quarta-feira, Outubro 01, 2014

Jantar comemorativo da República - COIMBRA

Car@s Republic@nos:

O Movimento Republicano 5 de Outubro (MR5O) de Coimbra leva a efeito no próximo sábado, 4 de outubro, o jantar comemorativo da data que une tod@s @s Republican@s.

O jantar será no Cantinho dos Reis, Terreiro da Erva, n.º 16, em Coimbra, às 20H00.

Está aberto a tod@s os que se queiram inscrever quer no Restaurante, quer através do email aesperancaenator@gmail.com ou anabela8@hotmail.com ou TM 91 7322645.

O jantar ficará pelo preço aproximado de 10 € e será uma manifestação de vontade da recuperação do feriado do 5 de Outubro e a homenagem devida aos heróis da Rotunda.

Viva o 5 de Outubro. Viva A República. Viva Portugal.


terça-feira, Setembro 30, 2014

SMN e 'mata-ratos'…

O aumento do salário mínimo acordado entre o Governo e (alguns) parceiros sociais parece ter ‘incomodado’ Bruxelas. Não vou tecer considerações sobre a justeza desta medida (que muitos portugueses consideram tardia e exígua). 

Mas a reacção de Bruxelas, através do porta-voz do comissário europeu para os asssuntos económicos e financeiros, Simon O’Connor, é simplesmente nauseabunda ”link

Mais uma vez invoca-se a competitividade e o emprego para justificar e impôr ou fazer reverter medidas. Em momento algum, nestes últimos 3 anos, Bruxelas foi capaz de se interessar e opinar sobre o empobrecimento brutal a que fomos submetidos e a destruição sistemática do País (e não só da competitividade e do emprego).

Mas o porta-voz europeu aparece muito lampeiro a desqualificar o tímido aumento do salário minímo classificando-o como “temporário” link, parecendo apostado em revertê-lo na próxima ‘acção de vigilância’ da troika, prevista para a 2ª. quinzena de Outubro link .

Para conhecimento de Bruxelas e ilustrar o próximo controlo da brigada mista (FMI/UE/BCE) seria oportuno recordar-lhes que existiram, em Portugal, há alguns anos atrás, duas marcas de cigarros baratas e populares: ‘Definitivos’ & ‘Provisórios’. A competitividade nascente e crescente do final do século XX deu cabo de ambas… 

O povo chamava-lhes com a sua argúcia e premonição de: ‘mata-ratos’! 
Os cigarros foram-se (morreram) mas os ratos continuam a incomodar e visitam-nos regularmente...

Com os nervos à flor da pele

A retumbante vitória de António Costa pôs os nervos em franja a muita gente. À direita porque é mais difícil de o derrotar e à esquerda porque recolhe aí muitas simpatias. Não admira, pois, que militantes de outros partidos «aconselhem» o que os militantes do PS devem exigir a António Costa.

É uma pena que os partidos não sejam todos a extensão da nossa vontade, o instrumento dos nossos desejos, o veículo das nossas ambições, mas a realidade é outra. Os partidos são o que cada um deles deseja e não o que os seus adversários pensam que deviam ser. Ao eleitorado cabe escolher quem mais lhe agrada. É a vida. Em democracia.

Curiosamente, em vez de ser vista como uma vitória da esquerda, onde os dois últimos e inenarráveis líderes da UGT viram as ambições desfeitas e descoberto o oportunismo, à esquerda e à direita do PS cresceu o azedume, multiplicaram-se as injúrias e chegou-se ao cúmulo de escarnecer a idade de Soares, Alegre, Almeida Santos e Ferro Rodrigues, como se a velhice não fosse um privilégio dos que lá chegam e, nestes casos, uma honra pelo percurso, pela coragem e dedicação aos seus ideais.

O azedume de quem tem mau perder não é apenas um fator desencadeante da úlcera gástrica, é um risco para os neurotransmissores, capazes de perturbarem as sinapses dos melhores neurónios.

A aceitação e o respeito pelas vitórias alheias seria um saudável sinal de maturidade democrática que quarenta anos de liberdade deviam ter feito germinar.


segunda-feira, Setembro 29, 2014

PS: as primárias e as suas circunstâncias…


As ‘primárias do PS’ encerraram, na noite de domingo, um penoso e longo ciclo que os socialistas tiveram de enfrentar mas o saldo é francamente positivo. O sobressalto trouxe discernimento, clarificação e outras vantagens. Será cedo para fazer um balanço concreto deste passo e  tirar ilações para o futuro, todavia, a noite eleitoral, no mínimo, conseguiu ‘arrumar a casa’.

Tudo correu bem apesar das primárias terem nascido de uma manobra dilatória (4 meses) promovida pela anterior direcção quando confrontada por António Costa.

As últimas eleições europeias fizeram soar as campainhas no seio da ‘família socialista’ o que não foi entendido por toda a gente. De facto, em Portugal não existiu um total ‘crash’ (como em Espanha e na Grécia) mas o aviso acerca da incapacidade de a demissionária direcção partidária funcionar com alternativa não poderia ser por mais tempo ignorado.
A resposta de Seguro quando pressionado para facilitar mudanças e confrontado com a pública e directa disputa da liderança foi um arremedo de 'reforma política' através do recurso a veículo consultivo alargado ('primárias') que se extendia a um (ab initio) desconhecido número de ‘simpatizantes’ e ‘apoiantes’. Um esquema decalcado de países que giram à volta do sistema bipartidário para enxertar em outros em evidente crise partidária. Nada de inovador e um modelo de extensibilidade com alguns riscos.

