quinta-feira, Agosto 28, 2014

Factos & documentos


FRANÇA: Emmanuel Macron mais um rosto da indisfarçável deriva...


 
Macron rumo a 'Bercy'

Se uma justificação fosse necessária para fundamentar a ‘deriva liberalizante’ do Governo de François Hollande, encabeçado pelo ‘socialista de Direita’ Manuel Valls, a substituição do anterior ministro da Economia [Arnaud Montebourg] por Emmanuel Macron é extremamente reveladora. 

Trata-se de estimular o tal ‘Pacto de Responsabilidade’ que ‘atribui’ 40 mil milhões de euros às empresas que, registe-se, foi entusiasticamente aplaudido pela confederação patronal Movimento das Empresas de França (MEDEF) link.
Valls prossegue este errático caminho ‘liberal’  na ‘militante’ esperança que essas poupanças, extorquidas aos contribuintes franceses e às prestações sociais, não vão parar directamente aos bolsos dos accionistas em dividendos e - pelo contrário - estimulem o crescimento, aumentem a competitividade e façam diminuir o desemprego galopante, o Presidente francês foi descobrir [no seu ‘inner circle’ do Palácio do Eliseu] um ex-banqueiro de investimentos (do Grupo Rothschild) link  e um recente convidado do Club Bilderberg (na reunião de Copenhaga em 29.05 a 01.06. 2014) link o 'homem' para executar as ‘suas’ [responsáveis ?] políticas económicas.

Não vale a pena elaborar grandes teorias sobre uma (neo)deriva liberal-socialista protagonizada por Hollande até porque esta é cada vez mais uma cópia requentada e deslocada da 'terceira via de Blair'  link.
Não faltarão aplausos a esta 'mudança' vindos da Srª. Merkel e do Sr. Schauble figuras que, de facto, ‘ensombram’ o governo Valls II.

Um exemplo hipotético – salvaguardadas as devidas distâncias e o percurso político - , aplicado aos nossos terrenos paroquiais, poderia servir para ilustrar [caricaturar] o que se está a passar em França.

Imaginem o que pensariam os socialistas portugueses se o seu líder propusesse para futuro ministro da Economia ou das Finanças o inefável profeta do ‘aguenta’, Sr. Fernando Ulrich…

A Sandoz e o negócio de diamantes em Coimbra (Crónica)

No ano de 1976 já se tinham desvanecido os ecos da mais idiota e injusta das greves que o pequeno educador da classe operária, Chaves Alves, tinha conseguido fomentar numa multinacional cuja autogestão exigia – segundo disse à imprensa –, ávida de agitação e a que não faltavam declarações de idiotas úteis e provocadores convictos.

Ajudou-o na tarefa o Cabral da Costa, que tinha maior amor à greve do que à gramática, que maltratava, e que deu origem à dupla Chabral da Costa. Para gerir, havia máquinas de escrever, pastilhas, supositórios e xaropes, vindos da Suíça, onde o operariado jamais se solidarizou com a vanguarda Chabral.

A euforia e o medo de passar por reacionário permitiram suportar a coação psicológica a que nem o António Gonçalves, respeitado pelo passado de resistente, durante a ditadura,  logrou pôr cobro. Até ao dia em que a fadiga e o impasse deixaram o líder sem tropas.

A Sandoz ocupava um lugar destacado na indústria farmacêutica e decidira manter dois grupos promocionais dos seus fármacos, Sandoz e Wander.

A hierarquia fora alterada revolucionariamente, situação que o Laboratório digeriu, o que permitiu ao Barroso chegar longe e fez o gerente regressar a Basileia.

Nesse verão de 1976 o Duarte Rodrigues era o chefe nacional da Wander e o Rebotim o da Região Centro. Em Coimbra estavam sediados dois delegados, o Silva Cunha e o cronista desta história. Uma manhã combinámos os quatro tomar café no Mandarim e dali fomos para o Hospital da Universidade de Coimbra (HUC), em trabalho.

O Duarte Rodrigues deixou o carro estacionado em frente ao Mandarim e eu deixara-o à entrada do Jardim da Sereia. Para o HUC fomos nos carros do Silva Cunha e do saudoso Rebotim, uma carrinha Peugeot 203, a diesel.

