quinta-feira, março 23, 2017

De Cavaco e Barroso a Donald Trump

A mentira tem a perna curta, mas os mentirosos têm muitas pernas. Parecem centopeias.

O FBI investiga suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, o que, a ser verdade, é um grave risco para a segurança dos EUA, mas Trump, talvez para desviar atenções, acusou Obama de o espiar durante a campanha eleitoral, recorrendo à mentira como tática e à calúnia como estratégia.

É irrelevante que o Departamento de Justiça e o FBI não tenham quaisquer indícios de que Trump tenha sido escutado e espiado a mando do ex-Presidente Barack Obama, o que interessa é o ruído necessário e suficiente para desviar as atenções.

A pós-verdade prenuncia a pós-liberdade, a tragédia que parece corroer as mais sólidas democracias mundiais. O perigo não é a mentira, é a indiferença dos cidadãos à mentira mais torpe e à mais aleivosa das acusações. A anestesia cívica produz gera impunidade e insensibilidade ao embuste.

Trump não é pioneiro, Hitler usou a estratégia com êxito. Aliás, a mentira ganha sempre as primeiras batalhas, apesar da tendência para acabar derrotada.

O PR americano faz a síntese de dois políticos portugueses, agora ávidos de recuperar a confiança dos portugueses, Cavaco Silva e Durão Barroso.

Cavaco, que exige que se nasça duas vezes para ser mais sério do que ele, foi percursor das escutas falsas para prejudicar um partido de que não gosta. Atribuiu à máquina do PS a paternidade da mentira cujo mérito enjeitou.
Barroso, entusiasta da cimeira que definiu aos portugueses como a última oportunidade para a paz, sabia decidida a guerra e falso o pretexto, mas, anos mais tarde, insinuou que o PR, Jorge Sampaio, apoiou a invasão, para depois esclarecer que só concordou com a reunião (a política externa é da exclusiva competência do Governo) e acabar a garantir que foi a primeira pessoa a quem informou da criminosa reunião.

Ainda ressoam os insultos a Sampaio, que ninguém lhe ligava e que a invasão do Iraque era a porta aberta à prosperidade de Portugal na viagem conjunta com os EUA, o Reino Unido e a Espanha, quer ele quisesse ou não. Não pôde empenhar as Forças Armadas do ministro Portas, mandou a GNR, do M.A.I.

Cavaco e Barroso são versões paroquiais, percursores de Trump à escala global.

Ponte Europa /Sorumbático

quarta-feira, março 22, 2017

A frase

“Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda.”

(Jeroen Dijsselbloem, presidente do Conselho Europeu, ministro das Finanças do maior offshore da União Europeia (Holanda), paquete do Sr. Wolfgang Schäuble, numa alusão aos países do sul da Europa).

Nota: Até na tradução de ‘vinho verde’ por ‘aguardente’ adulterou uma frase boçal portuguesa.

Nós e o ex-jovem turco António Barreto

Não tenho por António Barreto, o sociólogo a quem Mário Soares entregou o ministério da Agricultura e fez dele, por más razões, figura mediática, qualquer ódio de estimação, mas não desprezo o missionário da direita civilizada com aura de independente.

É a faceta civilizada e a bem cuidada aparência de equidistância que mais me enfastiam no seu ódio de estimação à esquerda, a qualquer esquerda à esquerda da pior direita, no jeito de quem transitou pela esquerda, saindo do PCP pela esquerda, e apanhou a boleia do PS a caminho da direita pura, dura, sem concessões, em solavancos renovadores.

António Barreto (AB), falhada a carreira política de quem se julgava ungido para líder e ideólogo, dedicou-se à análise política nos órgãos de comunicação social, com especial relevo e proveito na televisão.
No DN tem uma coluna semanal onde faz política e publica fotografias, onde se revela bom fotógrafo, sofrível analista e obsessivo adversário da esquerda. «Sem Emenda» é o nome da coluna que, na última semana, intitulou «Nós e os Turcos».

