quinta-feira, julho 02, 2015

A crise grega e mundial e os timoneiros lusos


O PR dos EUA e o da França, apesar da irrelevância do último, “concordaram em unir esforços a favor do recomeço das negociações” com a Grécia. Merkel, apesar de vítima de críticas e da aversão ao seu ministro das Finanças, parece ser a única dirigente na UE a pensar e que se dá conta de que o futuro do euro está ligado ao da Europa.

Todos perceberam que os credores não podem impor aos devedores acordos impossíveis de cumprir, fazer empréstimos sob chantagem, para proteger os seus bancos, e condenar países ao desemprego, à fome, ao desespero e à violência.

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, diz agora que a porta continua aberta. O presidente do Parlamento Europeu adverte os gregos contra os riscos de “má decisão” no referendo e Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, segue-o na advertência. O presidente da CE, Claude Juncker, diz que «Aqui todos ganham ou todos perdem».

No fundo, querem destruir o Syriza e temem destruir a Europa. Já se resignam a impor apenas em quem Atenas pode votar, indiferentes ao livre exercício do voto.

Strauss Kahn, ex-diretor do FMI defende a reestruturação da dívida grega, o que sólidos talentos lusos, Passos Coelho e Cavaco, negaram veementemente na defesa das ‘regras’. Os norte-americanos Paul Krugman e Joseph Stiglitz, prémios Nobel da Economia, desconhecidos em Massamá e Boliqueime, corroboram a opinião de Strauss Kahn e a bondade das propostas do Governo grego.

Observar esta crise, ignorando a do capitalismo global, detonada na falência do banco Lehman Brothers, nos EUA, cujas ondas de choque não pararam, é a visão redutora de quem não consegue imaginar a doença para além dos mais óbvios sintomas.

Em Portugal, há quem ignore que o problema grego é comum, que à Grécia se seguirá Portugal e, depois, outros, com efeito dominó, se antes não for encontrada uma solução. O PM e o PR, à semelhança dos passageiros do autocarro n.º 16, Carapinheira-Coimbra, não veem que ao ‘grexit’ se seguirá o ‘eurexit’ [também tenho direito a cunhar um novo termo, aliás, sem grande originalidade].

Ouvir o PM, cuja formatação ajuda a entender as declarações, em linha com as decisões venais e nepotismo, é confrangedor, mas ouvir o PR, no meio da tempestade, no Titanic [UE], perante o naufrágio do primeiro passageiro [a Grécia] a dizer que “… se sair ficam 18 países”, não é apenas o rebuscado exercício de aritmética ao nível do primeiro ano de escolaridade, é a metáfora de alguém que faz de Hollande um estadista notável.


Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 01, 2015

Notas soltas: maio/2015

Dia Mundial da Criança – O dia ficou assinalado pela encenação grotesca da Câmara Municipal de Portalegre e da PSP local, com crianças mascaradas de polícia de choque a atacar outras que fingiam de manifestantes. Caricatura infeliz de pedagogia cívica.

Estado Islâmico – Os objetivos estratégicos passam por decapitações e formas de terror que o tornam popular, amado e temido. Abu Bakr Al-Baghdadi, autodenominado califa, controla vastas regiões da Síria e do Iraque e ameaça a paz mundial.

Turquia – A vitória do partido de Erdogan, AKP, sem maioria absoluta, foi um revés para o autoritário PR e um sinal de esperança na continuidade laica, com a entrada no Parlamento do partido secularista pró-curdo, HDP. O totalitarismo islâmico foi adiado.

Ucrânia – Os EUA e UE diabolizam Putin mas, depois da fragmentação da Jugoslávia e da secessão do Kosovo, agredindo a Sérvia, que autoridade resta para castigar a vontade da Crimeia? Os problemas da UE nasceram dentro de si e não vieram da Rússia.

10 de junho – A cerimónia marcada pela ausência da Associação de Oficiais das Forças Armadas, que recusou o convite para assistir à última homilia do Comandante Supremo, mostrou um PR, em melancólico ocaso, na campanha eleitoral pelo Governo. 

TAP – O contrato de venda da companhia aérea portuguesa rendeu 10 milhões de euros. Em 2009, o Real Madrid, contratou Cristiano Ronaldo, vindo do Manchester United, por 94 milhões de euros.