Antes disso, do carro do Duarte Rodrigues saiu uma embalagem de frascos de vitamina D3, que trouxera de Lisboa, e que fui meter na mala do meu Datsun 1200. No regresso houve entrega de amostras do Rebotim ao Silva Cunha, antes de entrarmos os quatro na carrinha e rumarmos à Mealhada, a almoçar leitão.

Foi longo e copioso o almoço. Na volta parámos na R. da Sofia a abraçar um colega e chegámos à Praça da República, com o dia cumprido, prontos a regressar a casa.

Quando o Rebotim parou junto ao meu carro, demos conta de um 1.º subchefe da PSP a meter a bala na câmara da metralhadora, armamento inabitual na corporação, e a gritar para ninguém fazer gestos suspeitos. De armas aperradas, dois polícias protegiam-lhe a retaguarda. Pedi que me deixasse abrir o carro e tirar os documentos de identificação.

Na carrinha Peugeot, com o Rebotim ao volante e o Duarte Rodrigues ao lado, entraram dois polícias para a parte de trás, enquanto um carro da PSP aguardava com dois agentes a minha entrada e a do Silva Cunha, que fora obrigado a mudar de viatura, e o subchefe, de enorme estatura e visível inquietação.

Os dois carros contornaram a Praça da República, subiram a R. Alexandre Herculano e, na primeira rua, viraram à esquerda para a esquadra. Quando os carros se imobilizaram, a um gesto do subchefe, o sentinela puxou a culatra e meteu uma bala na câmara. E foi num ambiente crispado que entrámos na sala de entrada onde um chefe nos aguardava e outros polícias reforçavam a segurança.

O primeiro a ser inquirido foi declinando o nome, Duarte Afonso Pimentel Rodrigues, chefe de propaganda médica de Produtos Sandoz, Ltd.ª, filiação, naturalidade e residência. O subchefe, tranquilizado com o armamento e a superioridade numérica, foi dizendo, meu chefe, vê, o fato condiz, e olhe a gravata, eu bem disse à Natércia que me pusesse outra, os senhores estão acusados de um crime muito grave – disse o chefe –, e o Rebotim sentia-se responsável, por se ter esquecido de pagar o imposto de gasóleo.

A seguir foi a vez do Ramiro Romão Rebotim e o Silva Cunha irado, tenente na reserva, a quem o subchefe, havia pouco tempo, falaria em sentido, recalcitrou e foi encostado à parede, levante os braços, e sumariamente revistado pelo subchefe. Nem um corta-unhas tinha. A profissão do Rebotim, chefe de secção de propaganda médica de Produtos Sandoz, Ltd.ª, pareceu abalar a confiança do chefe que nos identificava.

O terceiro fui eu e a qualidade de delegado de Produtos Sandoz, Ltd.ª punha em dúvida o delinquente cuja barba, fato e gravata coincidiam com a do meliante do bando que a PSP tinha detido sem um único tiro. Antes de perguntar o nome ainda disse, pode haver engano mas a descrição confere, e começou a identificação enquanto o jantar e a mulher aguardavam o recém-casado.

Por fim, foi a vez do Silva Cunha, sem armas ou amostras clínicas, e, mal tinha acabado de dizer que Manoel se escrevia com «o», mania de exigir o erro ortográfico de Júlio Manuel, o chefe recebeu um recado e suspendeu a identificação do perigoso tunante.

Disse que tínhamos deixado de estar detidos e que íamos em carros da polícia à PJ. Ali aguardava o inspetor-chefe que se queixou do atraso do seu jantar para nos poder pedir desculpa e pôr viaturas à nossa disposição, para nos levar onde desejássemos, depois de nos dar uma explicação.

Enquanto tomávamos café no Mandarim, pela manhã, um cliente lia no Comércio do Porto que 4 perigosos malfeitores, traficantes de diamantes, andavam a monte e faziam-se transportar num Dolomit, exatamente a marca do carro do Duarte Rodrigues. Tomou nota dos fatos, gravatas, estatura e outros detalhes que, à nossa saída, logo noticiou à PJ.

Foi ordenada a detenção da carrinha, cuja matrícula foi divulgada, e dos ocupantes. As patrulhas que nos aguardavam, fortemente armadas, não deram pela nossa passagem.

A notícia com mais de um mês, por razões que o Comércio do Porto não soube explicar, empastelada na tipografia, saiu naquele dia e com a marca do carro errada. Uma chuva miudinha, fora de tempo, evitou o espetáculo para numerosos conhecidos que se tinham recolhido nos cafés.