AB não aceitou que dois ministros turcos fossem impedidos de entrar na Alemanha e na Holanda a apelar ao voto dos emigrantes no referendo que confere a Erdogan poderes totalitários, e explica a ‘estranha’ falta de protestos europeus, de esquerda ou de direita:

(…) «A complexidade do problema explica o silêncio. A esquerda calou-se, envergonhada, porque simpatiza com os muçulmanos e com os imigrantes, porque lhe custa defender a ideia de que os estrangeiros “de direita” possam fazer reuniões políticas no estrangeiro, porque não gosta de Erdogan e (…)».

Onde descobriria o ex-comunista a simpatia da esquerda por muçulmanos xenófobos, misóginos e comunitaristas? Afastou-se tanto da esquerda que confunde a solidariedade com os refugiados e a cumplicidade com o fascismo islâmico.

Há entre nós e o ex-jovem turco um abismo que nos separa, mas não devemos deixar à solta, impune, no espaço mediático, o trânsfuga AB.

terça-feira, março 21, 2017

A Europa e os “se’s” da candidatura Schulz…

A crise da União Monetária tem ingredientes capazes de reativar a esquerda europeia. Na fase aguda da crise muitos partidos sociais-democratas entraram em ‘pasokitização’, por uma razão muito simples: apoiaram direta ou indiretamente a austeridade e tudo aquilo que lhe está inerente e a envolve.

A ‘tentação pelo abismo’ (capitalista) existiu e conduziu a social-democracia para o desastre. Em muitos países surgiram ‘Esquerdas’ alternativas, multifacetadas, muito indignadas que percorrem um amplo leque de opções: desde os populismos esquerdistas (contestatários) até à reedição das velhas conceções trotskistas. Do outro lado, isto é, na Direita, o terreno tornou-se fértil para o crescimento de movimentos populistas e nacionalistas.
Este, na sua essência, o figurino europeu que vai dominar a Europa este ano.

Para trás ficaram já 2 momentos essenciais. O 'Brexit' e as eleições Holandesas. Pela frente a proximidade do ato eleitoral presidencial em França e, finalmente, as eleições alemãs. Na realidade, a Europa está pendurada nos resultados das eleições germânicas que ocorrerão lá para o Outono. Estas não oferecem tantos riscos democráticos como as francesas mas têm um elevado significado. Não está em causa a possibilidade da extrema-direita alemã influenciar o novo governo mas sim o resultado de uma cíclica disputa entre o SPD e a CDU (Merkel e Schulz).
Não é muito auspicioso este embate porque não aporta nada de novo quer em estratégia, quer em doutrina.

Todavia, o ‘ano eleitoral europeu’ que está a decorrer poderá ser a última oportunidade para analisar (sem dogmas neoliberais) e tentar reverter (sem descontrolos orçamentais) os efeitos das medidas de austeridade impostas pelos conservadores a toda a Europa que 'destroçou', de alto a baixo, o 'projeto europeu'.

Não é nítido (nem adquirido) que a candidatura de Martin Schulz a chanceler venha a condicionar uma mudança da social-democracia alemã que (ainda) vive à sombra da ‘viragem liberalizante’ de Gerhard Schrōder, desencadeada no final do século XX e início do XXI, com a célebre “Agenda 2010”. O SPD saiu dessa ‘agenda’ ensanduichado entre o Die Linke e os Verdes e, em consequência, perdeu quase toda a força e influência política.
Até ao Outono Martin Schulz terá oportunidade de ponderar as causas (remotas) do ‘tombo’ da social-democracia alemã, do pós-Schrōder, e mais tem condições objetivas para recolocar o SPD no seu lugar histórico. Se o conseguir fazer, ultrapassando as barreiras internas presentes e se, apesar disso, lograr uma vitória, será uma grande momento para a Esquerda Europeia.

Reconheçamos, contudo, que pelo meio deste atribulado processo existem muitos… ‘se(s)’.

Ponte Europa (2.ª Edição) - Apresentação na Guarda

Amável deferência de Joaquim Igreja sobre o lançamento da 2.ª Edição do livro «Ponte Europa» na Guarda.

