quinta-feira, dezembro 08, 2016

Burqa e nicab

Depois de a França ter proibido, em abril de 2011, o uso do véu integral em espaços públicos, decisão aceite pelo Tribunal dos Direitos Humanos, em 2014, mais três países se juntaram, com justificações diversas, ao clube dos países proibicionistas.

No mesmo ano, em junho, a Bélgica proibiu que se aparecesse «com a face coberta ou escondida, em parte ou na totalidade, de forma a tornar impossível a identificação», em locais acessíveis ao público.
Em setembro deste ano, a Bulgária aprovou a lei que proíbe usar em público roupas que cobrem parcial ou totalmente o rosto, salvo por motivos profissionais ou de saúde.

Na última semana, o Parlamento holandês aprovou a proposta que proíbe burqa, niqab, capacetes e passa-montanhas, nos transportes e edifícios públicos, e Geert Wilders, do partido da extrema-direita, defende a interdição total e lidera as sondagens eleitorais.

Na Itália, Suíça, Alemanha e Reino Unido discute-se o problema e nos dois últimos já se ensaiaram as primeiras restrições.

A ingenuidade de quem vê na proibição um atentado à liberdade religiosa, que é preciso defender, talvez não seja alheia à onda de racismo e xenofobia que varre a Europa com reflexos eleitorais catastróficos a ajudarem partidos de direita extrema ou abertamente fascistas.

Não terão os imigrantes o dever de respeitar o “ethos” cívico e democrático europeu, à semelhança do que os europeus fazem quando emigram para países muçulmanos ou de hegemonia budista?

Deixar à extrema-direita a defesa de valores civilizacionais consolidados é comprometer a alternância democrática e, em última análise, renunciar à democracia.

Fonte informativa: DN, 1-12-2016, pág. 28.

Ponte Europa / Sorumbático

quarta-feira, dezembro 07, 2016

Mário Soares – 92.º aniversário

No dia do seu aniversário, é de elementar justiça prestar-lhe homenagem e recordar a dimensão intelectual, política e cívica de quem moldou de forma indelével esta segunda República.

Nunca outrem interpretou melhor, nos seus defeitos e virtudes, a forma de ser português e de condicionar o devir histórico.

Homem de coragem, física e intelectual, teve contra si, em vários momentos históricos, umas vezes, a animosidade e outras, o afeto, de todos os portugueses.

Sendo o maior português vivo, é uma das raras personalidades que não deixou ninguém indiferente, que continua a suscitar sentimentos antagónicos, e a quem Portugal deve a longa vida de luta pela liberdade.

Parabéns, Mário Soares.

Alemanha


 Merkel é reeleita presidente da CDU e quer proibir o uso de véu islâmico.

terça-feira, dezembro 06, 2016

Efemérides – Dia 6 de Dezembro

1865 - A décima terceira Emenda à Constituição norte-americana encerra formalmente a escravatura no país. Foi apenas há 1 século e meio (151 anos) que a escravatura foi aí ilegalizada. Novas formas permanecem e mesmo essa escravatura que desonra o passado de portugueses, que dela fizeram negócio de África para a América, existe ainda em vários locais do globo, mantendo seres humanos como animais domésticos. Que raio de mundo!

1905 – A separação da Igreja e do Estado foi aprovada pelo senado francês em resposta às críticas do Papa Pio X. Este avanço civilizacional, que as próprias religiões defendem (quando minoritárias) e condenam com o argumento de que não se pode tratar de forma igual o que é diferente (quando maioritárias), corre o risco de ser posto em causa depois de 111 anos de excelentes provas dadas. As próximas eleições francesas realizam-se sob o medo, prevendo-se um duelo entre a pior direita e a extrema-direita.

1978 - A Espanha aprovou a constituição que estabeleceu a monarquia constitucional e o parlamentarismo como forma de governo. A ditadura terminou, mas a herança e a vontade do ditador prevaleceram. A monarquia não foi escrutinada porque as sondagens lhe eram desfavoráveis. Passou de contrabando com a Constituição que punha termo à ditadura. Aliás, se os espanhóis preferissem a monarquia ela passaria a ilegal quando as novas gerações tivessem de a aceitar como facto consumado e definitivo. Não se aceita que as monarquias tenham de acabar de forma musculada.