Apostila – É com imensa saudade que recordo o Rebotim, um excelente amigo e colega, a quem dedico esta crónica. Agosto/2014 

Ponte Europa / Sorumbático


quarta-feira, Agosto 27, 2014

Salazar – Quarenta e quatro anos depois

A morte, na cultura judaico-cristã, é o detergente que limpa todas as nódoas, a lixívia que desencarde o mais negro dos passados e a circunstância que transforma um crápula numa pessoa de bem.

Em 1970, no dia de hoje, exalou o último suspiro o vil ditador que vegetava desde 3 de agosto de 1968. Mais de 40 anos de partido único, de perseguições, de julgamentos sem culpa formada, no país que manteve beato, tímido e analfabeto, deram lugar às lamúrias das carpideiras contratadas, dos cúmplices do regime e dos esbirros da ditadura.

Em Lisboa houve bailes de ação de graças, foguetes a sul do Tejo e alívio generalizado de quem via no cadáver adiado a peçonha de décadas do país «orgulhosamente só».

O tom laudatório da imprensa, sujeita a censura prévia, destoava do alívio generalizado e do regozijo silencioso. A encenação da dor coletiva foi percursora da de outros biltres que morreram na cama. Os telegramas de condolências do genocida Francisco Franco e de Paulo VI foram anunciados como a veneração do mundo, a que se juntou o da inútil e mediática rainha de Inglaterra, Isabel II, para regozijo dos dignitários paroquiais.

Foi precisa a generosa mediação do caruncho, numa cadeira do Forte de Santo António do Estoril, para afastar do poder o mais longevo ditador mundial, e que o ciclo biológico se cumprisse para que o veneno fosse inumado em Santa Comba Dão, onde fora gerado e de onde partira para o seminário, primeiro, e, depois, para a Universidade, o CADC e o ministério das Finanças, antes de se tornar o carrasco de um povo.

Na morte não lhe faltaram as sotainas que o incensaram em vida, as mitras, os báculos e os anelões, nem o barrete cardinalício do Cerejeira. A escroqueria nacional passou pelo ataúde numa solenidade pífia cuja dimensão não apagava o ar provinciano da cerimónia fúnebre que encheu de esperança os democratas, perseguidos, presos ou ostracizados de quarenta e oito anos.

A guerra colonial, que o ditador não soube resolver, persistia a agravar ressentimentos e a semear ódios enquanto os mortos e estropiados não deixavam de aumentar. As prisões continuaram, a tortura manteve-se, o isolamento nacional aprofundava-se e as remessas dos emigrantes, cada vez maiores, já não suportavam a demência colonialista, a guarda pretoriana e as forças de repressão. Marcelo era um reacionário a prazo, o substituto do torcionário, que delapidava uma brilhante carreira universitária, na herança indigna que não teve pejo em receber.

Permaneceria ainda mais de três anos para acabar no Quartel do Carmo com ministros que choravam, quais ratos encurralados, sob a generosa indulgência de Salgueiro Maia.

A morte do frio ditador, indiferente às torturas dos esbirros e ao tormento do povo, não foi apenas o fim de uma vida, foi o despertar da esperança que seria concretizada numa doce madrugada de Abril.

Apostila - Um erro de leitura da data, de que peço desculpa aos leitores, fez-me sacrificar a Pátria com mais um mês de vida do ditador.

terça-feira, Agosto 26, 2014

26 de agosto – efemérides

1789 – A Assembleia Constituinte francesa aprova a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

(Fizeram mais os deputados franceses num só dia do que todos os clérigos desde que o deus de cada um deles criou o Mundo).

1931 – Tentativa de golpe de Estado em Portugal contra a ditadura.

(Há azares que se pagam durante duas gerações. Este levou quase 43 anos a reparar).

2004 – O Supremo Tribunal do Chile retirou a imunidade ao antigo ditador Augusto Pinochet.

(Vale mais tarde do que nunca).


Aurélie, s'en va...


