O medo…
O medo…
Quando o
medo nos tolhe, porque é incerto o futuro, precário o emprego e desmedida a insegurança,
a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro,
arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos tomar pelo medo
e acabamos em pânico.
Vão maus
os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos
anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo
que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda
ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.
As guerras
que outrora eram castigos de um Deus vingativo, sinal de que bruxas, judeus e
hereges ofendiam o deus de Abraão, servem agora para nos distrair da governação,
e o medo para nos remetermos ao silêncio.
O medo é a
arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos
primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos.
Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo dos governantes,
acabamos como vegetais, sem luz para a fotossíntese, e mortos. De medo e de
vergonha.
No início de
1974 vivíamos ainda o medo, imposto pelo partido único. Hoje, ofendidos e conformados,
vivemos entre os que defendem verdades únicas, os que buscam voltar ao passado
e os que sonham utopias.
Refocilam
na gamela do orçamento os filhos daqueles que nos reprimiam, denunciavam e
prendiam, dos que iam em bandos agradecer a Salazar a defesa das colónias e a
morte de jovens soldados, dos que conviviam com a ditadura e ovacionavam os
seus próceres.
Há neste trágico
retorno, nesta conformação malsã, na melancólica resignação, a abulia de quem
desiste por descrença, falta de memória e medo da vindicta de que são capazes
os restauracionistas.
É preciso
acreditar no poeta: «Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há
sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não». (Manuel Alegre, in
Praça da Canção).
É preciso
resistir.
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