sexta-feira, Novembro 28, 2014

O sermão, o sacristão e a ressurreição de Lázaro (Crónica)


(Crónica pia para ímpios)

Estava chuvoso aquele domingo em que tinha lugar o sermão anual da Ressurreição de Lázaro, sempre renovado pelo padre Jerónimo, relatado na Bíblia Sagrada (João 11:1-46) e esperado pelos paroquianos, extasiados com o prodígio, sem precisar de recorrer aos capítulos e versículos de Mateus e Lucas, só para referir evangelhos canónicos.

Desfaziam-se em lágrimas os fregueses da aldeia, quando o pároco falava da doença de Lázaro que todos confundiam com o leproso homónimo, da parábola do Rico e Lázaro. Era como se lhes tivesse morrido um irmão ou o pai, tal a comoção, sempre prontos a desfazerem-se em pranto com as dores passadas dos diletos do seu Deus.

O padre Jerónimo explorava bem a amizade de Maria e Marta, irmãs de Lázaro, com o Mestre, sobretudo de Maria, que ungiu os pés do Senhor com perfume e lhos enxugou com os seus cabelos, sem malícia nem assepsia.

Jesus tinha já vasta experiência de milagres, apesar do ceticismo de outros judeus que tinham dos galileus os preconceitos que os americanos têm dos polacos e os portugueses dos alentejanos, mas a ressurreição, sendo prodígio insólito, valia mais pelo respeito que infundia nos outros judeus, para que cressem nele, do que pelo milagre em si, truque que resultara na ressurreição do filho da viúva de Naim e na da filha de Jairo. Com um milagre daqueles, muitos judeus, creram em Jesus o que levou a que «Naquele momento houve alegria nos céus em função dos pecadores arrependidos (Lc 15:10) num golpe de publicidade para consumo judaico.

E assim Jesus tentava convencer os outros judeus da missão que sonhava, uma tentativa frustrada, pois foram os romanos a crerem nele e a perseguirem-lhe os conterrâneos por não acreditarem que santos da terra fizessem milagres, como soe ainda hoje acontecer.

Estamo-nos a desviar da homilia que o padre Jerónimo, com paramentos arredondados sobre o abdómen, imaculados na brancura, sem as nódoas da batina, destinava a manter a fé, a clientela e a côngrua.  

O padre lera no Evangelho de João, que as irmãs avisaram a Jesus que Lázaro estava doente e precisando de ajuda, mas, quando recebeu a notícia, ainda demorou dois dias no lugar onde estava. Só depois disse: «Vamos outra vez para a Judeia», apesar de os discípulos o tentarem dissuadir de regressar a Betânia, lugar onde já o tinham tentado apedrejar, naquela região pelam-se por lapidações, mas era aí que Lázaro jazia.

Com a demora, Lázaro estava há quatro dias sepultado quando chegaram e Jesus disse: «Lázaro morreu; e Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer. Mas vamos ter com ele.» Tomé, chamado Gémeo, disse aos outros: «Vamos nós também, para morrermos com Ele», referindo-se a Jesus e não a Lázaro.

Maria, para evitar sorrisos ambíguos ou por razões que os evangelistas omitiram, ficou em casa e foi Marta que disse a Jesus que se ele estivesse ali não teria morrido o irmão, mas Jesus insiste que seu irmão irá retornar e afirma: «Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo o que vive e crê em mim, nunca jamais morrerá; crês isto»? (João 11:25-26).

Marta, aturdida pela dor e pela fé, disse logo: «Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo». A seguir correu para casa a chamar Maria e disse-lhe em voz baixa – percebe-se –, «está cá o Mestre e chama por ti». Maria – diz João –, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele, Jesus, que ainda não tinha entrado na aldeia e ficou no lugar onde Marta fora ao seu encontro. E disse ainda que os judeus que estavam com Maria, em casa, para lhe darem os pêsames, ao verem-na levantar-se e sair à pressa, seguiram-na, julgando que se dirigia ao túmulo para aí chorar. Quando Maria encontrou Jesus, mal o viu, caiu-lhe aos pés e disse-lhe: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido». Ao vê-la chorar, e aos judeus que a acompanhavam, o choro e o riso são contagiosos, Jesus suspirou profundamente e comoveu-se. Depois, perguntou: «Onde o pusestes»? Responderam-lhe: «Senhor, vem e verás». Jesus fazia milagres mas não adivinhava o lugar da sepultura.

