sábado, Novembro 01, 2014

Notas Soltas -- outubro de 2014

5 de Outubro – O apelo de António Costa ao restabelecimento deste feriado e do 1.º de Dezembro, na presença de quem promulgou a eliminação, é o testemunho de fidelidade às datas que honram a História e a identidade do País. Os feriados voltam. O PR, não.

Estado Islâmico – O combate ao sectarismo é urgente e uma questão de sobrevivência civilizacional. Há quem confunda fobia, uma doença do foro psiquiátrico, com o medo, sobejamente justificado, aos trogloditas medievais possessos de demência pia.

OE-2015 – Não se perceberam as discordâncias, no seio do Governo, na sua aprovação. As encenações pífias visaram a defesa eleitoral do CDS. Certamente, mal foi aprovado, começou a ser elaborado o orçamento retificativo, como vem sendo hábito.

Alpoim Calvão – Com honras de herói, a Marinha venerou o militar que esteve sempre no lado errado da História e ao lado de gente avessa à democracia. Após o 25 de Abril, empenhou-se no comércio das armas e no terrorismo do ELP e do MDLP.

Governo – A promessa do Paraíso para 2016, incluindo a descida do IRS, é um ardil de quem julga que os eleitores têm a condescendência do PR que, por insondáveis motivos, protelou as eleições e silencia o deplorável funcionamento das instituições.

Citius – Depois do escândalo SLN/BPN e da maior tragédia financeira portuguesa – a falência GES/BES –, faltava a maior catástrofe informática do Governo, levando o caos à Justiça, com os Tribunais paralisados e 3,5 milhões de processos desaparecidos.

Nuno Crato – O ministério da Educação e Ciência entrou em colapso, com escolas sem professores e alunos sem aulas. Nunca tantos tinham sofrido tanto com tamanha inépcia. É irrelevante o pedido de desculpas de quem procura destruir o ensino público.

Marinho Pinto – Depois dos ataques aos partidos acabou por criar mais um e tornou-se um político igual aos que combatia, mas é ineficaz a raiva que suscita quem combateu a ditadura e foi duas vezes bastonário da OA. A abertura a coligações, exceto com o CDS, é positiva. Pode vir a deter a chave da governação.

Grécia – A ineficácia do segundo resgate e as medidas para o empobrecimento rápido e definitivo ameaçam alterar a geometria eleitoral e precipitar a Europa no beco sem saída que a pode pulverizar numa deriva de nacionalismos belicistas.

BES – Sabe-se que já estava tecnicamente falido em finais de 2013, mas o BP esperou a espoliação dos inocentes, no último aumento de capital, e o próprio PR, tão cauto com as suas ações da SLN, garantiu a liquidez do banco do seu apoiante Ricardo Salgado.

João Grancho – O secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, acusado de um plágio, pelo «Público», plagiou o pedido de demissão irrevogável, de Portas. O Governo começou a ruir com equivalências e acaba a esboroar-se em plágios.

Vaticano – As contradições internas, geridas com pinças pelo papa Francisco, revelam clivagens entre a ala reacionária e a ala alinhada com a modernidade. A homofobia e o horror ao divórcio atiçaram o furacão que abala as tradições do catolicismo romano.

Paulo VI – A exigência de milagres para a santidade é uma tradição obscurantista, que explora a superstição popular, mas a beatificação do papa declaradamente antifascista é a compensação, embora magra, para as distinções conferidas a Pio XII e João Paulo II.

Turquia – Quem pensa que Erdogan é umo muçulmano moderado há de arrepender-se, sem perceber porque prefere o extermínio dos curdos, do Iraque e da Síria, à derrota do Estado Islâmico.

Portugal Telecom – Foi a empresa que mais inovou, investigou, conquistou mercados e se prestigiou nas telecomunicações. Vítima da volúpia de acionistas e da ideologia deste Governo, o apogeu e a queda são a dolorosa metáfora do estado a que o País chegou.