Sempre foi assim, o respeitinho é muito bonito...

Há na herança salazarista algo de genético que assalta os mais improváveis cidadãos e os torna cúmplices da limitação à liberdade de expressão. A defesa das tradições pode não ser mais do que a tentativa de perpetuação de hábitos ancestrais que urge erradicar.

O alegado respeito pelas tradições é a atitude reacionária de quem teme o progresso. A pena de morte, o esclavagismo, a discriminação de género, a homofobia e muitas outras aberrações inscrevem-se nessa incapacidade de aceitar a evolução civilizacional.

Expressões como «entre marido e mulher não metas a colher» ou «o respeitinho é muito bonito», por exemplo, servem apenas para manter a impunidade da violência doméstica e a subserviência, respetivamente.

Não me imponham respeito pela xenofobia, racismo, excisão do clitóris, decapitação ou lapidação, por maior prazer que dê a um deus que se rebole de gozo com tais práticas.

Se não puder usar outros meios, terei sempre o sarcasmo para demolir os apóstolos da fé que condenam a ciência.
Se quero ser respeitado devo respeitar os outros? Ninguém garante que me respeitem ou que acertem no que me ofende. E se me ofenderem, que mal vem daí? Por que motivo hei de respeitar a crença de quem crê que o Padre Eterno fez o mundo em seis dias e descansou ao sétimo, ou outros que divirjam de mim, têm obrigação de me respeitar?

Há quem se ofenda com a música, a pintura, a carne de porco, o álcool ou o tornozelo desnudo de uma mulher e quem creia que a água vulgar, depois de sinais cabalísticos, passa a benta. Devo calar a surpresa ou suspender o riso para não os ofender?

As crenças são para combater e os crentes para tentar compreender. Só a violência é inaceitável.

segunda-feira, dezembro 05, 2016

ITÁLIA: o sepulcral silêncio prenunciador de tempestade…

Com a Itália à beira do colapso financeiro a Comissão Europeia assobia para o lado. Neste momento o BCE fala em resgates de bancos mas os burocratas aproveitam a oportunidade para reafirmarem os princípios europeus e a solidez da União link.

O rés-do-chão do edifício europeu ameaça ruina. Mas os mestre-de-obras atestam que as paredes do 1º. 2º, 3º, … até ao 27º. estão sólidas e recomendam-se!

Faz lembrar aquela do carioca desiludido com o Rio de Janeiro que olha para o aeroporto do Galeão e implora: o último que apague a luz!

Adenda: nos bastidores movem-se palhaços que riem da insensatez que semearam (já) às escuras. Ao longe os grilhos cantam...

191 – Memórias de um soldado em Angola (Ed. Verso da História)

Este fim de semana li o livro em epígrafe, amável oferta do autor, Onofre Varela, o ‘soldado condutor autorrodas 191’ [condutor, para quem ignore a qualificação militar] na guerra colonial em Angola, desde dezembro de 1965 a fevereiro de 1968.

Escrito sem azedume por quem lavou latrinas, serviu à mesa, foi agredido pelo sargento Ginja, e começou a tropa com vários dias de prisão e saiu louvado, um misto de ‘O bom soldado Shweik’, sem a negrura do seu humor, e do pacifista Mahatma Gandhi, sem ter libertado a pátria, conta de forma perspicaz o que na literatura de guerra era omisso.

Deve ter voltado no barco em que, logo a seguir, segui a caminho de Moçambique para a mesma guerra inútil, depois de ter percorrido os mesmos quartéis antes do embarque.

Onofre Varela, cartunista, escritor e jornalista, teve a arte de contar o que todos viram e só ele se lembrou de contar. E conta-o como se não tivesse sido vítima, como se o crime de ser português merecesse tão dura pena, com a mesma elegância com que respondia à agressão do sargento Ginja com um desenho e a cada humilhação como novo desenho.