Um outro factor tem estrictamente a ver com o aparelho partidário que frequentemente se deixa aprisionar por dirigentes e interesses concelhios, federativos ou nacionais. As primárias poderão ser um caminho para enfrentar a crise de confiança que assola os partidos dificultando os diktats do aparelho, mas não um expediente (como na realidade foi esta primeira experiência). 
A urgência de organizar diálogos frutíferos e esclarecedores bem como o apuramento das metodologias de escolha, sem tempo para estudar e controlar o ‘ambiente’ político só poderia – como se verificou durante o duelo Seguro/Costa – resultar numa lamentável crispação, acusações gratuitas e intoleráveis, revisionismos históricos que, felizmente, o desfecho de domingo esclareceu e sanou. Mas correram-se alguns riscos.
Não parece ser claro e óbvio (líquido) que a figura do ‘simpatizante’ compartilhe com o militante os mesmos direitos (electivos) quando não acarreta as mesmas responsabilidades organizativas, de financiamento e de ‘militância’. Há aqui algum grau de desequilíbrio muito pouco confortável. Por outro lado, o simpatizante aparece imerso numa larga fluidez ideológica – sem exigências de definição - difícil de separar da casualidade e da oportunidade. Aliás, um bom indicador do sucesso da inciativa será verificar – no futuro próximo – o número de simaptizantes que passarão a militantes.

Os dados actuais (a clarificação por uma esmagadora maioria de votos em António Costa) mostram que esta ‘experiência’ foi um sucesso. O ‘apelo  mobilizador’ que se quer vasto e confluente, quando o partido está desmotivado não proporcionou, como alguns esperavam, mais-valias ao poder instalado. Porque o importante na situação actual situa-se ao nível das expectativas. Nas primárias o fundamental não seria conquistar (contabilizar) novos apoiantes mas, acima de tudo, tornar efectivo e participado o exercício da política através de uma actividade partidária eficaz (na conquista de vitórias nacionais, regionais e locais).

E quanto a mudanças nas opções políticas, formas de enfrentamento da actual maioria e requalificação de caminhos políticos (não substancialmente diferentes dos actuais) é muito cedo para vaticinar qualquer coisa que não se confunda com os lugares comuns. 
Para além da mudança de protagonista (e foi demorado) nada ficou explicitado quanto a uma nova maneira de fazer oposição ao actual Governo que consiga congregar os portugueses a unirem-se contra o evidente desastre da presente governação. Existiu - foi notório durante a noite eleitoral - uma visível inflexão do PS para a Esquerda. Vamos ver quais as consequências políticas. O render da guarda perante uma direcção incapaz não chega. Para já a noite de ontem revelou a tremenda vontade de subsituir a suspeitada inépcia pela necessidade (esperança) de o País poder contar com uma oposição digna desse nome.

Foram, ainda, 4 meses de impasse quando o tempo urgia e o desespero rondava impiedoso o espírito e a vontade dos cidadãos. Decorrente da elevada participação nas primárias, António Costa, dispõe de uma legitimidade acrescida para enfrentar e dirimir as querelas internas no partido e, o mais importante, ganhou força (e carisma) para enfrentar a actual Governo.

Voltando às primárias, o receio é que se trate – como sucede nos jogos de azar – de um caso onde a sorte favorece os principiantes. Existe um cenário que não pode ser liminarmente afastado, nomeadamente, em relação ao futuro. Se acaso o resultado fosse muito aproximado, muito semelhante, como estaria, no ‘day after’, o PS?  E os portugueses???…

O mau humor de Jerónimo de Sousa

Seria hipócrita para com os meus amigos no PCP se não lastimasse as declarações infelizes do Jerónimo de Sousa, no momento da retumbante vitória de António Costa, o candidato que repudiou a expressão de «partidos do arco do poder».

Considerar «uma farsa» as primárias do PS é de quem perdeu o juízo. Perdeu o respeito que eu lhe tinha e a consideração que merecia o líder de um partido com a mais honrosa herança da luta contra a ditadura.

Os militantes devem pensar se é esta liderança que defendem ou a unidade de esquerda que ainda há quem deseje na área do PS.

