terça-feira, dezembro 23, 2014

De mal a pior


segunda-feira, dezembro 22, 2014

É o tempo de ser bom

O frio chegou, intenso e persistente, a causticar os pobres, os sem-abrigo e todos os que não podem beneficiar da queda abrupta dos preços dos combustíveis. O País atingiu um estado de desânimo que a decadência ética e a mediocridade dos governantes acentua.

Há lares onde a magra pensão dos velhos é o arrimo dos mais novos varridos na onda de desemprego para a miséria e a desolação. Noutros, vivem-se os dramas que a violência e a adversidade transportam. Em todos se antecipa a ansiedade da borrasca que aí vem.

É tempo de ser bom, de fazer um intervalo no desespero, de gozar a pausa de uma sopa quente e do suave encanto dos afetos que afloram depois de prolongadas ausências, mas a chaga do desemprego não se esvai, os tempos que se abeiram não anunciam melhorias e o empobrecimento é o futuro que ameaça eternizar-se.

Este é um período triste numa Europa que perdeu o sentido da união e da solidariedade, um lapso de tempo em que Portugal se tornou mais periférico e empobreceu, quando é de bom tom fingir alegria e sentimos que nos tiraram os anéis que levaram os dedos.

Há pouco, numa cerimónia pífia, o inepto PM tartamudeou as tradicionais boas-festas ao PR, com ar de cangalheiro num funeral em que os defuntos se fingiram vivos. O PR respondeu com palavras a despropósito, como é hábito, a lembrar o Prof. Pangloss, a dizer que tudo corre pelo melhor, da melhor maneira, no melhor dos mundos, na versão atual de um Leibniz de dimensão paroquial. Que falta faz Voltaire!

Os ministros estavam compostinhos. O PM e o PR, muito bem.

É o tempo de ser bom.

Turquia ao encontro dos Irmãos Muçulmanos

Há vários anos, enquanto Bush armava o maior exército da NATO e chamava moderado a Erdogan, comecei a afirmar que não há Islão moderado nem religiões moderadas. Há crentes bondosos, solidários e pacíficos mas nenhum credo tem essas virtudes.

Erdogan, há anos que defende os assassinos de juízes protetores da laicidade e, quando a correlação de forças lho permitiu, começou a sanear os militares laicos. O Islão, na sua decadência, impõe-se pelo terror que cultiva, pela guerra santa que o Profeta preconiza e pela demência dos que as madraças e as mesquitas intoxicam.

O artigo do El País é elucidativo. Aqui ficam as primeiras frases traduzidas:

[“O pior é o medo. Toda a gente tem medo na Turquia”, lamentava-se há pouco numa entrevista o prémio Nobel de Literatura Orhan Pamuk. “A liberdade de expressão caiu para o seu nível mais baixo”, denunciava o autor de O museu da inocência, para descrever o clima de ameaça às liberdades civis que reina no seu país perante a perseguição à oposição e aos meios de comunicação críticos, plasmado em perseguições policiais e ordens judiciais de detenção. Perante as queixas da União Europeia pela deriva autoritária do Governo do islamita Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, nas suas siglas em turco), o presidente Recep Tayyip Erdogan replicou: “É o mesmo que nos aceitem ou não. Não nos preocupa o que pensem na UE. Que se ocupem dos seus próprios assuntos. Não têm nenhum direito a dar-nos lições de democracia”].

A tragédia vem a caminho da Europa, ou melhor, esta tem ido ao seu encontro.

domingo, dezembro 21, 2014

O último Conselho Europeu e o espectro grego...

Desconheço qual será a narrativa que Passos Coelho apresentará aos portugueses ao regressar desta última reunião do Conselho Europeu do dia 18 de Dezembro. 

Mas, a verdade dos acontecimentos, isto é, o que a Srª. Merkel ‘autorizou’, não é mais do que o 'borregar' do Fundo de Investimentos Estratégicos
Uma bandeira de Claude Juncker,  actual presidente da Comissão Europeia que segundo a propaganda ‘populista’, para inglês ver (e apresentar ao Parlamento Europeu), e nas contas eleitoralistas, ‘valeriam’ cerca de 315.000 M€ link
Mais um engodo eleitoral que morre à nascença. Nada que possa aliviar as restritivas regras de austeridade que estão a condicionar o crescimento europeu (à beira de uma nova recessão), ou que flexibilizem as ‘regras fiscais’ (de ‘ouro’) que comandam as políticas orçamentais, obterá o acordo do actual Governo da Alemanha. 

