O 10 de Junho do nosso descontentamento
O 10 de Junho do nosso descontentamento O 10 de Junho é um cadáver que se exuma anualmente nas soturnas comemorações oficiais e o desfile de gatos-pingados. Os EUA exaltam o 4 de julho, data da declaração da Independência, e fazem desse dia a festa nacional. Que melhor razão para celebrar o dia do que o nascimento do país, que promulgou uma constituição avançada, onde declara o direito à felicidade? A França fez da tomada da Bastilha, em 14 de julho, o símbolo da liberdade, a festa da Revolução que aboliu as velhas monarquias de direito divino e deu origem às modernas democracias governadas por cidadãos que o voto popular escrutina. O Estado português escolheu, não a independência, não a glória das descobertas, não a liberdade, mas o óbito de um poeta, singular e grande, é certo, nem sequer o nascimento cuja data e local se ignora. Os EUA e a França festejam a liberdade e o povo exulta; Portugal evoca a morte e os portugueses deprimem-se. O dia 10 de junho era, na ditadura, o...