sexta-feira, abril 29, 2016

A República e a primeira-dama

A eleição do novo Presidente da República traria sempre o capital de esperança que o anterior se esforçou por esbanjar.

Foi tão crispada, errática e ressentida a conduta de Cavaco Silva no seu rancoroso ocaso que, em cada dia que arrastava a sua animosidade, aumentava a esperança no novo PR, de tal modo que os opositores do candidato eleito, entre os quais me conto, rejubilaram com a substituição.

Marcelo Rebelo de Sousa dará fortes razões para divergências como, aliás, já confirmou no subserviente beija-mão ao Papa, mas merece amplo aplauso o seu início de mandato, deveras auspicioso.

O desejo de reconduzir o país à normalidade democrática, com igual respeito por todos os partidos, segundo a sua representatividade eleitoral, acatando, como lhe compete, as negociações na AR, são um bom indício. Com uma conduta oposta à de Cavaco, apesar de previsível, só Paulo Portas se antecipou a tirar ilações enquanto Passos Coelho, mais frouxo de raciocínio, parece aguardar o impossível regresso de um cúmplice a Belém.

A geometria partidária alterar-se-á profundamente, o que deve fazer refletir todos e cada um dos partidos sobre o comportamento relativo ao atual Governo. A popularidade de Marcelo há de atenuar-se, mas não pode ser descurada. Com António Costa e Marcelo o país aprendeu que os partidos do arco do poder são todos, sem exceções, e democráticos os que os eleitores sufragarem, sem que algum tenha o exclusivo democrático. A direita perdeu a arrogância e a esquerda credibilizou-se para ser Governo, nunca mais podendo abdicar de o disputar, refugiada na retórica oposicionista.

A CRP previne o risco da presidencialização do regime e a personalidade de Marcelo o perigo de se tornar um perturbador do regular funcionamento das instituições, ainda que seja cedo para fazer previsões.
Para já, ficamos a dever-lhe a ausência de uma primeira-dama, figura que não dignifica a República, independentemente do mérito pessoal do/a cônjuge, vestígio de tradições reais mimetizadas por republicanos e que em Portugal tornaram o órgão unipessoal [PR] em instituição familiar com a mulher, na última década, a servir de prótese institucional.

Quando já passou demasiado tempo sem uma primeira mulher PR, Portugal foi poupado à subalternidade da mulher para fins decorativos e chás de beneficência em Belém.

quinta-feira, abril 28, 2016

O mundo é feito de mudança

A posse de Marcelo Rebelo de Sousa, em 9 de março último, completou a despoluição que as últimas eleições legislativas permitiram e cuja urgência se impunha aos 3 órgãos de soberania sujeitos a escrutínio popular.

O Palácio de Belém ficou vago para um conservador inteligente, patriota, culto e com sentido de Estado e S. Bento para um PM com currículo democrático e provas dadas.

Neste 25 de Abril voltaram ao Parlamento os militares da A25A e o PR anunciou outra condecoração ao saudoso capitão Salgueiro Maia, aquele herói a quem o antecessor negou considerar relevantes os serviços à Pátria, valor que reconheceu a dois Pides.

Os democratas exultaram com o regresso dos capitães de Abril à tribuna de onde se autoexcluíram por se ter tornado viciado o ambiente e mal frequentado o espaço. Foram de esperança os discursos do PR, do presidente da AR e dos partidos de esquerda.

Do CDS, o partido onde cedo deixaram de caber Freitas do Amaral e Lucas Pires e onde o malogrado Amaro da Costa não teria lugar, sabia-se que não apreciava a Constituição de 1976, e deixou a impressão de preferir a de 1933, fiel a Paulo Portas.

