segunda-feira, Setembro 01, 2014

A petulante (e 'diabólica') reforma…

A 'reforma' do mapa judiciário ocupou durante o dia de hoje a comunicação social e mobilizou o poder político quer na sua defesa quer na contestação.
Independentemente do amadorismo que se evidencia neste primeiro dia onde os contentores e as resmas de processos apinhados são uma imagem de marca (no sentido negativo do termo) existe um problema de fundo que está, também, a ser maltratado. Trata-se da noção de proximidade. Nesta caso invoca-se que salvaguarda a proximidade porque se abriram tribunais especializados e pretende-se com este ‘malabarismo’ ofuscar o fecho de comarcas no interior (onde a proximidade é crucial).
 
Na verdade, esta reforma não foi ditada pela melhoria da administração da justiça de forma a beneficiar os cidadãos. É de pressupor que os cidadãos para o exercício dos seus direitos e para a verificação do cumprimento dos seus deveres que resultam da inserção da comunidade onde vivem tem no acesso à Justiça a viabilização prática e formal (de Direito) dessas faculdades e obrigações que são, em última análise, factores relevantes de coesão da sociedade. Na realidade, a sociedade enquanto todo tem de estar salvaguardada de forças externas que, por exemplo, cerceiam direitos aos mais débeis e conferem privilégios aos mais poderosos.
 
Os tribunais são os guardiões dos direitos civis daí derivados asseguram o exercício dos direitos políticos, sociais e culturais.
Faltam aqui os direitos económicos. Estes estariam, em princípio, conotados com modelos de participação harmoniosa (e justa) na distribuição da riqueza colectiva. E é aqui que a presente reforma se desmascara. Quando este Governo fecha Tribunais no Interior (na Província) para abrir secções especializadas nos grandes aglomerados urbanos,  está a  diminuir o peso da administração da Justiça no campo cívico para o transferir para as questões jurídicas que inquinam a actividade afecta ao Direito comercial (da concorrência) e empresarial. Esta inversão de valores é apresentada como uma modernidade que transfere os tribunais para outro campo, tornado-os uns meros ‘instrumentos de competitividade’, capazes de incentivar 'os investidores', em detrimento das funções cívicas.
 
A aleivosia é uma desmedida vaidade  quando se pretende comparar este ajuste do mapa judicial à reforma de Mouzinho da Silveira. Este político (nascido em Castelo de Vide onde por estes dias o primeiro ministro vai perorar) faz, no advento da Revolução Liberal, na área da Justiça, uma verdadeira reforma que tem um impacto político, social e económico, brutal. Trata-se da ruptura com o Antigo Regime: fim dos vínculos (morgadios); redução (ou extinção) das sisas; reforma da administração pública e extinção dos forais e expropriação dos bens da Coroa. Em questões de reformas orgânicas cria o Supremo Tribunal de Justiça e estrutura o Ministério Público. 

Qualquer comparação entre as alterações do mapa judiciário com uma reforma da justiça como a que foi feita no advento do liberalismo é pura petulância. Mais nada!

A II Guerra Mundial – 75 anos depois

Há 75 anos, no dia de hoje, Hitler invadiu a Polónia, apesar dos correligionários que aí tinha, e iniciou a II Guerra Mundial. O clima político e económico tinha semelhanças com o atual. As fronteiras e o «espaço vital», hoje trocados pelos mercados, foram os detonadores de uma catástrofe em que, pela segunda vez, a Alemanha ganhou todas as batalhas e voltou a perder a guerra. Não esqueçamos o que ficámos a dever aos EUA.

Três quartos de século depois, talvez na iminência de renovadas catástrofes, vêm-nos à memória os nomes sinistros: Hitler, Goebbels, Bormann, Himmler, Goering, Eichmann, Ribbentrop, Rosenberg ou Rudolf Hess.

Poupemos ao opróbrio os países que foram mais nazis do que a própria Alemanha e os que foram seus cúmplices entusiastas, bem como os crimes horrendos de seis anos.

Na Europa, só a Inglaterra resistiu sem tergiversações, indiferente às simpatias da coroa, na solitária e heroica defesa da democracia. Churchill deve ser recordado no dia de hoje.

Numa reflexão, urgente e ponderada, a Europa tem de convencer a Alemanha atual, um país democrático que fez uma enorme pedagogia antinazi e a mais veemente luta contra o antissemitismo, de que é com a alteração das regras da união monetária que os países do sul se podem salvar, e de que, sem eles, nem a Alemanha se salva.

A Europa depende da Alemanha, mas esta não sobrevive sem a Europa. É preciso uma Europa cada vez menos alemã e uma Alemanha cada vez mais europeia.

domingo, Agosto 31, 2014

O Estado Islâmico e o pavor

Quando os celerados cruzados invadiram o Iraque, para abater um ditador laico, nunca pensaram que a mentira, que lhes serviu de pretexto, traria consequências tão trágicas.

A inteligência de Bush, o maquiavelismo de Blair, a piedade de Aznar e o oportunismo de Barroso levaram a mais trágica sementeira do ódio ao mais fértil terreno da vingança, produzindo a crueldade e o pavor para cuja colheita se oferecem europeus e americanos, caucasianos e cristãos islamizados, numa alucinante sedução assassina.

Depois da destruição do país e da desarticulação das forças que o aglutinavam, persistir na ocupação era agravar o desastre e sair, era apressar a tragédia. Derrubaram a ditadura laica, apoiada por sunitas, que oprimia os xiitas, para criar um estado teocrático onde os xiitas não prescindiram de oprimir todos e, em particular, os sunitas, até que se criaram os sunitas de laboratório, apostados em criarem um sangrento califado.

A lei de Murphy cumpriu-se. Tudo o que podia correr mal, correu efetivamente mal e da pior maneira, sem solução à vista. O pavor, em doses obscenas, com metódica firmeza e insensibilidade de robots, tolhe as democracias e a neutraliza quem devia pará-los.


