sábado, abril 25, 2015

Autocrítica ou recado do PSD?

"Ao fim de quatro décadas de democracia, os agentes políticos devem compreender, de uma vez por todas, que a necessidade de compromissos interpartidários é intrínseca ao nosso sistema político e que os portugueses não se reveem em formas de intervenção que fomentam o conflito e a crispação e que colocam os interesses partidários de ocasião acima do superior interesse nacional", afirmou o chefe de Estado na sessão solene do 25 de Abril, na Assembleia da República.

25 de Abril de 2015 – Aos capitães de Abril

Tecendo a manhã de todas as esperanças, o MFA fez raiar a mais radiosa de todas as auroras naquele distante ano de 1974. Abril era mês e 25 o dia resgatado do calendário para o sonho coletivo da liberdade, com cravos floridos nos canos das espingardas.

Nunca uma revolução fez tanto, em tantos séculos de país, para, de um só golpe, abrir prisões, derrubar a censura e abrir as portas da democracia. O 25 de Abril não é um dia, é o dia da História e das nossas vidas, o dia inapagável que traçou a baliza e a marca, o antes e o depois, do cárcere à liberdade, da ditadura à democracia, da guerra à paz.

Foi o dia em que os capitães, que fizeram a guerra, impuseram a paz, numa epopeia em que a coragem de um dia resgatou do opróbrio da ditadura um povo amordaçado.

Ao comemorar os 41 anos da data que os democratas trazem dentro de si, na mágoa de verem os que o traíram, alérgicos ao cravo e ao povo que os elegeu, recordamos a gesta heroica dos que arriscaram a vida para nos devolverem o direito de decidir o destino.

Da guerra sem fim, da discriminação da mulher, da censura e dos cárceres, dos bufos e rebufos, resta hoje a amarga presença dos notálgicos da ditadura, de ingratos e traidores, esperando que o 41.º aniversário seja o último que ostracize os capitães que nos deram o direito ao sonho e à liberdade e o primeiro que sirva de epitáfio a quem os trai.

No sonho de outras manhãs que nos libertem do pesadelo da pobreza, do desemprego e da vingança contra Abril, deixo o poema do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto:

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(João Cabral de Melo Neto)

sexta-feira, abril 24, 2015

Pailobo – uma aldeia privada das suas gentes (Crónica)


Quando aos 8 ou 9 anos, montado na albarda de uma burra com o dobro da minha idade e paciência, fazia sozinho uma longa jornada, havia de julgar-me adulto e envaidecido quando me cruzava com alguém nos caminhos quase desertos que da Miuzela do Côa conduziam a Monte Perobolço, uma légua bem medida.

Só a inabalável afoiteza daqueles avós maternos, tão meigos e orgulhados do primeiro neto que lhes coube, permitia que confiassem à criança, a besta, a missão que levava e o dinheiro que pagava a mercadoria.

Partia de manhã, cedo, pela fresquinha, bem comido, com a burra aparelhada a preceito, a cilha bem apertada, não fosse a albarda virar-se, o cabresto ajustado e, sobre a manta garrida, os alforges destinados a regressarem cheios.
Já levava uma boa meia hora de caminho quando, montado na burra, passava o Noémi a vau, junto às poldras, a caminho de Pailobo. Era uma pequena aldeia com pouco mais de uma centena de habitantes onde logo era reconhecido e me perguntavam pelos avós, mas o peito inchava quando indagavam se ia sozinho, e viam bem que ia. A subida era íngreme, ou assim me parecia, desde a ribeira até à aldeia onde, à vinda, de tudo o que me ofereciam, aceitava, quando o sol abrasava, o púcaro de água fresca do cântaro de barro, da Malhada Sorda, que jazia numa cozinha.

Pailobo era povoação pequena, comparada com a Miuzela, que tinha para cima de 800 pessoas, e era ponto de passagem obrigatório para quem se dirigia a Monte Perobolço, a menor distância do que a que a separava da Parada do Côa de cuja freguesia era anexa.