O PPD de Sá Carneiro, Emídio Guerreiro, Mota Pinto, Fernando Nogueira e Rodrigues dos Santos, aviltado desde Durão Barroso, com a invasão do Iraque, e, depois de um PR salazarista em Belém e um inapto e ressentido PM em S. Bento, resiste à mudança com Passos Coelho e a restante tralha que Miguel Relvas e Marco António lá puseram. Por isso não houve surpresa no discurso de Paula Teixeira da Cruz, que sentiu na maioria de esquerda um “odor ao salazarismo mais bafiento”, decerto com a pituitária mergulhada no partido que Passos Coelho e Cavaco reduziram a cadáver, depois de lhe roubarem a alma social-democrata que lhe deu vida. Foi esse fedor que a deputada, desorientada nos aromas, atribuiu aos adversários.

São perigosos os tempos que se avizinham, em Portugal e no Mundo, mas há momentos que valem anos e dias que trazem ânimo. No último 25 de Abril não começou o futuro, mas findou um ciclo, inumados dez anos sombrios de Belém e quatro anos e meio de S. Bento.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, abril 27, 2016

Brasil - Nova Campanha da Legalidade

A Nova Campanha da Legalidade, formada por mais de oito mil juristas de todos os estados brasileiros passa, a partir de hoje, a enviar ao mundo o manifesto que denuncia o golpe em curso no Brasil. O Manifesto está em português e já foi traduzido para inglês, italiano, francês, alemão e espanhol.

São 52 páginas. Creio que estou suficientemente informado para poder concluir o que está em causa no Brasil, desta vez com coronéis mascarados com a toga, e julgo ser importante fazer a divulgação, , ainda antes da leitura, para a compreensão do fenómeno golpista.

Sinto cumprir um dever democrático ao divulgá-lo.


Há diferenças



terça-feira, abril 26, 2016

25 de Abril, em Almeida

Ontem, a 10 metros do Monumento ao 25 de Abril, no restaurante que a estrada separa, 85 cidadãos e cidadãs celebrámos a Manhã que será sempre futura e terá sempre futuro:

MANHÃ FUTURA
Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

E recordámos outros poetas e, também de Sofia, a inscrição esculpida na pedra do Monumento:
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”

Mas foram os capitães de Abril que mereceram na liturgia do dia a bênção dos cravos vermelhos e a evocação emocionada de quem não esquece a liberdade que lhes deve.

segunda-feira, abril 25, 2016

A sessão do 25 de Abril 2016 na AR…


O discurso de Marcelo Rebelo de Sousa na Assembleia da República trouxe algo de novo ao ambiente político nacional link. Foi uma alocução relativamente estabilizadora e pacificadora sobre o actual momento político em manifesto contraste com as enfadonhas, vazias e algumas vezes ameaçadoras perorações do anterior presidente da República.

À posteriori o País vai tomando consciência das suas passadas - mas vivas - desgraças, quer em relação à presidência, quer, também, no que diz respeito à governação.

Estes contrastes incomodam a Direita que governou mais de 4 anos, com um programa que sempre desejou e foi ditado ao País pela troika, herança que só por hipocrisia e os maus resultados quer rejeitar. 
Tudo o que se pretendeu apresentar aos portugueses como inevitável está a ser desmontado e a percepção de que tivemos sujeitos no anterior governo a um rígido programa ideológico é cada vez maior. 
A sensação de evidente engano entre o que, em 2011, a Direita quis apresentar aos portugueses como sendo um programa de ‘resgate’ e o que na prática queria efectivamente fazer é cada vez mais nítida para muitos portugueses.

O actual governo do PS, apoiado por toda a esquerda parlamentar, vai ser confrontado com inúmeras dificuldades, muitas delas oriundas da Direita, mas que uma esperança nascente e assente na possibilidade de, contra os obstáculos políticos, económicos e financeiros, sejamos capazes de apostar – e trabalhar - pela justiça e igualdade social, no combate às desigualdades, na erradicação da pobreza, no crescimento económico e na criação de emprego é a melhor homenagem que podia ser feita aos homens que fizeram os 25 de Abril.

Uma forte convicção de mudança foi a bissectriz transversal maioritária nas comemorações da AR.
A Direita pela voz do seu maior partido foi a nota dissonante pretendendo requalificar ao legítimos anseios dos portugueses como ‘demagogias’, ‘infantilidades’ e ‘intolerâncias’  link .

