segunda-feira, maio 30, 2016

As frases

«O cinismo com que PSD e CDS falam de despedimentos de professores nas escolas com contratos de associação fica bem patente na política de encerramentos e cortes e cortes de mais de três mil milhões de euros nos últimos quatro anos na educação e que teve, entre outras consequências, o despedimento de 28.000 professores.»

(Jerónimo de Sousa, líder do PCP, sobre luta dos colégios com contratos de associação)

***

«Não é evidente que uma escola que presta um bom serviço, que tem bons resultados, que é a preferida pelos pais e que não custa mais para o Estado, deva ser sacrificada só porque ao lado há uma escola pública estatal que deve ser sempre mantida.»

(Assunção Cristas, líder do CDS, sobre luta dos colégios com contratos de associação)

Fonte: DN, hoje

A peregrinação das esmolas

Ungidos pelos bispos, os apóstolos das escolas privadas pagas com dinheiros públicos, organizaram uma cruzada para conquistar Lisboa aos mouros. Nos púlpitos, pregadores incitaram os fiéis. Agitaram-se as mitras, ergueram-se anelões, brandiram-se os báculos, foram concedidas indulgências plenas aos peregrinos e lançada uma fatwa ao Governo.

Sem novenas, missas ou orações pias, mal confessados e pior comungados, fizeram-se à estrada os peregrinos, a exigir o dízimo aos excomungados. No bornal ia a rasteira que pregaram ao PR e a mentira engendrada do Tribunal de Contas. Como ensina a sharia romana, é lícito mentir em benefício de Deus; o ensino privado não é sacramento, por lapso, e os contratos de associação não são o 11.º mandamento, por não caberem no decálogo.

Os colégios, para cujo funcionamento os senhores bispos reclamam o dízimo, situam-se em zonas pobres, para filhos de operários e trabalhadores rurais. São colégios de Viana do Castelo (2) [Caminha-1 e Cerveira-1]; Braga (8) [Braga-3, Barcelos-2, Famalicão-2 e Vizela-1]; Porto (4) [Amarante-1, Gondomar-1, Santo Tirso-1 e Trofa-1]; Vila Real (1); Aveiro (4) [Aveiro-2, Feira-1 e Mogofores-1]; Viseu (1) [Lamego]; Guarda (2) [Seia-1 e Arrifana-1], Castelo Branco (3) [Covilhã-1, Sertã-1 e Proença a Nova-1], Coimbra (8) [Coimbra-7 e Figueira da Foz-1]; Leiria (3) [Leiria-1, Ansião-1 e Caldas da Rainha-1]; Lisboa (1).

Nestas localidades, onde não chegou o ensino oficial, o direito de escolha é a exigência que o episcopado reclama e a caridade exige.

Nota: A lista que publico, de boa fé, dos colégios que perderam contratos de associação, é a que me chegou. Agradeço a vigilância dos leitores. O parasitismo não se combate com mentiras. Não podemos usar os mesmos métodos.

domingo, maio 29, 2016

Argentina – Julgamento da ditadura militar

Começou na passada quarta-feira o julgamento de criminosos do Plano Condor que, de forma concertada, perseguiram e eliminaram opositores de 7 ditaduras sul-americanas, com os ditadores conluiados.

Pinochet foi o paradigma da crueldade. Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Perú e Uruguai são países que choram mortos e desaparecidos, na orgia de sangue e violência ordenada por ditadores que, nas décadas de 70 e 80 do Século XX, assaltaram o poder.

Muitos assassinos e mandantes morreram impunes, mas nunca é tarde para julgar crimes e devolver a reparação possível às famílias das vítimas. Para muitas é a resposta tardia ao destino que coube aos entes queridos. Jorge Videla (1976-1981) e Reynaldo Bignone (1982-1983), ditadores argentinos ainda terão o julgamento justo que negaram aos que fizeram desaparecer e mandaram assassinar sumariamente.

À medida que os EUA forem desclassificando documentos, permitindo acesso público, será feito o inventário do período tenebroso em que os ditadores combinaram eliminar os adversários. O julgamento em curso inclui o conjunto dos delinquentes das ditaduras dos sete países, também eles associados para a execução dos crimes de Estado.