Duas das três premissas que o presidente do Conselho Europeu Donald Tusk colou ao ‘Plano Juncker’ dizem respeito á ‘intensificação das reformas estruturais’ (sabemos o que ‘isso’ significa) e a outra versa sobre a ‘solidez das finanças públicas’ (cuja via de sentido único é o Tratado Orçamental). 
Uma Europa condenada a ser ‘assimétrica’ não tem futuro porque não se manterá coesa. 

O primeiro-ministro de Itália bem lutou para que esses investimentos fossem subtraídos aos cálculos do deficit orçamental dos países que fossem beneficiários. Não terá sido aceite esta proposta e desconhecemos quem a apoiou. Todavia, pelos relatos da reunião, é fácil de adivinhar quem a terá obstaculizado link. Mais uma vez levanta-se a querela entre entre a austeridade, as reformas ('estruturais') e o investimento para conseguir equilíbrios precários à custa da destruição da coesão do espaço europeu (neste momento residual), não havendo pejo em adiar 'ad eternum' os problemas -  esses verdadeiramente estruturais -  dos países do Sul. 
 Merkel não quer ouvir falar de ajustamentos ao nível orçamental por recear (quando se aborda o investimento público) o aumento da dívida que, na realidade, não para de crescer. link
E o impasse actual prevalecerá até que se aprofunde a 'crise' e, então, sejam impostas outras medidas a reboque de cataclismos eminentes.

Resumindo: 
A UE continuará a viver penosos dias de incerteza e sem perspectivas de investimento que a façam acreditar no futuro. 
O desenvolvimento do espaço europeu não passa de uma miragem para engalanar a retórica política. O ritmo de crescimento permanecerá numa parte da Europa (Norte e Centro) numa cadência ténue enquanto o Sul periférico está destinado a empobrecer de modo 'irremediável'.
Todavia, e apesar deste terrível espectro, nenhum português ficaria admirado se, mais tarde, soubéssemos que Passos Coelho - governando um País com dificuldades de acesso ao crédito e com o investimento em queda prolongada – tenha, nesta reunião, alinhado com o Governo de Berlim e com o Bundesbank. 

Continuaremos assim até que uma eventual saída da Grécia da Zona Euro, por decisões políticas, nos venha acordar… e interromper o pesadelo que nos envolve.
Tudo começou na Grécia e muito poderá mudar a partir da Grécia.

Mordem a mão de quem lhes deu o pão


Antes mal acompanhado do que Sony


Quando o frio e alienado assassino, aiatola Khomeini, emitiu uma fatwa contra Salman Rushdie e a horda de intoxicados pelo Corão perseguiu e matou editores e livreiros que ousaram publicar e vender o livro «Versículos Satânicos», perduraram na história como devotos criminosos, os primeiros, e os últimos, como mártires da liberdade.

Quando as caricaturas de Maomé, o profeta muito amado e pouco recomendável, foram divulgadas, os dementes do costume quiseram assassinar o autor e assaltaram os jornais que, em nome da liberdade, não se deixaram chantagear.

Quando se cancela a exibição de uma comédia satírica sobre um complô para assassinar o líder norte-coreano, a figura grotesca cujo penteado é suficiente para levar um cidadão incauto do riso à incontinência urinária; quando basta um grupo de hackers e a ameaça de provocar um novo 11 de setembro em cada sala de cinema que exiba o filme, para que a Sony Pictures se acobarde, assiste-se a uma vergonhosa humilhação perante Kim Jong-un. Ceder à chantagem de Pyongyang ou de quaisquer crápulas, é a liberdade de expressão que se cancela.

A exibição do filme suspenso, «The Interview», ‘Uma entrevista de Loucos’ sobre dois jornalistas (Rogen e James Franco) contratados pela CIA para matar o líder norte-coreano, é uma exigência de quem se bate contra os totalitarismos e não abdica de uma das mais duras conquistas civilizacionais, o direito à livre expressão.

Se insistirmos em defender o respeito por idiossincrasias e preconceitos, preterindo o direito à liberdade, deixamos de ser dignos da civilização e dos direitos conquistados.

É preferível morrer pela liberdade do que morrer de medo… e de vergonha.

sábado, dezembro 20, 2014

20 de dezembro de 1973

Luis Carrero Blanco, era presidente do Governo espanhol e cúmplice do maior genocida de todos os tempos na Península Ibérica.

