domingo, julho 24, 2016

A Madeira, o sentido das proporções e o défice cultural

Quando se perde o sentido das proporções, se ignora a história e se renega a cultura de um povo, fica-se à mercê do regresso de Fátima, Futebol e Fado.

Portugal assistiu, nas últimas décadas, ao aparecimento de uma plêiade de jornalistas, escritores, cientistas, artistas plásticos e desportistas que honram o País e o estimulam.

Julgávamos longe o tempo em que a cultura era considerada subversiva e perigoso o gosto do conhecimento, mas a decadência da classe dirigente prefere o populismo, o arraial e a procissão, num eterno retorno aos valores salazaristas.

A bizarra ideia de dar o nome do mais dotado jogador de futebol da última geração, e o mais admirado, a um aeroporto pode ter a vantagem de retirar a santidade ao nome de uma Catarina qualquer, mas é uma ofensa à inteligência e um ultraje à pedagogia cívica.

Não sei se os estádios de futebol passarão a designar-se pelo nome de aviadores ilustres, mas os aeroportos serem crismados por jogadores de futebol é uma concessão parola ao mais primário dos gostos e à mais arrojada das imbecilidades.

Talvez custe a muitos, por motivos partidários, ouvir o nome do aviador que, sozinho, tomou o aeroporto de Lisboa, fechou o espaço aéreo e o controlou no dia 25 de Abril de 1974. Seria ministro do Trabalho, indicado pelo PCP, e devemos-lhe a determinação, coragem e competência técnica com que participou na única Revolução sem sangue, na mais gloriosa das madrugadas. Chamou-se José Inácio da Costa Martins, e podia dar o nome ao aeroporto do Funchal.

A ignorância ou antipatia partidária podem alucinar e o futebol monopolizar os afetos de quem foi líder da JSD na Madeira e é hoje o governador, por eleições livres que os militares do MFA, como Costa Martins, tornaram possível. Mas podia ter homenageado os pioneiros da aviação, Gago Coutinho, Sacadura Cabral ou Sarmento Beires. Preferiu o jogador de futebol madeirense.

Se era questão de bairrismo, tinha o madeirense Herberto Helder, talvez o maior poeta português da segunda metade do século XX.

Depois do longo período de défice democrático, com Jardim, a Madeira está ameaçada de défice cultural, com Miguel Albuquerque, o primeiro formatado no salazarismo e o segundo na JSD.

sábado, julho 23, 2016

Marcelo e os tratados europeus

Os leitores não esperam de mim que escreva o que gostariam de ler. Aliás, seria difícil satisfazê-los a todos, tão variados nas suas convicções e diversos nas suas idiossincrasias. Terão de tolerar o que penso ou, como fizeram alguns amigos pessoais, abandonar o meu mural para não saírem feridos com a forma e a substância dos meus textos.

Quanto a Marcelo, é o PR que derrotou nas urnas o meu candidato e com quem estou de acordo ou discordo, conforme os casos, como sucederia com qualquer outro. No caso do referendo que anda aí a ser pedido, concordo com o PR.
Os referendos sobre os tratados, só por ignorância ou demagogia os defenderia porque a Constituição não o permite. Não se pode defender a CRP e, ao mesmo tempo, ignorá-la por conveniências partidárias ou emoções ocasionais.

De resto, a experiência de referendos, em Portugal, é desoladora. Nunca obtiveram o mínimo de participação eleitoral que os tornasse vinculativos, e serviram, várias vezes, para bloquear soluções úteis ou adiar a resolução de problemas.

Não se argumente que, assim, os tratados se tornam irreversíveis. Os governos, e espero que os governos continuem a depender da A.R., podem sempre denunciá-los. Quanto eu gostaria de ver denunciada a Concordata que Durão Barroso assinou com o Vaticano!

Finalmente, sou também contra a democracia referendária porque defendo a democracia representativa, com a vantagem de poder punir nas urnas as decisões ou a ausência delas pelos partidos que forem governo.

E, mais uma vez, lembro o referendo que aboliu os partidos, legitimando a Constituição Política de 1933!

Manobras de diversão

“A banca europeia, em particular a italiana e a portuguesa, representa um risco global para a economia.»  (Relatório do FMI)



sexta-feira, julho 22, 2016

O aeroporto Cristiano Ronaldo

Em frágeis caravelas, enfrentando os perigos do mar, Tristão Vaz Teixeira, Bartolomeu Perestrelo e João Gonçalves Zarco, foram pioneiros da gloriosa aventura que colocou Portugal na vanguarda da ciência e da arte de navegar.