Para a Direita desenvolver uma política ‘adulta’ é comportar-se como um menino (passe a contradição etária) arrumado, obediente e disposto a comer a sopa toda, não importa o seu conteúdo e quem a tenha cozinhado.
Para a Direita não existem opções ideológicas. A política é acima de tudo um rol de situações pragmáticas que camuflam a doutrina subjacente. O presente governo, que merece o apoio pela Esquerda parlamentar, desmente esta falácia conservadora e cada dia que passa torna o discurso neoliberal incongruente e vazio.

Existe um parágrafo no discurso presidencial hoje proferido na AR que assenta que nem uma luva na política de Direita desenvolvida nos últimos 4 anos:
O Portugal que acredita na Europa tem de lutar por uma Europa menos confidencial, menos passiva, mais solidária, mais atenta às pessoas, e sobretudo que não pareça aprovar nos factos o oposto daquilo que apregoa nos ideais”.

E mais à frente proferiu outra afirmação que a Direita, na Oposição, recusa-se a aceitar:
Felizmente, também, há, no nosso País, neste momento, dois caminhos muito bem definidos e diferenciados quanto à governação, ao modo de se atingir as metas nacionais”.

Termino evocando Sttau Monteiro:
Felizmente há luar!

Viva o 25 de Abril

Há 42 anos saíram do Posto de Comando do MFA as primeiras notícias da Revolução e, em breve, começaram a florir cravos nos canos das espingardas.

No Chiado, cercado no quartel da GNR, espavorido e incrédulo, com ministros a chorar, Marcelo Caetano, sitiado pela coragem serena de Salgueiro Maia, implorou um general para se render. Não foi o melhor quem recebeu o poder, mas era demasiado mau o que o entregava. No largo, em frente, o povo vitoriava os heróis, o capitão e os soldados que, de Santarém, ousaram vir escrever a página mais bela dessa madrugada.

Vaso Lourenço estava preventivamente desterrado nos Açores, com Melo Antunes, mas a operação que Otelo tinha desenhado já era imparável. De Viseu, tinha saído o capitão Gertrudes da Silva com uma coluna militar tornada poderosa com os decididos capitães que, de Aveiro e da Figueira da Foz, se lhe juntaram. De Lamego, Delgado da Fonseca marchava sobre o Porto e, em Lisboa, o major Cardoso Fontão prendia o governador militar e os seus capitães seguiram-no na coragem e determinação.

Na RTP e na Rádio já garantiam as primeiras notícias sem censura os capitães do MFA. Costa Martins encerrara o espaço aéreo nacional e controlava o aeroporto da Portela de Sacavém. Por todo o País, os capitães do MFA faziam História na madrugada de todos os sonhos, na mais heroica façanha militar de sempre, em nome da Liberdade.

Na Pontinha, as comunicações militares estavam ao serviço da Revolução, com Garcia Leandro a atender as chamadas dos contrarrevolucionários, em patético desespero, e Otelo seguia a evolução das tropas libertadoras. Da Guarda, o solitário capitão do MFA, Monteiro Valente, depois de ter sublevado o Regimento e deixado preso o Comandante, seguiu para Vilar Formoso a encerrar a fronteira e a prender os pides.

Por todo o País, o suave milagre da paz era obra dos que sofreram a guerra mais injusta, inútil e criminosa que a ditadura fascista pensou poder eternizar.

Nas colónias a guerra já estava perdida, militar e politicamente. Em Portugal, a paz e a democracia acordavam um povo que o medo oprimira, durante 48 anos, para o banquete da liberdade.

Hoje, jazem no esquecimento as centenas de capitães que arriscaram a vida para pôr fim ao pesadelo salazarista que o seu sucessor, politicamente incapaz, prosseguiu.

Há 42 anos ruíram as cadeiras dos biltres da ditadura, não pelo caruncho que as corroeu, mas pela coragem dos militares que as desconjuntou. A conquista da liberdade iniciou a longa caminhada pela igualdade de género e acesso à saúde, educação e dignidade.