Em Monte Perobolço, saltava da burra, prendia o rabeiro à ferradura metida na parede, que servia de argola, e entrava no estabelecimento do Sr. José Simões que abastecia de tabaco as aldeias em redor. Era recebido com alegria, tão pequenino e vem sozinho da Miuzela, como vão os avozinhos, então a encomenda é grande, e lá puxava eu do papel onde a avó escrevia os nomes e quantidades de tabaco que pretendia.

As embalagens enchiam os alforges, do Kentucky, de 12 cigarros, conhecido por mata-ratos, com uma cinta onde se lia o preço de venda ao público, $80, até às caixas de 10 maços de 20 cigarros, de Português Suave, Paris ou Três Vintes (20-20-20), e aos mais populares Definitivos e Provisórios, grandes e pequenos, respetivamente com 24 e 12 cigarros. Onças de tabaco Superior e Holandês, com outros tantos livros de mortalhas, e cigarros de outras marcas, da Tabaqueira ou da Companhia Nacional de Tabacos, hoje desaparecidos, e cujo nome fui esquecendo, completavam a encomenda.

Depois de criança voltei a Pailobo algumas vezes para comer as perdizes caçadas pelo Manuel da Cabreira, o famoso Manuel Caçador, a quem se pagava o dia de trabalho, os cartuchos, o chumbo, a pólvora e as buchas para abater à roda de vinte perdizes que a mulher, a Sr.ª Alice, estufava primorosamente . Era o tempo em que as perdizes eram mais numerosas do que os caçadores e, nessas tardes, com o meu tio Brardo, o Sr. Zé Rita, o Sr. Messias Pereira e outros, passávamos a tarde, bem comidos e bebidos, a jogar à sueca e a conversar.

Depois dos 20 anos não voltei a tal aldeia. Soube da existência de um cemitério, velho anseio do povo, que o 25 de Abril concretizou, quando surgiu o primeiro defunto capaz de gozar o melhoramento, não porque tivesse sido notícia a obra, mas porque o morto, o António Pereira, tratado por Seabra, recusou um cemitério privativo, ou alguém por ele, e, como era hábito, foi para o da Parada, destino usual para a defunção das pessoas de Pailobo. Outros morreram e ficaram nas terras onde acabaram os dias, antes do Manuel Pereira, o Micas, ter inaugurado o cemitério que, desde aí, passou a cumprir a função.

Em 23 de agosto de 2013 voltei a Pailobo. O fogo andou lá, há pouco, e os lanchais que descem até ao Noémi estão ardidos, só mostram as pedras tisnadas, como tisnadas estão as pontas dos arbustos que atravancam o caminho para Monte Perobolço. Sucedeu pior, há anos, quando um pavoroso incêndio ligou a Miuzela a Pailobo, sem poupar a capela de Santo Antão, alheio à santidade do edifício e à aflição das pessoas.

Hoje, a capela está fechada, como cerrada está a capela do Calvário onde o patrono que decorava a fachada, S. Sebastião, foi apeado, e fechado dentro, por mor dos ladrões que não respeitam a memória pia do que foi uma pequena aldeia com gente, hoje espalhada pelo mundo, a recordar a procissão de 16 de janeiro, quando o andor de Santo Antão ia em visita a S. Sebastião e voltava, depois da missa, com foguetes e cânticos religiosos.

Junto à capela do Calvário ainda resiste o Cruzeiro que os da Parada já levavam quando um trator lhes franqueou a passagem e os obrigou a devolvê-lo à peanha que o sustenta.

Na aldeia moram agora três viúvas, uma de 87 anos, que vive sozinha, e outra de 91 que está acompanhada de uma filha, também viúva, mas, durante o inverno passado, só um homem de 55 anos, padeiro em Pínzio, que no regresso vende, em várias aldeias, o pão que ajuda a fabricar, foi o persistente morador celibatário, duplamente solitário.

A Sr.ª Maria Romeira, viúva de Messias Pereira, cujos 91 anos já referi, disse-me que o Zé Rita e a mulher, nascidos em 1913, estavam no lar de Vela, no concelho da Guarda. É rija aquela gente e o coração não renega a aldeia de Pailobo onde, no posto escolar em ruínas, trepava pela parede uma parreira com dois cachos em maturação tardia.