Foram os primeiros portugueses a ver o aeroporto Cristiano Ronaldo, em 1419. Apenas ignoravam que faltariam três séculos para que a passarola, de Bartolomeu de Gusmão, se tornasse lenda e o primeiro balão dos Irmãos Montgolfier, em escala real e tripulado, se elevasse no ar em 1783. E só quatro séculos depois os primeiros aviões voaram.

Ignoro o que pensaram os audazes navegadores, à vista do aeroporto Cristiano Ronaldo, ou a desolação que sentiram perante a aridez do solo.

A única certeza é a sensatez dos navegantes portugueses do século XV, a contrastar com o delírio do timoneiro insular do século XXI.

Lisboa tem o aeroporto Humberto Delgado e o Funchal terá o de Cristiano Ronaldo. É a diferença que separa António Costa do sátrapa insular.

Apostila – Ou fui vítima de uma ilusão auditiva ou ouvi, há pouco, que o governador da Madeira iria dar ao aeroporto o nome do jogador de futebol.

FMI, Lagarde e maus agoiros…



Quando lemos relatórios do FMI há uma coisa de devemos ter como certa. Existirá - ou está na calha - qualquer problema (crise) no seio europeu e os seus relatórios aparecem a antecipar análises, caminhos e resoluções.

Não se trata de um organismo financeiro com características eminentemente técnicas que, como afirmam os seus estatutos, tem como finalidade dedicar-se a estabilizar o sistema monetário internacional e que viria, mais tarde, a alargar a sua acção (interferência) no sentido de, através de empréstimos, ajudar a equilibrar a balança de pagamentos de países em dificuldades. A sua transformação no braço armado das políticas liberais do pós-guerra e actualmente do neoliberalismo é uma longa história de usurpação de actividades e poderes que contou com a complacência de muitos e não cabe neste comentário.

Tudo isto a propósito do último relatório do FMI sobre a “Estabilidade Financeira Gobal” particularmente centrado sobre ‘turbulência do sistema financeiro europeu’ e onde se aponta Portugal e a Itália como ‘problemas’ específicos link putativamente agravados pelo Brexit (situação que aparentemente não interfere directamente com a moeda única europeia).

Subjacentes a estes ‘palpites’ escondem-se sempre outras coisas e não vou escrever sobre os problemas da banca alemã, a começar pelo Deutsche Bank, mas tão-somente de uma outra questão – o crescimento económico. É sabido que nenhuma medida tomada a ‘favor dos cidadãos' favorece o crescimento económico por perturbar sacrossantos mecanismos de competitividade. É este o princípio sempre invocado para despedir, cortar salários e 'flexibilizar' (descaracterizar) a legislação laboral. Não há outra 'receita'. E todos os relatórios do FMI encalham aí.
 
Por outro lado, o alargamento endémico da pobreza parece ser um 'efeito sobrenatural', ou um azar, que deve ser desligado das políticas que esse Fundo impõe.
No caso português, o FMI integrou uma Troika que ‘governou’ com a complacência e a servil obediência de Passos Coelho e ‘ajudantes’ (para usar a linguagem 'cavaquista') durante 3 longos anos e ainda anda por aí (embora sem o impacto de outrora). E, no pensar dos especialistas do FMI, o actual e dramático empobrecimento deve ser exclusivamente endossado aos erros do passado, nada tendo a ver com o malfadado 'resgate'.

Na realidade, a multiplicidade (e gravidade) de situações financeiras e económicas com que este País está confrontado são consequência de ditatks do FMI e associados. Estamos, em termos de fraco crescimento e na debilidade do sector bancário, a colher os frutos dos ‘prestimosos’ serviços de uma ‘notável’ intervenção externa em que o FMI foi o pivot. Não há volta a dar-lhe. E se agora o FMI volta à carga – em relação a Portugal – só pode ser para dar continuidade ao bitate do Sr. Schauble sobre um novo ‘resgate’.

A actual situação política - especialmente a solução governativa - não agrada aos peritos sediados em Washington e todos os futuros esforços (de que o relatório é apenas uma peça instrumental) vão no sentido de voltar a intervir para 'domesticar'.

