, não o chegámos a saber.

O padre Melo, que depois do 25 de Abril deixaria o múnus, lecionava a disciplina de Música e divertia-se a gozar os desafinados. O padre Queijo Cabral era o professor de Religião católica, disciplina obrigatória no currículo académico e na prática individual, cuja prova escrita tinha como pergunta sacramental: «as provas da existência de Deus», onde levei longe a dissimulação e o brilhantismo referindo-lhe as provas de Tomás de Aquino, um santo doutor da sua Igreja, estudado no 7.ºano do liceu na disciplina de Filosofia, cadeira que preparei, à margem do curso, para o exame liceal. Era obrigatória a cadeira de Religião Católica e não havia aulas de Português.

A missa da consagração do curso era obrigatória. Levei tão longe a dissimulação que, na missa, depois de o Ricardo ter avançado para segunda hóstia, o diretor não o tinha visto na primeira, acabei com o Tamagnini a estender a língua à rodela de pão ázimo que o padre distribuía a todos os finalistas.

A Escola do Magistério não era uma instituição estimável, já o disse e devo repeti-lo. O Diretor era, por inerência, chefe da secretaria e o 3.º oficial, Sr. Preto, de baixa estatura física e ética, era arrogante, grosseiro e vingativo. Julgava-se dono da loja e humilhava os alunos. Levei escondido um rolo de papel higiénico para pegar no diploma de curso que aguardei em longa fila, para lhe dizer que não queria sujar as mãos onde estiveram as dele, deixando-o aos gritos, dentro do balcão, enquanto virei costas ao antro.

Até os contínuos eram do piorio. Um era fortemente suspeito de ser informador da Pide e a D. Sofia a megera que palpava as pernas às alunas para apurar se levavam meias. As de vidro eram transparentes e obedeciam à pudicícia imposta, mas após o conhecimento de que uma aluna escarnecera as normas, imitando a costura, com um risco a lápis nas pernas desnudas, a D. Sofia encarregou-se de apalpar as pernas num espetáculo obsceno de humilhação e impudor, à entrada na Escola.

Foram dois anos penosos que terminaram com a fotografia de curso tirada no seminário, na companhia insólita do bispo, o reacionário Policarpo da Costa Vaz, e com a missa de consagração na igreja da Misericórdia, sempre sob a vigilância policial do diretor Melo.

A Escola era a caricatura do salazarismo. Dela, da indigência pedagógica e da repressão, ficaram os afetos entre colegas, sólidos e imperecíveis, de um tempo e lugar onde os afetos públicos eram vigiados e a aproximação do automóvel do diretor (EA-29-82) causava calafrios.

sexta-feira, março 17, 2017

As eleições holandesas

As eleições holandesas não podem ser reduzidas a exercícios contabilísticos, à contagem de cadeiras no Parlamento, aos avanços e recuos eleitorais e a especulações sobre prováveis coligações governativas. Na realidade, existiu algo para além disso.

O que aconteceu na Holanda foi mais uma oscilação do eleitorado que se revelou extremamente crítico para com o sistema político-partidário vigente e simultaneamente uma profunda fragmentação do eleitorado.
Numa leitura desapaixonada dos resultados dificilmente se conclui que o ‘perigo populista’ foi contido. Na verdade, o partido do fascista e racista Geert Wilders resistiu aos mecanismos de exclusão que se desenharam no leque partidário holandês. À partida os populistas não tinham qualquer hipótese de vir a integrar um futuro governo o que é um handicap eleitoral, nomeadamente para a Direita, que não aprecia os protestos platónicos e muito menos afirmações de princípio ideológicas (que de facto o populismo não alberga).

Numa análise preliminar dos resultados eleitorais holandeses não deve ser excluído o receio de que o partido de Geert Wilders (Partido para a Liberdade – PVV) tenha conseguido caminhar no sentido de uma consolidação do seu eleitorado (subiu 3% em relação às eleições de 2012). Facto que não pode ser considerado como sendo um bom auspício.

Por outro lado, não basta verificar que os partidos tradicionais perderam influência eleitoral havendo inclusive casos de ‘pasokização’ (Partido do Trabalho - PvdA). A grande mudança verificada foi uma profunda fragmentação do espectro político – uma autêntica ‘pulverização’ – (concorreram às eleições 28 partidos) em que à margem de conceitos e construções ideológicos capazes de efeitos agregadores emergiram por todo o lado múltiplas formações de bases locais, sectoriais e até de sectores religiosos (p. exº. União Cristã – CU cujo fundamento ideológico é a Bíblia!).
Foi uma espécie de 'festival de lobbys' que desceu ao terreno para se afirmar e influenciar a política.

