sexta-feira, maio 26, 2017

A intolerância hindu

Ontem, 24 de maio de 2017, um dia depois do trágico atentado de Manchester, surgiu a notícia da vandalização, no último domingo, da “Capela de Nossa Senhora de Fátima”, na localidade indiana de Godamakunta.

Fanáticos hindus atacaram o edifício, inaugurado a 13 de maio, e destruíram as imagens de Jesus, da Senhora de Fátima e restante iconografia católica. A demência pia contagia todas as religiões, ainda que o hinduísmo não seja propriamente um teísmo, com as suas 330 mil divindades diferentes cultuadas, e sendo raro o culto da trindade Brama, Shiva e Vixnu.

Desta crença, onde a permanência das castas e a desonra das viúvas que voltam a casar, (deviam acompanhar o marido na pira funerária), são os aspetos mais repulsivos, temos a ideia de que o pacifismo é a sua matriz imperecível.
Uma crença com mil milhões de seguidores apresenta fatalmente nuances pioradas pelo nacionalismo hindu. Não esqueçamos que é a terceira ‘religião’ do Planeta, rivalizando com o número de não crentes, depois do cristianismo e do islamismo.

A mais antiga tradição viva, onde não há formalidades litúrgicas nem congregações de crentes, é vulnerável ao nacionalismo.

Nas últimas eleições regionais, em março, depois da vitória dos nacionalistas hindus, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, figura pouco recomendável, decidiu nomear governador do estado de Uttar Pradesh (200 milhões de habitantes), Yogi Adityanath, execrável sacerdote comunitarista hindu militante, reacionário, que incita ao conflito e à violência contra os muçulmanos (20% da população) e defende a Índia exclusivamente hindu.

No berço da ‘dinastia’ Gandhi, onde nasceu o pacifista Mahatma Gandhi, emerge agora, pela via democrática, um déspota desejado, com delírios de grandeza, a atiçar medos e a instigar a violência, acirrando ódios, e capaz de edificar um templo hindu no local onde os extremistas arrasaram uma mesquita em 1992.

A maior democracia do mundo está ameaçada através do voto, paradoxo que começa a repetir-se das Filipinas à Índia, da Europa ao Médio Oriente, num mundo que a religião corrompe e o populismo insano aproveita.

Escaqueirar a imagem da Senhora de Fátima é uma ínfima metáfora do ódio sectário de que as religiões são capazes.

quinta-feira, maio 25, 2017

Blasfémia e liberdade de expressão



A blasfémia, definida como insulto a Deus, é um ‘crime’ sem vítimas, mas um conceito perigoso para a liberdade de expressão.

A defesa da ofensa faz-se apenas nos Tribunais, de acordo com o Código Penal (CP), e é duvidoso que Deus se constitua como queixoso ou os crentes apresentem procuração para o representar.

No entanto, o anacrónico “crime” medieval, que conduzia às fogueiras, ainda subsiste, no CP de 8 países europeus, laicos e civilizados (Dinamarca, Áustria, Finlândia, Grécia, Espanha, Irlanda, Itália e Portugal) e, disfarçado de “ofensa aos crentes”, desde 1972, em ‘França’, onde foi abolido em 1791. Até no Reino Unido, que o suprimiu em 2002, já apareceu o deputado Jeremy Corbyn a evocar a possibilidade de o reintegrar.

A blasfémia é uma arma política para erradicar religiões minoritárias e um instrumento para condicionar a liberdade de expressão. O Islão serve-se da alegada ofensa para ver nela a apostasia (direto inalienável em países democráticos), para a condenação à morte.

É curioso haver um ‘crime’ que não causa dano, e que muda de trincheira consoante a religião dominante. Chamar amoral a Maomé, quando a religião ainda permite práticas pedófilas, sob o disfarce de casamento, é motivo para condenação à morte.

Criminalizar a blasfémia é confundir o bom ou mau gosto com um delito, e mantê-lo no Código Penal é um anacronismo de legisladores que preferem o comunitarismo à defesa dos valores individuais e sujeitar as sociedades ao risco da ‘verdade divina’.

A jurisprudência lusa privilegia a liberdade de expressão em detrimento do anacronismo legal, mas o mimetismo islâmico aconselha a abolição da reminiscência medieval.

As sociedades democráticas não acolhem bagatelas penais, aliás, injustas, mas a doença endémica das religiões – o fundamentalismo – pode irromper, sendo urgente eliminar a blasfémia do Código Penal e deixá-la no catálogo dos pecados com jurisdição exclusiva do Tribunal divino.

Nada impedirá a forma popular com que os espanhóis se dirigem à hóstia ou nomeiam a Virgem e, ainda menos, as blasfémias italianas, em particular as calabresas, que juntam a bela sonoridade da língua italiana para se dirigirem ao seu Deus.