A complexa situação ucraniana ou um 'global' impasse…


"Mirotvorcheskiy" é uma palavra russa que significa literalmente ‘manutenção da Paz’. Uma palavra com uma conotação distante e diferente do conceito ocidental de ‘pacificação’ atitude que, por cá, está reservada a acções humanitárias e de verificação do cessar-fogo, habituais no final dos conflitos bélicos.
Será este conceito (‘mirotvorcheskiy’) que na frente diplomática está a ser invocado pela Russia para justificar a sua cada vez mais explícita intervenção militar na parte oriental (russófila) da Ucrânia, do mesmo modo que fez, em 2008, em relação à Geórgia.
É cada vez mais nítido que a Rússia após a anexação da Crimeia debaixo dos brandos protestos do Ocidente (UE, EUA, NATO, etc.) necessita (economicamente e militarmente) de ter um acesso directo (terrestre) entre a penisula já conquistada [Crimeia] e a ‘Mãe Russia’, através da bordadura territorial que limita a Norte o Mar de Azov. Esta solução, ou este ‘arranjo’, permitiria à Russia controlar todo o mar de Azov o que significa, em termos de riqueza, o acesso e a ‘propriedade’ de importantes reservas naturais (petróleo, gaz natural e minerais) link. A recente ocupação da pequena cidade de Novoazovs é a execução prática desta estratégia e indica que o destino é Mariupol (cidade mártir da II Guerra Mundial então denominada de Zhdanov) e importante porto no mar de Azov.
Por outro lado, em termos geoestratégicos e militares o mar de Azov funciona como retaguarda geográfica para o impressionante contingente de forças navais estacionadas no Mar Negro (Sebastopol).
A intervenção no sudoeste da Ucrânia é – para a Rússia – um acto complementar à questão [que considera ‘resolvida’] da Crimeia e tem por base ‘política’ o substratum étnico, cultural e linguístico comum entre a Rússia e esta região Leste/Sudeste da Ucrânia. (ver esboço de partilha na imagem).

Do outro lado, a UE limita-se a seguir uma política de envolvimento e associação aos Paises que integravam a ex-URSS, de que a Ucrânia é um exemplo, no que é acompanhada pelos EUA ainda em rescaldo da ‘guerra fria’. O ‘flirt’ entre Bruxelas e o ex-presidente ucraniano Yanukovich (aliado de Moscovo) acabou mal, como é do conhecimento público e determinou a suspensão de um acordo alternativo (de última hora) que foi ajustado entre Kiev e Moscovo.
Todavia, nada ficou resolvido politicamente na Ucrânia, após o derrube de Yanukovich e as acusações de que o poder tinha caído nas mãos de grupos da extrema-Direita, grandes activistas na ocupação da praça da Independência (protestos de Maidan), não se desvaneceram totalmente com a eleição do novo presidente Petro Poroshenko. Este, no mês seguinte à sua eleição (a 27 de Junho 2014), apressa-se a assinar o pacto Ucrania/UE link, concebido pelo Governo provisório saído da insurreição e que foi, pomposamente,  festejado em Bruxelas.

O que está efectivamente em causa é o conceito de ‘integridade territorial’ que a Rússia vem alterando (desde a Guerra Rússia-Geórgia), baseando-se no precedente do conflito do Kosovo.
A UE ‘encaixou’ o conflito na Geórgia porque fundamentalmente estava em causa o pipeline Nabbuco (Baku-Tbilisi-Ceyhan) que partindo de Baku (Arzebeijão) atravessa este País e a Turquia para abastacer os Países europeus (Europa Central).
O problema ucraniano não pode servir para esconder o descalabro da intervenção na Síria onde o armamento de opositores ao regime de Bashar Al-Assad conduziu a uma situação incontrolável, tal como a intervenção no Kosovo serviu de certo modo para distrair as atenções do ‘caso Monica Lewinski’  e onde a actuação da NATO pouco adiantou excepto um provavel aumento do número de vitimas.
De resto, quando em Março de 1999 a Rússia (acompnahada pela China e a India) invocou relativamente à situação no Kosovo o respeito pela integridade territorial e o fim do uso da força na ex-Jugoslávia através de uma proposta de resolução no Conselho de Segurança da ONU , os Países ocidentais (UE e EUA) rejeitaram-na em nome da protecção de grupos étnicos (albanese) link. Assim, politicamente, o desmembramento da ex-Jugoslávia foi o precedente aberto no pós guerra-fria e que destruiu o dogma da integridade territorial vindo da conferencia de Yalta (por ironia cidade da Crimeia).
Hoje, a Ucrânia é mais um dos problemas que o fim da ex-URSS ainda carrega e provoca réplicas à distancia. Na verdade, a Ucrânia – no presente e no passado - não é um Pais que prime por ter uma identidade populacional homogénea e coesa, antes pelo contrário, a imagem é a de um País dividido.  Terá sido historicamente assim e a ‘russificação’ foi uma prioridade do regime comunista no período estalinista.
Deste modo, grande parte do problema reside na ‘russofilia’ (económica, étnica e cultural) acantonada no território oriental deste País que não se revê no poder emanado de Kiev. Aqui, também em paralelismo com o que se verificou no conflito do Kosovo (em relação aos albaneses), estamos em presença de ‘interesses’ étnicos e de integração económica.
Mas existem duas grandes razões que parecem explicar as atitudes políticas e militares de Putin:
1.) Impedir a extensão da influência da NATO a Oriente (nomeadamente em relação às repúblicas da ex-URSS);
2.) O objectivo de afirmação da Rússia como uma potência económica e financeira global, com uma esfera de influencia dilatada e Ocidente e a Oriente adoptando uma priveligiada posição charneira.

Ora, a UE não tem condições económicas para torpedear as intenções de Putin (apesar dos embargos) e militarmente a ‘união’ não existe sendo, portanto, pouco credível para nós europeus (e também para os russos) que os EUA queiram envolver-se numa nova frente de batalha na parte oriental da Europa link . Assim, a Ucrânia fora das formais declarações de princípio [europeias e americanas] está literalmente entregue à sua sorte. E a recente afirmação de Putin “não se metam com a Rússia” link é um aviso para Bruxelas, principalmente para o actual e intempestivo Durão Barroso (que para algumas coisas é um paladino do pragmatismo) e uma carta de intenções para os novos responsáveis europeus: o polaco Donald Tush e a italiana Federica Mogherini.

Para a Ucrânia uma nova guerra só serve para fazer reavivar o espectro de mais um infernal ‘ciclo de fome’ como aquele que fustigou até à morte, na década de 30, milhares de ucranianos, um desastre humanitário que se avizinha e continua bem presente na memória nacionalista de um País caldeado por um povo inserido numa complexa miscelânea eslava.

A figura que acima ilustra o post é, no seu esquematismo, uma breve sintese do que poderá estar na calha. Ou, como na sequência da derrocada da ex-URSS se pretende induzir – um quarto de século depois - os reajustamentos 'globais' possíveis. E o grande 'reajustamento' é empurrar a Rússia para o Oriente, para a China, por cima do velho conceito que desejava uma Europa do Atlântico aos Urais...

