quinta-feira, Abril 24, 2014

O 25 DE ABRIL DEVE SER COMEMORADO NAS RUAS E PRAÇAS

O  25  DE  ABRIL  TEM  DE  SER  COMEMORADO  NAS  RUAS  E  NAS  PRAÇAS !


     Os inimigos, declarados ou dissimulados, do 25 de Abril e das suas conquistas, não podendo, porque o povo não deixa, apagar essa data do calendário, abolir o correspondente feriado, e impedir as respetivas comemorações, procuram por todos os meios diminui-la, reduzindo essas comemorações a meras formalidades sem qualquer referência ao seu caráter revolucionário e popular, esvaziando-a assim da sua essência.

     Entretanto, vão-se aplicando em destruir tudo o que o povo conquistou depois dessa gloriosa data, cobrindo essa destruição com repugnantes eufemismos, tais como “flexibilização”, “convergência”, “competitividade”, “sustentabilidade”, “ajustamento”e quejandos, desculpando-se sempre com os famigerados “mercados”.

     É claro que todas as medidas que vêm sendo tomadas pelos que nunca aceitaram o 25 de Abril, agora alcandorados nos mais altos cargos do Estado e da governação, só prejudicam os que alguma coisa melhoraram com o 25 de Abril: os pobres, os trabalhadores, os pensionistas, os funcionários públicos, os pequenos empresários e a classe média. Os ricos, e sobretudo os que já eram ricos antes do 25 de Abril, recuperaram e reforçaram as suas posições. Hoje, mais até do que no tempo de Salazar e Caetano, são eles que, sem qualquer rebuço ou disfarce, mandam em Portugal.

     Acontece infelizmente que muitos democratas, completamente insuspeitos de quaisquer conúbios com essa gentalha reacionária e vampiresca, se deixam cair na esparrela assim montada, organizando, em vez das manifestações de protesto que hoje mais do que nunca se impõem, anódinas cerimónias litúrgicas, inconsequentes jogos florais e incaraterísticas provas desportivas.

     NÃO PODE SER! O povo e os verdadeiros democratas não podem consentir em ser espoliados até do seu dia mais querido. NÃO! O povo tem de sair à rua, tem de ocupar as praças, tem de se manifestar, tem de protestar, tem de exigir, tem de mostrar a sua mais que justificada revolta.

       Por isso em todas as cidades do País haverá manifestações populares e democráticas, que desagradarão certamente ao Poder instituído, mas é para isso mesmo que elas servem.

       Em Coimbra também haverá manifestações com essas caraterísticas. A elas nos referiremos de forma mais destacada.

Viva o 25 de Abril

Há quem, antes, não tivesse precisado de partido, não sentisse a falta da liberdade e se desse bem a viver de joelhos e a andar de rastos.

Houve cúmplices da ditadura, bufos e torturadores, quem sentisse medo, quem estivesse desesperado, quem visse morrer na guerra camaradas, soubesse os amigos nas prisões e se calasse. Mas houve quem resistisse e gritasse e quem foi calado a tiro ou nas prisões.

Uns pagaram com a liberdade e a vida a revolta que sentiram, outros governaram a vida com a desonra que calaram.

Houve quem visse apodrecer o regime e quisesse a glória de exibir o cadáver e a glória da libertação. Viram-se frustrados por um punhado de capitães sem medo, pela plêiade de heróis que tudo arriscou para que todos pudéssemos ser livres.

Passada a euforia da vitória, ninguém lhes perdoou. Os heróis da mais bela revolução da História e agentes da maior mudança que Portugal viveu, são hoje banidos e humilhados por quem lhes deve o poder e as mordomias.

Uns esqueceram os cravos que lhes abriram o caminho do poder; outros reabilitaram os crápulas que nos oprimiram; outros, ainda, sem memória nem dignidade, afrontam o dia 25 de Abril com louvores fascistas e lúgubres evocações da ditadura derrubada.

Perante os ingratos e medíocres deixo aqui a TODOS os capitães de Abril o meu eterno obrigado.

Não quero saber o que fizeram depois, basta-me o que nesse dia fizeram.

Obrigado Otelo, Salgueiro Maia, Vasco Lourenço, Vítor Alves, Melo Antunes, Carlos Fabião, Costa Gomes, Gertrudes da Silva, José Fontão, Dinis de Almeida, Pezarat Correia, Franco Charais, Pedro Lauret, Garcia dos Santos, Duran Clemente, Costa Brás, Sousa e Castro, Marques Júnior, Luís Banazol, Almada Contreiras, Pinto Soares, Monteiro Valente, Delgado Fonseca, Vasco Gonçalves, Eurico Corvacho, Ramiro Correia, Martins Guerreiro, Costa Martins, Sanches Osório, Rosa Coutinho, Costa Brás, Vítor Crespo, Hugo dos Santos, Eurico Corvacho, Matos Gomes e tantos outros. Obrigado a todos os que conspiraram, fizeram, defenderam e consolidaram a Revolução de Abril.