Esperemos algumas tréguas já que Christine Lagarde, envolvida no ‘caso Tapie’, vai a julgamento acusada de negligência e essa circunstância poderá ser suficiente importante para interromper a sua permanência como directora-geral do FMI. link.
O facto de estar indiciada pode moderar ímpetos. Esperemos, contudo, que a presumível negligência não tenha contaminado o organismo que dirige. 
Porque ser admoestado e ‘apontado’ por um bando de especialistas, negligentemente orientados e motivados, é verdadeiramente insuportável.

A Turquia e o califa Erdogan

Erdogan já provou que a democracia era, para ele, um mero caminho para conquistar o poder. O fascismo islâmico irrompeu na máxima apoteose após o golpe de Estado cuja preparação, desencadeamento e contenção acompanhou, através da rede islâmica que organizou.

Perante o aplauso dos adeptos e o terror coletivo dos adversários e simples apoiantes da democracia, exerce o poder discricionário. Humilha o poder judicial, reprime os curdos, demite professores, fecha jornais, prende jornalistas, persegue juízes e desmantela todos os poderes que lhe podem cercear a ambição.

Da União Europeia chegam tímidos apelos para respeitar o Estado de Direito, como se fosse sua intenção mantê-lo quando a Nato e as UE o apresentavam como muçulmano moderado. Erdogan é um produto do atual momento histórico que o Islão atravessa, na sequência do fracasso da civilização árabe e do ressentimento por invasões ‘cristãs’, em busca do domínio do petróleo.

Os métodos do Estado Islâmico são a prática interna do ditador que sonha agora com o califado, e não hesita em desafiar os aliados. Ele nunca esteve na Europa das liberdades, esteve sempre com um olho em Meca e outro nas suas ambições.

A Europa tem mais um trágico problema à sua porta.

A aliança norte-atlântica desnorteada ou desfeiteada…


Tudo indica que não será a Esquerda a enterrar a NATO. O fermento para o seu desmembramento tem um nome (Trump) e os motivos são aparentemente financeiros (‘não cumprimento das obrigações de financiamento’) link ;  link.

Questões como o ‘atlantismo’ e doutrinas associadas, a solidariedade ocidental, a herança civilizacional, ou quejandos, não são invocadas na retórica de Donald Trump, muito directa e inequivocamente monetarista.

Na realidade a NATO foi um grande exército (exército é usado no texto como um sinónimo de forças armadas) criado, no contexto pós-II Guerra para enfrentar o comunismo, mais especificamente, a ex-URSS. 
Com a queda do muro de Berlim perdeu todo o sentido mas mesmo assim tentou transformar-se numa ‘guarda pretoriana mundial’ que tem defendido com pertinácia e alguma sobranceria os interesses americanos pelo Mundo. As pretensões de fugir do Atlântico Norte e alcançar uma dimensão planetária são hoje o penoso balancear entre a leviandade e a quimera.

No Oriente existem forças militares muito numerosas e bem equipadas, poderosíssimas. A maior força militar permanente do Mundo é, de facto, a República Popular da China, cujos efectivos ascendem a mais de 2.200 milhões de homens e mulheres a que falta acrescer forças estratégicas que dispõem de armamento nuclear. O desenvolvimento de um poderoso Exército a partir de um voluntarioso Exército de Salvação Popular há quase 90 anos (1927), veio a criar importantes desequilíbrios nas pretensões de 'détente militar' a nível global.

Mas um outro tipo de problema está sediado no continente europeu e chama-se Rússia que, após o desmembramento do Pacto de Varsóvia, mantém um Exército com mais de 900 000 efectivos, quase o dobro das 2 maiores forcas da UE (França e Grã-Bretanha) o que mostra as incongruências dos planos de intervenção no espaço europeu. 
Um exemplo acabado destas incongruências são, visto nesta perspectiva, as recentes intervenções, primeiro na Líbia e depois na Ucrânia. E os exemplos sucedem-se.

Cá por casa é interessante recordar a posição do ex-Presidente da República, Aníbal de sua graça, que pretendeu condicionar a pertença ou interferência nos governos do país, por forças político-partidárias nacionais legítimas e eleitas para o Parlamento, alegando que esta participação estaria condicionada a declarações ou por posições de fidelidade à NATO link.

A História da NATO a ser reorientada (reescrita) pelo candidato republicano à Presidência dos EUA tem uma abordagem contabilística e utilitarista, como é timbre dos ultra-conservadores, e  desmente categoricamente os fundamentalismos ideológicos residuais, oriundos do tempo da ‘guerra fria’, que ainda têm fiéis adeptos domésticos.