Há 41 anos, saído da missa, bem rezado, comungado e incensado, graças a 100 quilos de Goma-2, colocados pela ETA no túnel dedicadamente construído pela ETA, o carro blindado em que se deslocava foi projetado a uma altura de cinco andares, ficando mais perto do Céu.

Na queda, o carro caiu no pátio de um convento. Nunca foi tão santa e desejada a morte de um carrasco.  


Indícios de um anunciado 'cataclismo’…

O actual Governo não se cansa de apregoar que ao período de austeridade que tanto sacrificios provocou aos portugueses, lançando milhares de cidadãos na miséria, desestruturando e empobrecendo dramaticamente a dita ‘classe média’, extorquindo aos reformados modestas pensões, inundou os cidadãos de impostos ao mesmo tempo que ‘esvaziava’ o Estado Social, deveriam seguir-se ‘tempos gloriosos’ de crescimento económico progressivo e ‘sustentado’…
Trata-se de mais um mito que caí. E a prova cabal de que a receita estava errada tornando os sacrifícios inúteis.

Os 'indicadores de conjuntura' do Banco de Portugal são extremamente preocupantes link.  
Na realidade, o Banco nacional constata que a “actividade económica afunda para o valor mais baixo desde o Verão de 2013”. 

Será difícil iludir por mais tempo que estamos a andar para trás e que nada do que foi conseguido é 'estruturante' e sustentável. 
As ‘desculpas’ que não tardarão a surgir são previsíveis. A responsabilidade será da (má) conjectura internacional. Uma razão que no passado esteve ausente do armamentário da actual maioria quando estava na Oposição e tinha ‘soluções’ para tudo.

Daqui a 9 meses – quando os portugueses forem convocados a pronunciar-se nas urnas  - estaremos pior. Mas não tardarão a aparecer velhas soluções travestidas como sendo novas alternativas. 
Sabemos que a radicalização da sociedade portuguesa, ocorrida nos últimos anos, tem profundos efeitos na dita ‘classe média’ (a tal que nas democracias ocidentais decide as eleições). Este sector intermédio do tecido político e social encolheu, está literalmente pulverizado, sendo visíveis os sinais de uma inexorável fragmentação. Parte dela virou à Esquerda desiludida com os partidos do ‘arco governamental’, outra está disposta a embarcar em qualquer 'experiência populista' e, finalmente, uns tantos (esperemos que poucos!) deixaram de acreditar em soluções democráticas e estarão disponíveis para apoiar aventuras extremistas.

A situação política nacional vive um momento de pré-ruptura. Nunca - desde o 25 de Abril - foi tão melindrosa e perigosa. O risco de desvios na prossecução de um caminho democrático estão presentes e são elevadíssimos.
Gravíssimo!

O que o Governo disfarça


sexta-feira, dezembro 19, 2014

Política internacional e as Caraíbas dos tornados...


O restabelecimento de relações diplomáticas (e não o fim formal do bloqueio) entre os EUA e Cuba é, aparentemente, uma medida de distensão política regional (nas Caraíbas), no continente americano  e, obviamente, com abundantes reflexos internacionais que surpreenderam o Mundo link.
Mais de meio século (52 anos na prática) de afastamento entre os dois países, uma situação eivada de medidas punitivas e de respostas dúbias caiu estrondosamente sob os escombros de variadas evidências liminarmente foram reconhecidas como sendo um falhanço.

Existirão várias causas para a escolha deste momento. Uma delas será a próxima Cimeira das Américas a realizar em Abril de 2015, no Panamá, em que o governo anfitrião decidiu convidar Cuba. Este convite colocava a administração em Washington com dificuldades. Os EUA não podem ‘desistir’ do continente americano por fortes razões históricas e estratégicas muito menos num momento em que a supremacia económica ianque está ameaçada noutras partes do globo.  Era necessário desbloquear algo para que desaparecessem entraves artificiais alimentados por uma brutal inércia. E a arrancada começou pelo 'quintal'.
Claro que o processo já vem de longe e, por exemplo, à sombra de muita discrição e alguma hipocrisia têm-se desenvolvido trocas comerciais entre os dois países, desde o fim da guerra fria, por exemplo, no domínio dos produtos agrícolas, que Cuba necessita de importar. 