Então Jesus começou a chorar e os judeus diziam: «Vede como era seu amigo»! Mas alguns deles murmuravam: «Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse»? Já então havia quem preferisse a conservação da saúde ao milagre da cura.

O padre Jerónimo sabia de cor o que vou escrever. Jesus, suspirando, foi até ao túmulo, uma gruta fechada com uma pedra, e disse: «Tirai a pedra». Marta, a irmã do defunto, disse-lhe, «Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia» e Jesus replicou-lhe: «Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus»? Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos ao céu, disse: «Pai, dou-te graças por me teres atendido. Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me enviaste». Sem publicidade não há milagres, Deus ou religião.

Depois de ter criado desassossego nos presentes, bradou com voz forte, que os mortos ouvem mal: «Lázaro, vem cá para fora»! e aquele que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Jesus disse-lhes: «Desligai-o e deixai-o andar». E ele andou, para que o milagre fosse obrado.

Os evangelistas não explicam como um  morto sai, donde quer que seja, de mãos e pés atados mas isso são dúvidas de incréu, cogitações ateístas que conduzem às profundezas dos Infernos, abençoados os que creem sem ver.

O padre Jerónimo soia comover as lajes da igreja, isto é força de expressão do cronista, e posto os paroquianos a chorar baba e ranho com tão belo milagre, tamanho prodígio e tão convincente prova da bondade e presença divinas. Mas o padre Jerónimo soube que são insondáveis os desígnios do seu Deus. Acordou afónico nesse domingo, quiçá por ter sido fria a noite ou a afilhada, bela morena de 22 primaveras, ter esquecido a botija ou ainda, a fazer fé em boatos, por se ter destapado demasiado durante a noite.

Impossibilitado de fazer a homilia, de acrescentar à parenética mais uma peça pia, quis que o sacristão contasse a situação e dissesse ele as palavras sem as quais a missa perde sentido. Quis o devoto escusar-se, por não ter experiência, por vergonha, com medo de se enganar e, a cada desculpa, o padre, num sussurro mal humorado perguntava-lhe se não sabia de cor o sermão, que sim; se não confiava que, estando ele, padre, ao lado, lhe balbuciaria as palavras certas, à menor hesitação, que sim; se queria obedecer-lhe, que sim, sim; e lá convenceu o Serafim, mais habituado a estender a bandeja ao óbolo dos crentes do que a falar da virtude e dos milagres de Deus.

Dadas as explicações aos paroquianos, tartamudeando, com o padre Jerónimo a acenar, com um sorriso magoado, o Serafim, sacristão por propensão e pelas gorjetas, limpou a garganta e começou a substituir o pregador. Até nos ademanes se estreou bem, abrindo os braços num gesto largo, quais asas que o conduzissem ao céu, e começou: «Queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, naquele tempo estava Jesus em Jerusalém, a uma légua de Betânia onde Maria e Marta faziam luto, de quatro dias de defunção de Lázaro, e esperavam a chegada de Jesus, amigo da família.

Aí o padre franziu o sobrolho, porque o sermão se afastava do seu ou porque Jerusalém não fosse a cidade onde o Mestre se encontrava, mas a distância coincidia. Sussurrou-lhe algumas palavras e o sacristão continuou.

É inútil repetir a homilia que em todas as paróquias era recitada com ligeiras diferenças da encenação que os padres faziam no seminário. Os leitores recordarão a substância do milagre, já referido, e cabe ao cronista dar apenas testemunho da parte final do sermão que coube ao sacristão, por ser inédito.

Sacristão – Estavam as irmãs de Lázaro chorosas quando chegou o Mestre e lhe pediram para o fazer regressar à vida. Jesus disse para o levarem junto da sepultura e elas assim fizeram. O Mestre chegou e gritou: «Lázaro, anda cá para fora e anda. E ele andeu».

Padre – (voz quase inaudível) …andou, estúpido.

Sacristão – …andou estúpido algum tempo e, depois, curou-se.

