O aventureiro que afinal não era
Por Onofre Varela
Na minha carreira de cartunista e desenhador de humor, houve tempo em que, anualmente, me encontrava com colegas portugueses, espanhóis e latino-americanos, incluindo Cuba, num evento que ocorre em Alcalá de Henares (Madrid) terra natal de Miguel de Cervantes, entre Setembro e Novembro.
Aí tive oportunidade de conviver com Quino (argentino criador da Mafalda), Mordillo (também argentino e com obra distribuída para todo o mundo por uma editora alemã), Mena (espanhol autor da tira de humor “Cândido” que o Jornal de Notícias publicou durante muitos anos), Forges (que abandonou a sua carreira de realizador de televisão na TVE para se dedicar ao desenho de humor que publicava em vários jornais e revistas, destacando-se o jornal El País e a revista El Jueves).
Os participantes são convidados pela Fundação da Universidade de Alcalá – entidade organizadora do evento e promotora de um Museu do Desenho de Humor de Expressão Ibérica – e o encontro de desenhadores tem início no mês de Setembro ou Outubro Os convidados vão chegando a conta-gotas a Alcalá e são alojados num hotel. Os caricaturistas encontram-se no átrio do hotel e na rua, e fazem-se as apresentações daqueles que são novos no evento, aos outros conhecidos em anos anteriores.
As velhas ruas do casco histórico da cidade, o jardim Cervantes e os bares, enchem-se de caricaturistas e humoristas em alegres e interessantes conversas. As mesas dos bares ficam repletas de copos das cañas bebidas, e as toalhas de papel exibem desenhos de vários traços bem conhecidos pelos leitores de revistas de humor e atentos aos cartunes dos jornais. A maioria dos cartunistas tem o seu primeiro encontro colectivo à mesa de jantar num restaurante típico (habitualmente o El Rucinante) onde se completa a apresentação apressada feita na rua ou no átrio do hotel.
Num desses primeiros jantares, em Novembro de 1997, sentei-me em frente de uma moça estreante. Era a Nani (Adriana Mosquera), colombiana, autora de uma série de humor e sátira com a sua personagem Magola, que representa uma mulher magra e escanzelada, sem mamas, feia, com pêlos nas pernas… mas possuidora de um cérebro a que dá uso: pensa!… Ofereceu-me um desenho feito ali mesmo, num pedaço de toalha de papel, representando a sua heroína Magola, dizendo: As mulheres que querem ser como os homens, não têm ambição!…
Apresentei-lhe os colegas que estavam naquela mesa comprida, cuja maioria eu conhecia de encontros anteriores, e falei um pouco da obra de cada um. Perto de nós estava o Kim, desenhador da revista El Jueves, editada em Barcelona, cuja biografia eu tinha lido no catálogo da exposição do ano anterior.
Kim é norte-americano. Um dia arranjou emprego num navio de mercadorias e correu o mundo. Quando aportou em Barcelona apaixonou-se pela cidade e não voltou ao mar. Abandonou o trabalho, a família e a América. Como desenhava, foi vivendo dos bonecos que fazia em bares, até se empregar, como ilustrador, na revista de humor El Jueves.
A Nani ficou encantada com o romântico da história e quis saber mais. Chamei a atenção do Kim para lhe apresentar a nova colega e pedi-lhe que complementasse a sua biografia. Ele arregalou os olhos e riu. Era tudo mentira!…
O Kim nasceu, cresceu e sempre viveu em Barcelona! Aquela biografia foi inventada pelo Fer (outro desenhador de humor e director da revista El Jueves), enviou-a para o director do evento que a tomou por verdadeira e publicou. O director (Juan Garcia Cerrada), também estava na mesa, participou naquela conversa e confessou que depois daquele desastre biográfico, sempre que recebe uma biografia por correio, telefona ao próprio para confirmar a sua veracidade!…
Desenho da Nani feito na toalha da mesa do restaurante. A referência a "Gala", na sua dedicatória, alude à mulher de Salvador Dali por, na época, eu usar um bigode Daliliano.

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