As religiões, os crentes e as guerras
As religiões, os crentes e as guerras
As guerras têm causas para lá das religiões, mas estas são
catalisadoras de divergências e potenciadoras do ódio. Ninguém é capaz de
tamanho sofrimento e de tão entusiástica vontade de extermínio dos inimigos sem
o combustível da fé.
Não importa saber se as religiões são instrumentalizadas por
políticos ou estes por elas, assistimos a guerras com componente religiosa em
que se invocam deuses, a pedir-lhes que dirijam balas, para que acertem no
alvo, ou que ajudem a enviar os adversários para o diabo, com cerimónias
litúrgicas e rezas idiotas.
A Europa esqueceu a Guerra dos Trinta Anos, a Paz de
Vestefália está longe, e desiste da laicidade, de impor o respeito pelo seu
ethos civilizacional, permitindo o crescimento da extrema-direita, hábil a
explorar ódios e ressentimentos e a ressuscitar um nacionalismo cristão contra
um alegado comunitarismo identitário concorrente, ambos inaceitáveis.
Há quem não aceite que Deus é uma criação humana, a muleta
para as nossas fraquezas, a explicação por defeito para respostas ignoramos, no
fundo, a necessidade de quem se habituou à dependência incutida desde o
nascimento e preservada por coação social.
A perversidade das crenças provém da perversão dos homens
que as inventaram e que lhes transmitiram a marca genética dos seus
preconceitos e superstições.
O humanismo foi construído quase sempre contra as religiões,
contra os deuses sedentos de sacrifícios, sofrimento e conservadorismo,
defeitos que têm profissionais zelosos ao serviço da sua divulgação.
Ninguém se permitiria condenar à morte quem nega uma lei da
física ou um axioma, mas há clérigos que exigem a eliminação física dos
apóstatas ou hereges, estes meros crentes divergentes na interpretação das
alegadas mensagens de seu deus imaginário.
A História ensinou-nos a relativizar as ideias na sua
permanente evolução, quase sempre influenciadas pelo avanço das ciências e a
apoteose de novas descobertas, mas as ideias religiosas resistem até ao
absurdo, com polícias dedicados, sempre prontos a castigas os réprobos e a
aplicar a jurisprudência da Idade do Bronze.
A paz não pode ser conseguida com verdades absolutas e
imutáveis. Assim, os Estados modernos devem tratar as religiões como quaisquer
outras associações em que a plena liberdade de formação não as exime ao Código
Penal e os seus atos ao escrutínio da lei.
Não percebo por que motivo uma religião possa ter normas
jurídicas próprias no Estado de direito, ter conventos de cuja inspeção o
Estado se demita, para avaliar se as pessoas estão ali de livre vontade ou se
se trata de cárcere privado e ainda conseguir furtar-se aos impostos sobre os
bens e ao escrutínio sobre a forma da sua aquisição.
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