VIVA OS NOSSOS MORTOS
Por Onofre Varela
Estar vivo é o melhor dos prémios que podemos receber: vivo, com saúde e vontade de viver. Quando os meus amigos me perguntam: “Estás bom?”, invariavelmente respondo: “Acordei vivo, com vontade de mijar e acertei no penico. Que mais posso desejar?”.
(Na minha idade, acertar no penico já merece o Palhaço de Ouro, que é o Óscar da arte circense!)
A alegria de viver é o elemento mais importante da nossa vida. Estou a lembrar-me da “história do rei triste” – aprendida na infância – cujo rei, macambúzio e infeliz, só conseguiria a felicidade se vestisse a camisa de um homem verdadeiramente feliz. Os guardas da corte percorreram todo o reino à procura de tal homem, mas só encontravam quem se dizia infeliz. Apenas um lenhador, semi-nu, disse ser feliz! Mas não pôde socorrer o rei, porque… não tinha camisa.
Na sociedade que construímos fazemos do consumo inútil a nossa felicidade (queremos ter muitas camisas). É um tipo de “felicidade” que não passa de engano permanente prendendo-nos até à cova. Só a morte nos liberta de conceito tão egoísta… mas então já não temos tempo de usufruirmos da plenitude da vida. Quando aprendemos a lição já a vida se finda e não há volta atrás no tempo para emendarmos comportamentos enganosos.
Mas até na morte a nossa incongruência continua a ser praticada… não pelo próprio, que “deixou de ser”… já não é!… Mas por quem cá fica alimentando o mesmo estilo de vida que sempre consumiu quem morreu. Consumismo que faz a “vida moderna” e se repete anualmente no primeiro dia de Novembro, o chamado “dia dos defuntos”, que é a salvação económica do negócio das flores com preço inflacionado, dando corpo ao lema da economia-sacana “da oferta e da procura”.
Saindo da Europa e saltando o Atlântico (que o outro chalupa, ícone do consumo, da exploração e do mau comportamento, queria baptizar de “Oceano Trump”) aterramos no Brasil e no México, onde a “tragédia da morte” é cantada com música e alegria ao ritmo de samba e “cu-cu-ru-cu-cu”.
No México a morte tem espaço para ser encarada naturalmente, sem o ferrete de “fim doloroso”. Nesta quadra vivida há quatro dias, recordando os nossos familiares mortos com visitas a cemitérios e assistência de rituais religiosos (para os crentes), no México celebrou-se o “dia dos mortos” não com manifestações de luto sombrio e doloroso, mas com festa brilhante e colorida, dando a boa-vinda aos espíritos “dos entes queridos que regressam do além para visitar as famílias”.
As casas são decoradas com esqueletos e impregnadas de cheiros agradáveis. Para os mexicanos o esqueleto não é aquela imagem tétrica e medonha da nossa cultura (quando eu era menino da instrução primária passei noites horríveis depois de em Ciências ter aprendido que dentro de mim havia um esqueleto… que eu levava para a cama!…). Os mexicanos fazem guloseimas em forma de caveira e decorações com esqueletos nas mais variadas situações. Os esqueletos cantam, dançam e riem, transmitindo mensagens de vida e não de morte. O respeito pelos mortos não tem de ser cumprido com dor e tristeza.
Há mais de mil anos os povos Aztecas e Toltecas comemoravam a festa dos mortos. Chorar os mortos era um acto desrespeitoso. Os mortos continuavam a ser considerados membros da comunidade e a merecerem todas as honras.
Nesta dualidade de ritos pré-hispânicos e festividade cristã, brasileiros e mexicanos fazem do “dia dos mortos” uma época festiva. Bem podemos aproveitar esse sentimento de festividade para sermos positivos e bem dispostos, levantarmos uma taça de vinho em honra aos nossos falecidos, e gritarmos: Viva os nossos mortos!…
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