Notas soltas: julho/2014

José Sócrates – O político foi julgado três vezes em eleições e castigado nas últimas. A perseguição sistemática e os ódios de estimação, com acusações perversas, alimentaram o mito e anteciparam a reabilitação do inimigo que queriam enterrar.

Banco de Portugal – A imagem do governador, retocada pelos ventríloquos do poder, depois de assegurar que a almofada financeira do BES era à prova do pior dos cenários, liquefez-se na incúria da atuação e na cratera esculpida em reiteradas fraudes.

BES – Quando da auditoria do BP às empresas do grupo, Carlos Costa devia ter varrido logo a administração, mas aguardou que fosse Ricardo Salgado a encomendar o funeral e, assim, em vez de marcar a cirurgia, que era urgente, assistiu à autópsia do cadáver.

Governo – À semelhança do BES, em que foi criado um Banco Mau e um Banco Bom, devia ter sido criado um Governo Mau, para absorver ministros tóxicos, e um Governo Bom, resultante de novas eleições, com todos os membros substituídos.

Conselho de Ministros – Com os ministros na praia, aprovou o decreto-lei destinado à «resolução» do caso BES. O PR promulgou o diploma, «visto e aprovado em Conselho de Ministros de 3 de agosto de 2014», no domingo onde os fatos de banho e os biquínis compareceram ao ato, por e-mail.

Faixa de Gaza – A pobreza e o desespero nutrem o ódio e a vingança. A raiva levou ao poder o grupo terrorista Hamas. Palestinos e israelitas não acharão a paz no terrorismo mútuo que praticam e na espiral de ódio recíproco que alimentam.

Guerra – As lutas tribais continuam com armas sofisticadas e a demência islâmica com a fé, cada vez mais anacrónica.  Iraque, Líbia e Síria são vítimas do drama pungente que os libertadores ali deixaram motivados pela ganância do petróleo.

GES – Depois do BPN, BPP e Banif, ainda faltava o maior empório português, o Grupo Espírito Santo, a que pertencia o BES, onde se criavam ministros, secretários de Estado, responsáveis pelas privatizações e até um PR, como metáfora cruel das elites nacionais.

Jihad – O recrutamento de uma jovem de 14 anos, por telemóvel, presa graças à rapidez com que a polícia de Ceuta a procurou, revela a vulnerabilidade da Europa à intoxicação que adicionou à das mesquitas e madraças a das novas tecnologias.

Ucrânia – A U E, sem política externa comum e coerente, reincidiu no erro da Geórgia.  Os pró-europeus derrubaram o Governo e assustaram zonas russas, deixando a V. Putin o enxovalho ou o autoritarismo, enquanto a Europa expia a imprudência.

Irão – O aliado improvável dos EUA mobilizou-se no combate ao Estado Islâmico (EI) na defesa das minorias religiosas iraquianas ameaçadas de extermínio, especialmente os yazidis, colocados na iminência de um genocídio incitado pelo sectarismo religioso.

PSD – Mais um caso de nepotismo praticado com monótona impunidade. Um filho de Durão Barroso foi nomeado para o Banco de Portugal, sem concurso e com ocultação do salário. Não se discute a competência para as altas funções, mas o método.

Emídio Rangel – Personalidade marcante, deve-se-lhe um inestimável contributo para a revolução do audiovisual. Fundador da TSF, SIC e SIC-N, o falecido jornalista inovou e tornou-se uma referência indelével na comunicação social do Portugal de Abril.

Pontal – A liturgia do PSD promove uma espécie de Festa do Avante dos pequeninos, de sinal contrário, sem o esplendor de outros tempos e sem um orador que entusiasme os devotos com o fulgor de outros líderes e os resultados de melhor governação.

Estado Islâmico – O fermento democrático, levado ao Iraque por execráveis cruzados, resultou numa manifestação de terrorismo gratuito, onde a demência da fé ultrapassou a dos invasores, ameaçando retalhar o país que resta, com o ódio a alastrar pela região.

PS – Na disputa interna, que devia caber apenas aos militantes, vieram à tona os piores defeitos, onde se nota a indignidade de alguns, a sede de poder de outros e a ausência de preparação cívica, política e ética de quem faz dos partidos locais mal frequentados.

Desemprego – Os portugueses sem trabalho e sem subsídio atingiram o número de 400 mil, vivendo, desesperados, um drama silencioso. A falta de solidariedade revela até que ponto pode chegar a insensibilidade social.

Donetsk – No dia das comemorações da Ucrânia, rebeldes pró-russos, que ocupavam a cidade, exibiram meia centena de soldados ucranianos com as mãos amarradas atrás das costas. A razão que lhes assistiria perderam-na na torpeza agreste para com os presos.

França – A  senhora Merkel, cada vez mais entusiasta da austeridade, acabou por levar a remodelação ao Governo de Hollande, o passo que levará os franceses a remodelarem definitivamente o seu atual presidente.

EUA – Quando a lei autoriza uma menina de 9 anos a usar uma arma de guerra que, por acaso, mata o instrutor, descobrimos uma nação poderosa onde coexistem a ciência e o tribalismo. Talvez isso explique os paradoxos de um país que mantém a pena de morte.

Brasil – A possível eleição presidencial de Marina Silva será um sismo no maior país da América do Sul, país de contrastes, onde a corrupção e as desigualdades são a lepra que o devora. Seria trágico se ao sonho de mudança sucedesse o pesadelo da desilusão.

sábado, Agosto 30, 2014

Bertolt Brecht, Mota Pinto e a Ópera dos Três Vinténs

Quando Paulo Mota Pinto, sem problemas éticos, suspendeu as funções de presidente do Conselho de Fiscalização do Sistema de Informações da República Portuguesa (CFSIRP) para aceitar a sinecura de chairman do BES, pareceu que não restava mais um módico de pudor, um resquício de amor-próprio, uma noção vaga de serviço público no país que lhe concedeu uma reforma obscena aos quarenta anos como ex-conselheiro do Tribunal Constitucional.

Nem o facto de ele ter votado o período de nojo obrigatório a quem exerce funções no SIRP, impedindo a entrada numa empresa privada com os segredos que detém, fez com que o chefe dos fiscais se sentisse vinculado ao que os fiscalizados estão sujeitos.