Carlos Barroco Esperança, ex-aluno do Liceu Nac. da Guarda, autor de PEDRAS SOLTAS, acaba de lançar a 2ª edição de PO...
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segunda-feira, março 20, 2017

PàF – Réquiem de um pesadelo

As declarações de Assunção Cristas na entrevista ao Público não podem ser vistas como falta de experiência de uma ministra que caiu no ministério da Agricultura como Pilatos no Credo Romano.

Quem participa em reuniões virtuais do Conselho de Ministros e subscreve uma decisão política por email não ganha credibilidade política, sobretudo com a anuência implorada pela colega das Finanças, sem ponderação, numa matéria tão relevante como a decisão sobre o futuro do grupo GES/BES, e sem consciência de que as decisões coletivas do Conselho de Ministros comprometem individualmente todos os seus membros.

Assunção Cristas disse que “O Conselho de Ministros nunca foi envolvido nas questões da banca”, atribuindo a responsabilidade do colapso do BES a Passos Coelho, e, de uma só vez, mostrou a leviandade de todos os ministros do PSD e do CDS. Com a entrevista, ficámos a conhecer melhor a qualidade dos agentes políticos que durante mais de quatro anos procuraram desmantelar o Estado social movidos por radicalismo ideológico.

A líder do CDS, ao denunciar publicamente o que se passava no Executivo, colocou-se à altura de Cavaco Silva, quando revelou as reuniões institucionais, sigilosas, entre o PR e o PM. A decadência ética da atual direita não é presunção, é uma evidência.

Há várias conclusões a tirar da entrevista de Assunção Cristas, mas a mais importante é a da decomposição da coligação com que Cavaco queria continuar a fustigar o País que o elegeu.  Os líderes provisórios do PSD e do CDS não requereram o divórcio litigioso, mas anunciaram já a separação de pessoas, apesar da comunhão de interesses.

Finalmente, estão a servir o País.

sábado, março 18, 2017

Crónica de Fim de Semana

A Escola do Magistério Primário da Guarda (EMPG) e o corpo docente

Quando em 1959 entrei naquele estabelecimento de ensino médio, logo consagrado com o epíteto de aluno-mestre, dei-me conta do regime concentracionário daquele antro onde a moral e os bons costumes eram defendidos da forma que seria designada por bullying, décadas depois. Em breve, o liceu pareceria um espaço de liberdade.

A docência e a decência eram ali inconciliáveis. O edifício ficava em frente da antiga prisão, poucos anos antes mudada para um imóvel na periferia da cidade. Eu recordava ainda os sacos de pano suspensos de um cordel, que ondulavam sobre o passeio, onde alguns transeuntes introduziam cigarros ou moedas que os presos recolhiam na cela.

Não sei se houve algum mimetismo a contaminar a EMPG e o seu diretor. Notavam-se algumas diferenças, desde o formato das grades ao aspeto dos carcereiros, talvez por mero acaso, mas respirava-se o medo e sentíamo-nos igualmente espiados.

Na indigência do corpo docente havia exceções. O professor de Higiene era um médico de rara delicadeza e simpatia, excelente comunicador e culto. A deficiência física, com anomalias graves do esqueleto que o obrigavam a conduzir um carro adaptado, não lhe contaminou o cérebro. Parecia deslocado, tal como a idónea professora de Desenho, calma e humana, ostracizada pelos colegas. Só mais tarde soube que a D. Fernanda era divorciada, nódoa indelével na EMPG, que fazia a síntese entre o cárcere e a sacristia.

Armando Saraiva de Melo era bom docente de Psicologia infantil, comparável aos já referidos, mas medíocre diretor e execrável cidadão, reacionário e déspota. Presidente da União Nacional no distrito da Guarda, imprimia um cunho ideológico à instituição e tornou-a um veículo de propaganda do regime.