As Mães da Praça de Maio, angustiadas, sofridas e revoltadas, que se reuniam na Praça de Maio, em Buenos Aires, a exigir notícias de filhos desaparecidos durante a ditadura militar, as que ainda restam, acharão algum lenitivo para a aflição que as foi devorando.

O pior que podia acontecer era o esquecimento, como sucedeu em Portugal e Espanha, no último caso com a suspensão do juiz Baltasar Garzon, o Juiz Central de Instrução do tribunal penal da Audiência Nacional, a última instância na Espanha. Conseguiram os franquistas que os crimes do maior genocida ibérico, de todos os tempos, ficassem por investigar e os cadáveres por exumar.

Os povos que esquecem a História ficam mais vulneráveis à repetição das tragédias.

sábado, maio 28, 2016

América do Sul: Os macabros voos do condor….

Afinal, após a desclassificação de documentos, verifica-se que a chamada ‘Operação Condor’ não foi uma invenção da Esquerda para ‘alimentar’ a subversão na América do Sul.

A Argentina de posse de novas provas documentais, nomeadamente a acta subscrita pelos 6 ditadores no poder em Santiago do Chile a 28.12.1975, sob os auspícios de Pinochet, onde (con)firmam um sinistro pacto entre as ditaduras sul-americanas (Brasil, Chile, Argentina, Bolívia, Uruguai e Paraguai) acabou por condenar alguns dos carrascos do seu povo que permanecem ainda vivos, ao contrário dos opositores sistematicamente eliminados por combaterem pela Liberdade link.

Trata-se de um levantar do véu sobre a ignominiosa política de assassinatos políticos que infectou as relações internacionais neste Continente nas décadas de 70 e 80. Na realidade, trata-se de uma memória histórica que deve ser esclarecidamente investigada e desvendada aos vindouros.
Existe, uma outra razão: como alguns (os mais idosos) se devem lembrar os expurgos letais de opositores à ditadura de Pinochet no Chile foram condição sine qua non para os ‘meninos de Chicago’, discípulos de M. Friedman, procederem, no terreno, a uma ‘experiência’ prática das doutrinas económicas neoliberais.

Hoje, o massacre autoritarista conduzido pela manu militar é dispensável. Os carrascos foram substituídos pelos indecifráveis mercados que dificilmente poderão ser indiciados como autores de crimes contra a Humanidade.

Pensando em meu pensamento


Os que amanhã, apoiados pelos bispos, vão vociferar contra os cortes nos contratos com os colégios, junto à AR, são os que se manifestariam a favor dos cortes no Colégio Moderno, v.g., da família Soares, se porventura gozasse de tão obsceno privilégio a instituição criada pelo grande pedagogo, Dr. João Soares.

Eis uma possibilidade de me encontrar em tão má companhia.

28 de maio

Há 90 anos, a República vergou-se à sedição militar, nacionalista e antiparlamentar que lhe pôs termo. O que poderia ser mais um golpe de Estado, transformou-se na ditadura que as forças reacionárias já haviam tentado com Pimenta de Castro e Sidónio Pais.

As sequelas da Primeira Guerra Mundial, nas finanças e na política, a instabilidade, o mal-estar generalizado, a convergência de monárquicos, clérigos e outros fascistas que germinavam no CADC, criaram as condições para a ditadura a que poucos se opuseram na presunção do seu carácter benigno e passageiro. Em comum, todos nutriam um ódio fanático ao parlamentarismo.

De Coimbra, Cerejeira e Salazar seriam os artífices de uma aliança que não restaurou o trono, mas uniu o fascismo português e a Igreja católica, seguindo a Itália de Mussolini como, mais tarde, a Espanha do genocida Franco e vários países europeus. Em Portugal, a reflexão política foi medíocre e, longe de se afirmar numa ideologia clara, aproveitou as rivalidades entre republicanos, o ódio recalcado à República e a inspiração italiana.