Agora que os Republicanos desejam colocar todos os entraves possíveis a esta ‘abertura’ seria oportuno recordar que previamente, no campo dos negócios, no século XXI, a administração de G.W. Bush que apareceu publicamente a endurecer o embargo político  tornou-se um activo praticante do laxismo (travestido de ‘humanitário’), no campo das trocas comerciais, sempre que estas significassem ‘exportações’ americanas.

A par de necessidades imediatas e evidências económicas existiu algum trabalho político e esforços diplomáticos. O passo mais visível (mas não o único) foi o funeral de Nelson Mandela. A partir dai e apesar de todos os desmentidos oficiais passou a pairar algo no ar. O incompreensível é o reconhecimento - por parte de Obama na comunicação ao País - de que o bloqueio a Cuba foi um fracasso link quando, no presente, está empenhadíssimo em arquitectar medidas idênticas em relação à Rússia.

Os EUA, aparentemente, optaram por uma outra estratégia. Abandonaram as acções políticas visando o prioritariamente derrube do governo de Havana. Apostam em alterações emergentes no modelo económico cubano, aguardando que estas induzam mudanças políticas. O embargo (‘bloqueo’ para os cubanos) que efectivamente se iniciou em 1962 na sequência da ‘crise dos mísseis’ (J. F. Kennedy) só foi oficialmente consagrado em 1996 (Bill Clinton) na célebre ‘Lei de Helms-Burton’ que carrega o nome dos dois senadores relatores. Ambos republicanos, Jesse Helms faleceu em 2008 e Dan Burton terminou funções em 2013 dedicando-se actualmente a actividades lúdico-sociais no Tea Party.

Para Barak Obama – apesar do domínio republicano no Congresso – a difícil situação política internacional criou espaço para actuar administrativamente na questão de Cuba.
Para Raul de Castro as dificuldades económicas de Cuba necessitam urgentemente de ser superadas em nome da sustentabilidade do regime.
Um encontro de vontades com um desfecho em suspenso do qual dificilmente os dois países conseguirão sair vitoriosos. A médio prazo entenderemos melhor o que esta semana foi anunciado. Mas, sem sombra de dúvida, ambos os dirigentes deram um passo em frente. 

Mariani e a mensagem de Natal


Mariani era a vivenda de Mari(a) e Aní(bal) um casal algarvio que a tinha batizado com os nomes próprios de cônjuges enlevados e que as vicissitudes da vida levaram a trocar por uma sumptuosa vivenda na Praia da Coelha, numa feliz permuta sem tornas.

Tendo o cônjuge masculino do ditoso casal, depois de um jantar em casa de Ricardo Salgado, com os casais Marcelo e Barroso, aceitado candidatar-se a PR, passou a ser o órgão unipessoal da República, com direito a debitar mensagens de Natal.

Hoje, a mensagem, cujo conteúdo me escapou, perdido na coreografia conjugal, teve um aspeto inédito. Em vez do PR apareceu o casal presidencial e, a substituir o Comandante Supremo das Forças Armadas, veio a primeira dama, acompanhada do esposo. A recitar a mensagem de Natal estiveram os dois inquilinos de Belém a alternar as falas, atentos às deixas, numa ternurenta aparição, como se fossem dois adereços do presépio.

No próximo ano, quem julga o PR incapaz de inovar, assistirá à mensagem de Natal, em jeito de jograis, com os dois cônjuges a recitarem em conjunto as mesmas falas. O PR já não é um órgão unipessoal, é um casal que arrematou Belém com 10 anos de isenção de renda.  

Comentário político e incidências ‘familiares’…

Comunicado de José Maria Ricciardi sobre a última homilia dominical do comentador Marcelo Rebelo de Sousa:
“Eu compreendo que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tenha muita mágoa em não poder continuar a passar as suas habituais e luxuosas férias de fim de ano na mansão à beira-mar no Brasil do Dr. Ricardo Salgado, mas essa mágoa não o autoriza a dizer mentiras a meu respeito e do banco a que presido, conforme fez no seu comentário de ontem…" link.
Este é mais um pormenor (a ser escrutinado) à volta de eventuais promiscuidades entre o comentário político e relevantes factos (de vária ordem) que vão surgindo à luz do dia neste conturbado período de resolução de problemas políticos, económicos, financeiros e sociais.