Venezuela – A deriva autoritária é evidenciada pelas arbitrariedades do regime, ataques às liberdades individuais e prisões de adversários. O País tem inimigos poderosos mas o poder perdeu a face e vai transformando a democracia em farsa.

Madeira – O Governo Regional vai assumir o passivo de cerca de 52 milhões de euros do Jornal da Madeira, embora Miguel Albuquerque, se tivesse apresentado às eleições afirmando que não gastaria nem um tostão no órgão oficioso do Governo Regional.

PR – A viagem à Bulgária e Roménia foi desastrosa. Não foi recebido pelo PM romeno, a contas com a Justiça e ausente do País, a Esposa viu anulada uma aula com a evasiva de erro de datas e Cavaco Silva, no estrageiro, reincidiu na propaganda partidária.

Bruxelas – No dia do segundo centenário da Batalha de Waterloo, onde ruiu o primeiro Império francês, discutiu-se, a 13 km, o futuro da Grécia, numa encenação em que não houve vencedores. Foi a melancólica liturgia a prenunciar o fim da UE e o Eurexit.

União Europeia – A moeda única só faz sentido num Estado capaz de ser solidário com as nações que o compõem. É o caso do US$ nos EUA. A traição à integração económica e social prevista, vulnerabilizou a UE perante a crise mundial do sistema financeiro.

Holanda – O novo Governo integra pela primeira vez um partido de extrema-direita, o Partido Popular  Dinamarquês (DF), populista e xenófobo. A Europa, esquecida do nazi / fascismo, desliza lentamente para a repetição da tragédia terminada há 70 anos.

Neoliberalismo – O desvario económico e político, com graves ruturas sociais, levou a Europa por atalhos que impedem alternativas democráticas e, a prazo, a alternância que serviu de travão a aventuras totalitárias. A pobreza é o combustível das revoluções.

USA – O aparecimento de mais um Bush na disputa eleitoral americana é um pesadelo. O mundo não esquece as agressões familiares ao Iraque pelo país capaz de o eleger ou a outro parecido.

Vaticano – O papa desperta a raiva dos ultraliberais, paramentados e laicos, quando se manifesta preocupado com os problemas ambientais e a desigualdade na distribuição da riqueza. É natural que abandonem a missa de Jorge Mario Bergoglio.

Cimeira Ibérica – O acordo no gás, na defesa e na trasladação de cadáveres revela que o importante, dívidas soberanas, desemprego e transvazes dos rios ibéricos, deu lugar ao acessório, com a trasladação a servir de metáfora a dois governos em fase terminal.

Islão – A oferta de uma escrava, considerada herege, como prémio de um concurso para quem (homem) melhor memorize o Corão, é a última indignidade do Estado Islâmico, a mais refinada ofensa à civilização e a mais demente inspiração pia.

Governo – Não de percebe, a não ser por cegueira ideológica, a agressividade contra os gregos. Se a Grécia cair, Portugal é o próximo, segundo o Financial Times. Com uma dívida soberana de 130% do PIB, a solidariedade com a Grécia teria sido inteligente.

Oceanário – A entrega a privados não é apenas a satisfação de uma reiterada conduta de natureza ideológica, é ignorar o valor pedagógico que tem para milhares de crianças das escolas que todos os anos o visitavam gratuitamente.

EUA – A revelação das escutas, primeiro à chanceler Merkel e, depois, aos três últimos PRs da França, revela a natureza do último império. Aos amigos escuta-os, aos inimigos lança-lhes bombas. Não há impérios eternos.

Nepotismo – A embaixada na UNESCO, encerrada por razões financeiras, foi reaberta para colocar um amigo do PM. É apenas mais um caso de colocações ilegais numa orgia de criação de «jobs for the boys», designadas por «tachos», numa altura de crise.


Grécia – O que a troika exige não é apenas a decadência e a impossibilidade de pagar a dívida e relançar a economia, é a renúncia ao Estado de direito, a hipoteca de quaisquer direitos e a abdicação da soberania. É a imolação da liberdade no altar da ideologia.

terça-feira, junho 30, 2015

A União Europeia está à deriva

Passos Coelho e Cavaco estão na proa, à conversa, a divertir-se com os gregos.

segunda-feira, junho 29, 2015

Multiculturalismo

Multiculturalismo, sim. Humilhação da mulher, não. 