Um seminarista que abandonou o seminário e o outro que chegou cedo a cardeal e seria, durante décadas, a figura preponderante da Igreja católica, foram os esteios da ditadura.

Impôs-se o partido único, fortaleceu-se a polícia política e estabeleceu-se a censura. Nos púlpitos e nas escolas a apologia da ditadura e o culto da personalidade do ditador foram uma constante do regime que a cumplicidade externa e o terror interno eternizaram.

Salazar tornou-se o ditador mais longevo do século XX e Portugal o país mais atrasado da Europa.

Hoje, ao assinalar-se o 90.º aniversário do 28 de maio, devemos refletir na precariedade da democracia e ter consciência de que não há liberdades vitalícias. Sirva um dia negro da História para refletir nos perigos que nos espreitam. Durante 48 anos não existiu uma República ou uma Monarquia, houve uma monocracia cujos saudosistas, por ignorância ou vingança, não desistem de ver restaurada com um novo ditador, se possível, eleito.

A União Europeia é um guarda-chuva que ameaça desconjuntar-se com o vendaval que varre a Europa e, em Portugal, os salazaristas não serão sempre tão néscios como os últimos que a democracia alcandorou ao poder.

sexta-feira, maio 27, 2016

O estado a que a direita portuguesa chegou

A direita portuguesa atual, esta direita incubada nas madraças juvenis, geneticamente salazarista e fertilizada pelo ressentimento à descolonização e ao 25 de Abril, tomou o poder, nos partidos que Sá Carneiro e Freitas do Amaral fundaram, e pôs em marcha a contrarrevolução cultural.

Esta direita, pouco instruída, exonerou a ética da práxis política e vive de cumplicidades avulsas e da proteção de interesses instalados. O Partido Popular Europeu (PPE) é cada vez mais sectário e as suas metástases, em Bruxelas, alinham o discurso com esta direita que instala o medo e faz chantagem enquanto se afasta da herança que deixou.

Não surpreende que os altos funcionários europeus se submetam aos amos, espanta-nos que os partidos portugueses possam ser os agentes entusiastas de interesses alheios, sem disfarce nem civilidade.

Hoje, na AR, a deputada Assunção Cristas, uma estudiosa do método de locomoção das vacas, acusou o grupo parlamentar do PS de ser «uma excrescência do Governo», o que pressupõe não saber o significado da palavra ou aceitar-se como tumor da democracia.

A madraça da JSD produziu um cartaz que transforma no genocida Estaline o presidente do sindicato dos professores, Mário Nogueira. Este, pouco cauto, em vez de lhe lembrar quem produziu Passos Coelho, resolveu queixar-se à Justiça.

Na véspera do 90.º aniversário do 28 de maio, Passos Coelho e Assunção Cristas estão para a democracia como os cadetes da trágica data.

Ainda sobre as ‘vacas voadoras’…


Assunção Cristas, a recém-empossada líder do CDS mais parece uma daquelas virginais vestais romanas que se dedicavam a manter sempre vivo o fogo ‘sagrado’. Viviam afastadas do Mundo para mais facilmente manterem as suas castas virtudes. Libertavam-se da autoridade paterna (terá sido esse o caso?) e entravam para o efémero limbo das pré-divindades. 
Neste momento, com mais de 41 anos, Cristas veio a terreiro confessar que só entre 2011 e 2015 (não precisou o ano da revelação) teve a vaga noção que de as vacas não voam link.

Depreende-se que no resto da vida (infância, adolescência e adultícia) andou distante do Mundo animal e não conhecia o gado vacum a não ser através dos bifes que frequentemente voam para cima dos grelhadores.

António Costa deveria saber que o humor e a ironia são refúgios do pensamento imperceptíveis para alguns. Muitos(as) não conseguem descobrir qualquer sentido quando ouvem uma fala metafórica.

Cristas deveria conhecer um dos pensamentos de Florbela Espanca: “A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento”…
E deixar as ‘vacadas’ em paz…

quinta-feira, maio 26, 2016

Milagres em segunda mão

Fica provado que não foi apenas o milagre das rosas que a Rainha Isabel de Aragão copiou da tia-avó, homónima, que já o havia feito na Hungria. Era certamente um truque de família.