Carlos Esperança – 27-11-2014


quinta-feira, Novembro 27, 2014

O deputado Miguel Macedo em seu labirinto

O ex-ministro Miguel Macedo, que tão depressa ocupou o lugar de deputado a que tinha direito, em temos penais só responderá perante a Justiça, e se for solicitado, mas deve ao país uma explicação, politicamente mais pertinente, depois de ter resistido ao escândalo dos serviços secretos em 2012.

A coincidência das relações pessoais e nomeações, onde o azar lhe bateu à porta, podem deixar suspeitas no cidadão comum, que deve interrogar-se sobre a ocorrência do atraso na nomeação de um alto funcionário para a China onde deveria fiscalizar a atribuição de vistos dourados, e a que o próprio Governo teria pedido urgência.

Acresce que o encontro, não desmentido, do ex-ministro com Zhu Xiaodong, o cidadão chinês ora detido sem admissão de caução, alegadamente realizado em Espanha, fora do alcance da vigilância da PJ, e não no seu gabinete, agrava as suspeitas.

Tratando-se de um ministério tão sensível e envolvendo os serviços secretos, que podem ter interferido e prejudicado uma investigação tão sensível, é necessário averiguar como conheceu o ministro o dito cidadão, a quem terá oferecido bilhetes para um espetáculo desportivo, o motivo que o levou ao encontro, quem mais assistiu e com quem viajou.

O perigo de haver pessoas, grupos ou redes criminosas com acesso às informações mais sensíveis do Estado e de poderem condicionar nomeações, decisões ou interferências no combate à corrupção, minam a confiança nos órgãos de soberania e o respeito de outros países nos serviços secretos portugueses.

Independentemente do processo judicial, há explicações que os portugueses esperam do ora deputado Miguel Macedo cuja imunidade parlamentar não pode servir de refúgio às explicações que tranquilizem os portugueses e credibilizem os serviços secretos.

A atuação do SIS e do seu diretor, o juiz Horácio Pinto, que acompanhou pessoalmente o «varrimento eletrónico» feito no gabinete de António Figueiredo, presidente do IRN, a seu pedido e agora em prisão preventiva confirmada, tem de ser apurada e esclarecida com todo o rigor. A presença de tão alto funcionário no acompanhamento dos técnicos, fora das horas de expediente, é um ato de tal dedicação ao serviço público que, dados os efeitos explosivos, não pode deixar de ser averiguado.

Um juiz e um deputado levantam dificuldades acrescidas à investigação, mas é de crer que nem o STJ nem a AR lhes fechem a saída do labirinto em que estão enredados e de cuja suspeição necessitam de ser libertados.

Os órgãos de informação, sobretudo o Expresso e a Visão, lançaram o desassossego nos portugueses.

Alguém fazia vista grossa aos vistos dourados enquanto outros não os perdiam de vista e criavam empresas à medida.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, Novembro 26, 2014

CRIME DE CORRUPÇÃO - ESTRANHAS DISPARIDADES

Como todos sabem, para haver corruptos tem de haver corruptores, e vice-versa; e tão criminosos são uns como outros.

Ora, no caso dos submarinos comprados por Paulo Portas aos alemães, foram condenadas na Alemanha duas pessoas por terem corrompido políticos portugueses; mas em Portugal não há ninguém sequer indiciado por ter sido corrompido...

Já no caso de Sócrates passa-se exatamente o contrário: o M.P. e o Super-Juiz Carlos Alexandre afirmam que ele foi corrompido, mas não dizem por quem, como, quando e porquê!

 Quer dizer: no 1º caso há corruptores e não há corruptos; no 2º há corrupto e não há corruptores !!!

Estranhas situações, estranhas disparidades...

Turquia: Erdogan defende desigualde entre homens e mulheres

O que esperavam?

Declarações polémicas do presidente turco sobre a condição da mulher na Turquia choca as feministas. Em Istambul, num Fórum sobre a justiça e as mulheres, Recep Tayp Erdogan afirmou, sem rodeios, que "as mulheres não poderiam ser naturalmente iguais aos homens" e acusa as feministas de se oporem à maternidade. " A nossa religião estabeleceu um lugar para as mulheres na sociedade: a maternidade. Algumas pessoas podem compreendê-lo, outras não".


terça-feira, Novembro 25, 2014

No aniversário do nascimento de Eça de Queirós



Nascimento: 25 de novembro de 1845

Epílogo (provisório) sobre o preso n.º 44

A convicção na força dos indícios contra Sócrates não pode deixar de fortalecer-se com as medidas de coação tomadas. Espero que os juízes que o julgarem não partilhem esta convicção, mas não podem deixar de existir factos, aparentemente, gravíssimos.