A carta escrita pela Ministra da Cultura e Comunicação francesa, Aurélie Fillippetti, e enviada ao presidente François Hollande e ao primeiro-ministro Manuel Valls,  foi ontem publicada no jornal Le Monde  link merecendo ser lida e analisada.
Nessa carta aberta estão estampadas questões fundamentais que inquinam o programa político do Governo Francês (questões de lealdade aos ideais e compromissos eleitorais) mostram que a actual crise interna em França não se resolve com remodelações governamentais. 
O balanceamento entre Solidariedade, Responsabilidade e Lealdade está bem presente no conteúdo do documento tornando-se esta trilogia político-partidária importante mas prioritariamente condicionada por uma outra impressa no cabeçalho da referida carta (Liberdade, Igualdade e Fraternidade). 
A desilusão que está patente ao longo de todo o texto desta carta é reveladora do modo como a liderança e o desempenho do Governo do Presidente Hollande desmotivou alguns ‘compagnons de route’ e, mais profundamente, desapontou a maioria dos franceses.
De fora ficam por apurar os danos colaterais para toda a Esquerda europeia.



Política, guerra e dignidade

Não esqueço a imprudência e maldade que levou a Alemanha e o Vaticano, na ânsia de atraírem a Croácia e a Eslovénia, católicas, a desintegrarem a Jugoslávia, empurrando a Europa para a cumplicidade na aventura.

Depois, não sei se a Europa se converteu em joguete, cúmplice ou instigadora dos EUA no estímulo à falhada aventura da Geórgia e, depois, à destabilização da Ucrânia, numa provocação à Rússia cuja proximidade da NATO abomina, naturalmente.

A indiferença perante as minorias russas, numa espécie de vingança póstuma da URSS, leva a União Europeia, por conta própria ou a mando alheio, a lançar-se em aventuras a que falta uma diplomacia comum, visão estratégica, potencial bélico e razoabilidade.

Colocar Putin, que os interesses europeus deviam tentar seduzir e não hostilizar, entre a capitulação e a agressividade, é um jogo que revela a falta de inteligência e temeridade com que a UE reincidiu na Sérvia, criando o entreposto da droga e da Jihad no Kosovo.

Dito isto, não posso deixar de repudiar a atitude dos separatistas russos da Ucrânia que, na região que dominam, num espetáculo indecoroso, fizeram desfilar numa avenida de Donetsk, soldados ucranianos, de mãos atadas atrás e escoltados por baionetas, por entre insultos e chacota da populaça. Anteontem, a boçalidade dos carcereiros fez alterar a minha simpatia a favor das vítimas.

Não bastou prender dezenas de soldados, o que, neste caso, se compreende, desejou-se a humilhação, a exibição gratuita e grotesca de quem, não tendo armas, merecia respeito.

Não há causas que resistam à boçalidade de quem, não sabendo respeitar os adversários, perde o respeito por si próprio e a simpatia de quem entendia a sua razão e aspirações.


segunda-feira, Agosto 25, 2014

Hollande, Montebourg e a ‘tempestade’ anunciada…

O Governo francês demitiu-se em consequência de duras críticas tecidas pelo (ex)Ministro da Economia, Arnaud Montebourg, acerca das políticas de austeridade que fustigam a França e a Europa.
Classificou os 'profetas da austeridade' (Merkel?) como os responsáveis pela crise económica europeia e os promotores de sacrifícios inúteis  link.
 
A esquerda do PSF está em polvorosa. Muita gente bate a porta a Francois Hollande que fica, cada vez mais, isolado e prisioneiro do ‘liberalismo socialista’ que poderá 'desbaratar' a actual maioria na Assembleia Nacional. Um dos mais virulentos ataques a Hollande partiu de Jean-Luc Mélenchon, antigo candidato presidencial, oriundo da área socialista e fundador do Partido de Esquerda que, em declarações proferidas há 2 dias em Grenoble, considerou o actual presidente ‘pior’ do que Sarkozy link.
 
A Direita, neste momento, liderada de facto pela FN de Marine Le Pen perdeu todo o respeito ao presidente francês e pede a dissolução da Assembleia Nacional e eleições antecipadas link .
Hollande resiste ancorado em Manuel Valls que sendo um expoente do ‘socialismo liberal’ não tem peso político para defender o Presidente da República deste ‘ensanduichamento’ (à Direita e à Esquerda), nem espaço de manobra social para proceder a reformas económicas e fiscais que sejam uma alternativa da austeridade diariamente emanada de Berlim.
 
A viragem protagonizada por Hollande ao deitar no caixote do lixo a maioria das promessas eleitorais levou-o a enveredar por um caminho suicidário. A relevação de um novo Governo, amanhã, com toda a probabilidade, não será uma boa solução para a crise política, nem vai ‘sossegar’ os franceses. Diminuirá ainda mais a já frágil base social de apoio que o actual Governo de França disfruta.
E por arrastamento a UE terá de somar à crise económica, uma grave instabilidade política que envolve a 2ª. potencia do espaço comunitário.
 