O cautelar (para o próprio) e ético (para os ouvintes) sistema de ‘declaração de interesses’ não faz caminho em Portugal. No comentário político a ‘organicidade das prestações’ sobrepõe-se a tudo e veste o manto diáfano da seriedade técnica, científica e política (este um denominador comum dos prestadores).
E não é um problema exclusivo de Marcelo já que, com nuances discursivas ou gradientes de exposição, poderá ser encontrado em outros assíduos ‘parceiros do comentário’ nomeadamente na área televisiva: Manuela Ferreira Leite,  Marques Mendes, Bagão Félix, Morais Sarmento, Francisco Louçã e José Sócrates (para falar dos mais mediáticos).
A representatividade deste ‘arco do comentário’ mostra ab initio sinais de iniquidade já que alguns sectores do espectro político nacional são mantidos à margem ou têm actuações esporádicas (como é o caso dos comunistas).
Mas existe uma outra vertente como são os casos de ‘tertúlias de comentadores residentes e associadas’ (Quadratura do Circulo, Eixo do Mal,  Bloco Central, etc.).

Os clãs sociais, académicos, lobistas, […os ‘comentadores instalados’] deveriam ser mais parcimoniosos e mais cautelosos.
Ao ouvinte, ou ao telespectador, espanta como nunca são invocados conflito de interesses para abster-se de palpites e pronunciamentos. Marcelo, por exemplo, dado o entrosamento pessoal e social com a família Espírito Santo, deveria revelar algum pudor no tratamento do monumental escândalo financeiro que está a ser objecto de um inquérito parlamentar. Ninguém o obriga a pronunciar-se sobre tudo e todos.  O comentário político não pode funcionar ao estilo de ‘testemunha abonatória’  ou ser ‘plataforma de lançamento’ para projectados novos voos.

Como conciliar, então, a necessidade de comentar notícias com objectividade, didactismo e a necessária independência?
Difícil sem dúvida. 
Em primeiro lugar, deveriam ser chamados à colação os diferentes partidos políticos através da suas estruturas de comunicação para darem uma ‘imagem institucional’. Seria uma boa maneira de evitar que os mesmos sejam conotados como máquinas exclusivamente direccionadas para a conquista de poder(es). O comentário poderá funcionar - quando utilizado correctamente - como um bom instrumento de 'pedagogia política'.
Mas a intervenção partidária não pode, nem deve, hegemonizar o comentário transformando-o numa produção institucional. A clarificação – que deverá ultrapassar circunscritos academismos sem os excluir - poderá (terá de) passar pela sociedade civil, i. e., por centros de estudo, fóruns de discussão,  grupos de ‘brainstorming’, 'think tanks', tertúlias, etc.
Esta é, todavia, uma questão de política editorial que depende dos conselhos de redacção dos diferentes meios de comunicação social. Assim exista espaço para os mesmos decidirem de modo livre e independente, subordinados a uma política de informação aberta e transparente baseada em critérios jornalísticos e à margem de servidões político-partidárias e pressões económicas (como scores, audiências e tiragens).

O que parece inquestionável é a necessidade do comentário político deixar de ser circular, redondo ou vicioso.
Esta função não deverá ser sistematicamente (ou sistemicamente) entregue a políticos ou ex-políticos e muito menos àqueles que estrategicamente se encontram em período de defeso, nojo ou emboscados a aguardar oportunidade para uma ‘próxima jogada’.

Ninguém se admiraria que, seguindo a lógica do 'sistema', dentro em breve, Durão Barroso renasça como um futuro (próximo) comentador ‘orgânico’. Reúne todas as condições para ser ‘convidado’ a representar esse papel.  Este foi o susto que a 'bordoada' de Ricciardi a Marcelo Rebelo de Sousa veio suscitar.
Afinal, Barroso, também frequentava a casa do Estoril onde, no meio de repastos, se promoviam candidaturas presidenciais link
Com este trajecto fechado e circular, tipo pescadinha de rabo na boca, o comentário político nunca deixará de ser redondo. Afinal, é também para esses lados que fica a ‘Boca do Inferno’. 
Trata-se de mais uma questão de família... a aguardar outras 'insolvências'.

O urso Maomé e a fauna devota

«Os homens nunca fazem o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa». (Pascal)

Há 7 anos, No Sudão, obscuro país onde a fome e a fé dizimam o povo, uma professora de inglês foi condenada a 15 dias de prisão, seguidos de deportação, por ter permitido aos alunos que dessem o nome de Maomé a um urso de peluche, o que foi considerado uma ofensa ao Profeta e não ao urso.

