domingo, Outubro 26, 2014

Fidel e a face oculta do obscuro Juan Reinaldo Sánchez

Um ex-guarda-costas de Fidel Castro escreveu um livro no exílio dourado de Miami, onde tem os dois filhos. Depois de 17 anos como segurança de Fidel, a acreditar nele, é a Zita Seabra cubana.

Quem, como eu, nunca defendeu um regime de partido único, mas reconhece a Cuba os notáveis sucessos na saúde e educação, rejubilou com a vitória sobre o antigo ditador e dono do bordel, Fulgêncio Batista, e hoje se limita a condenar o desumano boicote ao país, distingue um biógrafo de um mercenário, um cidadão honrado de um trânsfuga oportunista e a informação da propaganda.

Defendo, como sempre defendi, a democracia política, pelo que não posso ser suspeito de adepto de Fidel, por mais que me maravilhem as vitórias sobre a mortalidade infantil e o analfabetismo, por muito que me espante o triunfo da música, da dança, das artes, do desporto e da medicina, em Cuba. Admiro, de facto, o povo cubano.

Pergunto-me para que quer Fidel as várias casas que o avençado biógrafo lhe atribui, em Cuba, e para que precisará de uma fortuna no estrangeiro quem viveu sempre no seu país e nunca pensou abandoná-lo para gozar a riqueza que alegadamente acumulou em parte incerta.

O aparecimento do panfleto*, com o glorioso nome de «livro», traduzido em português, não revela a face oculta de Fidel mas os interesses obscuros de quem procura prejudicar o PCP nas próximas eleições, preferindo um expediente baixo ao confronto ideológico e a propaganda soez ao debate de ideias.

A central de intoxicação autóctone, da pior direita em regime democrático, não deixa de exibir o gozo reacionário de uma encomenda dos exilados de Miami com a assinatura de um de muitos conspiradores que aí se fixaram. Miami não é uma escola democrática, é um antro de ressentimento e de conspiração, espécie de Rua de S. Caetano e de Largo do Caldas, coligados no exílio americano.

O oportunismo, à força de repetido, perde eficácia. A alegria com que ora atacam os que se situam à esquerda do PSD, talvez se transforme em azia depois das próximas eleições legislativas.

*A Face Oculta de Fidel Castro, Ed. Planeta, 17,76 €


sábado, Outubro 25, 2014

Valls ou os ventos da Gália…

O que se passa em França sempre interessou e influenciou Portugal. Embora recentemente a sua influência tenha sido debilitada pelos novos tempos da globalização a França, quanto mais não seja pela Revolução Francesa, sempre teve um papel relevante e marcante na cultura e na política nacional. Trata-se de um facto que remonta à origem da nossa nacionalidade, isto é, à disnastia dos Borgonha.

No século XIX verificou-se o apogeu dessa influência subsidiária da literatura, das artes e no campo político com o advento do liberalismo. No campo do socialismo, dito utópico, são vultos da cultura francesa como Saint-Simon, Fourier e Proudhon que o pensam, divulgam e lhe conferem credibilidade. Embora a evolução do socialismo – do utópico ao científico – tenha de certo modo escapado ao redil francófono, nomeadamente Engels que a par de Marx influenciará determinantemente o seu percurso, será através de editoras francesas (com o tradicional atraso de ‘incorporação’) que o mesmo ‘chega´a Portugal.

O enorme acontecimento político que foi a Comuna de Paris, isto é, um dos factos históricos relevantes da construção ideológica do socialismo já que, esse momento revolucionário, acabaria por revelar ao Mundo a primeira experiência de um governo popular que, muito embora tenha sido um episódio efémero, marcou o percurso histórico da evolução política contemporânea.