O partido vencedor (Partido Popular para a Liberdade e Democracia – VVD), dirigido por Mark Rutte, representa cerca de 1/3 dos eleitores e não tem uma tarefa fácil pela frente. Qualquer coligação que venha a ser formada, dado o espectro partidário existente, será pouco coesa. O VVD é um partido liberal do Centro-Direita e a atual situação pós-eleitoral mostra que poderá ser muito complicado dispensar parte da esquerda (latu sensu), onde se inclui o D66 (radical, progressista e social-liberal), pelo que as negociações, para formar um novo Governo, deverão arrastar-se. Não vai ser fácil arranjar parceiros para prosseguir uma política de austeridade. Todavia, não deve ser esquecido que há 7 anos (2010) Rutte formou um governo que beneficiou do apoio parlamentar de Geert Wilders.

Um dos partidos que mais subiu nestas eleições (6,6%) foi a Esquerda Verde (EV), facto que significa a transferência de votos da social-democracia liberalizante, muito ao estilo Blair, que estava sediada no Partido do Trabalho, para o Centro (VVP) e para a Esquerda (EV).
Todavia, é previsível que dado os seus antecedentes históricos e nomeadamente as suas conceções económicas e de redistribuição da riqueza este agrupamento não venha a integrar uma futura coligação governamental liderada pela Direita.

Finalmente, o mais importante é ter a noção do que está a acontecer em alguns países da Europa: uma penosa e galopante bipolarização. Os populistas (e nacionalistas) contra uma amálgama de ‘outros’ que vão desde os eurocéticos, aos sociais/liberais, aos radicais, aos anticapitalistas passando pelos que pretendem regulamentar da imigração sem a ‘excomungar’, i. e., absorvendo as notórias tensões sociais.

Na realidade, neste momento, na Europa, a ‘iniciativa política’ está do lado dos populistas de Direita estimulados pela eleição de Trump.  As eleições holandesas representam um suspiro de alívio mas não permitem tirar ilações para futuro. A bipolarização vai continuar a pairar sobre os europeus. Enterrar a cabeça na areia e esperar que nada aconteça é a pior atitude que poderemos adotar.

Sócrates e a Justiça

Quando em 1960 fiz exame de «Organização Política e Administrativa da Nação», (7.º ano liceal) aprendi que os juízes eram independentes, irresponsáveis e inamovíveis, atributos que não eram privilégio dos julgadores, mas a garantia da defesa dos cidadãos.

Apesar de a ditadura fascista ter aviltado a Justiça com Tribunais Plenários e de ter visto no juiz Morgado Florindo uma caricatura perversa, não duvidei de que os Tribunais são o último reduto da democracia.

Por estranho que pareça, continuo a pensar assim e, por isso, não me tenho pronunciado sobre o caso mediático do julgamento de um antigo primeiro-ministro.

Não me pronunciei quanto às constantes violações do segredo de justiça, permaneci em silêncio quando o julgamento foi feito na praça pública, respeitei a ética republicana de considerar que o Estado de Direito reside na separação dos poderes.

Com o processo a caminho de 4 anos, depois de sucessivos adiamentos dos prazos para deduzir acusação, o último adiamento deixa-me perplexo. Não me constrange a ideia de que quem é contra o poder arbitrário é cúmplice dos corruptos. Há aqui poder arbitrário.

Há um tempo para deixar à Justiça o que é da Justiça. Chegou o tempo de pedir contas dos abusos quanto aos prazos e do medo que infunde o poder discricionário. Depois do novo adiamento e de se afirmar na comunicação social que a prisão preventiva terá sido ilegal, a decisão dos juízes corre o risco de ser vista como politizada, como se os crimes tivessem partido ou os juízes se subordinassem aos interesses eleitorais.

Li ‘O Processo’ de Franz Kafka e partilhei a angústia do seu personagem Josef K.. Não quero que façam do antigo PM um Josef SóK. português, porque é a Justiça que agora vai ser julgada com a convicção de que os prazos judiciais são meros conselhos.

As prorrogações, tal como as medidas de segurança, podem ser indeterminadas para ele e para qualquer de nós. São uma prorrogativa da PGR.

Basta!

Holanda - O pior não aconteceu


quinta-feira, março 16, 2017

Cimeira das Lajes – Ilha Terceira, 16 de março de 2003

Na tarde de hoje, há 14 anos, na base das Lajes, teve lugar a cimeira da guerra onde, em macabra encenação, foi anunciada a invasão do Iraque.

George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar foram recebidos pelo mordomo luso, que fora a Londres ver as provas das armas químicas de Saddam Hussein, mentira que serviu de pretexto à agressão. Os sinistros cruzados já antes tinham decidido a invasão que ali fingiram acordar. Isso mesmo veio a ser confirmado num relatório parlamentar britânico.

Na Assembleia da República, em Portugal, o PSD e o CDS, então maioritários, votaram a participação no crime. Só não seguiu uma força militar, com desgosto de Paulo Portas, então ministro da Defesa, por oposição do honrado PR, Jorge Sampaio, invocando a sua qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas. A direita parlamentar e o seu governo avançaram então com um contingente da GNR.