Quando vos afrontam é a democracia que combatem; quando vos humilham são eles que se vilipendiam; e não vos esquecem, trazem na memória a desonra dos vendidos, a velhacaria dos ressabiados e a pusilanimidade dos cobardes.

Amanhã, Abril é mês e 25 dia.

Ponte Europa / Sorumbático

As desgraças deste Governo

Erradicada a varíola ainda durante o consulado salazarista, o cumprimento do programa de vacinação do regime democrático levou à eliminação da poliomielite, tétano neonatal e difteria, na passada década de noventa, e do sarampo e rubéola, no ano passado.

O saneamento e o tratamento de águas, a melhoria do nível de vida e o investimento na educação e saúde reduziram drasticamente a morbilidade dos portugueses. A esperança de vida aumentou para níveis incomportáveis para um Governo que trazia na agenda a mudança dos paradigmas que a democracia tinha instituído.

A crise das dívidas soberanas ajudou à conquista do poder pelo Governo mais à direita  dos últimos 40 anos, segundo o insuspeito Freitas do Amaral, e o mais inepto, como se sabe.

Falar em reforma administrativa é uma heresia depois da ineficaz cosmética da fusão de freguesias. Para o Governo é preferível despedir funcionários a reduzir os membros das assembleias municipais e de freguesia, a fundir concelhos, a abolir o carácter faraónico dos órgãos das Regiões Autónomas, isto é, reduzir alfobres de caciques onde germinam parasitas e se angariam votos.

Onde para a avaliação de Fundações que servem apenas de paraísos fiscais, das EPs que acoitam afilhados e desempregados políticos, das IPSS que sugam impostos, em vez de os pagar, da legião de assessores do PR e dos ministérios?

A única forma de resistirmos a este Governo é teimarmos em manter-nos vivos.  


quarta-feira, Abril 23, 2014

Imagens para recordar




Um crime que não pode ser esquecido



Um pequeno monumento sobre uma grande memória, em frente à Igreja de S. Domingos, onde o massacre começou. Um crime que os dominicanos carregam, fruto do antissemitismo cristão
(Foto do meu amigo M. P. Maça)

O 25 de Abril valeu a pena?

A pergunta, repetida na comunicação social, sugerida nos cafés e ouvida nas ruas, anda aí, como provocação fascista, espécie de transferência de responsabilidade, oriunda dos herdeiros da ditadura para os que sabem o que lhe devemos.

Perguntar a quem ama a liberdade se esta vale a pena é a ofensa de quem lhe é alheio, de quem se dava bem com a ditadura ou não faz a mais leve ideia do que foi. É como perguntar a um doente se valeu a pena a cura ou, a um cego, a recuperação da visão.

A corja que domina a desinformação esforça-se por minimizar a violência da ditadura, o número dos que morreram e ficaram estropiados na guerra colonial, e só os de um lado, que  do outro não lhes interessa. A canalha que reprimiu durante 40 anos a simpatia pelo regime que prendia sem culpa formada, violava a correspondência, torturava adversários e os assassinava, essa súcia, filha do salazarismo, anda por aí, a reescrever a História e a responsabilizar quem teve a nobreza de perdoar aos algozes e cúmplices.

Como foi possível esquecer o Tarrafal, o Campo de S. Nicolau, Caxias, Peniche, Aljube e a Rua António Maria Cardoso? Será possível que, à medida que vão morrendo os que resistiram à ditadura, os herdeiros do ditador passem a esponja sobre o passado negro e o pintem de cor-de-rosa?

E os que têm obrigação de os desmascarar mantêm-se calados? Não há gravações dos gritos de dor e das lágrimas, quem recorde as mães de filhos mortos, as mulheres dos maridos presos e as famílias destroçadas pelas perseguições?

Os próprios capitães de Abril, que tudo deram sem nada pedirem, já são vilipendiados pelos que lhes devem os lugares que ocupam, as sinecuras que distribuem e os negócios sujos de que ficam impunes.

No regresso manso de um fascismo larvar é altura de dizer basta, de varrer os ingratos que ocupam o poder, de limpar os órgãos da soberania dos ineptos e dos que exercem a vingança dos que nunca quiseram a democracia, a descolonização e o desenvolvimento.

Dos que sentem náuseas e têm enxaquecas quando ouvem: MFA! MFA!

terça-feira, Abril 22, 2014

Passos Coelho e mais um tiro no pé...

O reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, criticou, esta noite, em Coimbra, os milhares de milhões de euros do Fundo Social Europeu que "foram deitados à rua para alimentarem pseudo-formações" link.

Haverá muita gente (e organizações) neste País que enfia o barrete. As formações subsidiadas pelo Fundo Social Europeu floresceram, em Portugal, como cogumelos na época de chuva e muito tem sido dito e escrito sobre o assunto.

Mas, para além do nevoeiro que esbate os responsáveis, na calha está Pedro Passos Coelho que, de braço dado com o companheiro da JSD e seu actual ‘conselheiro’, Miguel Relvas e através da empresa Tecnoforma, são indiciados de terem abotoado uns milhões de euros do Programa Foral para ‘formar’ 1063 técnicos de aeródromos e heliportos municipais. Um caso que dorme tranquilamente à sombra de uma morosa investigação do Gabinete de Luta Anti-Fraude da União Europeia (OLAF). link. Aguardemos sentados o resultado desta investigação

De concreto, para já,  em relação aos resultados e interesse destas ‘formações’ promovidas pela Tecnoforma, sobressai o facto de, uma vez no Governo, Passos Coelho, ter desamparado os seus formandos e determinado o fim dos voos domésticos para e aeródromo municipal de Bragança link

O actual primeiro-ministro contará com as mordomias pós governativas e não pensa regressar à Tecnoforma que, entretanto, declarou a insolvência link.  Estamos, portanto, perante um típico autor de um dos tais desperdícios, referidos pelo reitor da UC. E que agora aparece com um seráfico sorriso a condenar a utilização dos fundos europeus nos seguintes termos: "Durante muitos anos, utilizámos os fundos europeus para realizar infraestruturas que se consideravam importantes para o país, e hoje sabemos que muitas delas não eram, de facto, importantes para o país…" link.

A típica expressão popular ‘fala o roto do esfarrapado’… ou, simplesmente, um tiro no pé.

Cavaco Silva e o 25 de Abril

O cidadão Cavaco Silva, que deve o que é à democracia, e aos equívocos dos eleitores, pode odiar a Revolução de Abril, ser salazarista, reacionário, inculto e boçal, mas o PR não pode.

O PR não pode trair a Constituição que jurou defender e o regime que representa, não pode conceder pensões a pides por relevantes serviços à Pátria e ignorar as torturas que os antifascistas sofreram às mãos dos mesmos torcionários, não pode parecer salazarista e manifestar ingratidão pelos benefícios que colheu.

Ao eleger a Fundação Champalimaud, benemérita instituição que um fascista assumido legou, para debater Abril, assume um equívoco em relação ao local e a suspeita quanto à formação democrática. A suspeita agrava-se por escolher, como data do debate, os dias 9 e 10 de maio. Pode ter-se enganado no mês como no número de cantos d’Os Lusíadas, mas não deixa de ser preocupante que o presidente de um país democrático se afaste do 25 de Abril para se aproximar do 28 de Maio.

Cresce, pois, o receio de ver o PR a falar de Abril como um muçulmano do toucinho.

ATITUDE INADMISSÍVEL DO PARTIDO SOCIALISTA

Nunca escondi a minha preferência política pelo PS. Sinto-me pois tanto mais à vontade para o criticar quando entendo dever fazê-lo. É o caso.

Com efeito, A. J. Seguro prepara-se para conspurcar a gloriosa data de 25 de Abril convidando para as suas comemorações organizadas pelo Partido, designadamente para um jantar de confraternização, nada mais nada menos do que...o vice-chanceler do governo da Sr.ª Merkel, a arqui-inimiga do socialismo na Europa e a pior carrasca do povo português a seguir a Passos Coelho.

Trata-se de um tal Sigmar Gabriel. É certo que este é líder de uma coisa que se auto-intitula "Partido Social Democrata Alemão (SPD)", que já foi um grande partido socialista, designadamente quando era dirigido pelo saudoso Willy Brandt, mas que hoje é tão social-democrata como o seu homólogo português, isto é, de social-democrata não tem nada.

A verdade é que, segundo uma notícia do jornal "Público", o referido partido e o seu líder estavam tão "apaixonados" pela Merkel e pelo poder que para lá chegarem deixaram de defender ideias que defendiam, tais "como os eurobonds ou a mutualização da dívida".

Não há qualquer "realpolitik" que justifique tal cedência, tal abdicação, tal submissão, que maculam indelevelmente as tradições do Partido Socialista.

O fundamentalismo não é um exclusivo islâmico

1 – Naquele tempo andava em alta a fé e pouco estimada a cultura. Sobraçava a pasta, nesse remoto Ano da Graça de 1992, um simples «ajudante de ministro» de seu nome Pedro Santana Lopes, acolitado por dois subajudantes, Maria José Nogueira Pinto e António Sousa Lara.