É inconcebível que sendo a liberdade religiosa legitimada pela liberdade de expressão, possa aquela deslegitimar a fonte da sua própria legitimidade.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 24, 2017

A direita desnorteada

Esta direita que não consegue desfazer-se da tralha cavaquista, a direita que sofre da síndrome ‘pied noir’ e chora o “nosso Ultramar, infelizmente perdido”, prejudicou o País na sua governação, na intriga internacional e na publicidade contra o atual governo.

É impossível esquecer prognósticos horrendos baseados no apoio do BE, PCP e PEV ao governo PS, o patético estertor da presidência de Cavaco Silva, desesperado para manter um governo que a AR reprovava, os medos lançados sobre a economia e a desconfiança dos países da União Europeia, cuja ingerência incitava através do PPE.

Esta direita, herdeira do salazarismo e não de Sá Carneiro, nunca se adaptou ao respeito pelo voto popular, aos partidos segundo a sua representação parlamentar, à alternância democrática e, sobretudo, à alternativa política.

Para Passos Coelho e Assunção Cristas, para não falar do velho e rabugento salazarista, Cavaco Silva, só os partidos que eles admitissem como democratas teriam legitimidade para serem governo. Tiques salazaristas de quem não frequentou a escola democrática.

A saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo, vaticinada como impossível por um governo que se limitava – segundo diziam –, a reverter as suas políticas, foi uma deceção agravada pela sensibilidade social, diálogo à esquerda e dimensão do êxito.

Mas se a incompetência foi a imagem de marca do último governo da direita, a falta de pudor com que reivindica louros de uma política de sinal contrário, revela a insolência de quem quer partilhar o êxito da política que combateu com violência e ressentimento.

Não faltam avençados a exigir que o Governo de António Costa elogie o seu antecessor que utilizou a crise das dívidas soberanas para demonizar a esquerda, sem compreender que deveu o poder à recessão mundial conjugada com o chumbo do PEC-IV.

Claro que há para aí quem, em dívida pelos favores recebidos, continue a gritar méritos que ninguém viu e virtudes desta direita truculenta e caceteira que ora acusa o PS de ser um satélite dos partidos à sua esquerda, ora acusa esses partidos de submissão ao PS, na persistência da intriga e do ressentimento.

terça-feira, maio 23, 2017

O atentado de Manchester

Não podemos deixar-nos matar por quem prefere a loucura do seu Deus à sensatez dos homens. O islamismo não é apenas uma religião, é uma ideologia fascista alimentada pelos negócios do armamento e do petróleo, exacerbada no ocaso da civilização árabe.

As ruas das capitais europeias fecham-se ao trânsito até que mais uma das cinco orações diárias seja rezada. Nas mesquitas e madraças, os clérigos incitam ao ódio contra infiéis, e exigem, em nome da liberdade religiosa, o direito ao proselitismo. Quando matam em nome de um deus que não gosta de música, de carne de porco, de álcool ou da igualdade de género, dizem que são extremistas que não alcançam a mensagem de paz do Profeta.

E nunca dizem se o verdadeiro islão é o da Arábia Saudita onde se decapitam pessoas e se amputam mãos, o da Malásia onde se vai ao ponto de proibir o batom, o do Irão onde a forca é o divertimento pio dos aiatolas, o dos países onde se jura fidelidade ao ISIS, se pratica a escravatura, se faz a excisão do clitóris, e onde a mulher tem sempre um papel subalterno.

Certo, certo, é não haver um único país sob a lei islâmica que respeite a democracia, a justiça, a igualdade homem-mulher, a liberdade e os direitos humanos.

Ontem, em Manchester, foi de novo provocada a civilização pelos dementes do Profeta, numa orgia de terror e sangue. Tal como sob o estado nazi, de Hitler, ou sob o fascismo, de Mussolini, não há, na Europa, forças suficientes para combater o totalitarismo.

Sem coragem para exigir respeito pelo etos civilizacional que é a matriz da democracia, arriscamo-nos a regressar às guerras religiosas que, no passado, dilaceraram a Europa.

Basta!

segunda-feira, maio 22, 2017

Charles Darwin sempre teve razão

ILUSTRAÇÃO ALEX GOZBLAU

domingo, maio 21, 2017

Maio de 68 – 21 de maio

Há 49 anos irrompeu em França uma tumultuosa rebelião de massas que começou com greves estudantis e rapidamente se espalhou por outros sectores da sociedade. Foi uma colossal e inédita rebelião que marcou o século XX.

A insurreição popular, de contornos difusos, venceu as diferenças étnicas, culturais e de classe, alastrou a outros países e foi o rastilho de enormes confrontos, com greves de estudantes e operários e a ocupação de universidades e fábricas, que provocaram o caos.

A tentativa de esmagamento, com forte repressão policial, levou à escalada do conflito e culminou com uma greve geral de estudantes e ocupações de fábricas em toda a França. Aderiram dez milhões de operários grevistas, apesar do desencorajamento do P. C. F. que, ironicamente, o Governo viria a acusar de responsável. Era o suspeito habitual.