Também na Bíblia.


Passos Coelho: “espelho meu…”

Ver-se ao espelho e congeminar aquela postura ‘conheces alguém mais virtuoso do que eu?’ é um exercício de narcisismo que muitos praticam pela calada, no recôndito da sua privacidade, mas trata-se de uma atitude que, quando trazida para o domínio público, cai mal.
Foi exactamente esta a mais recente prestação do ex-primeiro-ministro, Passos Coelho, quando se apressou a avaliar 6 meses de Governo (e 3 de vigência do OE 2016!) invocando, interpretando e adulterando os últimos dados do INE sobre a execução orçamental. Mais uma vez tomou a nuvem por Juno e debitou toda a sua bílis sobre a actual governação.
Grave e estapafúrdia foi a tirada demagógica, populista e perversamente fantasiosa de que “o País está a ser levado para o declínio social, económico e político”. link.

Depois de 4 anos e meio de empobrecimento forçado e, diga-se, da subserviência que, sob a liderança desta avantesma, submeteu o País aos caprichos e experimentações de uma troika, completamente ignorante acerca da realidade nacional, como é possível falar assim?

Se fosse politicamente honesto e tivesse em casa um modesto espelho capaz de reflectir a realidade que o cerca veria que o chamado ‘resgate’ e o pretendido ‘ajustamento’ atiraram (fizeram recuar) o País para níveis económicos similares ao dealbar deste século.

Por outro lado, no campo social, toda a acção dos últimos anos de governação teve como efeito a deterioração da coesão social, através de medidas que levaram à ruptura do ‘contrato social’, com espezinhamento dos direitos sociais e laborais, conduzindo ao agravamento de desigualdades e a uma vergonhosa expansão da pobreza.

No terreno da política, poucos se recordam de uma governação mais prepotente do que a do último governo, onde se contam pelos dedos de uma mão os consensos, ditos, nacionais, onde se transformou a governação no permanente ajoelhar perante inominados e seráficos ‘credores’, em busca de ‘credibilidades’  fantasiosas e, finalmente, onde se violou com reiterado ímpeto normas constitucionais e a crispação (política e social) foi uma permanente e indigente ‘normalidade’.

Quando Passos Coelho invoca o declínio político, social e económico do País provavelmente revela o que silenciosamente deseja e está à espera. Anseia é pela deterioração do regime democrático, por uma nova intervenção externa, pelo (re)assumir de funções de ‘capataz dos mercados’, através de um ‘golpe mágico’ que lhe permitisse prosseguir a mesma política dos últimos 4 anos, muito embora não tenha logrado obter a maioria dos votos dos portugueses.

Aliás, a postura evidenciada pelo actual ‘chefe’ da Oposição é a de ‘espera’, emboscada nas suas visões e confusões neoliberais, não sendo capaz de entender que a mudança ciclo político tem (está a ter) necessárias e óbvias consequências.
E dentro das inevitáveis consequências encontra-se o seu inexorável declínio, enquanto político. A tentativa de confusão entre o seu evidente declínio e o do País é uma manifestação patológica de transferência identitária.

Poderíamos sugerir uma terapia: escrever um opusculo sob o tema - “Ascensão e queda de um jotinha”. Aí poderia 'espelhar' todas as suas declinantes angústias metafísicas...

A deriva nacionalista e ultraliberal da União Europeia (EU)

Milton Friedman foi provavelmente o economista mais influente da segunda metade do século XX e a influência deletéria, que o brilhante académico e excecional comunicador exerceu, subsiste. A sua teoria é hoje o catecismo capitalista que excluiu os mais fracos e acumulou 50% da riqueza mundial nas mãos de 62 pessoas.

Beneficiário do New Deal, de Franklin D. Roosevelt, que permitiu a sua sobrevivência e a de jovens economistas, tornou-se o principal teólogo de uma nova religião. Líder do grupo ultraliberal, ‘bando de Chicago’, foi consultor do Partido Republicano dos EUA e moldou o capitalismo, convertido à vulgata ultraliberal, cruel e amoral, de que Ronald Reagan, Margaret Thatcher e João Paulo II foram as referências políticas.