Mais recentemente, no pós-guerra não sendo o prévio e único precursor é o socialismo (provavelmente as políticas sociais nascem na esteira da ‘grande depressão’/anos 30), e muito especialmente a social-democracia, o veículo revelador do chamado Estado social (ou de bem-estar social) que marcou na Europa a segunda metade do século XX (e ainda hoje é invocado por muitos políticos).
Desenganos e insucessos como foram os regimes comunistas de Leste subsidiários de erros  e desvios totalitários e de uma nomenclatura dirigente que adoptou o autoritarismo como modelo de governação interna fizeram esboroar, no final do século passado, o processo socialista em curso na ex-URSS não apagam, nem afectam, este relevante percurso. A 'revolução de Outubro' não pode ser excluída da história do socialismo.

Bem, o lastro histórico é imenso e impossível de abarcar num post.

As declarações de Manuel Valls sobre uma putativa ‘renovação da Esquerda’ girando à volta de um incensado ‘pragmatismo’, do ‘reformismo’ e do ‘republicanismo’ link não contêm nada de inovador para além de serem (mais) um insulto à História. As afirmações de Manuel Valls são repugnantes porque, na verdade, o clamor pela ‘morte das ideologias’ costuma soprar de outras bandas.
De facto, não há política sem causas e essas entroncam-se em conceitos ideológicos e nunca em atitudes instrumentais (pragmáticas, de eficácia ou outras). A morte das ideologias emparelha um pouco com uma outra ideia (lá estão as ideologias) que é o fim da História (Fukuyama). Nada mais se pretende com estas mistificações do que ‘justificar’ o capitalismo neoliberal denegrindo a concepção dialéctica que continua a ser o instrumento de análise decisivo na compreensão da organização política e social dos povos. A defesa do ocaso ou da morte das ideologias abre, efectivamente, o caminho a todo o tipo de oportunismos mas não traz nada de esclarecedor e muito menos de renovador. Trata-se pura e simplesmente da 'sacralização' dos mercados que são convocados para 'assassinar'  ideais democráticos que marcam a Idade Moderna (Liberdade, Igualdade e Fraternidade).
Quando alguém aparece a fazer ‘strep-tease’ das ideologias (anunciando o seu ocaso ou o seu fim) certo e seguro que, para não morrer desamparado (despido) e enregelado pela frieza da eficiência, estará próximo de vestir outra indumentária (ideológica).

Manuel Valls ao pretender ‘refundar’ (conceito muito caro à Direita) o socialismo por caminhos ínvios prejudica muito mais a causa da Esquerda do que esclarece ou ultrapassa a óbvia confusão que por este espaço político grassa no período de crise mundial que tanto marca a Europa.
Teve - na entrevista concedida ao Nouvelle Observateur como resposta a Martine Aubry - uma intervenção que pretendeu ser desabrida mas não mostrou coragem suficiente para declarar-se naquilo que realmente se tornou, isto é, num fervoroso adepto do ‘socialismo liberal’. O medo de ser explícito levou a querer eliminar a palavra ‘socialismo’ mas, pelo contrário, a sua filia pelo conteúdo ‘liberal’ na sua ‘inovadora’ (neo) expressão, infesta todas as suas declarações.

Ao lermos o texto percebe-se quais as razões remotas do declínio da França. E ficamos com a certeza que elas não se confinam a Marine Le Pen. Existem outros ‘artistas’ que estão a dar um inestimável contributo. Há uma coisa que parece nítida: o socialismo não aguenta dois (ou vários) Tony’s Blair’s…

sexta-feira, Outubro 24, 2014

A Arábia Saudita, os petrodólares e o terrorismo

Mulheres da classe alta
Alwaleed bin Talal, um empresário multimilionário e membro da casa real da Arábia Saudita, confirmou que o país financiou o Estado Islâmico (EI) para ajudar a combater e derrotar o Governo da Síria.

A reiterada cumplicidade da obscura ditadura nos atos de terrorismo islâmico goza de surpreendente impunidade. Não vale a pena referir o suspeito do costume porque são muitos os países manchados de sangue e petróleo. Certo é o apoio do grande produtor de petróleo a todos os desmandos pios da falhada civilização árabe, que se agarra à fé como náufrago à única tábua. E, mais surpreendente ainda, é a cumplicidade de países que procriaram evangelizadores, cruzados e inquisidores de que se envergonham. 