Desejar que alguém, seja quem for, fique impune, não é defender o Estado de direito, é aprofundar o pântano em que mergulhámos, ainda que o entusiasmo na sua perseguição possa ser seletivo, segundo estados de alma ou tendências políticas a que os magistrados também não são alheios.

A euforia que os chacais sentiram não é culpa da Justiça, é o ódio acumulado por gente da direita que não esconde a euforia de verem preso um que não é dos seus e querem a condenação, não por motivos delituosos, mas por razões políticas. São os mesmos que subscrevem abaixo-assinados para impedirem a visão política dos adversários, os que querem ignorar as estrelas brilhantes do firmamento da direita a contas com a Justiça.

Quem combate a liberdade de expressão não é digno de gozar a liberdade que o Estado de direito permite, tal como quem reclama a absolvição dos amigos e a condenação dos adversários. A política discute-se no campo das ideias e as suspeitas esclarecem-se nos tribunais. O combate contra a corrupção é uma tarefa coletiva que deve mobilizar todos os cidadãos, não contra quem aplica a justiça, sem deixar de fazer o seu escrutínio, mas contra quem não é aplicada.

Há, de facto, uma razão de perplexidade neste processo, fruto de coincidências suspeitas e de ser considerado mais perigosa à investigação a prisão domiciliária de um ex-PM do que a de um banqueiro em cuja casa nasceu a primeira candidatura do atual PR.

É pena que nunca venhamos a saber como foram compradas e vendidas ações da SLN, qual a forma de pagamento, e quem aconselhou o lucrativo negócio, mas isso não isenta ilícitos alheios nem serve de desculpa para inquirições a quem não goza de imunidade.

Esperando que a Justiça se faça, e até à data, salvo as perplexidades que o tempo talvez esclareça, está a ser feita, confiamos que os numerosos crimes que destruíram a imagem e o futuro dos portugueses não fiquem impunes. Sem vingança nem parcialidade.

Declaração

Ninguém pode inferir, do que tenho escrito, que duvido da razoabilidade das medidas de coação impostas pelo juiz Carlos Alexandre; que me surpreenda com um dia extra para fixação das referidas medidas; que tenha estranhado a coincidência com o Congresso do PS; que esperasse que o anúncio das medidas, a cada 30 minutos, para a próxima meia hora, demorasse mais de três; e, muito menos, que o meritíssimo juiz devesse esclarecer à noite as razões que foram amplamente divulgadas pelos matutinos. Seria supérfluo. Quanto à aplicação da mais gravosa de todas as medidas possíveis, é a convicção de um homem de fé, em relação a Sócrates.


«É da boca das crianças que se ouvem as verdades»

Ficaram-me da infância a memória e a vacina de um raro ápice em que me distingui na vida, as aulas de catequese, quando duas piedosas analfabetas me ensinaram orações e atormentaram com o Inferno, as previsões da Irmã Lúcia e, entre elas, o fim do mundo. Foi aí que consegui ser o melhor, talvez porque a fome não me distraísse e os sapatos, ao contrário dos outros garotos, me resguardassem do gelo que percorria os caminhos da aldeia que conduziam da igreja ao lar.

É desse tempo que a frase, tão falsa, como as previsões da Lúcia, regressou à memória, ao ouvir uma, verdadeira, de improvável indivíduo, Pedro Passos Coelho, «Nem todos os políticos são iguais», com a mesma grandeza ética do discurso de vitória com que Cavaco celebrou a sua reeleição para este calamitoso mandato.

Pareceu-me ouvir o riso da hiena, no ar grave a quem o mimetismo do cargo deu ares de governante e a necessidade de sobrevivência criou uma legião de panegiristas.

A direita, mesmo esta direita que se deixou apanhar com Passos Coelho na liderança e Cavaco Silva em Belém, não é a direita civilizada que Freitas do Amaral, Sá Carneiro, Sousa Franco e Adelino Amaro da Costa protagonizaram. É a direita que não lê, não pensa e não sente, com os mediadores químicos espoliados das sinapses dos neurónios e espalhados entre os cartazes e os muros onde fez a aprendizagem política.