A decadência ética tem acompanhado a dívida pública e, se a segunda chegou ao ponto de impagável, a primeira atingiu o ponto de não retorno.

Brecht, na Ópera dos Três Vinténs, coloca-nos no Soho, bairro pouco recomendável de Londres, no século XIX, onde antecipa o Portugal venal, corrupto e marginal de hoje.

Mota Pinto não é Mac Navalha, mulherengo e bígamo, casado com Lucy, filha de Tiger Brown, chefe de polícia, que casa secretamente, num estábulo, com Polly, a filha do seu colega marginal, Peachum, "Rei dos Mendigos", mas, ao regressar às funções que devia ter honrado, sem as trocar por uma sinecura, que falhou, no grupo financeiro do maior e mais trágico escândalo português a nível global, dá de si, da política e do país a imagem que podia ter inspirado o grande dramaturgo, poeta e encenador alemão.

Retorna à presidência do CFSIRP num final feliz, a recordar a peça notável de Brecht, desta vez em deprimente comédia e sem necessidade de perdão real. Devia regressar ao som da música de Kurt Weil, para que, nesta medíocre ópera-bufa, pudéssemos recordar a Ópera dos Três Vinténs com o som do genial compositor.


O Islão misericordioso e o terrorista


Corre por aí que há um Islão benevolente e outro terrorista. O primeiro é o que se baba de gozo nas madraças e aparece compungido em público em cada ato de violência pia, a reiterar a benevolência do Corão, a execrar o terrorismo e a reclamar a paz. O outro é o que ulula, crocita e uiva na rua islâmica por cada infiel decapitado ou adúltera lapidada.

O Islão, o benevolente, oprime as mulheres, evita a modernidade e recusa a democracia. Ignora direitos humanos que o coíbam de cumprir a vontade de Alá e do Profeta, exulta com lapidações, folga com chibatadas e excita-se com decapitações. Não precisamos de olhar para o Islão terrorista, basta-nos o benévolo, aquele que há vários séculos impede, onde conquista o poder, que alguém despreze a religião ou tenha qualquer outra.

Os povos não são dementes, é o Islão que, à semelhança de outras religiões, contém em si o germe do crime. O terrorismo é a aplicação dos preceitos do livro sagrado contra os infiéis e a crueldade o método prescrito.

Seria trágico que se abrisse a caça ao muçulmano numa explosão de xenofobia baseada em sentimentos religiosos rivais, o desejo perverso do Islão que põe o terror ao serviço do proselitismo. O racismo é o sentimento piedoso do crente, a tolerância é a atitude de quem se libertou da religião. É por isso que o combate não deve ser dirigido aos crentes mas contra o proselitismo troglodita dos seus próceres e o carácter retrógrado do Corão.

As armas nas mãos dos homens são um perigo, nas de Deus uma catástrofe. O clero não deseja a felicidade humana, aspira apenas satisfazer a crueldade de Deus. Não podemos condescender com quem despreza os direitos humanos. Há um combate cultural a travar em defesa da liberdade que não pode deter-se nos véus, nas mesquitas e madraças.

O Corão não é apenas o baluarte inexpugnável dos preconceitos islâmicos, é a fonte que legitima toda a iniquidade. No mundo islâmico, os mullahs procuram ocupar os devotos, nos intervalos das cinco rezas diárias, com o sofrimento dos infiéis. É preciso travá-los.

sexta-feira, Agosto 29, 2014

A ‘golpada’ imoral…


A golpada do PSD-Madeira à volta de um regime excepcional, com piedosos laivos pretensamente 'autonómicos', para o ensino de educação moral e religiosa naquela Região, não passou no Tribunal Constitucional link.

De facto, as forças retrógradas não desarmam. Agora, o pretendido, no diploma emanado da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira (ALRAM), seria o enveredar pelo campo da omissão (permissão) esquecendo que a regra do Estado Português é outra, i. e., a laicidade como consequência da Liberdade. 
Esta tentativa de inversão da ordem de valores democráticos e republicanos concebendo como ‘natural’ a educação religiosa 'universalmente' (regionalmente!) aceite e a excepção (a ‘desobriga’) como um privilégio individual carente de requisição, teve uma resposta adequada do TC.

Num Estado democrático o que, de facto, poderia existir em substituição desta anacrónica disciplina seriam aulas de Educação Democrática. Espaço formativo onde se abordariam conceitos como: a consciência da liberdade, o respeito pelas diferenças, os 'sentimentos' cívicos (deveres, direitos, responsabilidade e confiança), a ciência como matriz do progresso e fundamento da cultura, o desenvolvimento do espírito crítico, a aprendizagem da tolerância, etc.

A ICAR, com o apoio de instituições públicas (como é o caso do Parlamento Regional) quer, à viva força, transformar a fé num assunto público. Todavia, num Estado democrático e laico, as crenças são questões do foro privado. 
Aos poderes públicos compete zelar para que os cidadãos – de qualquer idade, raça e religião - desfrutem de boas condições para o livre desenvolvimento da sua personalidade. Livre, sublinhe-se.

Por último, a questão do ensino de educação moral e religiosa na Madeira pode ter outros contornos ou viver de outras fantasias. Para quem deve parte substancial da sua ascensão política à diocese pode parecer normal que para além de sustentar com dinheiros públicos um jornal paroquial, criar um fantasioso quadro de excepção no terreno da laicidade, não deixa de ser um gesto de reconhecimento pessoal a uma velha dívida, feito à boleia de competências regionais (públicas).
Uma 'imoralidade'!

Espanha – movimento eclesiástico


Enquanto o arcebispo de Valência vai para Madrid, onde substituirá o cardeal franquista Rouco Varela, de 78 anos, Antonio Cañizares (na foto) regressa de Roma onde tem sido prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, desde 2008, para presidir à diocese de Valência.

quinta-feira, Agosto 28, 2014

Orçamento Rectificativo 2014: sol de pouca dura…



O Orçamento Rectificativo apresentado hoje pela ministra Maria Luís Albuquerque link, em nome do Governo, mais parece uma peça de teatro do absurdo.

Primeiro, criou-se a ideia, através de um habitual porta-voz das medidas em incubação link, de que estaria na calha mais um aumento de impostos, nomeadamente, sobre o consumo. Assim, alimentou-se, no inconsciente colectivo, a quase inevitabilidade de mais dificuldades para muitos portugueses.
Depois, segue-se uma vulgar acção de propaganda. Afinal, o País está bem e os cortes do Tribunal Constitucional ocorridos em Maio e os de Agosto não perturbam o défice nem a estabilidade política como anunciou um alto responsável da bancada parlamentar do PSD link.

