quinta-feira, Outubro 23, 2014

Machete, (sin.: ‘cavaquinho’…)

Ainda não assentou a poeira sobre o caos lançado por Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz, que mereceram o beneplácito de Passos Coelho, já o País está confrontado com um outro caso:
Rui Machete e as declarações sobre jihadistas portugueses. link.

De facto, assim não dá!

Depois da gafe sobre as investigações do MP a altos dirigentes angolanos  link o MNE – um velho quadro do ‘PPD’ - deveria ter ‘apanhado’ juízo…

Jangada de Pedro salva Crato do naufrágio

Rui Pinto Monteiro é um professor de 36 anos que leciona em Biscoitos, Ilha Terceira, nos Açores. A sua colocação em 95 escolas do Continente transformou um professor do ensino básico em recordista.

As solicitações numerosas têm sido motivo de gozo para com o ministro da Educação e Ciência, um ministro que se esforça por ser o pior num Governo onde tem de enfrentar a concorrência feroz de muitos dos seus colegas.

O referido professor precisa de desistir de tão insólito assédio cada vez que uma escola o convoca para preencher a vaga e, só depois, o sistema informático notifica outro para a função.

Por cada vaga que lhe foi destinada há, pelo menos, 21 crianças que continuaram sem aulas e um professor que ficou a aguardar colocação. O facto de precisar de recusar cada oferta de lugar, para que o mesmo possa ser preenchido por outro professor, complica-se pelo facto de ter desistido do concurso do Continente e, assim, ter perdido condições legais para renunciar.

Na página onde os professores podem desistir, com um simples «clic», não consta o seu nome e o computador não comunica a sua desistência do concurso às escolas.

O desespero do ministro, após sobejas provas de inaptidão, levou-o a transferir para as escolas os problemas que criou e acabou por juntar à inépcia este naco de humor negro onde a vida de professores e alunos se complica.

Não é por acaso que Passos Coelho diz que acertou na escolha de ministro da Educação e Ciência. Não destoa nem lhe faz sombra.

Passos Coelho e as eleições legislativas



Pedro Passos Coelho, alegado primeiro-ministro, cargo de que usufrui as prerrogativas e benefícios, incapaz de autocrítica, ameaçou o país com a recusa de antecipar as eleições legislativas, assustando os portugueses com mais um ano a rebolar-se no exaurido pote.

Não estão em causa os prazos constitucionais, mas as instituições, a agonia do regime e a decadência ética do Governo que fez de Portugal um laboratório de experiências mal sucedidas, com o caos na Justiça, a Educação e Ciência em colapso e a desconfiança nos governantes igual à que Passos Coelho adicionou com as peripécias da Tecnoforma.

A antecipação de eleições depende da vontade do Governo ou da decisão do PR, sendo a última uma improbabilidade e a primeira a única decisão certamente irrevogável.

Passos Coelho corre para o abismo, sabendo que não tem soluções e que, quanto mais tempo permanecer com a turma, mais hábil a agarrar o poder do que a usá-lo ao serviço do País, mais complica o OE-2016 e menos tempo deixará ao próximo Governo para o
elaborar, com o calendário eleitoral a comprometer o do Orçamento.

O PSD, dececionado com o PM que Marco António e Relvas inventaram, com a bênção de Cavaco, anda a lançar nomes para o substituir. Desde a ministra das Finanças até Rui Rio, nem Marco António escapa à lista dos inefáveis e putativos sucessores.

A estratégia de crescimento que teve assinalável êxito, em três anos do funesto governo da pior direita, foi no camo dos impostos, do empobrecimento e da dívida pública.

O próximo Governo herda um país desmoralizado, com défice na balança de transações, emprego em extinção, acordos impossíveis de honrar e um PR impossível de recuperar.

A obstinação de quem nunca devia ter passado de vogal de junta de Freguesia e acabou PM, longe de se arrepender, insiste em fazer beber até à última gota o cálice de veneno do Governo que lhe adjudicaram e que os portugueses são obrigados a digerir.

Que raio de sorte a nossa!

Ponte Europa / Sorumbático

Acontece...


quarta-feira, Outubro 22, 2014

A Portugal Telecom e o País

A PT é o reflexo do País. A empresa emblemática de setor público, precursora de várias inovações, na vanguarda da investigação e desenvolvimento, foi devorada pela ganância dos acionistas e falta de escrúpulos de quem a usou, em aflição, para cobrir desmandos que a Justiça investigará, se puder.