Barroso, esse gigante da ética, videirinho e vil, havia de dizer, muito depois, que teve o apoio do PR, reincidindo em mais uma mentira que apenas reforçou a pusilanimidade do cúmplice.

Hoje, volvidos 14 anos, centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, são as vítimas desse crime cujos autores ficarão impunes.

A luta contra o esquecimento exige que se recordem os autores amorais da invasão que destruiu um país, destabilizou o Médio Oriente e perturba o Mundo.

Não podemos esquecer.

A República, o Sr. Duarte Pio, as figuras e os figurões de Estado

O estranho tropismo do PR para os dedos anelares do clero compromete o carácter laico e republicano do cargo, apesar da isenção e sentido de Estado com que o tem exercido. É, aliás, o único reparo que posso e devo fazer a quem, sendo de uma família política diferente, não tenho o direito de exigir que partilhe os meus pontos de vista.

Surpreendente é a posição dos cidadãos, ou melhor, vassalos, que ocupam ou ocuparam altos cargos da República. Refiro-me a uma petição para que fui alertado por um sólido Historiador e estimado amigo, Amadeu Carvalho Homem.
“Petição quer incluir o duque de Bragança no protocolo de Estado”. Eu julgava extintos os títulos nobiliárquicos desde a implantação da República e o Sr. Duarte Pio um mero ornamento das revistas do coração, sem prejuízo do humor que o ridículo produz.

Acontece que pessoas tidas por normais, algumas com farta erudição e aparentemente saudáveis, são subscritoras de tão idiota petição num regime cuja irreversibilidade é exigência da Constituição que alguns deles juraram.
Não me interessa a progenitura do Sr. Duarte Pio, improvável Bragança, e desculpo-o do orgulho que exibe na ascendência miguelista de má memória.

O que não desculpo é a afronta da introdução na hierarquia do Estado de um furúnculo legado por via uterina e o demente desejo de alterar o protocolo de Estado com adereços vitalícios e sem legitimidade democrática. Querem alterar a legislação de 2006 porque há algumas dificuldades protocolares quando o sr. Duarte Pio é convidado para eventos. Então por que motivo e a que título o convidam?

Que o presidente da Câmara do Porto espere que o façam visconde é uma inanidade que se respeita; que um fascista, Jaime Nogueira Pinto, queira a monarquia é um direito; que Paulo Azevedo, rei dos supermercados queira ser marquês, tem dinheiro para comprar o título; que Carmona Rodrigues, Diogo Feio, Nuno Melo, Telmo Correia, Mota Soares e outra tralha do CDS desprezem a República é uma honra para a República, mas que um conselheiro de Estado, Lobo Xavier, por menos recomendável que seja, e é, ou Adelino Maltez, pertencente a uma instituição respeitável, o GOL, juntem as suas assinaturas a tão más companhias só há três explicações possíveis: estão onde não devem, são miguelistas (extrema direita) ou ensandeceram.

Ou acumulam.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 15, 2017

O Tribunal Europeu de Justiça (TEJ) e a exibição de símbolos religiosos

Conciliar a liberdade e o proselitismo religioso é tarefa difícil, na Europa, onde alguns imigrantes desprezam a cultura autóctone e fazem provocações. É neste contexto que o TEJ concedeu ontem às empresas europeias o direito de proibirem aos trabalhadores o uso de símbolos religiosos visíveis nos seus locais de trabalho.
Não é o uso que se proíbe, é a exibição, e conhecemos a vocação religiosa para afrontar a laicidade, que faz parte do ethos civilizacional que urge defender, e está a ser atacada.

Esta jurisprudência tem contra ela prosélitos de várias religiões, intelectuais de vários matizes e sobretudo a cobardia do politicamente correto.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que insiste em ornamentar as cerimónias profanas com as vestes talares dos seus dignitários e acolher os governantes sob o pálio, já contestou a decisão e avisou que pode estender-se a todos os sinais religiosos. Claro que pode (aos ostensivos) e, na minha opinião, deve. Um padre, pode ser médico, e não deve dar consultas de batina e colar romano num hospital público. Um bispo também, mas não lhe deve ser permitido levar a mitra e usar o báculo para apontar a anatomia do corpo humano. E isto é válido para um rabino, um mulá, uma devota do véu romano e frades e freiras de qualquer religião.

Paulo Mendes Pinto, fundador da Academia Europeia das Religiões, um académico que estimo, afirmou que, na véspera das legislativas na Holanda, “o timing desta decisão não podia ser pior”. Conheço este diretor da Licenciatura e do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, onde também dirige o Instituto Al-Muhaidib de Estudos Islâmicos. Habitualmente estamos de acordo, agora não.

A comunicação social dá relevo a todas vozes contra a decisão do TEJ sendo omissa em relação às favoráveis. Aqui fica o meu aplauso. De pé.