Passos Coelho – A revista Visão, de 23/10, conta como ajudou o patrão da Tecnoforma a criar a ONG, montar a rede de influências, vender projetos e angariar financiamentos. Excelente trabalho sobre o carácter e o passado escondido do atual PM.

MNE – O ministro Rui Machete, numa entrevista à Rádio Renascença, revelou que há portugueses na jihad e que «dois ou três, sobretudo raparigas» querem regressar. Com a referência fez uma delação que equivale a sentença de morte. Terá ensandecido?

EUA – A produção de gás de xisto, apesar dos perigos ecológicos, baixou o preço dos combustíveis fósseis. Venezuela, Rússia, Brasil, Irão e Nigéria veem perigar as suas economias e Portugal gozará de uma folga orçamental que não compensa a má gestão.

Durão Barroso – A presidência da Comissão Europeia, durante dois mandatos, devia ser uma honra para Portugal. A conivência na invasão do Iraque do mais americano dos  europeus e a oportunista germanização são nódoas indeléveis de quem fugiu do País.

Maria de Lourdes Pintasilgo – Foi inaugurado em Lisboa um memorial em honra da primeira e única PM portuguesa. É a homenagem devida à grande mulher e democrata no ano em que foi assassinada uma mulher por semana, vítima de violência doméstica.

Brasil – A vitória do liberalismo económico, tragédia herdada de Reagan e Thatcher, era a ameaça. A herança de Lula sobreviveu com a vitória de Dilma, o País não ficou refém do capitalismo selvagem, mas a corrupção urge ser erradicada.

Tunísia – As eleições que deram a maioria, embora relativa, a um partido laico, são um bom prenúncio de que o Islão, à semelhança dos outros monoteísmos, se conforma com a democracia, apesar da demência belicista que percorre o terreno minado pelo Corão.

Ucrânia – A imprudência ocidental na incentivação da revolta pró-Nato e pró- Europa repetiu a proeza da Geórgia com a Ossétia do Norte, provocando a Rússia. A UE paga o gás russo e o pouco estimável Putin tem direito à próxima jogada no xadrez político.


sexta-feira, Outubro 31, 2014

As Forças Armadas Portuguesas e as da Rússia

Depois da compra de dois submarinos, ainda não tinham chegado os veículos, só as comissões, e já um poderoso barco armado de pílulas abortivas era obrigado a retirar das costas da Figueira da Foz.

Agora foi a vez da Rússia que, com a NATO à beira de um ataque de nervos, enfrentada por aviões portugueses meteu os caças entre as nuvens e deu às de Vila-Diogo.

Desde Aljubarrota que uma vitória, em desigualdade de forças, não era tão arrasadora.

O antigo Condestável Paulo Portas, à semelhança do homólogo Nuno Álvares Pereira, aguarda agora a defunção e dois milagres para o seguir na elevação aos altares.

Homenagem a Durão Barroso

A Comissão Europeia devia ter prolongado o segundo mandato de Durão Barroso em mais dois dias. Sempre saía no dia dos mortos e a condecoração com que o PR o espera podia ser outorgada na morgue.

Há coisa mais bonita do que um peito cheio de veneras num corpo em decúbito dorsal?


Ainda me indigno...

Numa época em que a fome, a vergonha e o desespero atingem o país, há naturalmente quem acalente rancores e desejos de vingança. Os políticos deixam de ser julgados pelos eleitores e são expostos no pelourinho da opinião pública por uma turba incapaz da uma reflexão crítica mas capaz de exigir o linchamento do adversário.

Acusam-se as leis de brandura e os advogados de manobras na defesa dos constituintes. Uma calúnia sobre um adversário é uma certeza que se jura mas não se aposta. É fácil a acusação sem provas e o ódio por razões sectárias.