A empresa de telecomunicações, geradora de emprego e de avançada tecnologia acabou ingloriamente em leilão de abutres, perante um Governo que, na ânsia de desmantelar o Estado, a abandonou às mãos do deus comum – o Mercado.

Houve, na plangência do descalabro, uma tal falta de sensibilidade e uma tão obsessiva marca ideológica que nenhum resultado eleitoral é suficiente para julgar os culpados.

A PT era a empresa portuguesa que conquistara mercados do Brasil ao Quénia, de S. Tomé a Timor, de Angola à Hungria, para acabar à mercê de candidatos que a absorvem e descaracterizam.

O apogeu e a queda da PT estão ligados ao antes e depois deste Governo como metáfora do estado a que este Governo conduziu o País.


terça-feira, Outubro 21, 2014

Proselitismo religioso


Quem os ameaça? Ou é o casamento dos outros que querem irrevogável? Cerejeira conseguiu isso com Salazar e os dramas foram penosos.

segunda-feira, Outubro 20, 2014

Martine Aubry, Valls e a “guerra de nervos”..

A entrevista concedida por Martine Aubry ao jornal JDD link - “Eu exijo que se reoriente a política económica” - merece ser atentamente lida.

A afirmação - feita pela maire de Lille e ex-primeira secretária do PSF - de que não é possível mobilizar um País à volta da gestão financeira, sendo necessário dar-lhe um destino de viagem - é um tremendo repto para a Esquerda europeia absorvida em derivas à volta de ‘socialismos liberais’, totalmente manietados por questões orçamentais e na adivinhação dos desejos e execução dos ditames dos mercados.

Esta ‘pedrada no charco’ incomodou o primeiro-ministro Manuel Valls que ‘ressabiado’ veio a terreiro declarar ter ‘nervos sólidoslink .

Para já, está instalada uma ‘guerra de nervos’…

João Paulo II (JP2) e os mártires da ICAR

As Igrejas pelam-se por mártires. Os santos têm escassa cotação e poucas se dedicam à sua criação. A ICAR entrou na era industrial com JP2, um caso de superstição e doentia fixação em defuntos a quem atribuiu passadas virtudes e poderes perenes. Para fabricar um santo basta engendrar dois milagres e cobrar os emolumentos do processo canónico. Para produzir mártires urge encontrar algozes predispostos a causar vítimas.

Os mártires podem ser dementes que procuram o Paraíso ou infelizes que estão à hora certa no sítio errado. Os suicidas islâmicos ilustram o primeiro caso, os missionários apresados por canibais fazem parte do segundo. Estes, em vez de serem benquistos pela eucaristia que levavam eram apreciados como manjar divino, em ávida antropofagia.
 
O nacionalismo e a fé convivem de mãos dadas. A vontade divina coincide muitas vezes com a do príncipe e este é usualmente um agente predestinado. A glória terrena facilita-lhe a bem-aventurança eterna. A rainha Santa Isabel fez o milagre das rosas, um milagre de que uma tia avó, húngara, certamente lhe enviara a receita para Aragão. Herdou-lhe o nome, o truque, a realeza e a santidade.

Nuno Álvares Pereira andou aí, depois de muitas humilhações nas provas para santo, a ser ultrapassado pelas bentinha de Balasar, os pastorinhos de Fátima e outros defuntos com milagres comprovados e devoções firmadas. Faltou-lhe o martírio que infligiu aos castelhanos e a coragem da Cúria Romana para enfrentar Espanha. Quando muitos já desistiam da canonização, o patriarca Policarpo porfiou na devoção e exigiu a Roma um milagre para dinamizar a estatuária e colocar nos altares portugueses uma peanha mais.

Destinados à santidade, o Vaticano, bairro que também usa o pseudónimo de Santa Sé, já leva três pontificados a publicar listas de mártires e defuntos virtuosos. As mortes são antigas e a utilização, para fins de propaganda, é a macabra operação de marketing que a ICAR favorece. O Cardeal Crescenzio Sepe, criado cardeal e nomeado prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos pelo inefável JP2, evocava o “generoso tributo de sangue de muitos irmãos e irmãs para o crescimento da Igreja no mundo”.

Morrer ao serviço de Deus é garantir o Paraíso – garante o clero –, com a mesma certeza com que na praça nos afiançam a excelência da hortaliça e no talho a saúde do animal de que nos cortam os bifes.

ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana


domingo, Outubro 19, 2014

Uma insondável tempestade helénica …

A Europa desde há meses que cultiva um preocupante estado de entorpecimento.
O Conselho Europeu, continua a apostar na continuidade nas soluções de emergência prévias, vazias de estratégia, que se resumem a um cego e obstinado cumprimento do Tratado Orçamental e a infindáveis ‘reformas estruturais’ e este caminho mostra que opções cada vez mais eivadas de indefinições, subterfúgios e fugas à realidade, (re)lançaram a Grécia na arena dos mercados e o rugido dos ‘leões’ da especulação já é  bem audível. Trata-se de uma penosa rota de regresso a 2010 quando começou o ‘ajustamento’ grego, iniciando-se, deste modo, um infindável círculo vicioso, impossível de gerir politicamente (e democraticamente) link.

As ‘yields’ gregas a 10 anos aproximam-se vertiginosamente dos 2 dígitos (8.22%), tendo contagiado de imediato quase todos os países periféricos (Portugal, Espanha e Itália). A perspectiva de uma nova crise da dívida ensombra a Europa do Sul já que, considerados esses níveis de juros, a Grécia está – na prática - impossibilitada de financiar-se nos mercados financeiros e o contágio aparece como inevitável.

A Grécia, no terminus do seu 2º. resgate, não tem capacidade financeira e económica para uma saída ‘limpa’ da intervenção externa e é confrontada com a ‘necessidade’ de um novo programa de ajudas (seja um programa cautelar, seja um novo resgate). Independentemente do conceito espúrio de ‘saída limpa’, circunstância enigmática e de contornos indefinidos que os portugueses há bem pouco tempo debateram e ainda permanece no nosso inconsciente colectivo o leque de soluções vindas da Europa e das instituições internacionais que mereçam o beneplácito dos mercados está, perigosamente, a estreitar-se.
O beco sem saída para aonde a Grécia está a ser empurrada é um gritante libelo para avaliar da qualidade, dos meios e fins dos denominados ‘programas de resgate’ engendrados por instituições financeiras internacionais e europeias para os países em dificuldades financeiras, decorrentes de ancestrais fragilidades de desenvolvimento que a moeda única veio agravar.

O FMI insiste num programa cautelar que dê conforto ao financiamento grego, não sendo explícitados os custos dessa medida o que torna o futuro da coligação de Antonis Samaras muito periclitante.  
Por outro lado, a Bloomberg News link revela que as próximas eleições poderão levar o partido Syriza ao poder que, defendendo a renegociação das dívida e a reversão de algumas das reformas impostas pela troika, rebentarão estrondosamente com toda a estratégia que vem sendo desenhada por Berlim para a Zona Euro.
A par da deflação que grassa na Zona Euro a ameaça grega tem de ser considerada como uma questão europeia da maior importância não valendo de nada dichotes do tipo “…nós não somos a Grécia!”.

A última reunião do Conselho Europeu (26/27 de Junho 2014) passou olimpicamente ao lado destes problemas porque esteve ocupada em 'jogos políticos' para a nomeação do presidente da Comissão Europeia. A próxima a realizar em 26/27 de Outubro não deverá ser diferente. Esta a postura habitual do Conselho quanto à previsão de cenários evidentes e eminentes. Depois vêm as ‘soluções drásticas’ e as 'recriminações abusivas', quando não as ameaças de exclusão. Só que seria importante ter a noção de que a Europa está à beira da exaustão, i. e., manifestamente cansada e incrédula!

Estrasburgo: um novo pantanal?

A dissolução do grupo parlamentar da extrema-direita no parlamento europeu (EFDD) link é, à primeira vista, uma boa notícia.
A Europa tem muito poucos ‘euro-convictos’ e pode, muito bem, dispensar os eurocépticos e/ou os eurofóbicos.
 
No centro da dissolução do grupo de extrema-direita está a saída da eurodeputada letã Iveta Grigule. Ao abandonar a formação parlamentar, que tantas dificuldades tiveram para se organizar, sob a batuta de Nigel Farage, dirigente do movimento britânico UKIP, Iveta enviabilizou a sua existência já que regulamentarmente o EFDD (Europe of Freedom and Direct Democracy) deixou de representar uma diversidade de deputados que lhe assegurou, até aqui, a necessária representatividade (são necessários deputados oriundos de 7 dos 27 países) e a consequente subsidiação das instâncias europeias (de milhões de libras, já que abominam o euro).