Há sempre um plano B



Recebido de Alfredo Barroso, cuja memória é um incentivo à vigilância cívica, aqui fica, para memória futura, uma galeria de notáveis que contribuíram modestamente para esta crise, que vai acabar mal. Para nós, os que nada fizemos para merecê-la.

quinta-feira, julho 21, 2016

AR: a pantanosa sessão de ontem…


Ontem, no Parlamento, viveu-se um dia de violenta catarse do ‘centrão político’. O PSD tratou de consolidar a sua posição no Tribunal Constitucional para o que contou com o apoio do PS e, por outro lado, ou simultaneamente, na questão da presidência do Conselho Económico e Social link, que fazia parte do mesmo acordo, alguém roeu a corda e tenta fugir às responsabilidades.

Não está em causa a escolha do Prof. Correia de Campos para o cargo que o PS - por sua conta e risco - achou por bem propor e a direcção do grupo parlamentar do PSD aceitou, mas sim o embuste tecido à volta da aplicação de prévios acordos parlamentares. Isto vindo de uma Direita que andou meses a questionar a solidez e a 'naturalidade' do entendimento entre a Esquerda parlamentar para suportar o Governo PS, seria caricato, se não fosse gravíssimo.
Há algum tempo que a Direita tenta explorar eventuais desconformidades, dúvidas, incongruências ou instigar rebeldias na senda de promover ou criar maiorias instáveis e voláteis, ‘fracturáveis’, nas decisões em plenário da Assembleia de República e deste modo tentar ‘levar a água ao seu moinho’. O explorar de pequenos incidentes, contradições e omissões, isto é, o deslize para a ‘pequena política’ é um modo de suavizar o afastamento do poder, ditado por escrutínio popular.  

Tem sido este o sub-reptício comportamento da Direita face à maioria parlamentar de Esquerda constituída após as últimas eleições legislativas e que suporta politicamente o actual Governo. Foi isso que tentou – sem resultados – primeiro com o Programa de Governo e depois com o Plano de Estabilidade e Crescimento 2016-2020 que, forçou contra a norma e os habituais procedimentos regimentais, uma ida a votos, para testar compromissos e detectar fissuras.
 Estas sinuosas manobras de andar a pescar em águas turvas já tinham, portanto, dado mostras da sua existência e deviam acautelar os acordos. Deviam, pelo menos, determinar um escalonamento temporal das votações para que ‘in loco’ se pudesse verificar se os pressupostos assumidos em prévios acordos seriam viáveis e cumpridos. Se acaso se tivesse adoptado esta atitude prudencial, que a prática parece aconselhar, teria sido possível fazer abortar esta miserável chicana política.

Após a notória quebra de compromissos e uma incontornável mostra de indisciplina há um apressado lavar de mãos do PSD afirmando que é impossível culpabilizar esta bancada porque o voto foi secreto. Esconde-se a mão que efectivamente apedrejou o descuidado transeunte baseando-se que, estando emboscado no arbusto (do secretismo da voto), nunca será identificável enquanto agressor.

A argumentação retorcida, titubeante e manifestamente falsa do PSD só serve para entreter incautos. Ninguém acredita que o candidato do PS tenha sido 'chumbado' pelo próprio PS (quando dispôs da liberdade e possibilidade de o escolher e propor).
Na realidade, este ziguezaguear pelas fronteiras do disfarce e da ignomínia é uma prática da Direita e basta recordarmos do que Paulo Portas fez a Manuel Monteiro numa eleição para a liderança parlamentar do CDS. Ou, então, das promessas de Passos Coelho durante a campanha eleitoral de 2011 sobre os cortes de pensões, salários, subsídios, etc., e o que sucedeu na prática durante 2011, 12, 13, 14 e 15.

De qualquer modo, esta ‘manobra’, vil e traiçoeira, caiu como uma pestilenta gelatina putrescível sobre o Parlamento e terá, obviamente, sérias consequências no relacionamento institucional entre o Governo e a Oposição.

A aldrabice tornou-se endémica para estes ‘sociais democratas’, de “sempre”. Nada, daqui para a frente, voltará a ser confiável. Encerrou-se assim a etapa de putativos consensos reclamados por muitos dos intervenientes políticos (que na realidade não terá chegado a dar os primeiros passos). A presente legislatura tem, pelo menos, o mérito de revelar que a Direita, remetida para a Oposição, não é democraticamente credível, nem honesta. 'Acordos de regime' não são possíveis quando o se torpedeia é o próprio regime.