Os outros professores, recrutados por convite, caíram no corpo docente como Pilatos no credo romano. Não eram recomendáveis. A Pedagogia fora entregue ao prof. Lourenço, um bom homem, temente a Deus e ao diretor, afeito à submissão do seminário e incapaz de ir além do compêndio. O ensino primário perdeu o bom professor e a EMPG ganhou um medíocre. Em Didática e Legislação Escolar o professor Vasco debitava os livros oficiais, desenvolto da parte da manhã, e titubeante depois do almoço. O de Educação Física, Crespo de Carvalho, usava as aulas para propaganda monárquica e salazarista e, se acaso sabia preparar professores para a educação física das crianças, não o chegámos a saber.

O padre Melo, que depois do 25 de Abril deixaria o múnus, lecionava a disciplina de Música e divertia-se a gozar os desafinados. O padre Queijo Cabral era o professor de Religião católica, disciplina obrigatória no currículo académico e na prática individual, cuja prova escrita tinha como pergunta sacramental: «as provas da existência de Deus», onde levei longe a dissimulação e o brilhantismo referindo-lhe as provas de Tomás de Aquino, um santo doutor da sua Igreja, estudado no 7.ºano do liceu na disciplina de Filosofia, cadeira que preparei, à margem do curso, para o exame liceal. Era obrigatória a cadeira de Religião Católica e não havia aulas de Português.

A missa da consagração do curso era obrigatória. Levei tão longe a dissimulação que, na missa, depois de o Ricardo ter avançado para segunda hóstia, o diretor não o tinha visto na primeira, acabei com o Tamagnini a estender a língua à rodela de pão ázimo que o padre distribuía a todos os finalistas.

A Escola do Magistério não era uma instituição estimável, já o disse e devo repeti-lo. O Diretor era, por inerência, chefe da secretaria e o 3.º oficial, Sr. Preto, de baixa estatura física e ética, era arrogante, grosseiro e vingativo. Julgava-se dono da loja e humilhava os alunos. Levei escondido um rolo de papel higiénico para pegar no diploma de curso que aguardei em longa fila, para lhe dizer que não queria sujar as mãos onde estiveram as dele, deixando-o aos gritos, dentro do balcão, enquanto virei costas ao antro.

Até os contínuos eram do piorio. Um era fortemente suspeito de ser informador da Pide e a D. Sofia a megera que palpava as pernas às alunas para apurar se levavam meias. As de vidro eram transparentes e obedeciam à pudicícia imposta, mas após o conhecimento de que uma aluna escarnecera as normas, imitando a costura, com um risco a lápis nas pernas desnudas, a D. Sofia encarregou-se de apalpar as pernas num espetáculo obsceno de humilhação e impudor, à entrada na Escola.

Foram dois anos penosos que terminaram com a fotografia de curso tirada no seminário, na companhia insólita do bispo, o reacionário Policarpo da Costa Vaz, e com a missa de consagração na igreja da Misericórdia, sempre sob a vigilância policial do diretor Melo.

A Escola era a caricatura do salazarismo. Dela, da indigência pedagógica e da repressão, ficaram os afetos entre colegas, sólidos e imperecíveis, de um tempo e lugar onde os afetos públicos eram vigiados e a aproximação do automóvel do diretor (EA-29-82) causava calafrios.

sexta-feira, março 17, 2017

As eleições holandesas

As eleições holandesas não podem ser reduzidas a exercícios contabilísticos, à contagem de cadeiras no Parlamento, aos avanços e recuos eleitorais e a especulações sobre prováveis coligações governativas. Na realidade, existiu algo para além disso.

O que aconteceu na Holanda foi mais uma oscilação do eleitorado que se revelou extremamente crítico para com o sistema político-partidário vigente e simultaneamente uma profunda fragmentação do eleitorado.
Numa leitura desapaixonada dos resultados dificilmente se conclui que o ‘perigo populista’ foi contido. Na verdade, o partido do fascista e racista Geert Wilders resistiu aos mecanismos de exclusão que se desenharam no leque partidário holandês. À partida os populistas não tinham qualquer hipótese de vir a integrar um futuro governo o que é um handicap eleitoral, nomeadamente para a Direita, que não aprecia os protestos platónicos e muito menos afirmações de princípio ideológicas (que de facto o populismo não alberga).