Coube a este último pronunciar-se sobre a obra «O Evangelho segundo Jesus Cristo», do «inveterado ateu» José Saramago que concorria a um prémio literário. Disse o pio, que Deus abandonaria nas trapalhadas da Universidade Moderna, que «A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os» e, com tão clemente argumentação, o mullah Lara vetou o livro.

2 – «Tal como em 1499, são eles (Dominicanos) que estão à frente da matança iniciada em 19 de Abril de 1506 em Lisboa. No decorrer de uma cerimónia religiosa na Igreja de S. Domingos, um homem que participava no culto, no momento em que o povo gritava «milagre» à vista de um resplendor que saía de um crucifixo, teve a ideia inoportuna de argumentar que se tratava apenas do reflexo de uma vela. Foi logo taxado de «Cristão-Novo», morto e queimado in loco. Dois frades dominicanos brandindo crucifixos excitaram os fiéis aos gritos de «heresia, heresia». Durante três dias a cidade esteve nas mãos dos amotinados, que pilhavam as casas, atiravam mulheres e crianças da janela à rua e acendiam por toda a parte fogueiras onde ardiam vivos e mortos». “Judeus e Cristãos-Novos”, António José Saraiva.

3 – «A maior das falácias é achar que é a religião que está no centro destes eventos (e se fosse? O que é que mudava?) mas claramente uma recusa política da democracia e uma recusa cultural da tolerância, da liberdade, das diferenças» J. Pacheco Pereira (Público)

4 – A blasfémia é um crime medieval que hoje tem menos valor do que a liberdade de expressão, direito a que não devemos renunciar. Renunciar aos direitos conquistados na Europa, contra o clericalismo, é regressarmos ao fundamentalismo romano.

5 – Respondendo a um leitor que me chamou «racista» por ter escrito «O Islão não é a apenas uma religião estúpida, consegue ser também a mais hipócrita», respondo-lhe, em nome da liberdade e da sua defesa, que repudio igualmente as Cruzadas, a Inquisição, o Nazismo, o Estalinismo e todas os sistemas totalitários.

6 – Dizem-me que há um islão moderado. Não o vejo condenar Bin Laden, aceitar a separação da Igreja e do Estado, renunciar à sharia, admitir a igualdade dos sexos ou defender a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

7 – Quando alguém diz defender a liberdade, mas…, sinto no uso da adversativa um velho conformismo com os demónios da censura, um temor reverente ao poder, uma capitulação perante a prepotência, a brutalidade e a força.

A 3 dias do 25 de Abril lembrei-me dos fundamentalistas que o abominam e dos que o reclamam como um exclusivo seu. Indiscutível, foi a cumplicidade da Igreja católica com a ditadura.

segunda-feira, Abril 21, 2014

‘Lord’ Eduardo Catroga…

Para alguns viver melhor ou pior é uma questão pessoal e de somenos importância. No meio desta sintética dicotomia existiam os ‘remediados’ que desapareceram com o 'ajustamento' pelo que a tensão social se adensou e as 'coisas' ficaram mais visíveis, algumas intoleráveis--

Para impor austeridade sobre os salários advindos da venda da força do trabalho no sacrossanto mercado é preciso fazer crer que alguns que vivem acima das suas possibilidades. Para outros as possibilidades são ilimitadas. E consideram que vivem sempre abaixo. Para poucos – muito poucos - acumular um ordenado mensal de 35.000 com uma pensão (unificada) de  9.693,54 euros "não chega a compensar totalmente o que deixei de ganhar pelo não exercício de outras funções de administração ou consultoria em empresas privadas.link

Palavras para quê?
É um ‘lord’ [já não tem idade para ‘boy’] oriundo da camarilha cavaquista. E não viverá nem acima nem abaixo de possibilidades. Vive como um lord e ainda nos ‘oferece’ conselhos e, às vezes, ‘pentelhos’…

Faltam 4 dias para a celebração do 40.º aniversário do 25 de Abril

Só alguém que é supinamente perverso, e que exonerou a ética do comportamento, pode ter saudades da educação com que a ditadura formatava imbecis, néscios e bajuladores.

Há quem pense que a educação se destina à perversão do carácter, ao amolecimento da coluna e à lubrificação das articulações dos joelhos, quem considere de excelência as mentiras sobre os nossos antepassados e a transmissão do ódio coletivo em relação ao país vizinho, quem prefira a discriminação de géneros à igualdade entre o homem e a mulher, quem veja na coeducação, que Abril introduziu, uma ofensa à moral e aos bons costumes.