Começam a soprar ventos que parecem anunciar a eclosão de uma ‘tempestade perfeita’… que tudo indica não ficará circunscrita a Paris.

Do Médio Oriente a Cascavel…

Penitenciária de Cascavel, Paraná, Brasil

A decapitação do jornalista James Foley às mãos de um súbito britânico sob o comando do megalómano ‘califa’ Abu Bakr al-Baghdadi, putativo chefe de um mítico Estado Islâmico, suscitou uma onda de indignação e levantou questões ainda por resolver no combate ao terrorismo. A conotação entre estes extremistas religiosos e o Islão na sua vertente sunita, facção wahabita (salafista) é fácil de estabelecer o que foi, de imediato, a conclusão no Ocidente, a reboque de ilações directas, mas superficiais.
O que não interessa é saber quem financia o trágico e pretensioso califado. A Arábia Saudita é um parceiro energético insubstituível e um ‘aliado’ do Ocidente e o Qatar um mediador silencioso e eficaz para a libertação de alguns prisioneiros (Theo Curtis, p. exº.) .

A bárbara e selvática execução do jornalista norte-americano mais do que indignou, chocou o Mundo, em termos humanitários e civilizacionais, modificou a sensibilidade e a tolerância dos cidadãos para com qualquer tipo de actos terroristas. Funcionou como uma espécie de vacina para todas as posições titubeantes.
 
O Terror foi um instrumento 'revolucionário' que vem do nosso longínquo trajecto histórico. Sem falar nas devastações e nos morticínios medievais interessa sublinhar que um dos seus pontos altos (do dito Terror) foi, exactamente, a Revolução francesa, incontestável precursora da Era Moderna. Embora de curta duração (1 ano) o terror jacobino (que decapitava na guilhotina) contou com vultos como Robespierre e Saint Just que a cultura ocidental não pode, nem consegue, ignorar. 

Mas nem toda esta onda de violência que passa por inconcebíveis e selváticas decapitações sucede exclusivamente no Médio Oriente ou se entronca em concepções e/ou práticas religiosas primitivas, radicais e intolerantes.

Na verdade, a violência pode ter múltiplas origens (raiva, desespero, paixão, miséria) que parecem conotáveis com a intolerância radical dos fanatismos religiosos (há muitos) à volta de proselitismo ou, como no caso do ‘Estado Islâmico’, projectos ‘divinos’ de poder (aparentados com o obsoleto absolutismo que no passado nos fustigou). 
O que parece ser um denominador comum de todos os tipos de fanatismos é uma gritante e aberrante irracionalidade que lhe está inerente (com causas múltiplas), a consequente e omnipresente desumanidade, subsidiária de uma infindável intolerância e sistemático recurso à violência.

A notícia ontem divulgada sobre distúrbios na Penintenciária de Cascavel, Estado de Paraná, Brasil, referindo a decapitação de 2 seres humanos link, provavelmente às mãos de cristãos, levanta questões humanas e civilizacionais ao Ocidente que convinha não escamotear ou disfarçar por detrás do nome de um réptil venenoso…

A esquerda e a laicidade

O pensamento de esquerda, foi-se estruturando desde o Renascimento, teve o apogeu no Iluminismo e tornou-se o motor das transformações sociais, económicas e políticas que conduziram à modernidade. Não vale a pena negar as violências cometidas e crimes em que imitou o absolutismo monárquico. Nunca a ideologia nobre se conseguiu emancipar da herança que rejeitou.

Os direitos humanos devem mais à Revolução Francesa, com a violência praticada, do que a séculos de poder absoluto, de origem divina, onde o despotismo nunca foi alheio.

A esquerda que não consegue fazer a autocrítica deixa de ser ideologia e passa a crença. A esquerda, humanista e plural, tem um património recente, mas é a herdeira da melhor tradição e dos mais nobres ideais. Logrou, aliás, civilizar alguma direita e convencê-la a defender os seus princípios fundamentais, com exceção do modelo económico.

A liberdade de expressão e de reunião, a igualdade de género e a defesa do Estado de direito, são hoje um património comum à esquerda e direita nos países democráticos. Sem a persistente luta da esquerda, a separação da Igreja e do Estado e a Declaração Universal dos Direitos Humanos não teriam sido proclamadas.