É a excelente narrativa de um homem generoso, capaz de contar como quem conversa e de trazer a público factos que mais parecem de quem foi incumbido de fazer a ata e não de quem os viveu na base de uma irrefutável pirâmide hierárquica na mais negra história da vida da nossa geração.

É um excelente catártico, divertido na pungência das situações vividas, capaz de evitar os suicídios que ainda acontecem a quem viu morrer camaradas do lado errado e matar guerrilheiros do lado certo, certo de que vale a pena viver esta vida única e irrepetível.

Permito-me recomendar 286 páginas de um testemunho pessoal onde cada combatente encontra um retalho da sua odisseia do filme cujo guião foi escrito pelas circunstâncias.

Usos e costumes


Outros deuses, outros costumes.

domingo, dezembro 04, 2016

XX Congresso do PCP e as ilusões da Direita..


O último congresso do PCP é mais uma derrota para a Direita. Na suas catilinárias contra o atual Governo, a Direita ressabiada e catastrofista, sempre suspirou que a ‘posição conjunta’ assinada pelo PCP, BE e PEV com o PS para permitir a formação de um governo alternativo capaz do travar o assalto neoliberal, viesse a causar problemas no interior da formação partidária comunista.

A procissão ainda vai no adro mas todos os indícios apontam no sentido de que a militância comunista compreende e apoia a decisão da sua direção que resolveu tudo fazer para não dar mais hipóteses à Direita de Governar.

Repetidamente, foi afirmado no XX Congresso que este Governo, e mais especificamente, os dois Orçamentos aprovados, não são de Esquerda.
O que ficou por dizer e não é menos importante é que os orçamentos aprovados são substancialmente opostos aos que a Direita pretendia.
Não foi dito deste modo mas, quer dentro do Congresso, quer cá fora, toda a gente percebeu.

Aos que têm uma formação ideológica mais consolidada percebem que o PCP, não renegando as suas bases leninistas, as intervenções produzidas no Congresso podem rever-se num famoso livro “Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás”.
O livro trata, como todos nos recordamos, da resposta de Lenine a Rosa Luxemburgo sobre um debate surgido na II Internacional sobre a organização da social-democracia.

O XX Congresso do PCP respondeu (acentuando) às ansiedades da Direita, esclareceu a diferenças identitárias e ideológicas entre comunistas e sociais-democratas mas acima de tudo mostrou que um novo tipo de ‘compromisso histórico’ (muito diferente na conceção, circunstâncias e alcance do firmado por Enrico Berlinguer) tem muita mais estabilidade do que as tropeliais da Direita sonhavam e andaram por aí a divulgar aos incautos.
Se existe uma lição a tirar é que o XX congresso do PCP ratificou amplamente a estratégia seguida nas ‘posições conjuntas’ que expulsaram a Direita do poder e, mais significativo, em vez de a contestar, consolidaram a liderança.

Resumindo: Más notícias para a Direita.

Efeito Trump?

A Áustria pode tornar-se hoje o primeiro país europeu a eleger um chefe de Estado da extrema-direita desde a II Guerra Mundial.

Norbert Hofer, 45 anos, derrotado por apenas 30.863 votos (0,6 por cento) na segunda volta das presidenciais, a 22 de maio, será o provável vencedor.

Apostila - Felizmente, enganei-me. Sinto algum alívio. (17H00)

sábado, dezembro 03, 2016

CGD – a listagem que falta...

Não me parece curial voltar à CGD. Acabado este episódio que encerra com a nomeação de uma nova administração é tempo de os políticos deixarem os atuais responsáveis arrumar a casa.
Mas existem situações que incomodam e enfurecem os pacatos cidadãos. Tive muitas dúvidas se deveria voltar a este assunto. Mas viver corroído pela indignação mói e tira sentido à vida.
 