Quando a Direita faz, publicamente, vibrantes apelos à estabilidade e falaciosos louvores ao pragmatismo é noutra coisa que, secretamente, está a pensar, isto é, na ‘sacanice’ e no golpe.
Este é o mesmo tipo de ética que provoca a invisibilidade, ou a despudorada negação, dos ‘conflitos de interesses’ nas sequenciais nomeações de Durão Barroso (para a Comissão Europeia, para a Goldman Sachs, etc.).

Não bastava o distanciamento entre os políticos e os cidadãos que as chicanas políticas têm favorecido. A Direita julgou necessário descredibilizar as instituições democráticas pensando que poderá aproveitar-se, no imediato, do pântano político que está a tentar criar. Inevitavelmente, a lama atingirá todos e arrastará para o abismo, não pessoalmente os desacreditados intervenientes, mas o regime democrático.

As sibilinas e mal-arranjadas desculpas do PSD atingem, em primeiro lugar, a confiança nas instituições, chapinham de lama os autores de tais dislates e enfraquecem irremediavelmente a vertente parlamentar, um dos pilares do nosso regime. Tudo o resto, são ‘desculpas de mau pagador’.

O Conselho de Estado, Portugal e a União Europeia

Não interessa saber se Cavaco foi ou não favorável a sanções da UE contra Portugal, na reunião do órgão consultivo do PR. É irrelevante o que pensa Cavaco Silva. A política não é um ramo da espeleologia e os fósseis não são o seu objeto de estudo.

Grave é o acolhimento da comunicação social à reiterada e patética negação dos factos, por Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque. As sanções com que é chantageado este governo referem-se ao falhanço do governo de Passos Coelho no cumprimento de metas de 2014 e 2015. Estes são os factos.

O que o país não pode esquecer é a dilatação da última legislatura, até ao prazo máximo legal, o que inviabilizava a apresentação oportuna do OE-2016, situação agravada pelas manobras dilatórias para investir o legítimo e atual governo. Não foi culpa exclusiva do notário de Belém, foi responsabilidade do PSD e do CDS, que o impeliram ao patético adiamento, de gravosas consequências para Portugal.

Quando é preciso desviar atenções da colossal crise financeira dos bancos de Itália (360 mil milhões de euros), da monstruosa dimensão dos problemas do Deutsche Bank e dos imprevisíveis efeitos do Brexit, Portugal e Espanha são, depois da Grécia, fundamentais para disfarçar a crise financeira da UE, em permanente adiamento.

Vale a pena lembrar uma resposta recente de Jean-Claude Juncker, quando confrontado com sanções à França: “Não há, já que se trata da França” (sic).

Não me surpreenderia, perante a leveza ética dos atuais dirigentes europeus, executores da estratégia do Partido Popular Europeu, que, depois de terem obtido do PP espanhol um qualquer compromisso (impossível de cumprir, por falta de apoios parlamentares), usem Portugal, cujo governo incomoda, como único bode expiatório.

E não lhes faltam cúmplices autóctones.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, julho 20, 2016

Mesmo na desgraça, faz-nos falta o Eça

Há uma página de Eça em que o romancista descreve uma reunião, num salão burguês. Anunciam-se tragédias naturais na Índia e na China, com muitos milhares de mortos, e pessoas, indiferentes, a jogar cartas. Entre as notícias, cada uma pior do que as outras, alguém informa que a D. Micas teve uma terrível enxaqueca.

Pararam de jogar e rostos ansiosos aguardavam pormenores. Há dois dias que a Micas (já não sei se era este o nome), sofria de uma violenta dor de cabeça. E o pasmo subia com minúcias sobre o início, a continuação e o fim da enxaqueca. Varreu-se a angústia, serenou a ansiedade e os parceiros recomeçaram os jogos, aliviados só quando todos se inteiraram de que a enxaqueca tinha, finalmente, sido vencida.

O critério da proximidade transformava em tragédia uma dor de cabeça e era indiferente aos milhares de mortos que aconteciam noutro continente.

Lembrei-me da difusa recordação de Eça, de que li quase tudo, com a afirmação inédita de um relatório internacional: “FMI diz que banca europeia, em particular a italiana e a portuguesa, representa um risco global”, para a economia.