Poupou-a às chibatadas a nacionalidade e a intervenção do primeiro-ministro inglês e às balas, a polícia antimotim. Os piedosos sudaneses que se manifestaram, junto ao palácio presidencial, contra a clemência da sentença, queriam vingar a afronta ao Profeta à saída das orações de sexta-feira, excelentes para estimular a violência.

Desiludiram-se os crentes, por terem sido impedidos de linchar a professora. Estavam munidos de paus, facas e machados e só ansiavam por dar público testemunho da sua fé e agradarem ao seu Deus.

Há quem pense que a demência mística é mera manifestação tribal ou apanágio de uma única religião, quiçá por desconhecimento do Levítico, por exemplo, e da dívida para com o Iluminismo e a Revolução Francesa.

O fundamentalismo é uma palavra que serviu para definir, primeiro, o protestantismo evangélico americano que no início do século XX pregava um Deus apocalíptico, cruel e vingativo, e que atualmente ameaça ser a característica comum de diversas religiões.

É preciso um sobressalto republicano e laico para evitar que as religiões destruam a civilização e comprometam a sobrevivência humana e que a blasfémia – um «crime» medieval – desapareça do Código Penal de todos os países civilizados.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

A morte de Vítor Crespo


Morrem os bravos, ficam os bárbaros.

Um a um, os heróis de Abril vão perecendo e Portugal fica mais pobre, carecido de referências, entregue à comissão liquidatária que escondeu a agenda ideológica durante a campanha eleitoral.

Vão-se os bravos e ficam a uivar os lobos nesta melancólica quadra em que os próximos voos da TAP são de aves migratórias que não regressam mais, obrigadas a levantar voo, expulsas do seu habitat.

Como o crocodilo, ficam a voar baixinho os membros da comissão liquidatária do país que nunca sentiram seu. Falam grosso, como se as polícias estivessem ao seu serviço, o poder fosse um direito e a governação uma viagem ao passado.

Vítor Crespo foi um dos melhores. Vai a sepultar enquanto ficam os que nos enterram e preparam campanhas sujas para se perpetuarem.

Em Abril, Vítor Crespo estava na Pontinha, depois esteve na transição da independência de Moçambique e continuou a servir Portugal sem se servir da Pátria que amou.

A mágoa pela perda de um herói só tem paralelo na que permanece pelos cobardes que ficam.

Há luto em Portugal e Moçambique. Em Belém e S. Bento a vida continua indiferente à perda que os democratas sentem.

Relações entre Cuba e EUA

A abertura das relações entre Cuba e os EUA é uma vitória do pragmatismo e do bom senso, uma decisão que enobrece Obama, o fim de uma medida injusta acicatada pelo ódio dos exilados de Miami.

Como foi possível castigar o povo cubano por causa do seu regime quando as relações com a Arábia Saudita permanecem?

A alteração das relações não significa o fim definitivo, nem sequer o termo do boicote, porque  obriga a que as duas câmaras, Senado e Câmara dos Representantes, declarem o fim do bloqueio, ao que os Republicanos, maioritários nas duas Câmaras, se opõem.

Obama pode, no entanto, através de decisões executivas, aliviar a violência do bloqueio e tornar menos penosas as condições de vida em Cuba.

Seria injusto não manifestar regozijo por esta decisão, saudando Obama, Raul Castro e o Papa Francisco que compreendeu e intercedeu pelo fim do drama que tem dilacerado o povo de um país do continente americano.

Deixo outras leituras a quem se move por catecismos rígidos e preconceitos ideológicos.

O islamismo, a laicidade e a democracia

Sendo ateu, é natural que considere falsas todas as religiões e que, segundo os diversos momentos históricos, avalie o grau de nocividade e perigosidade de cada uma. Hoje, a mais nociva e perigosa é, na minha opinião, a islâmica.

‘Segundo um estudo efetuado pela cadeia televisiva BBC e do King’s College London, divulgado esta sexta-feira, 12 de dezembro, e citado pela revista Fátima Missionária, só em novembro os radicais islâmicos mataram mais de 5.000 mil pessoas e, segundo os investigadores, verificaram-se 664 ataques, em 14 países, que provocaram uma média diária de 168 vítimas mortais, ou seja, sete por hora’.

Não gosto que matem cristãos, muçulmanos, judeus, animistas, budistas, hinduístas, ateus ou quaisquer outros crentes ou livres-pensadores. Não gosto de assassinatos e ferem-me especialmente os cometidos por ódio sectário e xenófobo.