A censura, a inquisição das palavras e ideias, terminou. Fecharam-se as prisões políticas e findaram as perseguições por delito de opinião, mas, a pouco e pouco, os beneficiários da Revolução foram os jovens salazaristas que envelheceram e envileceram sem nunca tolerarem quem restituiu a dignidade e a esperança ao povo português.

À medida que vamos esquecendo os nomes, o sacrifício e a generosidade dos capitães de Abril, franqueamos as portas aos nostálgicos da ditadura.

Este ano, celebram Abril as três primeiras figuras do Estado, o que já não sucedia há dez anos. É tempo de reflexão, não é eterna a liberdade nem vitalícia a democracia.

E pela memória passam os que entraram, saíram ou ficaram no devocionário de cada um de nós. Além dos já referidos, todos merecem uma comovida evocação: Carlos Fabião, Duran Clemente, Ramiro Correia, Sanches Osório, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Ramalho Eanes, Marques Júnior, Dinis de Almeida, Pezarat Correia, Franco Charais, Leal de Almeida, Sousa e Castro, Vítor Crespo, Rosa Coutinho, Pinto Soares, Almada Contreiras, Fischer Lopes Pires e tantos, tantos, tantos outros, para quem a dívida de um povo libertado permanece.

Vivam os capitães de Abril! Todos!

Viva a Revolução de Abril!

Viva a República!

Viva Portugal!

domingo, abril 24, 2016

Obama na Europa e a 'alavancagem' do TTIP


A digressão que o presidente Obama está a efectuar é o arrumar da casa (Branca!) antes de a desocupar como determinam as regras democráticas dos EUA na rotatividade presidencial.

Foi de rompante à Arábia Saudita para tentar apaziguar os ânimos em relação à sua politica externa no Médio Oriente nomeadamente às negociações com o Irão e a melindrosa questão do “documento 17” link, este ano desclassificado das restrições de divulgação, que poderá revelar ligações suspeitas entre o reino saudita e os autores do atentado terrorista de 11 de Setembro. 
Da visita a Riad transpareceu muita frieza e um franco afastamento que é revelador das actuais dificuldades de relacionamento entre dois velhos aliados. As amizades construídas à volta do crude são sempre 'viscosas'. Veremos quais as consequências futuras deste distanciamento mas parece mais um problema que foi transferido para a próxima presidência americana.

Depois desta entrada em falso, Obama ‘aterrou’ na Europa visitando os seus principais aliados. Teve em Londres uma participação activa quanto ao referêndum sobre o Brexit que não deixou de levantar susceptibilidades aos orgulhosos e preconceituosos britânicos oriundos do lado defensor o ‘Exit’. Esta é, todavia, uma questão marginal para a estratégia de fundo da política externa e comercial americana.

O que, de facto, Obama veio fazer, primeiro em Londres com Cameron e, depois, em Hannover com Merkael, foi tentar ‘vender’ o TTIP (Transatlantic Trade and Investiment Paternership), ou seja, um novo, abrangente e 'arrasador' tratado de livre comércio entre os EUA e a UE a somar aos múltiplos acordos bilaterais que estão em vigor.

E aí estamos perante um problema político muito sensível para a Europa democrática e no aspecto do desenvolvimento (económico e financeiro) um exercício bastante arriscado, para não dizer absolutamente redutor, nas aspirações do Velho Continente no contexto da globalização.

As negociações sobre este Tratado decorrem no mais profundo secretismo. Nenhuma estrutura democrática europeia ou nacional tem acesso ao conteúdo do que está a ser negociado em reuniões que mobilizam (quase exclusivamente) os diferentes lobbys económicos de ambos os lados do Atlântico. Por maioria de razão os cidadãos europeus foram formalmente colocados à margem dessas obscuras negociações.