Existem nesta situação vários problemas em suspenso que seria bom esclarecer e precaver.

O principal será para o grupo parlamentar da extrema-direita que perde a capacidade de actuar em bloco no PE, apresentar propostas e ver a suas acções (contra a UE) largamente subsidiadas. Sendo um problema do EFDD que revela uma brutal inconsistência política do grupo que vive à custa de demagógicas posições sobre a emigração deve, no entanto, colocar de atalaia a instituição parlamentar europeia para todo o tipo de ‘golpismos’ tão caros à extrema-direita.

Um outro problema é a própria deputada letã Iveta Grigule. Denunciada através de um comunicado emitido pelo EFDD link de ter sucumbido às pressões conjuntas do presidente do PPE, Manfred Weber, em consonância com o presidente do PE, Martin Schulz, tendo como moeda de troca a sua nomeação para presidente da delegação parlamentar da UE para o Cazaquistão, a eurodeputada letã deveria justificar (politicamente) a sua saída do grupo EFDD a fim de esclarecer todas as dúvidas que envolvem este caso. Para já um comunicado do gabinete de Martin Schulz, à BBC, negou estas acusações.
A não ser que o currículo de Iveta Grigule, uma solitária eleição do Latavia Farmer’s Union para o PE sugira que esteja de regresso ao Latavian Green Party, que concorreu coligado sob a bandeira da ‘Union of Greens and Farmers’, partido letão dos ‘verdes’ e dos ’fazendeiros’, colonizado por (ultra)nacionalismos geradores de 'sistémicos eurocepticismos', donde a deputada europeia é oriunda e acabou por ser expulsa link, num circuito sinuoso e fechado, algo incompreensível, mas pejado de venialidades  e oportunismos, acabe por levantar dúvidas e interrogações sobre a sua idoneidade política…
Aliás, Sharon Ellul-Bonici, secretária-geral da European Aliance for Freedom (agrupamento que incluiu a Frente Nacional de Marine Le Pen) veio prontamente a terreiro afirmar que Iveta Grigule… ‘não era de confiançalink .

A implosão do grupo parlamentar de extrema-direita em Estrasburgo (EFDD) significa um inegável recuo na pujança deste bloco político - revelada nas últimas eleições europeias - surgida à custa dos erros dos actuais ‘reformadores da Europa’, orquestrados sob a batuta de Berlim.
Todavia, o 'populismo' - seja sofisticado ou bacoco - é sempre um terreno de fogos-fátuos. E isto é verdade para todos os espectros políticos.

Mas existem, neste processo, demasiadas coincidências e obscuridades a esclarecer quer da parte da deputada Iveta Grigule quer do presidente do Parlamento europeu. Da parte do Sr. Farage e do ‘palhaço’ Grillo só chegarão insinuações, queixumes e ataques avulsos às instituições europeias.
Para o PE o cabal esclarecimento dos contornos e motivações deste ‘crash’ é a melhor garantia que amanhã do EFDD não (re) surgirá no PE com outros protagonistas, novos embustes e as mesmas pretensões.
É que as boas notícias devem ter por detrás claros e bons motivos. De resto, este ‘incidente’ faz lembrar o ‘método limiano’, bem conhecido dos portugueses, que, como sabemos, desembocou no ‘pântanolink.

Frases de um grande cientista

“No passado, antes de entendermos a ciência, era lógico acreditar que Deus criou o Universo. Mas agora a ciência oferece uma explicação mais convincente”

“Acredito que conseguiremos entender a origem e a estrutura do Universo. De facto, mesmo agora já estamos perto de lograr esse objetivo. Não há nenhum aspeto da realidade fora da mente humana.”

(Stephen Hawking, físico britâncico, um dos maiores cientistas mundiais, em entrevista ao El Mundo)

sábado, Outubro 18, 2014

O catolicismo, o poder e a política no início deste milénio

As religiões não toleram a perda de influência. Depois de criarem um deus verdadeiro, de o promoverem e enfrentarem a concorrência, vieram o iluminismo, a laicidade e a democracia a estorvar o proselitismo.

A pedagogia ativa com que combatiam heresias e converteram réprobos já não pode ser aplicada porque a tortura é proibida e as fogueiras tornaram-se obsoletas, para desespero dos padres e eterna perdição das almas.