A metódica intoxicação nas madraças e o apelo ao ódio e à guerra santa nas mesquitas não é propaganda religiosa, é incitamento ao terrorismo. Não é um problema de fé, é um caso de polícia e uma preocupação democrática.

A indulgência com o islamismo, não confundir com o respeito e proteção que merecem os crentes, é um problema de cobardia dos democratas, excelentemente aproveitada por neonazis, fascistas e populistas, de diversas estirpes, em numerosos países europeus.

Esquecem-se as meninas cristãs raptadas na Nigéria, por muçulmanos, e escravizadas, ignoram-se meninas de 9 anos vendidas a homens de 40, 50, 60 e mais anos, pelos pais a quem o Islão confere a propriedade, da Somália ao Iémen, o casamento de Maomé  com uma menina de 6 anos, consumado aos 9, um ato de pedofilia cuja perpetuidade os dignitários islâmicos apoiam.

A sharia e a discriminação da mulher devem envergonhar qualquer sociedade mas até os europeus, filhos do Iluminismo e da Revolução francesa, se intimidam na denúncia e no combate ideológico a tal barbárie, enquanto o primarismo islâmico seduz adolescentes europeus sem ideais, sem convicções e sem futuro.

O Islão não admite a laicidade e sem esta não há democracia nem liberdade religiosa.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Ódio divino à cultura - Imagens


Ódio divino à cultura

Os grupos fundamentalistas visam, no ódio cego à cultura que liberta, a morte dos que gostam de aprender. As escolas são o palco predileto de atentados, como a escola em Peshawar, onde mais de 140 pessoas, na maioria alunos, foram esta terça-feira mortas por um comando talibã.

Foi uma larga centena de pessoas anónimas que não sobreviveram, impedidas de saber mais do que o Corão aconselha, de abrir as mentes à cultura e à sabedoria, de aspirar à emancipação e à fruição dos direitos individuais. É a vingança contra cada Malala que escapa, cada mulher que se liberta e cada vida que os fanáticos não controlam.

Há idiotas úteis debitam lugares-comuns, que não são terroristas todos os muçulmanos, que são minoritários os criminosos, mas não veem que é terrorista o Corão, perigosas as madraças e instigadoras de ódio as mesquitas? Não viram a alegria que percorreu as ruas islâmicas após a queda das Torres Gémeas de Nova Iorque ou do massacre de Atocha?

Esquecem-se 1.200 reféns de Ossétia do Norte numa escola de Beslan, no dia do início do ano escolar de 2004, por rebeldes armados pró-chechenos, e a morte de 186 crianças entre as 331 pessoas que pereceram durante o assalto das forças especiais que os foram libertar e que também sofreram 31 mortos.

Nas Filipinas, em 28 de janeiro de 1999, 500 alunos e 70 professores de uma escola perto de Cotabato (sul) foram sequestrados por membros da Frente Moro de Libertação.

Na Nigéria, os bandos islâmicos de Boko Haram, responsáveis por ataques e sequestros, reivindicaram o rapto a 14 de abril passado de 276 raparigas, estudantes num liceu de Chibok (nordeste). Algumas conseguiram fugir, mas 219 continuam desaparecidas.

No Afeganistão os talibãs serravam vivos os militares da URSS perante o silêncio da comunicação social. Que interessava? Eram comunistas! Mais tarde foram os soldados americanos a sofrer igual sorte. E o silêncio manteve-se, eram imperialistas!

Este maniqueísmo uniu, em silêncio cúmplice, dignitários de várias religiões perante a fatwa contra Salmon Rushdie. Esses e outros cúmplices ficaram cobardemente calados perante os editores assassinados ou os jornais incendiados por causa das caricaturas de Maomé. Quando se pronunciaram foi contra a liberdade de expressão, em manifestações de compreensão perante as dementes demonstrações de raiva e de vingança.

A tragédia dos países árabes deve-se à natureza não secular do Estado. O ódio dos clérigos ao laicismo e a sua arrogância moral exacerbam-se com o declínio económico e cultural.

Afigura-se profético o título do livro de Robert Hutchison: “O Mundo Secreto do Opus Dei – Preparando o confronto final entre o Mundo Cristão e o Radicalismo Islâmico”. (Ed. Prefácio, Novembro de 2001)

Fontes: Imprensa mundial.


terça-feira, dezembro 16, 2014

Amigo de uma Escola amiga

Hoje, um Agrupamento de Escolas, do distrito de Coimbra, honrou-me com a inclusão no grupo dos seus amigos, numa cerimónia a que motivos de ordem pessoal me impediram de comparecer.