Os meus excessos, não sou diferente de outros, provocaram-me hoje um sobressalto. Há mais de dois anos e meio que um jovem de 29 anos, estudante, está preso, em Paços de Ferreira, a cumprir 20 anos de pena, reduzidos a 12 pela Relação, por homicídio de uma tia, de 73 anos. A reconstituição do crime e a confissão do arguido à polícia motivaram a condenação. Segundo o DN, o ora presidiário, alegou, perante o juiz que o ouviu, que a PJ o coagiu ameaçando que ia prender a sua mãe como mandante do crime.

Ontem um homem, suspeito de vários crimes, confessou, com outros cometidos, aquele que levou o jovem à cadeia.

Pensemos só na possibilidade de o crime daquele jovem se resumir a um intenso amor filial e ao ardil de polícias, habitualmente bem preparados, serem vítimas da sua própria presunção! Provas circunstanciais acrescidas terão ditado ao juiz o sentido da sentença.

Perante um eventual erro judiciário, como se sentem os defensores da pena de morte? Sabe-se que há uma percentagem de inocentes condenados nos EUA, com o Texas na vanguarda e Bush, o da invasão do Iraque, recordista em assinaturas de Governador, antes de cada execução.

A eventual inocência desta vítima de 29 anos talvez levante dúvidas a quem está sempre cheio de certezas. Por que motivo serão precisas vítimas para uma reflexão humanista?

quinta-feira, Outubro 30, 2014

Momento zen de quarta_ 29_10_2014

O inefável João César das Neves (JCN), na última homilia, «Exterminador Implacável», foi buscar um dos pecados mortais – o orgulho –, considerado por Evágrio Pôntico, um monge escritor e asceta do séc. IV, era vulgar, como muito ruim.

JCN não refere o autor pio nem o método usado para medir o orgulho e a sua gravidade relativa, mas segue-o na severidade que atribui a tão grave pecado, capaz de despachar a alma do orgulhoso, em grande velocidade, para as profundezas do Inferno.

Na sua exegese, o orgulho é «maleita muito pior do que o ébola, o cancro ou diarreia». Comparar a diarreia ao ébola é porque teme a primeira, apesar de ser nele frequente, e não faz ideia do que é o segundo, mas em pecados o especialista é JCN.

O devoto perora sobre os 7 pecados capitais, que algum papa recente já passou a 8, com a desenvoltura com que debita orações ou aperta o cilício, e recorre a santos doutores na defesa da gravidade do ‘orgulho’ cuja cultura pia lhe permite chamar também ‘soberba’. Depois de referir que «Na tradição cristã (…) é este o pecado de Satanás e também de Adão e Eva», arrasa os céticos com esta demolidora citação:

«São Tomás de Aquino explica: "A soberba encerra a gravidade máxima, pois nos outros pecados o homem afasta-se de Deus por ignorância, fraqueza ou busca de outro bem, enquanto a soberba se afasta de Deus precisamente por não se querer submeter a Ele e à sua lei (...)" (Summa Theologiae II-II 162, 6)».

Pode não se perceber a que propósito traz à colação os nomes de Merkel e Salgado, mas recorre à biologia para defender a gravidade do ‘orgulho’, «maleita tão virulenta, que chega a infectar através da própria vacina: muitos somos orgulhosos da falta de orgulho, gabando-nos da nossa enorme humildade» – afirma JCN em exaltação pia e autocrítica.

Seguindo as regras da melhor parenética, JCN execra a moléstia mas receita o antídoto: «Como o quinino na malária ou a insulina na diabetes, apenas uma droga pode controlar o orgulho: humildade». Embora esteja desatualizado meio século em relação ao quinino, prescreve o remédio salvador para o orgulho, que não aparece «nas formas habituais de xarope, comprimido ou vaporizador, mas em pastilhas (…) nas páginas de um livro: A Prática da Humildade (Paulus), escrito há cerca de 150 anos por Vincenzo – Cioacchino Pecci. A referida raridade do produto no circuito comercial explica-se, em parte, por o seu humilde autor ser mais conhecido como Papa do que como químico farmacêutico».