Nas casas abandonadas da aldeia saem dos telhados dezenas de antenas de televisão que o vento vai torcendo enquanto o silêncio toma conta do espaço onde a vida se extingue numa dolorosa metáfora do país que arde.

Jornal do Fundão – 23-04-2015

Viva o 25 de Abril, Sempre!

É amanhã

Amanhã celebrarmos o 41.º aniversário da data que venceu a censura, a tirania e o crime. Nunca, como hoje, foi tão grande o desamor dos mais altos dignitários à data emblemática da nossa História, à Revolução que mais longe levou a paz e a democracia, aos heróis que a fizeram e consolidaram, para as entregarem ao povo organizado em partidos.

Quem mais lhes deve é quem mais os despreza. É por isso que os meus adversários são esses que aí ficam a olhar para nós, cheios de azia, sem qualquer gratidão para quem devem o que são e sem vergonha de serem como são.

quinta-feira, abril 23, 2015

Conventos, ‘vida’ monástica e liberdade

As religiões têm casas de reclusão, a pretexto da piedade e da oração, onde encarceram débeis de vontade, fanáticos do divino ou devotos depressivos. Às vezes são as vítimas de famílias que lhes querem confiscar a herança, de coação ou de chantagem. Têm, em regra, uma hierarquia rígida, uma disciplina despótica e um tratamento desumano. Bem sabemos que é para maior glória de Deus e para gozo da Santa Madre Igreja.

Os conventos estão atribuídos a Ordens, consoante as patologias. Uns dedicam-se à contemplação, outros ao silêncio, vários à autoflagelação, quase sempre em acumulação de diversas perversões que, no caso da ICAR, são autorizadas pelo Papa e conduzem em regra o/a fundador/a à canonização.

Admitamos que as vítimas se encarceram de livre vontade, que o desejo do Paraíso as inclina para o masoquismo, que a ociosidade as anula, que a inteligência, a vontade e os sentimentos se consomem na estéril clausura e na violência dos votos. Aceitemos que há seres racionais a crerem que, algures, um deus aprecia a alienação, o sofrimento e a violência. Imaginemos um Deus que se baba de gozo com ambientes concentracionários despoticamente defendidos por madres ou frades ungidos do direito à tirania.

A título de exemplo lembro a Ordem das Carmelitas onde, só a título muito excecional, é permitido falar. E essa magnânima autorização tem fortes grades a proteger qualquer encontro. É nestes ambientes carcerários, privados de nome, de pertences e de memória, que exércitos de inúteis vestidos de forma bizarra se encontram ao serviço do Papa.

Na Irlanda, há anos, o Governo foi constrangido a averiguar o que se passava no campo de concentração «As irmãs de Maria Madalena», tendo fechado a espelunca e libertado as vítimas, condenadas a prisão perpétua pelas próprias famílias, por terem sido mães solteiras ou, apenas, demasiado bonitas, perigosas na sedução dos homens.

Será possível que os Governos democráticos, a quem cabe a defesa da Constituição, o dever de respeitar e fazer respeitar os direitos e liberdades dos cidadãos, se conformem com a renúncia à cidadania e não averiguem se é de livre vontade que bandos de frades e freiras façam de lúgubres conventos o mausoléu da vida?

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, abril 22, 2015

A desvalorização do órgão da soberania PR

A decadência ética do regime e a degradação de um módico de dignidade das funções de Estado atingiram, com esta maioria, este Governo e este PR um ponto insuportável para o regular funcionamento das instituições.

À erosão acentuada da decência e dignidade das funções presidenciais não é alheio o perfil do atual titular, mas não se pode absolver de responsabilidades esta maioria e este Governo que, à solta, deixaram enxovalhar quem é seu cúmplice.