Esta direita não é apenas incompetente, vive do escândalo, da intriga e da mentira, numa euforia de quem pensa que o País está melhor, os portugueses é que estão pior. Esta é a herdeira de 88 anos de governos seus, agora sem PIDE, com intervalos que no conjunto não representam mais do que um ano de aflições e 15 anos de esquerda pálida.

Os políticos não são todos iguais, é verdade. A ética, a aptidão e a nobreza de carácter foram exoneradas do serviço público por quem conquistou o poder sem saber usá-lo. Passos Coelho é uma ilustração dessa plêiade de formadores de técnicos de aeródromos e heliportos que voou alto com as asas do crocodilo, que voa baixinho, e sob, ou sobre, as asas do PR.


segunda-feira, Novembro 24, 2014

Carlos Alexandre e a Justiça



Quem sou eu, que não conheço o processo nem tenho formação jurídica, para julgar quem julga, para avaliar se as medidas de coação são violentas, brandas, adequadas, exóticas, necessárias ou gratuitas?

O circo mediático e a violação permanente do segredo de justiça que o alimentou foram duplamente lesivos para o criminoso – sim, criminoso e particularmente perigoso –, que as medidas não deixam espaço para a presunção ou a mais leve dúvida sobre o carácter do arguido. Lesam-no na antecipada condenação no pelourinho da opinião pública, de que não há recurso, e no enfraquecimento da defesa a que terá direito, apesar da vontade de muitos para que fosse sumária a justiça e capital a pena.

Lá fora as folhas mortas deste outono cobrem o chão. Exibem o amarelo da velhice do que é caduco, estão sujas da lama que as salpicou, enquanto as árvores donde caíram, despidas, desafiam o tempo que aí vem para rejuvenescerem na próxima primavera.

Na região da minha infância, os lobos juntam-se em alcateias para abater ovelhas.

Ainda há milagres como naquele tempo...


A ciência, os milagres e a santidade



Pensava eu, em meu pensamento, que os milagres cientificamente comprovados no laboratório do Vaticano, no mínimo de dois, eram as provas académicas de acesso à santidade que, comparadas com o mundo profano, equivaleria o primeiro milagre ao mestrado e o segundo ao doutoramento.

Pensava ainda, em meu pensamento, que a canonização, sem numerus clausus, atribuiria um alvará para novos milagres, sendo os dois primeiros as provas de exame no apertado filtro da canonização que, com o defunto ausente, fariam da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos, a Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, com a dignidade de Prefeitura.

Compreende-se que os santos precisem de provas para poderem continuar no ramo dos milagres, sendo os primeiros obrados à experiência e os seguintes já com provimento definitivo. Isso justifica as alegadas exigências postas na comprovação científica dos prodígios pela Congregação oficial para não se repetir a exclusão do Livro dos Santos, como sucedeu a S. Guinefort que, apesar de mártir, foi exonerado quando se descobriu tratar-se de um cão e o templo, em sua honra, foi mandado arrasar pelo Papa de turno.

Um santo, depois do alvará de canonização, tem direito a biografia no Livro dos Santos, acompanhada da oração dedicada ao mesmo, de uma imagem clássica e do patronato e dia consagrado dento do culto católico. Não admira, pois, a exigência de três médicos que confirmem os milagres e a dificuldade acrescida dos defuntos em obrarem milagres de jeito, depois da evolução farmacológica e dos avanços médicos.

Exceto na oncologia, os milagres andam agora pelas varizes, furúnculos, queimaduras, moléstias da pele e, às vezes, pela fisiatria. Acontecem sempre na área da medicina e nunca na economia, física ou matemática, isto é, a santidade está confinada a medicinas alternativas.

Mas o que surpreende é a inércia dos santos reconhecidos e o frenesim dos candidatos. Lembro-me que Nuno Álvares Pereira, depois da brilhante cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus, queimado com salpicos de óleo fervente de fritar peixe, e logo canonizado, nunca mais curou um simples furúnculo, hemorroides ou uma fratura do colo do fémur, o mesmo acontecendo com os milhares de canonizados dos três últimos pontificados.