Surpreende-me que países, com massa crítica e instituições democráticas, se precipitem em aventuras patrocinadas por uma família medieval que dá o nome e é proprietária de um país. A mais sórdida teocracia, onde se situam Medina e Meca, locais que atraem os crentes islâmicos, como o mel às moscas, goza da proteção do mundo civilizado.

A Europa e os EUA continuam a ter como aliado o país medieval onde germina a mais demente interpretação do mais primário dos monoteísmos. Apesar de sofrerem, dentro das fronteiras, a demência mística, que alicia jovens, e ataques terroristas, que lançam o medo e a morte nos seus cidadãos, há uma pulsão suicida anestesiada pelo petróleo.

A ausência de quaisquer liberdades, direitos ou garantias, a mais infame misoginia e o despotismo patriarcal são apanágio da sociedade arcaica da santuário teológico do mais perverso islamismo.


Até quando a Arábia Saudita será um «país amigo»?

Dois amigos, dois destinos

O da esquerda já foi canonizado

Momento zen de quarta_22_10_2014

João César das Neves (JCN) na homilia de quarta, denominada «sínodo em família», partilha com os crentes a pungência da dor que o dilacera: «a Igreja está dolorosamente dividida nas questões da família», temendo que desvirtue a doutrina e atraiçoe o Mestre (epíteto que no jargão de JCN designa o crucificado).

A ansiedade que o devora não é nova: «Vivemo-lo há muito tempo, durante o Concílio. O de Niceia em 325, ou qualquer um dos 21 ecuménicos, incluindo o último, Segundo do Vaticano de 1962 a 1965». Não significa que JCN tenha estado no de Niceia mas no de Trento, a avaliar pela rusticidade da sua fé, certamente esteve ou, pelo menos, bebeu aí a interpretação bíblica com a mesma fé com que os talibãs assimilam o Corão.

JCN justifica a tragédia que o atormenta, depois de citar uma epístola: « A doutrina é clara, sólida, indiscutível, vinda do mais alto dos céus. Aí não há dúvidas. A confusão está na vida, que brota do fundo do coração dos homens».  Maldito coração! E tem fé: «A nossa confiança é sólida porque, além de avisados dos tumultos, fomos também informados do resultado: "Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: eu já venci o mundo!" (Jo 16, 33).

JCN, apesar de afirmar o contrário, não esconde a suspeição no papa Francisco e afirma que as questões deste sínodo, questões contra as quais já manifestou mais horror do que Maomé ao toucinho, «foram muitas, difíceis e complexas. Acesso aos sacramentos por casais irregulares, acolhimento a divorciados, uniões de facto, homossexuais são dilemas pastorais profundos e espinhosos (…).

Com o cilício a sangrá-lo, os dedos doridos das contas do terço e os joelhos magoados, JCN, na sua fé tridentina, termina a homilia com um louvor: “o papa Montini, a quem o Senhor confiou a Sua Igreja no último período homólogo, é, não apenas um exemplo e um mestre, mas um poderoso intercessor para os caminhos actuais da Igreja e da família».

E, à guisa de quem se dirige aos paroquianos, para repetirem com ele a jaculatória, ora:

«Beato Paulo VI, rogai por nós!»

quinta-feira, Outubro 23, 2014

Machete, (sin.: ‘cavaquinho’…)

Ainda não assentou a poeira sobre o caos lançado por Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz, que mereceram o beneplácito de Passos Coelho, já o País está confrontado com um outro caso:
Rui Machete e as declarações sobre jihadistas portugueses. link.

De facto, assim não dá!

Depois da gafe sobre as investigações do MP a altos dirigentes angolanos  link o MNE – um velho quadro do ‘PPD’ - deveria ter ‘apanhado’ juízo…

Jangada de Pedro salva Crato do naufrágio

Rui Pinto Monteiro é um professor de 36 anos que leciona em Biscoitos, Ilha Terceira, nos Açores. A sua colocação em 95 escolas do Continente transformou um professor do ensino básico em recordista.