Algumas notas sobre a vitória de António Costa, em jeito de decálogo

1 – A vitória, na expressão que assumiu, ultrapassa a dimensão política do candidato e alarga a confiança no PS;

2 – Os democratas que lhe deram a esmagadora maioria mostraram o respeito que lhes merecem figuras históricas do PS, que não pertencem apenas ao partido, fazem parte da História de Portugal (Mário Soares, Jorge Sampaio, Ferro Rodrigues);

3 – A derrota da direita, em especial de Cavaco Silva e Passos Coelho, não é apenas um ajuste de contas, é o sentimento de repulsa pelos seus mandatos e pela imputação ao PS da irresponsabilidade que lhes cabe no descalabro a que nos conduziram;

4 – A tentativa de demonizar Sócrates, como apoiante de António Costa, saiu frustrada a quem pretende esquecer o BPN, BCP, BPP, Banif, GES/BES, submarinos e sobreiros, e não se esquece de lembrar alegados crimes de que nunca foi arguido o antigo PM;

5 – A mudança que estas eleições mostraram pretender não foi um ajuste de contas com antigos dirigentes do PS mas com os atuais da coligação no poder;

6 – Quem confundiu a legitimidade formal de uma liderança com o desejo profundo dos militantes e simpatizantes teve a prova de que estes eleitores souberam decifrar  quem os portugueses preferiam;

7 – A exploração dos debates pela direita, dos seus momentos piores e das divergências entre duas figuras importantes do PS, acabam por se virar contra quem, não podendo defender os seus, só lhe resta combater os outros;

8 – Esperar que a balança comercial cujo défice se tem agravado, que a dívida soberana (134%) possa ser paga e que o memorando de entendimento possa ser cumprido, é uma perigosa utopia de quem diz que o país está melhor, apenas os portugueses estão pior;

9 – Os problemas têm de ser resolvidos na Europa e não na Alemanha, com políticos com autoridade e não com políticos autoritários por quem tem experiência política e não por quem chegou a PM através de uma central de intoxicação;

10 – O resultado das eleições primárias do PS são uma nesga de esperança no pântano em que o pior PR, o pior PM e a mais indigente maioria precipitaram o país.  


domingo, Setembro 28, 2014

Parabéns, António Costa


Não sendo militante do PS, e não me tendo inscrito como simpatizante, não me atrevo a participar nos festejos da retumbante vitória de António Costa. Limito-me a felicitá-lo, a desejar que o PS corresponda ao entusiasmo que o futuro líder despertou e que aceite, como deve, os resultados de uma pugna que o secretário-geral demissionário desenhou.

A saída de cena de António José seguro foi digna e esteve à altura de quem compreende que o ressentimento não seria digno do seu passado.

Espero, finalmente, que seja breve o cumprimento da profecia de António Costa: «Este é o primeiro dia dos que restam ao atual Governo».

PROTESTOS MÚLTIPLOS MAS INÓCUOS

Os advogados protestam - cheíssimos de razão - contra o mapa judiciário e outras malfeitorias. Mas só protestam contra a ministra Paula von Hafe. É a ministra para aqui, a ministra para acolá, sempre a ministra, a ministra, a ministra...

Os professores protestam, com toda a razão, contra as muitas malfeitorias de que são vítimas. Mas só protestam contra o ministro da Educação. É o Crato, o Crato, o Crato...

E assim por diante, com todas as classes que protestam.

Ora assim não vamos lá. Não se resolve problema nenhum. É que os ministros são simples membros do governo, meros executantes do programa do governo.

O verdadeiro responsável é o governo. E este não recua um milímetro nas suas desastrosas políticas, servindo-se dos ministros como de escudos para aparar todos os golpes, ficando ele incólume.

É pois contra o governo que é preciso protestar. Senão é como se protestássemos contra o porteiro e não contra o dono da casa.

E se protestássemos todos juntos e ao mesmo tempo, o governo - e com ele a von Hafe, o Crato e a corja toda - o governo já teria ido há muito tempo para o lugar que merece: o caixote do lixo.

O Governo, BES e o esquema gasto, estafado e saqueador…

Começa a desmontar-se mais uma rábula deste Governo. A da sua ‘não-interferência’ no caso BES/GES. Segundo relatos vindos a público na imprensa o Governo tomou a ‘opção política’ de não injectar no BES através do fundo de recapitalização da Troika link
Não está em causa a ‘bondade’ desta opção anteriormente usada nos casos BANIF, BCP e BPI que apresentavam problemas com a sua capitalização (racio de capital exigido pelo BCE) cujo fim é ainda difícil de prever. Por outro lado, a nova solução ‘Fundo de Resolução’, aparentemente fora do perímetro das Finanças Públicas, embora alimentada por fundos públicos, teoricamente endossada ao ‘sistema bancário’ nacional, sendo de um experimentalismo atroz, não tem provas dadas, nem desfecho seguro (para os contribuintes). 

O que parece inegável é que a solução da crise financeira, em nenhum País europeu, e também em Portugal, não passou ao lado dos contribuintes e esse facto deve colocar-nos de sobreaviso. 
Sendo as opções políticas, financeiras e fiscais dos actuais dirigentes políticos europeus, quanto à condução das respostas à crise (essencialmente financeira e orçamental) com terriveis reflexos na Economia, caracterizadas pela firmeza, hermetismo e inflexibilidade o que certamente estará na calha será mais um artificioso e sinuoso endosso do problema para os contribuintes, na versão mais recente, intermediados pelos sistemas bancários nacionais. 

E o facto de o Governo estar a tentar lavar as mãos à custa do Banco de Portugal, ocultando o seu real envolvimento político, é mais uma trapalhada para não dizer uma armadilha.