O Governo diz porquê: pôs o País a crescer e diminuiu as prestações sociais porque baixou a taxa de desemprego. Na verdade, o crescimento não será assim tão notório e com o arrastar da crise muitos dos desempregados vão perdendo os subsídios que têm até aqui usufruído por esgotamento do tempo e deste modo ‘aliviando’ as prestações.

Mas verdadeiramente insólitos são os abundantes festejos à volta do ‘não aumento de impostos’ link acrescidos da não inclusão (no O. Rect.) de mais medidas de austeridade.
Bem, como nos arraiais populares a festa deverá durar 1 semana. Para a próxima semana já está agendada na AR a discussão de um diploma sobre cortes salariais na Função Pública link.

Todavia, convinha apresentar o orçamento rectificativo antes dos projectados cortes para não estragar a festa anunciada e desfrutar de  um tempo de propaganda, mesmo que efémero.
As medidas previstas para a próxima semana e que entrarão imediatamente em vigor não estão, de facto, nesta revisão orçamental. Como diria o primeiro-ministro na sua verborreia demo-liberal as medidas estão na fase discussão em sede parlamentar, com desfecho acordado (omite-se isso) mas para efeitos propagandísticos [ainda] não são para valer. Só que já foram anunciadas.

Portanto, o que aparentemente parece verdade hoje, conhecemos antecipadamente, deixará de o ser amanhã ou daqui a 1 semana.
É como diz o povo: sol de pouca dura!…

A luta interna no PS

Tenho procurado não me intrometer na legítima luta pela liderança do PS embora tenha a esse respeito ideias formadas sobre a capacidade de cada concorrente. Penso que é um assunto interno do partido, apesar da importância para o país.

Surpreende-me que, na urgência de substituírem o Governo e o PR, que qualquer crente pensa serem castigo divino, apelem a simpatizantes, alargando possibilidades de fraude, tradição do universo partidário, desde os financiamentos às chapeladas eleitorais internas.

O que me surpreende é a indigência mental dos que, em vez de atacarem o Governo que nos desgraça, se excitem nos ataques a quem julgam afastá-los da gamela ou da sinecura num ódio violento e numa irracionalidade primária.

Um partido com estes militantes cria aversão aos indiferentes e desconfiança de muitos simpatizantes. Imaginemos que os arruaceiros conquistam lugares de destaque e que o País terá de suportar tamanha incultura, ódio recalcado e boçalidade. Manda a prudência evitar o voto em tal gente. Seguro e Costa não merecem tais primatas.

Duvido de que sejam militantes do PS, devem ser indigentes agenciados por adversários para minarem o partido.

Penso que Passos Coelho e Cavaco também foram escolhidos por adversários do PSD, o primeiro por Relvas e o segundo por Ricardo Salgado.


Factos & documentos


FRANÇA: Emmanuel Macron mais um rosto da indisfarçável deriva...


 
Macron rumo a 'Bercy'

Se uma justificação fosse necessária para fundamentar a ‘deriva liberalizante’ do Governo de François Hollande, encabeçado pelo ‘socialista de Direita’ Manuel Valls, a substituição do anterior ministro da Economia [Arnaud Montebourg] por Emmanuel Macron é extremamente reveladora. 

Trata-se de estimular o tal ‘Pacto de Responsabilidade’ que ‘atribui’ 40 mil milhões de euros às empresas que, registe-se, foi entusiasticamente aplaudido pela confederação patronal Movimento das Empresas de França (MEDEF) link.
Valls prossegue este errático caminho ‘liberal’  na ‘militante’ esperança que essas poupanças, extorquidas aos contribuintes franceses e às prestações sociais, não vão parar directamente aos bolsos dos accionistas em dividendos e - pelo contrário - estimulem o crescimento, aumentem a competitividade e façam diminuir o desemprego galopante, o Presidente francês foi descobrir [no seu ‘inner circle’ do Palácio do Eliseu] um ex-banqueiro de investimentos (do Grupo Rothschild) link  e um recente convidado do Club Bilderberg (na reunião de Copenhaga em 29.05 a 01.06. 2014) link o 'homem' para executar as ‘suas’ [responsáveis ?] políticas económicas.

Não vale a pena elaborar grandes teorias sobre uma (neo)deriva liberal-socialista protagonizada por Hollande até porque esta é cada vez mais uma cópia requentada e deslocada da 'terceira via de Blair'  link.
Não faltarão aplausos a esta 'mudança' vindos da Srª. Merkel e do Sr. Schauble figuras que, de facto, ‘ensombram’ o governo Valls II.

Um exemplo hipotético – salvaguardadas as devidas distâncias e o percurso político - , aplicado aos nossos terrenos paroquiais, poderia servir para ilustrar [caricaturar] o que se está a passar em França.

Imaginem o que pensariam os socialistas portugueses se o seu líder propusesse para futuro ministro da Economia ou das Finanças o inefável profeta do ‘aguenta’, Sr. Fernando Ulrich…

A Sandoz e o negócio de diamantes em Coimbra (Crónica)

No ano de 1976 já se tinham desvanecido os ecos da mais idiota e injusta das greves que o pequeno educador da classe operária, Chaves Alves, tinha conseguido fomentar numa multinacional cuja autogestão exigia – segundo disse à imprensa –, ávida de agitação e a que não faltavam declarações de idiotas úteis e provocadores convictos.

Ajudou-o na tarefa o Cabral da Costa, que tinha maior amor à greve do que à gramática, que maltratava, e que deu origem à dupla Chabral da Costa. Para gerir, havia máquinas de escrever, pastilhas, supositórios e xaropes, vindos da Suíça, onde o operariado jamais se solidarizou com a vanguarda Chabral.

A euforia e o medo de passar por reacionário permitiram suportar a coação psicológica a que nem o António Gonçalves, respeitado pelo passado de resistente, durante a ditadura,  logrou pôr cobro. Até ao dia em que a fadiga e o impasse deixaram o líder sem tropas.

A Sandoz ocupava um lugar destacado na indústria farmacêutica e decidira manter dois grupos promocionais dos seus fármacos, Sandoz e Wander.

A hierarquia fora alterada revolucionariamente, situação que o Laboratório digeriu, o que permitiu ao Barroso chegar longe e fez o gerente regressar a Basileia.