As solicitações numerosas têm sido motivo de gozo para com o ministro da Educação e Ciência, um ministro que se esforça por ser o pior num Governo onde tem de enfrentar a concorrência feroz de muitos dos seus colegas.

O referido professor precisa de desistir de tão insólito assédio cada vez que uma escola o convoca para preencher a vaga e, só depois, o sistema informático notifica outro para a função.

Por cada vaga que lhe foi destinada há, pelo menos, 21 crianças que continuaram sem aulas e um professor que ficou a aguardar colocação. O facto de precisar de recusar cada oferta de lugar, para que o mesmo possa ser preenchido por outro professor, complica-se pelo facto de ter desistido do concurso do Continente e, assim, ter perdido condições legais para renunciar.

Na página onde os professores podem desistir, com um simples «clic», não consta o seu nome e o computador não comunica a sua desistência do concurso às escolas.

O desespero do ministro, após sobejas provas de inaptidão, levou-o a transferir para as escolas os problemas que criou e acabou por juntar à inépcia este naco de humor negro onde a vida de professores e alunos se complica.

Não é por acaso que Passos Coelho diz que acertou na escolha de ministro da Educação e Ciência. Não destoa nem lhe faz sombra.

Passos Coelho e as eleições legislativas



Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro, cargo de que usufrui as prerrogativas e benefícios, incapaz de autocrítica, ameaçou o país com a recusa de antecipar as eleições legislativas, assustando os portugueses com mais um ano a rebolar-se no exaurido pote.

Não estão em causa os prazos constitucionais, mas as instituições, a agonia do regime e a decadência ética do Governo que fez de Portugal um laboratório de experiências mal sucedidas, com o caos na Justiça, a Educação e Ciência em colapso e a desconfiança nos governantes igual à que Passos Coelho adicionou com as peripécias da Tecnoforma.

A antecipação de eleições depende da vontade do Governo ou da decisão do PR, sendo a última uma improbabilidade e a primeira a única decisão certamente irrevogável.

Passos Coelho corre para o abismo, sabendo que não tem soluções e que, quanto mais tempo permanecer com a turma, mais hábil a agarrar o poder do que a usá-lo ao serviço do País, mais complica o OE-2016 e menos tempo deixará ao próximo Governo para o
elaborar, com o calendário eleitoral a comprometer o do Orçamento.

O PSD, dececionado com o PM que Marco António e Relvas inventaram, com a bênção de Cavaco, anda a lançar nomes para o substituir. Desde a ministra das Finanças até Rui Rio, nem Marco António escapa à lista dos inefáveis e putativos sucessores.

A estratégia de crescimento que teve assinalável êxito, em três anos do funesto governo da pior direita, foi no camo dos impostos, do empobrecimento e da dívida pública.

O próximo Governo herda um país desmoralizado, com défice na balança de transações, emprego em extinção, acordos impossíveis de honrar e um PR impossível de recuperar.

A obstinação de quem nunca devia ter passado de vogal de junta de Freguesia e acabou PM, longe de se arrepender, insiste em fazer beber até à última gota o cálice de veneno do Governo que lhe adjudicaram e que os portugueses são obrigados a digerir.

Que raio de sorte a nossa!

Ponte Europa / Sorumbático

Acontece...


quarta-feira, Outubro 22, 2014

A Portugal Telecom e o País

A PT é o reflexo do País. A empresa emblemática de setor público, precursora de várias inovações, na vanguarda da investigação e desenvolvimento, foi devorada pela ganância dos acionistas e falta de escrúpulos de quem a usou, em aflição, para cobrir desmandos que a Justiça investigará, se puder.

A empresa de telecomunicações, geradora de emprego e de avançada tecnologia acabou ingloriamente em leilão de abutres, perante um Governo que, na ânsia de desmantelar o Estado, a abandonou às mãos do deus comum – o Mercado.

Houve, na plangência do descalabro, uma tal falta de sensibilidade e uma tão obsessiva marca ideológica que nenhum resultado eleitoral é suficiente para julgar os culpados.