Que pensará o País, o que pensa, de receber a notícia da ida de 30 militares portugueses para o Iraque, destinados a combater contra o Estado Islâmico (EI), através do chefe da diplomacia dos Estados Unidos? O PR e o PM ocultaram aos portugueses a informação sobre o envolvimento nacional. Retribuem o desprezo que os cidadãos lhes devotam.

Hoje, lê-se no DN, pág. 15, num artigo assinado por M.C.F., este último parágrafo: «O CSDN reúne-se hoje para autorizar o envio de caças F-16 para a Roménia, anunciado por Bucareste quando o Presidente da República desconhecia a missão e a composição dessa força».

Claro que assinará o que o Governo lhe impuser. O Comandante Supremo das Forças Armadas nem o prestígio destas salvaguardará. Quanto ao seu já nada tem a perder. O Governo, que tanto lhe deve, não o ajudou a terminar o mandato com dignidade.

Que saudade de Jorge Sampaio, que impediu as FA de participarem no crime da invasão do Iraque para o qual Durão Barroso as quis empurrar.



O ministro da Saúde, os hospitais e as mamas

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A aura de santidade, que as missas e o cilício conferiram ao contabilista, pode exaurir-se na coação de mulheres obrigadas a espremer as mamas para provarem que amamentam os filhos.

É verdade que o Governo, especialmente o ministro dos hospitais ainda não encerrados, está habituado a espremer a teta, no duplo sentido da expressão. O que não se imaginava era a sujeição da mulher ao opróbrio de exibir a mama ao inquiridor para lha apertar ou, segundo uma enfermeira, ser a própria a espremer o leite das mamas à frente de médicos de saúde ocupacional.

O Dr. Paulo Macedo cuja competência, em saúde, é um boato do tamanho da inaptidão do seu Governo, talvez um mito urbano, não pode colocar à frente dos hospitais quem, sendo fiel a este Governo, possa ignorar os métodos biológicos que permitem detetar as fraudes, que justamente se devem combater, com doseamentos hormonais adequados.

A violação gratuita da intimidade feminina é um ato indigno saído do espírito misógino de quem o ordenou ou de quem, sem mãe, irmãs, filhas ou mulher, tem a sensibilidade de um crocodilo.

terça-feira, abril 21, 2015

Portugal e o Estado Islâmico

Dentro da coerência que procuro, regozijo-me com a presença, embora simbólica, de 30 militares portugueses no combate ao Estado Islâmico. É a defesa da civilização contra a barbárie. É um sinal de que não permitiremos que a sharia substitua a democracia.

Só lamento que o PR e o PM tenham ocultado a informação aos portugueses e que fosse   o chefe da diplomacia dos Estados Unidos a dar a notícia, antes do encontro com Rui Machete, agradecendo o envolvimento de Portugal no combate contra o EI no Iraque.

Acontece, quando os dirigentes de um país estão de joelhos. Acabam a rastejar, sem que os aliados respeitem o protetorado.


Madeira

Miguel Albuquerque, novo governador, propôs a limitação de mandatos e o fim da acumulação de reformas e vencimentos, à semelhança do que vigora no Continente. É louvável a aceitação da legalidade democrática e do corte com o passado. Afigura-se que, depois das trapalhadas eleitorais, a normalidade democrática, interrompida em 28 de maio de 1926, acabará por chegar à Madeira.

Curiosamente, pela mão do PSD que ali prolongou o salazarismo durante 41 anos!

segunda-feira, abril 20, 2015

A TAP, a reforma administrativa e outros desmandos

O bando que gerou esta maioria e o Governo, que se apoderou do PSD e do poder com a cumplicidade do PR, ignorou a reforma administrativa a que estava obrigado, mantendo um mapa autárquico obsoleto. Foi a oportunidade perdida na cosmética inócua da fusão de umas dúzias de freguesias, conservando concelhos sem massa crítica, freguesias com falsos habitantes e a manutenção faraónica de lugares político-partidários, no aparelho de Estado, nas Regiões Autónomas, Assembleias regionais, municipais e de freguesias, as redes de caciques que interessam a todos os partidos.