A URSS, em fase de implosão, facilitou o uso da democracia política como argumento estimulante, para acelerar a queda do comunismo, e acabou por ser mero pretexto para a imposição de uma ditadura do capital financeiro. O Chile foi o laboratório da primeira experiência, que só resultou graças à repressão violenta e assassínios seletivos.

O ultraliberalismo está para o capitalismo como o Antigo Testamento para as religiões monoteístas, irrevogável e totalitário. Não será uma maldição vitalícia, mas deixará um rasto calamitoso, com o poder económico a comandar a política e o capital financeiro a determinar a ideologia.

A UE, refém do modelo único imposto pelo FMI, BCE, CE, agências de rating, PPE e outros agentes do terrorismo financeiro, vai deslizando para modelos fascizantes de que o último susto foi a eleição presidencial austríaca onde toda a esquerda, aliada a toda a direita de rosto humano, venceu a extrema direita por escassos 0,6% dos votos, precária vitória que prenuncia o triunfo extremista nas próximas eleições legislativas.

Na segunda-feira foi o Partido da Liberdade da Áustria que esteve à beira da vitória, um partido que há década e meia a UE não tolerava. Em breve poderá ser poder, depois das próximas eleições legislativas. A Polónia e a Hungria já se renderam à extrema-direita. Frente Nacional (França), Partido Nacional Democrático (Alemanha), Aurora Dourada (Grécia), Partido dos Finlandeses, Partido do Povo Dinamarquês, Partido da Liberdade (Holanda) e Liga Norte (Itália) são monstros que, como a Hidra de Lerna, matam com o seu hálito.

O Partido Popular Europeu (PPE), hegemónico, cada vez pior frequentado, anda muito preocupado com o eleitorado ibérico, enquanto adapta a pituitária ao hálito que exalam os partidos, atrás referidos, que caminham para o poder.

Conheço da História uma conjuntura semelhante. Nasci durante a guerra que ateou.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, maio 25, 2016

As mudanças de Governo e a dança de cadeiras

Salvo os cargos políticos, todos os lugares da Função Pública deviam ser de carreira, sujeitos a concursos e de provimento definitivo, incluindo diretores-gerais.

A Função Pública, passada a instabilidade política decorrente da Revolução, tinha todas as condições para se transformar numa estrutura técnica leal a qualquer governo que se formasse pela via democrática.

Os mais esquecidos não se lembram do consulado cavaquista onde a confiança política foi de tal modo obsessiva que até médicos do CDS foram impedidas de ocupar lugares tão naturais como o de diretor de um Centro de Saúde. A colonização da função pública pelo partido do poder atingiu aí a forma mais despudorada e pertinaz e os altos quadros passaram a ser comissários políticos do partido de turno, com mais ou menos fervor, e uma fonte de emprego para fidelizar ou aliciar clientelas.

Nas autarquias, cujo número e dimensão interessam a todos os partidos, é um regabofe que nenhum partido tem condições de resolver, nem o País de remunerar. De supérfluos assessores até ao pessoal de limpeza, tanto mais acentuadamente quando mais pequena for a autarquia, tudo gira em torno do partido que aí se perpetua no poder.

Este pântano tem dado origem à progressiva substituição do espírito de serviço público pela fidelidade partidária agravada pela redução dramática do emprego. E não há um só partido que a nível nacional, regional ou autárquico se possa considerar isento.

A mais obscena e radical limpeza étnica foi levada a cabo, em 2002, por um ministro do CDS, Bagão Félix, que na devoção dos neófitos, mal chegado a ministro da Segurança Social, substituiu, por fax, 18 diretores distritais da Segurança Social e igual número de diretores-adjuntos. Na pressa, certamente por engano, foram alguns do PSD que tinham resistido a seis anos de Guterres.

terça-feira, maio 24, 2016

A notícia

Um espião português foi ontem preso em Roma a tentar passar segredos ultrassecretos aos serviços de informação russa.