Foi nessa escola salazarista que se formaram muitos dirigentes atuais, subservientes aos poderosos, e déspotas para com os fracos e oprimidos. Aprenderam os afluentes dos rios e as linhas dos caminhos de ferro, mas não aprenderam o respeito pela emancipação dos povos e o amor à democracia, decoraram as serras e os ossos do corpo humano, mas não descobriram como endireitar a coluna e formar o carácter.

Sabemos que foi penoso, para quem julgava ser de uma casta superior, ver os filhos dos pobres nas universidades onde eles tiraram cursos com equivalências, diplomas falsos e passagens administrativas. Havia nos fascistas dissimulados exageros que a consciência malformada exigia. Os militares de Abril, a quem devemos a liberdade, pouparam-lhes o julgamento aos pais, vingam-se deles, agora, os filhos.

Esses ressentidos que, na desorientação da Revolução de Abril, gritaram «nem mais um soldado para as colónias», são hoje os algozes do povo que desfrutou a liberdade de que esteve arredado 48 anos. São ressabiados que exultam com a destruição do estado social e o empobrecimento coletivo do povo que detestam. São os coveiros da saúde, educação e segurança social.

Faltam 4 dias para lhes arremessarmos cravos e gritarmos canções, para lhes dizermos que o problema será deles, perante a indiferença que sentem e o ódio que destilam.

domingo, Abril 20, 2014

Como nasceu o blogue Ponte Europa

A intenção do pio edil de Coimbra, Carlos Encarnação, de crismar a ponte Europa com o nome de Rainha Santa Isabel, surgida em março de 2004, causou estupefação generalizada.

A Europa está condenada ao rapto. Zeus, transformado em touro, levou-a para Creta e fez-lhe três filhos, mas amava-a. Encarnação detestava-a e afadigou-se a apagar-lhe o nome. Assim, em vez de Europa, filha de Argenor, rei da Fenícia e irmã de Cadmo, ficámos com a filha do rei de Aragão, esposa de D. Dinis, a dar nome à ponte.

Esperava-se que a rainha repetisse o milagre que obrara outrora com os operários do convento de Santa Clara. Com o desemprego que ora grassa, seriam precisas muitas moedas de ouro para levar algum conforto aos desempregados que todos os dias aumentam em Coimbra.

A ideia de crismar a ponte com o nome de «Rainha Santa Isabel» não valorizou a cidade que aspira à modernidade, foi um tributo ao beatério que exultou na paróquia, digna de um mordomo das festas da Rainha.

Sabemos que a devoção autóctone é exacerbada, como o prova a estátua que se apossou do Largo dos Arcos do Jardim, mas o exagero tem limites.

Quem mora numa Praceta com nome de santo, na freguesia de Santo António dos Olivais, em cuja fachada da Junta de Freguesia está um painel com Santo António, e já dispunha da ponte de Santa Clara para atravessar o Mondego, não se refaz da onda de santidade que transformou a cidade universitária numa paróquia rural.

Fazia falta um projeto para a cidade, não um novo nome para a ponte. O Ponte Europa foi a homenagem republicana, laica e democrática de quem sentiu vergonha de quem mergulhou na pia da água benta para trocar o nome à ponte e singrar na política.


sábado, Abril 19, 2014

Gabriel García Márquez


A morte do consagrado autor de tantos livros que lemos e gravamos na nossa memória - “Ninguém escreve ao coronel”, “Memórias de um náufrago”, “O amor nos tempos de cólera” , “Cem anos de solidão”, etc. - não pode ser reduzida a um episódio acidental que passa incólume pelos recortes necrológicos ou, pior, circunscrito a elogios fúnebres de circunstância, produzidos por entidades políticas 'oficiais' que vivem em permanente divórcio com a cultura e, não poucas vezes, se terão sentido incomodadas pela escrita de “Gabo”.

Trata-se, efectivamente, de enorme perda para a Literatura universal e particularmente para a sul-americana onde figura como o 3º prémio Nobel [da Literatura] atribuído a um autor da ‘América Latina’, depois de 2 autores chilenos [Gabriela Mistral e Pablo Neruda] e que emparelha com uma notável geração de outros grandes autores desse continente entre os quais permito-me recordar Jorge Luis Borges e Jorge Amado [também já desaparecidos].  

Será esse histórico elo da latinidade e o pesado lastro da proximidade luso-hispânica que nos une culturalmente e nos torna próximos da América do Sul. O desaparecimento físico deste consagrado autor colombiano é muito doloroso para todos aqueles que, pelo Mundo fora, conheceram e gostaram de ler as diversas formas e as vastas nuances que o ‘realismo literário’ encerra. Mais do que um mestre do 'realismo mágico' foi um mágico protagonista do realismo, enquanto movimento artístico comprometido com as realidades políticas, económica, sociais e culturais dos povos.