A secularização foi possível com a imposição da laicidade, graças à repressão política do clero, que se julgava com mandato divino e se acolhia no regaço das ditaduras.

É por estas razões que confrange ver certa esquerda islamófila, na convicção de que os inimigos de Israel terão de ser amigos, sem um sobressalto cívico contra a sharia, sem uma manifestação de repulsa pelas teocracias, sem assumir a superioridade moral das democracias sobre as ditaduras e das sociedades permissivas sobre as que condenam as mulheres a vergonhosos interditos e a sofrimentos indizíveis.

Uma sociedade onde as pessoas, seja qual for o sexo, a raça ou a orientação sexual, não possam mudar livremente de opinião, renegar a fé e transitar para outra, não pode obter a cumplicidade de quem reclama a liberdade, a sua e a alheia.

A esquerda que é cúmplice, pelo silêncio ou atuação, da perpetuação de modelos tribais e anacrónicos códigos de conduta, impostos por uma legião de guardiões, é a aliada da pior direita, da direita que quer substituir a repressão islâmica por outra, a discriminação ancestral por formas sofisticadas de domínio económico, social e político.


sábado, Agosto 23, 2014

Homenagem a Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti


Hoje, 23 de Agosto de 2014, cumprem-se 87 anos que Sacco e Vanzzeti foram mortos por eletrocussão, nos EUA.

A sua inocência é inquestionável. Cinquenta anos depois da sua execução em 1927, a justiça americana reconheceu o erro e declarou-os inocentes.

Foram executados porque eram anarquistas e emigrantes.

Assassinados pela intolerância política (o juiz considerou não comprovada a acusação mas antes "inimigos das instituições") e porque eram italianos (num clima de histeria xenófoba), são mártires que interpelam sobre a xenofobia e a macabra pena de morte.

Os tortuosos caminhos da fé

Quando alguém se converte, na política ou na religião, é um herói. Se deserta, é traidor. É deste maniqueísmo que se alimenta o poder e se forjam os juízos morais.

Há quem morra por um mito e mate por uma utopia, quem se imole na apoteose da fé ou assassine na esperança de uma vida melhor de cuja existência não há o menor indício ou a mais leve suspeita.

Se um pobre, embrutecido pelo álcool e com o raciocínio embotado pela fome, mata ou rouba, é um criminoso. Se um indivíduo é impelido para a barbárie pela demência da fé e a crença na eternidade, é um mártir. É demasiado ténue a diferença entre a abnegação e a estupidez, a linha que separa o herói do pusilânime, e subtil o motivo que provoca a raiva ou o afeto.

A moral é a ciência dos costumes e não a vontade de um ser imaginário. Os homens de hoje são mais humanos do que os seus antepassados e repugna-lhes executar a vontade de um ente irreal em cuja crença foram fanatizados desde crianças. Essa evolução feita com o sangue dos livres-pensadores, com o sacrifício dos visionários e a abnegação de quem, tendo convicções profundas, respeita as alheias, não parece globalizar-se.

Permanecem escravos de constrangimentos sociais, vítimas de discriminação de género e embrutecidos por pregadores, milhões de indivíduos que se ajoelham a horas certas e rezam cinco vezes por dia, num ritual que tolda a inteligência e embota a sensibilidade.

Hoje, o medo espalha-se, e o confronto, que julgávamos impossível entre a civilização e a barbárie, vem aí. A lapidação de adúlteras e a decapitação de infiéis é inflamada pelos pregadores do ódio e homens de virtude, num regresso agressivo a práticas medievais.

A laicidade foi uma conquista obtida contra fogueiras e excomunhões, contra clérigos e catequistas, contra papas e reis, na caminhada que levou a Europa à separação da Igreja e do Estado, com os clérigos proibidos de legislar e os governos de dizerem missa.

Não permitiremos, em nome do multiculturalismo, que a arquitetura jurídica da Europa seja ameaçada com fanáticos que se vingam da civilização falhada com a violência de uma fé anacrónica.

O Estado Islâmico é o poder absoluto de origem divina que ensanguentou a Europa, é a demência de um manual terrorista recitado e praticado com a loucura tribal, é a droga que se entranhou numa civilização falhada e que seduz uma juventude sem horizontes.

Temos de ser vigilantes para não sermos vigiados e degolados.  Urge combater crenças e respeitar os crentes.