A canonização, se a política da santidade se mantiver, deixa de ser o diploma para obrar milagres é passa a mero pergaminho com a jubilação assinada e com lacre do Vaticano.

domingo, Novembro 23, 2014

Bloco de Esquerda

O Bloco de Esquerda, pela lufada de ar fresco que tem sido na política portuguesa, pelo seu passado de luta e pela tentativa de federar várias sensibilidades de esquerda merecia que a prisão de Sócrates não lhe tivesse retirado protagonismo que um congresso proporciona.

Valeu-lhe um irritante empate, em três votações sucessivas, para ter um pouco do protagonismo televisivo que merecia.


O fascismo islâmico e a demência da fé

Deixaram de ser notícia a violência e os crimes da fé. As pessoas abrandam a vigilância e fecham-se às más notícias. Esquecem a infâmia e dormem tranquilas com o tribalismo e a demência.

Ontem, as milícias Al-Shabaad executaram 28 passageiros, 19 homens e 9 mulheres, no Quénia, em ação de vingança por uma operação policial contra mesquitas de Mombaça.

No início da semana as forças de segurança encerraram quatro mesquitas, acusadas de ligações aos radicais islâmicos da Somália, função que as mesquitas assumem cada vez mais, entre as orações e a pregação, contra os infiéis. Os terroristas de Deus escolheram, entre as dezenas de passageiros, os que não eram da sua fé e, à falta de judeus, mataram 28 cristãos, poupando apenas os muçulmanos.

Diariamente somos confrontados com cristãos dizimados por muçulmanos numa orgia de terror para que não há perdão. A inversa também tem acontecido. As crenças não me merecem respeito, mas os crentes, sejam de que religião forem, não merecem apenas respeito, exigem-me a solidariedade que deve envolver todos os homens e mulheres, por mais envenenados que as crenças os mantenham.

Se não levarmos o laicismo aos manicómios da fé arriscamo-nos a que a fé das maiorias, ou das minorias fanatizadas, nos seja imposta.

Se as mesquitas se tornam locais de treino terrorista e de instigação à violência, deixam de ser templos e passam a ser quartéis de um exército que urge combater. Em nome da paz urge fechar os antros da violência, em defesa da liberdade combatem-se os apelos à verdade única e em nome da civilização, devemos erradicar os campos de treino da barbárie, sejam mesquitas, igrejas, sinagogas, templos de qualquer fé ou de nenhuma.

As guerras religiosas precisam, tal como as guerras convencionais, que lhes destruam os campos de treino e os instrutores. Estou farto de saber assassinados os que acreditam na fé que lhes ensinaram.

E não gosto.

sábado, Novembro 22, 2014

A Justiça e o caso Sócrates

Dou por mim a pensar no circo mediático que, de forma obsessiva, tem lugar na praça pública e fico a desejar, para bem do que resta das instituições e da sua degradação, que se provem as acusações que, na sequência de um crime de grosseira violação do segredo de justiça, são do conhecimento público.

Não tenho qualquer estado de alma e, à partida, penso que nenhum procurador ou juiz seria capaz de deter um ex-primeiro-ministro sem indícios tão sólidos que pudessem arruinar a respeito devido aos Tribunais. A satisfação de ódios de estimação não entram na equação.

Não esqueço o alvoroço provocado com o ex-deputado Paulo Pedroso que deixou que o prendessem, renunciando e exigindo o levantamento da imunidade parlamentar, para depois não ser sequer acusado, no caso Casa Pia. Foi linchado em público, com câmaras de televisão que tinham «acidentalmente» acompanhado o juiz que o foi prender.

Apesar da coincidência infeliz de se estar na véspera do congresso do PS e de a TV se encontrar no aeroporto, à hora da chegada do cidadão que chefiou dois Governos, e não ocupa agora qualquer cargo político, só a violação do segredo de justiça merece reparo.

Abstraindo do drama pessoal de Sócrates, desejo que os motivos que conduziram ao seu linchamento público sejam cabalmente provados.

Os Tribunais são o único órgão da soberania em que ainda devemos acreditar. Não é um cidadão que está em causa, é a Justiça que fica sob escrutínio. Se vier a falhar, resta-nos pensar que temos a maioria, o Governo e o PR que merecemos.