No fim vamos chegar ao brilhante desfecho que, nestes últimos dias, tem feito carreira na política portuguesa, a exemplo do problema Teconforma/Centro Português para a Cooperação/Passos Coelho. Seremos bombardeados por afirmações troniturantes do tipo: os contribuintes não dispenderão um cêntimo com o BES! E isto será repetido à saciedade. É o triunfo das meias verdades, dos malabarismos e dos oportunismos.

Quanto ao Fundo de Resolução, i. e., o ‘mecanismo’ encontrado (a martelo) para, artificialmente, apresentar como dissociados os contribuintes do BES, os primeiros sinais são esclarecedores. Um escandalo desta dimensão não pode, nem deve ser entregue à banca para resolução. As implicações políticas são evisentes: começa pela camuflagem do defice embora tenha ‘consumido’ fundos públicos; depois, a estratégia será deixar adormecer (‘assentar a poeira’) e, finalmente, esperar venham dias lindos (os ‘amanhãs’ que serão abundantemente anunciados na campanha eleitoral de 2015). 

Aos portugueses – lá para a frente – será pedido que tenham a memória curta… e os bolsos fundos.
É este o estafado esquema.

28 de setembro – efemérides

1864 – Faz hoje 150 anos que Karl Marx organizou, em Londres, a I Internacional, que deu origem à criação dos primeiros partidos sociais-democratas e socialistas.

A política e o mundo nunca mais foram os mesmos.

1978 – Morre, no Vaticano, o papa João Paulo I, após 33 dias de pontificado.

Os crentes desconhecem se foi vontade do seu Deus ou decisão dos homens que o rodeavam.


Um país abúlico à espera de D. Sebastião

Os garotos maltratados tornam-se malhadiços. À força de suportarem agressões dos pais e dos colegas, resistem à dor e à humilhação, indiferentes às feridas e cicatrizes que os acompanharão na vida.

À semelhança de garotos, a quem a sorte reservou a pobreza, a vergonha e o sofrimento, os países tornam-se malhadiços. Quando mergulham na apatia, refugiam-se na amnésia e suportam a incúria de quem manda e a arbitrariedade de quem decide.

Os portugueses que, ainda há 4 anos, desciam à rua, revoltados com os abanões sofridos pela crise financeira internacional e a falta de resposta do governo, sofrem agora a mais implacável ofensiva de quem não olhou a meios para atingir o poder e não abre mão do pote em que se repoltreia à tripa forra. Renunciaram ao direito à indignação.

Souberam da condenação alemã, por suborno, dos vendedores de submarinos. Foram condenados os delinquentes e preso um ministro grego subornado. Em Portugal não se passou nada. O banco BPN, arrasta na lama a fina flor do cavaquismo e, enquanto o país geme sob a carga fiscal, andam à solta os responsáveis pelo maior escândalo financeiro de sempre. Depois, BPP, BCP e Banif deixaram de ser notícia quando um escândalo, à escala mundial, lançou o caos nos mercados e o medo dos banqueiros, caso GES/BES, tratado com benevolência pela comunicação social e sepulcral silêncio pelo poder.

O país tolhido de medo, com PR, Governo e maioria que, por falta do código de barras, mantêm o prazo, aguarda pela manhã de nevoeiro das próximas eleições para se lançar nos braços de um D. Sebastião qualquer que nos precipite no Alcácer Quibir que quiser.    


Factos & documentos


sábado, Setembro 27, 2014

Os seráficos apelos de cavaco Silva

Os seráficos apelos de Cavaco Silva

Vindo da clandestinidade onde mergulhara, o homem mais sério de Portugal e um dos mais sérios de Boliqueime, surgiu ontem para proferir o veredicto sobre a colaboração de Passos Coelho na Tecnoforma: “Passos prestou todos os esclarecimentos”.

Dada a reputação de Cavaco Silva com as ações da SLN, a casa da Coelha e o alegado caso das escutas, sem falar dos vizinhos e antigos colaboradores, acabou, perante os portugueses mal formados, a comprometer ainda mais o PM de quem se fez porta-voz.

Depois, reincidindo na obstinada crença de que está vivo, apelou à colaboração de todos para ajudarem a resolver o problema Citius. Só uma alma generosa, amigo da harmonia partidária, que tanto se esforça por promover, poderia apelar ao empenho coletivo para resolver o enigma de um sistema informático.

Aqueles assessores devem ter-lhe dito que o Citius era o local onde se armazenavam os processos judiciais e se tinham perdido 3,5 milhões. Pensou o PR, em seu pensamento, que o Citius era um armazém, que os processos sumidos podiam ser procurados nas ruas e alombados, por voluntários, para o Citius.

Na ingénua bondade com que observou o sorriso das vacas açorianas, imaginou o País a acudir ao seu apelo, à cata dos processos desaparecidos, em entusiástica colaboração, a empilhá-los como caixas de fruta em frigoríficos industriais.

Faltou apelar aos professores desempregados para se oferecerem às escolas, para que as aulas pudessem começar. O regular funcionamento das instituições ficaria assegurado.


O estertor do inocente Passos Coelho

Um remediado que decidiu, segundo a sua consciência, ser consultor de uma empresa de formação de técnicos de aeródromos e heliportos da Região Centro, entendeu que as atividades extraescolares de aeromodelismo lhe davam equivalência às competências necessárias para o cargo.