Quanto à proibição do véu islâmico por uma empresa, que agora viu reconhecido o seu direito, em nome da neutralidade religiosa que exige no local de trabalho, levantam-se vozes a dizer que muitas mulheres vão ser excluídas do emprego.

Lembro-me do Sr. Lopes, padeiro e alcoólico, perplexo perante o anúncio televisivo da lei que limitou o consumo de álcool aos condutores. Ele, que não tinha carro nem carta, exclamou: «Então, a partir de agora, não se pode conduzir».

Talvez possamos compreender a posição de José Rentes de Carvalho, democrata que teve de exilar-se durante a ditadura fascista e hoje um conhecido escritor luso-holandês: “O problema é que ele (Wilders) não pode realizar o que promete, pelo que votar nele é uma forma de protesto. Por isso vou dar o meu voto a Wilders (líder da extrema direita).

Não podemos continuar a ignorar as agressões do fascismo islâmico à cultura europeia.

terça-feira, março 14, 2017

Guarda - Hoje


Será verdade?


segunda-feira, março 13, 2017

Assunção na ‘crista’ da onda….

Assunção Cristas a nova dirigente do CDS/PP gosta de alardear e indignar-se com aquilo a que chama as mentiras (dos outros).
 
De quando em vez, na tempestade demagógica que vem alimentando, escorrega e estampa-se.
Quando afirma na entrevista ao Publico que em relação ao Governo a que pertenceu “Nem BES, nem BANIF, nem CGD: O Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da Bancalink está a tentar dourar a pílula (já chega de epítetos à volta de 'mentiras').
 
Na memória de todos está a famosa “resolução do BES” em Agosto de 2014, link, decidida pelo Governo de então, em inusitada votação ‘eletrónica’. Ora, este passo tratou-se de um indesmentível envolvimento nas questões da Banca e dada a celeridade com que se ‘fabricou’ a resolução faz todo o sentido entender que o assunto já tinha sido discutido em reuniões ministeriais anteriores ou, então, concluir que se tratou de uma decisão leviana. A escolha é difícil.
 
Para continuar a dourar a pílula Cristas afirma que deu o seu Ok (eletrónico) ao diploma governamental para resolução do BES, 'no escuro’, isto é, sem o conhecer, sem o ler, sem o discutir link.
Tudo isto em nome de uma suposta solidariedade, cega, surda e muda. Só que, para memória futura, fica a notória irresponsabilidade que esta anuência encerra.
 
Todos sabemos que o Governo de Passos Coelho pouco ou nada fez pela banca, mas ‘não havia necessidade’ de uma tão orgulhosa partenaire de Passos Coelho e Portas vir a terreiro lavar as mãos com areia que depois tenta atirar-nos para os olhos. 
 
O CDS e o PSD fazem que velam pela Banca quando estão na Oposição  e dia sim/não salta mais uma comissão parlamentar de inquérito. Quando estão no Governo o assunto é marginal ou, então, um 'não-assunto'.
Devemos tomar nota desta ‘inconformidade’ governativa e bancária… e registar a ‘chicana’.

A eleição do Papa católico Francisco – 4.º aniversário

Há 4 anos, num consistório, quiçá com a ausência do Espírito Santo (não, não é esse em casa de quem foi engendrada a candidatura de Cavaco Silva a PR, é o da Trindade, a quem se atribuía a obrigação de iluminar os cardeais e hoje reduzido à toponímia ou encontrado na reserva ecológica dos Açores ou no Brasil), foi eleito Papa o cardeal Jorge Bergoglio.

Bergoglio ganhou aí o direito de mudar de nome e um cargo vitalício cuja longevidade dependia da prudência e dos cuidados. Durou já muito mais do que os mais otimistas vaticinavam.

É verdade que continua a conformar-se com os milagres dos defuntos, a criar santos e a participar no “road show” publicitário aos santuários que atraem mais turismo pio, mas o que pode fazer o CEO de uma multinacional da fé onde escasseiam novos produtos e sobram velhas superstições?

Relevante é o que é capaz de fazer pela paz e pela justiça social. E nisso, Francisco, sem provocar o êxtase de Zita Seabra, Aura Miguel ou João César das Neves, mais devotos de João Paulo II e da sua cumplicidade com Reagan e Thatcher, tem sido o intérprete de muitos homens e mulheres de “boa vontade”, para usar a expressão com que João XXIII enciclicou pela primeira vez os nãos crentes.

Pelo que se adivinha da sua coragem e determinação para ser agente da transformação do mundo, onde a riqueza de oito homens é igual à de 3 mil e quinhentos milhões dos habitantes mais pobres do Planeta; pela defesa da paz e da luta contra a pedofilia no seio da sua Igreja; pela ousadia em enfrentar a Cúria e denunciar os interesses que dilaceram a Humanidade, merece que um ateu manifeste solidariedade ao Homem.