Por cada mulher que deseja a burca há centenas que são obrigadas. Também houve escravos que recusaram  a liberdade que a abolição da escravatura lhes concedeu!

Quo vadis, UE?

Não há qualquer união monetária duradoura sem união política e a UE foi incapaz de a concretizar, mobilizando os povos europeus que a integram.

Insistir no cumprimento da promessa de pagamento de dívidas que credores e devedores sabem não ser possível liquidar, é um ato de terrorismo financeiro destinado a alterar a vontade política dos povos submetidos à tirania da dívida. E que sentido faz assinar um compromisso impossível de honrar?

Ainda não terminaram as ondas de choque da falência do banco Lehman Brothers nem o risco sistémico do sistema financeiro mundial e já o caso grego ameaça tornar inúteis os paliativos que burocratas inventaram, repartindo sacrifícios por economias débeis e com mais dificuldade em resistirem à chantagem.

Penso que a convocação do referendo grego foi a única saída honesta para quem, sob a ameaça da guilhotina financeira, pergunta se quer morrer combatendo ou morrer sem luta. Não se percebe a alergia dos burocratas, sem qualquer legitimidade democrática, à consulta referendária.

A União Europeia prefere morrer com a Grécia a deixá-la viver. A sentença antecedeu as alegações do condenado.

domingo, junho 28, 2015

Grécia: até ao lavar dos cestos é vindima...

O drama grego e, concomitantemente, o futuro da UE, estão cada vez mais decifráveis e previsíveis. 
Não são bons os sinais que vêm de Bruxelas, como não será fácil o caminho a trilhar pelo povo grego, na sequência dos últimos acontecimentos.

Perante a situação criada – ao longo de 5 meses de negociações - à volta de o fecho do 2º. resgate da Grécia existe uma evidência (existem muitas outras!). Uma das primeiras ilações a tirar deste abrupto desfecho foi o Eurogrupo prosseguir, com olímpica fleuma e sem pestanejar, os trabalhos da parte da tarde (depois da retirada do ministro das Finanças grego da reunião), mostrando que tudo estava previamente arquitectado (para o esticar da corda). 
Os ministros dos países europeus que integram o Eurogrupo, para prosseguirem os seus planos, não necessitaram de consultar os respectivos governos. Significativo.

O facto de ter ocorrido na Grécia uma mudança de Governo, que incorpora uma substancial alteração política, motivou os parceiros europeus para o confronto que, ontem, acabou da pior maneira possível link. As condições inerentes a este resgate ainda em curso foram negociadas pelo Governo anterior (presidido por Antónis Samarás, da Nova Democracia) e, segundo era suposto, foram previamente definidas pelo que é difícil de perceber as justificações para um tardio 'endurecimento''. 
Na recta final do referido programa de assistência financeira resolveram os membros do Eurogrupo, do BCE e o FMI alterar as regras do jogo. Não se tratava de um novo resgate que de resto se mostra - face ao descalabro dos anteriores - ser imperativo. 
Tratava-se (tratou-se) de esconder o insucesso das sucessivas intervenções decorrentes da concertação entre a batuta europeia, o BCE e o FMI.

O novo Governo grego acossado pelo arsenal político ultra-conservador europeu ensaia um caminho de fuga às sucessivas armadilhas e resolve questionar do controlo burocrático de Bruxelas avançando para um referendo. A exemplo, aliás, do que já tinha sido tentado pelo governo do PASOK, dirigido por Georges Papandreau link, em funções na fase inicial da intervenção externa, face a um impasse negocial do mesmo tipo.

Nada no contexto europeu está resolvido, nem sanado, nem sequer dimensionado no seu âmbito e consequências. Pelo contrário, o recurso a um referendo tem para os burocratas europeus dois pecadilhos: 
1 - primeiro, trazer para o imbróglio, criado e alimentado nas reuniões do Eurogrupo e do Conselho Europeu, o recurso a uma solução referendária link (nunca desejada no seio oligarquia europeia); 
2- segundo, afrontar os arranjos no interior da UE que sustentam o princípio da ‘não alternativa’, da  ‘teoria de vacina’, da ‘austeridade redentora’, etc.