O BES BOM e o logotipo


Só quem desconhece a vida curta das borboletas podia aceitar uma como o logotipo do NOVOBANCO.

A opção por um lepidóptero que passa por metamorfoses, que na fase de lagarta é voraz e na adulta vive entre duas semanas a três meses, só podia ser tomada por quem aprecia larvas antes de se tornarem crisálidas e se fixa na cor sem ter em conta a longevidade.

Não ocorreu ao decisor que não é por terem dois pares de asas que as borboletas voam mais depressa.  Ou então estava a pensar na espirotrompa com que sugam o néctar mas, para isso, não precisamos de borboletas, já temos este Governo há três anos.

sexta-feira, Agosto 22, 2014

De mal a pior


O Islão é pacífico

O Estado Islâmico é perigoso mas o estado do islamismo é trágico

quinta-feira, Agosto 21, 2014

Médio Oriente: o ‘tirocínio churchilliano’…

O bárbaro assassínio no Iraque de um jornalista norte-americano perpetrado pelo chamado Exército Islâmico (EI), aparentemente tendo como carrasco um súbito britânico exportado para a ‘guerra de libertação’ da Síria, indignou o mundo civilizado mas, paralelamente, levanta várias questões políticas de fundo link.

Sejamos claros: quando o ‘Ocidente’ numa santa aliança com a Turquia e alguns países do Golfo resolveu apoiar na Síria a insurreição contra Bashar Al Assad nunca acreditou que os rebeldes tinham como intenção instaurar aí uma democracia do ‘tipo ocidental’. Fizeram-no sem medir consequências mas elas, infelizmente, estão à vista.
Efectivamente, tudo começou nas ‘primaveras árabes’, mais concretamente na Líbia, onde a OTAN desempenhou um papel fundamental no armamento de grupos rebeldes que não eram mais do que facções fundamentalistas.

Hoje, no Iraque (Levante?), perante o histórico e convulsivo conflito entre xiitas e sunitas que parece não ter solução política (em Bagdad ou em Washington) está em curso mais uma obscura jogada. Um novo protagonista - o massacrado povo curdo - está a ser armado e financiado para conter o Exército Islâmico e abortar o mirífico ‘califado’, sem que os (principais) responsáveis tenham de assentar as botas cardadas no solo iraquiano.
Existe aqui uma inflexão política que passa pela desagregação territorial do Iraque (com a inevitável contrapartida da independência curda), um Estado nascido da desagregação do império otomano, no início do século XX. 
Mais, a resolução destes complexos problemas não dispensará o contributo do regime de Al Assad, do Irão (Hezebollah) e da Rússia. E aqui entramos num outro problema, que se chama Ucrânia, onde alguns dos mesmos protagonistas estão em campos opostos mas todos sentados em cima de um barril de pólvora.
Cada novo passo da ‘política externa ocidental’ (UE e EUA) em lugar de conduzir a uma solução, ou atenuar os resultados catastróficos à volta do já feito, cria vários novos problemas. 
Não havendo uma linha coerente de gestão política que tornem os conflitos em curso inteligíveis as razões de tão profundas e devastadoras convulsões (guerras) terão de ser procuradas noutros terrenos (económico, financeiro, militar, etc.).

Na realidade, a globalização económica e financeira colocou em cima da mesa complexas questões geoestratégicas, muito opacas, logo, de difícil entendimento e distantes das ortodoxias políticas tradicionais que ‘guiaram’ o Mundo no último século.
Estamos a fazer um pesado e doloroso ‘tirocínio churchilliano’ (pleno de sangue, suor e lágrimas). Com uma substancial diferença: as alianças são voláteis e a 'libertação' não está à vista!

A imigração vinda do Magrebe

Vêm do lado de lá do lago que une a África e a Europa e separa os europeus e africanos. Chegaram do corno de África, das savanas improdutivas e sobretudo fugidos das areias que os empurram em busca de água e alimentos, das areias que lhes cobrem as magras pastagens e desertificam o habitat. Uns cruzaram o continente, outros abalaram de mais perto, com a família a ser pasto de corvos depois de esquartejada à catanada a mando de senhores tribais.

Fogem das guerras que os dizimam, das epidemias que os procuram e da fome que vive com eles. São párias da terra, nascidos do instinto e destinados a morrer crianças, numa perpetuação de velhas escravaturas e novas tragédias, onde poucos se tornam adultos e raros se libertam das grilhetas. Morrem porque não deviam ter nascido ali, por fazerem rituais diferentes ou porque há sítios onde não se pode nascer.