Aqui fica este registo.

As convulsões turcas numa Europa sitiada e assediada …


O governo turco desdobra-se pela Europa fora com o intuito de angariar apoios para o ‘golpe Erdogan’ que passa pela concentração e alargamento de poderes do Presidente da República.

Os problemas desta inflexão política, utilizando meios obscuros mas de alcance nítido, começaram no próprio País. Na verdade, o Presidente turco começou por não conseguir reunir eleitoralmente o quórum necessário para proceder a tais mudanças. No seguimento deste bloqueio constitucional realiza, oportunamente, novas eleições e consegue, para o seu partido (AKP), reconquistar uma nova maioria à custa de um elevado preço que esconde, na prática, a exclusão da oposição (Partido Republicano do Povo / CHP) e dos curdos (perseguidos quer no independentista PKK quer no ‘liberal’ HDP) de participarem na vida pública.
Depois, ocorre a tentativa de golpe de Estado, de contornos ainda pouco explícitos, que foi de imediato aproveitada para depurar profundamente as Forças Armadas e o Poder Judicial, baluartes do regime laico construído por Atatürk. Paralelamente, desenvolveu uma intensa atividade manipuladora dos sistemas de ensino que acusou de estar ao serviço do seu arqui-inimigo Fethullah Gülen e, finalmente, manietou a comunicação social, silenciando tudo o que lhe parecesse hostil à sua pessoa, ao seu partido e a senda islamizante.

A tentativa de concentrar poderes na Presidência da República terá de ser feita à custa de alterações constitucionais relevantes das quais avulta o fim da independência do poder judicial que o Governo de Ankara deseja ver ratificado em referendo.
Ora, estes ingredientes configuram o nascimento de um 'novo regime' na 'moderna' Turquia, sobrevivente dos escombros do Império Otomano, talhada a ferro e fogo por Kemal Ataturk. Um 'novo regime', de cariz  autoritário e matriz religiosa em que a concentração de poderes é o instrumento político para atuar no sentido da islamização cerceando as liberdades. É nesta mudança que começa a ‘construção’ de um novo califado.
Erdogan elegeu a separação de poderes, base de qualquer Estado de Direito, como sendo um obstáculo a contornar e a derrubar (está a fazê-lo vertiginosamente depois da tentativa de golpe militar) e defende como programa para o País um projeto culturalmente conservador, politicamente nacionalista e economicamente liberal, como fachada propagandística para uma deriva teocrática.

Na verdade, o programa é outro e Erdogan começou por acicatar uma luta de classes onde o alvo dos crentes é a burguesia elitista e laica nascida à sombra do ‘Kemalismo’. Enveredando por este caminho conseguiu minar uma das mais importantes bases de suporte da nova República Turca, nascida no final da I Guerra Mundial. Mas o mais relevante tem sido escondido, isto é, uma acelerada ‘islamização’ da Turquia sob o manto diáfano de uma falsa moderação.

A mudança de regime em curso (não se trata de uma simples reforma do sistema ou agilização da governação) terá graves consequências nos já frágeis equilíbrios geopolíticos existentes no Médio-Oriente.
Pondo a ferros o Exército (que por várias vezes derrubou Governos) e domesticando o Poder Judicial criou, para além (e à margem) dos jogos políticos tradicionais, uma ativa milícia económica de combate pelo seu programa ideológico – os chamados ‘tigres da Anatólia’ onde vigora o conceito de que “ trabalhar bem, é ser melhor crente” (uma espécie de ‘islamismo calvinista’).
E na Anatólia porquê? De facto, são historicamente terras do ‘Curdistão’.

A par destas mudanças de índole interna Erdogan mobilizou o seu Governo para o referendo que decidirá sobre as mudanças constitucionais já aprovadas no Parlamento. A Turquia tem um vasto contingente de emigrantes que vivem na Europa, nomeadamente na Alemanha (onde residirão cerca de 3 milhões de turcos) e na Holanda (400.000), que podem estar contaminados pela ‘vida ocidental’ e cujo arrebanhar para o voto referendário no ‘sim’ é importante para fazer vingar o projeto político de ‘islamização da Turquia’.

Os primeiros incidentes na Alemanha relativos à anulação de comícios de propaganda governamental turca pelo sim no referendo de Abril link  desencadearam uma reação turca verdadeiramente boçal,  caricata e nada diplomática (Erdogan acusou o Governo alemão de nazi), seguiram-se os graves confrontos (diplomáticos e cívicos), de ontem, na Holanda link levando Ankara a repetir as mesmas acusações.
 
A Europa submetida às exigências e chantagens turcas numa tentativa de ‘comprar’ a resolução da questão dos refugiados e (ainda) manietada por um projeto de adesão à UE de longa data e com imensas hesitações e que, a partir dos desenvolvimentos internos decorrentes da tentativa de golpe militar de Julho passado, perderam toda e qualquer viabilidade, não reagiu a esta provocação que envolve Estados membros da União.
 
