O Ministério Público (MP) e a Operação Imergente (OI)
O Ministério Público (MP) e a Operação Imergente (OI)
Combater a corrupção no seio do Estado, nomeadamente nas
autarquias, é obrigatório e necessário. O que pode contestar-se, perante
coincidências suspeitas, é a mediatização, a razoabilidade dos meios, a
reincidência sem resultados e o enviesamento dos alvos.
O MP, ferido por ativismo político e falta de discernimento,
com violações sistemáticas do segredo de Justiça e dos direitos dos
investigados, viu crescer as suspeitas quando o PM foi buscar à reforma, para
PGR, um magistrado do próprio MP cuja politização e corporativismo são
preocupantes. A insólita decisão, imposta ao PR e afrontando os que se
preocupavam com os desmandos do MP e pretendiam uma personalidade com outra origem,
tomada por um PM que recebia avenças, causou as maiores apreensões.
Bastava o facto de ter sido diretor do DCIAP quando da
prisão de Sócrates para evitar a nomeação. As suspeições agravaram-se com a posterior
nomeação do juiz de instrução, Carlos Alexandre, autor da prisão televisionada,
para um cargo no Ministério da Saúde.
Umas vezes com fundamento, outras por pura imprudência,
sempre com enorme aparato mediático, o espetáculo à volta das suspeitas tem alimentado
a extrema-direita. Isto diz mais da Justiça do que da honorabilidade dos autarcas.
E a Operação Imergente levanta as maiores perplexidades! São demasiados os
interesses e as coincidências:
A vindicta ao juiz Ivo Rosa, digna da Pide, a tentativa de
abafar o atentado ao Estado de Direito e a torpeza com o juiz-vítima deixa a
democracia ferida e o MP desacreditado.
O PGR que defende que os jornalistas não têm legitimidade para
consultar averiguações à Spinumviva prestava declarações na AR e a queixava-se
de falta de meios quando 400 inspetores da PJ e 7 magistrados do MP invadiam a
sede do PS e autarquias por suspeita de corrupção cuja dimensão não justificava
tamanho ruido e tantos recursos exibidos.
O PM, acossado por Passos Coelho que, em linguagem digna de
almocreve, lhe chamou “prostituto político, vendido ao populismo, onde fica
pior a cópia que o original”, viu no assalto à sede do PS “a democracia a
funcionar” e escondeu-se do linchamento político e de carácter do seu
antecessor e antigo líder.
A OI é a repetição do assalto às sedes do PSD de Lisboa e
Porto, em julho de 2023, mas então era Rui Rio o líder, talvez por isso, e aconteceu
no dia 28 de maio, centenário do fatídico golpe militar, coincidindo com a
pressão judicial sobre o PSOE, em Madrid, um dos últimos governos europeus de
esquerda.
A ruidosa operação policial comandada pelo MP com o Governo
sob pressão, o PM sob ataque de Passos Coelho, as contas públicas a entrarem no
vermelho, o SNS em colapso e as sondagens a darem vantagem ao PS, a OI veio
numa excelente altura para o PSD.
Pode o PGR dizer “Podem ficar descansados que nunca tive
timings políticos”, mas não se esqueceu a oportuna e criativa investigação
preventiva que inventou para o PM em período eleitoral, com que reduziu a pressão
sobre ele, e outra a Pedro Nuno dos Santos sobre um assunto arquivado que,
nesse caso, criou uma suspeição simétrica.
Tal como os nossos amigos espanhóis, “no creo en brujas pero que las hay las hay…”

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