O primeiro 1.º de Maio (1974)

O primeiro 1.º de Maio (1974)

Foi a primeira vez que a liberdade desceu à rua nesse dia, o primeiro feriado que nem o atual Governo, pusilânime e vingativo, teve coragem de extinguir.

Nesse dia, em Lisboa, um milhão de pessoas, talvez mais, não se sabe de onde vieram, foram tantas, algumas transportadas pela massa compacta que não lhes deixava espaço para pisar o chão, dirigiram-se ao estádio que logo tomou do dia o nome. O feriado do 1.º de Maio nasceu ali, tardio, exuberante, no rescaldo da ditadura fascista, com abril fresco de cravos e maio florido de sonhos.

Nesse dia não ousaram escancarar as portas da provocação os ressentidos, não estiveram lá, certamente, Cavaco, Marcelo ou Ricardo Salgado. Era um ambiente assético, feito de emoção e fraternidade, onde cabia o sonho por entre cravos que floriam nas lapelas e discursos de sindicalistas a que se seguiram Francisco Pereira de Moura, Nuno Teotónio Pereira, Mário Soares e Álvaro Cunhal.

De onde vinha a força que nos impulsionava enquanto se ouvia “O povo unido jamais será vencido!”?

Não me recordo de ter saído do Estádio 1.º de Maio, entre beijos, abraços, com lágrimas do sonho de abril, repetido em maio. Devo ter saído, saí, tenho a certeza, o dia findou decerto, mas o momento, único, irrepetível, não mais saiu de mim, gravado na memória com o fogo da saudade.

Há um ano, enquanto os trabalhadores desfilavam na rua, Montenegro comemorou o 25 de Abril, cuja celebração impediu na AR, com o pretexto pífio da morte do Papa, com o 1.º de Maio, ambos sob o pseudónimo de “São Bento em Família”.

Foi a mais descarada e ignominiosa tentativa de desvalorizar as datas emblemáticas da liberdade e das lutas dos trabalhadores.

Hoje, os trabalhadores dirão NÃO ao pacote Montenegro / Palma Ramalho e mostrarão que estão atentos à subversão dos seus direitos.

Viva o 1.º de Maio!



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