Numa análise preliminar dos resultados eleitorais holandeses não deve ser excluído o receio de que o partido de Geert Wilders (Partido para a Liberdade – PVV) tenha conseguido caminhar no sentido de uma consolidação do seu eleitorado (subiu 3% em relação às eleições de 2012). Facto que não pode ser considerado como sendo um bom auspício.

Por outro lado, não basta verificar que os partidos tradicionais perderam influência eleitoral havendo inclusive casos de ‘pasokização’ (Partido do Trabalho - PvdA). A grande mudança verificada foi uma profunda fragmentação do espectro político – uma autêntica ‘pulverização’ – (concorreram às eleições 28 partidos) em que à margem de conceitos e construções ideológicos capazes de efeitos agregadores emergiram por todo o lado múltiplas formações de bases locais, sectoriais e até de sectores religiosos (p. exº. União Cristã – CU cujo fundamento ideológico é a Bíblia!).
Foi uma espécie de 'festival de lobbys' que desceu ao terreno para se afirmar e influenciar a política.

O partido vencedor (Partido Popular para a Liberdade e Democracia – VVD), dirigido por Mark Rutte, representa cerca de 1/3 dos eleitores e não tem uma tarefa fácil pela frente. Qualquer coligação que venha a ser formada, dado o espectro partidário existente, será pouco coesa. O VVD é um partido liberal do Centro-Direita e a atual situação pós-eleitoral mostra que poderá ser muito complicado dispensar parte da esquerda (latu sensu), onde se inclui o D66 (radical, progressista e social-liberal), pelo que as negociações, para formar um novo Governo, deverão arrastar-se. Não vai ser fácil arranjar parceiros para prosseguir uma política de austeridade. Todavia, não deve ser esquecido que há 7 anos (2010) Rutte formou um governo que beneficiou do apoio parlamentar de Geert Wilders.

Um dos partidos que mais subiu nestas eleições (6,6%) foi a Esquerda Verde (EV), facto que significa a transferência de votos da social-democracia liberalizante, muito ao estilo Blair, que estava sediada no Partido do Trabalho, para o Centro (VVP) e para a Esquerda (EV).
Todavia, é previsível que dado os seus antecedentes históricos e nomeadamente as suas conceções económicas e de redistribuição da riqueza este agrupamento não venha a integrar uma futura coligação governamental liderada pela Direita.

Finalmente, o mais importante é ter a noção do que está a acontecer em alguns países da Europa: uma penosa e galopante bipolarização. Os populistas (e nacionalistas) contra uma amálgama de ‘outros’ que vão desde os eurocéticos, aos sociais/liberais, aos radicais, aos anticapitalistas passando pelos que pretendem regulamentar da imigração sem a ‘excomungar’, i. e., absorvendo as notórias tensões sociais.

Na realidade, neste momento, na Europa, a ‘iniciativa política’ está do lado dos populistas de Direita estimulados pela eleição de Trump.  As eleições holandesas representam um suspiro de alívio mas não permitem tirar ilações para futuro. A bipolarização vai continuar a pairar sobre os europeus. Enterrar a cabeça na areia e esperar que nada aconteça é a pior atitude que poderemos adotar.

Sócrates e a Justiça

Quando em 1960 fiz exame de «Organização Política e Administrativa da Nação», (7.º ano liceal) aprendi que os juízes eram independentes, irresponsáveis e inamovíveis, atributos que não eram privilégio dos julgadores, mas a garantia da defesa dos cidadãos.

Apesar de a ditadura fascista ter aviltado a Justiça com Tribunais Plenários e de ter visto no juiz Morgado Florindo uma caricatura perversa, não duvidei de que os Tribunais são o último reduto da democracia.

Por estranho que pareça, continuo a pensar assim e, por isso, não me tenho pronunciado sobre o caso mediático do julgamento de um antigo primeiro-ministro.