M L Albuquerque: penas, penalizados e penosos dislates...

A ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, garantiu esta quinta-feira que os pensionistas em 2015 não ficarão mais penalizados do que já estão e remeteu para o final do mês mais detalhes sobre a matéria”… link.

Bem, a utilização do termo - ‘penalizados’ -  terá sido um lapsus linguae. Porque, se o não for, põe a nu tudo aquilo que de falso este Governo, repetidamente, tem vindo a afirmar e a divulgar.
Em Janeiro passado esta mesma ministra já tinha afirmado, no Parlamento, que o “Governo não tem nada contra os pensionistas…” link

Afinal, parece que [a ministra e o Governo] andaram a reprimir uma ideia nitidamente persecutória que os atormentavam mas que evitavam exprimir. Um Governo que envereda sistematicamente pela fuga, pela mentira descarada, tem de cuidar de adoptar mecanismos de 'auto-censura'. Todavia, face aos factos não pode, nem merece, ser tratado como um delinquente primário. Já vive submerso nestes expedientes há cerca de 3 anos.

Até que surge o momento da verdade vir ao de cima. Aliás, o motivo que tem animado este governo para andar tanto tempo a disfarçar não passa de uma penosa indigência, na medida em que, os actos de auto-repressão na expressão e no reconhecimento de uma gritante evidência, são isso mesmo. 
Na verdade, a suspensão [temporária?] da tortura não iliba ninguém das responsabilidade adquiridas. É aí, nesse passado recente, que moram a Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), os cortes dos subsídios de férias e natal, o ‘enorme’ aumento de impostos, etc.
Quem quer – ou tenta aparecer em público para - livrar 'outros' de mais penalizações (acto de punir ou castigar) é porque no percurso, e reiteradamente no tempo, admite já o ter feito, i. e., já cometeu o delito de que pretende, para futuro, ilibar-se. 

Tão simples como ‘isto’…

sexta-feira, Abril 18, 2014

A intolerância, a raiva e a vingança

Há cerca de dez anos que sou assíduo na blogosfera. Tenho mantido dois blogues que diariamente alimento com novos textos.

Um, o «Diário de uns Ateus», propriedade da Associação Ateísta Portuguesa, teve de ser alojado numa plataforma paga, para fugir aos constantes ataques com que as almas pias queriam ganhar o Paraíso. Já não lhes bastava os insultos aos colaboradores, de tal modo baixos, que deixei de frequentar a caixa de comentários!

Agora foi o Ponte Europa, vítima da fauna reacionária e da fúria dos imbecis que veem em Passos Coelho um PM, em Cavaco o PR de todos os portugueses e na presidente da AR uma pessoa sensata.

Sou persistente, e não abandono a luta pelo que julgo correto. Engano-me, sou algumas vezes injusto, e nem sempre sou suficientemente perspicaz para detetar montagens cujos especialistas estão normalmente na área do Governo. Mas nunca, absolutamente nunca, engano deliberadamente.

É com satisfação que anuncio aos leitores que o Ponte Europa, graças à generosidade de um engenheiro informático, já está livre dos energúmenos que o atacaram. Aí está, após dois dias em que se transformava em pinturas exóticas, na defesa dos princípios e ideias dos seus colaboradores.

Abril será sempre mês e 25 todos os dias

Abril é o grito de um povo amordaçado, a esperança renascida na paz e na democracia, um perpétuo jardim de cravos a florir enquanto os cadáveres da ditadura apodrecem de raiva, ressentimento e vergonha.

Pode a incúria do povo, que não julgou as responsáveis pela ditadura, votar em biltres e deixar-se iludir por inimigos, mas um dia ressurgirá das cinzas da afronta o grito eterno:

Abril, Sempre!

quinta-feira, Abril 17, 2014

Onde é que estava no 25 de Abril?

O DN, ao iniciar cada entrevista, faz a pergunta de Batista-Bastos a 40 personalidades que vai ouvindo nos 40 dias que precedem a data mais importante da nossa vida coletiva e da história política de quase nove séculos de País.

Têm passado, pelas páginas do DN, ilustres democratas, fascistas declarados e ignaros reconhecidos. Ontem coube a Paulo Portas, menino de 11 anos, que nesse tempo aprendia as manhas dos jesuítas num colégio da Companhia de Jesus.

A resposta à pergunta, «Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril»?, é a que melhor define o perfil do entrevistado e o desejo de falsificar a História. Paulo Portas, à semelhança de Nogueira Pinto, aponta Spínola, a quem chama marechal, como se o título honorífico não fosse posterior aos atos de traição e à tentativa de pacificar as Forças Armadas.