Todas estas questões dos últimos dias que, à primeira vista, parecerem colidir com a (ocidental) liberdade de expressão e a capacidade de defender os seus pontos de vista sem barreiras ou limites, seriam relevantes se todos (a oposição republicana e os curdos, entre outros) tivessem as mesmas possibilidades e oportunidades de se exprimir, quer dentro da Turquia, quer no Exterior.
A realidade é bem diferente e as manobras do governo de Ankara não passam de toscas manifestações de puro proselitismo em prol de uma ditadura islâmica em que o próprio Erdogan seria o chefe civil e religioso, isto é, um novo califa. Gostaria de conhecer qual a reação de Erdogan se o Governo Holandês enviasse a Ankara, ou a Istambul, um ministro defender em comício público, por exemplo, as conceções sobre os valores da ‘cultura protestante ocidental’.
 
Faltará (muito) pouco para existir no Médio-Oriente mais um estado islâmico, regido pela ‘sharia’ e, convém anotarmos para melhor entendimento da gravidade da situação, detentor (por opção própria e delegação da NATO) de um impressionante poderio militar.
 
A contemporização europeia nesta situação é mais um erro histórico. O tempo a breve trecho o dirá.

domingo, março 12, 2017

Guarda - Convite

A 2.ª edição já está disponível

A Espanha e a Lei da Memória Histórica

O governo de Rodrigo Zapatero (PSOE) retirou 570 dos 705 símbolos catalogados, da ditadura. O Governo de Mariano Rajoy (PP), não retirou um único símbolo em 5 anos.

Em Alicante, o governo local foi obrigado a repor o nome de «Divião Azul» na Praça da Liberdade, uma decisão judicial a impedir a democratização e a restaurar a homenagem ao fascismo.

Franco continua sepultado no Vale dos Caídos, ofensa só comparável a uma impensável glorificação de Hitler na Alemanha ou de Mussolini em Itália.

O Supremo Tribunal, que suspendeu o impoluto juiz Baltasar Garzón, o mais destacado juiz na luta contra o terrorismo, narcotráfico, crimes contra a Humanidade e corrupção económica e política, parece manter-se como órgão franquista onde os juízes sentem a nostalgia do maior genocida ibérico de todos os tempos.

No país onde a monarquia é a herança imposta por Franco e o PP não se diferencia da Falange, a democracia está em permanente perigo e o regresso da ditadura à espera do colapso da UE.

Em valas comuns jazem por identificar, à espera de justiça, os corpos dos assassinados pela ditadura. Os fantasmas não atingem apenas o poder judicial, aparecem no Governo.

sábado, março 11, 2017

Conferência na FCSH da Universidade Nova: o novo, o velho e os embustes…

O cancelamento(?) /adiamento(?) / suspensão(?)   link da Conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH da UN de Lisboa foi uma ‘argolada’, assente sob justificações cautelares e está a ter os seus desenvolvimentos. Num ápice transformou-se uma atitude provocatória numa medida de 'cariz censório', dando lugar a uma inusitada cascata de propaganda política.
 
A realização da conferência seria mais uma inócua manifestação de propaganda ‘folclorista’ à moda antiga tecida em redor de um explosivo caldo de cultura que, no presente, está em franca fermentação, misturando (associando) nacionalismo e populismo. É de prever, à posteriori, que a efetivação da monocórdica conferência nada de importante viria ao Mundo e teria sido evitada uma tão persistente e maléfica maré propagandística.
 
A conferência não é, todavia, um simples exercício de liberdade de expressão. Existe um evidente contexto que lhe está inerente onde no seu seio pululam uma montanha de contradições.
Primeiro, interessa sublinhar que qualquer ‘ato de censura’ (vamos entrar neste caminho) é, em princípio, um ataque à liberdade de expressão. Esta deverá ser uma posição de princípio. No entanto, existem situações concretas inerentes que nos relatos do ‘incidente’ (esta é outra avaliação) não devem ser escamoteadas. Não podemos ser comidos por lorpas. 
 
Na memória dos portugueses, esse tipo de repressão da liberdade (censura /índex) não remonta à Inquisição, como historicamente se verifica, tendo sido um 'santo ofício' de combate a heresias, mas está, no inconsciente coletivo, intimamente ligada ao regime fascista, como arma de silenciamento da(s) Oposição(ões) política(s), da criatividade e do pensamento.
Ora, não é aceitável usar o 'espantalho da censura' como arma de arremesso contra as instituições do actual regime democrático e simultaneamente absolver o salazarismo dos restantes e reincidentes crimes (censórios e outros) como, por exemplo, a senda colonizadora em nome da ‘Fé e do Império’.
Vejamos porquê e quais as razões.
 