Este Governo, onde coexistem ressentidos com o 25 de Abril, nostálgicos salazaristas e académicos politicamente incapazes, fez do País o laboratório político de experiências fracassadas e a desforra contra a saúde, a cultura e o ensino do Estado.

Deixado à solta pelo PR, ou com o PR preso, sabe-se lá porquê, o Governo apostou em deixar uma herança pior do que recebeu, com os portugueses espoliados de anéis e com vontade de lhes amputar os dedos, ansioso de exonerar o Estado das funções sociais.

Deixemos os crimes contra o Estado democrático para outros textos, bem como a venda de ativos estratégicos onde avultaram empresas de vanguarda científica e tecnológica.

A TAP é uma obsessão ideológica de quem mentiu para explicar a venda inadiável. Para o bando da comissão liquidatária do País, não contam interesses estratégicos, o turismo que comprometem ou o valor simbólico.

Convém aqui dizer que os pilotos da TAP se comportam como aliados do Governo que aparentemente combatem. No início da Revolução exigiram a isenção de impostos, hoje não fazem greve contra a privatização, mas contra a impossibilidade de confiscarem em proveito próprio, em benefício restrito da casta, uma parcela da empresa, sem qualquer preocupação com a viabilidade da empresa e o futuro dos outros trabalhadores.

Parece que os partidos de esquerda temem afrontar greves injustas. Não se trata de uma greve de funcionários modestos, que reivindicam 2% ou 3%  de aumento salarial, mas de pilotos que pretendem locupletar-se com parte da venda numa dupla imoralidade, a exigência do que não é seu e a indiferença pela venda em que o Governo insiste.

domingo, abril 19, 2015

Para memória futura

A FRASE
«A reforma da Segurança Social para a qual apelam ao consenso dos partidos da troika é para liquidar a Segurança Social pública e esmagar de forma brutal o valor das pensões e das reformas»
(Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP)

A BOÇALIDADE SECTÁRIA:
«Apesar de ter servido em governos do Partido Socialista, (…)
(Pedro Passos Coelho, a iniciar o elogio fúnebre de Mariano Gago)

A TRAGÉDIA INSUPORTÁVEL
Várias centenas de pessoas terão morrido esta noite no Mediterrâneo, em mais um naufrágio entre as costas da Líbia e a ilha italiana de Lampedusa. Foram resgatadas 28 pessoas, mas a bordo da embarcação estariam cerca de 700.
(Notícia  de hoje)


Os meandros e os calendários nas negociações UE, FMI e Grécia …


A UE tem dado mostras que se encaminha para adoptar o ‘Grexit’ julgando que essa fractura (e factura) não terá consequências de maior e a libertará do ‘problema helénico’, deixando os gregos entregues à sua sorte.
Na reunião de Primavera do FMI de há 2 dias, Jacob Lew (Secretário de Estado do Tesouro dos EUA) advertiu o presidente do Euro Grupo, Jeroen Dijsselbloem, que não chegar a um acordo [entre as ‘instituições’ e a Grécia] “criaria problemas imediatos para a Grécia e incertezas para a Europa e para a economia mundial como um todolink.

Esta recente versão desmente o postulado germânico, defendido por Angela Merkel, e ‘imposto’ aos parceiros europeus, de que  a saída da Grécia  da Zona Euro (‘Grexit’) não teria consequências de maior para a UE. 
Trata-se de uma posição política que a julgar pelo anunciado não é recente, nem decorre das negociações em curos ente a UE e o novo governo grego dirigido pelo Syriza de Alexis Tsipras link . O artigo do Der Spiegel (online), de 5 de Janeiro de 2015 (o novo governo grego decorre dos resultados eleitorais de 25 de Janeiro), já mencionava – com um ‘avanço’ de 3 semanas - essa estratégia política link.

A substituição da ‘teoria do dominó’, i. e., do ‘contágio’ que a aceitação das reivindicações do novo governo grego poderia provocar noutros paíse europeus que têm mostrado resistências às políticas austeritárias emanadas de Berlim, pela ‘teoria da cadeia’, que poderia tornar os elos mais fortes com ‘o expurgo’ dos contestatários é a nova nuance política construída pela dupla Merkel/Schauble.