Não admira, pois, que tivesse prescindido de quaisquer pagamentos que não fossem o ressarcimento de despesas em menus turísticos e deslocações nos autocarros da Carris.

Ser acusado de fugir ao fisco quem foge de mostrar as contas bancárias, referidas numa denúncia anónima, é uma calúnia injusta para quem ajudou a formar, com a capacidade que demonstra a governar, mais de mil técnicos cuja ausência de uma única certificação nada prejudicou os formandos porque não existia qualquer vaga.

Quem pretende conferir os montantes dos bilhetes de metro e das refeições de serviço de quem graciosamente ofereceu o tempo vago da dedicação exclusiva de deputado, só está interessado no striptease das contas bancárias a despirem escudos até mostrarem as notas com o decote de D. Maria II para gáudio lúbrico da comunicação social.

Quanto à alegada fraude fiscal é assunto que faz parte da intimidade e que morre com o próprio. Um PM não precisa de ter exigências éticas diferentes das de um taberneiro, a quem o Governo de Portas, Cavaco & Coelho exige a certificação da caixa registadora.

sexta-feira, Setembro 26, 2014

A suivre…


Hoje, o primeiro-ministro dignou-se prestar declarações ao Parlamento sobre o imbricado caso Tecnoforma/CPC, seus mandatos de deputado entre 1991-99 e situações fiscais daí decorrentes.

Garantiu que não cometeu ilicitudes nomeadamente quanto ao recebimento de quantias regulares de empresas ou de uma ONG com quem admitiu ter colaborado. Concedeu que foi ressarcido de despesas (delocações e alimentação) por essa ONG mas que não usufruiu de um vencimento regular/mensal. Não especificou (apesar de solicitado a fazê-lo) os quantitativos que efectivamente usufruiu por conta dessa esporádica (?) e desinteressada colaboração.
Não condescendeu no levantamento do sigilo bancário para fazer a demonstração cabal e factual do que afirmou. Não autorizou que os deputados da Assembleia da República tivessem acesso às declarações fiscais arquivadas e que fazem parte do processo de concessão de um subsídio de reintegração, com base na exclusividade a ser concedida ‘à posteriori’ para exercício de funções de deputado.

Para justificar essas recusas refugiou-se na privacidade da sua pessoa, mesmo quando essa demonstração se cingia ao tempo que desempenhou cargos públicos. Foi jogada a sua palavra contra a carência (necessidade?) de demonstração factual.

E, na passada, passou ao ataque acusando ‘outros deputados’, que não referenciou, de ‘viverem acima das suas possibilidades’ e ostentarem património incompatível com os frutos da sua actividade profissional e política. Meteu-se num ‘vespeiro’.

Considerando que a prova de eventuais ilícitos deverá partir do denunciante, esse é o ónus que impende sobre os factos (por ora negados), será difícil acreditar que o caso morreu esta manhã no Parlamento. Ninguém parece conhecer o denunciante para estar convicto de que o envolvimento de Passos Coelho terá sido uma denúncia fútil, infundada e maleovola. Passos Coelho levantou a ponta do véu ao declarar que "a maneira como decide pode desagradar a pessoas com alguma influência". E ficou por aí. Marques Mendes apressou-se a fazer a ressalva de poderem aparecer novos dados, não vá o diabo tecê-las link . E o facto de Marques Mendes levantar a lebre tem algum significado. Os próximos tempos o dirão.

Para já as declarações, posteriores,  prestadas pelo advogado da Tecnoforma pouco adiantam em relação ao dito de manhã no Parlamento e, surpreendentemente, revelaram que a empresa, sendo o principal mecenas da ONG – CPC (como confirmou), não se preocupava como e com quem as suas contribuições (também não especificadas) eram gastas link.  O que dá uma nova e interessante dimensão ao mecenato e às suas motivações e, por outro lado, torna inovador o controlo financeiro e contabilístico da referida empresa que a denúncia à PGR colocaria na berlinda. Seria interessante conhecer que empresas beneficiaram dos ‘projectos de cooperação’ angariados pela samaritana acção de Passos Coelho no CPC.

De concreto, sabe-se que Passos Coelho saiu esta manhã do Parlamento encurralado pelas (e nas) suas próprias palavras. Na verdade perante a aridez das provas o mais natural será a virulência das interpretações políticas.

O País, o PS e o futuro

Interessam-me mais o País e o regime democrático do que o PS, mas reconheço que um e outro precisam deste partido.

Não tomei posição por qualquer dos candidatos a líder, candidato a PM é uma tolice que não se discute entre dois militantes, resolve-se nas eleições legislativas onde o partido mais votado é convidado a formar Governo.

Não me é indiferente o candidato que saia vencedor. Tenho preferências marcadas mas não as manifesto porque não sou militante do PS, não me inscrevi como simpatizante e não quis aumentar o ruído e a sangria em que o PS se esvaiu com militantes a optarem por destruir o inimigo interno em vez de combaterem os adversários que desbarataram o País e comprometeram a democracia.