Na realidade, a iniciativa de um movimento dissimulado e praticamente anónimo, tem por protagonista Jaime Nogueira Pinto, um conhecido homem da Direita ultraconservadora, que depois de um período rocambolesco em terras africanas, onde se misturaram conceitos colonialistas, garimpagens diamantíferas e, ainda ‘jogos bélicos’ com perfumes mercenários, no presente, tem-se dedicado à vida académica e literária como um divulgador (e simpatizante) da Direita saudosista, fascista e colonialista. Em apoio desta concepção salienta-se a publicação de vasta produção livresca laudatória do regime ditatorial (‘António de Oliveira Salazar, o outro retrato’, Ed. Esfera dos Livros, 2007) e incursões (exacerbações) nacionalistas (Nuno Álvares Pereira, Ed. Esfera dos Livros, 2009). Simultaneamente, têm-se dedicado à investigação dos instáveis equilíbrios internacionais (escreveu ‘O Islão e o Ocidente – A grande discórdia’  Ed. D. Quixote, 2015), revelando ser o ‘pivot ideológico’ de reminiscências passadistas e ultraconservadoras. Por esse facto, ou seja, pelo exercício deste ‘apostolado’, nunca foi ‘censurado’, tem publicado e participa com alguma regularidade em meios de comunicação social nacionais, com o estatuto de comentador. Tem ‘feito o seu trabalho’, sem resvalar para atitudes provocatórias e nunca foi ‘incomodado’ por isso.
 
Jaime Nogueira Pinto deveria discorrer, na adiada (suspensa?) sessão, sobre a dualidade de dois conceitos que têm estado na ordem do dia: “Populismo ou Democracia – Brexit, Trump e Le Pen em debate”. Não vamos armar-nos em inocentes. O tema é candente, diz respeito a um dos assuntos que ameaça o Mundo e que a Ultradireita nacional deseja pegar para tentar apanhar o comboio da história recente do Ocidente (Europa e EUA) onde florescem múltiplos exemplos desta nova onda (populista e nacionalista). Todavia, nem sempre a abordagem nacionalista é uma atitude platónica e pacífica e, neste momento, o populismo (que esquiva-se a censurar escondendo-se atrás de 'muros') não vive propriamente um estado de graça, inspirando sérias preocupações.
 
A adiada conferência (outra vertente dos acontecimentos) foi promovida por um novo ‘movimento’ denominado ‘Nova Portugalidade’. Que não é propriamente uma associação de escuteiros. Isto é, de ‘novo’ e de ‘nova’ nada há e o que se pretende camuflar é o ‘velho’.
O termo “Portugalidade” explica tudo e não é novo. Significa e foi usado como uma miscelânea de nacionalismo integralista, de fascismo serôdio, de salazarismo bafiento e até de nazismo envergonhado, que vigorou entre nós nos tempos de António Ferro e do ‘seu’ Secretariado Nacional de Propaganda. Atingiu o auge nas décadas de 50 e 60 do século passado, já sem o inestimável contributo de Ferro, quando o Estado Novo vivia tempos difíceis, depois do desfecho da II Guerra Mundial, e serviu para tentar ‘justificar’ e consolidar, à ultrance, a obsoleta política colonial portuguesa consubstanciada na grandeza ‘imperial’ do ‘do Minho a Timor’. Nos tempos actuais seria tornar: ‘Portugal Great, …Again'.
 
Mas regressando ao presente e tentando enquadrar a conferência nos seus remotos propósitos, o citado movimento propulsor apareceu à luz do dia para reivindicar, através de uma petição, a manutenção da configuração colonial da Praça do Império. Contestam qualquer alteração paisagística à velha simbologia das ditas ‘Províncias Ultramarinas’ pretendendo perpetuar na memória urbanística as marcas e referências do ‘Império Português’ através dos brasões coloniais. O ‘ferrete colonialista’ não abandona a causa e, como sempre, aparece eivado de perfumes sebastianistas tecidos à volta de saudosismos monárquicos.
 
Aliás, um dos activistas deste neófito movimento, Rafael Pinto Borges, em entrevista ao jornal i on line, entreabre pequenas janelas que revelam muito. Considera o dirigente do movimento nacionalista que a descolonização foi um “trágico equívoco” e, mais adiante, exibe uma veneranda e possessiva ‘paixão’ por Salazar (“uma referência em tudo”) link. Não se percebe como, partindo de um tão arcaico e tenebroso referencial, alimenta uma tão reivindicativa adesão às liberdades, quando sabemos que um hipotético exercício de poder por esta ‘gente’ e baseados nesses pressupostos ideológicos, conduzira - sempre - à supressão das liberdades.
 
A colagem do Partido Nacional Renovador aos arautos da ‘Nova Portugalidade’ diz muito (ou quase tudo) sobre o movimento nascente link.
 