Caricata é. para terminar, a posição do Governo português. Um país brutalmente empobrecido e exponencialmente endividado no decurso de um ‘ajustamento’, imposto pelos credores, julga-se agora mais ‘resiliente’ (termo da afeição do mundo financeiro) ao assalto e especulação dos mercados. A justificação é: Porque temos os cofres cheios (de dívidas!) link.
Vamos, então, verificar como será o rápido trânsito (alguns meses?) da fanfarronice da resiliência à mais dura e cega obediência. Supostamente, com 'língua de palmo'.

O fascismo islâmico

Os recentes atentados islâmicos, cada vez mais globais e selvagens, vêm aprofundar a necessidade de combater a lepra que corrói a paz e a civilização.

Não pode ser um monopólio da direita reacionária, xenófoba e populista o combate ao fascismo islâmico. É uma tarefa de islamitas, cristãos e budistas, como é uma obrigação de ateus, agnósticos, racionalistas e céticos, enfim, uma necessidade comum de crentes e livres-pensadores que não sacrificam valores do Iluminismo, os ideais da Revolução Francesa.


sábado, junho 27, 2015

Portugal e a dívida

As dívidas impagáveis não são exclusivas do Estado, empresas e famílias de Portugal. A falência do banco Lehman Brothers, quiçá com a cumplicidade do rival Salomon Sachs, paraíso dos seus mais destacados cúmplices, antecipou a crise financeira internacional e as ondas de choque que ainda não pararam.

Não se sabe se esta foi a última das crises cíclicas do capitalismo mas a previsão de Karl Marx revela-se certeira, ainda que a falência da teologia liberal não encontre a solução na marxista-leninista. Não se conhece, aliás, solução.

Não é preciso ser iniciado em ciências económicas e financeiras para ver que as dívidas se tornaram impagáveis. Bastam rudimentos de aritmética e, eventualmente, a máquina de calcular.

Vejamos o caso da dívida portuguesa que este PR, um especialista na matéria, e o PM, especialista em coisa nenhuma, garantem estar controlada, tal como o ‘especialista na matéria’ garantia que o BES tinha reservas para o pior cenário. Viu-se.

Quando da falência do Lehman Brothers, Portugal tinha uma dívida soberana moderada. Organismos internacionais, os mesmos que dois anos depois optariam pela austeridade, instigaram os governos a não se preocuparem com a dívida e a salvarem os empregos. Depois foi o que se viu. Este Governo chegou ao poder à boleia da desgraça nacional e a salivar de contentamento. Herdou a dívida incontrolável de 90% do PIB, arruinou o País e tem uma dívida «controlada» de 130%.

A dívida está, de facto, controlada, em Portugal e noutros países, com créditos cada vez maiores para pagar o serviço da dívida, que não para de crescer. A prática da usurária D. Branca foi elevada a teoria económica. Enquanto houver empréstimos não há falências.

Não é possível pagar a dívida. Ponto final. A dívida soberana (130% do PIB) + a dívida das empresas + mais a dívida de particulares = 684.000.000.000 de euros (dados do BdP). E todos os dias aumenta.

Talvez o 'inevitável' crash mundial resolva a situação. Pobres poupanças particulares.


PIB português relativo a 2014 – 173.053,3 milhões de euros. (Fonte: PORDATA)

sexta-feira, junho 26, 2015

Uma abortada pergunta: Qual a pressa?

Qual a pressa?

Esta a pergunta feita por António José Seguro, na altura dirigente do PS, quando da crise interna criada por dirigentes afectos a facções que solicitavam a realização de um Congresso link e que passou vezes sem conta nos média, só para achincalhar.
Desaparecido da cena política a pergunta volta a colocar-se agora com mais premência. Trata-se da desorientada actuação deste Governo no fim de mandato. Encetou uma saga (espiral) de privatizações, aparentemente avulsas, que revelam o intento de ‘cumprir’ o seu programa (é suposto segundo os seus próprios ditames que a troika tenha já saído...).

Sem olhar ao passado recente onde avulta a entrega da EDP, REN, ANA, CTT, PT, etc. as baterias estão, neste momento, assestadas para a TAP, Oceanário, Transportes Urbanos, CP carga e, quiçá, as Águas. Um autêntico esvaziamento do País. Dá a sensação que, no final, não restará pedra sobre pedra.