JCN termina em êxtase místico esta inspirada homilia, citando Leão XIII, São Pedro, o beato Pio IX e São João Paulo II, referindo leituras sacras, «grandes obras doutrinais e pastorais, como as encíclicas Aeterni Patris (1879) sobre a filosofia cristã e Rerum Novarum (1891)», sem esquecer o objetivo sagrado da homilia, este momento zen de quarta, «combater o terrível e peganhento muco da soberba».

Esqueceu outros fluidos, tal como esqueceu o papa Francisco cuja santidade profissional o levará a esgotar o bicarbonato de todas as farmácias próximas da madraça de Palma de Cima.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, Outubro 29, 2014

O infantilóide apontar do dedo…


Hoje, o primeiro-ministro afirmou:

O debate mais infantil a que tenho assistido desde o início da crise da dívida é o debate sobre o crescimento e a austeridade. Ele tenta resolver [um problema] – como é próprio das crianças – apresentando um desejo sem atender à realidade.link

E pensavam os portugueses que a maior infantilidade dos últimos tempos tinham sido as explicações de Passos Coelho, perante o Parlamento, sobre as suas graciosas prestações para a Tecnoforma e o Centro Português para a Cooperação. Esta, sim, foi a incrível história da carochinha à mistura com aquela outra do Ali-Babá…

terça-feira, Outubro 28, 2014

O novo mandato de Dilma e a confusão reinante …


 Dilma Rousseff a presidente do Brasil eleita para o novo mandato tem pela frente aquilo a que se chamam ‘trabalhos ciclópicos’.

Na verdade, não vai governar – porque as regras da democracia brasileira não o permitem – segundo o programa que apresentou aos brasileiros na campanha eleitoral. Vai, quando muito, coordenar – ‘presidir’ - uma multidão de forças políticas que integram o vasto ‘arco da governação’, sediado em Brasília.  
Os acordos de incidência governativa envolvem mais de uma dúzia de formações partidárias. Concretamente, o real suporte parlamentar oriundo do PT ao Governo, que Dilma preside no Palácio do Planalto, representa cerca de 13% dos lugares numa Câmara com 513 deputados federais. 
Brasília está envolta, foi apoderada, por uma ‘babel partidária’ onde os apoios parlamentares a projectos de lei ou outras resoluções políticas têm de ser negociados primeiro de deputado a deputado e depois, noutro patamar, de senador a senador.
Considerada a frieza dos números e mesmo perante uma República Federativa da dimensão do Brasil uma federação com 32 partidos legalizados perante o Tribunal Superior Eleitoral, 28 dos quais representados na Câmara de Deputados, paira sobre este País o espectro da 'ingovernabilidade'.
Já foi assim no último mandato e corre o risco de assim continuar no próximo. Só que de 4 em 4 anos o partido do presidente (ou da ‘presidenta’) é chamado – isoladamente – às repsonsabilidade e tudo o que de bom ou de mau foi feito é escrutinado impiedosamente.
 
A Constituição saída do fim da ditadura militar – “das directas já!” - incorpora várias armadilhas. A primeira delas é face as restrições ditatorais que bipolarizaram o Brasil entre o ARENA e o MDB, a liberdade conquistada com o fim da ditadura ter estimulado o apetite para a criação de um alargado espectro partidário que conduziu a uma infindável variedade numerica de partidos políticos. Este 'alargamento' ficou muito longe de corresponder ao preenchimento de um leque de opções democráticas que se quer realista, diversificado e fundamentado (ideológica e programaticamente), sem passar pela simples pulverização do campo das escolhas à volta de questiúnculas estatais, regionais ou até pessoais. Isto é, a política na sua pior expressão.
No entanto, a bagunça não acaba aqui. Neste momento existem cerca de 20 novos partidos em processo de constituição, entre eles a ‘Rede Sustentabilidade’, de Marina Silva.