Prejuízos da ordem do 3 mil milhões de euros de crédito mal parado link, são insuportáveis. Quase um vigésimo da ajuda externa que o País foi forçado, pelos mercados financeiros, a solicitar como empréstimo para o tal ‘reajustamento’ (que afinal nem acabou, nem teve uma ‘saída limpa’).
De pouco vale chorar sobre o leite derramado. Todavia, a CGD, enquanto banco público, deve publicitar para todos – Bancos, instituições de crédito, seguradoras, empresas e cidadãos – a listagem dos prevaricadores (sejam singulares ou colectivos) com os valores dos seus compromissos não satisfeitos.
E, eventualmente, esses incumpridores sancionados com medidas similares aos promotores de conto do vigário, isto é, inibição de uso de cheques, de cartões de crédito e débito, etc. um rol que o Banco de Portugal tem em carteira para aplicar ao ‘peixe miúdo’.
 
Este é um processo administrativo, de regulação que não sendo, neste momento, prioritário é indispensável para repor a dignidade e credibilidade dos sistema bancário (e não só da CGD) que não me parece atentatório ao sigilo bancário.
Na realidade os devedores da CGD não contraíram um empréstimo qualquer. Tratou-se de um empréstimo público. Porque razão a existência dessas lista só diz respeito à Segurança Social ou à Autoridade Tributária?
 
Prioritário é recapitalizar a CGD para a manter como um banco público forte. Mas também é (simultaneamente) necessário não deixar que um bando de raposas à solta continue a rondar o galinheiro (reabilitado e reabastecido).

General João Lourenço, o ‘novo’ delfim…


 
A situação em Angola tornou-se subitamente complexa. Ontem, ao ser indigitado um ‘sucessor’ para José Eduardo dos Santos levantam-se um conjunto de questões difíceis de abordar.
O ‘inner cricle’ da presidência de Angola é muito fechado, complexo e jogam-se aí muitas relações de força. Não é fácil a Eduardo dos Santos por termo a uma liderança de 37 anos em que se criaram tantas cumplicidades, dependências e negociatas sem causar atritos e ‘invejas’.
Em África as fidelidades (de toda a ordem) mais do que se cultivarem, compram-se. Os únicos elos fortes são os familiares e os tribais. Esse é um problema acoplado à sucessão já que será difícil descortinar a quantidades de imunidades que o actual presidente deve acumular quando readquirir a condição de cidadão. E bem maior enigma será saber até onde essas imunidades poderão contemplar a sua família e até o ‘inner cricle’.

O indigitado presidente (não é suposto o MPLA alterar a vontade do Presidente), o general João Lourenço, poderá ser sempre considerado uma solução de transição. Até porque a ‘sucessão’ não se processará nas melhores condições, nomeadamente, no campo económico e financeiro.
Trata-se de um militante que foi congelado durante vários anos na prateleira da mesa da Assembleia Nacional, em certa fase da vida dedicou-se à indústria cervejeira e perante as intrigas tecidas à volta de Manuel Vicente foi ganhando espaço e força política.
Pertence ao restrito grupo de generais que esvoaçam à volta de Eduardo dos Santos, sob o olhar vigilante de Kopelipa, com quem manteve um conflito sobre o fornecimento logístico das Forças Armadas Angolanas.

A primeira ideia que ressalta é que não há uma renovação nas cúpulas do regime. Os antigos combatentes, muito especialmente os generais do séquito de José Eduardo dos Santos, (a guarda pretoriana) poderão abandonar a ribalta política mas pretendem conservar-se nos bastidores.
O futuro de Angola não passa por estes equilíbrios instáveis que o desaparecimento físico do actual presidente pode ser o rastilho de uma profunda convulsão político-militar. Não é fácil delinear uma nova geração dirigente, preparada no aspecto económico, financeiro e político, liberta das imensas cascatas de negócios que inundam Luanda.
Em lume brando, ou em incubação, está a evolução política do regime angolano desde Agostinho Neto a Eduardo dos Santos. Se Neto se inseria no movimento anticolonial apoiado pela ex-URSS e que dentro de um paradigma africano se proclamava socialistas, o actual regime é difícil de definir para além do e chavões como ‘cleptocracia’ é um regime controlado por uma clique de políticos e ex-combatentes, de fachada pública social-democrata mas que se dedicam a gerir duas identidades coexistentes: o luxo e o lixo. Enquanto o sistema tolerar.
Na verdade, a bomba-relógio que ameaça  Angola é uma economia débil, extremamente subsidiária do petróleo (cujo preço não controla), assente num país riquíssimo sem qualquer mecanismo transparente e justo de distribuição da riqueza. Tantas contradições dentro do mesmo saco só podem acabar mal.