Dos debates ficou-me a ideia de que saíram claramente vencedores Marinho e Pinto e a abstenção. Quanto ao primeiro não tenho a menor dúvida e temo que, depois da decisão, persistam as lutas intestinas que arruínam o partido e arriscam o futuro do PS e do País, se ainda há futuro com a dívida externa de 134% do PIB, a exaustão fiscal, uma balança comercial deficitária e a destruição sistemática do Estado levada a cabo pelo pior PM, o pior PR e a mais indigente maioria do regime democrático.

Se o vencedor da luta que atingiu instantes de rara agressividade, e até de baixeza ética, tiver do vencido a grandeza que Cavaco mostrou no discurso de vencedor presidencial, o PS arrisca-se a ser dispensado pelo eleitorado e a lançar o país nas mãos de populistas e demagogos em que estes momentos são férteis.

Nenhum partido nem qualquer inimigo do PS lhe fez tão mal como os mais exacerbados militantes durante a legítima disputa em curso. Espero que se contenham e deem ao seu próximo secretário-geral um apoio tão entusiasta como aquele com que respetivamente o denegriram ou apoiaram. Sobretudo o entusiasmo com que combateram.


A FRASE

«Não procures encomendas assinadas pelo general franco, não as encontrarias, os ditadores só usam a caneta para assinar condenações à morte».

(No telefonema de felícia para artur paz semedo, in «Alabardas», pág. 29, de José Saramago).

Comentário: As 77 páginas de Alabardas, incluindo ilustrações de Günter Grass, outro Nobel da Literatura, são as capelas imperfeitas do Mosteiro da Batalha, onde a beleza do que são antecipam a perfeição que seriam. Saramago, o maior ficcionista português, continuou a sê-lo em todos os dias que ainda foram seus.


quinta-feira, Setembro 25, 2014

O Catur e o funeral do Martins (Crónica) – No 50.º aniversário do começo da guerra

Não adivinhava, quando, há dias, quis libertar-me de uma dolorosa memória e fazer a catarse de uma época, que a publicação da crónica, no mural do facebook, coincidiria com o 50.º aniversário da proclamação da insurreição geral pelo Comité Central da Frelimo. Precisei de confirmar com antigos camaradas alguns pormenores e ocultei os mais macabros, que ainda doem muito. Os telefonemas ditaram a coincidência.

Há, pois, cinquenta anos que começou oficialmente a guerra colonial em Moçambique. Triste efeméride que um ditador, na sua obstinação, prolongou. Amargo acontecimento que tantas tragédias semearia. Na coincidência da data há uma sinistra ironia. Volvidas quatro décadas e meia, com fraturas ainda expostas e a sangrar por dentro, não esqueço a sinistra governação salazarista.

Foi ela, com os seus sequazes, a responsável dos dramas dos retornados e das cicatrizes que transportaram, das vidas que se esvaíram em ajustes de contas que o ódio acirrou, as tragédias semeadas por quem não veio à janela do mundo espreitar os ventos da história.

Faz hoje 50 anos que a Frelimo começou a guerra de libertação. Como posso deixar de recordar o Abreu, de Massangulo, de quem me despedi dois dias antes e que na véspera de ir de férias para Lourenço Marques, morreu numa emboscada, no Caracol, nome que dávamos à picada que serpenteava os montes que se erguiam entre Massangulo e Vila Cabral? Não voltaria ao Niassa porque a Companhia, durante as suas férias, ia regressar para o sul onde a paz ainda reinava. Foi a última escolta que comandou e ficou onde não voltaria.

E o Dias? Acabado o almoço morreu à saída do quartel esmagado pela Berliet em cujo para-lamas insistiu em sentar-se, apesar do condutor lhe ter pedido para não o fazer. Era ele o comandante da escolta. Durante dois minutos.

Dos 101 desaparecidos, na jangada que se virou no rio Zambeze, um era soldado meu, pai de uma criança que o não conheceu, desaparecido no turbilhão das águas revoltas e na voracidade dos crocodilos que infestavam o rio.

Maldita ditadura.


Factos & documentos


Resolução 2178 do CS da ONU


A resolução 2178 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada por unanimidade a 24 de Setembro de 2014, visa combater o terrorismo link.

Trata-se de um propósito que mereceu uma aprovação unânime neste organismo internacional. O extenso documento percorre várias vertentes desta problemática que, de modo crescente, inquieta o Mundo e põe em risco a paz e a segurança internacional e enfatiza especialmente a cooperação internacional e o respeito pela soberania dos Estados membros, no combate a este flagelo. Fundamentalmente, o equacionado pela presente resolução – sublinhando o respeito pela carta do Direitos Humanos e o Estado de Direito – foram questões relativas à mobilidade, circulação e recrutamento de pessoas, bem como, o controlo alfandegário, fronteiriço, dos aeroportos e das listagens de passageiros, dos ditos ‘combatentes do e pelo terror’ no Mundo. Esta resolução com carácter vinculativo deverá ser inscrita e enquadrar as legislações nacionais.

Não foi possível – como se verifica no item 12 (do preâmbulo) da resolução - evitar a especificação de algumas das organizações político-militares e religiosas actuantes no terreno (Estado Islâmico ISIL, Al Qaeda, Frente Al-Nusrah e ‘outras’) com evidente prejuízo de um desejável âmbito e carácter mais universal. Combater e/ou eliminar condições (situações) objectivas que levam à radicalização dos problemas para prevenir o terrorismo é um titulo da citada resolução tratado com muita ligeireza e superficialidade.