Quando os jesuítas anunciaram na China a boa-nova de que o filho de deus tinha vindo ao mundo, espantaram-se os chineses como, durante tanto tempo, ninguém os avisou. E, talvez por isso, preferiram ao deus, que se deixou pregar na cruz, um homem que sorriu quando lhe disseram que era eterno – Buda.

Apesar dos reveses, os deuses dos monoteísmos gozam de sólida reputação. Os humores e idiossincrasias não os destroem mas sabe-se que, quando a repressão abranda, germina o ateísmo e, sempre que o poder do clero se debilita, a confiança esmorece.

As religiões, não podendo destituir, em nome da fé, os mandatários do povo, sufragados por eleições, pedem, por amor de deus, que sejam eleitos governantes tementes a deus e generosos com os seus devotos servidores.

Em Chipre, em 2001, os padres rezaram muito para que o partido comunista perdesse as eleições e interromperam as orações a vê-lo ganhar. Os resultados eleitorais provaram que deus não estava na ilha e que as orações eram placebo.

Nessa altura, em Itália, andou o Vaticano numa azáfama a pedir orações por Berlusconi, um cristão que pouco deve à santidade. Ganhou as eleições mas houve quem pensasse que influíram mais a comunicação social e o dinheiro do que o deus do Vaticano.

Em Espanha a Conferência Episcopal jogou tudo na luta contra o PSOE que, entre outras maldades, legalizou as uniões homossexuais, permitiu-lhes a adoção de crianças e tornou facultativa a aula de religião católica nas escolas públicas. As eleições foram entre Zapatero e a Conferência Episcopal e o primeiro ganhou-as.

Penso que, um dia, em qualquer país, ganhará as eleições quem tiver a animosidade do clero. Deus perdeu influência. Até para obrigar as crianças a comer a sopa.

Em Roma está, de facto, em perda. Infelizmente, de Jerusalém, Meca e Medina, onde os monoteísmos germinaram, há um surto epidémico de consequências imprevisíveis.  

Uma demissão incompreensível

«O secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, João Grancho, apresentou, esta sexta-feira, a sua demissão alegando "motivos de ordem pessoal", tendo sido aceite pelo ministro Nuno Crato, segundo nota do Ministério da Educação e Ciência».

Há na melancólica desagregação do Governo desaforos e patifarias diversas. A ministra que combate os swaps é especialista nesse instrumento financeiro. Passos Coelho é uma espécie de PM. O PR é clone de Américo Tomás. Paulo Portas é uma imitação de figura de Estado. Nuno Crato é o especialista na destruição do Ensino público, parecido com a ministra da Justiça, a criar o caos nos Tribunais.

Não se compreende que o secretário de Estado de Nuno Crato se demita, por um plágio, quando o elenco que integra é um plágio de Governo e o secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário só ensinou aos alunos a maneira de progredirem na vida, de forma diferente do PM, que prefere a emigração.

Quem sabe se a tese do secretário de Estado, denunciada pelo Público, não seria mais apreciada do que quando apresentada pelo autor? Era uma forma de valorização de um trabalho académico.

Aliás, o secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário acabou por demonstrar que se dedicou com afinco à colocação de professores e ao bom funcionamento das escolas, de tal modo que teve de recorrer ao plágio para não roubar tempo à governação.

Neste Governo as palavras ganham novos significados, o plágio é «motivo de ordem pessoal».

Admira que um Governo, que começou com equivalências escolares, termine com um plágio académico. Em Matemática, este Governo, chama-se um conjunto vazio.


sexta-feira, Outubro 17, 2014

OE 2015: um ‘empurrão’ para a uma necessária clarificação política…

A proposta de OE 2015 link é um extenso e confuso documento que se apresenta como revelador do estado estado a que o País foi conduzido e pretendeu ‘trabalhar’ uma incontrolada avalanche de números e situações para funcionar como sendo uma ‘cortina de fumo’ de inconfessáveis fábulas eleitorais.