sexta-feira, dezembro 02, 2016

Passos Coelho e… o anunciado fim!

A afirmação categórica de Santana Lopes de que não será candidato à Câmara de Lisboa link coloca o PSD, liderado por Passos Coelho, entre a espada e a parede.
 
Até aqui Passos agarrou-se às questões europeias e foi deixando o tempo correr sonhando com a ‘natural’ implosão das ‘posições conjuntas’, assumidas por toda a Esquerda, e que um dia, ou outro, apareceria o ‘diabo’ que o recolocaria na ‘crista da onda’ da política interna.
 
O ‘diabo’ tem sido um ente para além de mítico, imaterial, fantasioso e que se apresenta com aspecto muito multifacetado: primeiro, foi a impossibilidade de cumprir o deficit; depois, foi a não convergência entre a Esquerda para elaboração e aprovação dos Orçamentos de Estado; passando de seguida, por um modelo macroeconómico incapaz de provocar crescimento (um mito que começa a ‘esboroar-se’) pela desvalorização da ‘paz social’ como factor de desenvolvimento; e, finalmente, o tal mafarrico parece inclinado a virar-se para o problema da dívida a reboque de uma situação internacional instável, subsidiária de ‘onda populista’ tendo o seu epicentro nos EUA.
 
No presente, o PSD aposta na detioração do rating da República que nos afastasse do financiamento externo. Nesse sentido, tudo fez para perturbar o processo de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos (um dos sues calcanhares de Aquiles em política europeia) o que em parte conseguiu, por inépcia governamental.
Tendo chegado ao fim do desastrado epílogo do 1º. acto da recapitalização da CGD, no sentido da sua manutenção como um banco exclusivamente público, o que pode esperar é que, a partir de agora, esse processo seja acelerado já que não é tolerável que a Esquerda repita os mesmo erros e, porque, esse ajuste do sistema financeiro é um dos vectores essenciais para estimular e apoiar o crescimento económico.
 
Finalmente, ontem, o homem que julgava que o tempo iria jogar a seu favor encontra-se confrontado com um imenso vazio na política interna.
A preparação pelo PSD para as eleições municipais está irremediavelmente atrasada e a recusa de Santana Lopes introduz um novo e importante factor de perturbação. É por assim dizer o 'haraquíri político' de Passos Coelho.
Para além da deserção dos ‘cabeças de cartaz’ (evidente sinal da desacreditação da actual liderança) são previsíveis enormes dificuldades – um pouco por todo o lado – já que poucos serão os que disporão a sujeitar-se a candidatar-se sem saber se qual o aparelho partidário que lhe estará por detrás.
Corremos o risco de termos uma ‘chuva de independentes’ (resultantes de desavenças internas) … o que seria mais uma abundante e trágica perversão do sistema político-partidário português.

O 1.º de Dezembro e a identidade nacional

A História é aquilo que os factos documentam, e não vale a pena distorcê-los. Portugal poderia ser a região de um país ibérico cuja capital seria Lisboa, Barcelona ou Madrid. Mas não é.

Filipe II (I de Portugal), era neto de D. Manuel I, o que lhe valeu o reconhecimento de direitos dinásticos nas cortes de Tomar, em 1581. Foi um dos melhores reis de Portugal, como o foi do seu vasto império. Era culto, humanista e falava português, língua em que se correspondia com as suas filhas. Mas a História é o que é.