A intervenção dos EUA, há 2 dias, veio recolocar o problema grego numa dimensão geopolítica e estratégica que Berlim faz questão em ignorar. Por outro lado, a pressão que vem sendo feita por Berlim, Bruxelas e Frankfurt à volta do espectro de um ‘incumprimento’ grego, poderá ser aliviado pelo recente acordo Atenas – Moscovo sobre o gasoduto Turkish Stream (previsto para ser assinado em 21 de Abril) link, já que prevê a entrada de 5.000 milhões de dolares nos cofres helénicos. 
Esta ‘folga’ deverá ser aproveitada por ambas as partes mas, efectivamente, joga contra os interesses de  Berlim que desejaria ‘arrumar’ liminar e rapidamente o novo governo de Atenas, transformando-o num exemplo (teoria da 'vacina') para os outros países europeus.

Esta estreiteza de visão a par da cega obsessão pela austeridade poderá ter custos mais elevados do que ‘ajudar’ a Grécia, vítima de um programa de intervenção absurdo, incompetente e fracassado.
Aliás, os saldos das intervenções externas levados a cabo pelas ‘instituições internacionais’ (FMI, BCE e CE) em Portugal, Irlanda, Chipre e, noutra medida (sem programa explicito), em Espanha e Itália, estão longe ser os êxitos que Berlim teima em apresentar e 'incensar' como uma miraculosa confirmação da chamada ‘austeridade expansiva’.

O futuro (não tão distante como é suposto) nos dirá de sua justiça. Mas o arrastar das negociações entre a UE, FMI e a Grécia transmite-nos a ideia que, para já, o impasse assemelha-se mais a ‘gato escondido com o rabo de fora’. E sabemos que o tempo sempre jogou contra os embustes.

Recordações…

Há dias estive com o Dr. Guedes Pinto, um velho gastrenterologista a quem a solidão, a idade e a falta de saúde vão arruinando os dias. É uma excelente pessoa, que conheci no exercício da profissão e com quem fui estabelecendo laços de simpatia e estima, que me dói ver na decrepitude que o atinge. É a vida, a previsão do que me pode esperar.

Há cerca de 40 anos tive uma história que a vergonha me devia impedir de contar mas a catarse das cenas ridículas está feita, há muito, na sublimação permanente que aprendi, rindo-me de mim próprio.

Estávamos no velho Hospital da Universidade de Coimbra, à entrada do serviço onde ele prestava serviço. Era um ponto de conversa habitual e o Guedes Pinto um agradável interlocutor. Sob o claustro do antigo convento, não sei do que falámos antes e, a certa altura, já na presença de outro colega meu, o Beto Rebelo, o médico dispara-me:

- Ó Esperança!
- …
- Então no sábado!...
- Ah! – respondi, a ganhar tempo.
- Vai ser memorável…
- Pois…
- Não nos vamos esquecer…
- Não…
- Que jogo!...
- Sim. E respirei de alívio por ter descoberto que se tratava de um jogo. De futebol.
- Há muito que não vemos um jogo assim…
- Pois não…
- São duas grandes equipas.
- Sem dúvida…
- Vai ser um grade jogo.
- Se vai!
- Lá estaremos a ver…
- Claro. E, farto de responder com monólogos, olhando a chuva miudinha que caía no jardim interior do Hospital, resolvi antecipar-me: «O pior é se chove»!

E vi o ar de surpresa do Dr. Guedes Pinto onde transparecia a estupefação clara de quem julgava estar com uma pessoa normal e que – como via –, era um idiota. A cara do Beto, vizinho, colega e amigo, era de desolação. Há muito que ele queria que eu me calasse, conhecia bem a minha ignorância futebolística.

O Dr. Guedes Pinto foi chamado e levou para a enfermaria aquele ar de espanto por ter falado com um indivíduo que julgava normal e, afinal, não regulava bem.

Foi então que o Beto me esclareceu: já previa que metias o pé na poça, quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão, não sabes que o jogo de sábado, entre (já não sei que clubes), é na televisão. Joga-se na Dinamarca.

