José Sócrates -- Clara Ferreira Alves
"MEMÓRIAS
PARA QUE A MEMÓRIA NÃO SE APAGUE.
A HISTÓRIA UNIVERSAL DA INFÂMIA
por Clara Ferreira Alves
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Entre os portugueses e a luxúria do poder, Passos Coelho
escolheu o poder. Fica registado.
«Este Governo, o de Pedro Passos Coelho, nasceu de uma
infâmia. No livro "Resgatados", de David Dinis e Hugo Coelho,
insuspeitos de simpatias por José Sócrates, conta-se o que aconteceu. O então
primeiro-ministro chamou Pedro Passos Coelho a São Bento para o pôr a par do
PEC4, o programa que evitava a intervenção da troika em Portugal e que tinha
sido aprovado na Comissão Europeia e no Conselho Europeu, com o apoio da
Alemanha e do BCE, que queriam evitar um novo resgate, depois dos resgates da
Grécia e da Irlanda.
Como conta Sócrates na entrevista que hoje se publica,
Barroso sabia o quanto este programa tinha custado a negociar e concordava com
a sua aplicação, preferível à sujeição aos ditames da troika, uma clara perda
de soberania que a Espanha de Zapatero e depois de Rajoy evitou.
Pedro Passos Coelho foi a São Bento e concordou. O resto,
como se diz, é história. E não é contada por José Sócrates que um dia a contará
toda. No livro conta-se que uma personagem chamada Marco António Costa,
porta-voz das ambições do PSD, entalou Passos Coelho entre a espada e a parede.
Ou havia eleições no país ou havia eleições no PSD. Pedro Passos Coelho
escolheu mentir ao país, dizendo que não sabia do PEC4. Cavaco acompanhou. E
José Sócrates demitiu-se, motivo de festa na aldeia.
Detenho-me nesta mentira porque, quando as águas se acalmam
no fundo poço, é o momento de nos vermos ao espelho. Pedro Passos Coelho podia
ter agido como um chefe político responsável e ter recusado a chantagem do seu
partido. Podia ter respondido ao diligente Marco António que o país era mais
importante do que o partido e que um resgate seria um passo perigoso para os
portugueses. Não o fez. Fraquejou.
Um Governo que começa com uma mentira e uma fraqueza em cima
de uma chantagem não acaba bem. Houve eleições, esse momento de vindicação do
pequeno espaço político que resta aos cidadãos, e o PSD ganhou, proclamando a
sua pureza ideológica e os benefícios da anunciada purga de Portugal. Os
cidadãos zangados com o despesismo de José Sócrates e do PS, embarcaram nesta
variação saloia do mito sebástico. O homem providencial. Os danos e o
sofrimento que esta estupidez tem provocado a Portugal são impossíveis de calcular.
Consumada a infâmia, a campanha contra José Sócrates continuou dentro de
momentos. Todos os dias aparecia uma noticiazinha que espalhava pingos de lama,
ou o Freeport, ou a Face Oculta, ou a TVI, ou todas as grandes infâmias de que
Sócrates era acusado. Ao ponto do então chefe do Bloco de Esquerda, Francisco
Louçã, que se tinha aliado ao PCP e ao PSD para deitar o Governo abaixo e
provocar a demissão e eleições (no cálculo eleitoralista misturado com a
doutrina esquerdista que ignorava a realidade e as contas de Portugal), me ter
dito numa entrevista que considerava "miserável" a "campanha
pessoal" da direita contra Sócrates. Palavras dele.
Aqui chegados, convém recordar o que o Governo de Passos
Coelho tem dito e feito. Recordar as prepotências de Miguel Relvas, os
despedimentos, os SMS, os conluios entre a Maçonaria e os serviços secretos, os
relatórios encomendados, os escândalos, a ameaça da venda do canal público ao
regime angolano, e, por fim, o suave milagre de um inexistente diploma. Convém
recordar as mentiras sobre o sistema fiscal, os cortes orçamentais, a adiada e
nunca apresentada reforma do Estado, as privatizações apressadas e investigadas
pelo MP, os negócios e nomeações, a venda do BPN, as demissões (a de Gaspar, a
"irrevogável" de Portas), as mentiras de Maria Luís, os swaps e, por
último, cúmulo das dezenas de trapalhadas, o espetáculo da "Razão de
Estado" vista pela miopia de Rui Machete. Convém recordar que na semana da
demissão de José Sócrates os juros do nosso financiamento externo passaram de
7% para 14%. E os bancos avisaram-no de que não aguentavam. Sócrates sentou-se
e assinou o memorando.
Que o atual primeiro-ministro não hesitasse, mais uma vez,
em invocar um segundo resgate para ganhar as eleições autárquicas que perdeu,
diz tudo sobre a falta de escrúpulos deste Governo, a que se soma a sua
indigência, a sua incompetência, o seu amadorismo. A intransigência. Este é o
problema, não a austeridade.
José Sócrates foi estudar. Escreveu uma tese, agora em
livro, que o honra porque tem um ponto de vista bem argumentado, politicamente
corajoso vindo de um ex-primeiro-ministro. E vê-se que sabe o que diz. Podem
continuar a odiá-lo, criticá-lo, chamar-lhe nomes. Não alinho nas simpatias ou
antipatias pela personagem, com a qual falei raras vezes. O que não podem é
culpá-lo de uma infâmia que levou o país ao colapso político, financeiro,
cívico e moral.
Entre os portugueses e a luxúria do poder, Passos Coelho
escolheu o poder. Fica registado.»
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