Quando se lê o extenso documento do CS da ONU, que convém sublinhar mereceu um consenso unânime, verificamos que uma das questões fulcrais inerentes ao ‘controlo’ e ao combate do terrorismo internacional só ao de leve foi abordada. Trata-se do financiamento destas actividades, subsidiárias de crendices religiosas e interesses económicos estratégicos (essencialmente energéticos) que ultrapassam a subsidiaridade dos mecanismos de aliciamento, recrutamento e deslocação de indivíduos e se inserem num vasto âmbito da cooperação orgânica internacional. Uma das características das organizações terroristas é a actuação em rede (global) de certo modo decalcada do sistema financeiro internacional.
No item 4. das medidas da resolução escreve-se “…disrupting and preventing financial support to foreign terrorist fighters…” e mais à frente [no item 6. - b)] algumas disposições vagas e generalistas sobre a concessão e colecta de fundos que financiam o recrutamento e  a itinerância dos ‘lutadores da fé’, deixando de fora os organismos financiadores (estatais, empresariais ou privados).
A unanimidade é de certo modo resultante dos assépticos contornos desta resolução. De facto, por detrás do terrorismo existem gritantes situações fulcrais e determinantes que continuarão fora de qualquer controlo. Duas delas: o sistema financeiro internacional; a indústria e comércio de armamento.

Ninguém ignora – e muito menos os países subscritores da resolução – esta imbricada 'tríade':
1.) branqueamento de capitais através de circulação em paraísos fiscais ou offshores;
2.) ocultação sistemática das fontes de financiamento por detrás da opacidade dos 'mercados financeiros';
3.) secretas e mercantis rotas internacionais facilitadoras da aquisição de armamento.

Estas as enormes vulnerabilidades que infestam a citada resolução. Declarações de princípio como o propósito de restringir das fontes de financiamento sob a forma de uma vaga intenção e enquanto não determinarem drásticas alterações no sistema (esquema) financeiro internacional, nomeadamente no respeitante à sua regulação pelos poderes políticos democráticos, não conduzirão a resultados satisfatórios.
'Tomar a nuvem por Juno' poderá, mais uma vez, ser o berço de todas as ilusões...

O Catur e o funeral do Martins (Crónica)

Numa placa de bronze da estação do Caminho de Ferro estavam gravadas em relevo, em letras maiúsculas, as seguintes palavras: «Aos 12 dias do mês de Abril de 1964, Sua Ex.ª o Governador Geral de Moçambique, Contra Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, deu início aos trabalhos de construção do último troço do Caminho de Ferro para a cidade de Vila Cabral», com letras destacadas para o Governador e a cidade.

Era do Catur, onde chegavam de comboio, que partiam as tropas, em viaturas militares, para o distrito de Niassa, rumo a Malapísia, Massangulo e Leone ou, com passagem por Vila Cabral, para Meponda, Litunde, Cantina Dias, Unango, Chiconono, Maniamba, Metangula,  Nova Coimbra, Lunho, Miandica, Cobué, Macaloge, Valadim, Luatize e, no  extremo norte, Pauíla e Olivença.

Colunas de viaturas levavam as Companhias cujos militares aguardavam o paludismo, a morte e os aleijões, do corpo e da mente, na guerra inútil e criminosa que uma ditadura quis, até ao golpe de misericórdia, de um punhado de heróis, numa madrugada de abril.

Em finais de 1967 havia mais meia dúzia de quilómetros de carris e a terraplanagem que se dirigia a Nova Guarda, um acampamento a meio caminho de Vila Cabral, a cerca de 40 km de cada lado. O Santos e o Martins eram dois capatazes que vigiavam os negros, os únicos a quem o trabalho duro na via férrea era destinado.

O Santos era solteiro. O Martins vivia com a mulher e a filhita de tenra idade quando ali chegou o Batalhão de Caçadores n.º 1936. Ambos frequentavam livremente a cantina do aquartelamento onde arranjavam parceiros para jogarem à malha na «avenida», o largo caminho de terra batida que as chuvadas convertiam em lamaçal até voltar a ser avenida depois de uma hora de sol.

Numa madrugada de finais de 1968 ou início de 1969, a memória já não recorda a data e quanto desejaria esquecer os factos, o quartel acordou com o estrondo de uma explosão a cerca de três quilómetros. O Torres, despertado pela detonação e vestido à pressa, não se atrasou a partir com uma secção reforçada a verificar a ocorrência, seguindo a picada que ladeava a linha do caminho de ferro. Minutos depois viu o guarda-costas do Martins, ferido sem gravidade, e dele colheu as primeiras informações. Restou seguir o rasto de sangue depois de os soldados terem procedido à macabra recolha de despojos humanos, pedaços de corpo espalhados, incluído o dedo que guardou a aliança.