Nesse verão de 1976 o Duarte Rodrigues era o chefe nacional da Wander e o Rebotim o da Região Centro. Em Coimbra estavam sediados dois delegados, o Silva Cunha e o cronista desta história. Uma manhã combinámos os quatro tomar café no Mandarim e dali fomos para o Hospital da Universidade de Coimbra (HUC), em trabalho.

O Duarte Rodrigues deixou o carro estacionado em frente ao Mandarim e eu deixara-o à entrada do Jardim da Sereia. Para o HUC fomos nos carros do Silva Cunha e do saudoso Rebotim, uma carrinha Peugeot 203, a diesel.

Antes disso, do carro do Duarte Rodrigues saiu uma embalagem de frascos de vitamina D3, que trouxera de Lisboa, e que fui meter na mala do meu Datsun 1200. No regresso houve entrega de amostras do Rebotim ao Silva Cunha, antes de entrarmos os quatro na carrinha e rumarmos à Mealhada, a almoçar leitão.

Foi longo e copioso o almoço. Na volta parámos na R. da Sofia a abraçar um colega e chegámos à Praça da República, com o dia cumprido, prontos a regressar a casa.

Quando o Rebotim parou junto ao meu carro, demos conta de um 1.º subchefe da PSP a meter a bala na câmara da metralhadora, armamento inabitual na corporação, e a gritar para ninguém fazer gestos suspeitos. De armas aperradas, dois polícias protegiam-lhe a retaguarda. Pedi que me deixasse abrir o carro e tirar os documentos de identificação.

Na carrinha Peugeot, com o Rebotim ao volante e o Duarte Rodrigues ao lado, entraram dois polícias para a parte de trás, enquanto um carro da PSP aguardava com dois agentes a minha entrada e a do Silva Cunha, que fora obrigado a mudar de viatura, e o subchefe, de enorme estatura e visível inquietação.

Os dois carros contornaram a Praça da República, subiram a R. Alexandre Herculano e, na primeira rua, viraram à esquerda para a esquadra. Quando os carros se imobilizaram, a um gesto do subchefe, o sentinela puxou a culatra e meteu uma bala na câmara. E foi num ambiente crispado que entrámos na sala de entrada onde um chefe nos aguardava e outros polícias reforçavam a segurança.

O primeiro a ser inquirido foi declinando o nome, Duarte Afonso Pimentel Rodrigues, chefe de propaganda médica de Produtos Sandoz, Ltd.ª, filiação, naturalidade e residência. O subchefe, tranquilizado com o armamento e a superioridade numérica, foi dizendo, meu chefe, vê, o fato condiz, e olhe a gravata, eu bem disse à Natércia que me pusesse outra, os senhores estão acusados de um crime muito grave – disse o chefe –, e o Rebotim sentia-se responsável, por se ter esquecido de pagar o imposto de gasóleo.

A seguir foi a vez do Ramiro Romão Rebotim e o Silva Cunha irado, tenente na reserva, a quem o subchefe, havia pouco tempo, falaria em sentido, recalcitrou e foi encostado à parede, levante os braços, e sumariamente revistado pelo subchefe. Nem um corta-unhas tinha. A profissão do Rebotim, chefe de secção de propaganda médica de Produtos Sandoz, Ltd.ª, pareceu abalar a confiança do chefe que nos identificava.

O terceiro fui eu e a qualidade de delegado de Produtos Sandoz, Ltd.ª punha em dúvida o delinquente cuja barba, fato e gravata coincidiam com a do meliante do bando que a PSP tinha detido sem um único tiro. Antes de perguntar o nome ainda disse, pode haver engano mas a descrição confere, e começou a identificação enquanto o jantar e a mulher aguardavam o recém-casado.

Por fim, foi a vez do Silva Cunha, sem armas ou amostras clínicas, e, mal tinha acabado de dizer que Manoel se escrevia com «o», mania de exigir o erro ortográfico de Júlio Manuel, o chefe recebeu um recado e suspendeu a identificação do perigoso tunante.

Disse que tínhamos deixado de estar detidos e que íamos em carros da polícia à PJ. Ali aguardava o inspetor-chefe que se queixou do atraso do seu jantar para nos poder pedir desculpa e pôr viaturas à nossa disposição, para nos levar onde desejássemos, depois de nos dar uma explicação.

Enquanto tomávamos café no Mandarim, pela manhã, um cliente lia no Comércio do Porto que 4 perigosos malfeitores, traficantes de diamantes, andavam a monte e faziam-se transportar num Dolomit, exatamente a marca do carro do Duarte Rodrigues. Tomou nota dos fatos, gravatas, estatura e outros detalhes que, à nossa saída, logo noticiou à PJ.

Foi ordenada a detenção da carrinha, cuja matrícula foi divulgada, e dos ocupantes. As patrulhas que nos aguardavam, fortemente armadas, não deram pela nossa passagem.

A notícia com mais de um mês, por razões que o Comércio do Porto não soube explicar, empastelada na tipografia, saiu naquele dia e com a marca do carro errada. Uma chuva miudinha, fora de tempo, evitou o espetáculo para numerosos conhecidos que se tinham recolhido nos cafés.

Apostila – É com imensa saudade que recordo o Rebotim, um excelente amigo e colega, a quem dedico esta crónica. Agosto/2014 

Ponte Europa / Sorumbático


quarta-feira, Agosto 27, 2014

Salazar – Quarenta e quatro anos depois

A morte, na cultura judaico-cristã, é o detergente que limpa todas as nódoas, a lixívia que desencarde o mais negro dos passados e a circunstância que transforma um crápula numa pessoa de bem.

Em 1970, no dia de hoje, exalou o último suspiro o vil ditador que vegetava desde 3 de agosto de 1968. Mais de 40 anos de partido único, de perseguições, de julgamentos sem culpa formada, no país que manteve beato, tímido e analfabeto, deram lugar às lamúrias das carpideiras contratadas, dos cúmplices do regime e dos esbirros da ditadura.

Em Lisboa houve bailes de ação de graças, foguetes a sul do Tejo e alívio generalizado de quem via no cadáver adiado a peçonha de décadas do país «orgulhosamente só».

O tom laudatório da imprensa, sujeita a censura prévia, destoava do alívio generalizado e do regozijo silencioso. A encenação da dor coletiva foi percursora da de outros biltres que morreram na cama. Os telegramas de condolências do genocida Francisco Franco e de Paulo VI foram anunciados como a veneração do mundo, a que se juntou o da inútil e mediática rainha de Inglaterra, Isabel II, para regozijo dos dignitários paroquiais.