Na área do socialismo e da social-democracia a confusão é verdadeiramente assustadora. 
À variedade numérica não corresponde uma multitude de políticas diferenciadas (ideologicamente) e idóneas já que o chamado ‘sincretismo político’ infesta transversalmente o sistema partidário brasileiro e alimenta ilusões de que o exemplo acabado é o PSDB, presidido por Aécio Neves, onde a social-democracia serve para acoitar (e camuflar) opções políticas e económicas declaradamente neoliberais. 
Nesta área, dita de ‘centro-esquerda’, cabem nem mais nem menos que 11 partidos [Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido Democrático Trabalhista (PDT), Partido dos Trabalhadores (PT), Partido da Mobilização Nacional (PMN), Partido Verde (PV), Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), Partido Popular Socialista (PPS), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Pátria Livre (PPL), Partido Republicano da Ordem Social (PROS), Solidariedade (SD)]. 

Pelo meio e ainda imiscuído no sistema partidário brasileiro existe a indelével marca do ‘getulismo’, isto é, do ‘trabalhismo brasileiro’, cuja inclusão na área do ‘centro-esquerda’ é plausível e assenta nos marcados contornos populares, de consolidação social e do ‘nacional-desenvolvimentismo’ característico do getulismo, cujo trajecto partindo da concepção e acção política de Getúlio Vargas acabou por mobilizar alguns sectores da esquerda (incluindo Luís Carlos Prestes do ex-Partido Comunista Brasileiro) e perdurar – sempre com a perene vigilância dos políticos da caserna (militares) - até à deposição do presidente João Goulart e instauração de 21 anos de ditadura (1964-85).
A sombra do velho Partido Trabalhista Brasileiro ainda perdura sobre o centro-esquerda no Brasil resistindo (existindo) residualmente em todas as ‘teses desenvolvimentistas’. 

De igual modo a Direita mais acirrada e nacionalista hoje representada pelo Partido Progressista (PP) continua a ter como referência remota a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), suporte político da ditadura militar que, após o seu colapso, navegou pelo campo ‘Democrático e Social’ e pela área ‘Liberal’. Hoje, o PP integra o Governo de Dilma (Ministério das Cidades), não porque exista qualquer tipo de afinidades políticas, mas porque o PP tem na Câmara de Deputados 38 representantes. 

Esta ‘babel partidária’ é [outros exemplos continuariam a fluir se houvesse tempo e espaço] um dos mais difíceis imbróglios políticos com que Dilma Rousseff terá de lidar no seu segundo mandato presidencial. 
Não se entende como tal poderá ser feito através de actos referendários (ou plebiscitários) como foi anunciado na declaração de vitória link... 

Reflexão

Há numerosos portugueses preocupados com a reeleição de Dilma Roussef. Temem que a permanência do Partido dos Trabalhadores, no poder durante 16 anos, seja um período demasiado longo de um só partido a ocupar presidência… do Brasil.

Curiosamente estas preocupações, aliás legítimas, partem de quem nunca se manifestou contra a mais longa ditadura europeia pelo mesmo esbirro – Salazar.

E nem se dão conta de que consentiram que a lei permitisse a Alberto João Jardim levar já 36 anos de contínuo poder na Madeira, sendo o mais antigo governante euroafricano,

ou

a Jaime Soares, 38 anos à frente da Câmara de Poiares e, depois de legar a maior dívida por habitante, entre todos os municípios portugueses, ser eleito presidente da Liga de Bombeiros Portugueses, lugar que ocupa com a eficiência com que geriu a Câmara.


David Cameron e a comunicação social inglesa


O PM inglês, David Cameron, tendo como referência Margaret Thatcher, grita contra União Europeia a pretexto da quota adicional de 2,1 mil milhões de euros que lhe deve, de acordo com a subida do PIB, acima do previsto, como bem sabe.

Não é apenas o PM que é hipócrita. Também a comunicação social britânica se atira a Bruxelas, por causa do valor da pensão de Durão Barroso, como se não estivesse fixada e não fosse pública, muito antes de ele abandonar as funções.