Acontece que Spínola presidiu à Junta de Salvação Nacional, ultrapassando o seu chefe, Costa Gomes, votado esmagadoramente pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), porque Marcelo Caetano julgava que era ele o chefe do golpe de Estado e pediu que o chamassem para lhe entregar o poder.

Spínola caiu no 25 de Abril como Pilatos no Credo, mas podia ter sido um homem com um passado democrático, não ter sido o germanófilo militante que esteve na frente russa como observador das movimentações da Wehrmacht, no início do cerco a Leninegrado, onde já se encontravam voluntários portugueses incorporados na sinistra Divisão Azul.

Em 1961, o tenente-coronel de cavalaria, ofereceu-se a Salazar, por carta, para ir, como voluntário, comandar um batalhão para a guerra colonial de Angola. Toda a vida foi um fascista e não deixou de o ser quando, depois de ter perdido a guerra na Guiné, escreveu o livro, «Portugal e o Futuro», que, dada a consciência generalizada da guerra perdida, foi recebido como uma hipótese possível, apesar das propostas ultrapassadas e utópicas.

Foi o MFA, e não Spínola, que exigiu a realização de eleições a a descolonização. O general do monóculo era um autocrata que, tal como Salazar e Caetano, desconfiava da democracia. Fez reuniões secretas com os americanos para negociar as colónias,  ao arrepio dos movimentos de libertação, e foi contra a sua vontade que os presos políticos foram imediatamente libertados das masmorras da pide.

Spínola, afastado do poder, incapaz de liderar a revolução, tornou-se o chefe do bando terrorista MDLP e, numa cilada em que só um imbecil caía, encomendou armas a um jornalista para armar facínoras que interrompessem o processo democrático em curso.

Mas seria em 11 de março de 1975 que o general cometeria um ato de traição à Pátria que o levaria ao exílio.

É este general de opereta que impressionou Paulo Portas. Para o irrevogável aldrabão, capaz de todos os golpes, foi um general golpista que tinha pela democracia o amor de Maomé ao toucinho, a figura que marcou o 25 de Abril.

Com Paulo Portas e Spínola, a democracia não teria chegado.

Apostila - Nota: À noite o legionário de Famalicão, Alberto Paixão, roubou as flores do monumento aos mortos da Grande Guerra. Não podia ficar o rasto da passagem de HD. Parece que apanhou um valente susto com desconhecidos que, à distância, vigiavam o ramo de flores, segundo ele próprio confessou. (Testemunho de Jaime Couto Ferreira).


A História da Páscoa



A cidade da Guarda e a campanha de Humberto Delgado (Crónica)

Humberto Delgado, com Maria Iva e Iva Delgado, no Hotel de Turismo
Não sei se resistiu ao tempo e aos acasos da sorte a carta que escrevi a felicitar Arlindo Vicente, pela sua candidatura, em 1958. O deslumbramento pela advocacia e o desdém por Salazar eram motivos da preferência e razão da carta que, se a memória me não trai, foi subscrita por todos os alunos da turma (5.º D) do Liceu Nacional da Guarda, com a única exceção do Edgar. Queríamos que fosse ele, Arlindo Vicente, o Presidente da República.

Não sei como não teve conhecimento o reitor e se a carta chegou ao destinatário, com o selo de 1$00 que decerto me privou de alguns cigarros. Não foi audácia, foi ingenuidade que podia ter custado caro a meus pais e, certamente, a minha expulsão do liceu.

Alguns dias depois, o Primeiro de Janeiro anunciava a desistência do ilustre advogado a favor do general Humberto Delgado. Sem efeito, ficava o manifesto com que Arlindo Vicente se apresentou ao País, «sem farda, sem medalhas, …», palavras que me tinham seduzido. Fiquei dececionado e só a estima pelo advogado me levou a aceitar o general, a favor de quem abdicou.

Recordo-me da ida de Humberto Delgado à Guarda, não por tê-lo visto, que disso foram privados os alunos do liceu e perseguidos os que, não obedecendo, surgiram em fotos da multidão que se dirigiu ao Hotel Turismo, donde Delgado os saudou a partir da varanda da suite, virada para a frontaria, antes de ir depor uma coroa de flores no monumento aos Mortos da Grande Guerra.

Na manhã dessa sexta-feira, 30 de maio de 1958, foi lido, em todas as turmas do liceu, o aviso que anunciava a obrigatoriedade de uma explicação, para eventuais faltas às aulas da tarde pelos encarregados de educação dos alunos, e que, depois das aulas, se seguiria uma palestra obrigatória. Não nos impediu a idade de atingir a manobra e a despotismo, tendo sido a única palestra nos anos que ali andámos.