Em 1640 os Quarenta Conjurados ou Quarenta Aclamadores, por estarem envolvidos 40 brasões, depois do golpe de Estado bem-sucedido, restauraram a independência do reino que entregaram à família de Bragança, menos recomendável do que a filipina. Mas foi o que sucedeu.

Após 1640, a identidade de Portugal forjou-se na Guerra da Restauração entre os reinos de Portugal e Espanha, com exceção da Catalunha, até ao Tratado de Lisboa, em 1668, e a aversão anti-castelhana ficou viva e foi excitada, inclusive pela ditadura fascista.

Sendo a História o que é, o 1.º de Dezembro foi o dia da Restauração da Independência de Portugal, uma data identitária como o 5 de Outubro e o 25 de Abril. Não foi por acaso que uma das primeiras decisões da República Portuguesa, em 1910, foi passá-lo a feriado nacional como medida popular e patriótica.

As escolas de Boliqueime e Massamá, por ignorância ou insensibilidade, desprezaram uma data marcante da identidade de Portugal, mas não podia um governo republicano e democrático, presidido por António Costa, deixar de reparar a ignara ofensa.

quinta-feira, dezembro 01, 2016

La Palisse, Hollande et la Danse…

Monsieur La Palisse, com certeza, não vai apresentar-se a eleições. É, como sabemos, uma figura mítica do século XV, morta, enterrada e alguma vezes citada, cuja existência sobrevive através de textos picarescos de contexto militar.
É-lhe atribuída a celebre frase” se não estivesse vivo, estaria morto!” E como sabemos as eleições são para serem disputadas por cidadãos ‘vivos’.

Monsieur François Hollande também não vai link. Há muitos aspetos sobrepostos. O primeiro está morto fisicamente e o segundo politicamente. Ambos estando na condição de mortos não disputam eleições.
 
Mas existe um outro facto relevante. Com a sua incompetência, a sua incapacidade política e a ausência de firmeza na defesa de um programa socialista Hollande para além da sua morte política provocou o suicídio colectivo da Esquerda Francesa.
Diz o povo: Homem pequenino ou velhaco ou dançarino. Desconhecem-se os dotes de um ‘Hollande danseur’…

Assim vai a laicidade


O convite para a missinha pode não dignificar a Universidade de Coimbra e o seu Magnífico Reitor, mas contribui para a salvação da alma à custa do atropelo à laicidade.

Notas Soltas – novembro/2016

Brasil – Após o golpe constitucional que destituiu Dilma, Temer destrói o estado social herdado de Lula, Marcelo Crivella, bispo da IURD, torna-se prefeito do Rio de Janeiro, e o País fica refém de grupos económicos aliados a Igrejas evangélicas.

FBI – A insólita atitude do diretor, James Comey, de reabrir a investigação aos emails de Hillary Clinton, a poucos dias das eleições, foi a aliança do FBI, Putin e J. Assange (fundador do wikileaks) com Trump, sendo irrelevante o posterior recuo. 

Espanha – A ETA desempenhou um papel importante na luta contra a ditadura, mas foi incapaz de se adaptar à democracia e usar as tréguas para depor as armas. A captura do último líder, em França, é mais um golpe a abreviar o seu sombrio ocaso.

Síria – A destruição do país está consumada sem que o Daesh, com ou sem Estado, seja erradicado. A fuga do seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, de Mossul, foi um insucesso das poderosas forças que o combatem.

Aquecimento global – Os últimos cinco anos foram os mais quentes de que há registo e 2016 ameaça superar todos os anteriores. O acordo de Paris, com dúvidas quanto ao seu cumprimento, é essencial para se continuar a respirar no futuro, tórrido e sufocante.

EUA – Perante o júbilo dos protestantes evangélicos americanos, de Putin e de Marine Le Pen, o mundo verá partir Obama com saudade e prepara-se para digerir a chegada de Donald Trump, o novo Comandante Chefe das Forças Armadas da maior potência.