A política, transformada em comédia, dirige-se para a tragédia.

segunda-feira, Outubro 27, 2014

Parabéns, presidenta Dilma!

Há nessa vitória sofrida o júbilo de ver congelado o liberalismo que faria mais desigual um país que, desde Lula, tem vindo a resgatar da pobreza dramática milhões de pobres. Há na vitória, que a torpe campanha com que tentaram assassinar o carácter da mulher que ousou ser guerrilheira, contra a ditadura, uma epifania. Foi o triunfo da coragem, da obstinação e da social-democracia contra o liberalismo, a demagogia e o oportunismo.

Foi a vitória contra a comunicação social, nas mãos dos grandes grupos económicos, e o triunfo contra as Igrejas que queriam transformar o Planalto numa sacristia.

A corrupção é uma hidra que se enrola ao poder e que medra com ele. A presidenta sabe disso, e todos contam com a sua coragem para a erradicar. É uma luta sem quartel e que nunca é vencida, mas há passos firmes que não deixará de dar. Não desiluda quem está consigo, porque gosta de si, e quem a apoia porque não esquece Lula, o mais sólido dos seus apoiantes, o mais carismático dos seus eleitores e o mais português dos brasileiros.

Felicidades, Presidenta. A queda do preço do petróleo, com o gás americano extraído do xisto, vai dificultar projetos sociais e são difíceis as opções e impiedosos os adversários. Há de achar, na luta contra a pobreza, o caminho de que os rivais a queriam afastar.

Este texto vai arreliar muitos dos meus amigos, não pela alegria que manifesto, pois a maioria deles estava a seu lado pela razão e pelo coração. É o nome de «Presidenta» que os amofina, esquecidos de que a língua comum pode ter diferenças, mas é a mesma, e de que a palavra «presidenta» só surge para designar uma função que em nenhum outro país de língua portuguesa tinha sido desempenhada por uma mulher.

Esquecem-se de que um dia escreverão também «presidenta» porque já é tempo de uma mulher ocupar o mais alto cargo e temos mulheres que o merecem.

Aliás, os que se indignam com o feminino que Dilma consagrou esquecem-se de que já temos, na língua que nos une, as “infantas” que morreram e as “governantas” que estão como criadas de senhores feudais mas que não são outra coisa para além do feminino de “governante”, um feminino aceite para funções menos nobres por razões misóginas.

Boa noite, Presidenta. Feliz mandato. Viva o Brasil!


Parabéns, Dilma


O Passos Coelho brasileiro, embora mais preparado cultural e politicamente, foi derrotado. A herança de Lula, não sendo eterna, fica mais acautelada.

Confesso. Fico satisfeito.

domingo, Outubro 26, 2014

A montanha ia a Maomé


A FRASE:

«Não admira que, depois de dez anos no cargo [Durão Barroso], apenas cento e cinquenta dos setecentos e cinquenta deputados tenham estado presentes no seu discurso de despedida».
(Pedro Marque Lopes, hoje, no DN, pág.7)

Comentário: Só 20% o acompanharam no último suspiro)


O ocaso de Durão Barroso e os acasos da História

A presidência da Comissão Europeia (CE) de Durão Barroso (DB) devia ser motivo de orgulho para Portugal se DB não tivesse sido o mais americano dos europeus e o mais alemão dos portugueses.

Não há, em Portugal ou na Europa, quem tão facilmente exonere a ética e use a tática na defesa dos interesses próprios. Onde estiver o poder, aí está, como lapa agarrada à rocha em dia de tempestade. Quis ser o Jacques Delors da Europa e foi a medíocre reedição de Jacques Santer.

A melancólica despedida, com o Parlamento Europeu quase vazio, só com uma reduzida representação dos seus companheiros de estrada, talvez em busca da senha de presença, foi a metáfora de dois mandatos com a mesma insuficiência com que fugiu do Governo de Portugal.