Da parte da tarde, à saída das aulas, fechadas as portas do liceu, os contínuos tocaram os alunos para o ginásio como os pastores ao gado para o redil. O Dr. Ferreirinha esperava-nos, enquanto o pessoal menor, designação oficial para contínuos, exigia silêncio a uma turba de jovens excitados e exaltados.

A ‘palestra’ impedir-nos-ia de ver o General na varanda da suite do Hotel, as cenas de pancadaria junto ao memorial aos mortos da Grande Guerra, no Jardim José de Lemos, o nosso colega Zé Grande a colocar a capa nos ombros do General, o polícia "foge à mãe" de cassetete em riste e as máquinas fotográficas que registaram os rostos dos que viriam a ser perseguidos pela polícia e suspensos do liceu pelo Rabaça, reitor conhecido por «o Malhado», graças ao angioma que lhe percorria e desfigurava uma das faces.

Das aldeias não veio gente, os padres da diocese advertiram os crentes, nas missas, para o pecado mortal de quem votasse no excomungado, como apregoavam panfletos a cuja distribuição nem os analfabetos eram poupados.

Mas disso não sabíamos ainda os alunos encerrados, nem da chegada do General, vindo da Covilhã, nem do assalto à sede da sua candidatura em Lisboa pelos arruaceiros que a União Nacional facilmente arregimentava, nem da presença de Maria Iva e Iva Delgado, respetivamente mulher e filha, que o acompanharam.
 
Vi, anos depois, fotografias tiradas pelo grande fotógrafo e democrata, o Sr. Armando, espólio a que a Pide não teve acesso, mas não lhe faltaram outras onde identificou os mais afoitos ou imprudentes e que começaram aí a perceber o que era a repressão.

Voltemos à ‘palestra’ do Ferreirinha, professor de Português, cuja formação académica era superior à cívica. Após os esforços do pessoal menor e dos seus gritos, a rapaziada acalmou e a dissertação sobre a peça de teatro «Quem tem Farelos», de Gil Vicente, lá começou.

O barulho e indiferença conjugavam-se para a patética exposição encomendada. Coube ao farsante do Ferreirinha, natural de Pega, uma pequena aldeia do concelho da Guarda, perorar sobre a farsa de Gil Vicente. Arrastou-se na exegese e nem as críticas vicentinas à nobreza e, sobretudo, ao clero, que enchia de sotainas a cidade, lograva obter silêncio. O respeito que granjeara nas aulas esbanjou-o no indigno frete a que se prestou.

Num determinado momento, sorriu, antes de ler mais uma passagem da farsa, prevendo o êxito que Gil Vicente teria em jovens reprimidos por preconceitos pios, rompendo a linguagem hipócrita. O Dr. ferreirinha pôs um ar alegre e, devagar, cito de memória, leu “Ordonho! Ordonho! espera mi. Ó fideputa ruim!”, antes de lhe chegar umo eco sonoro, vindo da multidão, “fideputa ruim, é você”, a que se seguiu um silêncio sepulcral.

Os segundos pareciam minutos intermináveis. Nesse instante entrou um contínuo, parou respeitosamente e, a um olhar interrogativo do Ferreirinha, comunicou, já se foi embora. – Saiam, ordenou o orador, perplexo e enxovalhado. E nós corremos a saber o que tinha sido a tarde lá fora e a respirar o ar de que a ditadura queria privar Delgado.

A caminho de Viseu, Delgado tinha enfrentado a repressão, rumo à vitória que lhe seria negada. As chapeladas, palavra que designava a introdução maciça de votos nas urnas, jamais seriam abandonadas, mas a ditadura, em pânico, e durante a campanha eleitoral, publicou o decreto-lei que proibiu a oposição de fiscalizar o funcionamento das mesas de voto. Sem fiscalização, graças às chapeladas, o fascista designado, Américo Tomás, «ganhou» as eleições, mas teve derrotas pesadas em concelhos alentejanos e do distrito de Santarém, onde a União Nacional se assustou.  Os resultados oficiais afinados deram cerca de 75% dos votos expressos a Américo Tomás e 25% a Humberto Delgado, o que correspondeu a 758 998 votos e 236 528 votos, respetivamente, para cada candidato. As chapeladas, trocas de votos e votos de mortos, sem fiscalização dos cadernos eleitorais, preservaram a ditadura.

A passagem de Delgado semeou ventos de liberdade, enquanto ele correu para a vitória interdita, a demissão da Força Aérea, onde fora o mais jovem general, o exílio, a luta, a conspiração e, finalmente, a cilada em que seria assassinado pela pide.

Faltavam quase dezasseis anos para que outros militares vingassem a afronta de quem começara como cadete do 28 de maio e acabaria assassinado como “general sem medo”.

Ponte Europa / Sorumbático