Há mães que deixam para trás os filhos que já não aguentam a caminhada, pasto de aves necrófagas, desoladas por não poderem morrer com os que ficam, na ânsia de salvarem os que sobram.

Chegam às praias do Mediterrâneo e entregam os pertences a quem promete que os leva à Europa ou deixa morrer na água, entre naufrágios e esperança, em busca de migalhas do pão que nunca tiveram. Despedem-se as famílias, sufocados os que soçobram à vista dos que receiam o mesmo destino. Se há lágrimas, misturam-se na água que é mortalha; se há gritos, abafa-os o marulhar das ondas; se há esperança, termina no último balanço da frágil embarcação donde já saíram os que não tiveram a quem se agarrar.

Alguns chegam, a vida é feita de milagres, famélicos, nos trapos molhados que enrolam corpos lívidos, salvos pela guarda costeira de países ribeirinhos ou chegados com vida a uma praia italiana, a nado, sobreviventes do naufrágio ou rasgados nas rochas da costa.

Outros chegam ocultos nos porões dos barcos de carga, desidratados e em hipotermia, misturados com os que morreram, as fezes de todos e o oxigénio a esgotar-se. Muitos já chegam cadáveres em contentores por abrir de veículos que os condutores abandonaram ou de que os donos se desinteressaram.

Na pungência dos dramas, cresce a indiferença e medra a insensibilidade, até ao dia em que seremos nós a beber a cicuta que nos liberte da prisão da vida, destas vidas de quem nasce no tempo e sítio errados. E nós, europeus, estamos a fazer de um bom sítio o local de futuro falhado.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, Agosto 20, 2014

Vade-retro União Nacional

Há 82 anos (1932) foram publicados os estatutos da União Nacional (UN), a única força política autorizada em Portugal, durante a ditadura fascista.

Quem nunca viveu o horror de um partido único, o cinismo de um frio ditador e o poder discricionário de um regime terrorista, pode pensar que era honesto o crápula e inocente o ideólogo.

Quando o general Humberto Delgado foi assassinado pela PIDE, em Espanha, ele e sua secretária, o ditador foi à televisão garantir que os autores do crime eram os comunistas. Quando o maior escândalo sexual do regime teve lugar, com ministros, generais e altos dignitários eclesiásticos, o antigo seminarista e presidente do CADC proibiu as notícias e a investigação policial e judicial.

O regime não pode ser avaliado apenas pelo número dos que prendeu, torturou e matou, mas pelos que deixou morrer e, sobretudo, impediu de viver. Caxias, Tarrafal, Peniche, Aljube e Campo de S. Nicolau foram alguns dos mais perversos centros de tortura onde penaram intelectuais, artistas e democratas de vários quadrantes. Recordar os Tribunais Plenários, os juízes venais que aí conspurcaram as becas e a decência, os degredados e demitidos por razões políticas, é regressar ao mundo concentracionário do salazarismo.

A guerra colonial onde imolou a juventude portuguesa e assassinou os combatentes da independência, onde explorou rivalidades tribais e a fome de quem se alistava para ter comida, é uma ferida aberta entre os que tiveram de fugir, abandonando os seus haveres e alguns mortos, os militares que vieram estropiados e as famílias dos que se enganaram na trincheira e desapareceram na vertigem do ódio dos vencedores, tornado vingança.

Há quem apelide de honesto o abutre de Santa Comba, que condenou os portugueses ao medo, à miséria e ao analfabetismo, que transformou a República num bando de beatos, tímidos e idiotas, que o aclamavam por medo e o incensavam. O frio ditador, que fez de Portugal o país mais atrasado da Europa, com maior mortalidade infantil e materno-fetal e com menor esperança de vida, foi um ex-seminarista e presidente do CADC.

A falta de memória e ignorância andam aí, de mãos dadas, a limpar o passado de quem viveu da censura, da repressão e do analfabetismo, na ânsia de reabilitarem o criminoso que tinha sobre a escrevaninha a fotografia autografada de Benito Mussolini.

Como é débil a memória dos povos, e como idiotas úteis e eternos reacionários se unem no apagamento da memória!

Faz hoje 82 anos que foi criada a União Nacional.

A náusea que impede as palavras

Há momentos em que as palavras estão a mais
Por Humeyra Pamuk DAYRABUN, Iraque (Reuters) -...
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