Urge esclarecer: factos, acasos, coincidências …


Tudo parecia correr bem, embora o processo pecasse pela sua morosidade, para a nova liderança de António Costa.
Porém, recentemente, dois factos políticos mostram que a caminhada até S. Bento não vai ser um ‘passeio’, antes pelo contrário, poderá revelar-se um terreno armadilhado.

Primeiro, a paternidade da proposta de reposição dos subsídios vitalícios. Terá partido do PSD ao mais alto nível (Passos Coelho) link mas não consegue dissipar algumas dúvidas acerca do conhecimento e da aceitação de Anónio Costa link, pese embora o seu formal desmentido em declarações à TSF link
Para além do escândalo que essa proposta aprovada na Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças constitui, sendo uma monumentalidade de insensibilidade política a atingir as raias do insultuoso, a hipótese da prévia existência de um acordo entre os líderes, lança luzes sobre política de alianças futuras cuidadosamente ocultada e, revela uma outra face da moeda, isto é, o pior do chamado ‘centrão’ (político e dos interesses).
 
Segundo, a detenção de José Sócrates por alegada fraude fiscal link, no dia em que se processam as eleições directas para Secretário-Geral do PS não deixa, dentro do actual contexto interno do PS, de levantar interrogações sobre o seu ‘timing’ (político, partidário, policial, etc.) e recolocar na berlinda promiscuas e corruptas relações entre a política e os negócios (neste caso o Grupo Lena) link.
Todavia, tratando-se de (mais) um processo já entrou em segredo de justiça, todas as revelações são ilegais e as especulações inoportunas, prematuras e despropositadas. Veremos quem as fará.

A menos de 1 ano das eleições legislativas quando, finalmente, os dois adversários estão a colocar-se no terreno, tudo indica que o processo eleitoral não vai ser tão limpído e transparente como seria desejável e que o período pré-eleitoral, que já está a decorrer, revela-se muito ardiloso.

Poderá ser obra do acaso (como costuma dizer-se) mas estes dois casos, não favorecendo o esclarecimento dos portugueses sobre comportamentos políticos, financeiros, sociais e pessoais, acentuam as já profundas fracturas entre os cidadãos e os partidos, encerram inexplicáveis coincidências que têm de ser urgentemente esclarecidas, sob pena de viciarem as eleições que, como a maioria dos portugueses sentem, tardam.

A Europa, a política e a geoestratégia

Quando o Pacto de Varsóvia se desmembrou, a NATO, organização que não demonizo, apesar de ter acolhido a ditadura portuguesa, não devia ter insistido na criação de bases destinadas a cercar, humilhar e provocar a Federação Russa.

A Europa, que viveu sob o guarda-chuva da Nato, sem necessidade de esbanjar os seus recursos em armamento, tinha então o dever de se opor a essa política e de se tornar um parceiro privilegiado da Ásia, através da Rússia, de que é o prolongamento ocidental.

Quando o islamismo entrou em convulsões demenciais na Federação Russa, esta devia ter merecido a solidariedade europeia e não o silencioso regozijo euroamericano. Agora, criados anticorpos graças à Ucrânia, ajudámos a aliança militar sino-russa. Os EUA, que da Europa só conhecem o Reino Unido, negoceiam diretamente em Pequim com os dois gigantes, enquanto a Europa se reduz à jangada ligada à Rússia pela conduta do gás.

Os responsáveis por esta cegueira são verdadeiros antieuropeístas. O pragmatismo deu lugar ao confronto e a subserviência aos EUA empenhou o futuro europeu, enquanto o federalismo que podia fazer da Europa um parceiro credível foi substituído pelo agitado alfobre de nacionalismos que a pulverizam e transformam na manta de retalhos onde as armas voltarão a redesenhar fronteiras ao serviço da fé, de pretensas etnias e velhos ódios.