A Comissão Europeia tem um mandato muito vago e impreciso, como convém aos euro[buro]cratas, decorrente das alterações introduzidas pelo Tratado de Lisboa e criou (em 2011) um “grupo de trabalho de ‘Alto Nível ’ sobre crescimento e emprego” que foi liderado pelo representante comercial do Governo dos EUA (Ron Kirk) e coadjuvado pelo Comissário do Comércio da UE (Karel De Gucht), e a razão deste passo foi publicamente anunciada como uma resposta (do Ocidente?) à crise financeira desencadeada em 2008, todos sabemos como, por quem, faltando explicitar para quê. Fica aqui a imagem da raposa a guardar o galinheiro.

Múltiplos acordos bilaterais de investimento foram assinados (bilteralmente) entre a Europa e muitos Países (incluindo os EEUU) no pós II Guerra Mundial  (1954) e, em 2006, foram utilizados no documento 'Europa Global' link  link para definir políticas ditas competitivas a nível mundial. Os acordos já assumidos contabilizam o interessante número de cerca de 3 milhares (!).

Na verdade, o que de novo o TTPI pretende é afastar os Estados membros da possibilidade (capacidade democrática) de controlar as grandes empresas transnacionais (holdings) e cartéis internacionais e assim regular a competitividade comercial. 
Na realidade, o instrumento desta política de domínio comercial mundial gizado à revelia dos Estados membros é o ISDS (Investor-State Dispute Settlement), isto é, Comissões Arbitrais, que operam à margem do controlo judicial (nacional e europeu) e cujas decisões não podem ser objecto de recurso para outras instâncias. Se alguma coisa faltava para desenvolver os ‘mercados livres’, tão ao gosto da ‘Escola de Chicago’, o TTIP é o completar do ciclo da neoliberalização ‘global’.

Em Londres, Obama conseguiu passar entre os pingos da chuva já que o Brexit é no momento uma questão dominada pela política paroquial (a que se associam questões económicas e financeiras) e utilizou o argumento do TTIP para ameaçar os adeptos da saída da Grã-Bretanha aa UE. De certo modo a mensagem passou ao lado dado o envolvimento ser essencialmente político e de cariz eminentemente ‘(ultra)nacionalista’. Aliás, a Grã-Bretanha funcionará como o 'cavalo Troia' dos EUA para a implantação do TTIP na Europa. Esta a postura histórica do Reino Unido e nada de novo se antevê capaz de introduzir alguma mudança de atitude.

Em Hannover, a questão não passou despercebida aos alemães e múltiplas organizações cívicas (130) organizaram, na véspera do encontro entre os dois dirigentes, uma manifestação de protesto que congregou expressivo número de participantes link . Transpareceu para a opinião pública que a aprovação do TTIP não será um assunto tão pacífico como desejariam os protagonistas das negociações em curso.

À margem e na sequência do périplo europeu de Obama recomeça, na próxima semana, em Nova York, a 13ª. ronda de negociações do TTIP.
A passagem por Londres e a reunião de Hannover não passam de ante-câmaras prospectivas (no silêncio dos deuses) para desbloquear questões políticas desta nova ronda. 

Obama gostaria de fechar o seu ciclo presidencial com o TTIP. Não terá tempo. Esperemos que desta vez a Europa exija discutir detalhadamente o alcance e as consequências de um instrumento tão importante em relação ao seu futuro. A 'financeirização' da política, nomeadamente a preponderância desta sobre aos ditames económico-financeiros, não tem terreno para ir tão longe.
Os cidadãos europeus não concebem que um Tratado deste alcance e consequências fique sujeito a uma votação do tipo referendário (sim ou não) no Parlamento Europeu.

Trata-se de um problema demasiado sério, diria vital, para passar ao lado da discussão pública e de referendos nacionais como sucedeu com a maioria dos múltiplos Tratados e Acordos que têm sido firmados (relembrar o Tratado de Lisboa).

Os eurocratas cometeram o erro capital: tentar dar o passo maior do que a perna. A viagem de Obama não conseguirá reverter a crescente indignação dos cidadãos europeus.