Foi precisa a generosa mediação do caruncho, numa cadeira do Forte de Santo António do Estoril, para afastar do poder o mais longevo ditador mundial, e que o ciclo biológico se cumprisse para que o veneno fosse inumado em Santa Comba Dão, onde fora gerado e de onde partira para o seminário, primeiro, e, depois, para a Universidade, o CADC e o ministério das Finanças, antes de se tornar o carrasco de um povo.

Na morte não lhe faltaram as sotainas que o incensaram em vida, as mitras, os báculos e os anelões, nem o barrete cardinalício do Cerejeira. A escroqueria nacional passou pelo ataúde numa solenidade pífia cuja dimensão não apagava o ar provinciano da cerimónia fúnebre que encheu de esperança os democratas, perseguidos, presos ou ostracizados de quarenta e oito anos.

A guerra colonial, que o ditador não soube resolver, persistia a agravar ressentimentos e a semear ódios enquanto os mortos e estropiados não deixavam de aumentar. As prisões continuaram, a tortura manteve-se, o isolamento nacional aprofundava-se e as remessas dos emigrantes, cada vez maiores, já não suportavam a demência colonialista, a guarda pretoriana e as forças de repressão. Marcelo era um reacionário a prazo, o substituto do torcionário, que delapidava uma brilhante carreira universitária, na herança indigna que não teve pejo em receber.

Permaneceria ainda mais de três anos para acabar no Quartel do Carmo com ministros que choravam, quais ratos encurralados, sob a generosa indulgência de Salgueiro Maia.

A morte do frio ditador, indiferente às torturas dos esbirros e ao tormento do povo, não foi apenas o fim de uma vida, foi o despertar da esperança que seria concretizada numa doce madrugada de Abril.

Apostila - Um erro de leitura da data, de que peço desculpa aos leitores, fez-me sacrificar a Pátria com mais um mês de vida do ditador.

terça-feira, Agosto 26, 2014

26 de agosto – efemérides

1789 – A Assembleia Constituinte francesa aprova a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

(Fizeram mais os deputados franceses num só dia do que todos os clérigos desde que o deus de cada um deles criou o Mundo).

1931 – Tentativa de golpe de Estado em Portugal contra a ditadura.

(Há azares que se pagam durante duas gerações. Este levou quase 43 anos a reparar).

2004 – O Supremo Tribunal do Chile retirou a imunidade ao antigo ditador Augusto Pinochet.

(Vale mais tarde do que nunca).


Aurélie, s'en va...


A carta escrita pela Ministra da Cultura e Comunicação francesa, Aurélie Fillippetti, e enviada ao presidente François Hollande e ao primeiro-ministro Manuel Valls,  foi ontem publicada no jornal Le Monde  link merecendo ser lida e analisada.
Nessa carta aberta estão estampadas questões fundamentais que inquinam o programa político do Governo Francês (questões de lealdade aos ideais e compromissos eleitorais) mostram que a actual crise interna em França não se resolve com remodelações governamentais. 
O balanceamento entre Solidariedade, Responsabilidade e Lealdade está bem presente no conteúdo do documento tornando-se esta trilogia político-partidária importante mas prioritariamente condicionada por uma outra impressa no cabeçalho da referida carta (Liberdade, Igualdade e Fraternidade). 
A desilusão que está patente ao longo de todo o texto desta carta é reveladora do modo como a liderança e o desempenho do Governo do Presidente Hollande desmotivou alguns ‘compagnons de route’ e, mais profundamente, desapontou a maioria dos franceses.
De fora ficam por apurar os danos colaterais para toda a Esquerda europeia.



Política, guerra e dignidade

Não esqueço a imprudência e maldade que levou a Alemanha e o Vaticano, na ânsia de atraírem a Croácia e a Eslovénia, católicas, a desintegrarem a Jugoslávia, empurrando a Europa para a cumplicidade na aventura.

Depois, não sei se a Europa se converteu em joguete, cúmplice ou instigadora dos EUA no estímulo à falhada aventura da Geórgia e, depois, à destabilização da Ucrânia, numa provocação à Rússia cuja proximidade da NATO abomina, naturalmente.

A indiferença perante as minorias russas, numa espécie de vingança póstuma da URSS, leva a União Europeia, por conta própria ou a mando alheio, a lançar-se em aventuras a que falta uma diplomacia comum, visão estratégica, potencial bélico e razoabilidade.

Colocar Putin, que os interesses europeus deviam tentar seduzir e não hostilizar, entre a capitulação e a agressividade, é um jogo que revela a falta de inteligência e temeridade com que a UE reincidiu na Sérvia, criando o entreposto da droga e da Jihad no Kosovo.

Dito isto, não posso deixar de repudiar a atitude dos separatistas russos da Ucrânia que, na região que dominam, num espetáculo indecoroso, fizeram desfilar numa avenida de Donetsk, soldados ucranianos, de mãos atadas atrás e escoltados por baionetas, por entre insultos e chacota da populaça. Anteontem, a boçalidade dos carcereiros fez alterar a minha simpatia a favor das vítimas.

Não bastou prender dezenas de soldados, o que, neste caso, se compreende, desejou-se a humilhação, a exibição gratuita e grotesca de quem, não tendo armas, merecia respeito.

Não há causas que resistam à boçalidade de quem, não sabendo respeitar os adversários, perde o respeito por si próprio e a simpatia de quem entendia a sua razão e aspirações.


segunda-feira, Agosto 25, 2014

Hollande, Montebourg e a ‘tempestade’ anunciada…

O Governo francês demitiu-se em consequência de duras críticas tecidas pelo (ex)Ministro da Economia, Arnaud Montebourg, acerca das políticas de austeridade que fustigam a França e a Europa.
Classificou os 'profetas da austeridade' (Merkel?) como os responsáveis pela crise económica europeia e os promotores de sacrifícios inúteis  link.
 
A esquerda do PSF está em polvorosa. Muita gente bate a porta a Francois Hollande que fica, cada vez mais, isolado e prisioneiro do ‘liberalismo socialista’ que poderá 'desbaratar' a actual maioria na Assembleia Nacional. Um dos mais virulentos ataques a Hollande partiu de Jean-Luc Mélenchon, antigo candidato presidencial, oriundo da área socialista e fundador do Partido de Esquerda que, em declarações proferidas há 2 dias em Grenoble, considerou o actual presidente ‘pior’ do que Sarkozy link.
 