Não se trata de um documento que ‘encaixe’ ou tenha uma estratégia para o futuro de Portugal ou seja portador de opções que - tendo os portugueses e as portuguesas por centralidade – defina um quadro desenvolvimento assente numa saudável, equilibrada e justa utilização dos dinheiros públicos. 
No OE 2015 está inscrita uma metodogia absolutamente inversa. A par do que foi inconcebivelmente negado [a (in)existência de um 'fundamentalismo orçamental], 'brincou-se' com números, conceitos, objectivos e metas como aquele do ‘não aumento de impostos’ a par da admissão de um significativo aumento da ‘carga fiscal’,  como se a dita fosse um resultado de secretaria e não a tradução prática do (enorme) esforço dos contribuintes.

À primeira vista o OE 2015 tem um objectivo fundamental que é o ‘permitir’ encontrar equilíbrios externos (da UE, do FMI e do BCE) e camuflar dissensões politico-eleitorais internas para que esta coligação chegue ao fim do seu mandato. Os autores e mentores deste projecto de Lei tiram meios daqui para os colocar acolá, voltam a remetê-los para o mesmo sítio donde provieram, outros transferem a sua verificação e concretização para 2016, num incessante ‘jogo orçamental’ que faz lembrar empresas ou famílias quando confrontadas com um quadro de insolvência optam por ocultar a realidade e enveredam por engenharias financeiras de sobrevivência cujo desfecho é muito previsível e sempre fatal.

O Orçamento de Estado foi transformado num bacoco instrumento de falsos equilibrismos que tem como única virtude revelar o estretor de uma política de ‘fundamentalismo orçamental’ que, na verdade, vem sendo praticada por este Governo.
 
É cada vez mais visível e evidente o caminho que terá obrigatoriamente de ser adoptado. A ‘renegociação’ ou a ‘reestruturação’ da dívida pública link, que mais parece um problema semântico do que ‘outra coisa', tornou-se um factor central e primordial capaz de influenciar decisivamente as políticas públicas, com inegável rebate orçamental (presente e futuro), é, ainda, a fronteira que, no presente, divide a Esquerda.  
Trata-se, para muitos portugueses, de uma ténue linha divisória que parece – no crítico momento que atravessamos - não ter cabimento continuar a valorizar e muito menos escavar ou aprofundar. Um entendimento urgente sobre este tema fulcral deixando de lado malabarismos semânticos tornou-se imperativo e inadiável e deverá ser a resposta pronta e frontal aos permanentes apelos a pactos e acordos vindos da Direita, com a omnipresente benção da Presidência da República.

A discussão, no Parlamento, da proposta de Lei do OE 2015 poderá (deverá) lançar novas luzes sobre o futuro de um País exausto e exangue, há mais de 3 anos entregue às tropelias deste Governo.
Basta!

Marco António e a luta partidária

Marco António, um epifenómeno da política, é um Maquiavel a nível paroquial, um prócere do PSD que está para a intriga política como a cascavel para os répteis.

O antigo homem de mão de Luís Filipe Meneses e coadjutor de Miguel Relvas é agora o ideólogo do PSD. Sem tino, sem programa e sem futuro, é um atirador furtivo a disparar tiros de chumbo miúdo, na esperança de acertar.

Fala em nome do partido e do Governo, com autoridade. Foi ele que, na sua ignorância política, sujeitou Passos Coelho a recusar o PEC IV que acabara de jurar, de manhã, a renegar a promessa, de tarde, e a derrubar um Governo.

Hoje, na leitura hesitante de quem aprendeu pelo método de silabação antigo, disse que o PS «virou para a extrema-esquerda». Não lhe bastou acusar o PS de virar à esquerda, o mínimo que lhe permite a sua formação na madraça onde incubou o bando que tomou conta do partido e do poder, é acusar o PS de extrema-esquerda.

Com tal consciência política para discernir sobre o espetro politico-partidário português, o mínimo que o PS de extrema-esquerda pode dizer de Marco António é que se trata de um independente de direita, entre Hitler e Pinochet.

Com a ignorância que grassa nesta clique que refocila no pote, até a evolução semântica é uma corrida de obstáculos. Marco António é o paradigma dos primatas em funções.


quinta-feira, Outubro 16, 2014

Momento zen de segunda_15_10_2014

João César das Neves (JCN), ao contrário de Batista-Bastos, continua com o púlpito no DN onde as homilias passaram de segunda para quarta-feira. Hesito no título a dar à exegese a que me habituei. Talvez passe para «Momento zen de quarta», mais de acordo com as inanidades que piamente debita.