Tolstoi e Dostoievski uniram-nos, os EUA e os dirigentes da U. E. separaram-nos.

sexta-feira, Novembro 21, 2014

O Governo, ‘Remax’, emprego e demagogia …


Ontem, numa audição parlamentar sobre o caso dos ‘vistos dourados’, onde o vice-primeiro-ministro assumiu publicamente a sua paternidade, quando interpelado por uma deputada da oposição (BE) sobre quantos postos de trabalho teria criado o referido programa, respondeu com uma intolerável chicana política:
Quem é que cria mais postos de trabalho? A Remax ou o Bloco de Esquerda?link.
Mais uma vez estamos na presença de justificações espúrias e de orientações políticas assentes nos ditames dos mercados e em convicções ideológicas. Neste caso o ‘mercado imobiliário’.

Quando se é cidadão (e não só portador do estatuto de residente privilegiado) num País que regista elevado número de devoluções de habitações próprias (para residir no dia a dia e não 7 dias por ano como se estipula nos ‘vistos gold’), verificamos que só no ano de 2012 – em que o impacto das medidas de austeridade, de empobrecimento, de desvalorização salarial e de crescimento descontrolado de desempregados atingiu um dos seus ‘picos’ sob a batuta deste Governo - esse número atinge 5.470 habitações link e tornam a chicana de Paulo Portas absolutamente insuportável.
Na verdade, passando ao lado das inúmeras iniquidades dos chamados ‘vistos gold’ (abundantemente denunciadas por toda a Oposição) e que, efectivamente, proporcionaram os casos em inquérito resultantes da “operação Labirinto” (donde poderão surgir novidades), o vice-primeiro ministro deveria ter-se interrogado:
- Quem destrói (ou destruíu) mais postos de trabalho? O Governo ou o Bloco de Esquerda?.
 
E, finalmente, deixar a 'Remax' fora da questão (não lhe proporcionar publicidade gratuita), já que Paulo Portas foi chamado ao Parlamento para tratar de coisas públicas.
 
Enquanto o 'chico-espertismo' de fachada cosmopolita, assente em rábulas, permanecer no poder não recuperaremos a dignidade da política. E sem esta não existe nada de dourado que valha a pena. É a politica do biscate e do pechisbeque….

PR – O local certo para depois da presidência

Defendo a dignidade do cargo de PR, que não se compadece com o miserabilismo a que muitos gostam de reduzir os cidadãos democraticamente eleitos para o mais alto cargo do Estado. Não me afligem as mordomias concedidas após o exercício das funções.

Em relação a Cavaco Silva, o pior PR da democracia, não posso negar o que exijo para os outros. A experiência de um PR pode sempre ser valiosa ao País e, como no caso de Jorge Sampaio, à Humanidade.

Há quem, por inveja ou rancor, gostasse de ver o atual PR, que eu gostaria de que nunca o tivesse sido, a instalar o seu gabinete de ex-PR na marquise da Travessa do Possolo ou no jardim da casa da Coelha. Não está em causa o cidadão mas o cargo que ocupou e a dignidade que confere o sufrágio universal ao detentor do órgão uninominal.

Cavaco Silva já escolheu onde quer trabalhar a partir de 2016, não é tarde para começar, e as obras, orçadas em 475 mil euros, não são exorbitantes para a remodelação da parte do Convento de Alcântara que lhe está reservada.

Surpreende a escolha da cor para a remodelação do Convento, cor-de-rosa, o que criará a ilusão de continuar PR, à semelhança de Salazar, no Hospital da Cruz Vermelha, onde reunia ex-ministros na fantasia de que persistia em funções. Poderá ser tentado a reunir o Conselho de Estado que, quando o normal funcionamento das instituições está ferido, se esquece de convocar, para dissolver a AR e libertar o País do Governo agonizante.

A escolha do convento beneditino parece sensata, nem sempre se engana. O facto de ser um convento da mais antiga ordem de monges do Ocidente, monges negros, não exige o uso do hábito preto, túnica, cinto, escapulário, capuz e, para culto público, o capote e, muito menos, a quem foi PR, que se torne trapista e viva como anacoreta, até porque a sua condição lhe daria direito a ser o prior se a ordem estivesse ativa. Nem a prioresa o permitiria.

Ninguém o impedirá de aderir à vida beneditina e cumprir a Liturgia das Horas, rezada sete vezes ao dia, não devendo, todavia, acrescentar à intensa vida de piedade e oração o trabalho árduo de atividades manuais e agrícolas para o sustento e autoabastecimento da comunidade familiar que já deixa bem aconchegada.

O país anseia vê-lo no convento.