O Batizado do Menino Dinis - Texto de fim-de-semana

Injustamente ignorado pelas primeiras páginas dos jornais, afastado da abertura dos noticiários televisivos, teve lugar no dia 19 de fevereiro de 2000 o batizado do menino Dinis de Santa Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco João de Bragança*.

A princípio julguei tratar-se de uma lista donde os padrinhos escolhessem o nome mais bonito. Só quando percebi que todos os nomes passavam a designar o novo cristão me dei conta da relevância do evento, abrilhantado pelo Senhor Bispo do Porto, numerosos membros do cabido, proeminentes plebeus e piedosas senhoras da melhor sociedade.
Foi com alguma emoção que soube libertado dos riscos do limbo o pequeno Dinis através da água do rio Jordão, embora fosse preferível, por razões bacteriológicas, a dos Serviços Municipalizados do Porto depois de convenientemente benzida.

Escreveu Augusto Abelaira que o homem é o único animal que distingue a água benta da outra, mas nada referiu sobre a diferença da água captada no rio Jordão ou na bacia hidrográfica do Douro.

Certo, certo, é que o menino ficou mais puro, liberto que foi do pecado original que penosamente carregava desde o dia 25 de novembro do ano que findou.

Felicito os patrocinadores e as piedosas pessoas que contribuíram com mais de seis mil contos para tão auspiciosa festa. Apenas temo, por se tratar de uma virtude, que o preço elevado a que ascendeu o primeiro sacramento possa tornar incomportáveis os primeiros vícios.

No entanto, estou certo de que as excelsas senhoras, que ora acompanharam piedosamente o neófito no caminho da virtude, o não abandonarão com a sua solicitude no primeiro pecado.

* Filho do Sr. Duarte Pio, alegado duque de Bragança

Fevereiro de 2000 - In Pedras Soltas (2006) – Ortografia atualizada

sábado, abril 23, 2016

Catroga sobre Teodora: encómios "assassinos"…

Não há organismo financeiro, económico, de gestão, de contabilidade, de maeketing ou de notação capaz de refrear posições, projecções, antecipações, previsões sobre políticas orçamentais de diversos Países. 
Mesmo em situações de equilíbrio ou de superavit logo são lançadas hipóteses do fim abrupto desses El Dorados por ante-visão de catastróficas estratégias globais em permanente incubação absolutamente destruidoras de capacidade autónoma de desenvolver-se e castradoras de todo o tipo de esperança. 

Qualquer emergência económica ou financeira que afaste os povos da pobreza, em pleno desenvolvimento - como foram recentemente os chamados BRIC's - é de imediato apresentada como condicionada por interesses ocultos e enviesados, capturadores de qualquer tipo de sucesso. 
O futuro - neste antros - está adstrito à aplicação de doutrinas neoliberais. Tudo o que sair deste redil está previamente condenado.

Portugal tem sido uma vítima particular deste sistema de análise e divulgação de 'palpites'. Embora desencontradas, as projecções sobre o País são, na maioria, nefastas e se as levássemos à letra já tínhamos encerrado este torrão natal para obras.

Quando a realidade não confirma a previsão é andar em frente e fazer sair uma nova antecipação ainda pior. A receita é sempre a mesma: 'mais reformas estruturais'. E as ameaças também: fim de captação de investimento, paragem do crescimento, aumento do desemprego, etc.. Os relatórios da maioria de entidades a actuar no  terreiro político internacional são repetitivas, enfadonhas e, cada dia que passa, revelam-se pouco credíveis. São a cruel vingança para muitos que  passaram parte da vida a criticar 'cassetes'. Agora têm filmes de longa metragem a toda a hora com o mesmo enredo, os mesmos actores, o mesmo guião e a promessa de 'finais felizes' (o herói da fita anseia ganhar crédito nos 'mercados').

Tudo isto a propósito do Conselho de Finanças Públicas e dos seus pareceres. Perante o Plano de Reformas apresentado pelo Governo, que contempla mais de 2 centenas de medidas, o referido Conselho demorou poucos dias para apresentar a público o seu veredicto. 
Uma opinião demolidora sobre os fundamentos das medidas. Espanta como um Conselho presidido por uma vetusta e anosa senhora foi capaz de coordenar um organismo e avaliar tanto em tão pouco tempo. Corremos o risco de, no futuro, a avaliação preceder o documento original.