Bulgária – Aliada dos nazis na guerra de 1939/45, esteve sob o domínio da URSS até à sua implosão. Integra a Nato (2004) e a UE (2007). Rumen Radev, venceu as eleições apoiado pelos ex-comunistas e defende a integração da Crimeia na Rússia.

UE – A vitória populista, xenófoba, racista e misógina, nos EUA, instabiliza a Europa. À crise financeira, imigração e Brexit, junta-se a deriva ditatorial e expansionista turca e a debilidade da defesa militar. As contradições internas ameaçam desintegrá-la.
 
Donald Trump – Durante a campanha eleitoral, muitos se assustaram com o que dizia, sem acreditarem que fosse o que parecia. Agora, estão alarmados porque, de facto, é o que parecia.

Miguel Veiga – Morreu aos 80 anos um dos fundadores do PSD e um antifascista.  Foi incómodo para Cavaco, Barroso e Passos Coelho, e ameaçado de expulsão. Democrata de longa data, foi coerente com o espírito do partido que ajudou a fundar.

Colômbia – O novo acordo de paz firmado entre o Governo colombiano e a guerrilha das FARC, em Havana, é uma nova oportunidade à paz, que o referendo perturbou. A paz é mais difícil do que a guerra, e vale sempre a pena procurá-la.

Turquia – O golpe de Estado falhado parece a armadilha de que o autocrata se serviu para, através de sucessivas purgas, estabelecer um poder despótico, abolir a laicidade e promover o expansionismo turco à custa dos curdos e da Síria, a caminho do califado.

Alemanha – A senhora Merkel, a única grande estadista dos maiores países europeus, anunciou a candidatura a um novo mandato quando a extrema-direita reaparece no seu país e irrompe em apoteose dos dois lados do Atlântico. É sombrio o futuro europeu.

França – François Fillon foi o surpreendente e mais imprevisível vencedor das eleições primárias do centro-direita na corrida ao Eliseu. As sondagens já não são o que eram!

Salazar – Que o sobrinho-neto reclame, em tribunal, o espólio do ditador, não perturba o País, mas os herdeiros ideológicos que insistem na defesa da sua memória infamante, são um perigo ameaçador.

 Hillary Clinton – Obteve mais dois milhões de votos do que o futuro presidente, mas o sistema eleitoral dos EUA deu a vitória a Trump, com sérias suspeitas de ter havido um ciberataque nos estados de Wisconsin, Michigan e Pensilvânia destinado a prejudicá-la.

António Guterres – O futuro S-G da ONU proferiu, na Gulbenkian, um discurso com uma frase aterradora: “Nunca vi barões do tráfico de pessoas serem detidos, mas já vi barões do tráfico de droga serem-no”. O tráfico de pessoas e órgãos existe! E arrepia.

CGD – Após a enorme vitória diplomática para recapitalizar o único banco público, há quem, por radicalismo ideológico, se tenha obstinado a destabilizar o banco do Estado. Ignoram que a desregulação financeira provocou o caos que sufoca o País e o mundo.

XXI Governo Constitucional – Iniciou o segundo ano com a aprovação do OE-2017 e o apoio do BE, PCP e PEV. O PS e os outros partidos de esquerda, que convergiram na solução patriótica, estão de parabéns pela inédita solução arquitetada por António Costa.

François Fillon – A vitória na segunda volta das primárias da direita francesa garantiu praticamente o duelo presidencial entre o candidato mais à direita da direita democrática e a extrema-direita, numa luta política de onde a esquerda ficará pelo caminho.

Turquia – Recep Erdoğan, Irmão Muçulmano considerado democrata pela UE e EUA, depois de destruir a laicidade e os direitos humanos, tornou-se um pesadelo da Europa, um risco para a NATO e o terror dos curdos, com ambições expansionistas.


Afeganistão – Paradigma do fracasso do combate ao terrorismo, à medida que as tropas ocidentais vão retirando, quinze anos depois, os talibãs recuperam as posições perdidas e impõem o regresso à sociedade tribal e patriarcal que o islamismo preconiza.

Ponte Europa / Sorumbático