O FMI esteve em Portugal em 2011 e 2015 e não produziu, por ignorância ou simpatia, esta afirmação catastrófica. Agora, esquece o Deutsche Bank e iclui a Itália e Portugal no risco global pelo “crédito malparado”.

Em Itália, o valor cifra-se em 360 mil milhões de euros em Portugal em 20 mil milhões (números do FMI). Há qualquer coisa que não entendo.

Quando eu era criança, morreu no rio Coa, afogado, um rapaz de 19 anos. Uma vizinha foi confortar a mãe e abraçando-a, para a consolar, foi-lhe dizendo “Tudo são desgraças, a si morreu-lhe um filho, a mim a cabra».

Um oportuno desenho de Onofre Varela


terça-feira, julho 19, 2016

O cardeal, a missa e o fiel defunto Francisco F.

Na última segunda-feira, dia 18 de julho do ano da graça de 2016, o cardeal Cañizares, que ainda não digeriu o regresso a Espanha, depois de ter sido Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em Roma, celebrou missa por alma de Francisco Franco, anunciado como Francisco F..

A missa é celebrada mensalmente, no dia 20, a rogo de um devoto, para evocar a morte do ditador, ocorrida em 20 de novembro de 1975. Esta, além de se destinar à expiação dos pecados do maior genocida espanhol de todos os tempos, assinalou o aniversário da sublevação militar de 1936 que deu início, há 80 anos, à Guerra Civil espanhola.

O cardeal Cañizares, arcebispo de Valência, depois de ter sido titular de Toledo, é um nostálgico do franquismo e incapaz de aceitar a democracia. Argumenta que as missas não se podem recusar a ninguém, mas os espanhóis sabem a devoção com que a celebra, com pompa e circunstância.

É delicioso ver que o número de padres que acolita o cardeal Antonio Cañizares é quase o mesmo que o dos crentes que acompanham o piedoso ato. (Ver link de El País).

Quem recorda a História, independentemente da crueldade verificada de ambos os lados da guerra civil, não esquece que o Papa de turno concedeu o carácter de Cruzada à luta das forças fascistas que derrubaram a República, legitimada pelo voto popular.

Um cardeal destes é uma bênção para a memória e a preciosa ajuda para a secularização do país que João Paulo II encheu de santos, remexendo nas cicatrizes que a democracia não conseguiu ainda sarar.

segunda-feira, julho 18, 2016

O golpe de Estado na Turquia

Não imagino o que pretendiam os militares amotinados, nem faço juízos de valor sobre o golpe de Estado num país cuja democracia serviu a Erdogan para tomar o poder e não mais o largar.

Ele tem o hábito de prender jornalistas e calar os órgãos de comunicação social que lhe fazem oposição. Militares e juízes eram guardiões da laicidade, os primeiros de forma democraticamente inaceitável, mas os segundos legitimados pela separação de poderes e pela Constituição.

Agora passará a ter um exército dócil. O afastamento de 2745 juízes, que dificilmente pode implicar no golpe, revela a determinação de remover todos os obstáculos ao poder absoluto.

O golpe não terá sido inspirado por Erdogan, mas parece. Foi a «dádiva de Deus», que referiu, e dificilmente teria sido organizado sem conhecimento da rede islâmica que o apoia. A cínica frieza com que o aguardou nunca será provada, mas os objetivos dos revoltosos passarão a ser os que ele entender. Os motivos dos amotinados serão os que o sultão quiser. A Turquia estava condenada a um regime autoritário, laico ou confessional.

As liberdades vinham a ser sucessivamente limitadas, com a perseguição de jornalistas e juízes, com a restrição das liberdades individuais e a progressiva reislamização.

A forma rápida e segura como o Sultão chegou ao aeroporto de Istambul revela que os mecanismos do poder estavam controlados.

A UE tem mais um problema. A Turquia é a jangada que se afasta dos valores europeus a caminho das mesquitas, com o poderoso exército da Nato atrás.

Erdogan, permitiu uma rota jihadista de voluntários e armas para a Síria e a organização de células do Estado Islâmico no País. Agora, quando o EI estava a virar-se contra ele, em vez de ser um alvo, pode disputar à Arábia Saudita a sua inspiração e controlo.

O Sultão neo-otomano, liquidado o legado de Atatürk, reforçou condições para reprimir os curdos e os arménios, abolir as liberdades individuais e tentar reinventar o Califado, mas o mais provável é fazer deslizar o País para o caos que devasta o Médio-Oriente.