A Direita, neste momento, liderada de facto pela FN de Marine Le Pen perdeu todo o respeito ao presidente francês e pede a dissolução da Assembleia Nacional e eleições antecipadas link .
Hollande resiste ancorado em Manuel Valls que sendo um expoente do ‘socialismo liberal’ não tem peso político para defender o Presidente da República deste ‘ensanduichamento’ (à Direita e à Esquerda), nem espaço de manobra social para proceder a reformas económicas e fiscais que sejam uma alternativa da austeridade diariamente emanada de Berlim.
 
A viragem protagonizada por Hollande ao deitar no caixote do lixo a maioria das promessas eleitorais levou-o a enveredar por um caminho suicidário. A relevação de um novo Governo, amanhã, com toda a probabilidade, não será uma boa solução para a crise política, nem vai ‘sossegar’ os franceses. Diminuirá ainda mais a já frágil base social de apoio que o actual Governo de França disfruta.
E por arrastamento a UE terá de somar à crise económica, uma grave instabilidade política que envolve a 2ª. potencia do espaço comunitário.
 
Começam a soprar ventos que parecem anunciar a eclosão de uma ‘tempestade perfeita’… que tudo indica não ficará circunscrita a Paris.

Do Médio Oriente a Cascavel…

Penitenciária de Cascavel, Paraná, Brasil

A decapitação do jornalista James Foley às mãos de um súbito britânico sob o comando do megalómano ‘califa’ Abu Bakr al-Baghdadi, putativo chefe de um mítico Estado Islâmico, suscitou uma onda de indignação e levantou questões ainda por resolver no combate ao terrorismo. A conotação entre estes extremistas religiosos e o Islão na sua vertente sunita, facção wahabita (salafista) é fácil de estabelecer o que foi, de imediato, a conclusão no Ocidente, a reboque de ilações directas, mas superficiais.
O que não interessa é saber quem financia o trágico e pretensioso califado. A Arábia Saudita é um parceiro energético insubstituível e um ‘aliado’ do Ocidente e o Qatar um mediador silencioso e eficaz para a libertação de alguns prisioneiros (Theo Curtis, p. exº.) .

A bárbara e selvática execução do jornalista norte-americano mais do que indignou, chocou o Mundo, em termos humanitários e civilizacionais, modificou a sensibilidade e a tolerância dos cidadãos para com qualquer tipo de actos terroristas. Funcionou como uma espécie de vacina para todas as posições titubeantes.
 
O Terror foi um instrumento 'revolucionário' que vem do nosso longínquo trajecto histórico. Sem falar nas devastações e nos morticínios medievais interessa sublinhar que um dos seus pontos altos (do dito Terror) foi, exactamente, a Revolução francesa, incontestável precursora da Era Moderna. Embora de curta duração (1 ano) o terror jacobino (que decapitava na guilhotina) contou com vultos como Robespierre e Saint Just que a cultura ocidental não pode, nem consegue, ignorar. 

Mas nem toda esta onda de violência que passa por inconcebíveis e selváticas decapitações sucede exclusivamente no Médio Oriente ou se entronca em concepções e/ou práticas religiosas primitivas, radicais e intolerantes.

Na verdade, a violência pode ter múltiplas origens (raiva, desespero, paixão, miséria) que parecem conotáveis com a intolerância radical dos fanatismos religiosos (há muitos) à volta de proselitismo ou, como no caso do ‘Estado Islâmico’, projectos ‘divinos’ de poder (aparentados com o obsoleto absolutismo que no passado nos fustigou). 
O que parece ser um denominador comum de todos os tipos de fanatismos é uma gritante e aberrante irracionalidade que lhe está inerente (com causas múltiplas), a consequente e omnipresente desumanidade, subsidiária de uma infindável intolerância e sistemático recurso à violência.

A notícia ontem divulgada sobre distúrbios na Penintenciária de Cascavel, Estado de Paraná, Brasil, referindo a decapitação de 2 seres humanos link, provavelmente às mãos de cristãos, levanta questões humanas e civilizacionais ao Ocidente que convinha não escamotear ou disfarçar por detrás do nome de um réptil venenoso…

A esquerda e a laicidade

O pensamento de esquerda, foi-se estruturando desde o Renascimento, teve o apogeu no Iluminismo e tornou-se o motor das transformações sociais, económicas e políticas que conduziram à modernidade. Não vale a pena negar as violências cometidas e crimes em que imitou o absolutismo monárquico. Nunca a ideologia nobre se conseguiu emancipar da herança que rejeitou.

Os direitos humanos devem mais à Revolução Francesa, com a violência praticada, do que a séculos de poder absoluto, de origem divina, onde o despotismo nunca foi alheio.

A esquerda que não consegue fazer a autocrítica deixa de ser ideologia e passa a crença. A esquerda, humanista e plural, tem um património recente, mas é a herdeira da melhor tradição e dos mais nobres ideais. Logrou, aliás, civilizar alguma direita e convencê-la a defender os seus princípios fundamentais, com exceção do modelo económico.

A liberdade de expressão e de reunião, a igualdade de género e a defesa do Estado de direito, são hoje um património comum à esquerda e direita nos países democráticos. Sem a persistente luta da esquerda, a separação da Igreja e do Estado e a Declaração Universal dos Direitos Humanos não teriam sido proclamadas.

A secularização foi possível com a imposição da laicidade, graças à repressão política do clero, que se julgava com mandato divino e se acolhia no regaço das ditaduras.

É por estas razões que confrange ver certa esquerda islamófila, na convicção de que os inimigos de Israel terão de ser amigos, sem um sobressalto cívico contra a sharia, sem uma manifestação de repulsa pelas teocracias, sem assumir a superioridade moral das democracias sobre as ditaduras e das sociedades permissivas sobre as que condenam as mulheres a vergonhosos interditos e a sofrimentos indizíveis.

Uma sociedade onde as pessoas, seja qual for o sexo, a raça ou a orientação sexual, não possam mudar livremente de opinião, renegar a fé e transitar para outra, não pode obter a cumplicidade de quem reclama a liberdade, a sua e a alheia.

A esquerda que é cúmplice, pelo silêncio ou atuação, da perpetuação de modelos tribais e anacrónicos códigos de conduta, impostos por uma legião de guardiões, é a aliada da pior direita, da direita que quer substituir a repressão islâmica por outra, a discriminação ancestral por formas sofisticadas de domínio económico, social e político.