A invasão do Iraque foi a nódoa que o levou para a CE, enquanto fingia apoiar António Vitorino, e a Sr.ª Merkel era a sua paixão quando fantasiava mérito próprio na alegada «pipa de massa» que tinha sido atribuída a Portugal.

Bush e Blair, depois de Aznar ter mentido aos espanhóis na atribuição à ETA do crime islâmico na estação de Atocha, sobrou-lhes Barroso para presidente da CE. Insondáveis interesses podem ainda guindá-lo a presidente da ONU, se for baixo e dócil o perfil que interesse aos senhores do mundo, mas não será o decisor nesta época conturbada.

Pode aspirar a altas honrarias graças às armas químicas e cumplicidades que teceu. Não lhe faltarão apoios.

Calígula também fez cônsul um cavalo.

Fidel e a face oculta do obscuro Juan Reinaldo Sánchez

Um ex-guarda-costas de Fidel Castro escreveu um livro no exílio dourado de Miami, onde tem os dois filhos. Depois de 17 anos como segurança de Fidel, a acreditar nele, é a Zita Seabra cubana.

Quem, como eu, nunca defendeu um regime de partido único, mas reconhece a Cuba os notáveis sucessos na saúde e educação, rejubilou com a vitória sobre o antigo ditador e dono do bordel, Fulgêncio Batista, e hoje se limita a condenar o desumano boicote ao país, distingue um biógrafo de um mercenário, um cidadão honrado de um trânsfuga oportunista e a informação da propaganda.

Defendo, como sempre defendi, a democracia política, pelo que não posso ser suspeito de adepto de Fidel, por mais que me maravilhem as vitórias sobre a mortalidade infantil e o analfabetismo, por muito que me espante o triunfo da música, da dança, das artes, do desporto e da medicina, em Cuba. Admiro, de facto, o povo cubano.

Pergunto-me para que quer Fidel as várias casas que o avençado biógrafo lhe atribui, em Cuba, e para que precisará de uma fortuna no estrangeiro quem viveu sempre no seu país e nunca pensou abandoná-lo para gozar a riqueza que alegadamente acumulou em parte incerta.

O aparecimento do panfleto*, com o glorioso nome de «livro», traduzido em português, não revela a face oculta de Fidel mas os interesses obscuros de quem procura prejudicar o PCP nas próximas eleições, preferindo um expediente baixo ao confronto ideológico e a propaganda soez ao debate de ideias.

A central de intoxicação autóctone, da pior direita em regime democrático, não deixa de exibir o gozo reacionário de uma encomenda dos exilados de Miami com a assinatura de um de muitos conspiradores que aí se fixaram. Miami não é uma escola democrática, é um antro de ressentimento e de conspiração, espécie de Rua de S. Caetano e de Largo do Caldas, coligados no exílio americano.

O oportunismo, à força de repetido, perde eficácia. A alegria com que ora atacam os que se situam à esquerda do PSD, talvez se transforme em azia depois das próximas eleições legislativas.

*A Face Oculta de Fidel Castro, Ed. Planeta, 17,76 €


sábado, Outubro 25, 2014

Valls ou os ventos da Gália…

O que se passa em França sempre interessou e influenciou Portugal. Embora recentemente a sua influência tenha sido debilitada pelos novos tempos da globalização a França, quanto mais não seja pela Revolução Francesa, sempre teve um papel relevante e marcante na cultura e na política nacional. Trata-se de um facto que remonta à origem da nossa nacionalidade, isto é, à disnastia dos Borgonha.

No século XIX verificou-se o apogeu dessa influência subsidiária da literatura, das artes e no campo político com o advento do liberalismo. No campo do socialismo, dito utópico, são vultos da cultura francesa como Saint-Simon, Fourier e Proudhon que o pensam, divulgam e lhe conferem credibilidade. Embora a evolução do socialismo – do utópico ao científico – tenha de certo modo escapado ao redil francófono, nomeadamente Engels que a par de Marx influenciará determinantemente o seu percurso, será através de editoras francesas (com o tradicional atraso de ‘incorporação’) que o mesmo ‘chega´a Portugal.