O colapso do Governo levou o gen. de Gaulle a criar um quartel general de operações militares para obstar à insurreição, dissolver a Assembleia Nacional e marcar eleições parlamentares para 23 de junho de 1968. Chegou a refugiar-se numa base da força aérea, na Alemanha.

A violência com que irrompeu este movimento esgotou-se com a rapidez com que emergiu, e o partido gaulista reforçou a votação nas eleições que se seguiram.

Maio de 68 esgotou-se sem consequências políticas, mas deixou marcas profundas na educação, na sexualidade e na reivindicação do direito ao prazer, por uma juventude que alterou os padrões éticos que vigoravam. Começou com uma explosão de hormonas e acabou numa revolução de costumes.

Trump descobre que há outros países além do EUA

Trump disse ao ministro russo, Sergei Lavrov, que o ex-diretor, James Comey, do FBI, era “maluco” e que o seu despedimento aliviava a "grande pressão" que sentia sobre si pela investigação às alegadas ligações a Moscovo. Foi pior a emenda do que o soneto e o empreiteiro arrisca-se a ver caducado o contrato de arrendamento da Sala Oval.

Entretanto, essa referência ética e exemplo de estadista faz a sua primeira viagem fora dos EUA, começando pela Arábia Saudita, onde foi assinar um contrato de vendas de armas de 110 mil milhões de dólares com o rei Salman bin Abdulaziz.

O vetusto monarca disse que a visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, "tornará realidade a segurança e a estabilidade global". O casal Trump foi recebido com um aperto de mão pelo rei Salman, de 81 anos, apoiado numa bengala e levado até aos degraus do avião num carrinho de golfe.

A conversa entre os dois empreiteiros deixará o mundo mais tranquilo. As armas nas mãos dos dois interlocutores são uma garantia para a paz como o demonstram as amplas liberdades da Arábia Saudita.

A aliança entre o rei Salman bin Abdulaziz e Donald Trump é uma garantia de paz.

sábado, maio 20, 2017

A fama dos milagres chegou à Polícia Municipal


A Rainha Isabel e a cidade de Coimbra


Isabel de Aragão, beatificada por Leão X, em 1516, foi canonizada por Bento XIV, em 1742, com mais de 4 séculos de defunção.

O milagre obrado à saída do castelo do Sabugal, transformando em rosas o pão que levava aos pobres, quando o rei a surpreendeu, valeu-lhe a veneração pública e tornou-a credora da devoção coimbrã.
A santidade mereceu-a com o casamento aos 12 anos, idade em que são recomendados brinquedos e não mancebos. Nem precisava do milagre.

D. Dinis encomendou-a em fevereiro e fez a boda em junho, no Ano da Graça de 1282, fazendo com que os reis da França e da Inglaterra fossem procurar outras para os seus filhos, pois o pai da futura santa, o rei Pedro III de Aragão, preferiu entregá-la a quem já era rei, em vez de um dos dois que viriam a sê-lo, perante três pretendentes.

A Rainha Isabel era sobrinha de outra santa do mesmo nome e também rainha, nascida 6 décadas antes e que fizera o mesmo milagre, o que levou alguns céticos a pensar que se tratava de um truque de família.

Não sendo a Rainha Santa Isabel, a de Coimbra, tão santa como a tia, a quem apareceu a ‘Nossa Senhora’, cercada de anjos, e a prometer-lhe o céu dias antes de ser chamada à presença do seu divino filho, não deixou de entrar no devocionário dos autóctones.

Não sei se foi promessa ou subserviência pia o que levou o edil Carlos Encarnação, um autarca do PSD, a mandar arrasar as placas toponímicas da Ponte Europa e a substituí-las por outras com o nome de «Ponte Rainha Santa Isabel».

Não ficou mais rica a cidade, nem mais valorizado o autarca, mas ficou mais pia a ponte e mais desencardida a alma do ex-ajudante de Dias Loureiro, no consulado cavaquista.

sexta-feira, maio 19, 2017

Pensamento de Passos Coelho


Catarina Eufémia – 19 de maio de 1954

Há 63 anos foi assassinada a tiro uma ceifeira analfabeta, mãe de três filhos, durante uma greve de assalariados rurais, a resistir à repressão fascista. Para a História ficou a coragem da jovem que o tenente Carrajola, da GNR, assassinou, e o símbolo da mulher corajosa, que perdura na memória dos que não esquecem a ditadura salazarista.

Quando, por toda a Europa, a hidra fascista renasce sob vários disfarces, recordar aquela mãe-coragem de 26 anos, é homenagear as mulheres que lutaram pela liberdade e combater o esquecimento.

Ser mulher, pobre, analfabeta e assalariada rural foi o ónus de milhares de portuguesas que suportaram amargamente a ditadura. Catarina morreu a combater com a intuição de que vale mais morrer lutando do que desistir e sobreviver na escravidão.

***

RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA

Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

(José Carlos Ary dos Santos)