Desde a Irmã Lúcia que não há notícia de algum português ter aí passado, com êxito, algum segredo. A falta de mistério e da intermediação do Vaticano foram-lhe fatais.

Afirmações de um humanista informado

«O mundo está a assistir a uma multiplicação de situações humanitárias dramáticas, quer por causa dos conflitos quer em consequência de catástrofes naturais. Por estas razões, é essencial que haja um despertar de consciências e que os diferentes Estados possam fazer ofertas firmes de diversos tipos de ajudas, designadamente ajudas financeiras às vítimas e aos países que as apoiam na linha da frente, caso dos vizinhos da Síria e da Somália.»

(António Guterres, ex-Comissário da ONU para os Refugiados)

Fonte: DN, hoje

Quando o fascismo regressa à Europa...


Os fascistas andam aí...

Os fascistas andam aí e escrevem. Aliás, são os preferidos dos órgãos de comunicação social.

A prosa de um execrável fascista, em um único parágrafo, no dia em que o Prémio de Consagração de Carreira – momento alto das comemorações do Dia do Autor Português – , foi entregue ao escritor e político Manuel Alegre numa cerimónia presidida pelo PR.

Para o homúnculo, Manuel Alegre é «Uma nulidade reformada». Eis um parágrafo do repulsivo texto:

«Zeitgeist

Um ministro é acusado de fraude em redor de uma bolsa de estudo? Caso fosse de "direita", seria um trafulha sem princípios, alvo da fúria do Facebook e de rábulas de comediantes - demissão já! Como é de esquerda, foi obviamente vítima de uma conspiração sórdida e de péssimo jornalismo. Um autarca decide escorraçar munícipes e espatifar milhões de euros na construção de um templo religioso? Caso fosse de "direita", seria um inaceitável aviltamento do regime laico, uma prepotência atroz e uma despesa criminosa - demissão já! Como é de esquerda (e a religião é o islão), trata-se de um enorme passo ecuménico e um gesto de inegável coragem. Uma nulidade reformada põe um cidadão em tribunal e consegue uma condenação por delito de opinião? Caso fosse de "direita", seria um inimigo da liberdade de expressão e um rematado fascista - demissão já (ainda que o estatuto de reformado dificultasse a tarefa)! Como é de esquerda, é o proverbial filho da boa gente, que se sente tomado por justíssima indignação. Um primeiro-ministro ri-se imenso enquanto arrasta o país para o abismo e, mediante contas alucinadas, despesas típicas e fezadas primitivas, finge salvá-lo. Caso fosse de "direita", seria um cínico desavergonhado, um incompetente ao serviço de interesses obscuros, uma nódoa enfim - demissão já! Como é de esquerda, é exactamente o que se espera que a esquerda seja.»

Alberto Gonçalves, in Diário de Notícias, 22-05-2016

(alegado sociólogo, escreve todos os domingos)

segunda-feira, maio 23, 2016

UFF!: por uma nesga...

O que se passou nas ultimas eleições presidenciais austríacas deve ser debatido e ter consequências.
A vitória de Alexander Van Der Bellen no confronto com o populista e nacionalista de direita (extrema-direita?) Nobert Hofer não chega para sossegar os espíritos. 

Estamos a fazer o mesmo percurso que já vimos em França, em 2002, na disputa eleitoral entre Jean-Marie Le Pen e Jacques Chirac.

Na realidade, a Áustria tem pouco tempo para refazer o leque partidário, ou seja, um mandato presidencial. 

A ‘grande coligação’ (sociais-democratas e democratas-cristãos) que há largos anos governa os austríacos, um modelo semelhante ao que designamos cá por ‘centrão’, chegou ao fim. 

A candidatura de Hofer fez (re)nascer velhos espantalhos integradores da reconstituição do Sacro-Império.  Ficamos por aqui, para não falar do trágico Anschuluss onde as vacilações do então SDAPÖ (Partido Social-Democrata Operário) facilitaram a vida ao Reich.

Desta vez a Áustria (e por 'arrasto' a Europa) escapou por um triz. A Esquerda não deve (não pode) abusar da sorte, nem da clarividência dos eleitores.