Algumas centenas de metros depois, quando os carris tomavam a inclinação ascendente, lá estava, imobilizada, a zorra. No lugar do condutor estava sentado o que restava de um corpo, aquilo a que ficou reduzido o Zé Martins. Uma granada de bazuca atingiu-o em cheio na espera que lhe fizeram, obra da Frelimo, execução ou vingança, já não importa.

A granada decepou literalmente o corpo, desde o ombro esquerdo, levando o mamilo direito, num tétrico plano oblíquo que espalhou pedaços em redor. Os restos do Martins foram transportados, com lágrimas e terra, por soldados que os juntaram à parte inferior do corpo, num saco de plástico opaco, antes de acabarem na urna que iria para a Missão de Massangulo, em cujo cemitério foram sepultados.

No dia do funeral o major Beirão pediu-me para comandar a escolta que lhe concederia honras militares, a salva de tiros que, em zona de guerra, equiparava civis caucasianos a soldados. Alegou que eu era visita de casa dele, era verdade, onde jantei várias vezes a seu convite. Não era difícil gritar as ordens em que a última seria: fogo! E assim foi.

Depois disso bastaria um olhar para que a urna descesse à cova e o coveiro lançasse a primeira pazada de terra antes de se ouvir o som cavo da pancada na madeira da urna. Só não contei que, antes disso, o pai do Martins, que viera de Lourenço Marques, dilacerado, se abeirasse de mim e, ajoelhando, com a voz embargada, suplicasse para deixar abrir o caixão. Para dar ao filho um último beijo, na testa.

Ficaram suspensos os que empunhavam as cordas que desceram a urna. O meu olhar ou alguma lágrima foi o sinal para continuarem.

Um «não» impercetível perdeu-se no espaço lúgubre do cemitério da Missão enquanto o padre cobria com orações o silêncio e a imagem de um homem dilacerado pela perda do filho.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, Setembro 24, 2014

24 de sembro de 2014

Era o homem que afirmava que sentiria a pior vergonha se tivesse um filho gatuno, que perder os pais era uma dor que não se apagava, mas perder um filho seria insuportável. Sabia que o sofrimento nunca é para quem parte e sempre para quem fica.

Nunca o vi ajoelhado, republicano e laico, tendo como referência os homens da primeira República, na sua austeridade, dedicação ao serviço público e princípios éticos de quem se rege por valores e não transige.

Quando o filho mais velho foi para a guerra colonial deu a um cão o nome de Manholas, o epíteto por que era conhecido o ditador, e, mais tarde, crismou de Apirético a um gato, quando o boletim clínico diário do referido ditador anunciava que «Sua Excelência» se mantinha apirético.

Era um homem bom e justo. Generoso e incorruptível. Merecia que os filhos e os netos se reunissem hoje com as famílias que formaram e os bisnetos que vieram, no almoço que evocasse o casal donde saíram, o casamento de 56 anos, o amor que desfrutaram e o exemplo que herdaram.

A vida trocou-me as voltas, a família reparte-se por vários países, nunca mais estaremos todos juntos, mas hoje nenhum dos quatro filhos esquece que o pai faria 100 anos.

A demissão de Gallardón – coerência e intolerância

Alberto Ruiz Gallardón pôs fim a uma carreira política de trinta anos e às aspirações de quem liderou o município e a Comunidade de Madrid e exerceu os mais altos cargos no Partido Popular espanhol. Ontem demitiu-se de ministro da Justiça, da liderança do PP e de deputado, anunciando a renúncia irrevogável à vida política.

O antigo aluno dos jesuítas, devoto e reacionário, na demente obsessão misógina, quis revogar o direito de as mulheres abortarem em casos de malformação fetal. Só o risco de saúde física, psíquica e de vida e a violação da mulher ficavam ao abrigo de sanções penais nos casos de IVG.

O projeto de lei de Gallardón, encomendado pelo PP, tinha sido aprovado em Conselho de Ministros mas as sondagens esmagadoras que o repudiavam e as convulsões sociais, dentro do próprio partido, fizeram recuar Rajoy, que, pragmático, preferiu esquecer as promessas, temendo as próximas eleições, e sujeitar-se à herança legislativa do PSOE.

Deve admirar-se em Gallardón a coerência e a determinação, enaltecer-lhe o carácter e apreciar-lhe a decisão. As suas ideias podem merecer discordância mas são legítimas. O que o torna obsoleto e censurável é querer impor as suas ideias através dos tribunais e da polícia. A lei atual não obriga ao aborto, legitima-o apenas, porque os princípios que a informam não são alheios ao sofrimento das mulheres a quem a ecografia revela fetos anencéfalos, com trissomias, espinha bífida ou outras malformações incompatíveis, ou não, com a vida.

Querer sujeitar ao Código Penal as mulheres, nessas situações, e aumentar o desespero dos casais, é tão demente como prender uma dessas mulheres para a obrigar a abortar.

O Estado Islâmico e a geoestratégia

A alegada coligação internacional já está a invadir a Síria, com alvos que não são claros, e, a partir daí, pode desestabilizar todo o Médio Oriente.

Entretanto, atingiram os mais altos postos da organização terrorista os oficiais que não são árabes. São georgianos e chineses que, no futuro, podem levar a guerra à Rússia e à China.

Eu não acredito em bruxas mas acredito que a Nato existe.