E, para além dos atropelos e das ignorâncias estratégicas, nomeadamente em relação aos sectores da energia, transportes e comunicações o problema está efectivamente nos ‘finalmente’.

Na realidade, esta ‘fúria’ deverá corresponder a projecções eleitorais que têm sido ocultadas aos portugueses. Tanta precipitação é demais até para negociantes neoliberalizantes. A razão não deve andar longe de que mais vale antecipar do que aguardar. Ou será melhor despachar do que contemporizar.

Como se não bastassem estes malabarismos económicos e financeiros, ontem, a maioria governativa, à laia de nefasto entretenimento, avançou com o ‘chafurdar’ da lei da interrupção voluntária de gravidez a coberto de um movimento de ‘cidadãos pelo direito a nascer’ link
Quando o País está a morrer centra-se a atenção política de nascimento de filhos não desejados. Só que a morte anunciada do País não é, para a maioria dos portugueses, voluntária.

Foi difícil conter o riso face ao argumento esgrimido pela inefável senhora Isilda Pegado de que é preciso pressionar a revogação da lei da interrupção voluntária de gravidez para resolver as dramáticas questões demográficas que enfrentamos.

A que dislates vamos estar sujeitos nesta campanha de ‘evangelização’?
Já não nos bastava o diácono João César das Neves?

Seis séculos de diferença

Dois mundos separados por 2 metros de areia

quinta-feira, junho 25, 2015

A trapalhada das secretas

Só com um governo que chegou até aqui e com um PR que o deixou chegar, foi possível a impunidade de que gozam os mais altos dignitários que confiscaram o poder. Podem ser néscios e incompetentes mas não lhes falta eficácia na propaganda e na chantagem.

Marco António, o cocriador de Passos Coelho, mantém-se no poder, e dispõe do poder, depois das acusações que a Visão lhe faz hoje. Passos Coelho passa incólume na fuga à Segurança Social e o silêncio é a norma, quer se trate dos documentos que se perdem, dos submarinos às contas na Suíça, quer nos que se acham e comprometem a segurança do país.

A revelação dos candidatos a espiões é motivo de gracejo quando o Estado chega a este estado. O Conselho de Fiscalização está mudo perante o e-mail dos candidatos a espiões e não se preveem demissões.

Veiga Simão enviou um dia, a pedido dos deputados, os nomes dos espiões para a AR. Foi demitido. E bem. Os serviços secretos viram arruinados o prestígio e a eficácia.

O povo, que perdeu o respeito por quem governa e se governa, alheio à decadência ética, acaba por perder o respeito por si próprio.

As religiões e o proselitismo

Nada tenho contra os crentes e tudo contra as crenças, sobretudo quando os fiéis querem impor aos outros a sua fé e, muito especialmente, se recorrem à violência.

O ateísmo também merece igual censura se for sectário e violento. As guerras santas são devastadoras e a Europa tem longa tradição nesse desvario. Por mais que a componente económica influencie os conflitos, é o ódio religioso que aparece como o mais violento detonador de guerras.

Que raio de deuses inventaram os homens que precisam de religiões como agências de promoção e instrumento de coação?

A laicidade é a vacina que interessa a crentes de todas as religiões não dominantes, no espaço em que se inserem, bem como a todos os não crentes, e não pode ser descurada.

É tão perverso um Estado ateu como um confessional. O Estado deve ser neutro e evitar intrometer-se na vida das associações cuja liberdade lhe cabe respeitar e defender. Só o código penal deve limitar a demência do proselitismo e a violência dos prosélitos.

Não posso deixar de recordar Voltaire no leito da morte, a quem, como era hábito, para terem o troféu «converteu-se na hora da morte», pretendiam que «negasse o Diabo», ao que respondeu com fina ironia: «Não é o momento apropriado para criar inimigos».

Mais sarcástico, Christopher Hitchens, influente escritor e jornalista britânico, autor do livro «Deus não é grande», quando soube que, na sequência do cancro que o consumia, se faziam apostas na NET sobre se se converteria antes de morrer, declarou: «se me converter é porque acho preferível que morra um crente do que um ateu».

Ponte Europa / Sorumbático