Contratos de associação e parasitismo - 2

O comentário aqui deixado no meu texto anterior complementa-o e supera-o, pelo que o transcrevo na página principal.

Por

E -pá

Existe uma resposta que tarda a ser proferida. A Educação é um assunto demasiado sério e tremendamente importante para o futuro do País para ser entregue à iniciativa privada e circunscrita à 'livre escolha'. Trata-se de um bem (problema) estratégico e terá sempre de ser tratada como uma 'coisa pública' e a sua regulação não pode ser remetida ao 'funcionamento dos mercados'.

Este problema, para além das circunstâncias relativas a interesses sectoriais, mercantis ou de proselitismo religioso que se movimentam com alargados (e encapotados) apoios, tem uma outra origem. Parte do mito neoliberal de que tudo o que é público é mau e, pior, 'não requalificável' pelo que o procedimento adequado será privatizar. É, portanto, o debate (confronto) ideológico que se pretende escamotear. Nem será uma trincheira tão difícil de divisar nem tão sofisticada. A Escola Pública é uma questão de regime. Um emblema paradigmático do regime republicano. Neste campo não poderá haver cedências sob pena de estar em curso um regresso da Educação ao 'ancien regime' sistema que começou a ser desmontado com a reforma do Marquês de Pombal que, no séc. XVIII, denunciou os 'jesuíticos contratos' (então não de associação, mas de pura dominação) e que posteriormente a reforma de João de Barros, em 1911, viria a adaptar a escola ao regime republicano e consolidar a dimensão pública e universal.

Logo, a Escola Pública não se circunscreve a questões de famílias e meninos(as) mas é um factor de integração, renovação e progresso social, portanto, no cerne das opções políticas e ideológicas da governação.
Os manifestantes adeptos dos 'contratos de associação' já perceberam isso quando começam a gritar pela demissão do Governo.

Portanto, de uma natural e legítima contestação centrada na defesa de interesses particulares passamos para um patamar superior e, logo, as respostas institucionais terão de tomar isso em consideração.

Contratos de associação e parasitismo

O Estado é obrigado a facultar ensino público a todos os alunos e não o exonera o facto de, por motivo de urgência, ter assinado contratos de associação com colégios privados. O oportunismo e a má fé querem tornar definitivo o que, pela sua natureza, é transitório.

O alarido das instituições privadas, pias e profanas, reflete os interesses e influência dos donos nos órgãos de comunicação social, misturando a qualidade do ensino próprio com o de outras, que não têm subsídios, e como se fosse a qualidade e não a legitimidade do pagamento que estivesse em causa.

É obsceno ver colégios que disputam alunos ao ensino público na mesma área, a exigir a perpetuação de contratos cuja celebração, em alguns casos, devia ser investigada.

O amarelo é a cor de quem pretende que o Estado lhe pague a liberdade de escolha. É a mancha, quase inexistente no sul do País, que vai crescendo a caminho de Braga, quiçá pela Estrada de Santiago, como a dos peregrinos nas romagens medievais.

Há colégios que, após terem coagido os alunos a escrever cartas de protesto contra o fim de contratos, enviaram outras aos pais e às mães, escritas e dirigidas ao PR, PM e outras entidades, com envelopes endereçados e selados, para serem devolvidas assinadas. E organizam manifestações com alunos, professores, funcionários e famílias! É preciso topete!

Esses colégios têm intenção de avançar com as matrículas dos alunos, à revelia da lista que o Ministério da Educação divulgou na passada sexta-feira onde 40 vão perder os contratos de associação, no próximo ano, para abertura de turmas de início de ciclo (5.º, 7.º e 10.º ano) financiadas pelo Estado.

Têm o direito de o proceder às matrículas, mas não o de exigir que seja o Estado a pagar a decisão que tomam.
Urge acabar com os abusos do ensino privado e é altura de a Segurança Social fiscalizar as IPSSs. O catolicismo orgânico do país moldado pelo salazarismo não pode continuar a chantagear o Estado de Direito.

As escolas são obrigatórias, as madraças de livre escolha..