Agradeço a quem teve semelhante generosidade para com um cidadão que está sempre disponível para colaborar. Sem qualquer título académico, castrense, nobiliárquico ou eclesiástico, nem sequer uma venera, é uma honra que me desvanece.
Aqui fica o currículo enviado.

Nascimento: janeiro/1943

Profissão: professor do ensino primário, o que gostaria de ter sido toda a vida, mas, ao fim de 3652 dias, porque de pão também vive o homem, fui agente comercial, delegado de informação médica e chefe de secção de uma multinacional farmacêutica.

Atividades cívicas e políticas:

- Filho de uma professora que teve de pedir autorização ao ministro da Educação para casar com o meu pai, funcionário de finanças, conheci a descriminação das mulheres a quem eram vedadas a magistratura, a carreira diplomática, as Forças Armadas e a administração de bens próprios ou a saída para o estrangeiro, dependentes do marido.

- Antifascista por convicção e devoção, tive em 25 de Abril de 1974 o dia mais feliz da vida, depois de severa vigilância policial, ameaças profissionais, como professor, e da participação em diversos movimentos e organizações na luta pela democracia.

- Fiz dois filhos com quem os quis, escrevi um livro, colaborei em jornais e revistas e plantei árvores. Sócio n.º 1177 da Associação Portuguesa de Escritores, fui o primeiro presidente da Associação Ateísta Portuguesa (AAP) em 2008, reeleito sucessivamente, com o mandato de 2014/2016, em curso.

- Do livro da vida, a poucos dias dos 72 anos, vejo a contracapa à distância de poucas folhas, com a enorme felicidade de envelhecer com a mulher de sempre, ver os netos crescer, amando e sendo amado, vivendo de pé a única e irrepetível vida que me coube.

- Há um capítulo que queria poder rasgar, quatro anos e quatro dias na guerra injusta e criminosa da tragédia colonial e ainda sinto um camarada a exalar o último suspiro nos meus braços, acabado de esmagar pela Berliet, a memória amarga do soldado que perdi na jangada do Zambeze, virada nas águas revoltas do rio, infestado de crocodilos. Das 101 vítimas, uma era dos meus.

- Feliz por ter assistido aos maiores avanços da Humanidade, defenderei sempre tudo o que julgo justo, num país sem presos políticos, censura e medo, mas já receoso da fome que avança, dos recursos que se esgotam no Planeta, do ar contaminado e da água e dos alimentos que vão faltar. Que fazer para que vença a trilogia da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade?

Ficam os meus filhos e netos. E os jovens de Portugal que teimam em permanecer.

16/12/2014 – Carlos Esperança

A violência doméstica e os animais selvagens


Este crime silencioso não é exclusivo dos homens mas pertence-lhes o maior quinhão. É a velha prática que a sociedade, a Igreja, a família e as próprias vítimas consentiram, um hábito a que não faltava o pérfido adágio: «entre marido e mulher não metas a colher».

Quantas feridas, no corpo e na alma, quanta vergonha escondida com desculpas pueris, quanta violência reproduzida através dos filhos de cujos gritos e espetáculo se tornaram reprodutores!

A morte às mãos de um facínora que não controla o ciúme, que esquece o amor que um dia o arrebatou e o respeito constante que devia, é o retrato de uma sociedade medieval que recusa a modernidade sem longos estágios no cárcere.

A quantidade de mulheres agredidas, física e moralmente, humilhadas e assassinadas, é uma tragédia recorrente, perante a indiferença de quem esquece a mãe, irmãs e filhas, de quem não sublima instintos primários e faz da violência a catarse das suas frustrações.

A quotidiana divulgação da brutalidade a que as mulheres estão sujeitas é a nódoa que não se apaga, a vergonha que nos acompanha, a iniquidade cuja incúria nos remete para um passado medieval e para épocas históricas que a civilização devia ter erradicado.

Como é possível condenar metade da humanidade a um sofrimento acrescido, à exaltada manifestação da selvajaria masculina, reproduzindo os valores anacrónicos herdados da época em que a força física era condição de sobrevivência?

Maldita herança, malditos herdeiros.

Quando todos os respeitarmos....