Não me pronunciei quanto às constantes violações do segredo de justiça, permaneci em silêncio quando o julgamento foi feito na praça pública, respeitei a ética republicana de considerar que o Estado de Direito reside na separação dos poderes.

Com o processo a caminho de 4 anos, depois de sucessivos adiamentos dos prazos para deduzir acusação, o último adiamento deixa-me perplexo. Não me constrange a ideia de que quem é contra o poder arbitrário é cúmplice dos corruptos. Há aqui poder arbitrário.

Há um tempo para deixar à Justiça o que é da Justiça. Chegou o tempo de pedir contas dos abusos quanto aos prazos e do medo que infunde o poder discricionário. Depois do novo adiamento e de se afirmar na comunicação social que a prisão preventiva terá sido ilegal, a decisão dos juízes corre o risco de ser vista como politizada, como se os crimes tivessem partido ou os juízes se subordinassem aos interesses eleitorais.

Li ‘O Processo’ de Franz Kafka e partilhei a angústia do seu personagem Josef K.. Não quero que façam do antigo PM um Josef SóK. português, porque é a Justiça que agora vai ser julgada com a convicção de que os prazos judiciais são meros conselhos.

As prorrogações, tal como as medidas de segurança, podem ser indeterminadas para ele e para qualquer de nós. São uma prorrogativa da PGR.

Basta!

Holanda - O pior não aconteceu


quinta-feira, março 16, 2017

Cimeira das Lajes – Ilha Terceira, 16 de março de 2003

Na tarde de hoje, há 14 anos, na base das Lajes, teve lugar a cimeira da guerra onde, em macabra encenação, foi anunciada a invasão do Iraque.

George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar foram recebidos pelo mordomo luso, que fora a Londres ver as provas das armas químicas de Saddam Hussein, mentira que serviu de pretexto à agressão. Os sinistros cruzados já antes tinham decidido a invasão que ali fingiram acordar. Isso mesmo veio a ser confirmado num relatório parlamentar britânico.

Na Assembleia da República, em Portugal, o PSD e o CDS, então maioritários, votaram a participação no crime. Só não seguiu uma força militar, com desgosto de Paulo Portas, então ministro da Defesa, por oposição do honrado PR, Jorge Sampaio, invocando a sua qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas. A direita parlamentar e o seu governo avançaram então com um contingente da GNR.

Barroso, esse gigante da ética, videirinho e vil, havia de dizer, muito depois, que teve o apoio do PR, reincidindo em mais uma mentira que apenas reforçou a pusilanimidade do cúmplice.

Hoje, volvidos 14 anos, centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, são as vítimas desse crime cujos autores ficarão impunes.

A luta contra o esquecimento exige que se recordem os autores amorais da invasão que destruiu um país, destabilizou o Médio Oriente e perturba o Mundo.

Não podemos esquecer.

A República, o Sr. Duarte Pio, as figuras e os figurões de Estado

O estranho tropismo do PR para os dedos anelares do clero compromete o carácter laico e republicano do cargo, apesar da isenção e sentido de Estado com que o tem exercido. É, aliás, o único reparo que posso e devo fazer a quem, sendo de uma família política diferente, não tenho o direito de exigir que partilhe os meus pontos de vista.

Surpreendente é a posição dos cidadãos, ou melhor, vassalos, que ocupam ou ocuparam altos cargos da República. Refiro-me a uma petição para que fui alertado por um sólido Historiador e estimado amigo, Amadeu Carvalho Homem.
“Petição quer incluir o duque de Bragança no protocolo de Estado”. Eu julgava extintos os títulos nobiliárquicos desde a implantação da República e o Sr. Duarte Pio um mero ornamento das revistas do coração, sem prejuízo do humor que o ridículo produz.

Acontece que pessoas tidas por normais, algumas com farta erudição e aparentemente saudáveis, são subscritoras de tão idiota petição num regime cuja irreversibilidade é exigência da Constituição que alguns deles juraram.
Não me interessa a progenitura do Sr. Duarte Pio, improvável Bragança, e desculpo-o do orgulho que exibe na ascendência miguelista de má memória.