A homilia de quarta (feira) crismou-a o devoto de «Amputação» e é uma diatribe contra o divórcio, um pecado cujo pensamento lhe liquefaz os miolos e o obriga a apertar dois furos no cilício.

Para condenar o divórcio usa esta deliciosa imagem:  «Tenho problemas respiratórios desde pequeno, com asma, bronquites, etc. Viver com os meus pulmões não é nada fácil, mas nunca me passou pela cabeça andar sem eles». E acrescenta: «Tenho tido problemas com a minha mulher desde que casámos (…) mas haverá alguma razão para eu pensar em viver sem ela»? A única surpresa é o masoquismo da mulher.

Não falou no problema da enxaqueca e da possibilidade de ser tão intolerável que tenha abdicado de viver sem cabeça. JCN usa imagens fortes, mas prescinde da cabeça.

Para JCN, o divórcio é uma aberração e « A aberração torna-se visível se considerarmos qualquer outra época, região ou cultura. Uma breve consulta mostra que (…) o divórcio, a existir, tem estatuto semelhante à amputação de membros». Provavelmente ainda tem os membros todos!

JCN, certamente já confessado e comungado, termina a homilia desta quarta com uma profecia: «O futuro voltará a tratar o casamento como ele realmente é: uma enxertia definitiva na árvore genealógica, onde todos somos apenas ramos, que morrem se cortados do tronco. O futuro lamentará o tempo louco que esqueceu esta verdade essencial e, pela sua desgraça, provou a toda a humanidade essa importância vital».

O homem pensa com os membros todos ou, pelo menos, com os quatro da locomoção.

Religiões e democracia

Todas as religiões se consideram as únicas verdadeiras, tal como o seu deus. Cada uma considera falsas todas as outras e o deus de cada uma delas e, provavelmente, todas têm razão. Os ateus só consideram falsa mais uma religião e um deus mais. Em certa medida todos somos ateus.

E somo-lo, não apenas na aceção grega, em que um ateu era o que acreditava nos deuses de uma cidade diferente, mas também na aceção atual, na descrença num ente superior imaginário, e, ainda, em relação a  Zeus, a Shiva, ao Boi Ápis e à multidão que aguarda, nas páginas da mitologia, os deuses atuais.

No soneto «Divina Comédia», de Antero de Quental, os homens perguntam, com voz triste, «deuses, porque é que nos criastes»? E os deuses respondem, com voz ainda mais triste, «homens, porque é que nos criastes»?

A crença, em si, não é apenas legítima, é um direito que cabe ao Estado laico assegurar. O que assusta é o proselitismo dos que não lhes basta a sua crença e a procuram impor a outros, a violência que usam para agradar ao deus que lhes ensinaram desde a infância ou àquele que os seduziu numa qualquer fase da vida.

Infiéis são os fiéis da concorrência e os descrentes de qualquer fé, e que devem gozar de igual proteção, quer pertençam a uma seita ou religião poderosa. A seita é a religião de minorias e a religião é a seita globalizante. Todas têm direitos e deveres e não se aceita que sejam exoneradas do respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O pluralismo é uma exigência democrática a que nenhum deus devia poder esquivar-se. Há para com os crimes praticados em nome das religiões uma condescendência que não existe para outras associações ou ideologias profanas. Porquê?

O nazismo é reprimido mas o totalitarismo religioso é tolerado. A democracia não deve consentir quem a combata, não pode conformar-se com os vírus que a ameaçam. Não se compreende que uma religião que não aceita as outras nos países onde é dominante e escraviza os que aí vivem, possa gozar de igualdade de direitos nos países que ameaça.

Com que legitimidade se permitem mesquitas aos crentes de uma religião que não aceita igrejas, pagodes, sinagogas ou templos às outras religiões? A Europa, onde se recrutam soldados de um deus cruel e vingativo, continuará a aceitar a divulgação de manuais que apelam à guerra santa e a deixar circular os pregadores que destilam ódio nos sermões e aliciam terroristas para a guerra santa?

O pluralismo, conquistado com a sangrenta Guerra dos Trinta Anos, em Vestefália, não pode ser posto em causa por ideologias que pretendem a exclusividade do mercado da fé e a eliminação da concorrência. Basta de cobardia para com as crenças. Urge resguardar os crentes dos fenómenos racistas detonados pelo medo à sua fé. E o medo existe.

A democracia é incompatível com o totalitarismo pio e belicista que anda à solta.

Ponte Europa / Sorumbático