A PT era a empresa portuguesa que conquistara mercados do Brasil ao Quénia, de S. Tomé a Timor, de Angola à Hungria, para acabar à mercê de candidatos que a absorvem e descaracterizam.

O apogeu e a queda da PT estão ligados ao antes e depois deste Governo como metáfora do estado a que este Governo conduziu o País.


terça-feira, Outubro 21, 2014

Proselitismo religioso


Quem os ameaça? Ou é o casamento dos outros que querem irrevogável? Cerejeira conseguiu isso com Salazar e os dramas foram penosos.

segunda-feira, Outubro 20, 2014

Martine Aubry, Valls e a “guerra de nervos”..

A entrevista concedida por Martine Aubry ao jornal JDD link - “Eu exijo que se reoriente a política económica” - merece ser atentamente lida.

A afirmação - feita pela maire de Lille e ex-primeira secretária do PSF - de que não é possível mobilizar um País à volta da gestão financeira, sendo necessário dar-lhe um destino de viagem - é um tremendo repto para a Esquerda europeia absorvida em derivas à volta de ‘socialismos liberais’, totalmente manietados por questões orçamentais e na adivinhação dos desejos e execução dos ditames dos mercados.

Esta ‘pedrada no charco’ incomodou o primeiro-ministro Manuel Valls que ‘ressabiado’ veio a terreiro declarar ter ‘nervos sólidoslink .

Para já, está instalada uma ‘guerra de nervos’…

João Paulo II (JP2) e os mártires da ICAR

As Igrejas pelam-se por mártires. Os santos têm escassa cotação e poucas se dedicam à sua criação. A ICAR entrou na era industrial com JP2, um caso de superstição e doentia fixação em defuntos a quem atribuiu passadas virtudes e poderes perenes. Para fabricar um santo basta engendrar dois milagres e cobrar os emolumentos do processo canónico. Para produzir mártires urge encontrar algozes predispostos a causar vítimas.

Os mártires podem ser dementes que procuram o Paraíso ou infelizes que estão à hora certa no sítio errado. Os suicidas islâmicos ilustram o primeiro caso, os missionários apresados por canibais fazem parte do segundo. Estes, em vez de serem benquistos pela eucaristia que levavam eram apreciados como manjar divino, em ávida antropofagia.
 
O nacionalismo e a fé convivem de mãos dadas. A vontade divina coincide muitas vezes com a do príncipe e este é usualmente um agente predestinado. A glória terrena facilita-lhe a bem-aventurança eterna. A rainha Santa Isabel fez o milagre das rosas, um milagre de que uma tia avó, húngara, certamente lhe enviara a receita para Aragão. Herdou-lhe o nome, o truque, a realeza e a santidade.

Nuno Álvares Pereira andou aí, depois de muitas humilhações nas provas para santo, a ser ultrapassado pelas bentinha de Balasar, os pastorinhos de Fátima e outros defuntos com milagres comprovados e devoções firmadas. Faltou-lhe o martírio que infligiu aos castelhanos e a coragem da Cúria Romana para enfrentar Espanha. Quando muitos já desistiam da canonização, o patriarca Policarpo porfiou na devoção e exigiu a Roma um milagre para dinamizar a estatuária e colocar nos altares portugueses uma peanha mais.

Destinados à santidade, o Vaticano, bairro que também usa o pseudónimo de Santa Sé, já leva três pontificados a publicar listas de mártires e defuntos virtuosos. As mortes são antigas e a utilização, para fins de propaganda, é a macabra operação de marketing que a ICAR favorece. O Cardeal Crescenzio Sepe, criado cardeal e nomeado prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos pelo inefável JP2, evocava o “generoso tributo de sangue de muitos irmãos e irmãs para o crescimento da Igreja no mundo”.

Morrer ao serviço de Deus é garantir o Paraíso – garante o clero –, com a mesma certeza com que na praça nos afiançam a excelência da hortaliça e no talho a saúde do animal de que nos cortam os bifes.

ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana


domingo, Outubro 19, 2014

Uma insondável tempestade helénica …

A Europa desde há meses que cultiva um preocupante estado de entorpecimento.
O Conselho Europeu, continua a apostar na continuidade nas soluções de emergência prévias, vazias de estratégia, que se resumem a um cego e obstinado cumprimento do Tratado Orçamental e a infindáveis ‘reformas estruturais’ e este caminho mostra que opções cada vez mais eivadas de indefinições, subterfúgios e fugas à realidade, (re)lançaram a Grécia na arena dos mercados e o rugido dos ‘leões’ da especulação já é  bem audível. Trata-se de uma penosa rota de regresso a 2010 quando começou o ‘ajustamento’ grego, iniciando-se, deste modo, um infindável círculo vicioso, impossível de gerir politicamente (e democraticamente) link.

As ‘yields’ gregas a 10 anos aproximam-se vertiginosamente dos 2 dígitos (8.22%), tendo contagiado de imediato quase todos os países periféricos (Portugal, Espanha e Itália). A perspectiva de uma nova crise da dívida ensombra a Europa do Sul já que, considerados esses níveis de juros, a Grécia está – na prática - impossibilitada de financiar-se nos mercados financeiros e o contágio aparece como inevitável.

A Grécia, no terminus do seu 2º. resgate, não tem capacidade financeira e económica para uma saída ‘limpa’ da intervenção externa e é confrontada com a ‘necessidade’ de um novo programa de ajudas (seja um programa cautelar, seja um novo resgate). Independentemente do conceito espúrio de ‘saída limpa’, circunstância enigmática e de contornos indefinidos que os portugueses há bem pouco tempo debateram e ainda permanece no nosso inconsciente colectivo o leque de soluções vindas da Europa e das instituições internacionais que mereçam o beneplácito dos mercados está, perigosamente, a estreitar-se.
O beco sem saída para aonde a Grécia está a ser empurrada é um gritante libelo para avaliar da qualidade, dos meios e fins dos denominados ‘programas de resgate’ engendrados por instituições financeiras internacionais e europeias para os países em dificuldades financeiras, decorrentes de ancestrais fragilidades de desenvolvimento que a moeda única veio agravar.

O FMI insiste num programa cautelar que dê conforto ao financiamento grego, não sendo explícitados os custos dessa medida o que torna o futuro da coligação de Antonis Samaras muito periclitante.  
Por outro lado, a Bloomberg News link revela que as próximas eleições poderão levar o partido Syriza ao poder que, defendendo a renegociação das dívida e a reversão de algumas das reformas impostas pela troika, rebentarão estrondosamente com toda a estratégia que vem sendo desenhada por Berlim para a Zona Euro.
A par da deflação que grassa na Zona Euro a ameaça grega tem de ser considerada como uma questão europeia da maior importância não valendo de nada dichotes do tipo “…nós não somos a Grécia!”.

A última reunião do Conselho Europeu (26/27 de Junho 2014) passou olimpicamente ao lado destes problemas porque esteve ocupada em 'jogos políticos' para a nomeação do presidente da Comissão Europeia. A próxima a realizar em 26/27 de Outubro não deverá ser diferente. Esta a postura habitual do Conselho quanto à previsão de cenários evidentes e eminentes. Depois vêm as ‘soluções drásticas’ e as 'recriminações abusivas', quando não as ameaças de exclusão. Só que seria importante ter a noção de que a Europa está à beira da exaustão, i. e., manifestamente cansada e incrédula!

Estrasburgo: um novo pantanal?

A dissolução do grupo parlamentar da extrema-direita no parlamento europeu (EFDD) link é, à primeira vista, uma boa notícia.
A Europa tem muito poucos ‘euro-convictos’ e pode, muito bem, dispensar os eurocépticos e/ou os eurofóbicos.
 
No centro da dissolução do grupo de extrema-direita está a saída da eurodeputada letã Iveta Grigule. Ao abandonar a formação parlamentar, que tantas dificuldades tiveram para se organizar, sob a batuta de Nigel Farage, dirigente do movimento britânico UKIP, Iveta enviabilizou a sua existência já que regulamentarmente o EFDD (Europe of Freedom and Direct Democracy) deixou de representar uma diversidade de deputados que lhe assegurou, até aqui, a necessária representatividade (são necessários deputados oriundos de 7 dos 27 países) e a consequente subsidiação das instâncias europeias (de milhões de libras, já que abominam o euro).