O enorme acontecimento político que foi a Comuna de Paris, isto é, um dos factos históricos relevantes da construção ideológica do socialismo já que, esse momento revolucionário, acabaria por revelar ao Mundo a primeira experiência de um governo popular que, muito embora tenha sido um episódio efémero, marcou o percurso histórico da evolução política contemporânea.

Mais recentemente, no pós-guerra não sendo o prévio e único precursor é o socialismo (provavelmente as políticas sociais nascem na esteira da ‘grande depressão’/anos 30), e muito especialmente a social-democracia, o veículo revelador do chamado Estado social (ou de bem-estar social) que marcou na Europa a segunda metade do século XX (e ainda hoje é invocado por muitos políticos).
Desenganos e insucessos como foram os regimes comunistas de Leste subsidiários de erros  e desvios totalitários e de uma nomenclatura dirigente que adoptou o autoritarismo como modelo de governação interna fizeram esboroar, no final do século passado, o processo socialista em curso na ex-URSS não apagam, nem afectam, este relevante percurso. A 'revolução de Outubro' não pode ser excluída da história do socialismo.

Bem, o lastro histórico é imenso e impossível de abarcar num post.

As declarações de Manuel Valls sobre uma putativa ‘renovação da Esquerda’ girando à volta de um incensado ‘pragmatismo’, do ‘reformismo’ e do ‘republicanismo’ link não contêm nada de inovador para além de serem (mais) um insulto à História. As afirmações de Manuel Valls são repugnantes porque, na verdade, o clamor pela ‘morte das ideologias’ costuma soprar de outras bandas.
De facto, não há política sem causas e essas entroncam-se em conceitos ideológicos e nunca em atitudes instrumentais (pragmáticas, de eficácia ou outras). A morte das ideologias emparelha um pouco com uma outra ideia (lá estão as ideologias) que é o fim da História (Fukuyama). Nada mais se pretende com estas mistificações do que ‘justificar’ o capitalismo neoliberal denegrindo a concepção dialéctica que continua a ser o instrumento de análise decisivo na compreensão da organização política e social dos povos. A defesa do ocaso ou da morte das ideologias abre, efectivamente, o caminho a todo o tipo de oportunismos mas não traz nada de esclarecedor e muito menos de renovador. Trata-se pura e simplesmente da 'sacralização' dos mercados que são convocados para 'assassinar'  ideais democráticos que marcam a Idade Moderna (Liberdade, Igualdade e Fraternidade).
Quando alguém aparece a fazer ‘strep-tease’ das ideologias (anunciando o seu ocaso ou o seu fim) certo e seguro que, para não morrer desamparado (despido) e enregelado pela frieza da eficiência, estará próximo de vestir outra indumentária (ideológica).

Manuel Valls ao pretender ‘refundar’ (conceito muito caro à Direita) o socialismo por caminhos ínvios prejudica muito mais a causa da Esquerda do que esclarece ou ultrapassa a óbvia confusão que por este espaço político grassa no período de crise mundial que tanto marca a Europa.
Teve - na entrevista concedida ao Nouvelle Observateur como resposta a Martine Aubry - uma intervenção que pretendeu ser desabrida mas não mostrou coragem suficiente para declarar-se naquilo que realmente se tornou, isto é, num fervoroso adepto do ‘socialismo liberal’. O medo de ser explícito levou a querer eliminar a palavra ‘socialismo’ mas, pelo contrário, a sua filia pelo conteúdo ‘liberal’ na sua ‘inovadora’ (neo) expressão, infesta todas as suas declarações.

Ao lermos o texto percebe-se quais as razões remotas do declínio da França. E ficamos com a certeza que elas não se confinam a Marine Le Pen. Existem outros ‘artistas’ que estão a dar um inestimável contributo. Há uma coisa que parece nítida: o socialismo não aguenta dois (ou vários) Tony’s Blair’s…