Finalmente, ficará, na dúvida interpretativa e  naturalmente imersa na morosidade dos debates que caracterizam as discussões sobre jurisprudência e constitucionalidade se a situação que os promotores da adiada conferência configuram se integram nos conceitos constitucionais estabelecidos no Artº. 46, alínea 4, da CRP, onde está expresso que:
Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilem a ideologia fascista” (sublinhado nosso).
No passado, a verificação da constitucionalidade da existência de um dos agrupamentos percursores do PNR, o 'Movimento de Ação Nacional', esborrou-se através de uma ‘oportuna dissolução’, e o PNR, depois do ‘assalto’ ao PRD, por cá continua, com os seus apêndices de ‘portugalidade’, sem merecer o mínimo crédito junto dos portugueses.  
 
Como esta diligência jurídica não foi sequer iniciada ou gizada, a citada conferência realizar-se-á por questões de princípio e de legalidade democrática beneficiando abstratamente das liberdades conquistadas à revelia das remanescentes intenções fascistas. Porque, no concreto, subsistem as dúvidas inerentes à aplicabilidade do citado artigo 46 da CRP.
 
Mas o problema fulcral será outro: não conduz a nada combater o populismo e as exaltações nacionalistas com iniciativas individuais e desgarradas como a que foi tomada na assembleia de estudantes da FCSH da UNL e, depois, subscrita pela Direção da Instituição. 
É necessária e urgente uma estratégia política amplamente debatida, organizada e concertada que defenda intransigentemente o regime democrático o único capaz de salvaguardar a ‘liberdade de expressão e de associação’.
Caso contrário ficaremos em casa a observar ícones da ‘portugalidade’, como por exemplo, o inefável ‘Zé Povinho’, o 'casamenteiro' Santo António, o insubstituível bacalhau, a crista do galo de Barcelos, etc. ….
 
A propósito de ‘cristas’ seria bom interpretarmos a ‘agitação’ do CDS link, ontem, no Parlamento quando se discutiu este assunto.

A liberdade de expressão, a democracia e os democratas

Condeno a decisão da direção da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa de cancelar uma conferência do assumido fascista Jaime Nogueira Pinto sobre ‘o Brexit, Trump, Le Pen e o fenómeno do populismo’.

A conferência podia ser a provocação organizada pela Nova Portugalidade, movimento para quem Salazar é a referência e tem um currículo que desafia a CRP no que se refere a organizações fascistas, mas a liberdade de expressão é um direito que cabe ao Estado tutelar.

A pronta oferta da Associação 25 de Abril das suas instalações para a realização da dita conferência é um ato de coerência de quem restituiu a liberdade ao povo português e a continua a defender, não hesitando em defender a liberdade para os seus adversários.

O PR condenou a FCSH pelo cancelamento da conferência afirmando que é “o guardião dos direitos constitucionais, entre eles a liberdade de expressão, e, por isso, para mim é incompreensível uma decisão daquelas por parte de uma instituição pública”, frisando que espera “um esclarecimento” sobre a decisão “absurda”. Apoiado!

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No início de novembro de 2014, a Faculdade de Direito de Coimbra proibiu o debate “A esquerda, a direita, o agora: haverá espaço para as ideologias no mundo atual?” com Rui Tavares e Pedro Mexia, por ser “Ideológico” e contra os valores de “isenção partidária”.

António Santos Justo, diretor daquela Faculdade, impediu que a sessão se realizasse por considerar que a instituição se deve guiar pela “isenção partidária” e não constituir “um palco para debates ideológicos”. Durante décadas não houve ali debates ideológicos, só o ensino do Direito Corporativo e da Constituição de 1933.

Quando o Prof. António, mais Santos do que Justo, impediu um debate a um democrata não se amofinou o CDS, não se ouviu o PR Cavaco a defender a liberdade de expressão, se acaso a defende, nem os órgãos da comunicação social entraram em frenesim.

Em 3/11/2014, a liberdade tinha em Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas os seus guardiões, e não se ouviu, da parte desse trio, uma palavra de solidariedade para com o historiador Rui Tavares, a mais leve censura à decisão do diretor da FDC, um módico de respeito pela vontade dos alunos de Coimbra que, contrariamente ao grupo fascista da FCSH, preferiam um debate com um democrata a um monólogo de um fascista.

Não pode haver dois pesos e duas medidas. A hegemonia da direita na comunicação social inquina de tal modo a opinião pública que a D. Cristas passa por democrata, o Professor Cavaco por intelectual e Passos Coelho por estadista.

Apostila - Num caso silenciou-se a censura a um debate sobre ideologias, no outro assistiu-se ao ruidoso protesto sobre o cancelamento da propagação de ideologias fascistas. E, perante a condenação parlamentar da invasão e tentativa de intimidação dos dirigentes da AE da FCSH por um grupo de extrema-direita, o PSD e o CDS… abstiveram-se. Ontem.