Existem nesta situação vários problemas em suspenso que seria bom esclarecer e precaver.

O principal será para o grupo parlamentar da extrema-direita que perde a capacidade de actuar em bloco no PE, apresentar propostas e ver a suas acções (contra a UE) largamente subsidiadas. Sendo um problema do EFDD que revela uma brutal inconsistência política do grupo que vive à custa de demagógicas posições sobre a emigração deve, no entanto, colocar de atalaia a instituição parlamentar europeia para todo o tipo de ‘golpismos’ tão caros à extrema-direita.

Um outro problema é a própria deputada letã Iveta Grigule. Denunciada através de um comunicado emitido pelo EFDD link de ter sucumbido às pressões conjuntas do presidente do PPE, Manfred Weber, em consonância com o presidente do PE, Martin Schulz, tendo como moeda de troca a sua nomeação para presidente da delegação parlamentar da UE para o Cazaquistão, a eurodeputada letã deveria justificar (politicamente) a sua saída do grupo EFDD a fim de esclarecer todas as dúvidas que envolvem este caso. Para já um comunicado do gabinete de Martin Schulz, à BBC, negou estas acusações.
A não ser que o currículo de Iveta Grigule, uma solitária eleição do Latavia Farmer’s Union para o PE sugira que esteja de regresso ao Latavian Green Party, que concorreu coligado sob a bandeira da ‘Union of Greens and Farmers’, partido letão dos ‘verdes’ e dos ’fazendeiros’, colonizado por (ultra)nacionalismos geradores de 'sistémicos eurocepticismos', donde a deputada europeia é oriunda e acabou por ser expulsa link, num circuito sinuoso e fechado, algo incompreensível, mas pejado de venialidades  e oportunismos, acabe por levantar dúvidas e interrogações sobre a sua idoneidade política…
Aliás, Sharon Ellul-Bonici, secretária-geral da European Aliance for Freedom (agrupamento que incluiu a Frente Nacional de Marine Le Pen) veio prontamente a terreiro afirmar que Iveta Grigule… ‘não era de confiançalink .

A implosão do grupo parlamentar de extrema-direita em Estrasburgo (EFDD) significa um inegável recuo na pujança deste bloco político - revelada nas últimas eleições europeias - surgida à custa dos erros dos actuais ‘reformadores da Europa’, orquestrados sob a batuta de Berlim.
Todavia, o 'populismo' - seja sofisticado ou bacoco - é sempre um terreno de fogos-fátuos. E isto é verdade para todos os espectros políticos.

Mas existem, neste processo, demasiadas coincidências e obscuridades a esclarecer quer da parte da deputada Iveta Grigule quer do presidente do Parlamento europeu. Da parte do Sr. Farage e do ‘palhaço’ Grillo só chegarão insinuações, queixumes e ataques avulsos às instituições europeias.
Para o PE o cabal esclarecimento dos contornos e motivações deste ‘crash’ é a melhor garantia que amanhã do EFDD não (re) surgirá no PE com outros protagonistas, novos embustes e as mesmas pretensões.
É que as boas notícias devem ter por detrás claros e bons motivos. De resto, este ‘incidente’ faz lembrar o ‘método limiano’, bem conhecido dos portugueses, que, como sabemos, desembocou no ‘pântanolink.

Frases de um grande cientista

“No passado, antes de entendermos a ciência, era lógico acreditar que Deus criou o Universo. Mas agora a ciência oferece uma explicação mais convincente”

“Acredito que conseguiremos entender a origem e a estrutura do Universo. De facto, mesmo agora já estamos perto de lograr esse objetivo. Não há nenhum aspeto da realidade fora da mente humana.”

(Stephen Hawking, físico britâncico, um dos maiores cientistas mundiais, em entrevista ao El Mundo)