E para colocar a cereja em cima do bolo surge Eduardo Catroga o ‘criador’ desse organismo de controlo público quando das negociações orçamentais com Teixeira dos Santos, já em plena crise, a afirmar sobre o Conselho de Finanças Públicas: “tem feito um trabalho altamente meritório, altamente isento, imune a pressões políticas"  link .
O criador a elogiar a sua criação. O ‘altamente’ está mesmo a calhar. Já a imunidade é outra coisa, isto é, diz respeito a uma reacção a um corpo estranho. E o Governo para este Conselho é um corpo - estranho ou entranhado – e simultaneamente um alvo. 
Aliás, desde o início de funções o Conselho de Finanças Públicas só conseguiu ‘acreditar’ no orçamento de Vítor Gaspar em 2012. E para os portugueses está tudo dito.

Elogios como estes, vindos de Eduardo Catroga, destroem a reputação de qualquer organismo e colateralmente têm um efeito preverso: desprestigiam os dirigentes envolvidos. 
É a velha ‘tralha cavaquista’ a tentar perdurar nas estruturas e no aparelho de Estado e continua a desfrutar de largo tempo de antena na comunicação social. 

Não se percebe é porque o citado senhor não se fica pelas ‘electricidades’ - a sua dourada reforma - e julga-se ainda apto e credível para andar pela comunicação social a descarregar ‘faíscas’ a torto e a direito. 
Até onde (e quando) vamos permitir o enchimento do País de 'Medinas Carreiras'?

sexta-feira, abril 22, 2016

Gralha ou desejo?


A presidência da UE trocou a foto do ministro Mário Centeno pela do jornalista José Gomes Ferreira.

O que parece uma gralha pode ter sido a manifestação subconsciente de um desejo que a realidade frustrou. Era mais fácil confundi-lo com a professora de Passos Coelho, que escondeu a situação do Banif aos portugueses, do que com o economista prestigiado que o diretório europeu tem dificuldade em aceitar, por mero preconceito ideológico contra um governo social-democrata que tem o apoio do PCP, BE e PEV.

O jornalista em questão tem mais traços de Maria Luís Albuquerque do que de Mário Centeno.

Banco Central Europeu e soberania nacional


Quando o Banco Central Europeu (BCE) proíbe o ministério das Finanças de divulgar a correspondência sobre o Banif, à AR, e o governador do BP ao Governo, urge perguntar se o BCE pode desafiar a soberania nacional e os seus órgãos e se existe democracia.

Na Assembleia da República, o governador do BP, confrontado com os eventuais danos causados a Portugal com a proposta de limitar o acesso do Banif a liquidez, ocultando a informação ao Governo, invocou a confidencialidade que o BCE lhe exige.

Sendo o governador do BP escolhido pelo Governo, em sintonia com a oposição, o que só não se observou na recondução do atual titular, no Governo de Passos Coelho, por débil formação democrática do PM e/ou eventuais interesses ocultos, e a nomeação pelo PR, para garantia de isenção, fica-se perplexo com a ausência de obrigações perante os órgãos de soberania eleitos e a dependência de um funcionário europeu nomeado.

Esta situação revela à saciedade como as eleições se tornam mera liturgia para fingirem a democraticidade das instituições, sem que o dever de cooperação institucional do BP com o Governo e a AR se sobreponha à sujeição ao governador do Banco Central.

Perdida a coragem para enfrentar instituições cujo poder não é escrutinado, hipotecámos a independência e a honra, e não vale a pena fingir que existe um módico de soberania.

Afinal, Cavaco Silva, cuja reabilitação está a ser promovida e Passos Coelho, a quem já é atribuída capacidade governativa, eram as pessoas certas para fingirem que dirigiam o país em que os seduzia a obediência a troco de elogios encomendados.

Salazaristas, de antes e depois!