Turquia – os insondáveis contornos do futuro …



Vive-se na Turquia um autêntico drama político na sequência do golpe de Estado falhado. A devastadora purga em curso está a atingir milhares de cidadãos a começar pelas Forças Armadas, passando pelo aparelho judicial e não tardará muito a chegar aos meios de comunicação social.
No rescaldo do putsch ninguém é capaz de garantir uma investigação justa, séria e independente e podemos esperar tudo do actual presidente Erdogan apresentado ao Mundo como um ‘islâmico moderado’ mas que o desenrolar dos acontecimentos (exercício do poder) vem sendo progressivamente conotando com a Irmandade Muçulmana link.

A este golpe de Estado militar deverá seguir-se um golpe constitucional levado a cabo pelo partido que detém, no presente, as rédeas do poder (AKP). O actual presidente deverá ser, ‘bizantinamente’, entronizado como califa e perpetuar-se no poder rodeado de fiéis mujahedins.

Os primeiros indícios ocorreram na noite do levantamento na ponte sobre o estreito de Bósforo. Um soldado, acabado de render-se, foi sumariamente decapitado  link.

Na ignorância de futuras evoluções da situação turca é de supor que o autonomeado ‘califa do Daesh’, Abu Bakr al-Baghdadi, se sinta ameaçado.
Não existe espaço político-religioso para, naquela região, coexistirem dois califas…

domingo, julho 17, 2016

Passos Coelho, o Estado e a (re)invenção da pólvora…

Passos Coelho, lídimo e esforçado dirigente do PSD esteve presente num “Fórum de Políticas Sociais: Educação; Saúde e Segurança Social” que o seu partido realizou no Porto este fim-de semana.
E aí botou faladura para apresentar-se, a si próprio e ao seu partido, como um arauto do combate às perversões nessas áreas, declarar o falhanço do Estado Social e mostrar-se aberto para “redesenhar as políticas sociais”. 

Prometeu, inclusive, uma “convenção alargada” para discutir tais assuntos depois de colher doutas opiniões (de académicos, conselheiros e burocratas, acrescento). link.

Há contudo uma coisa que o dirigente do PSD não consegue esconder mesmo emboscando-se atrás daquilo que para os eleitores jurou ter defendido durante a última legislatura. De facto, ao promover cortes cegos nas áreas sociais o ex-responsável pelo anterior Governo sempre afirmou que estaria a conferir sustentabilidade ao Estado Social. Inclusive, armou-se num seu mítico ‘salvador’ link. Ora um ‘salvador’ de causas perdidas ou falidas ou em que não se acredita, não sendo propriamente um deslize ou filantropia é, com certeza, mais uma mentira que o tempo está a revelar.

Na verdade, o actual dirigente partidário em fase de procura de assuntos candentes que projectem uma imagem promocional foi ao Porto debruçar-se sobre um velho problema político em que quis enxertar, à sorrelfa, aspectos de uma cândida novidade. Isto é, não é preciso ser mundividente, ter cultura cívica ou ser capaz de elaborar um raciocínio político premonitório para ter a certeza que Passos Coelho foi ao Fórum propor uma convenção que sancione uma sempre desejada mudança que tem procurado ocultar dos portugueses: Transitar do Estado Social para um Estado Liberal.

Não é, como sabemos da história das ideologias políticas, uma questão nova. A única surpresa poderia ser a sua concepção partir um partido que continua a reclamar-se da ‘social-democracia’ ('sempre' diz ele). Todavia, este é outro assunto que é sempre toldado pela vergonha (receio) de assumir publicamente a deriva neoliberal.

Em vez de andar a procurar em fóruns ou na praça pública - qual 'Diógenes pós-moderno’ - a verdade sobre a situação social bastaria colocar na sua bagagem (pessoal ou intelectual) e levar, este ano, para a sua vilegiatura na Manta Rota, uns livritos (básicos para qualquer pretendente a 'voos políticos') onde Marx, Owen, Proudhon, de um lado, e Simth, Hume, Stuart Mill, do outro, já escalpelizaram com profundidade as bases teóricas e filosóficas sobre a natureza e funções do Estado que tanto parece incomodar, agora, o neo-dirigente do PSD.

O que é verdadeiramente impressionante é a desfaçatez com que se sobe ao palanque para anunciar que em breve irá promover a (re)descoberta da pólvora…

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