Se contasse todas as cenas ridículas que vieram ter comigo ao longo da vida não parava mais. E ainda não aprendi a prudência que uns têm por virtude e eu por cálculo.


sábado, abril 18, 2015

SONDAGEM RECENTE

PS DESCE

PSD SOBE

PCP REGOZIJA-SE COM ESSES RESULTADOS

Foi ontem publicada uma sondagem da Eurosondagem para o Expresso e a SIC, da qual resulta que o PSD sobe 1,25 %, enquanto o PS desce 0,6%.

Ainda não ouvi ninguém do PSD exultar, nem ninguém do PS lamentar-se.

Mas do PC já vi alguns militantes e simpatizantes (aqueles a quem Lenin chamava "idiotas úteis") manifestar o seu contentamento. Isto demonstra mais uma vez que o PC elegeu o PS como seu inimigo principal, gastando mais tempo e energia a combatê-lo do que a combater o governo, e que pratica a política do "quanto pior melhor". Depois proclama que pretende a unidade da esquerda, mas a "esquerda" resume-se a ele próprio e aos "Verdes", que juntos ficam muito abaixo dos 15% dos votos!

Hão de ir longe com tal "ampla coligação"...

Factos & documentos


Os crentes e a tolerância

O aparecimento de crentes tolerantes vai-se tornando uma constante a que urge estar atento. É um fenómeno das sociedades democráticas onde a secularização exerce a sua pedagogia. Tal como o ateísmo, a religião não faz ninguém bom, mas não estraga todos por igual. Os livros sagrados refletem a violência da época e a idiossincrasia de quem os escreveu, mas são poucos os crentes que os leem e menos os que os levam a sério.

A verdade revelada dos quatro livros escolhidos no consulado de Constantino teve mais a ver com os interesses do Império Romano do que com a fé do Imperador. Esses livros, evangelhos, refletiam interesses políticos que se tornaram essenciais para a organização política da ICAR e a conquista do poder temporal que logrou. O mesmo aconteceu com a Tora, primeiro, e o Alcorão, depois.

Curiosamente, ainda hoje a ICAR vai buscar aos evangelhos que ela própria declarou apócrifos factos e personagens a que atribui valor canónico. É o caso de Ana e Joaquim, proclamados santos e atribuídos a Jesus, como avós maternos cuja vida e existência os «verdadeiros» omitem.

Excetuando épocas de crise em que o sentido literal da Tora, Bíblia e Alcorão são objeto de um proselitismo infrene, a tendência vai no sentido da relativização dos textos e o cumprimento da vontade de Deus aligeira-se como se o próprio, suspeito de Alzheimer, ficasse sob suspeita.

Com crentes tolerantes e civilizados é possível alargar os espaços democráticos e levar o respeito pelos direitos humanos a regiões onde é desconhecido. Seria trágico que, por questões de assepsia, os ateus recusassem dar as mãos aos crentes, de qualquer credo, que sobrepusessem o espírito da paz à paranoia do proselitismo. Basta, para desgraça, que a inversa se verifique.

Quando a sabedoria, a diversidade cultural e a miscigenação aproximam os povos, aumenta no seio das diversas religiões, o pavor da perda do poder, o horror à extinção, a volúpia da hegemonia e a obsessão totalitária da verdade única.

O clero tem reflexos tribais, que urge conter com a laicidade, e tendências prosélitas que a separação da Igreja e do Estado atenuam. A tendência totalitária, que a sociedade civil deve refrear, precisa de uma vacina que permita a vitória da paz, da liberdade e do livre-pensamento. A laicidade é essa vacina e interessa a ateus, crentes e agnósticos.

A liberdade religiosa, reconhecida pela primeira vez, pela Igreja católica, no concílio Vaticano II, foi vista com azedume por João Paulo II e Bento XVI, mas a reafirmação recente, explícita e veemente, pelo Papa Francisco, dá à sua Igreja autoridade moral.

ICAR = Igreja Católica Apostólica Romana