O que não desculpo é a afronta da introdução na hierarquia do Estado de um furúnculo legado por via uterina e o demente desejo de alterar o protocolo de Estado com adereços vitalícios e sem legitimidade democrática. Querem alterar a legislação de 2006 porque há algumas dificuldades protocolares quando o sr. Duarte Pio é convidado para eventos. Então por que motivo e a que título o convidam?

Que o presidente da Câmara do Porto espere que o façam visconde é uma inanidade que se respeita; que um fascista, Jaime Nogueira Pinto, queira a monarquia é um direito; que Paulo Azevedo, rei dos supermercados queira ser marquês, tem dinheiro para comprar o título; que Carmona Rodrigues, Diogo Feio, Nuno Melo, Telmo Correia, Mota Soares e outra tralha do CDS desprezem a República é uma honra para a República, mas que um conselheiro de Estado, Lobo Xavier, por menos recomendável que seja, e é, ou Adelino Maltez, pertencente a uma instituição respeitável, o GOL, juntem as suas assinaturas a tão más companhias só há três explicações possíveis: estão onde não devem, são miguelistas (extrema direita) ou ensandeceram.

Ou acumulam.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, março 15, 2017

O Tribunal Europeu de Justiça (TEJ) e a exibição de símbolos religiosos

Conciliar a liberdade e o proselitismo religioso é tarefa difícil, na Europa, onde alguns imigrantes desprezam a cultura autóctone e fazem provocações. É neste contexto que o TEJ concedeu ontem às empresas europeias o direito de proibirem aos trabalhadores o uso de símbolos religiosos visíveis nos seus locais de trabalho.
Não é o uso que se proíbe, é a exibição, e conhecemos a vocação religiosa para afrontar a laicidade, que faz parte do ethos civilizacional que urge defender, e está a ser atacada.

Esta jurisprudência tem contra ela prosélitos de várias religiões, intelectuais de vários matizes e sobretudo a cobardia do politicamente correto.

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que insiste em ornamentar as cerimónias profanas com as vestes talares dos seus dignitários e acolher os governantes sob o pálio, já contestou a decisão e avisou que pode estender-se a todos os sinais religiosos. Claro que pode (aos ostensivos) e, na minha opinião, deve. Um padre, pode ser médico, e não deve dar consultas de batina e colar romano num hospital público. Um bispo também, mas não lhe deve ser permitido levar a mitra e usar o báculo para apontar a anatomia do corpo humano. E isto é válido para um rabino, um mulá, uma devota do véu romano e frades e freiras de qualquer religião.

Paulo Mendes Pinto, fundador da Academia Europeia das Religiões, um académico que estimo, afirmou que, na véspera das legislativas na Holanda, “o timing desta decisão não podia ser pior”. Conheço este diretor da Licenciatura e do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, onde também dirige o Instituto Al-Muhaidib de Estudos Islâmicos. Habitualmente estamos de acordo, agora não.

A comunicação social dá relevo a todas vozes contra a decisão do TEJ sendo omissa em relação às favoráveis. Aqui fica o meu aplauso. De pé.

Quanto à proibição do véu islâmico por uma empresa, que agora viu reconhecido o seu direito, em nome da neutralidade religiosa que exige no local de trabalho, levantam-se vozes a dizer que muitas mulheres vão ser excluídas do emprego.

Lembro-me do Sr. Lopes, padeiro e alcoólico, perplexo perante o anúncio televisivo da lei que limitou o consumo de álcool aos condutores. Ele, que não tinha carro nem carta, exclamou: «Então, a partir de agora, não se pode conduzir».

Talvez possamos compreender a posição de José Rentes de Carvalho, democrata que teve de exilar-se durante a ditadura fascista e hoje um conhecido escritor luso-holandês: “O problema é que ele (Wilders) não pode realizar o que promete, pelo que votar nele é uma forma de protesto. Por isso vou dar o meu voto a Wilders (líder da extrema direita).

Não podemos continuar a ignorar as agressões do fascismo islâmico à cultura europeia.